Roleta Russa
4 Capítulo 4
“Você faz esse papel de descolada, mas eu acho que é só fachada. Você é uma filhinha da mamãe, Roxy.” Provocou ele, impulsionando o corpo no balanço ao lado dela.
Ela revirou os olhos. “Você é tão engraçado, Tyler.”
“Por quê?” Indagou ele, balançando com mais força, observando uma parte da turma girando no carrossel que ela havia religado.
“Quem é você para falar de fachada, Ohill?” Rebateu ela, encarando-o por cima de seus cílios longos e marcados. “Todo mundo sabe que você é o filhinho do papai. O atleta exemplar que já tem vaga garantida na firma de advocacia que seu papai vai abrir em seu nome.”
“Não é verdade e você sabe disso.”
“Por favor. Todo mundo sabe que você não tem namorada porque sua mãe não aprova ninguém. Ninguém é boa o suficiente para o bebezinho da mamãe.”
Tyler pulou do balanço, caindo em pé alguns metros à frente. Ele caminhou até ela, parando na sua frente. Roxy ergueu o olhar e fitou o garoto à sua frente. Manipulável era a palavra que ela usaria para ele em primeiro momento, seguida milimetricamente pela palavra gostoso. “Ainda assim você não perde a oportunidade de dar em cima de mim.”
“Eu não tenho interesse nenhum em namorar você.” Brincou ela, a língua batendo contra os dentes lascivamente. “Talvez alguns amassos.”
“Eu gosto disso.”
Tyler debruçou-se e ela permaneceu parada, observando se ele teria coragem de seguir adiante. Mas ele não parecia preocupado. Deslizou uma mão para trás da nuca dela, afastando os cabelos castanho escuros e tomou seus lábios em um beijo delicado e suave, um beijo que Roxanne correspondeu gradativamente. Mas eles não tiveram a oportunidade de continuar por muito tempo. Alguém apareceu gritando, mas eles não conseguiram entender as palavras. Foi quando uma lanterna lançou um feixe de luz que quase os cegou que eles perceberam do que se tratava.
A polícia havia chegado.
***
Regina estacionou o carro de qualquer jeito, enfiando-o na primeira vaga que encontrou. Caminhou até a entrada da delegacia, onde Jefferson a esperava com a habitual expressão de quem havia feito merda e precisava de ajuda. Percebeu que ele a olhou de cima a baixo, reparando minuciosamente na roupa que ela estava vestindo. “Onde você estava?” Ela revirou os olhos e continuou andando, mas ele alcançou seu antebraço, segurando-a delicadamente. “Você estava em um encontro?”
“É sério, Jefferson? Nossos dois filhos estão sob custódia e você quer discutir a minha vida amorosa?”
Ele ergueu as palmas das mãos como quem estava se defendendo, e ela passou por ele, furiosa. Se ela não estava extremamente irritada até aquele momento, agora estava. Ele não tinha nenhum direito de questionar sua vida pessoal. Passou pela recepção, retirando o distintivo e exibindo-o para a atendente. “Posso falar com ele?” Pediu, procurando pelo delegado responsável.
“Ele está na sala dele.”
Regina assentiu, respirando fundo e seguindo caminho até a última sala do corredor. Jefferson a seguiu, mas não pode deixar de observar a maneira que os policiais olhavam para ela. Isso não havia mudado nada. Ela bateu na porta duas vezes, e esperou. Alguns momentos depois, um homem grisalho atendeu a porta. Ele abriu um sorriso que era quase diabólico, olhando Regina de uma forma que deixou até mesmo Jefferson desconfortável. “Regina Mills Hatter, que prazer recebê-la.”
“Apenas Mills.” Pediu ela. “Não sei se conhece meu ex-marido, Dr. Hatter.”
“Conheço apenas como o advogado que faz meus réus escaparem entre meus dedos.” Rebateu o homem, encarando o outro com certa animosidade.
“Faço o meu trabalho, Delegado.”
“E eu tento fazer o meu, Doutor.”
Regina encarou Jefferson como se quisesse arrancar os olhos dele com as unhas. Aquele não era o momento, nem o lugar para ficar urinando ao redor como um macho alfa. Sua filha e seu filho estavam em alguma sala daquele lugar, e ela dependia da generosidade de Leopold Blanchard para que aquilo não se tornasse um problema muito, muito maior.
“O que a traz aqui, Regina?”
Perguntou o homem de idade, sentando-se na sua acolchoada cadeira de couro preto e sinalizando para que o par à sua frente fizesse o mesmo. Regina respirou fundo. “Meus filhos estão aqui. Parece que foi uma invasão à propriedade privada.” Ele acompanhou o raciocínio dela, esboçando um leve sorriso. “Mas parece que Roxanne foi encontrada com entorpecentes.”
“E o que você quer que eu faça?”
“É uma quantidade passível de classificação como tráfico?” Questionou ela, e Jefferson imediatamente rebateu, encarando-a com incredulidade.
“Regina?!”
Ela fechou os olhos, mantendo os lábios fechados por alguns segundos antes de virar-se para ele. “Eu apreciaria se você ficasse quieto, Jefferson. Eu preciso saber em que situação estamos para encontrar a melhor situação.”
“Ah, a garota.” Riu Leopold, remexendo em alguns papéis. “Preciso dizer, Regina, que bela personalidade essa menina tem. Bastante temperamental.” Regina sentiu o rosto queimar. Era óbvio que Roxanne não iria passar por ali sem deixar o rastro de seu comportamento explosivo. “Mas não, nada quantitativo para ser processado como tráfico. Pela quantidade, ela se encaixaria em usuária.”
“Encaixaria?” Questionou Jefferson, inclinando-se para a frente.
“Suponho que vocês estão aqui para pedir que isso não seja passado para a frente, correto?”
Os olhos de Regina abriram-se ainda mais. Foi quando ela se deu conta do que estava fazendo. Ela estava infringindo a lei, descaradamente, para proteger seus filhos. Não era nisso no que ela acreditava. Não, ela não podia fazer isso. Sim, ela era sua filha, mas ela estava errada. Roxanne precisava aprender que existem leis, que existem limites e ser filha de uma policial não era o aval para fazer o que bem entendesse. “Sim” Ela ouviu Jefferson dizer, e balançou a cabeça.
“Não.”
Os dois homens a encararam, surpresos. “Regina, o que você pensa que está fazendo? Ela vai ter uma menção na ficha criminal se você seguir adiante.” Questionou Jefferson, levemente irritado. Ela sabia, pela maneira que o vinco entre as sobrancelhas dele se atenuou e pela respiração rala e profunda. Mas não se importou.
“Vir aqui foi um erro. Me desculpe, Leopold.” Pediu e ele consentiu, encarando-a com o dobro de curiosidade agora. “Nós vamos dar seguimento normal às queixas.”
“Não, nós não vamos. Regina, é a sua própria filha. Você não tem coração?” Sibilou Jefferson e ela mordeu o lábio inferior, irritada.
“Ela é a nossa filha. Minha e sua. E apesar de você ter ensinado a ela que leis podem ser contornadas, ela vai aprender que não é bem assim. E se você tentar adulterar o curso da justiça, Hatter, pode ter certeza que eu lhe dou voz de prisão.” Ameaçou. Virou-se para Leopold que agora os observava com uma espécie de prazer sutil e acenou polidamente. “Desculpe-me pelo transtorno, Blanchard.”
“Estou à disposição, Mills. O garoto pode sair agora, com a fiança. Só vamos liberar a garota pela manhã.”
“Ótimo. Obrigada.”
Regina levantou-se e saiu da sala, seguindo o corredor de volta sem dizer uma palavra. Foi até o balcão da atendente. “Eu vou pagar a fiança de Henry Mills.” A atendente balançou a cabeça e rapidamente passou a digitar algumas coisas. Jefferson segurou-a pelo braço, chamando sua atenção.
“Eu não acredito que você vai deixá-la aqui.”
“Suas crenças não me interessam, Jefferson. Você deveria agradecer por eles estarem sendo gentis conosco. Se ela não fosse filha de uma delegada as coisas seriam bem diferentes.”
Ele grunhiu, levando as mãos aos cabelos e bagunçando, tentando respirar fundo e dissipar a raiva que sentia dela naquele momento. “Você sente alguma coisa, Regina? Emoções? Afeto? Esse maldito trabalho acabou conosco e vai acabar com o resto da família. Ele sempre vem acima de tudo e de todos.”
Regina fechou os punhos, forçando-se a permanecer calma e não socar o rosto dele no meio de uma delegacia. Ela virou-se lentamente, o rosto impassível, o olhar glacial e os lábios formando uma linha de desprezo. “Eu sinto sim, Jefferson. E eu senti muito quando você me traiu. Quando você, e não esse ‘maldito trabalho’ destruiu um casamento de praticamente vinte anos. Eu senti muito enquanto eu tive que lidar com dois adolescentes e seus corações partidos e um treinamento extenso para a polícia federal enquanto você postava fotos dos seus eventos ao lado de Emma. Você não tem o direito de me dizer o que eu pareço ou não sentir. Você não se importou quando tentou tirar meus filhos de mim, e agora quer palpitar sobre como eu os educo.”
“Você foi mais ausente do que presente, Regina. E eu não traí você.”
Ela riu, subitamente sentindo-se cansada de ficar debatendo com ele sobre isso mais uma vez. “A pior parte disso tudo é que você realmente acredita nisso, Jefferson. Não interessa se você só beijou os lábios dela depois de ter assinado os papéis do divórcio, você não entende? Você já estava apaixonado antes.”
Ele ergueu os olhos e percebeu. Aquilo era o que realmente a havia quebrado ao meio, e continuava quebrando, e não havia nada que ele pudesse dizer sobre isso. Ela estava certa, ele já estava apaixonado antes. Percebendo que ele não tinha resposta, ela se voltou para a atendente e inseriu o cartão na máquina, digitando sua senha logo em seguida. Assim que o pagamento foi comprovado, ela guardou o mesmo e pediu à atendente que dissesse à Henry que ela esperaria no carro.
“Você vai passar a noite aqui esperando por ela.” Foi tudo que ela disse à Jefferson antes de sair, e ele apenas abaixou a cabeça, aceitando que não havia mais o que ser discutido. Ele iria ficar.
***
A viagem para casa foi quase silenciosa. Henry ligou o rádio, em um tom baixo, e Regina não disse nenhuma palavra. Isso era ainda mais assustador. Ele preferia que ela gritasse, que dissesse o quanto estava desapontada com ele. Adentraram o prédio, dividiram o elevador, entraram no apartamento gigantesco e o silêncio permaneceu.
“Tome um banho antes de dormir, você está fedendo à bebida barata.” Disse ela, o tom de voz baixo e cansado antes de se dirigir para seu quarto, deixando-o na sala.
Ele respirou fundo. Por que pensara que aquilo acabaria diferente? Por que ouvira alguém como Tyler Ohill? Caminhou na direção do seu quarto, fitando o quarto de sua irmã. Seu pai dissera que ela passaria a noite lá, por conta de entorpecentes. Mas ele sabia que a irmã não estava com nada antes, e perguntou-se quando é que aquilo acontecera. Arrancou a roupa, jogando-a no cesto de roupas antes de entrar no banheiro. Ligou o jato de água gelada e enfiou-se embaixo dele, sentindo o corpo estremecer.
Mas a água não iria lavar seus pensamentos. Ensaboou o corpo, mantendo-se ali e respirando fundo. Tudo havia dado errado e sua mãe… Ele parou. Sua mãe. O que havia acontecido com ela? Sentiu-se repentinamente culpado. Ela não saía muito. Vivia soterrada de trabalho, e eles haviam estragado mais um noite de lazer dela.
Algum tempo depois, saiu do banheiro e enxugou-se. Vestiu algo confortável, moletom, e uma camisa branca. Secando o cabelo, decidiu que deveria ao menos pedir desculpas por ter estragado tudo.
Jogou a toalha na cama, mas lembrou-se que ela odiava isso. Pegou a mesma e jogou na cesta de roupas antes de sair do quarto, caminhando até o quarto dela. Bateu uma vez. Não conseguiu ouvir nada, e perguntou-se ela já estava dormindo. Bateu mais uma vez e ouviu um som baixo, sufocado. “Mãe?”
“Sim, Henry.” Disse ela, a voz frágil e atípica.
“Mãe, você está chorando?”
Ele empurrou a porta e entrou, preocupado. Regina estava sentada na cama, na lateral da mesma, os pés apoiados no chão e os braços dobrados, cotovelos apoiados nas coxas e as mãos ao redor do rosto. “Henry, não é um bom momento para conversarmos, querido.”
Ele engoliu em seco, sentindo-se aflito. Caminhou até ela, ajoelhando-se e se enfiando entre as pernas dela. “Mãe, me desculpa, por favor. Eu não queria te deixar triste. Por favor, não chora.” Adiantou-se ele, segurando-a pelo rosto e limpando o rosto dela com os polegares. “Você não merece isso, mãe, me desculpe, de verdade.”
Ela sorriu, lágrimas caindo ainda mais depois desse ato de carinho. Ela segurou-o pelo rosto, puxando-o para si e beijando-o delicadamente na testa. “Não fique assim. Eu discuti com o seu pai e falamos coisas péssimas um para o outro.” Ela continuou acariciando o rosto do adolescente, observando-o. Ele parecia genuinamente preocupado e ela sentiu-se ligeiramente melhor por ter criado um ser humano tão precioso.
“Vocês discutem sempre e nem por isso você chora, mãe. O que está acontecendo?”
“Eu…” Lágrimas ameaçaram cair, mas ela respirou fundo, segurando-as consigo. “Seu pai me faz pensar sobre o quanto eu deixei a desejar como mãe, Henry. Eu me ausentei mais do que deveria. Eu sei que sua irmã me culpa por isso. Eu sei que parece que eu não me importei com o divórcio, porque trabalhei incansavelmente durante os extensos meses que aquele processo bagunçava nossas vidas. Mas eu… eu amo vocês. Eu daria tudo o que tenho, minha vida, carreira, tudo por você e por sua irmã.”
Ele sorriu, surpreendendo-a com o movimento rápido e abraçando-a com força. Regina sorriu, aceitando o abraço e correspondendo. “Ninguém tem dúvidas do quanto você ama a gente, mãe.” Sussurrou ele, apertando-a naquele abraço como se aquela junção fosse unir todas as partes quebradas e fazê-las voltar a ser um inteiro. “Não escute tudo o que meu pai fala. Nem tudo é aproveitável.”
“Henry, você deve respeitar seu pai.” Ralhou ela, deixando que ele saísse de seu abraço lentamente.
“Eu respeito, mas você sabe que é verdade.”
Ela riu, limpando o rosto molhado pelas lágrimas. “Eu sei.” Henry afastou uma mecha para trás da orelha dela, debruçando-se e beijando o topo da cabeça dela.
“Vamos tomar um café, você está precisando.”
“Henry, você não vai tomar café nenhum porque não quero o senhor acordado a noite toda.”
Ele sorriu. “Um chá, então? Eu só quero passar mais um tempinho conversando com você.”
Regina sorriu. Isso ela poderia fazer. “Tudo bem. Um chá. E depois o senhor vai direto para a cama, entendido?”
“Entendido, senhora.”
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