Roleta Russa

22 Capítulo 22


Observando seu reflexo no vidro brilhante da porta do elevador, Valerie notou como a cor dos hematomas havia quase desaparecido por completo. O vestido justo era vermelho sangue e destacava sua pele como ninguém, mas ela achou que essa seria uma opção mais coerente do que branco. As portas se abriram e ela se deparou com apenas algumas pessoas no departamento de edição. Pessoas, que na opinião dela, nem deveriam estar ali. Ela havia chegado horas antes do começo do expediente. Que horas eles deveriam ter chegado ali?

De fato, ela valorizava o trabalho árduo, valorizava pessoas que transcendiam o básico e se destacavam da multidão. Mas ao mesmo, preocupava-se com a saúde, e não somente física de qualquer um de seus funcionários. A ideia de algum deles trabalhar tanto a ponto de gerar um colapso ou um estado de estafa era assustadora e inaceitável. Anotou mentalmente a necessidade de uma breve consulta aos Recursos Humanos.

Chegou à porta de vidro maciço da diretoria e respirou fundo. Sabia que Nicole havia saído antes do planejado e não entendia a repentina mudança da garota que fora seu braço direito por tanto tempo; imaginava que o lugar deveria estar um caos e também não poderia culpar Roxanne por isso. Ela estava apresentando resultados ótimos, mesmo que Valerie só estivesse checando-os à distância.

Empurrou a porta e entrou, o casaco branco dobrado esvoaçando em seu braço esquerdo. Olhou em volta, parecendo incrédula com a organização de sua recepção. Não parecia sequer o mesmo lugar. Alguns móveis haviam sido mudados de lugar, mas a percepção de iluminação e espaço havia melhorado muito; as pilhas de papéis não existiam mais, pastas etiquetas ocupavam as prateleiras, a arara de roupas estava impecavelmente posicionada à esquerda de sua porta, roupas elegantemente cobertas por suas capas plásticas. A mesa – que um dia fora a mesa de Nicole – jamais estivera tão bem organizada. “Wow.” Sussurrou ela, colocando sua bolsa e o casaco no suporte, e caminhando até a mesa de Roxanne. Puxou a cadeira, sentando-se, e olhou ao redor. Era como uma nova recepção, exceto que era basicamente a mesma de antes.

Abriu a primeira gaveta. Havia mais de uma agenda agora. Roxanne havia separado compromissos pessoais dos profissionais, e criado etiquetas com cores diferentes para diferenciar os assuntos. Sorrindo, ela encostou o corpo na cadeira e deu uma breve olhada ao redor, sentindo-se absurdamente satisfeita e orgulhosa. Obviamente essa transformação nunca havia passado por sua mente, mas ela não subestimava a inteligência de sua sobrinha. Levantou-se e decidiu descobrir o que Roxy havia aprontado com a sua sala.

Empurrou a segunda porta e dando um passo para a frente, parou para observar o quadro completo. A primeira observação que fizera é que ela deveria ter providenciado uma limpeza excepcional. O cheiro de lavanda adornava o ambiente branco. Ela não havia alterado quase nada ali, e Valerie respirou aliviada.

Duas batidas na porta lhe chamaram a atenção.

“Toc toc.”

“Rosie.” Sorriu ela, caminhando até a loira e abraçando-a apertado. “Como me encontrou aqui, e a essa hora?”

“Digamos que eu acordei uma Regina furiosa que brigou comigo antes de dizer que você já tinha voltado para casa e que disse que viria para cá logo pela manhã.”

“Você sabe como ela é quando interrompem o sono dela, dahling.”

As duas caminharam até o sofá de veludo verde musgo, e sentaram-se ali, descansando os corpos. “Eu adorei a mudança na recepção. Ficou muito mais arejado, e espaçoso. Quem você contratou?”

“Roxanne.” Riu.

“Como?”

“Eu não tenho nada a ver com isso, acredite. Cheguei aqui e encontrei tudo daquela forma. Ela tem realmente muito talento, e tem levado esse emprego muito à sério.”

Rosie sorriu, sentindo-se orgulhosa. “Ela se parece muito com a mãe.”

“Muito mesmo.” Rebateu sua amiga.

“Como você está se sentindo, Val?”

“Eu... C’est que eu precisava voltar para a minha vida. Giles me fez pensar nas minhas atitudes e ele achou que estava certo em fazer aquilo, achou que tinha direito de me punir por tê-lo traído.”

“Você sabe que isso é uma mentira, certo? Ninguém tem o direito de agredir ninguém.”

“Eu sei, baby girl. Mas me dói pensar que era uma pessoa que eu realmente amei, e que estava até mesmo pensando em retomar um relacionamento. Nós nos enganamos muito com as pessoas quando o coração está envolvido.” Suspirou a loira, e então colocou a mão sobre a mão de Rosie. “Mas sem histórias tristes, por favor. Me conte sobre o príncipe encantado. Como vocês estão indo? Algum casamento à vista?”

“Casamento? Valerie, claro que não.”

“Você não é divertida.”

Rosie dobrou as pernas, tirando os pés do salto alto e colocando-os no sofá. “Eu amo o Killian. É absurdo não assumir isso de uma vez quando ele me faz tão feliz, quando nós nos damos tão bem. Cada pequena coisinha que descubro sobre ele só me faz ter mais certeza que ele é a pessoa certa para mim.”

“Você é mesmo uma romântica...”

“Pare de me zoar.” Rebateu ela, rindo.

“É sério, achei que estavam extintos.”

“Estou falando sério. Killian é maravilhoso. Eu tenho muita sorte de tê-lo reencontrado e a vida ter trabalhado ao nosso favor.”

“O que nos leva à próxima pergunta... Quando é que o irmão dele vai tomar iniciativa?”

“Iniciativa do que?”

“Oras, Rosie Bell. Iniciativa de que? Regina, óbvio.”

Rosie franziu as sobrancelhas. “Mas até onde eu sei eles estão indo bem.”

Valerie arqueou as sobrancelhas. “Ah, acredite, eu sei disso. Não se esqueça que eu estava na casa dela todo esse tempo. Eu estava lá, vendo os sorrisinhos furtivos que ela dava a cada vez que seu celular vibrava, trocando mensagens com ele como uma adolescente apaixonada.”

“Você acha que ela está apaixonada?”

“Quem é que sabe? É de Regina que estamos falando, mon amour.”

“Mas não há o que fazer, Val. Eles precisam descobrir o caminho sozinhos.”

Valerie recostou a cabeça no sofá, suspirando. “Eu só quero que nossa garota seja feliz e esse cara definitivamente a faz muito feliz. Eu sou impaciente, eu preciso vê-los de casalzinho, preciso vê-los andando de mãos dadas e quero ver a cara de bobona da Regina apaixonada. Depois de tudo o que aconteceu, ela merece. Merece ser lembrada de que ela é uma mulher fenomenal e que é absurdamente fácil amá-la.”

“Eu sei.” Rosie suspirou, afagando a têmpora esquerda. “Você acha que ela irá ao casamento?”

“Eu não sei se haverá um casamento.”

Rosie arqueou as sobrancelhas. “O que eu perdi?”

“Bem, um jantar absurdamente catastrófico. Jefferson colocou Regina contra a parede por causa de Robin, e ela entrou na defensiva, rebatendo as acusações e jogando-as sobre ele e Emma.”

“Eu sabia que ele faria essa merda. A maneira com que ele olhou para Robin no hospital.... Não foi nem um pouco amigável.”

“Emma tentou se defender e Roxanne despejou um pouco mais da raiva dela sobre Emma, o que fez com que Henry saísse em sua defesa, eu saísse em defesa de Regina e bem, imagine o horror que foi. Então Emma terminou com ele, ali, bem na nossa frente e foi embora.”

Rosie colocou a mão sobre os lábios, momentaneamente chocada. “Ainda bem que eu não estava lá.”

“Oh, merci beacoup, amiga da onça.”

“Você vai voltar para sua casa definitivamente?”

Valerie suspirou. “Não para essa. Estou acertando os últimos detalhes para a venda. A última coisa que preciso na minha vida é um lembrete do que Giles fez.”

“Vai se mudar para qual?”

“Não sei. Acho que vou finalmente morar naquele apartamento no centro da cidade.”

Rosie riu. “Ele ainda existe? Achei que você tivesse vendido.”

“Às vezes eu pensava em dá-lo de presente para Roxanne, mas acho que Regina me mataria.”

“Acha? Ela te mataria mesmo, com certeza. Tirar as crias da leoa de dentro da toca é um péssimo negócio.”

As duas riram e Valerie ouviu o som da conversa na edição aumentar de volume. Os funcionários estavam começando a chegar. Rosie também ouviu, e percebendo que a atenção a amiga estava mudando de lugar, começou a levantar-se. “Val, eu preciso ir. Tenho uma reunião com a Bvlgari.”

“Hummmm, parece que um contrato promissor e milionário vêm aí.”

“Talvez.”

“Lembre-se da sua irmã aqui quando for dar o anúncio oficial. A FAME está precisando de exclusivas.”

“Você é muito chorona. A FAME é a revista mais popular em metade do país.”

“Alright, espertinha.” Valerie levantou-se e abraçou-a novamente, apertando com carinho. “Vamos marcar um jantar, s’il vouz plâit. Nós três. Estou com saudades de vocês.”

Rosie beijou-a na bochecha. “Sim. Vou mandar uma mensagem para a Sra. Muito Ocupada e nós marcamos. Se cuida, blondie.”

“Você também, tinkerbell.”

***


Roxanne e Henry estavam dormindo quando ela saiu de casa. Por alguma razão, não conseguira dormir muito durante a noite e resolveu que seria mais produtiva trabalhando. Sua calça azul clara ajustava-se como uma luva sobre as curvas de seu quadril, e a jaqueta de couro sintético com os emblemas da polícia lhe deixavam – como diria Roxy, descolada.

Repassou todas as coisas que precisava fazer durante o dia enquanto dirigia sua SUV para fora da garagem do prédio quando um rosto familiar lhe chamou a atenção. Robin. Sentado no meio fio, ele estava de moletom – uma vestimenta pouco familiar para ela, e segurava um buquê de flores. O que ele estava fazendo?

Seu rosto se iluminou quando ele a viu, e ela sorriu, encostando o carro para não interromper o trânsito. Pulou para fora do mesmo, e deu meia volta, caminhando até ele, que havia se levantado e a esperava pacientemente.

“O que faz aqui?”

“Eu sabia que você morava aqui, mas não sabia qual apartamento, e também não sabia se eu deveria aparecer em sua casa, então decidi esperar você aparecer.” Explicou ele.

“Você tinha tanta urgência em me ver?” Questionou ela.

“Eu senti sua falta, Regina.” Ela sorriu, encarando os olhos azuis e ele lhe estendeu as flores. “São para você.”

“Há quanto tempo está sentado aí?” Bem, deveria ser algum tempo. Ela tocou nas flores e elas estavam geladas.

“Isso não importa.” Sorriu ele. “Você tem tempo para tomar café da manhã comigo?”

Ela suspirou, e caminhou até ele, deslizando as mãos para os cabelos loiros e encostando os lábios nos lábios dele. Sem pressa, ela roçou-os, inebriando-se com a sensação de tê-lo tão perto, e lentamente pediu permissão, aprofundado o beijo gradativamente, um toque molhado e sutil, mas devotado. Assim que o beijo se desfez, ele segurou-a pelo rosto, a mão quente e macia que a fazia sentir-se um quadro sendo emoldurado. “Isso é um sim?” Sussurrou ele, sorrindo para ela e ela percebeu que os olhos dele pareciam ainda mais azuis de perto, mais limpos, mais apaixonantes.

“Sua moto está aqui?”

“Eu vim andando.”

“Seu apartamento não é tão perto assim, Robin.”

“Eu precisava pensar.”

Ela mordeu o lábio inferior, e ele deslizou o polegar, soltando-o. “Não faça isso, eu estou tentando não perder o controle e beijar você até ficarmos sem ar.”

A resposta a fez rir. “Vamos, galã. Entre no carro.”

Eles entraram na SUV, e Regina arrancou pela avenida. Robin pediu licença, tomando iniciativa em ajustar o som, passando pelas músicas salvas no dispositivo conectado. Tom Odell, basicamente.

“Não faça cara de surpreso.” Riu ela, percebendo o sorriso no rosto dele.

“Eu não disse nada.”

“Seu rosto é expressivo.”

“O seu também.” Regina suspirou quando sentiu a mão dele tocando a sua coxa, uma carícia sem malícia, os dedos deslizando próximo ao joelho. “Me desculpe se invadi seu espaço indo até as proximidades da sua casa, eu realmente não pensei direito. Eu estava com saudades.”

“Não tem problema, Robin; eu espero que em algum momento você se torne uma visita frequente nela.”

Ele a encarou, e ela virou-se para encará-lo, aproveitando que o sinal estava fechado. “Novamente, cowboy. Não faça cara de surpreso. Não é nenhuma novidade que eu quero ficar com você.”

“Sempre será uma novidade para mim.” Rebateu ele, fazendo-a enrubescer. O trânsito começou a andar e ela desviou os olhos, feliz pela oportunidade de fugir do acanhamento que a acometera.

Ele percebeu quando ela entrou à direita, subindo uma rampa e entrando no estacionamento de pedra. O restaurante parecia elegante, uma casa branca com vidraças largas e brilhantes, esquadrias de madeira decoradas com pequenos vasos de flores; arvores cercavam o entorno da construção, camuflando a luz do sol por dentro de pequenas frestas.

Desceram do carro, e ela entregou as chaves ao manobrista. Robin sentiu-a entrelaçar os dedos aos seus e permitiu que ela o guiasse. Ele havia se enganado. Não era exatamente um restaurante, mas um elegante café, muito parecido com os modelos exibidos em filmes franceses. Algumas pessoas a cumprimentavam pelo nome, e ele entendeu que era um local que ela tinha costume de frequentar, e de certa forma, isso aqueceu seu coração. Regina estava permitindo a ele que adentrasse sua vida de uma maneira íntima, conhecendo seus lugares especiais, sendo observado por pessoas de sua vida. “Tudo bem?” Questionou ela, talvez percebendo seu silêncio ou os devaneios que deveriam estar estampados em sua face.

“Tudo ótimo.”

Ela escolheu uma mesa na varanda e ele precisou decidir entre o dilema de sentar-se ao lado dela, ou à sua frente. Regina sentou-se primeiro, no canto, o local mais perto da vista do jardim, e observou em silêncio quando ele decidiu sentar-se do seu lado. “Escolha interessante.”

“Ficar frente a frente com você é de tirar o fôlego, mas eu teria que me debruçar sobre a mesa para beijar você.”

“E quem disse que eu vou deixar você me beijar?”

Ele entreabriu os lábios, mas pareceu pensar melhor em sua resposta. Dando-se por vencido, ficou em silêncio e ela riu, uma risada gostosa e adorável que fez com que ele derretesse ainda mais por ela. Regina puxou-o pelo moletom e o beijou entre sorrisos, verdadeiramente feliz por estar ali.

“Bonjour, Delegada. O que será hoje?”

Delegada. Robin olhou espantado para o garçom à sua frente e Regina parecia estar igualmente pasma. Ela havia se esquecido que Robin não sabia desse detalhe, e bem, ela era uma cliente mais do que leal do La Belle Journeé. “Hum...” Começou ela, limpando a garganta. “Eu vou querer o de sempre, Hugo.” Sorriu, e virou-se para Robin, que a encarou como quem queria fazer uma série de perguntas. “O que vai querer, Robin?”

“O mesmo que ela.” Pediu ele, e o garçom afastou-se em seguida, inocente à pequena bomba que soltara sobre eles.

Regina suspirou, observando o pequeno homem afastar-se. Não se virou para o lado, embora pudesse sentir os olhos azuis cravejados em sua pele. “Delegada?”

Ela virou-se para ele. “Bem, eu não fui cem por cento honesta sobre o meu trabalho.”

“Você achou que eu fosse me afastar de você por causa disso ou foi por questões de segurança ou você não confia em mim totalmente?”

Bem, isso ela não esperava.

Na verdade, ela imaginou que ele ficaria furioso ou que ele alegaria não existir sinceridade entre eles, ou que ele teria qualquer reação, menos essa. Ele parecia chateado. Não indignado, ou irritado, ele apenas parecia acreditar que ela não confiava nele, e o pensamento a fez grunhir por dentro. Quantas vezes mais ele provaria a ela que ela só havia conhecido exemplares errôneos até então e ele que era um homem muito mais maduro do que a maioria que ela tinha conhecido?

“Robin, olhe para mim.” Ele encarou-a, em silêncio. Ela entrelaçou os dedos ao redor dos dedos dele, e com a outra mão segurou o rosto másculo, sentindo os pequenos fios da barba causando uma sensação gostosa contra a palma de sua mão. “Eu confio em você. Muito. Eu não lhe contei sobre isso porque isso costuma afastar as pessoas. Você se lembra o que eu disse na primeira vez que conversamos, naquele pub. Basta dizer que sou uma policial e os homens fogem de mim como se tivessem visto o próprio diabo, e imagina o que aconteceria se eu dissesse que eu sou uma delegada? Me desculpe não ter esclarecido isso antes, foi algo natural que acabou acontecendo sozinho.”

“Você me atropelou e eu ainda assim fui atrás de você. Você acha mesmo que sua profissão iria me afastar?”

“Eu não sei, eu acho que me acostumei com as reações.”

Ele sorriu, puxando-a para si. Regina permitiu que ele deitasse a cabeça dela contra o seu tórax, sentindo-o acariciar seus cabelos e beijar o topo de suas madeixas. “Eu não tenho medo do seu trabalho, eu não me sinto ameaçado por sua posição de liderança, eu não vou impedir você, nem mesmo tentar estipular nada a você. Talvez as outras pessoas que estiveram na sua vida lhe deram essa sensação de que um relacionamento é um cabo de guerra, mas eu não acredito nisso. Eu quero apoiar no que você desejar realizar, só isso. Se você quiser ser a chefe do Exército, e isso for lhe fazer genuinamente feliz, eu estarei lá durante a sua nomeação, aplaudindo mais do que qualquer outro bastardo. É uma promessa.”

“Você não pode ser real, Robin. É bom demais para ser verdade.”

“Talvez você estivesse acostumada com muito menos do que realmente merecia e por isso eu pareça extraordinário, mas juro, eu sou cheio de defeitos.”

“Mentiroso.”

O som das xícaras fez com que eles se afastassem. “Bom dia, Delegada.” Cumprimentou a ruiva, sorrindo docemente enquanto colocava o pedido deles na mesa. Uma panqueca com pasta de amendoim e um fio de mel, um suco de laranja, um café expresso pequeno e uma pequena salada de morangos com kiwi. Robin observou em silêncio.

“Obrigada, Julia.”

“Você come isso todo dia?”

“Toda vez que venho tomar café aqui. Mas isso só acontece duas ou três vezes por semana. Às vezes eu chego em casa na hora do café da manhã.”

“É milhões de vezes mais nutritivo do que o meu café da manhã.”

“O que você come?”

“Cereais e leite. Principalmente aquele de chocolate que vem com cristais de açúcar.”

Ela sorriu. “É o preferido do meu filho.”

“Parece que vou me dar bem com ele.” Respondeu Robin, sorrindo e atacando a panqueca. Regina permaneceu com o olhar fixo nele, pensando o quanto ela realmente queria que aquela frase virasse realidade.

“Parece que sim.” Respondeu ela, sorrindo com a hipótese. Robin há muito tempo lhe fazia sentir a sensação de estar em casa, de ser um lar para ela, e ela estava ansiosa para tornar isso real.

“Como está seu pai?”

“Rabugento como sempre.” Robin bebeu um gole do suco antes de continuar. “Ele está com toda a documentação pronta para abrir outra filial. Nem temos tanta gente assim para gerenciar tantas filiais e ele continua querendo mais e mais e mais. É absurdo.”

“Ele se preocupa com o futuro.”

“O futuro de quem? A saúde dele não está nada boa, Killian está pensando em largar a administração da empresa para voltar à música e eu, bem, eu não tenho interesse algum em administrar o império dele.”

“Robin... É seu pai. Tente entendê-lo um pouquinho. Por mim.”

Ele suspirou, encarando-a. “Eu prometo que vou tentar. Você não conhece a figura. Ele não é nem um pouco fácil.”

“Eu entendo um pouco de pais difíceis, baby. É um teste de paciência, mas é importante. Não dizem que a pessoa que nos tira do sério, a missão dela é nos ensinar sobre a paciência? Bem, abrace o dever de casa.”

“Baby.”

“Robin.” Ralhou ela, e ele sorriu, acariciando-a nas costas, deslizando as mãos de maneira carinhosamente. Seu polegar deslizou pela linha da espinha dela, criando uma pressão suave e massageando-a por alguns instantes, antes de afastar-se. Robin terminou de comer primeiro e virou-se para ela, acariciando os cabelos escuros enquanto a admirava, adorando-a incuravelmente. “Você está encarando.” Sussurrou ela, sem olhar para ele, mas deixando a sombra de um sorriso percorrer a curvatura de seus lábios.

“A perfeição precisa ser admirada e observada religiosamente.”

“Quem disse isso?”

“Eu.”

Ela deslizou a mão para a perna dele, beliscando-o e o fez gargalhar. O som de sua risada captou a atenção dela, e ele percebeu. “O que foi?”

“Você deveria rir mais. É um som maravilhoso.”

“Eu penso exatamente a mesma coisa toda vez que ouço você rir. É um som mágico.”

“Você é um galanteador barato.”

Ele sorriu, entrelaçando as mãos deles e trouxe a mão dela aos lábios e beijando-a de maneira cavalheira. “Para você eu seria qualquer coisa que desejasse, milady.”

“Vamos? Não posso chegar muito tarde à delegacia. Tenho um dia longo pela frente.”

“Sim, só me deixe pedir a conta.”

“Não, eu vou pagar.”

“Mas não mesmo.”

“Eu que trouxe você aqui, eu pago.”

“Eu que a convidei, então nesse caso, quem paga sou eu.”

Regina revirou os olhos, sorrindo. “Você é incansável, Robin.”

“Você não viu nada ainda.” Flertou ele, fazendo-a rir.

***

Henry estava encostado na pequena mureta que separava as escadas do jardim quando ela passou por ele. O sorriso que estava estampado em seus lábios desapareceu assim que ele percebeu que Violet não se dera ao trabalho de notar sua existência; pelo contrário, mudou de direção para não passar próximo demais dele. Algo estava errado. Podia sentir, e podia ver no semblante dela conforme ela descia as escadas.

“Violet!” Chamou, mas ela continuou descendo as escadas. “Violet!”

Respirando fundo, ele subiu no corrimão da escada e escorregou um lance, ganhando tempo e conseguiu alcança-la. Segurou-a pelo braço gentilmente e tirou-a do fluxo da escada, de modo que finalmente pode olhá-la nos olhos. Ela estava horrível. A área ao redor dos olhos estava escura, como se fizesse dias e dias que ela não dormia. Seus olhos viajaram para o curativo em seu pulso, e ele suspirou. “O que aconteceu?”

“Eu não quero falar com você, me deixa ir para a aula.”

“Só me diz o que aconteceu, por favor.”

“Por que você não me atendeu quando eu precisei, hein? O que estava fazendo de tão importante? Você vai à minha casa e me faz juras de amor e votos de amizade, mas que valor tem isso se eu não posso contar com você quando preciso?”

“Você só me ligou uma vez, e eu estava no meio de uma partida de tênis. Não dá para jogar com o celular no bolso, então eu coloquei no armário. Durante uma hora, só isso. Eu tentei retornar e você não me atendeu mais, e sua mãe disse que você não estava em casa.”

“Se você estivesse comigo e não com esses seus amiguinhos do tênis, você saberia o que aconteceu.”

Ela puxou o braço, e voltou a descer as escadas. Henry desceu atrás dela, tentando achar alguma maneira de acalmá-la. “Violet, por favor. Me entende. Eu não fiz por mal.”

“Você precisa repensar as coisas que promete, Henry.” Rebateu ela, ainda caminhando, forçando os cadernos contra o peito enquanto se dirigia para o corredor do laboratório de química. “Como você quer namorar comigo se você passa mais tempo resolvendo problemas da sua família ou se divertindo com seus amigos do que do meu lado? É isso que é namoro para você? Se é para ser assim, eu volto com o Cole.”

“Mas eu já passo praticamente a semana toda na sua casa, Violet. Eu quase não vejo minha mãe ou minha irmã, ou mesmo os meninos aqui do colégio.”

“Não parece.” Suspirou. “ Com licença que eu estou atrasada para a minha aula.”

Henry ficou parado enquanto a observou desaparecer dentro da sala de aula da Sra. Hogkins. O corredor começou a ficar cada vez mais vazio até que ele era o único aluno ali, parado em meio ao corredor. Sentia-se terrível por não ter atendido o maldito telefone. Sentia-se terrível por ter ido se divertir com os amigos quando ela estava precisando dele. Ele era mesmo um idiota.

“Sr. Hatter, você não ouviu o sinal da aula?”

Henry virou-se, respirando fundo e observando a figura da inspetora de alunos. “Eu ouvi, Sra. Lucas.”

“Você sabe que permanecer nos corredores depois do sinal é advertência, não sabe?”

Ele encarou a mulher de cabelos brancos, vestida com um conjunto de cinta e blusa social que lhe davam um ar elegante e clássico. Os óculos desciam um pouco sobre o nariz, e ela o encarava por cima dele. As duas mãos posicionadas na cintura denunciavam o seu desapontamento com ele. “Tanto faz.”

“O que você disse, rapazinho?”

“Eu disse que tanto faz.” Rebateu ele, a voz mais dura e ríspida.

Estava pronto para a retaliação quando ele ouviu a voz surpresa e preocupada da velha senhora. “Henry... O que é isso? Você nunca falou comigo dessa forma. Aconteceu alguma coisa, menino?”

“A senhora vai escrever a advertência ou não?” Perguntou ele, suspirando. Repentinamente, ele pareceu muito mais cansado.

“Volte para a aula, garoto.”

“Mas...”

“Agora, Henry.”

Granny observou quando ele se afastou de cabeça baixa e ombros caídos, caminhando até a quinta porta à esquerda, e pedindo licença para a professora de francês com uma vivacidade que até mesmo um zumbi poderia fazer melhor. Contrariada, a inspetora deu meia volta e entrou em um dos corredores de acesso ao pavilhão superior. Dois lances longos de escada depois, ela chegou até a sala dos professores. Dois toques na porta primeiro, e então abriu a mesma, deparando-se com meia dúzia de faces preocupadas. Veja bem, quando a inspetora de alunos procura um professor, a coisa não é boa.

“Locksley, podemos trocar uma palavrinha?”

Robin franziu as sobrancelhas, mas levantou-se mesmo assim. Caminhou com ela para o corredor vazio, e fechou a porta atrás de si.

“Sim, Sra. Lucas. No que posso ajuda-la?”

“Há algo de errado com o garoto Hatter.”

“Henry?”

“Roxanne que não é, rapaz. Claro que é Henry.”

“O que houve?”

“Eu o repreendi por estar no corredor após o alarme sonoro e ele me respondeu de uma maneira muito malcriada. Ele sequer se importou quando mencionei a advertência por escrito.”

“Isso não faz sentido algum. Henry é um bom garoto, e ele nunca se atrasa.”

“Você acha que eu não sei? Eu vi todos esses pivetinhos entrando neste colégio com seis anos de idade. Eu os conheço muito bem, conheço suas famílias, conheço suas personalidades. Henry Hatter nunca me respondeu, até hoje. Há algo errado acontecendo.”

Robin coçou a nuca, desconcertado. O que ele estava deixando passar?

“Vou conversar com ele durante o horário de almoço, Granny. Não se preocupe.”

“Cuide dessa criança, Locksley. Poucos jovens desse colégio são tão importantes para mim como ele.”

“Eu dou minha palavra a você que farei tudo ao meu alcance.”

“É o bastante para mim. Tem torta de limão na cozinha dos cozinheiros, se quiser me acompanhar.”

“Foi você que fez?” Brincou ele, sorrindo.

“Sim.”

“Bom, nesse caso, acho melhor escolta-la até lá. São dias perigosos para uma mulher perambular desacompanhada estes vastos corredores deste prédio obsoleto.”

“Sei. Você e seu cavalheirismo, Locksley, não enganam ninguém.”


***

Regina sentou-se no chão do porão, mais precisamente na ala dos arquivos mortos, e começou a pensar. O local não era tão bem iluminado, mas tinha conexão de internet e ficava deserto a maior parte do tempo, então ia servir adequadamente. Sua sala estava abafada demais, e desde que Graham tentara defender Madeleine Andrews, ela se descobrira carregando uma certa dose de irritação extra a respeito dele.

Ela sabia que estava certa sobre a agência à que enviara Ariel. Era uma das dezenas de agências que recrutavam as presas para a organização do Papai Noel. Desde que Ariel havia desaparecido, eles não haviam anunciado mais nenhuma triagem, o que a fazia pensar em como funcionava o mecanismo deles. Seria uma agência por vez, de modo a despistar as atenções? Reconhecia que eles eram astutos e inteligentes, e que não seria fácil encontra-los.

Os superintendentes da polícia federal insistiam para que ela colocasse mais uma agente infiltrada. Seus instintos lhe diziam para que não. Faria tudo que fosse possível e impossível para trazer Ariel para casa, mas mandar mais uma garota era colocar dois destinos em risco. Algo que a profissão cobrava, mas não algo que ela estava disposta a pagar.

Sabia também que se chegasse à uma votação no conselho, eles acabariam enviando outra agente para dentro do covil. Lhe custava aceitar, porém a verdade era que eles não se importavam com os efeitos colaterais de confrontar bandidos tão perigosos. Uma agente morta seria apenas um funeral elegante e condolências na frente de jornalistas, para depois abraçar a chuva de arroz e confete por terem derrubado uma máfia gigantesca.

Precisava pensar fora da caixinha. Precisava achar uma maneira absurda de pressioná-los. Mandou uma mensagem para Graham, pedindo a ele que encontrasse um juiz corajoso o suficiente para pedir o mandato de busca para a JoJo Humanitary. Se Madeleine não cederia as informações por bem, cederia por mal. Seu celular vibrou e ela esticou a cabeça para vê-lo, sorrindo ao perceber que era de Rosie a mensagem que chegara.

Valerie vai se mudar para o apartamento no centro. Jantar na segunda feira?

Então a ideia lhe percorreu a mente, e seu coração acelerou absurdamente. Era claro. Como é que ela não pensara nisso antes?

Eu aceito. Mas precisamos nos encontrar antes disso. O que você acha de uma parceria exclusiva com a polícia?

Seria a mais emocionante dentre todas as que já fechei. Esta é uma proposta séria?

Regina sorriu, digitando rapidamente a resposta. É sério. Eu te ligo mais tarde para conversarmos sobre isso.

Ouviu passos no corredor e suspirou. Com certeza deveria estar ocorrendo a maior feijoada no andar superior; nenhuma outra opção os faria interromper o trabalho dela. Booth apareceu em seu campo de visão.

“O que houve?”

“Há uma confusão lá em cima. O advogado alega que um dos nossos adulterou o teor do relatório e está fazendo exigências como se fosse o próprio Procurador Geral do Estado. Pedimos para ele preencher o formulário e ele rasgou o papel em dois.”

Regina respirou fundo. “Tudo bem. Estou subindo em dois minutos.”

Ela fechou os olhos, ouvindo os passos do policial afastando-se e nesses dois minutos, concentrou-se apenas em sua respiração. Focou sua atenção na maneira entrava e saía, nos sons suaves resultantes do movimento, em como seu tórax subia e descia; imaginou o caminho feito pelo mesmo, chegando até seus pulmões e enchendo-os de oxigênio. Mais calma, ela levantou-se, pegou suas coisas e se dirigiu na direção da escada.


***

Roxy estava saindo do prédio da FAME quando seu celular vibrou. O nome de Tyler Ohill piscou em sua barra de notificações e ela revirou os olhos, certa de que não eram boas notícias. Colocou o celular no bolso externo de sua bolsa e caminhou até seu carro. Recusava-se a abrir qualquer coisa vindo daquele garoto em público – a insinuação de humilhação pública era alta demais para correr este risco.

Dentro de seu carro, jogou a bolsa sobre o banco do passageiro e então abriu a conversa. Não havia outras mensagens a não ser duas fotos, nítidas e tiradas há pouco tempo, de Leo ajudando Melanie a pegar as compras, e levar para dentro da casa. Dele.

Ela estava cansada de se sentir assim. Cansada de vê-lo implorar por resposta, mas ao mesmo, cansada de não entender os sinais confusos que ele lhe enviava. Se ele estava realmente namorando, por que ainda insistia tanto? Por que simplesmente não lhe deixava em paz? Decidiu então que era hora de tirar essa história a limpo de uma vez por todas. Ou ela estava enganada ou ele a estava enganando, e a partir disso ela teria uma conclusão para esse assunto que estava influenciando sua paz. Pegou o caderno que Locksley havia lhe entregado e rabiscou meia dúzia de palavras, abreviando algumas, simplesmente exemplificando o que estava sentindo, e os gatilhos que lhe levaram a isso. Voltou o pequeno caderno à bolsa, e em seguida, deu partida no carro, arrancando e seguindo direção para a saída do estacionamento coberto.

Não levou um minuto para que ela estivesse na avenida, acelerando impiedosamente na direção da casa dele. Sua mente parecia um mercadão de peixe no centro da cidade, vozes debatendo e gritando, brigando pela razão e ela simplesmente não sabia o que ouvir. Não tinha certeza sobre o que estava acontecendo com ela.

Precisava assumir que sentia falta dele. Talvez seu afastamento fosse apenas um atestado de que ela tinha tanto medo de perder sua amizade que preferiu mantê-la longe de si, por segurança. Enquanto ele estava preocupado em conversar com ela, ela não deveria se preocupar, certo?

Não demorou muito, e ela estava dentro do bairro em que ele morava. Cortou uma ou duas ruas, e ali estava. O carro de Melanie Nolan, elegantemente estacionado na frente da casa dele. A tarde começava a escurecer, cedendo seu espaço para as nuances da noite. Estacionou atrás do veículo, e saiu. Caminhou até a porta, e então, bateu algumas vezes, sem se preocupar se estava parecendo impulsiva ou apressada ou qualquer outro adjetivo que justificasse a explosão por trás de sua abordagem incrivelmente direta.

Ele estava sorrindo quando abriu a porta, mas seus olhos pareciam ter perdido a vida por segundos ao vê-la. “Roxanne, o que está fazendo aqui?” Balbuciou ele, fechando a porta atrás de si de maneira desengonçada.

“Está escondendo o que aí dentro, Scarlet? O carro dela está bem ali, eu não sou idiota.”

“Não é o que você está pensando, Roxy.”

“Ah, não é? Mesmo?”

Ele tentou aproximar-se dela, mas ela se afastou. Os dois permaneceram ali, no jardim frontal da casa, encarando-se. Um garoto estava sentado no meio fio, do outro lado da rua, com um rádio portátil. Seafret podia ser ouvida, cantando it feels like there’s oceans between me and you once again e Leo suspirou com a ironia daquele momento.

“Roxy, eu juro. Não tem nada...”

Mas ela não o deixou terminar. “Eu sei que não é sua culpa. Foi eu que disse a você que não queria compromisso. Mas você me disse que eu era sua amiga. Disse que podíamos contar um com o outro para qualquer coisa. Você poderia ter dito que estava vendo outra pessoa. O que me magoou foi a sua mentira. Sua omissão. Você deveria confiar em mim.”

We hide our emotions
Under the surface and tryin’ to pretend

“Eu confio em você!”

“Sua ideia de confiar está um pouco errada.” Ela colocou a mão no bolso do casaco, encarando-o. “Como você se sentiria no meu lugar? Se eu começasse a namorar, e não te contasse, e começasse a evitar você, a desmarcar nossas coisas sem dizer uma razão decente?”

“Isso iria me destruir.”

“E porque isso é diferente para mim?”

“Eu amo você, é isso que é diferente.” Confessou ele.

I want you
and I always will
I wish I was worth

“Leo...” Sussurrou ela, surpresa e completamente sem chão.

“Eu amo você, Roxanne. Você deveria entender isso. Melanie é uma amiga que eu adoro, mas eu não sinto por ela o que sinto por você.” Ele engoliu em seco. “Então sim, se você começasse a namorar isso me mataria por dentro, mas eu não me importaria desde que você fosse feliz. Tudo o que eu faço é para vê-la feliz.”

Mas Roxanne não sabia o que dizer. As palavras estavam presas em sua garganta, os olhos estavam marejados. Suas mãos tremiam levemente. Parte dela sabia, talvez sempre soubera disso; mas ouvir uma declaração tão direta assim era avassalador.

“Eu preciso que você venha comigo. Vou lhe mostrar a verdade.”

Ele parou à sua frente com a mão estendida. Roxanne não se moveu.

“Confie em mim, ao menos uma última vez.”

“Eu estou com medo.” Confessou ela.

“Eu também.”

Ela colocou a mão sobre a dela, e ele a guiou para dentro da casa, em silêncio. Mas ela podia ouvir as batidas aceleradas e descontroladas de seu coração. Mal podia concentrar-se nos detalhes da casa, tamanho seu nervosismo. Os moveis eram bons, mas simples; lhe passavam uma sensação de aconchego, de um lar para onde fugir e se refugiar. Eles atravessaram a sala, cruzando o caminho entre os sofás, e ele bateu duas vezes na porta, antes de entrarem em um quarto.

“Mãe, eu quero que conheça alguém especial.”

Naquele mesmo instante, Roxanne sentiu seu estomago se contorcendo de raiva por ter sido tão injusta com ele. Era como se ela estivesse em queda livre, sentindo o frio incomodo espalhar-se por seu abdômen. “Roxanne, essa é minha mãe. Ana Scarlet.”

“Ela parece um anjo, meu filho.”

“Eu não ousaria dizer isso, mas sim, ela é linda.”

Roxy permaneceu encarando a mulher à sua frente. Encostada na cama, ela usava um lenço amarrado à cabeça, mas que não escondia sua calvície. Atrás dela, diversos aparelhos ligados a ela bipavam em um volume baixo, mas era impossível não os notar ali. Uma bolsa de soro estava pendurada no suporte, e Melanie estava ajeitando-a. “Ah, e Melanie é sua enfermeira.”

Enfermeira.

Ela sentia-se tão idiota. Sentia-se um monstro por tudo que havia pensado sobre eles, e sentido. Os olhos de Ana pareciam fundos, sua pele estava pálida, mas ela sorriu mesmo assim. “Prazer, Sra. Scarlet.”

“Oh, me chame de Ana, querida. Qualquer pessoa especial para o meu menino, é especial para mim também.” Ajeitou-se na cama, mas gemeu em dor e Leo apertou a mão de Roxy involuntariamente, fazendo-a com que sua vontade de chorar voltasse com força. “Ela ficará para o jantar? Por favor, fique conosco. Eu não costumo comer nada, mas gosto de ouvir as conversas de vocês jovens.”

Roxy ergueu a cabeça e encarou Leo, que a olhava de maneira esperançosa. Suspirou, voltando a olhar para a mulher à sua frente. “Sim, eu fico para o jantar.”

“Leo cozinha muito bem, você vai adorar, apesar de achar que você já deve ter provado.” Brincou ela, sorrindo maliciosamente.

“Mãe!”

“É brincadeira, meu querido.”

Melanie sorriu, balançando a cabeça. “Eu ajudo você.”

“Isso, vocês dois vão e façam algo bem gostoso para ela. Nós vamos ficar aqui conversando.”

Leo sorriu, encarando sua mãe de maneira meio abobalhado. Melanie o acompanhou, empurrando-o para fora do quarto e Roxanne enfatizou que estava tudo bem. Ela realmente queria conhecer a mãe dele agora, conversar com ela, entender aquela situação. Silêncio se instalou no quarto quando eles saíram e encostaram a porta atrás de si.

Roxy aceitou a sugestão de Ana e caminhou até o lado dela, sentando-se na banqueta vermelha de madeira. Seus olhos viajaram pelos aparelhos no quarto, para os remédios delicadamente organizados nos armários, para a bolsa de soro que pingava de maneira continuada. “É menos pior do que parece.”

“Não parece bom.”

“Perdoe minha brutal honestidade, garota. Mas o que você é do meu filho?”

“Nós somos amigos.”

“Vocês não se olham como amigos. Mel e ele se olham como amigos. Mas para você ele tem esse olhar de... não sei. É diferente. Eu nunca tinha visto.”

“Nós ainda estamos nos entendendo.”

“Bem, nesse caso, eu quero deixar bem claro quem ele é. Não porque eu quero controlar o meu menino, eu não quero. Eu nem tenho condições disso.” Ela tossiu, e Roxy estendeu a caixinha de lenços e posicionou o lixo para ela. “Obrigada, pequena. Como eu ia dizendo, ele é um garoto muito bom. Ele deveria estar estudando para o vestibular. Ele deveria estar se inscrevendo em bolsas para essas faculdades chiques da Ivy League.”

Roxanne permaneceu em silêncio, escutando-a. “Mas ele escolheu trabalhar, em todas as oportunidades possíveis, para cuidar. Essa parafernália barulhenta custa dinheiro, saiba você. Muito dinheiro. Ele usa todo o dinheiro dele comigo, e eu não sei o que fiz para ter um anjo desses como filho. Eu conheço garotas como você. Lindas, ricas, a semente de ouro de suas famílias. Você não vai ter nada isso com o meu menino. Se os seus sentimentos por ele não são reais, agora é a hora de cair fora. Eu não tenho ressentimentos; mas me entenda, eu tenho que cuidar do meu garoto enquanto ainda posso.”

“Eu nunca me importei com o dinheiro ou a falta dele durante minha escolha de amigos, Sra. Scarlet.”

“Eu sei que tomo quase todo o tempo dele. Eu sei. Há dias em que estou pior, e há dias em que a leucemia não me castiga tanto. Ele nunca têm tempo. Está sempre preocupado, sempre correndo, sempre focado nas contas a pagar, e no valor dos remédios que sempre aumentam.”

“A senhora tem leucemia?”

“Causada pela quimioterapia feita para extinguir um câncer em meu esôfago.” Riu ela. “É, tentamos consertar um e acabamos causando outro. De acordos com meus últimos exames, parece que o câncer também não foi totalmente eliminado.”

“Eu... Eu sinto muito.”

“Tudo bem, menina. Tudo bem. Eu sei que meu tempo neste mundo não durará muito.” Constatou ela, de uma maneira tão calma e resoluta que Roxanne ficou inicialmente abismada. “Eu me preocupo com o meu filho, com certeza. Mas eu não vejo a hora de reencontrar o amor da minha vida toda. E se tiver que ser assim para ver o pai dele novamente, em outro mundo, em outra dimensão da vida, eu aceito.”

“O que aconteceu com ele?”

“Quando Leo era apenas uma criança, seu pai foi pego tentando roubar medicamentos para mim. Tentamos de todos os modos abrir recursos, pedimos audiências, mas ele acabou sendo preso de qualquer forma. Mas ele adoeceu na cadeia e acabou falecendo dois anos depois, antes mesmo da justiça criminal ter feito sua audiência de julgamento. Nós já estávamos numa situação complicada. Tivemos que procrastinar o luto para dar conta da minha saúde, mas isso só nos machucou.”

Roxanne não pode evitar as lágrimas que caíam de seus olhos. Toda aquela dor, todo aquele sofrimento, tudo, era tudo o que Leo tinha de vida. E mesmo assim, ele era um ser humano muito mais grato pela vida do que ela. Ele lhe oferecia amor e companheirismo e humor, e ela constantemente o rejeitava. Que tipo de pessoa isso fazia dela? Deitou a cabeça na lateral da cama e sentiu quando Ana começou a acariciar seus cabelos. “Chore, minha pequena. Pode chorar.”

A tempestade de soluços explodiu contra o seu peito, e ela aceitou as palavras que lhe foram ofertadas, permitindo-se chorar por alguns minutos. Algum tempo depois, Roxy deixou-se respirar e retomou o ritmo natural de sua respiração, alinhando-a lentamente. “Eu sinto muito que as coisas tenham sido tão difíceis para vocês. Ninguém merece passar por todas essas coisas horríveis.”

“Bem, a vida foi como teve que ser. Você acha que eu sento aqui e lamento estar doente? Se eu fizesse isso, teria morrido mais cedo. A vida é justa por ser injusta com todos nós. Nós tivemos sorte. Tínhamos Robin Locksley em nosso caminho. Ele era o melhor amigo do meu amado Will, e ele praticamente nos adotou depois do que aconteceu. Ele me ajudou a criar Leo, ele ajuda com as nossas finanças, ele... Robin é um anjo. Um verdadeiro anjo da guarda para essa família.”

Sr. Locksley havia minimizado gigantescamente a ligação dele com Leo, pensou ela.

“Não o abandone. Eu sei que as coisas vão ficar difíceis para ele quando eu me for. Se você não estiver ao lado dele como ele gostaria que estivesse, permaneça como amiga. Ele precisará. Me prometa, por favor.”

“Eu prometo jamais abandoná-lo, Sra. Scarlet. Ele é meu melhor amigo, eu não sei o que seria de mim sem ele.”

Seus olhares se cruzaram rapidamente antes do som da porta sendo aberta as interromper.

“Mãe, eu...” Começou ele, mas assim que percebeu a maquiagem borrada de Roxanne, parou. “O que está acontecendo aqui?”

“Estamos conversando.”

“Mãe, você não podia ter esperado um pouco?” Pediu ele, e Roxanne levantou-se, colocando a mão sobre a dele. “Ela não fez nada, eu estou emotiva com algumas coisas e”

“Não minta, você não é boa nisso.” Suspirou ele, limpando o rosto dela. “Vem, vamos tirar esse rímel borrado do seu rosto.” Ele entrelaçou os dedos nos dedos dela e eles caminharam até o banheiro. Ela sentou-se sobre o vaso sanitário tampado, e ele virou-se com o algodão em mãos. “Posso?”

Ela concordou, e ele começou a limpar seu rosto de maneira delicada. “Até onde ela lhe contou?” Questionou ele, parecendo levemente preocupado.

“Ela me contou sobre o seu pai.”

Roxy percebeu que ele parou, a mão com o algodão parada no ar, os olhos fechando-se antes dele debruçar a cabeça e apoiar a têmpora contra a dela, unindo seus rostos em um gesto doce e delicado. “Me desculpe por isso.”

“É isso que você tinha medo que eu descobrisse?”

Ele suspirou, ajoelhando-se e encaixando-se entre as pernas dela, as mãos sobre as suas coxas, os olhos azuis em seus olhos castanhos. “Eu não queria que você visse a minha escuridão, mas você me ensinou que o equilíbrio é abraçar a ambas, não foi? O bom e o ruim. Eu não queria mudar a maneira como você olha para mim. Que sentisse pena.”

“Eu não sinto. Acho que você é uma das pessoas mais fortes que já vi na minha vida.”

“Eu não me sinto forte. Tem dias que eu mal consigo olhar para ela, apenas para evitar chorar de desespero.”

Continuou limpando o rosto dela até que marcas da maquiagem escorrida desapareceram por completo. “Me desculpe ter omitido isso por todo esse tempo. Minha reação inicial é sempre defender minha mãe de tudo e de todos, dos olhares de reprova por causa do meu pai, quando as pessoas não sabem o que ele estava tentando fazer por ela.”

“Todos carregamos nossos próprios demônios.” Comentou ela, os olhos arregalando-se em seguida. “Eu não quis dizer que sua mãe”

”Eu entendi.” Respondeu ele, rindo.

“Quis dizer que eu sei o que é guardar certas coisas para poupar as pessoas que amamos da dor de carrega-las também e não vejo isso como egoísmo, mas altruísmo. Você é um homem incrível, Leo. Seu pai teria sim muito orgulho de tudo o que está fazendo pela família.”

Ele continuou observando-a em silêncio; os olhos azuis estudaram os olhos castanhos e por algum tempo, ela se deixou seduzir pela curiosidade, encarando-o de volta. As mãos dela deslizaram para os cabelos castanho escuro, bagunçando-os, sem nunca perder o contato visual.

“Isso quer dizer que voltamos a ser amigos?” Pediu ele, os olhos hipnotizados por ela, a respiração rala.

Roxanne segurou-o pela nuca e o puxou para si, capturando seus lábios. Suas duas mãos agora seguravam-no pelo rosto, e ela aprofundou o beijo, permitindo que suas línguas dançassem um uníssono, que seus corações badalassem sob o mesmo ritmo alucinado. Assim que o beijo acabou, exclusivamente pela falta de folego de ambos, ele roubou-lhe um beijo suave. “Amigos.” Sussurrou ela, abraçando-o apertado e sentindo a sensação da qual se privara todo esse tempo. A onda quente e macia de calor humano, e segurança e conforto que ele emanava para ela. A sensação única de lar, de ter seu próprio refúgio particular nos braços de alguém.

“Roxy, o que...”

“Eu preciso de um tempo. Peça desculpas à sua mãe e à Melanie.”

Ele observou em silêncio quando ela afastou-se, saindo do banheiro e caminhando como a velocidade de uma flecha para a porta da entrada; no segundo seguinte, ela havia desaparecido novamente.

It feels like there’s oceans
between me and you
once again

Notas finais
A música em itálico é Oceans, da Seafret