Roleta Russa
23 Capítulo 23
Regina estava em seu quarto, repassando todas as reuniões do dia. Uma das mãos segurando o celular, acessando as diversas anotações em sua agenda, os incontáveis marcadores coloridos que indicavam inúmeras funções e memorandos. Fechou o aplicativo, passando para as notícias e seus olhos registraram um brilho fugaz.
Emma fora vista em uma loja de vestidos de noiva. Sorriu. Não deveria tirar conclusões precipitadas, porém isso não poderia significar muita coisa, certo? Talvez eles tivessem se entendido. Talvez eles tivessem conversado e ela poderia sentir-se menos culpada pela bagunça que ajudara a causar. Jefferson eventualmente a desculparia e tudo ficaria bem.
Como Robin havia lhe dito que ficaria.
Suspirou pensando no dono dos olhos azuis, e caminhou até o closet, pegando o telefone sem fio e imaginando uma ótima desculpa para ouvir a voz dele logo cedo. Mas ao ligar o aparelho, a linha estava ocupada. Teve segundos para decidir se desligava o mesmo; porém deslizou para seu instinto materno ao ouvir a voz de Roxanne.
“Eu sei, eu tenho olhos, você sabe?”
“Dizem que ele fica com alunas.” Disse a outra voz, e Regina não conseguia identificar exatamente quem era.
“Eu não acho que o Senhor Locksley faça essas coisas.”
Sr. Locksley. Novamente.
“Bem, você fica trancada com ele toda semana. Se fosse verdade...” insinuou a garota, rindo maliciosamente e Regina segurou o lábio inferior entre seus dentes. Ela sequer deveria estar ouvindo essa conversa; muito menos sentindo-se furiosa pelo conteúdo.
“Nós não ficamos trancados, Yara.” Roxy riu. “É como uma consulta médica. Ele nunca me faltou com respeito. Nem flertou, ou qualquer outra coisa. Acredite, eu saberia. Ele é um baita homem.”
“Talvez ele fique com universitárias. Dizem que ele já foi visto aos beijos com uma aluna de Yale.”
“Quem disse? Tyler? Porque você sabe... Ele é um mentiroso. Ele confirma qualquer boato para ter minutos de fama e aclamação.”
“Por que você não joga um charme para ele, Hatter? Quem sabe ele não te dá bola...”
Regina suspirou. Ela precisava urgentemente ter uma conversa com esse terapeuta. Roxanne riu, parecendo muito tranquila.
“Pare de ser tarada. Ele é meu psicólogo e eu considero ele um amigo.”
“Você não assiste pornô? Tem muitos que começam assim e”
“Você é nojenta.”
A risada da outra adolescente preencheu a chamada. Regina fechou os olhos, descansando a cabeça contra o braço que apoiara na parede. Engoliu em seco, fazendo esforço para desligar-se da chamada sem chamar atenção. Ao menos sua filha não demonstrara nenhuma intenção ou situação, mas ainda assim, ela achava o homem atraente.
Caminhou até sua bolsa, certificando-se de que tudo estava no lugar. Voltou-se para o espelho, deixando que seus olhos se familiarizassem com seu reflexo. Pensativa, pegou a bolsa e seguiu caminho pelo corredor. “O trem está saindo, crianças.” Avisou em bom tom, e Roxanne saiu do quarto rapidamente, os cabelos soltos e um dos fones de ouvido plugados na orelha. “Onde está seu irmão?”
“Ele foi mais cedo.” Respondeu ela, passando pela mãe rapidamente e seguindo caminho na direção das escadas.
Ela estava vendo Henry com menos frequência nos últimos dias. Anotou mentalmente que deveria conversar com ele quando chegasse em casa. Ela o apoiava em qualquer empreitada, qualquer projeto de estudo, mas bem, saúde vinha em primeiro lugar. Odiaria ter que usar o tempo em família como acompanhante de leito para um adolescente pós colapso nervoso. Olhou para o relógio em seu pulso, e apressou o passo. Não podia se atrasar.
***
Ambição era uma coisa natural para ele. Como achar errado algo que tem sido transcrito em sua vida desde o nascimento? Para ele, nada mais era do que uma característica natural. Respirou fundo, olhando em seu reflexo. Traços firmes e másculos de uma beleza natural, quase nobre. Os cabelos loiros começavam a se destacar novamente, as sobrancelhas grossas enfatizando seu olhar intenso, o maxilar marcado e firme, lábios grossos.
Fitou o boletim colado na vidraça e seus olhos viajaram para os únicos números que flutuavam entre os outros, se destacando.
9,5
Nem se lembrava da última vez que um boletim seu não viera impecavelmente decorado com a coleção de dezenas premiadas. As coisas eram como eram desde que ele era apenas uma criancinha e nunca mudaram. Seus pais o colocaram no mundo para ser um campeão. Um Ohill premiado. Ele tivera mais tutores particulares em toda sua vida do que tomara sorvetes na infância, e bem, o resultado era mais do que esperado. Melhor aluno em sala, melhor atleta em quadra, capitão, presidente da fraternidade estudantil. Sua mãe ficaria furiosa, mas ele não estava preocupado com isso.
Roxanne Mills Hatter. Era essa sua obsessão. Não entrava em sua cabeça o fato de que ele simplesmente não tinha chances com ela. Independente da desaprovação da sua mãe – o problema era que Roxanne simplesmente não tinha interesse. Eles podiam ter tudo – todo dia saíam novos artigos comentando sobre o sucesso da nova assistente de Valerie Deville; algumas revistas chegavam até a aponta-la como futura editora sênior da aclamada revista FAME. Eles tinham potencial para ser o casal perfeito; dois prodígios conquistando tudo e todos, construindo um império indestrutível. Ele era Tyler Ohill, o herdeiro de ouro de uma das corporações mais lucrativas de todo o país. Mas ela preferia o imbecil do Scarlet. Quem em sã consciência faria uma troca dessas? Quem preferiria o esquisito de sobrenome comprometido, um ninguém sem nada?
Deu uma última olhada no espelho e pegou o papel, caminhando para fora do seu banheiro. Vestia uma camiseta branca que marcava o dorso definido e jeans; desceu as escadas, caminhando na direção da sala de jantar. A mesa redonda de marfim estava muito recheada, pratos e mais pratos, taças e copos, diferentes bandejas com mais frutas do que eles possivelmente comeriam em um mês. Um banquete que, honestamente, era desnecessário. Sua mãe comia tão pouco quando um pequeno pássaro, seu pai resumia o desjejum à uma xícara de café escuro que as vezes esfriava na xícara de tanto que ele demorava a tomá-lo. Sua mãe estava encarando-o com interesse, seu pai – como sempre – tinha sua atenção focada no jornal, e ronronava respostas para ela. “Olá querido. O que vamos comer hoje?”
“Proteína, como sempre.” Resmungou ele, puxando uma das cadeiras e estendendo a ela o boletim. As unhas pintadas de verde esmeralda apanharam o papel e ele percebeu a imediata mudança assim que os olhos azuis registraram o número que se diferenciava.
“O que é isso?”
Ele ergueu os olhos, afastando sua atenção do prato repleto de iscas de carne e ovos mexidos por alguns segundos. Resolveu provocá-la, encarando os olhos azuis e raivosos com um sorriso irônico. “Se parece com o meu boletim, mãe.”
“Eu sei disso, Tyler. Não brinque comigo, garoto. Tem um nove aqui.”
Hades riu, e ela franziu o cenho, encarando o marido antes de voltar sua atenção para o filho. Arqueou uma das sobrancelhas, batendo as unhas na mesa e esperando uma explicação.
“A professora de história me disse que me dar mais um dez perpetuaria essa ideia de que eu sou melhor que tudo e que todos, e que eu preciso aprender mais sobre humildade. Ela disse que minha ambição é desregrada.”
“Não acredito que essa velha teve a ousadia. Você não vai dizer nada, Gregory?”
Gregory abaixou o jornal, os olhos sérios e compenetrados. Encarou-a por alguns segundos e depois focou a atenção em seu filho. “Deixe-me ver isso.” Pediu, pegando o papel e estudando-o por alguns segundos. “Pelo que vi aqui, essa senhora foi a única a não lhe dar a nota máxima.”
“Sim.”
“Bem, Zelena, ele precisa se acostumar.” Rebateu seu pai, colocando o papel sobre a mesa, e voltando a bebericar seu café. “As pessoas têm um conceito equivocado sobre ambição. Elas acham que pessoas como nós, como eu, nós, como Tyler, somos errados por corrermos atrás dos nossos objetivos a todo custo. Acham perigoso, inescrupuloso, acham arrogante. Se esse é o único problema dele no boletim, que seja. Continue grande, Tyler.” Ele voltou a abrir o jornal. “Se as reclamações que vierem da escola são de que você sonha grande demais, que você se sente superior aos outros, ou que você é ambicioso demais, pode deixar, eu assino todas elas. Sorrindo.”
“Não quer dizer que você deve relaxar.” Rebateu sua mãe, e Tyler segurou-se para não revirar os olhos. O que mais ela queria que ele fizesse? Ele conseguia conciliar uma rotina de estudos massacrante, treinos, eventos sociais, e ainda tinha tempo livre para passar com eles. Voltou a comer, permitindo que sua mente vagueasse para Roxy novamente.
***
Seu mundo todo estava de ponta cabeça. As coisas que ele havia lhe contado eram tão – intensas, para não dizer simplesmente aterrorizantes. Cada palavra estava tatuada sobre a sua mente, e mesmo que ela quisesse esquecê-las, não conseguia. Não conseguia esquecer a preocupação de Ana com ele, certificando-se de que Roxy não fosse partir o coração de seu menino. E talvez por essa mesma razão, aquela fosse a hora de se afastar.
Desceu do carro, sem despedir-se de sua mãe e subiu as escadas de acesso ao colégio. Ajustou as alças da mochila, e continuou caminhando, a mente divagando sobre tudo o que lhe acontecera nas ultimas vinte e quatro horas. Sentia-se mal por ser uma filha da mãe sortuda. Por ter nascido em um berço dourado, por ter pais que lhe deram tudo desde o começo, que lhe ofertaram tudo que seu coração desejou, e que na maioria das vezes, receberam respostas regadas de ingratidão em retorno. Ela tinha sido uma verdadeira pirralha para sua mãe.
Passou para o prédio esquerdo, certificando-se de que tinha tempo até sua primeira aula começar. Olhou para ver se Henry estava sentado próximo à fonte, mas não o encontrou. Ele não estava em casa quando saíram, e ela não quis dizer à mãe que desconfiava que ele sequer tinha dormido em casa; sua mãe ficaria louca.
Desceu as escadas, passando pela área lateral dos ginásios, e estava distraída quando uma voz feminina a chamou. Parou, sentindo-se perdida. Melanie Nolan veio em sua direção com um sorriso nos lábios, e Roxy não teve escolha a não ser abraça-la de volta. “Como está?” Perguntou a loira, os olhos cintilantes indicando que ela estava realmente feliz em vê-la.
“Estou bem, Mel e você?”
“Também.” A loira sorriu, encarando-a. Parecia prestes a dizer algo, mas relutava, como se incerta se deveria proferir as palavras ou não. “Foi muito bom ter você lá ontem à noite. Apareça mais vezes, quando quiser. Aposto que Ana ficará feliz.”
“Como ela está hoje?”
“Eu dei uma passada, nada muito demorado. Mas ela estava bem. Estava lendo um romance erótico, e eu nem me atrevi a perguntar qual.” riu a garota e Roxy sentiu seu coração se aquecer instantaneamente. “Eu preciso ir, Roxy. Mas eu falei sério, passe por lá. Ana gosta de visitas.”
“Eu irei.” Garantiu a morena, observando a garota se afastar. Sorriu, pensando o quanto as coisas podiam mudar em questões de horas. Melanie havia lhe causado tanto estresse nos dias passados, tantas inseguranças, e de repente, bem, ela gostava dela. Havia descoberto que ela era não somente linda por fora quanto por dentro, alguém que definitivamente ia muito além das aparências.
Estava observando-a desaparecer quando seus olhos cruzaram com os olhos dele, e ela percebeu que ele deu meia volta, vindo na sua direção. Ah não. Apertou o passo, continuando seu caminho como se não tivesse o visto. Mas Leo era muito mais rápido. Em pouco tempo ele havia a ultrapassado, e parou na sua frente, impedindo-a de continuar.
“Por que está fugindo de mim?”
“Eu pedi um tempo.”
“E eu entendi isso, mas não achei que você começaria a me evitar.”
Ela finalmente encarou os olhos azuis. “Você poderia me dar licença? Eu ainda tenho que passar na biblioteca antes de ir para minhas aulas.”
“Roxy, por que está fazendo isso comigo? Foi algo que minha mãe disse? Foi...”
“Ana foi muito gentil. Garanto que se ela disse algo foi para proteger você, Leo.”
“Então ela disse alguma coisa.”
“Pare de culpar sua mãe pelas minhas decisões. Eu quero que você me deixe em paz.”
“Eu não posso fazer isso.”
“Por que não?”
“Porque não.”
Roxy mordeu o lábio inferior levemente. “Saia da frente, Scarlet.”
Ele deslizou as mãos pelos cabelos. “Só se você concordar em tomar um café comigo depois. Eu não quero voltar à estaca zero. Nós somos amigos, não somos?”
“Você acha que o quê, Leo? Você me contou a sua história de vida que é toda fodida e que eu ia me ajoelhar aos seus pés e pedir desculpas por ser quem eu sou e te pedir em namoro?”
Ele pareceu atingido pelas palavras dela. Suas sobrancelhas se arquearam, indicando sua surpresa, e ele deu um passo para trás. “Eu jamais usei isso para...”
“Eu não terminei.” Ela encarou-o, mergulhado em sua própria irritação. “Eu sinto muito por tudo o que você passou. Mesmo. De verdade. Eu sinto muito que qualquer pessoa tenha uma vida tão fodida. Mas isso não quer dizer que eu mudei minha opinião. Isso não quer dizer que eu quero ser sua namorada. Isso não quer dizer que de repente eu vou ser super boazinha com você, Leo. Eu quero que você me deixe em paz. Você me viu em um momento de vulnerabilidade que não vai mais ocorrer. Me deixa em paz.”
“Meu Deus, qual é o seu problema, garota?” Resmungou ele, encarando-a como se estivesse ferido.
“Você é meu problema.”
“Então eu vou ser sua solução, agora. Adeus Mills.”
Roxanne observou boquiaberta quando ele passou por ela, sem olhar para trás e caminhou apressadamente na direção do prédio de história. Engolindo seu próprio orgulho, ela continuou seu caminho, fingindo desconhecer o arrependimento que começava a brotar em suas entranhas.
***
“É verdade que você pegou a Tifany?”
Tyler ergueu a cabeça e sorriu para Cole. “Talvez seja. Eu estava bem louco.”
“Você voltou com as paradas?”
“Às vezes. Minha mãe tem feito jogo duro.” Rebateu ele, dando a volta em August e girando o corpo, esticando os braços e jogando a bola de basquete elegantemente centralizada para dentro da cesta.
Era sempre a mesma coisa durante o primeiro intervalo. Os alunos estudiosos demais, ou os em maiores dificuldades pegavam as primeiras aulas – geralmente oficinas de reforço e testes dadas gratuitamente por professores de boa vontade ou que precisavam cumprir cargas horárias. A maioria dos alunos só chegava durante o primeiro intervalo, e os atletas chegavam mais cedo, utilizando esse primeiro horário para treinos. Mas era diferente quando Tyler Ohill estava em quadra. Os arredores da área esportiva costumavam dobrar de volume, as bordas das quadras esportivas recheadas de calouras e os novatos que por alguma razão eram hipnotizados pelo fenômeno do atleta estrela.
“Mas você sabe, cara, ela acha que está com você.” Riu Fred, passando a bola para Tyler.
“Como todas.” Riu ele, passando a bola de novo e fugindo do bloqueio de Cole. “Quando eu passar para a próxima ela desencana.”
“Ou não. Lembre-se da Veronica.”
“E da Kalinda.”
“Vocês estão anotando em um livrinho, porra?” Rebateu ele, irritado, cortando um passe e correndo até o garrafão, pulando e enterrando a cesta com raiva. Cole arqueou as sobrancelhas, rindo, erguendo as mãos.
“Calma, cara. Só estou dizendo que as menininhas têm dificuldade em desencanar de você.”
“Eu nem tenho cabeça para isso agora. Daqui duas semanas tem os jogos regionais e os olheiros estão agendados.”
“Como você sabe disso? Eles não vêm de surpresa?”
“Vêm, mas eu tenho contatos.” Rebateu ele, e jogou uma das bolas na mão de Cole. Foi quando algo chamou sua atenção. Aproximou-se do alambrado, encostando a testa no mesmo, e assistiu. Roxanne e Melanie Nolan conversando? Essa era nova.
“Ohill.” Chamou Cole, mas foi dispensado com um leve aceno. A atenção do loiro estava centrada na morena de cabelos compridos. A interação havia sido breve, mas o que viera a seguir fora ainda mais interessante. Scarlet e ela não estavam se entendendo, aparentemente. A linguagem corporal de Roxy gritava, suas defesas bem erguidas contra ele e Tyler não pode suprimir um sorriso. Algumas palavras depois, aparentemente a linguagem corporal de Leo também não pareceu mais tão amena.
Eles estavam brigando. Tyler sorriu, limpando o suor do rosto com a camiseta branca.
***
“Onde estão as joias?”
Regina refez a pergunta, encarando o homem à sua frente. Preso em flagrante dentro de uma joalheria que tivera um prejuízo de duzentos milhões. Portando nada, apenas uma lixa de unha. O homem deveria ter um pouco mais de trinta anos; cabelos ralos e escuros, uma barba malfeita, sobrancelhas grossas. Não parecia nervoso, muito menos preocupado.
“O senhor possui alguma má formação auditiva? Eu lhe fiz uma pergunta. Onde estão as joias? Quem estava lá com você? As joias saíram do local, e se não estão com você, na sua casa, no seu cofre, bem, você deve saber onde estão. Se abrir a boca, podemos conseguir um acordo bacana que não envolva você envelhecendo dentro de uma cela minúscula.”
Ele continuava encarando-a. Vez por outra olhava ao redor, como se os detalhes da sala dela fossem incrivelmente interessantes. Perguntou-se que tipo de motivação levava uma pessoa a um ponto de completa indiferença à lei e seu cumprimento.
“Onde estão as joias? Última chance.”
“Encontre você as malditas joias.” Rebateu o homem sorrindo, e ela apenas gesticulou, pedindo aos oficiais que o levassem. Dois policiais o levantaram com cuidado, guiando-o para fora.
“Ele não vai falar nada.” Comentou Graham, assim que o homem saiu de sua sala. Encarando-o de volta, ela respondeu.
“Eu sei, não temos nada. Circunstancial. Ele vai ser solto se pegar um bom advogado.”
“Alguma notícia de Ariel?”
Regina suspirou. “Nada. Estou preocupado, Graham. Eu espero que ela esteja ao menos viva.”
Duas batidas na porta a avisaram anunciaram Paola, uma das agentes de apoio. Ela tinha cabelos loiros nos ombros, e uma franjinha quase juvenil. Não combinava muito com uma delegacia, mas Regina tinha prioridades a cuidar além da aparência de sua equipe. Paola era muito eficiente em sua função e isso bastava. “Sim?”
“Desculpe interrompê-la, mas há um senhor na linha, Sr. Locksley. Ele afirma ser terapeuta do colégio dos seus filhos e insiste em marcar uma reunião com a senhora. Disse ser breve.”
Ela suspirou, lembrando-se de que estava precisando mesmo trocar algumas palavras com ele. Havia protelado essa reunião há tempos. “Marque para quarta-feira. O horário que ele decidir. Obrigada, Paola.” Regina virou-se para Graham. “Onde estávamos?”
“Precisamos definir os parâmetros da Operação Especial Natal Surpresa.”
Regina riu. “Quem é que dá esses nomes mesmo?”
“Julien. O rapaz que usa xadrez, segunda sala na ala leste.”
“Ele é engraçado.” Ela balançou a cabeça. “Rosie está trabalhando junto com a perícia. Teremos o material em alguns dias, o que nos leva a seleção da agente que fará a ponte. Peça para Paola providenciar as pastas. Vou até o arquivo buscar o resto das anotações e já volto.”
“Sim, senhora.” Rebateu ele.
“E Graham...” Pediu ela, antes que ele saísse. O homem parou na porta, os olhos atentos, a postura séria e alerta. “Peça a alguém para ir fazer a compra da tarde. Eu estou precisando de donuts e muito, muito café.”
Graham sorriu, balançando a cabeça e assentindo ao pedido que era bastante familiar.
***
Leo pegou o pacote com seu almoço e se dirigiu às escadas de incêndio. Havia conseguido finalmente convencido Robin a emprestar sua guitarra e tinha algum tempo para praticar. Pulou todos os lances que lhe foram possíveis, empurrando a porta para o terraço com entusiasmo antes de perceber que não estava sozinho.
Tyler Ohill esperava por ele. Sozinho, sem camisa, com um rosto de poucos amigos.
“Se suas roupas não servem você poderia pedir a sua mãe camisetas maiores.” Comentou ele, afastando-se na direção contrária, tentando achar algum lugar próximo à horta comunitária das aulas de vegetação e cultivo.
“Engraçado, Scarlet. Muito mesmo.” Rebateu o loiro, seguindo-o. Aproximou-se, os olhos analisando a guitarra religiosamente e Leo não podia negar que se sentiu ligeiramente intimidado pelo colega.
“O que você quer, Ohill?” Leo virou-se para ele, a respiração curta e suave. Sabia que havia uma razão para esse encontro. Primeiro, Tyler Ohill não frequentava lugares em que ninguém iria vê-lo. O terraço era um dos lugares mais desertos em toda a escola, e exatamente por esta razão, o local perfeito para treinar qualquer instrumento musical com discrição e sossego. Segundo, Tyler Ohill não aparecia em lugares aleatoriamente. Tudo tinha um motivo. Tudo era uma estratégia para continuar sendo o centro do universo, como um maldito sol.
“Estamos precisando ter uma conversinha há algum tempo.” Tyler sentou-se contra a parede, encostando-se no concreto e colocando a camiseta branca sobre as pernas, o branco do tecido em contraste com o azul do jeans. Ergueu o olhar, fitando-o. “Podemos?”
“Pode começar.” Respondeu Leo, sentando-se na mureta e puxando um dos lanches para fora do pacote, mordiscando-o.
“Veja bem, Scarlet. Você me conhece. Eu sou o ápice dessa escolinha. A fonte de publicidade e de dinheiro deles.” Tyler ignorou o olhar de deboche do moreno. “E você conhece Roxanne.” Ele sorriu ao perceber a leve mudança nos ombros do mesmo. “Roxanne é a estrela da escola. A garota problema com potencial. A temperamental absolutamente perfeita que esbanja luz e glamour por todos os lados. Todos querem ser como nós. Todos querem ser nossos amigos. Nós temos tudo para sermos o casal mais sensacional que essa cidade já viu.”
Leo continuou mastigando seu lanche, esboçando quase nada.
“Mas temos um problema. Você.” Tyler sorriu. “Você está no meu caminho. Eu quero Roxanne e ela tem essa ideia de que gosta de você, então eu quero que você saia do caminho e me deixe conquista-la.”
Leo riu, fazendo-o franzir o cenho.
“Eu contei alguma piada?”
Terminando de comer um dos lanches, Leo limpou a borda dos lábios com a costa da mão, antes de encarar os olhos azuis do garoto à sua frente. “Eu não estou no seu caminho. Se quer conquista-la, vá em frente.”
“Eu quero que pare de falar com ela. Pare de se encontrar ela. Esqueça que ela existe.”
“O que te faz pensar que comigo fora do caminho ela vai seguir como uma ovelha perdida para os seus braços? Você sequer pode ficar com ela. Sua mãe jamais aprovaria. Ela vê Roxanne como uma avaria, todos sabemos. Mal ela sabe que o problema da Roxy na verdade era seu.”
“Isso não é problema seu. Você sai do caminho, eu faço o resto.”
“Eu sinto muito, mas não vai acontecer. Nada que você diga vai me fazer desistir dela, cara. A menos que ela venha até mim e me diga para nunca mais lhe dirigir a palavra, bem, nada feito.”
Leo puxou a caixa de batatas fritas, enfiando algumas na boca antes de alcançar sua mochila, retirando o caderno onde rabiscara cifras. Pelo canto de olho podia notar que Tyler continuava imóvel, estudando-o. “Você não percebe que não tem futuro com ela, Scarlet? Se fosse para esse lance de vocês dar certo, já teria dado. Todo mundo vê o caminhão que você arrasta por ela, mas vocês brigam o tempo todo. Jamais vai dar certo.”
“Obrigado pela dica, amigão.” Respondeu Leo sem olhar para ele. “Se não se importar de ficar quieto, agora, tenho que praticar.”
Tyler riu, achando engraçado. Levantou-se e caminhou até ele. “Você não entendeu direito, Scarlet. Você vai me ajudar sim. Desculpe se isso pareceu um pedido, ou uma sugestão, mas não é. Você vai sair do caminho.”
“Vai me obrigar, mauricinho?”
“Na verdade...” Tyler arqueou as sobrancelhas, sorrindo diabolicamente. “Eu só queria lembrar a você como o mundo é pequeno. Você sabia que a empresa que faz o transporte de medicações para o governo pertence à corporação dos meus pais? A mesma que entrega os medicamentos da sua mamãe.” Leo virou-se para ele imediatamente. “Não seria uma pena se um carregamento desaparecesse? Ou demorasse o dobro do tempo para chegar?”
“Você não faria isso, Ohill.”
“Não faria? Não faria mesmo, Scarlet?”
O sorriso maldoso exibia agora os dentes brancos e perfeitamente alinhados. Leo respirou fundo, suprimindo o desejo de soca-los. “Tyler, isso é sério. Minha mãe precisa dos medicamentos. Você não pode prejudicar uma pessoa doente por causa de uma bobagem de escola.”
O rosto do loiro fechou-se e ele chegou ainda mais perto de Leo. “Então faça o que eu mandei. Daí tudo vai ocorrer perfeitamente. Mas se você ficar brincando com fogo, então sua mamãe vai...”
Leo empurrou-o, colocando-o contra a parede. “Não fale da minha mãe.”
“Ou o que?” Riu o loiro, encostado na parede sem se mover. “Vai me matar? Você é assim tão parecido com o seu papai, Scarlet? Quer ter o mesmo destino que ele?
“Seu filho da puta.” Resmungou Leo, e estava prestes a acertar um soco exatamente no centro da face dele quando Robin apareceu em seu campo de visão, separando-os. “O que está acontecendo aqui?”
“Ele ficou estressado, Sr. Locksley.” Desculpou-se Tyler, sorrindo para o colega. “Bem, eu preciso ir. Tenho avaliação física agora. Com licença, senhores.” Afastou, mas antes parou e olhou por cima do ombro. “Cinco dias, Scarlet. Não esqueça o prazo.”
Robin observou enquanto o jovem loiro caminhou até a porta de incêndio e desapareceu. Virou-se lentamente para seu afilhado, os olhos suavizando em preocupação. O que estava acontecendo com os garotos daquela escola? “Leo, o que está acontecendo?”
“Nada.” Resmungou ele, enfiando tudo na mochila com raiva. Pegou a guitarra e estendeu-a para o terapeuta novamente.
“Não diga isso. Alguma coisa estava acontecendo aqui. Você estava prestes a socá-lo.”
“Eu já disse que nada aconteceu. Qual é, Locksley? Vai me tratar como seus pacientes agora?”
“Leo, eu só estou tentando ajudar.”
“Então ajude parando de se meter na minha vida. Eu tenho trabalho a fazer na biblioteca.”
Robin observou-o enquanto ele pegava suas coisas e saiu apressado na direção das escadas também. Seu rosto estava vermelho, os olhos furiosos, a respiração descompassada. Algo estava acontecendo, mas ele não poderia ajudar sem saber o que era. Exasperado, sentou-se na mureta, pensando em como se sentia impotente.
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