Roleta Russa
1 Capítulo 1
O raciocínio e a pressa não se dão bem. A frase não era dela, pertencia na verdade à um poeta e dramaturgo grego chamado Sófocles, mas era assim que Regina queria pensar. Ela estava atrasada. Você poderia dizer que muitas pessoas se atrasam e tudo bem, mas não para ela. Nunca para ela. Não para uma mulher, diferenciada por seu ambiente de trabalho predominantemente masculino, em posição de chefia.
Deveria culpar Jefferson por isso. Tudo que ele tem feito desde o divórcio é lhe infernizar a existência. Como se não bastasse desfilar com a namorada modelo musa fitness por todos os lugares e todas as reuniões sociais em comum. Aquela mulher era apenas um lembrete da mais barata e funesta infidelidade, a mesma que levou o casamento de dezoito anos para o fundo do poço. Dois anos depois de muitas e muitas audiências, gritos intermináveis e palavras de tão baixo calão que até um marinheiro sentiria vergonha, conflitos e mais conflitos — ali estava ela, aguentando as provocações e tentando fazer com que ele assumisse sua responsabilidade como pai.
Ela estava saindo do apartamento quando o telefone tocou e ela ouviu a voz de Greta. “Senhora Mills, é do colégio. ”
Regina respirou fundo. O que é que eles haviam aprontado agora? A senhora de cabelos loiros e olhos azuis como o céu lhe trouxe o aparelho e ela jogou o cabelo para trás enquanto ouvia o que a secretaria tinha a dizer.
“Como assim eles não estão na escola? A irmã dele…” Roxanne. “Ah agora me lembrei. Eles tinham um compromisso. Eu que peço desculpas, Salete. Vou enviar a declaração de ausência quando chegar à delegacia.” Salete também pediu desculpas, muito bem-humorada. “Bom trabalho, dear.”
Toda a paciência havia se esvaído de seu corpo e ela não tinha saído de casa ainda. Greta a fitou por alguns segundos. “A senhorita Roxanne aprontou de novo, não é?”
“Quando eu pegar aqueles dois eu vou fazer picadinho deles.” Sibilou ela, beijando a bochecha da governanta alemã e saindo na direção do elevador. Discou o número do ex marido.
“Alô?”
Era só o que faltava. Ela estava indo trabalhar com ele também?
“Coloque Jefferson na linha, por favor.”
Segundos depois, ele atendeu. “Gina.” Chamou ele, bem-humorado. Sabendo o quanto ela detestava aquele apelido e ainda assim usando-o.
“Precisamos falar sobre a sua filha.” Respondeu ela, entrando no elevador e pressionando o botão da garagem.
“Ela não é só minha.”
“Oh, agora você resolveu lembrar que eu sou mãe dela?”
“Foi para isso que você ligou?” O tom de voz dele se neutralizou e ela sentiu-se ligeiramente melhor ao perceber que também era capaz de minar o bom humor dele.
“A secretaria do colégio ligou para perguntar da ausência dos seus filhos mas adivinha quem saiu de casa com o uniforme?” Ela saiu do elevador e caminhou na direção do Toyota SUV preto. “Se eu os encontrar primeiro ela vai ficar sem carteira de habilitação e você vai se tornar o motorista dela. Então eu recomendo que você os encontre e os leve para casa. Afinal quem deu a liberdade à Roxanne foi você.”
“É só um carro, Regina. Ela tem idade para dirigir.”
Ela podia senti-lo revirando os olhos. Encaixou o celular entre o ombro e ouvido e continuou falando enquanto dirigia para fora da garagem. “Não é só um carro, Jefferson. Você sabe muito bem disso. Roxanne é irresponsável e imatura e você a mima desde que ela era apenas um bebê. Ela tem desprezo por qualquer regra e disciplina e graças a quem? Talvez você devesse parar de brincar de casinha e assumir suas responsabilidades, apenas para variar um pouco.”
“Eu já entendi.” Respondeu ele, seco. “Mais alguma coisa, Vossa Excelência?”
Antes que ela tivesse a oportunidade de responder, algo se chocou contra a lateral de seu carro. Seus olhos se arregalaram ao perceber que na verdade, ela havia atropelado alguém.
***
Caído no chão, ele pensou nas palavras que disse antes de sair do escritório de seu irmão. O dia não tem como ficar pior, Killian.
Poderia ficar pior. Ele poderia ser atropelado, por exemplo. Fechou os olhos e pensou em tudo que havia acontecido naquele dia. Acabara de descobrir que sua vaga em um dos pubs mais badalados da cidade havia sido remanejada, diminuindo suas chances de encontrar um bom caçador de talentos. Marian havia ligado novamente, protagonizando seus dramas desnecessários e carentes. E ele nem queria lembrar da discussão com seu pai na noite anterior.
Tudo que ele queria era chegar em seu apartamento e voltar a compor. Mas o destino resolveu lhe dar mais uma lição. Retirou o capacete com cuidado e deitou a cabeça no chão, ainda sentindo o impacto reverberando por todo seu sistema. A porta do veículo se abriu e o tilintar dos saltos vindo à sua direção denunciou que poderia ser uma mulher. Virou-se para o lado e avistou os sapatos pretos, de desenho delicado e saltos altos e finos. Seus olhos percorreram as belas pernas até que ele finalmente conseguiu dar uma boa olhada na mulher que o havia atropelado.
Wow.
Por alguns segundos ele ignorou o fato de que ela poderia ter causado mais do que alguns arranhões. Os cabelos escuros e brilhosos caiam por seus ombros, ondas largas e abertas que combinavam com os olhos cor de chocolate que o fitavam com irritabilidade. Ela tinha lábios cheios, e estava mordendo o lábio inferior enquanto intercalava o olhar entre ele e a deformidade que a Harley Davidson deixara no veículo.
“Você não olha por onde anda?” Resmungou ela, e rapidamente o encanto se desfez, mesmo ele tendo notado o quanto a voz dela era agradável. Apoiou o cotovelo que não estava ralado no chão e levantou-se, posicionando-se na frente dela.
“E você não sabia que dirigir e falar ao telefone causa acidentes?” Rebateu ele. Regina fitou o homem à sua frente. Se não estivesse completamente estressada com seus filhos, ex marido e o atraso, ela poderia se dar ao luxo de achá-lo bonito. Ele tinha um rosto bem marcante, olhos azuis e cristalinos, um cabelo loiro completamente bagunçado e arrepiado, que lhe dava um ar juvenil. Perguntou-se como seria seu sorriso, embora soubesse que ele estava bem longe de expressar aquele tipo de reação. “Ao que me parece você está muito bem.” Finalizou ela, irritada.
“Não graças a você.”
Robin virou-se e foi até sua moto. Fez força para levantá-la e um transeunte que passava o ajudou a erguer a mesma. Respirou fundo, sem paciência para mais uma discussão. Ele estava bem, ela estava bem. Virou-se repentinamente ao sentir um toque suave em seu antebraço e deparou-se com a mulher da SUV. “O que você quer?” Ele odiava ser grosseiro, mas quem poderia culpá-lo? Aquele dia estava sendo o verdadeiro caos.
“Meu telefone. Eu vou contatar o seguro e vou precisar dos seus dados. Mas eu preciso ir agora. Estou atrasada…”
“Não vai precisar.”
“Você poderia pegar a porcaria do cartão? E fingir ser uma pessoa civilizada?” Respondeu ela, o tom de voz seco e rígido. A mudança chamou a atenção dele, que foi pego desprevenido. Se ele tinha a impressão de que ela era alguma madame, bem, agora não teria mais. Robin pegou o cartão, movendo-se lentamente e ela virou as costas, rebolando no caminho de volta para seu carro sem olhar para trás.
Se tivesse olhado, teria percebido que o balançar de seus quadris tivera o efeito que ela sempre tentava alcançar. Havia prendido a atenção dele. Mas ela somente afivelou o cinto, e passou por ele, olhando-o pela última vez e chamando-o mentalmente de babaca.
Do lado de fora, Robin balançou a cabeça enquanto enfiava o cartão no bolso interno da jaqueta. “Mulherzinha ignorante.”
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