Roleta Russa
6 Capítulo 6
Regina e John entraram no prédio da JoJo Humanitary, vestidos à paisana. John Graham era um parceiro incrivelmente dedicado e o braço direito dela, e ela esforçava-se em ignorar algumas atitudes dele que às vezes acabavam situadas exatamente no limite entre o âmbito profissional e pessoal. Logo que se identificaram, foram guiados até uma porta lilás, no lado esquerdo do prédio.
Uma linda mulher os atendeu. Olhos verdes, cabelos ruivos de uma cor viva, um semblante que transmitia a mais profunda paz. Mas algo, um brilho avermelhado marcava suas írises e Regina soube que ela esteve chorando. “Estamos atrapalhando, Senhora Andrews? Podemos voltar em outro momento.”
“Não, não, minha querida.” Sinalizou ela, recebendo-os com carinho e guiando-os aos sofás simples, mas macios de veludo rosa. “Querem beber algo? Só temos chá e café, mas são bons.”
“Agradeço, mas não.” Começou Regina. “O seu caso chegou aos meus cuidados e eu estou o reabrindo. Quero me aprofundar na morte de seu marido e na identidade do Papai Noel.”
A mulher respirou fundo. Caminhou lentamente até a sua cadeira, sentando-se. Regina percebeu que John parecia um pouco hipnotizado pela beleza e tomou a dianteira. “Eu penso em Carl todos os dias… como é seu nome mesmo, querida?”
“Delegada federal Regina Mills e meu parceiro, John Graham.”
A ruiva sorriu, docemente. “Eu penso em Carl todos os dias, Regina. Quando olho ao redor, e vejo as coisas que consegui conquistar depois da morte dele. Ele merecia estar aqui, ele merecia ver como as coisas melhoraram.” Ela suspirou, os olhos marejados. “Quando tudo começou, éramos eu e ele contra um império de tráfico humano. Nós só tínhamos um ao outro.” Uma lágrima escorreu pelo rosto dela e ela rapidamente a limpou. “Tudo o que somos hoje foi por causa dele.”
“Eu vi pelas evidências que eles ameaçaram matar a senhora, não seu marido. Alguma razão pela qual eles decidiram trocar o alvo?”
“Milhares de policiais já me fizeram essa pergunta, Senhorita Mills.” Ela sorriu, os lábios curvando-se quase que imperceptivelmente em uma tentativa falha de sorriso. “Mas eu não sei. Às vezes eu desejo que eles tivessem mantido o alvo correto. Que tivesse sido eu no lugar dele. A vida sem ele é solitária.”
“Você tem alguma ideia da identidade do Papai Noel? Alguém que apresentasse ameaças a vocês? Um antigo inimigo, mal-entendido, desafeto, qualquer coisa parecida com isto?”
“Não costumávamos ter desafetos. Carl era uma das pessoas mais gentis e educadas que eu já conheci na vida. Eu não sei como é que uma pessoa não gostaria dele. Não havia o que não gostar.” Concluiu ela com um sorriso triste.
“Eu sinto muito por sua perda, Senhora Andrews.” Comentou John e Regina segurou-se para não revirar os olhos. Que bela ajuda, Graham.
“Eu também sinto, ainda mais porque até hoje ninguém pagou por ela.”
“Me permita fazer meu trabalho e eu garanto que chegaremos aos culpados.” Replicou Regina, encarando a mulher na sua frente com seriedade.
Madeleine Andrews levantou o olhar e devolveu o mesmo à Regina, estabelecendo um firme contato visual. “O que lhe faz achar que seu trabalho será melhor que dos outros delegados e investigadores que já trabalharam no caso?”
“Correndo o risco de parecer pretensiosa, Senhora Andrews, eu garanto a você que confio no meu trabalho. Eu não vou parar até chegar ao fundo dessa história. Garanto a você que eu vou fechar este caso, custe o que custar.”
A ruiva olhou para ela, sorrindo como se algo muito óbvio tivesse pipocado em sua mente. “Este caso me custou o meu marido, Regina. Está disposta a sacrificar o seu por isso?”
“Bem, eu não tenho mais marido, então acho que estou qualificada para isso.”
Madeleine riu. Ela pareceu rejuvenescer durante aquele lapso de alegria, mas rapidamente mergulhou em sua couraça de sofrimento e seriedade novamente. Regina respirou fundo, olhando em volta. Havia fotos de muitas mulheres resgatadas. Muitas delas em situações deploráveis, que foram auxiliadas pela JoJo Humanitary, a instituição fundada por Madeleine em memória de Carl Andrews. Carl havia sido morto depois de inúmeras ameaças recebidas por eles, todas assinadas por alguém que se denominava Papai Noel.
De acordo com os processos judiciais que havia lido por madrugadas a fio, Papai Noel era a pessoa maligna e perversa que financiava embarcações, voos, viagens de carro, tudo que fosse utilizado para transferir cargas de mulheres aos potenciais compradores. Pensar no que aquelas mulheres deveriam passar na mão desses compradores fazia o estômago de Regina revirar várias e várias vezes até ela sentir uma ânsia imensurável.
“É difícil olhar para elas.” Comentou a ruiva, percebendo o que Regina observava. “Elas chegam até mim em seu limite. Com medo, sem esperança, sem perspectiva. Como seres humanos perdidos e desamparados. Mesmo as ajudando, eu me sinto impotente demais.”
“Você tem feito mais do que milhares de pessoas.” Rebateu Regina.
“Ainda assim, não é suficiente.” Madeleine respirou fundo. “Antes de vocês chegarem, recebi a mensagem de que um carregamento de chilenas que estávamos monitorando desapareceu do nosso radar. Vinte e cinco mulheres que eu deveria ter salvo e de alguma forma, não fomos discretos o suficiente. Eles perceberam a vigilância e desapareceram.”
“Nós vamos encontrá-los.”
“Há mais alguma coisa que em que posso ajudar vocês? Darei uma palestra em um colégio no sul do Brooklyn, mas posso cancelar se houver a necessidade.”
Regina balançou a cabeça. “Não é necessário. Já estamos de saída. Eu precisava de algumas confirmações suas, já que aqueles processos não são necessariamente atualizados. Como eu lhe disse, meu método de trabalho é mais minucioso.”
“Mulheres são a chave do futuro, Delegada. No que depender de mim, estou à disposição para ajudar. A qualquer hora, qualquer dia. Apenas me ligue.” Madeleine estendeu o cartão para Regina, e um para Graham, mas a delegada percebeu que eles permaneceram segurando o cartão por mais tempo que o necessário.
“Tenha um bom dia, Senhora Andrews.” Despediu-se a morena, saindo do escritório em seguida. Graham veio ao seu encalço, parando ao seu lado, frente à porta do elevador.
“Você fez a marcação do escritório?” Sussurrou ela, e ele apenas balançou a cabeça, confirmando. Ótimo.
Entraram no elevador, e a porta fechou-se à frente deles. “O que foi aquilo lá dentro?” Perguntou ela, sorrindo para ele.
“O quê?”
“Me poupe, Graham. Você e Madeleine Andrews.”
Ele ficou levemente enrubescido e Regina não conteve o riso. “Você está ficando vermelho, Graham.”
“Eu só achei ela bastante bonita.”
“Pela maneira que ela colocou o cartão na sua mão acho que foi recíproco.” Brincou a morena, e logo eles saíram do elevador, caminhando na direção do estacionamento.
“Não importa. Não é nela que estou interessado.” Respondeu ele, encarando Regina.
Ciente das intenções nas palavras dele, ela lambeu os lábios e engoliu ruidosamente antes de continuar o resto do caminho em silêncio.
***
Robin sentou-se do lado dele, observando o moreno digitar furiosamente uma lista interminável de números. Killian parecia cansado, e também pudera, ele não poderia sentir-se diferente cedendo às exigências de seu pai. Era um caso sem volta.
“Você parece infeliz.” Comentou e percebeu que o irmão o olhou rapidamente, mas não parou o que estava fazendo.
“Você também não parece o homem mais feliz do mundo, Robin.”
“Mas pelo menos eu faço o que gosto.” Resmungou o mais velho, levantando-se e andando pelo escritório, inquieto.
“Alguém aqui precisa ter responsabilidade.”
Robin sorriu, mas seu sorriso era apenas a representação de sua incredulidade. Um reflexo do sarcasmo que implorava para ser solto. “Eu tenho responsabilidade pelas minhas coisas. Abraçar os problemas do mundo como um mártir não é bem minha praia.”
“Do mundo também não abraçaria, mas são os problemas do teu pai. Que você se recusou a aceitar e eu tive que fazê-lo.”
“Ninguém te pediu para fazer isso, Killy. Você fez porque quis.”
Killian afastou o teclado, irritado. “O que você quer aqui, Locksley?”
“Eu vim para rever meu irmão, mas pelo jeito, só encontrei o empresário. Me ligue quando o cara legal e gente boa voltar. Peça para ele ir ao meu apartamento e levar algumas cervejas.”
Killian afastou-se da mesa, caminhando até a janela e observando o tráfego que começava a engarrafar. Sentia-se igualmente preso, como se não tivesse como andar para lugar nenhum, preso em uma marginal interminável de escolhas feitas em seu lugar. “Você acha que é tudo uma brincadeira, Robin. Você precisa encarar a vida real, onde nós adultos temos responsabilidades. Onde fazemos coisas que não queremos.”
Robin balançou a cabeça, negando-se a aceitar. “Não, Killy. Você não vai transferir a culpa da sua amargura e descontentamento para mim, eu não vou pegar essa bola. Você deveria ter dito ao papai que não queria gerenciar as filiais. Ter se posicionado, ter dito o quanto você gostava de tocar, mas preferiu o caminho mais fácil. Preferiu agradar e levar um tapinha nas costas. Pois bem. É por isso que eu recusei essa merda. Você não tem liberdade. Você namora as mulheres mais lindas que todo mundo já viu, mas não dura mais que duas semanas porque elas não aguentam a sua infelicidade. Eu posso não andar por aí com o carro do ano como você, mas eu estou bem em paz com a minha vida.”
“Que vida, cara? Você divide seu apartamento com outra pessoa, e pilota uma moto e toca em bares nos finais de semana.”
“Eu estou satisfeito com isso, Killian. E você, está satisfeito com seu belo apartamento no High Royalty que permanece indubitavelmente vazio e o seu carro do ano que mais vê a garagem desse prédio que a estrada?”
“Não dá para conversar com você mesmo.” Sibilou o moreno, afastando-se.
“Você não quer conversar. Você quer me culpar porque acha que está tudo uma bosta para você.”
“Marian esteve aqui.” Comentou Killian, pegando uma cerveja do cooler de Robin e abrindo, bebericando alguns goles curtos.
“Fazendo o que?”
“Conversar com o pai.”
Robin fechou os olhos, irritado. “Eu não quero ela aqui dentro. Muito menos conversando com ele. Já tenho bastante problemas, não preciso de mais.”
“O que você fez para ela?” Questionou ele, encarando Robin com curiosidade.
“Marian tem dificuldades em aceitar que acabou. Acabou, simples assim. Nós não somos compatíveis, queremos coisas diferentes, estávamos em vibes bem diferentes.”
“Ele gosta dela, você sabe.”
“Ele pode gostar de quem ele bem entender, mas eu não quero ela aqui dentro, vasculhando nas coisas e muito menos tentando se aproximar de mim novamente.” Robin respirou fundo e voltou a beber, ingerindo um longo gole. Marian era um assunto que o irritava muito; dentre todas as coisas que ela poderia ter feito, ela fazia justamente a que mais o incomodava. Ela o sufocava.
Passos na escada os deixaram em posição de alerta, e Robin ergueu a cabeça, observando seu pai entrar no escritório. “Robin, não sabia que estava em casa.”
“Minha moto está exatamente na porta, fica difícil entrar sem saber que estou aqui, pai.” Rebateu ele, sem paciência alguma para joguinhos. Ignorou o olhar de Killian que o repreendia silenciosamente.
“Ah sim, aquela lataria.” Resmungou seu pai e Robin revirou os olhos.
“É melhor eu ir embora.”
“Sim, fuja. Você está expert nisso.” Provocou Ben, tossindo em seguida.
“Pai, pare de provocar ele.” Pediu Killian.
“Você sabe que é verdade, Killian. Seu irmão deveria ajudar você com a administração e não perder tempo escutando adolescentes em escolas ou tocando aquelas músicas horríveis em bares de quinta categoria. Ele não tem mais dezessete anos.”
“Você sabia que eu estou aqui ainda, pai?” Respondeu Robin, irritado.
“O que é que você sabe sobre minhas músicas se nunca se deu ao trabalho de ver nenhuma apresentação minha?”
“Eu não perco tempo com essas coisas.”
Robin riu. “Só com essas porcarias de farmácias. Tantos remédios e você com a saúde tão ridiculamente debilitada, parece até uma piada. Do que adianta, esse monte de dinheiro? Ninguém para usufruir.”
“Eu esperava que a essa altura eu teria netos, mas vocês são um fracasso como filhos.”
Killian encarou o pai com os olhos arregalados, o rosto transmitindo sua incredulidade. Robin percebeu o semblante do irmão. “Você achou que ele teria outra opinião sobre você porque você se mata de trabalhar para ele? Bem-vindo ao mundo real, Killy. Ele não se importa e ele continua desapontado. Mazel tov.” Ele virou-se para o pai. “A maior razão de você não ter netos é porque você destrói nossas chances de ter reais relacionamentos por causa dessa sua obsessão com dinheiro.”
“Se tivesse um filho, você veria que dinheiro não é uma obsessão, Robin. É necessidade.”
“Necessidade é aquilo que precisamos para viver bem, pai. Dez filiais é apenas seu materialismo ficando à mostra. Gostaria de saber o que mamãe pensaria disso.”
Killian arregalou os olhos, intercalando os olhares entre Robin e seu pai. Incrivelmente, seu pai virou-se e voltou para o interior da casa sem dizer uma palavra e Robin foi embora sob o mesmo silêncio glacial, deixando o moreno desamparado no meio do escritório e perguntando-se o que acabara de acontecer ali.
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