Roleta Russa
21 Capítulo 21
Sentada ao redor da mesa de mármore branca, Regina tentava se concentrar. Reuniões com Madeleine Andrews carregavam por si uma dose extra de sentimentalismo e dramaticidade que ela não fazia questão alguma, mas era obrigada a aturar. Graham, por outro lado, parecia compadecer profundamente da dor e angústia da viúva.
Ela não estava colaborando. Se facilitasse o acesso a JoJo Humanitary, eles teriam como verificar cada uma das entradas e saídas, os bancos de dados, dados trocados, baixados, e assim descoberto quem era a ponte para a organização do Papai Noel. Embora ela admirasse a fonte de vontade da mulher – abraçando a causa pela qual perdera seu próprio marido com o afinco de toda uma vida – era um obstáculo para a execução de seu trabalho.
“Não queremos o nome dos seus informantes, não queremos seus contatos, nem nada disso, Sra. Andrews.” Rebateu Regina e isso chamou a atenção dos advogados dela, ao menos. “Mas você precisa assumir que sim, informações tem vazado da sua organização também e isso compromete o nosso trabalho. Só queremos acesso ao sistema central para detectarmos anomalias em processos de entrada e saída.”
Ela pareceu ponderar por algum tempo. Virou-se para o lado, cobrindo os lábios e cochichando algo para o advogado e esse assentiu com a cabeça. No instante seguinte, ela pareceu aceitar, balançando a cabeça. “Tudo bem. Mas quero todas as atividades que serão realizadas em um documento oficial. Eu tenho uma lista infindável de mulheres a proteger, novas identidades, paradeiros que não podem ser revelados e eu não quero que isso caia nas mãos erradas. Eu não confio na sua gente, Delegada.”
Regina assentiu, pedindo a Graham que acionasse os escrivães da polícia para escreverem detalhadamente qual seria a operação realizada. “Minha gente está fazendo tudo o que eles podem, Andrews. Eles trabalham dia e noite nessa operação. Nós...” respirou fundo e lembrou-se que não podia mencionar a infiltração. “Não aceito que você questione a lealdade da minha equipe.”
“Se eles fossem tão leais quanto você diz aquelas mulheres não estariam mortas. Será este o único vazamento? Será que não haverá outras mortes até que você perceba que essa pessoa não está brincando de pega-pega conosco?”
“Você está insinuando alguma coisa?”
“Eu não sei, Delegada. Você acha que estou insinuando alguma coisa?”
“Você não estava lá, Andrews. Eu estava. Eu vi a pilha de corpos sem vida, eu vi sim o que o Papai Noel é capaz de fazer. Não venha com essa manipulação barata que você está acostumada a fazer contra todos ao seu redor achando que vai conseguir algo de mim porque você não vai. Tudo que existe a respeito dessa organização eu já li tantas vezes que posso recitar cada página dos incontáveis processos investigativos abertos em nome deles. Eu não estou brincando de pega-pega, eu estou investigando um suspeito de altíssima periculosidade e estou completamente ciente disso.”
“Você acha que porque viu...”
“Se você questionar o meu comprometimento com o caso novamente eu vou escrever uma intimação formal para nós duas conversarmos na delegacia.”
“Não há necessidade. Andrews apenas se alterou, não é mesmo?” Respondeu Graham, tentando apaziguar o clima entre as duas mulheres.
“Eu não estou aqui para condenar você, Sra. Mills.” Continuou a ruiva, encarando-a vividamente do outro lado da mesa. “Mas você já conheceu alguma dessas mulheres? Tem noção do tipo de coisa a que são submetidas? Os terrores a que são acometidas? Eu vejo isso o tempo todo, eu trabalho com isso. Por opção minha, é claro. Mas não deixa de ser doloroso ver quão quebrantada uma mulher pode se tornar. Essas mulheres têm seu espírito de vida esmagado enquanto ainda estão vivas, e cada uma delas que eu não consigo salvar é como um fantasma da infelicidade e do mais cruel sofrimento que me assombra. Como se elas tivessem sofrido tudo isso à toa.”
“Madeleine...” Pediu Regina, tomada pela dor carregada na voz da ruiva.
“Você não consegue enxergar a raiz amarga disto pois não é real para você. Nunca aconteceu com você ou com alguém que você ame. Você veria o que estou tentando mostrar a você. Cada segundo que passamos aqui nessa sala é o pesadelo de uma mulher lá fora. É um destino que está sendo selado para sempre.”
“Eu não preciso passar por isso para saber o quanto pode ser traumatizante, doloroso ou excruciante.” Rebateu a morena, sentindo-se ofendida. “Você acha que eu vejo o que sentada naquela delegacia ou quando precisamos enfrentar uma operação policial gigantesca? Histórias bonitas de amor e superação? Eu vejo sofrimento, eu vejo pessoas perdendo tudo, eu vejo pessoas morrendo, pessoas matando, pessoas devastadas no fundo de seu âmago. Mas isso não importa. Isso não pode me moldar. Eu preciso levantar todos os dias e me lembrar de fazer o melhor que posso para evitar que isso continue. Eu não posso evitar o que já aconteceu, então eu trabalho para tentar evitar que se repita no futuro e que os responsáveis sejam penalizados. É isso que a polícia faz. Trabalha.”
“Então trabalhe mais rápido. Nós estamos perdendo para eles.”
Regina encarou-a, furiosa. “Eu posso ter perdido uma batalha, mas isso não quer dizer que entreguei a guerra, Sra. Andrews.” Levantou-se, batendo de leve no ombro de Graham e ele levantou-se também. “Eu enviarei o documento assim que este for redigido. Preciso voltar ao trabalho agora.”
Madeleine observou em silêncio quando a delegada se enfiou na jaqueta de couro e saiu da sala sem olhar para trás.
***
Elas tinham camas. Era mais do que Ariel tivera na última semana e ela não sabia se deveria sentir-se grata por isso. O preço por elas poderia ser alto demais. No primeiro dia, elas foram confinadas no quarto. Um quarto com diversas beliches e garotas que possivelmente estavam lá há mais tempo.
“O que vocês fazem aqui?” Perguntou Teegan. Ela tinha uma pele morena e cabelos cacheados, na cor preta, bem definidos. A essa altura eles já estavam um pouco embaraçados e sua definição estava comprometida.
“Nós mantemos essa porcaria funcionando.”
“Que porcaria?”
A morena de cabelos lisos sorriu. Ela estava se maquiando, e então olhou por cima do ombro para as novatas. “Nós estamos dentro de uma boate chique e conceitual no México. Os clientes daqui são... distintos, se vocês entendem o que quero dizer. Há shows sensuais todos os dias, e algumas de vocês irão se apresentar, outras vão ajudar no bar, outras vão ajudar no caixa. Mas não fiquem se iludindo achando que alguém aqui vai ajudar.”
“Nós vamos só trabalhar?” Perguntou Amelie, esperançosa. A garota pequena e doce, olhos verdes e pele branca, sorriso angelical e voz suave era nada mais do que uma garota em corpo de mulher. Bastava olhar para ela para identificar o medo em seus olhos. Ela parecia aliviada com a ideia.
A morena encarou-a por alguns segundos, suspirando em seguida. “Meu amor, você vai fazer o que eles quiserem que você faça. Vocês não querem contrariar essas pessoas, acredite. Eu já vi coisas horrorosas aqui. Coisas que eu daria tudo para apagar da minha memória. Meu conselho para vocês é colaborem, só assim vão continuar vivas.”
“Eles nunca tiveram nenhuma visita da fiscalização, polícia, vigilância sanitária?” Questionou Ariel, tentando parecer não tão informada, mas também nem um pouco burra.
“Olha só, temos uma espertinha.” Sibilou uma ruiva do fundo do quarto.
A morena riu, e então fitou a policial. “A fachada desse bistrô é uma pizzaria familiar. Ninguém nem desconfia o que acontece aqui, querida. Ninguém sabe da existência dele, a não ser os donos ou os funcionários.”
A porta se abriu bruscamente e todas se calaram. “O que está acontecendo aqui?”
Ninguém deu uma resposta ao homem alto e musculoso que as encarava com raiva. Os braços deles eram tonados e veias saltavam sobre a pele, tornando-o assustador. A arma em sua cintura apenas agravava a situação. “Não fale demais, Manuela.” Sibilou ele, e a morena que estava se maquiando revirou os olhos.
“Eu não sei o que posso dizer à essas garotas que elas não verão ao vivo, Lance.”
Ele entrou no quarto, e Ariel percebeu que havia mais dois homens à porta, cobrindo o perímetro. A segurança deles era opressora de tão organizada. A maioria das portas tinha reforço duplo e todos eles andavam com armas. Muitos homens para um número pequeno de mulheres. Lance caminhou até ela, enfiando as mãos nos cabelos de Manuela e puxando-a para trás, os lábios deslizando sobre a bochecha dela. “Você ainda vai ser minha favorita.”
“Me solta, Lance.”
“Pede por favor.”
“Me solta, seu filho da puta.” Resmungou ela, e ele empurrou-a para a frente, rindo.
“Você tem sorte que eu gosto mesmo de você.” Virou-se para o resto do quarto, olhando uma por uma. Seus olhos permaneceram em Ariel por algum tempo antes de ele continuar sua checagem. “Novatas, vocês devem estar prontas em uma hora. Virei busca-las para a triagem e ver quem vai trabalhar onde. Tem roupas ali no closet. Se virem. Qualquer coisa perguntem para a mamãe aqui.” Zombou ele, apontando Manuela.
Assim que ele saiu, elas ouviram as trancas sendo viradas. Ariel contou os sons, e supôs que deveriam ser pelo menos 3 trancas corridas e a fechadura. Que ótimo. Deitou em sua cama, pensando nas informações que obtivera. Elas haviam saído dos Estados Unidos. Só sabia que estava em algum lugar do México, nos fundos de uma pizzaria – se é que isso era verdade. Mas se fosse, quantas pizzarias não deveriam existir em todo um país? Possivelmente, todas os meios de comunicação eram estritamente vigiados. Ela não podia arriscar-se dentro da boate. Precisava pensar em algo não óbvio.
“Vai ficar deitada aí?” Questionou Mulan, chamando sua atenção.
Ariel percebeu que elas estavam saindo do closet improvisado com o mesmo tipo de roupas que ela havia ido à audição. Vestidos grudados ao corpo, saltos altíssimos, sutiãs de renda à mostra. Ela teria que voltar a atuar, e teria que dar o melhor de si. Torcia religiosamente para que Regina estivesse fazendo algum progresso.
***
“Boa tarde, Senhor Locksley.”
Robin girou na cadeira, e então observou a garota parada à sua porta.
“Oras se não é minha paciente preferida.”
Roxanne sorriu, caminhando para dentro do consultório. Ele tinha se acostumado tanto a vê-la com suas roupas normais que a estranhava nas roupas sofisticadas que ela usava para trabalhar. Camisas de flanela, saias justas, saltos altos, uma maquiagem que era quase imperceptível – quase outra pessoa. “Você não está quebrando alguma lei que diz que o psicólogo não pode ser parcial?”
“Talvez eu seja um fora da lei.”
“Eu duvido.”
Ela sentou-se, cruzando as pernas e colocando a bolsa ao seu lado. Robin retirou os óculos de leitura, levantando-se e caminhando até à frente de sua mesa, sentando-se ali como fazia sempre. Sua camisa social branca estava dobrada nos antebraços, a gravata ligeiramente solta caindo sobre a calça social preta. “Você parece tão adulta com essa roupa.”
“Eu preciso parecer.” Comentou ela, sorrindo. “Eu gosto de ser levada à sério na editora.”
“E como tem sido as coisas por lá?”
“Ótimas!” Sorriu ela, os olhos brilhando de animação. Ele percebeu a luz que se espalhou sobre o semblante dela. “Tudo está caminhando muito bem. Eu me sinto no meu lugar, sabe? Eu sinto que sei o que estou fazendo, eu sei quem é quem, o que precisa ser feito, eu me movo bem dentro dos meus cronogramas...”
“Sua tia lhe deu algum feedback?”
“Na verdade, ela ainda não apareceu por lá. Eu levei as duas últimas edições até ela.”
“Tenho certeza que ela ficará orgulhosa.”
“Obrigada, Senhor L.”
Robin sorriu, e manteve o contato visual. Roxy encarou-o também, por algum tempo; o silêncio entre eles parecia confortável.
“Como você está se sentindo hoje, Roxy? Eu digo, de verdade, não superficialmente. O que você tem pensado quando está sozinha, em silêncio? Ou quando está dirigindo?”
Ela pareceu pensar a respeito por algum tempo. Descruzou as pernas, colocando-as lado a lado. “Eu estou irritada.”
“Por que?”
“Porque meu pai é um imbecil com a minha mãe.”
“Só isso?”
“Sim...” Respondeu ela relutante e Robin arqueou as sobrancelhas, insinuando que ele sabia que havia mais. “Eu também estou brava com Leo.” Ela suspirou. “Eu sei que nós não éramos um casal, mas nós devíamos ser amigos, pelo menos. Ele começou a sair com uma pessoa e nem se deu ao trabalhar de me contar, eu precisei ver com meus próprios olhos.”
Robin franziu as sobrancelhas. Não fazia sentido, Leo estava tão apaixonado pela garota. “Você o viu beijar outra garota?”
“Sim.” Respondeu ela, resoluta.
“Na boca?”
“Bem, não... mas eles estavam bem íntimos.”
“Eles podem ser amigos, você não acha?”
“Eu sei que ele é como um filho para você, mas eu sei o que estou dizendo. Eles são mais do que apenas amigos. Eu sei o que eu vi.”
Robin resolveu deixar o assunto para outra ocasião. “O que seu pai fez?”
“Ele... Eu não sei explicar. Porque quando eu tento explicar, eu me dou conta de que eu preferi meu pai por muito tempo e deixei isso muito claro para a minha mãe, e hoje isso me afoga em arrependimento. Eu fazia questão de esfregar isso na cara dela. Quando ela me contou do divórcio, eu a culpei e disse que queria morar com o meu pai, e que diria isso para um juiz se fosse necessário.”
“Você não conseguirá nada além de arrependimento ao lamentar o passado, Roxy. Ele está ali por uma razão. Para lhe ensinar algo. Se você errou, bem, entenda seu erro e aprenda com ele. Mas não fique remoendo isso.”
“Só que hoje eu vejo as atitudes do meu pai e percebo que ele é imaturo demais. Ele é teimoso e birrento e fica querendo disputar as coisas o tempo todo com ela. Minha mãe está tentando, sabe? Ela melhorou muito de uns tempos para cá. Ela tem tentado ser mais compreensiva com toda a situação, ela tem passado mais tempo comigo e com o Henry. Ela finalmente está nos ouvindo. Ela.... Minha mãe está tentando. E meu pai não.”
“E isso te deixa frustrada.”
“Frustrada e furiosa.” Completou ela, encarando o homem à sua frente. “Por que é que ele não pode agir como um adulto? Eu amo meu pai, mas eu...” ela suspirou. “Eu não quero vê-lo nem pintado de ouro, e isso me deixa desconfortável. Parece que estou sendo ingrata, ou desleal. Não sei muito bem.”
“Amar e apoiar alguém não é a mesma coisa que amar e apoiar as ações de alguém se essas ações machucam a ele mesmo ou outras pessoas. A primeira opção encoraja, a segunda autoriza. É preciso coragem para dizer “eu te amo, mas eu não posso apoiar o que você está fazendo.” Mas fazendo isso, você dará a essa pessoa, independente de quem seja, um incentivo para ela mudar. É muito mais eficiente do que ficar esperando que essa pessoa mude eventualmente. Eu sei que é mais fácil falar do que fazer, mas é melhor fazer do que ficar desejando ter feito.”
“Eu vou dizer isso a ele.”
“Como tem sido as coisas entre você e sua mãe?”
Os lábios dela se espalharam em um sorriso tímido, mas genuíno. “Estamos bem. Acho, de verdade, que nós nunca estivemos tão bem. Há muitas coisas que eu não me sinto pronta para falar com ela, há muitas coisas que eu queria dizer mas sei que vamos acabar brigando. Mas hoje eu não vejo minha mãe como uma ameaça, ou um predador me rondando. Eu sei que posso confiar nela. Eu sei que ela é uma mulher maravilhosa e que ela faz tudo o que pode por nós.” Roxy pensou em algo e riu. “E acho que ela tem ciúmes do senhor.”
“Eu sequer a conheço.”
“Eu sei, mas ela ouve meus comentários sobre você, ela sabe que você e Henry também se encontram eventualmente.”
Robin riu. “Diga a ela que não há nada para se preocupar. Sou apenas mais um professor visando o potencial de dois alunos que eu admiro muito.”
“Henry gosta muito de você.”
“Eu gosto muito de vocês dois.”
“Eu sei que não pode me contar sobre o que vocês conversam, mas eu quase não tenho visto Henry em casa. Às vezes me pergunto se ele está bem...”
“Seu irmão as vezes acha que ele não é bom o suficiente para vocês. Ele tem uma ideia cristalizada sobre você, talvez seja o amor de irmão, mas ele vê você como um exemplo, como um modelo.”
“Mas eu sou toda bagunçada da cabeça.”
“E ainda assim, ele a admira. Quando puder, e se assim quiser, pergunte a ele sobre seus desenhos, ou sobre qualquer assunto que seja do interesse dele. Faça-o compartilhar mais. Vai ajuda-lo muito.”
“Eu não fazia ideia de que ele se sentia assim.”
“Bem... cada pessoa carrega seus próprios demônios.”
Um relance triste passou pelos olhos dela e Robin segurou-se para não perguntar no que ela tinha pensado. Ainda não era a hora. “Eu sei bem.” Comentou ela, e depois suspirou. “Bem, Locksley, o que você tem a me dizer sobre você?”
Robin balançou as pernas, sorrindo. “O que é isso? Agora eu serei o paciente aqui?”
“Você não acha que é justo? Você sabe tanto sobre mim, eu gostaria de saber algo sobre você.”
“Tudo bem. Você tem cinco minutos.”
“Qual seu signo?”
“Isso é sério?”
“Eu acho astrologia um assunto muito sério, mas tudo bem. Próxima pergunta.... Há uma mulher na sua vida?”
“Sim.”
Os olhos dela se arregalaram, sorrindo. “É a professora French?”
“Não.”
“O que você pode me dizer então sobre essa mulher misteriosa?”
“Eu diria que ela é uma rainha. Ela é elegante, linda, sexy. Também é inteligente. Quando olho para ela eu vejo a determinação que corre por suas veias. Ela tem uma sensibilidade para a arte que insiste em ignorar e é muito leal às pessoas que ama.”
“Parece que o senhor está apaixonado.”
“Eu estou.”
“Não estou vendo nenhuma aliança.”
“É um assunto complicado.”
“Me conte, então...”
Ele suspirou. “Eu tenho medo de me atropelar. Pois é, nós adultos também temos medos quando se trata de relacionamentos. Ela é diferente de qualquer mulher com quem eu já tenha me relacionado e eu não quero cometer nenhum erro.”
“Mas não tomar decisão nenhuma é tomar uma decisão.” Rebateu Roxy e ele engoliu em seco.
“Eu sei.”
“Você não tem medo de ficar enrolando muito e essa mulher seguir em frente e encontrar outra pessoa?”
Ele encarou a garota à sua frente. “Sim, eu tenho.”
“O que impede você?”
“Minha família é tão complicada como a sua, Roxy. Meu pai não é um homem agradável, ela tem os problemas com a família dela, nós ainda não sabemos a que pé estamos.” Roxy sorriu, encarando-o como se tudo aquilo fosse óbvio e ele sentiu-se encurralado por ela. “O que foi?”
“Bem, o senhor é sempre sincero comigo e eu vou ser com você. Parece que você está com medo. Só isso. Se vocês dois tem problemas, não faz sentido ficarem juntos? Juntos vocês teriam reforço para lutar contra os obstáculos. Enquanto estão separados, cada um combate seus fantasmas sozinhos.”
“Eu não acredito que minha paciente está me dando uma lição dessas.”
Ela sorriu. “O senhor é um cara legal. Talvez ela não saiba o que sente, mas o senhor sabe. Acabou de dizer que está apaixonado. Diga isso a ela.”
“Eu direi.” Robin desceu da mesa, e pegou uma folha, estendendo-a à Roxy.
“O que é isso?”
“Um exercício para você preencher.”
“Eu te dou conselhos maravilhosos sobre a vida e você me paga com uma tarefa?”
“Eu preciso me certificar que você continua evoluindo.”
“Eu sou o ser mais evoluído que esse colégio já viu.”
“E a mais modesta, posso garantir.” Rebateu Robin, fazendo-a sorrir. “Essa tabela serve como um diagnóstico para mim. Eu vou basear a próxima abordagem nela. Você melhorou muito desde a primeira vez que entrou por essa porta; mas é hora de novos ares. Eu vou ler uma cópia com você. Como pode ver, à esquerda temos a coluna de “Eu me sinto” e à direita “Frequentemente, De vez em quando ou Raramente”. Você não precisa falar se não quiser, basta anotar aí.”
Robin entregou o lápis a ela.
“Podemos começar?”
“Sim.”
“Feliz.”
Roxy arqueou as sobrancelhas. Era confuso pensar sobre a sua vida agora, e sobre como ela era há alguns meses. Rabiscou ‘de vez em quando’ e escreveu ‘frequentemente’ no lugar.
“Triste.”
Sua vontade era colocar frequentemente, mas ela sabia que não podia ser injusta. A tabela tinha um propósito sério, ela deveria responder a verdade. De vez em quando.
“Ansiosa.”
Bem, ela não se sentia mais. Talvez um pouco quando ia se encontrar com Leo, mas ela jamais diria isso a ninguém. Raramente.
“Culpada.”
Robin observou em silêncio quando ela escreveu frequentemente. Dúvidas se ramificaram dentro de sua mente, mas ele continuou o exercício.
“Sem esperança.”
Ela balançou a cabeça, sorrindo. Raramente.
“Depressiva.”
Seus olhos encontraram os olhos azuis de Robin, e ela pareceu pensar por algum tempo. Ele não sabia se ela estava pensando na questão ou se estava incerta sobre escrever a verdade no papel. Torcia para que ela confiasse nele. Ela escreveu ‘de vez em quando’.
“Irritada. Bem, essa você não precisa nem responder.” Brincou ele e ela mostrou-lhe a língua.
“Eu não sou tão irritadiça assim.”
“Você sabe que é.”
“Talvez.”
“Vingativa.”
Ela mordeu a base do lápis. Não mais.
“Desapontada.”
Frequentemente. Obrigada, pai.
“Inspirada.”
“Inspirada no sentido de criatividade ou por outras pessoas?”
“Boa pergunta. Escolha o sentido que lhe agradar mais e coloque entre parênteses que eu vou entender.”
Ela pensou nas mulheres da sua vida, em sua mãe, em suas tias, inclusive em Locksley. Havia tantas pessoas que a faziam desejar mais, que a incentivavam a buscar mais, a perseverar por seus objetivos. Tantos exemplos a serem seguidos. Abriu um parêntese na frente do ‘frequentemente’ e escreveu bons exemplos na frente.
“Calma.”
“Isso só pode ser um jogo comigo.” Raramente.
“É um exercício padrão, eu juro.” Brincou ele. “Otimista.”
“Não é minha maior qualidade, mas talvez de vez em quando.”
“Sozinha.”
Ela pensou um pouco na resposta antes de escrever ‘de vez em quando’.
“Amada.”
Frequentemente. Obrigada, mãe.
“Alegre.”
“Ah, Locksley.”
“Não foi eu que escrevi.”
Raramente.
“Arrependida.”
Frequentemente.
“Ciumenta.”
Ela mordeu o lábio inferior. Ok. Ela ia admitir, mas apenas por causa de sua saúde mental e porque Leo Scarlet jamais teria acesso a tais dados. Frequentemente.
“Ferida.”
Frequentemente.
Ela esperou pela próxima fala, mas ela nunca veio. Ergueu a cabeça e percebeu que Robin a encarava, parecendo curioso. “Acabou?”
“Acabou. Quer adicionar alguma coisa?”
“Não.” Concluiu ela, entregando a ele a tabela. Robin delicadamente colocou-a de volta à pasta, sem olhar para as respostas e ela agradeceu-o mentalmente por isso. Não gostaria de ter suas emoções lidas à sua frente por um adulto, mesmo que esse fosse seu psicólogo. Mas Robin havia visto algumas das respostas, de qualquer forma. Sua mente estava trabalhando sem resposta no que poderiam ser os estímulos negativos que a perturbavam. Seriam seus próprios pensamentos? Seriam outras pessoas? Alguns ali ela poderia associar ao seu pai ou sua mãe, mas muitos eram um enigma. Talvez situações que não tivessem ocorrido da maneira que ela esperava que tivessem ocorrido.
“Eu tenho outra tarefa para você.”
“Você está levando muito a sério isso de tarefas, Sr. Locksley.”
“Eu prometo que não é difícil.” Ele deu meia volta à mesa e retirou um pequeno caderno de capa dura preta, entregando a ela.
“O que é isso?”
“Será seu diário de emoções. Ele é pequeno, então você poderá leva-lo quando sair e assim registrar o que tem sentido no decorrer dos seus dias. Foque nos seus sentimentos, independentemente de quais sejam. Preste atenção em que humor você está quando acorda, e como isso muda ou não muda durante o decorrer do dia. Repare que situações são combustíveis para o seu emocional e quais te deixam para baixo. Anote quem são as pessoas que fazem você se sentir bem e quem suga sua energia. Faça pequenos memorandos sobre trigger emocionais que lhe causem respostas físicas como tensão, perda de energia, borboletas. Você não precisa gastar horas fazendo isso. Dez minutos, ou até menos ao decorrer do dia vão bastar.”
“E depois?”
“A continuação do processo eu lhe explico na semana que vem. Quero ver se você consegue manter o ritmo por uma semana, pelo menos.”
“Qual o propósito disso?”
“Esse diário é uma ferramenta de recuperação emocional. É como um processo de rehab. Através dele você vai entender melhor seus sentimentos, o que os influencia e desencadeia. Aos poucos, você vai se sentir mais familiarizada consigo mesma, e com os sentimentos que vivencia.”
O alarme sonoro tocou, indicando o final das atividades do colégio. Robin sorriu. “É a sua deixa, Senhorita Hatter.”
Ela colocou o pequeno caderno na bolsa e levantou-se. “Obrigada, Sr. Locksley. Você é dez.”
“Mande um abraço ao seu irmão.”
“Eu mandarei. Até semana que vem?”
“Até semana que vem.” Sorriu ele, observando-a sair.
***
Emma estava encarando os números que corriam em tempo real. As curtidas nas postagens de seu Instagram aumentavam mais e mais, assim como o valor pago pelos anunciantes. Novos pedidos de merchandising e propagandas chegavam a cada dia em seu escritório, e ela podia escolher livremente entre eles. Havia construído um império através de seu projeto fitness e agora podia desfrutar dele, tornando-o ainda mais rentável e adicionado credibilidade a ele.
Não podia negar que as vezes era exaustivo. A cada dia que passa, novas musas de corpos esculturais nascem e se torna um desafio manter a atenção dos seus seguidores, patrocinadores, anunciantes. Horas e horas na academia eram obrigatórias para manter seu instrumento de trabalho intacto, assim como uma alimentação religiosamente regrada.
Algo que, naquela manhã, ela decidira decididamente esquecer. O tubo de Pringles havia sido espalhado por um prato, e ela comia uma batata atrás da outra, tentando aplacar o turbilhão de emoções e sentimentos que se debatiam dentro dela como gladiadores obstinados. “Dakota.” Chamou ela, e segundos depois uma jovem loira apareceu na porta. Dakota Linnois tinha dezessete anos, e fazia estágio em Mídias Sociais, trabalhando como assessora de Emma. Tinha cabelos loiros na altura dos ombros, lisos e sardas espalhadas pelo rosto de uma maneira tão única que a deixava ainda mais bonita.
“Sim, Emma.”
“Eu preciso que você adie tudo referente ao casamento. Ou ao Jefferson. Não quero mais que seja agendada aparições com ele, campanhas com ele, nem nada que o envolva. Por favor. E cancele o buffet.”
“Isso quer dizer que...”
“Sim, Dakota. É um término. Mas eu não quero isso na mídia por enquanto, por favor. Você é a única pessoa a quem estou contando isso, então pelo amor de Deus eu não quero abrir uma revista amanhã e estar em letras garrafais em alguma manchete. Não deixe vazar.”
“Entendido. O representante da Gatorade entrou em contato novamente. Perguntou se você leu a proposta dele e até quando terão uma resposta sobre o comercial de tevê.”
“Diga a ele que até terça feira eu consigo uma resposta definitiva. Obrigada.”
Dakota fechou a porta e Emma abriu a gaveta, retirando uma porção de contratos dali. Colocou a pilha à sua frente. Precisava de foco ou seus negócios iam despencar e ela precisava deles. Abriu a primeira pasta, referente à uma linha de roupas esportivas que a Adidas tentava oferecer a ela, mas pensou no quanto de tempo isso dispensaria. Seria produtivo? A visibilidade era tentadora vindo de uma marca internacional. O valor que eles queriam pagar era menor do que o valor que ela geralmente cobrava por esse tipo de propaganda. Suspirou, fechando a pasta. Não tinha cabeça para isso. Puxou mais duas batatas, odiando-se pelo tanto de gordura pobre que estava injetando em seu corpo.
Lembrou-se dele. Sentia saudade de Jefferson, mas as lembranças daquele jantar a assombravam como fantasmas macabros. Lembrou-se do olhar de Roxanne, da maneira dura e odiosa com que ela proferiu as palavras que marcaram a infame reunião para sempre. Talvez ela jamais fosse conseguir conquistar a garota, e sequer podia culpa-la. Se seu pai traísse sua mãe durante sua adolescência, bem, ela agiria de maneira diferente? A ideia era quase surreal de tão absurda. Seus pais eram seu exemplo de amor puro e real, amor verdadeiro e só o relance da ideia de que isso poderia um dia chegar ao fim lhe causava uma dor insuperável e insuportável. A verdade é que Jefferson jamais conseguiria forçar uma aceitação, e não é como se ele sequer estivesse tentando. Ele estava ocupado demais tentando ser melhor que Regina.
Duas batidas na porta a fizeram voltar para a realidade. O rosto delicado de Dakota apareceu na fresta da porta. “Você tem visita.”
“Os investidores da Skinny Food Inc. só deveriam chegar daqui a uma hora.”
“Ela... Não está agendada, mas disse que não vai demorar. Regina Mills.”
Emma engoliu em seco, levantando-se. “Peça a ela para entrar. Não me passe ligações, por favor.”
Dakota retirou-se, e Emma manteve-se em pé, apreensiva. Regina jamais havia visitado seu escritório; lhe surpreendia o fato de que a mesma soubesse sua localização, mas bem, ela era uma delegada, afinal de contas. O processo para descobrir poderia ter levado dois minutos. Segundos depois, a porta foi aberta e Regina apareceu. Os cabelos lisos caiam sobre os ombros, a parte inferior abrindo-se em ondas largas. Usava uma camiseta branca por baixo da jaqueta de couro, e uma calça jeans preta. “Emma.” Cumprimentou ela, aproximando-se.
“Regina.” Devolveu Emma, sorrindo sem saber exatamente o que fazer. “Sente-se, por favor. Você aceita alguma coisa, agua, café, chá verde?”
“Não, mas obrigada Emma.”
A loira sentou-se do outro lado da mesa, e por alguns segundos, elas apenas estudaram uma a outra, olhando-se em silêncio. Por fim, Regina endireitou a postura, tomando a dianteira da situação.
“Emma, eu...” Ela olhou para a loira que parecia apreensiva. Não era como se Emma estivesse esperando para lhe devolver o bote. Parecia mais que a jovem estava com medo do que viria, mas ainda assim, resignada a aceitar. Regina sentiu-se um pouco mal por isso. “Eu vim lhe pedir desculpas.”
“Eu que lhe devo desculpas, Regina.”
“E você já as pediu, outras vezes. Eu não fui justa com você durante o jantar, ou mesmo antes dele, e tem sido difícil para mim aceitar isso, porém é preciso.”
Emma respirou aliviada, sabendo que o teor da conversa não seria ruim como ela esperava. “Tudo bem, eu entendo você.”
“Eu não odeio você, Emma. Quando meu casamento acabou, as coisas não iam bem, mas eu queria acreditar que sim. Jefferson e eu estávamos brigando por coisas bobas e sem sentido, mas eu me convencia de que nada estava mudando de verdade, e talvez eu fizesse isso porque eu sabia, bem lá no fundo, que estavam.” Começou Regina, batendo a ponta dos dedos contra o braço da cadeira confortável em que estava sentada. “Quanto mais difícil as coisas foram ficando, mais eu me refugiei no meu trabalho, mas eu me ausentei, fugi e isso apenas afastou Jefferson cada vez mais. Ele reclamava da minha ausência no começo, e depois de um tempo, essa ausência passou a ser indiferente para ele. Porque ele havia conhecido você.”
“Regina, eu...” Pediu Emma, com o coração apertado, mas Regina estendeu a mão, continuando.
“Como eu disse no jantar, eu acho sim que você tem sua responsabilidade sobre o que aconteceu, mas a culpa não é sua. Não é culpa de ninguém. Somos todos responsáveis por nossos atos, e foram os nossos atos, meus, seus e dele que resultaram no que aconteceu.” Ela olhou ao redor antes de estabelecer contato visual com os olhos azuis à sua frente. “Ele me machucou muito. Eu não sei se ele ficou com raiva, ou se ele estava magoado, mas assim que o processo de divórcio foi fichado ele fez e disse coisas que me machucaram muito, e eu respondi à altura e isso desgastou ainda mais a nossa relação já quebrada. E eu tinha.... Eu não sei, Emma. Eu nunca odiei você, eu só me sentia ressentida. Porque você é tudo o que eu não sou, e eu me convenci de que você era melhor, e que Jefferson encontrara algo melhor do que eu.”
“Regina, isso é um absurdo.”
“Mulheres que encaram um divórcio depois de vinte anos de casamento acreditam em qualquer absurdo, Emma.”
“Eu jamais vou ser melhor do que você. Você foi o primeiro amor da vida dele, e é a mãe dos filhos dele. O primeiro casamento, as primeiras juras de amor, uma grande parte da vida dele. E eu estou em paz com isso.”
“Como você pode estar em paz com isso se terminou com ele?” Rebateu a delegada com um sorriso triste nos lábios.
“Isso é complicado.” Suspirou a loira.
“Me desculpe não a ter defendido no jantar. Eu sinto muito pela reação de Roxanne. Ela estava tentando.”
“Eu não a culpo porque Jefferson acabou sendo o gatilho de todos naquela mesa.” Rebateu Emma, respirando fundo. Segundos depois, seus olhos azuis encontraram os olhos castanho chocolate. “Se não se importa com a pergunta, ele está certo? Você está mesmo com alguém?”
Regina encarou-a, surpresa. Não imaginava que Emma teria coragem de lhe fazer essa pergunta, mas não ficou ofendida com a espontaneidade da pergunta. “Sim e não.” Respondeu, mas a expressão de Emma a instigou a dizer um pouco mais. “Robin é... especial.”
“O que quer dizer que não é apenas um affair.”
“Eu o adoro, mas ainda não sei se é uma boa ideia inseri-lo na família. Não sei se ele vai mesmo querer abraçar todos esses problemas, todas as complicações, dois adolescentes, um ex-marido problemático...”
Emma riu. “Você só está reproduzindo desculpas, Regina. O que você sente por ele? De verdade?”
Ela não deveria estar tendo esse tipo de conversa com Emma Swan, a noiva de seu ex-marido. Não fazia nenhum sentido; porém ao mesmo tempo, ela percebeu que toda a situação parecia extremamente natural. Não se sentia julgada pela mulher à sua frente. “Eu não sei, Emma. Eu tenho medo do que posso estar sentindo por ele. Robin é um homem incrível, e eu só uso essa palavra na falta de uma palavra que faça jus a tudo que ele representa. Ele é algo que há muito tempo eu não sei o que é, um amigo. Alguém com quem eu posso conversar, desabafar, ser eu mesma sem a necessidade de exibir uma fachada.”
“O seu rosto se ilumina quando você fala dele, sabia. Parece muito mais do que um amigo para mim.”
“Talvez Jefferson também tenha percebido isso.”
“Jefferson só está provando daquilo que ele serviu a você durante o divórcio. Deixe-o comer.” Brincou Emma.
“Fale com ele, Emma. Por favor.” Pediu Regina.
“Regina, você não deveria defende-lo. Não é seu papel advogar por ele. Jefferson fez um monte de cagadas e eu espero que ele faça a coisa certa dessa vez.”
“Mas ele realmente ama você. Eu posso estar em uma posição difícil e meu relacionamento com ele estar completamente arruinado, mas eu o conheço como ninguém, Emma. Ele adora você. Ele olha para você de uma maneira que eu jamais me senti sendo olhada por ele, e eu entendo que talvez tudo aconteceu como tinha que acontecer. Pelo menos converse com ele. Eu sei que você sente falta dele também, caso contrário não estaria se empanturrando de porcarias.” Respondeu Regina, apontando para o prato de batatas chips.
Emma riu, e em seguida, encarou os olhos castanhos. Aquela era uma conversa que ela nunca havia imaginado, em todas as suas piores viagens mentais. Nunca lhe passara pela cabeça ter a ex-esposa de noivo conversando tranquilamente com ela sobre relacionamentos, rindo e sentindo incrivelmente confortável na presença dela. “Você mudou bastante durante os últimos meses, Regina.”
“Eu me sinto mudando. Acho que é uma coisa boa, conseguir amadurecer mesmo depois de tanto tempo.”
“Isso é influência desse seu novo amigo?”
Regina sorriu. “Eu diria que um pouco disso sim. Ele é uma pessoa muito inteligente, e emocionalmente também. Robin não tem medo de me dizer que eu errei, ou que eu poderia fazer isso ou aquilo de uma maneira melhor. Ele me ajuda a crescer.”
“Eu sequer o conheço e já estou torcendo por vocês.”
“Não posso prometer nada, Emma. Eu realmente gosto dele, muito. Mas ainda estamos nos descobrindo.”
Dois toques na porta denunciaram a presença de Dakota. “Sra. Swan, os investidores chegaram.”
Emma assentiu com um gesto e Regina levantou-se. “Eu vou deixa-la trabalhar, Emma. Também preciso ir para casa. Obrigada por me ouvir, e por favor, pense no que eu disse. Converse com ele, e não cancele o casamento. Pelo menos ainda não.”
“Por que você se importa, Regina? Depois de tudo que eu lhe causei, depois de tudo o que Jefferson lhe fez...”
“Porque eu acredito no que você disse a ele, Emma. Nós somos uma família, mesmo que não seja a família mais feliz e harmoniosa que existe. Estou tentando cuidar dele como você o incentivou a cuidar de mim.”
Emma encarou-a em silêncio, e em seguida, Regina despediu-se, deixando a sala.
***
Leo colocou mais uma colher de chocolate em seu leite, mexendo-o distraidamente enquanto fitava o celular. Como se alguma coisa ali fosse mudar. Roxanne não respondia suas mensagens e ele desistira depois da oitava, afinal, isso não levaria a lugar algum. Ela estava online, ele sabia que ela estava lendo, mas se ela não queria conversar, ele não iria força-la. Só queria entender o que havia virado o jogo dessa maneira.
Cansado, sentou-se à bancada e encarou o copo por algum tempo. Suas costas doíam. Havia levantado livros demais na biblioteca. Toda a área de direito estava completamente desorganizada e ele não iria deixar uma senhora carregar aqueles tijolos sozinha.
Bebeu um longo gole de seu leite, e então deitou a cabeça contra a mesa. Por que ela não queria falar com ele? Rebuscou tudo o que havia feito durante o dia, mas bem, havia sido um dia como todos os outros. Ele fora às suas aulas costumeiras, almoçara, fora trabalhar na biblioteca, entregara alguns arquivos para o diretor, nada de diferente.
Roxy, por favor, me fala o que eu fiz de errado.
A tarja abaixo do nome dela mudou para o status digitando, e ele segurou o lábio inferior entre os dentes, certo de que a resposta seria dolorosa e igualmente impiedosa, mas ao menos haveria uma resposta e ele sentia-se um idiota por estar feliz com essa ideia. Mas logo em seguida, o mesmo status desapareceu e ela permaneceu em seu repleto silêncio. Irritado, bateu a cabeça contra a mesa, mas gemeu com a dor resultante da pancada.
“Isso não foi muito inteligente.”
Ele ergueu a cabeça e deparou-se com Melanie. “Oi Mel.”
Ela caminhou até as garrafas no balcão, preenchendo a caneca com o chá que ela mesma fizera mais cedo. Voltou-se para ele, puxando uma das banquetas e sentando-se na frente dele. “Por que está batendo a cabeça na mesa?”
“Roxanne.”
Ela riu. Ele sorriu. “Você é um idiota, sabia?”
“Eu sei disso. Mas não muda o fato de que ela me tira do sério.”
“O que ela fez agora?”
“Ela parou de falar comigo assim, simplesmente do nada. Do nada. Estávamos bem em um dia e de repente, plau, não nos falamos mais no outro. Quem é que aguenta isso? Quem é que aguenta esse temperamento dessa garota?”
“Você.” Rebateu a loira, colocando a caneca sobre o balcão. “Você parece aguentar tudo que vem de Roxanne Hatter e com uma carinha de muita felicidade, Leo.”
“Melanie.”
“O que? A escola toda fala sobre isso.”
“A escola toda nem sabe que eu existo. Quem sou eu para eles? O cara que trabalha na escola. O esquisito, o que não tem carros esportivos.” Ele riu, sarcasticamente. “Eu não sou socialmente relevante naquele colégio, Nolan.”
“Você se tornou relevante para uma das meninas mais populares do colégio, Scarlet. Se não queria ser alvo das fofocas deveria ter ficado longe.”
“Eu tentei.” Resmungou ele.
“Como assim?”
“Eu tentei não me aproximar dela. Eu juro. Eu sentava longe. Eu faltava nas aulas que ela ia apresentar trabalhos ou ler alguma coisa. Eu pedia para trocar de grupo quando sabia que ia cair com ela.”
Melanie arqueou as sobrancelhas, surpresa com aquela revelação. “Achei que gostasse dela.”
“Eu gostava, era essa a razão. Eu não tinha a ilusão de ser correspondido, então eu preferi me afastar e esperar a fascinação passar.”
“Mas...” Instigou ela, bebericando seu chá aos poucos.
“Mas nunca passou. Minha curiosidade sobre ela só aumentava e quanto mais eu descobria, mais eu queria ficar perto dela. E hoje estou aqui, na cozinha da minha casa, batendo a testa na mesa porque ela não quer mais falar comigo.”
“Isso vai passar. Vocês vão se resolver.”
“Eu não sei. Acho que estraguei tudo. Não deveria ter dito a ela que gostava dela.”
“Você é mesmo idiota, Leo. Qual era a outra opção? Fingir que não gostava dela, e bancar o melhor amigo inocente e desinteressado? Primeiro de tudo, você é um péssimo ator. Ela ia sacar imediatamente. Segundo, não seria você. Você é uma das pessoas mais honestas que eu conheço.” Ela colocou a mão sobre a dele, apertando-a levemente. “Se ela não quiser, bem, o azar dela. Mas eu já vi a maneira como ela olha para você, e por favor, se tem algo que ela não quer é você longe. Eu posso jurar.”
“Você não entende. A Roxy é....”
“Eu entendo você. Você se abriu com ela?”
“Que?”
Ela encarou-o e ele percebeu o que ela estava insinuando.
“Não.”
“Você deveria contar a ela a verdade. Como quer que ela seja honesta e vulnerável a ponto de contar as coisas que a afligem se você não faz o mesmo? Você nunca imaginou que ela possa interpretar a sua indisponibilidade como falta de interesse, quando na verdade é muito pelo contrário?”
“Sim, mas e se a verdade a afastar de mim, Mel? Roxy é tão importante, a ideia de nunca mais falar com ela é como sentir meu coração sendo partido.”
“Se ela for embora por causa disso, é sinal de que nunca mereceu você. Entendido?”
“Entendido.” Rebateu ele.
Melanie levantou-se e caminhou até ele; abriu os braços e apertou-o com força, beijando o topo dos cabelos castanho escuros. “Você nunca teve medo de viver, Scarlet. Agora não é a hora de começar a ter. Seja feliz. Seu pai te desejaria isso.”
“Eu sei.” Concordou ele.
Ela afastou-se, caminhando na direção da sala e ele permaneceu em silêncio, na cozinha. Seus olhos lacrimejaram com as lembranças de seu pai, mas ele balançou a cabeça e decidiu sair um pouco no quintal para tomar um pouco de ar.
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