Sentado perto da vidraça, ele brincava com o cartão, passando-o por entre seus dedos. Estava com essa dúvida desde que vira a misteriosa morena no pub, mas ela saíra tão abruptamente que ele não tivera tempo de convencê-la a lhe dar mais informações. Ou um nome. Ela era um paradoxo; ao mesmo tempo que ele queria revirar os olhos para seu mal humor, ele queria vê-la rir. Lembrou-se do sorriso dela e sentiu um leve comichão na base do estômago.

Olhou para o relógio em seu pulso. Roxanne Mills já deveria ter chegado. Quando comentou com os professores sobre a estudante, a reação geral não fora favorável à aluna. Cuidado com ela. Temperamental. Você estará pisando em ovos, Locksley.

Quando cursou a faculdade de psicologia, por opressão e pressão de seu pai, Robin achou aquilo uma insignificante perda de tempo. Não queria exercer aquela profissão. Não queria o negócio da família, não queria continuar o legado de ninguém. Queria tocar sua música e tocar a vida das pessoas através dela, mas Ben Locksley não era exatamente flexível. Anos depois, após passar por um concorrido processo seletivo e ser selecionado como conselheiro estudantil, ele começou a se encantar por algumas nuances da profissão. Gostava de ideia de ajudar jovens a encontrar sentido em suas vidas, em ajudá-los a defender seus ideais e acreditar em seus sonhos. Era algo que ele adoraria que alguém tivesse feito por ele no passado.

Uma batida na porta o tirou de suas fantasias e ele pediu que entrasse, enquanto colocava o cartão de visitas no bolso. “Conselheiro Locksley?” Questionou a garota que estava parada à sua porta. Vestida com uma minissaia jeans que escondia bem pouco e uma regata, ela parecia pouco confortável. Usava tênis extremamente brancos que ele considerou serem igualmente novos. O cabelo, solto, era escuro e liso. Ela estava carregando duas bolsas e mascava um chiclete preguiçosamente enquanto vasculhava o ambiente.

“Roxanne Mills?” Questionou ele.

“Sim.”

“Entre e sente-se, senhorita. Está atrasada.” Rebateu ele, adotando a postura séria e profissional referente à sua profissão. Dobrou as mangas de sua camisa social até estarem na metade de seu antebraço e percebeu que ela estava analisando-o de cima à baixo. Sentiu-se ligeiramente exposto apesar de estar completamente vestido.

Robin deu a volta em sua mesa, sentando-se sobre a mesma. “O que a traz aqui, Roxanne?”

Ela ajeitou-se no sofá de camurça marrom. Encarou-o por algum tempo, e ela percebeu que o rosto dela ficou levemente corado. “Eu… eu fui obrigada a fazer acompanhamento. É parte da pena alternativa.”

“Pelo que você está sendo punida?”

“Isso é importante?”

“Se não quiser falar a respeito, podemos falar sobre outra coisa. Perguntei porque me ajudaria a dar uma direção melhor a essas sessões. Mas você tem o controle aqui.”

Ela respirou fundo. “Quinta feira passada eu e um grupo de amigos invadimos o parque de diversões, aquele que fechou. A polícia nos pegou e eu estava com posse de entorpecentes. Foi isso.”

Claro que ele ouvira falar sobre o grupo de adolescentes que havia sido levado à delegacia. Mas isso não lhe dizia respeito. “Entendo. Eram seus?”

“Que?”

“As drogas. Eram suas?”

Roxanne fitou os olhos azuis dele, sentindo-se ligeiramente irritada. Isso não era da conta dele. Nada daquilo deveria estar acontecendo. Não somente bastava ter que passar por essa porcaria de terapia, tinha que ser com um homem bonito. Um cara que a deixava sem jeito apenas olhando para ela. “Não é da sua conta.”

Ele riu. “Você acabou de entregar o fato de que não eram suas. Por que levou a culpa por outra pessoa?”

“Como é que você sabe disso?” Rebateu ela, cruzando os braços. Parecia estar brevemente irritada por ter sido desmascarada. “Como sei que não é um blefe seu?”

“Eu estudei anos para estar aqui, Senhorita Mills. Anos para entender que sua postura, suas palavras, sua respiração, a maneira que você cruza e descruza as pernas para silenciar seu nervosismo e o fato de estar mordendo o lábio inferior são mensagens não verbais e as suas mensagens me dizem que você assumiu uma culpa que não era sua. Só me deixa curioso sobre o motivo.”

“Se você é tão bom assim, descubra sozinho.” Replicou ela, agora visivelmente irritada.

Ele sorriu, balançando a cabeça. Agora as palavras dos outros professores passavam a fazer sentido. Esticou o pescoço, alongando-o, antes de levantar e começar a andar de um lado para o outro lentamente. “Me conte sobre algo que a incomoda.”

“Muitas coisas me incomodam.” Resmungou ela.

“Então a que mais lhe incomoda. Estar aqui nessa terapia comigo não é uma opção.”

Ela riu. “Você lê mentes, Senhor Locksley.”

“Eu conheço adolescentes.”

Roxy pensou em todas as milhares e milhares de coisas que a incomodava; o desafio era selecionar apenas uma. Por ordem de intensidade era um filtro magnífico. Ela não assumiria, mas estar ali naquela sala não ocupava nem os primeiros cinco lugares. De fato, era um alívio poder falar o que pensava sem se preocupar em ser julgada por isso. Havia lido tudo sobre o sigilo que os profissionais de saúde mental eram obrigados a respeitar.

“Emma Swan.” Respondeu ela.

“Temos um nome.” Ele virou-se para ela, parando no meio do caminho. “O que mais lhe incomoda no mundo é uma pessoa?”

“Sim.”

Pobre mulher, pensou ele. “É uma amiga? Parente? Namorada de um possível paquera?”

“Ninguém usa mais a palavra ‘paquera’. Volte-a para o fundo do baú, junto com as calças boca-de-sino.”

Ele riu, mas permaneceu em silêncio, dando a ela a oportunidade de continuar. “É a atual namorada do meu pai.”

“Há quanto tempo seus pais são divorciados, Roxanne?”

“Por favor, me chame de Roxy. Roxanne parece minha mãe quando está brava comigo.” Pediu ela, e ele balançou a cabeça. “Fazem dois anos desde a separação física, quinze meses desde que os papéis foram assinados.” Os olhos dela se encheram de lágrimas, e ele observou quão firme ela lutou para impedir-se de demonstrar qualquer coisa. “A culpa é toda dela, Emma. Há milhares de homens pelo mundo. Solteiros, livres, dispostos a ter uma namorada que come alpiste e que parece atriz de novela. Mas não, a bonitinha tinha que vir atrás do meu pai e estragar tudo.”

“Ele ainda estava casado quando se envolveu com essa mulher, a Emma?”

Roxy sentiu sua garganta doendo. Mas respirou fundo e continuou. “Ele diz que não, mas eu sei que sim.”

“E como sua mãe se sente sobre isso?”

Foi quando ele percebeu que havia alcançado o ponto chave. Os olhos dela ganharam um brilho escuro, e ela entreabriu os lábios, como se quisesse falar algo, mas calou-se. Permaneceu em silêncio por algum tempo, fitando os próprios pés. “Eu gostaria de não falar sobre a minha mãe.”

“Algum motivo específico?”

“Eu só não quero falar sobre ela. Posso?” E lá estava novamente, a postura defensiva. Os muros erguidos rapidamente, impedindo-o de entrar. Mas ele estava em paz com isso; para uma primeira sessão, ela havia sido mais receptiva do que ele havia esperado.

“Sim. Como eu disse, você está no controle.”

A respiração dela voltou a acalmar-se. Quando ele sentiu que havia estabilizado novamente, continuou. “Conte-me sobre a quinta-feira.”

Ela mordeu o lábio inferior e ele concluiu que ela estava pensando se deveria ou não falar sobre isso. Mas ela começou a falar, e ele entendeu isto como um sim. “Deveria ter sido um dia como qualquer outro. Henry está sofrendo com uma desilusão amorosa por essa garota.” Ela revirou os olhos. “E eu queria fazê-lo sentir-se melhor. Achei que Grace deixaria de ser burra e ficaria com ele, eu sei que ela tem uma queda por ele, mas não. A menina é tão lerda que eu nem sei.”

“Henry é…”

“Meu irmão.”

Robin assentiu. “Continue.”

“Estávamos bebendo, todo mundo curtindo a noite numa boa. O máximo de risco que eu corria era trazer Henry bêbado para casa, mas tudo bem. Só que Tyler Ohill aconteceu. Ele deu a ideia de irmos para o parque e eu não queria ir, mas…”

“Se você não queria ir, o que a fez mudar de ideia?”

“Eu…”

“O que aconteceu antes de você aceitar ir ao parque?”

“Por que é que algo deveria ter acontecido antes?” Replicou ela, desconfiada.

Ele não podia dizer. Era óbvio que se ela não queria fazer aquilo e o fez, foi resultado de um gatilho. O que quer que tenha acontecido antes teve influência no que aconteceu depois e ele encontrou-se bastante interessado naquele processo.

“Roxy, você não precisa se defender de mim. Eu não estou aqui como informante da sua mãe, do seu pai, ou do colégio, ou do seu agente da condicional. Meu interesse aqui é ajudar você. Mas a menos que você me deixe ajudar, isso aqui vai ser uma total perda de tempo. A escolha é sua.”

Ela encarou os olhos azuis por algum tempo. Por alguma razão, a única coisa que eles lhe transmitiam eram confiança.

“Eu encontrei com um garoto muito arrogante que se acha demais. Ele se chama Leo.”

“O que ele lhe disse?”

“Por que você…” Começou ela, mas respirou fundo e mordeu o lábio inferior, fechando os olhos por alguns segundos. “Certo. Confiar.” Repetiu ela, como um mantra. “Ele insinuou que queria me conhecer. Sair comigo para conversar.”

“Isso não é uma coisa boa?”

“Não.” O semblante dela fechou-se, mas não completamente. “Eu não gosto disso. Eu não quero conhecer ninguém, não quero ninguém apaixonado por mim porque eu não me apaixono por ninguém.”

“Você tem medo do amor, Roxy?”

Ela riu. “É claro que não. Só bobos tem medo do amor. Eu só não quero isso para mim. Quer dizer, olha o que isso trouxe para a minha família. Olha no que Henry se meteu porque não consegue esquecer aquela garota. Amor é sofrimento, senhor Locksley, e eu não quero isso para mim.”

Ele fitou a garota à sua frente. Tão bonita, tão incrédula. Tão apática à sentimentos. Era realmente algo que ele levaria muito tempo, mas ele aceitou o desafio. “Foi o seu medo que fez você se afastar dele na direção de Tyler Ohill. Tyler era uma escolha segura.”

“Talvez.”

Ela não estava mais estabelecendo contato visual com ele, o que apesar do senso comum, era uma coisa positiva. Significava que ele havia tocado profundamente e que ela pensaria a respeito durante a semana. “Você está disposta a fazer as tarefas que irei lhe dar aqui?”

Ela revirou os olhos. “Ah não. Você só pode estar brincando? Tarefas? Isso aqui deveria ser tipo aqueles filmes de divã, por que é que eu vou ter tarefas?”

“Roxy.” Chamou ele e ela bufou, emburrada.

“Certo. Eu me comprometo a fazer isso.”

“A tarefa para essa semana é sair com esse rapaz. Leo. Deixe-o levar você para conversar. Pelo menos uma vez. Acha que pode fazer isso?”

“Que tipo de conselheiro dá uma tarefa dessas?”

“Sim ou não, Roxanne?”

“Okay!” Respondeu ela, resignada. “Eu vou fazer isso. Mas é só uma vez, entendido? Aquele menino me irrita.”

Robin assentiu, sorrindo. Uma única vez iria bastar. “Mesmo horário na semana que vem, Roxy.” Disse ele e ela ajeitou as bolsas no ombro, o rosto fechado.

“Certo. Não morra de saudades, Senhor Locksley.”

Ele manteve o sorriso no rosto, observando-a sorrir. Aquela terapia seria muito mais produtiva do que ele havia imaginado. Respirou fundo, e levou a garrafinha de água mineral aos lábios, bebendo alguns goles. Faltavam poucos minutos para o próximo estudante entrar, e ele resolveu fazer uma rápida ligação para seu irmão.

***

“Vai me contar o que aconteceu entre você e Regina ou terei que adivinhar?” Perguntou ela, cruzando o escritório com os saltos altíssimos. Jefferson fitou o quadril marcado pela saia lápis, mas a voz dela logo cortou suas fantasias. “Meus olhos estão aqui em cima, Jefferson.”

Ele tirou os óculos de leitura e colocou sobre a mesa. Emma caminhou até estar na frente da mesa, os braços cruzados. “Eu quero saber e quero saber agora, o que diabos aconteceu naquela delegacia.”

“Nós discutimos. Nada de novo, Emma.”

“Parece diferente dessa vez.”

Ele respirou fundo, empurrando o processo judicial para longe dele. “Certo. Ela falou algumas coisas que eu não soube responder e então ela saiu da delegacia ainda mais chateada comigo. Foi isso. Posso trabalhar agora?”

“O que ela disse?”

É claro que ela não o deixaria em paz antes de saber tudo detalhadamente. Jefferson apertou o interfone. “Madalena, traga uma aspirina para mim por favor.” Assim que desligou, voltou sua atenção para a loira estonteante à sua frente. “Ela disse que eu já estava apaixonado por você antes de me separar dela, e é isso que mais a machuca.”

Emma sentiu o calor do seu corpo ser dissipado, como se uma frente fria tivesse lhe abraçado imediatamente. “Mas você não deveria dar atenção a isso, Emma. Ela só está…”

“Não.” Rebateu ela, antes mesmo dele continuar a frase.

“O que?”

A secretaria bateu na porta, e entrou, entregando a ele o remédio e o copo d'água. Ela parecia ter sentido o clima entre eles, pois assim que ele lhe entregou o copo ela voou porta afora, deixando-os novamente a sós.

“Não ouse fazer isso, Jefferson.” Sibilou Emma, e ele pode sentir quão furiosa ela estava. “Será que você não percebe o quanto está errado? Em ficar alimentando essa rivalidade entre mim e Regina? Eu não quero ser inimiga dela. Eu não quero vê-la como alguém que eu tenho que ficar incansavelmente trocando farpas. Ela não está errada. Você estava apaixonado.”

“Eu sei disso.” Resmungou ele, massageando as têmporas.

“Isso não vai dar certo, Jeff.”

Os olhos dele arregalaram-se com a declaração dela. “Emma, pelo amor de Deus. Eu vou pedir desculpas para ela.”

“Eu estou falando do casamento. Eu não quero.” Ela percebeu que ele empalideceu, e ela continuou tentando seguir uma linha de raciocínio. “Não desse jeito. Se for para eu ficar no papel de madrasta malvada, de nova esposa que odeia tudo e todos. Eu não quero ser rejeitada pelos seus filhos, e não quero ser odiada por Regina. Se isso não mudar, não vai haver casamento.”

“O que você quer que que faça, Emma? Eu não posso obrigá-los a gostar de você.”

“Você acha que eles só gostariam de mim se fossem obrigados?” O sorriso triste nos lábios dela lhe causou o mais amargo arrependimento. Ele realmente não sabia quando calar a boca e odiou-se por isso.

“Eu não quis dizer isso.”

“Mas disse.” Ela respirou fundo e caminhou até à mesa, apoiando as mãos ali. “Comece parando de me colocar acima deles o tempo todo, Jefferson. Seja um pai melhor. Um ex marido melhor. E deixe que quando eles se aproximarem de mim, eu os faça gostar de mim por livre arbítrio.”

“Emma…”

“Vou dormir no meu apartamento hoje. Você não está convidado.”

Jefferson deitou a cabeça na mesa de mogno tailandês, ouvindo enquanto sua namorada se afastava, os saltos tilintando contra o chão recém encerado. No instante seguinte, empurrou as coisas no chão criando um estrondo alto. Precisava parar de estragar as coisas ou ia perder tudo. Pela segunda vez.