Roleta Russa
2 Capítulo 2
“Onde é que vocês estavam?” Sibilou Jefferson, saindo de dentro da casa de construção vitoriana com o rosto vermelho e o cabelo despenteado. Com passos largos e abertos, ele rapidamente chegou à entrada. Roxanne o encarava com um meio sorriso, como sempre, debochando de qualquer coisa que lhe fosse apresentada. Henry por outro lado abaixou a cabeça, colocando as mãos no bolso como quem sabe da burrada que fez.
“Pai, a gente…” Começou a jovem, mas assim que ele ergueu a palma da mão, ela manteve o silêncio.
“Você sabe o que eu tive que ouvir da sua mãe, Roxanne? Você sabe o quanto ela está furiosa? A escola ligou para ela e ela já sabe que nenhum dos dois esteve lá.”
Roxy revirou os olhos, levando uma mecha de cabelo atrás da orelha. “Olha, pai. Minha mãe está sempre irritada, nenhuma novidade. Henry estava mal e precisava espairecer um pouco. Nós fomos dar uma volta no shopping, tomar um sorvete e íamos assistir um filme, mas daí você ligou todo estressadinho…”
Jefferson levantou o olhar e fitou Henry, que encarava Roxy. “O que você tem, Henry?”
“Nada.”
“Fale a ele sobre Violet.”
“Cale a boca, Roxy.” Resmungou o garoto, passando por ambos e entrando na casa apressadamente. A reação nada condizia com o temperamento dócil do garoto, e Jefferson sabia que seu filho estava bastante irritado com algo. Virou-se para ela, que ajeitava o chapéu de veludo na cabeça e mascava seu chiclete irritantemente.
“O que houve com ele?”
“Ele gosta de uma garota. Violet. Eles fazem algumas aulas juntos. Parece que ela está namorando um bombadão e ele está bastante chateado de não ter tomado uma atitude antes.” Ela virou-se para o pai, tocando-o no braço, os olhos grandes e pidões e ele sabia que aquela era a hora em que ela viraria o jogo e o faria sentir-se péssimo por encrencá-la. “Papi eu juro que eu só levei ele para sair porque ele estava mesmo muito chateado. Eu sou a irmã mais velha, eu não deveria cuidar dele?”
“Roxy…” Suspirou ele. “Sua mãe está uma fera. Vocês têm a tarde toda para ir ao cinema, e a noite, e os finais de semana. Você sabe disso.”
“Por favor, pai. Fala com a mamãe. Quebra essa.”
“Eu vou falar com ela.” Resmungou ele e ela deu um gritinho, fino e delicado, pulando em cima dele e abraçando-o com força. “Mas é a última vez, Roxy. Ela vai confiscar esse carro se você ficar aprontando.”
“Eu sei, papi. Eu te amo.” Cantarolou ela, antes de entrar correndo para dentro da casa. Ele observou-a desaparecer e depois fitou o Toyota RAV branco, pensando se Regina estava certa. Ele torcia para que aquele veículo não fosse uma responsabilidade maior do que Roxanne pudesse lidar. Depois de tantas e tantas brigas, a última coisa que ele queria era que Regina estivesse certa novamente.
***
“Eu não acredito que ela está aqui.” Cochichou Roxy, sentando-se ao lado do irmão na beira da piscina. De longe, podiam observar Emma deitada na espreguiçadeira, vestindo um pequeno e delicado biquíni azul marinho e óculos escuros.
“Ela praticamente mora aqui, Roxy. Não sei porque você continua surpresa.”
“Papai poderia arrumar outra namorada.” Rebateu ela, colocando os pés na água e movendo-os lentamente, adorando a sensação.
“Eu gosto dela.”
Roxy suspirou. “Henry, você gosta de todo mundo.”
“E você não gosta de ninguém.”
Ela virou-se para ele, fingindo estar ofendida e ele sorriu. “Eu gosto de você, tampinha.”
“Bem, você é programada para gostar de mim. Eu sou seu irmão.”
“Faz sentido.” Ela esticou o corpo para trás, continuando o movimento dos pés embaixo d'água. “Você sabe que ela é a causa do divórcio, não sabe?”
“Nós não sabemos disso.”
Ela riu. “Acredite no que quiser, Henry. Mas eu sei que sim. Será que nossa mãe ainda gosta dele? Já passaram dois anos e ela nunca apresentou ninguém.”
“Eu acho que ela não conheceu ninguém tão sério assim, para apresentar para a gente.”
Roxy pensou no que isso significava. A ideia de sua mãe transando com outros homens, casualmente, lhe causou um ligeiro estômago. “Esquece esse assunto.” Comentou ela. Jefferson apareceu no campo de visão deles, o aparelho celular na altura da orelha e a outra mão balançando no ar. Eles trocaram um olhar que dispensava palavras.
“Ela deve estar triturando ele.” Comentou o garoto.
“Ele aguenta.” Rebateu ela.
“Eu não vi vocês chegando. Como vocês estão?”
A voz firme de Emma chamou a atenção deles. Eles inclinaram o corpo para trás, fitando-a. Ela havia encaixado os óculos de sol no topo dos cabelos loiros e cobriu o corpo com um robe leve de cetim. Roxanne levantou-se e se afastou, voltando para o interior da casa sem proferir uma única palavra.
“Roxy ainda não aceitou bem o divórcio. Não é culpa sua.” Justificou Henry e Emma sorriu, ainda que seus olhos estivessem fixos na figura de Roxy.
“Posso me sentar aqui?”
Henry assentiu, e ela assumiu a mesma postura de Roxy. O corpo alinhado e os pés balançando na água. “Achei que a essa altura ela ao menos falaria comigo. Eu sei que vocês me acham uma intrusa. Essa nunca foi minha intenção.”
“Emma, ninguém acha isso.”
“Sua irmã acha.” Reafirmou ela, um sorriso melancólico cruzando seus lábios finos.
“Roxy é complicada. A separação mexeu muito com ela.” Ele inclinou o corpo até deitar no chão.
“E com você não?”
“Não é isso. É que… nós vemos as coisas de maneiras diferentes.” Ele abriu os olhos e fitou o céu azul, decorado por poucas e espaçadas nuvens brancas. “Eles estão mais felizes assim. Meu pai é feliz com você. Dá para ver no rosto dele. No ano anterior ao divórcio, tudo que ele e minha mãe faziam era discutir. Ele saía de casa, minha mãe chorava no quarto. Então sim, é um saco eles não estarem juntos. Mas é melhor do que continuarem infelizes.”
Emma encarou o adolescente deitado ao seu lado, pensativa. Ela raramente conseguia ver a situação de qualquer outro ponto de vista que não fosse o de Jefferson e ela também estava ciente de que a versão dele era uma versão melhorada dos fatos.
“Eu não quero tirar o lugar da mãe de vocês nem me intrometer.” Ela suspirou. “Eu só queria conviver com vocês pacificamente. Que vocês gostem de mim como madrasta.”
Henry abriu os olhos. “Madrasta?” Ele levantou-se, sentando-se e encarando os olhos azuis da loira. “Vocês… Meu pai pediu você em casamento?”
“Sim…” Sussurrou ela, sem saber que reação esperar.
Foi então que Henry viu. A larga pedra, solitária, por cima do anel de ouro rosé. Emma estava noiva. Aquela era uma notícia que ele não esperava, embora algo em sua mente tentasse lhe convencer de que era óbvio. Era uma sequência lógica e ao menos isso ele entendia bem.
“É demais, não é?” A falta de resposta dele, adicionada ao seu olhar apagado, causou um ligeiro desespero nela. Talvez aquilo fosse demais. Talvez fosse cedo demais.
“Não, é que... E-Eu não esperava… Mas parabéns Emma. Para vocês dois.” Saudou ele, de modo desajeitado e tímido. Ele se levantou rapidamente, sorrindo para ela. “Eu preciso ir. Lembrei que tenho dever de casa.”
Emma observou-a partir com pressa para dentro da edificação. Segundos depois, ela esticou o braço e abriu a mão, analisando o anel em contraste com o fundo azul da piscina. Casar-se seria fácil. O difícil mesmo seria entrar para aquela família.
***
“Como assim atropelou alguém?”
Regina ergueu as sobrancelhas. “Ah obrigada, Rosie. Agora todos do restaurante sabem que atropelei o rapaz.”
A loira riu, voltando a enrolar seu garfo na massa macia de macarrão. Dona de uma joalheria chamada Pixie Dust, Rosie Bell era uma empresária de sucesso e uma das melhores amigas de Regina, desde a adolescência.
“Mas ele se machucou muito?”
“Não o suficiente para ficar quieto. Um mal-educado e grosseiro.” Resmungou Regina. Ao perceber o sorriso incriminatório no rosto da loira, ela arqueou uma das sobrancelhas e manteve o garfo cheio de rúcula no ar. “O que?”
“Ele deve ter causado uma impressão e tanto. Você raramente ofende pessoas que não conhece.”
“Rosie, foco. Estávamos falando de Jefferson.”
“Como sempre…” Rebateu a loira em um sussurro que não passou despercebido pela amiga.
“O que você quer que eu diga? Eu preciso falar com ele. Ele também tem responsabilidades. Roxanne está completamente fora de controle desde o divórcio e não é culpa dela.”
Rosie respirou fundo. Empurrou os ombros para trás e inclinou o corpo para a frente, estabelecendo contato visual. “O problema, Regina, é que eu só escuto isso. Jefferson, Henry, Roxanne e Delegacia. Dentro desses dois anos, eu posso contar nos dedos das mãos quantas vezes você saiu para se divertir.” Regina entreabriu os lábios, prestes a se defender, mas Rosie ergueu o dedo indicador. “Como mulher, Regina. Como indivíduo, e não como mãe.”
Regina suspirou, empurrando a salada para longe dela. Seu apetite subitamente fora incinerado por aquelas palavras.
“Eu nem ouso perguntar quando foi a última vez que você teve um orgasmo causado por outra pessoa.”
“Rosie…” Sibilou ela, o rosto ganhando um tom ligeiramente enrubescido.
“Meu ponto é: você precisa viver. Todos eles estão seguindo a vida, com ou sem as suas asas de águia ao redor. Você não é só a delegada, Regina. Ou só a mãe.”
Regina respirou fundo, olhando ao seu redor como se procurasse algo que ela mesmo não sabia o que era. De maneira delicada, aproximou-se da mesa e encarou os olhos azuis da amiga. “A delegada me atrapalha, Rosie. Tudo ocorre maravilhosamente bem até que eu tenho que tirar a alma do coldre. De repente, todos tem um compromisso. Todos precisam ir embora.”
“Você não pode desistir por causa desses panacas. Eu sei que nenhum homem nunca vai chegar aos pés daquele loirinho britânico pelo qual você é secretamente apaixonada, o cantor, mas podemos achar alguém que compense a diferença.”
Regina riu. “Tudo bem. Eu prometo que vou me esforçar.”
“Você tem alguém em vista? Aquele cara bonitinho do seu trabalho?”
“Graham? Não, Deus me livre. Não tem absolutamente nada ali.” Respondeu ela, sorrindo abertamente e chamando a atenção dos homens na mesa ao lado.
“Você nunca vê a maneira que ele te olha. Até um cego consegue ver, Regina.”
“Isso é ofensivo, Senhorita Bell.”
“Valerie me convidou para ir com ela em um barzinho, fica na estrada, quase na fronteira da cidade. Passaremos na sua casa as 21.”
“Eu não lembro de ter dito que iria.”
“Eu não lhe dei outra opção, Regina.”
A morena revirou os olhos e alcançou sua garrafa de água, trazendo-a até os lábios e ingerindo seu líquido. Mentalmente, começou a fazer a lista das coisas a fazer naquela tarde. Número um, marcar a audiência e acompanhar o mandato de busca para a casa daquele político sob auditoria. Número dois, ligar para Jefferson e perguntar se Henry e Roxy voltariam para casa hoje. Mas ela sabia que não. Roxy estava ciente da discussão que a aguardava, e evitaria isso enquanto fosse possível. E finalmente, número três: encontrar algo para vestir que não gritasse aos quatro ventos a sua profissão.
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