Roleta Russa

18 Capítulo 18


Henry voltou cedo para casa. Roxy ainda estava dormindo, e ele preferiu ir primeiro. Despediu-se apenas de Emma, afinal seu pai chegara tarde e ainda estava na cama. Ao chegar em casa, encontrou Greta já na cozinha, empenhada em suas diversas tarefas. Abraçou-a por trás, assustando-a.

“Quer me matar de susto, jongen!” Reclamou ela, mas riu em seguida.

“Minha mãe está acordada?”

“Eu ainda não a encontrei, pequeno.” Greta colocou as frigideiras no fogo. Ligou o fogo, e então olhou ao redor, percebendo que ele estava sozinho. “Onde está sua irmã?”

“Ela ainda estava dormindo quando eu saí e eu queria ver minha mãe.”

“Certo, jongen. Vá, suba. Logo o café da manhã estará pronto.”

Henry beijou-a na bochecha, antes de sair. Subiu as escadas, e estava se dirigindo ao seu quarto quando a porta do quarto principal se abriu, revelando sua mãe. Ela usava jeans e uma camiseta de manga longa preta, tênis escuros. “Henry?”

Ela franziu as sobrancelhas e ele parou, dando meia volta. “Oi mãe.” Levou dois segundos para ele circular sua cintura e abraça-la, apertando-a contra si. “Eu senti sua falta.”

“Eu também, meu amor. Vamos tomar café?” Ela sugeriu, acariciando-o, afagando seu rosto e seus cabelos escuros.

“Mãe...” Sussurrou ele, e ela imediatamente percebeu o que ele tinha visto. “Mãe, o que foi isso?”

“Isso faz parte do meu trabalho, querido.”

“Eu não gosto de te ver machucada.”

“Ninguém gosta.” Disse ela apertando-o na cintura e fazendo-o sorrir enquanto desciam as escadas. “Mas são ossos do ofício.”

“Hm.” Murmurou ele.

“Como foi a noite com o seu pai?”

“Foi normal. Emma ficou conosco um pouquinho, jantamos, Leo foi ficar com Roxy e”

“Quem?”

“Leo, mãe. O nosso amigo.”

“Sua irmã levou alguém para a casa do seu pai?”

“Eles não são namorados, mãe. Ele é o melhor amigo dela.”

“Ele é gay?”

Henry riu, puxando a cadeira para que sua mãe sentasse e ela sorriu de volta, agradecida pelo cavalheirismo de seu pequeno. “Não, mãe. Ele não é melhor amigo gay dela. Eu tenho bastante certeza que ele adoraria ser mais do que um amigo de Roxy.”

“Ah.” Sorriu ela, entendendo o ponto. Greta apareceu logo em seguida com uma jarra de suco que possivelmente era suco de laranja. Estava cantarolando em alemão, feliz e Regina lembrou-se o quanto era bom estar em casa. A velha senhora fitou Regina, e com certeza, permaneceu mais tempo do que o esperando analisando seu rosto, na certa, fiscalizando a marca indiscreta em seu rosto, mas nada disse. Regina agradeceu-a por isso. Já tinha dado satisfações demais a respeito.

“Eu conheci o terapeuta da Roxy. Ele é um cara legal.”

“Que bom, querido. Ele deve ser um ótimo terapeuta. Sua irmã melhorou muito desde que começou a ir às sessões.”

Eles ouviram a porta da frente se abrindo, e a voz dela ressoou até eles. “Alô?”

“Aqui.” Gritou Henry, e Regina franziu o cenho para ele.

“Não se fala com a boca aberta, mocinho.”

“Desculpe, mãe.”

Roxy retirou a jaqueta, rapidamente aproximando-se da mesa. “Hey mãe.”

“Olá Roxy.”

“Por que não me esperou, pirralho?” Ralhou ela, puxando uma cadeira e sentando-se. Segundos depois, Greta lhe trouxe um prato, e beijou-a, afagando os longos cabelos escuros. “Obrigada, Greta.”

“Você estava dormindo e eu não sabia que horas ia levantar. Quer dizer, eu não sei que horas Leo foi embora...”

Os olhos da garota arregalaram-se e ela fitou o irmão como se fosse furar seus olhos com o garfo. Algo que ela teria realmente feito se eles não estivessem separados pela mesa.

“Quem é esse rapaz, Roxanne?” Perguntou Regina, mas não a encarou. Continuou mastigando seus ovos mexidos, e adicionou uma porção de morango picado a eles, cobrindo-os com um leve fio de mel.

“Um amigo.”

“Considere trazê-lo aqui em casa, algum dia.”

“Você pretende interroga-lo como o papai? Porque nesse caso eu dispenso o convite. Foi humilhante. Henry traz amigos o tempo todo e ninguém pede o currículo deles.”

“É claro que não. Não sou seu pai.”

Roxy balançou a cabeça, rindo, enquanto enchia sua caneca de suco de laranja. “Não, você é minha mãe. É difícil saber o que é pior.”

“Roxy.” Resmungou Henry e ela se calou.

“Estávamos falando de seu terapeuta mais cedo. Como tem sido as sessões?” Perguntou Regina, finalmente estabelecendo contato visual com sua filha. Roxy devolveu, e por alguma razão, nada disse a respeito de seus hematomas. Ela parecia bem. Não que não estivesse antes, mas seu semblante não parecia mais carregado ou infeliz. Estava calma, e essa era uma visão com a qual Regina não estava exatamente acostumada. Mas adoraria acostumar-se com ela.

“Sr. Locksley? Algum problema com ele?”

“Não, só curiosidade.”

“Bem, ele é um cara bonito, velho e as vezes bastante insistente. Mas em geral, ele é um bom amigo. Tem me ajudado bastante.”

“Uhum.” Respondeu Regina, intrigada. Um bom amigo. Ela deveria se preocupar? Talvez não. Talvez fosse muito sexista e preconceituoso achar que um homem não poderia ser amigo de sua filha a não ser por intenções duvidosas. Às vezes, seu trabalho fazia com que sua mentalidade se voltasse para o pior da humanidade. Não podia ser assim. Fez um memorando mental de marcar uma reunião com o terapeuta assim que possível. Uma breve conversa, apenas para certificar-se que tudo estava sob controle.

“Tem algo errado, mãe?” Perguntou a garota, encarando-a de maneira confusa.

“Não, querida.”

“Bonjour, familie.” A voz firme e brincalhona fez com que os dois pulassem da cadeira, virando-se e deparando-se com uma Valerie bastante machucada, mas sorridente. Usava uma regata branca que deixava ainda mais claro as cores inusitadas em sua pele, e jeans. Eles estavam empurrando as cadeiras quando ela levantou as mãos. “Não, não, não. Sei que estão encantados com a minha presença – eu também estaria – mas nada de abraços. Ainda estou me recuperando.”

Eles riram e ela caminhou até Regina, beijando-a. Em seguida passou por Roxanne, afagando seus cabelos e puxou uma cadeira. Greta colocou o prato à sua frente e eles continuaram o café da manhã, aproveitando um dos raros momentos de calmaria e compatibilidade de horários.

***

“Quem é essa garota com quem tem saído? Seu irmão diz que é sério.”

Robin respirou fundo, encostando-se no batente da sala de estar. Ele deveria matar Killian. Regina e ele ainda não tinham conversado sobre o futuro, não sabiam exatamente em que estágio se encontravam, ainda estavam se decidindo o que poderiam ser e o imbecil já estava gritando aos setes mares. Quer dizer, pior do que aos setes mares e seus demônios e divindades. Ele havia gritado a seu pai. Ninguém nunca era suficiente para Ben Locksley. Regina não escaparia de seu julgamento, ele sabia disso.

“Mulher, pai. Regina não é uma garota.”

“Uhum.” Respondeu o homem, apertando o controle e trocando de canal, parecendo desinteressado. “Qual o problema com Marian? Ela é adorável, uma boa garota. Você fez uma besteira em terminar com ela.”

“Eu não quero nada com ela. Eu quero ficar com Regina.”

“E essa Regina quer ficar com você?” Zombou ele, rindo. Tossiu entre algumas das risadas, o que parecia uma zombaria do destino e Robin fechou os olhos tentando não se irritar com ele. “Quer dizer, a namorada do seu irmão já veio até aqui algumas vezes e essa moça nada. Talvez ela não esteja tão interessada assim. Talvez só esteja se divertindo um pouco.”

“Você não a conhece, pai.”

“O que ela pode ter de tão importante para fazer que não conhecer a família do namorado dela?”

“Primeiro, nós não somos namorados. Ainda não.”

“Ah, então só estão desperdiçando o tempo um do outro. Claramente a sua cara, Robin.”

Robin suspirou. Entendia o porquê de seu pai agir dessa maneira, só não conseguia bloquear o quanto aquilo lhe fazia mal. “Eu não quero que fale dela dessa maneira. Regina é uma mulher, com uma vida estável e completa. Ela não vai colocar tudo em segundo plano para ficar à minha disposição, e nem eu quero que ela o faça. Ela tem um emprego onde diversas pessoas dependem do comando dela, ela tem filhos, ela tem muito com o que se ocupar. Mostre algum respeito.”

“Filhos.” Insinuou Ben, finalmente encarando Robin, que continuava em pé desconfortavelmente. Seu plano era apenas checar se seu pai estava bem, se estava precisando de algo, se a recuperação ia bem, mas era claro que isso não aconteceria sem que seu pai o fizesse repensar sua boa motivação. “Então ela já tem uma bagagem e mesmo assim você quer investir? Você não acha que pode ter problemas? Com o pai dessas crianças?”

“Eles são divorciados, pai.”

“Ah, então ela menospreza o valor do casamento. Pense bem antes de se envolver com uma mulher dessas, garoto.”

“Não foi ela quem pediu o divórcio.” Robin respirou fundo. “Aliás, o que isso te interessa? Você não se importa, pai. Você só quer me controlar e como não consegue, parte para a crítica. Porque se sente sozinho. Porque Killian finalmente está se libertando e você precisa que outra pessoa se sinta um lixo. Sentir-se assim sozinho deve ser um saco.”

“Saia da minha casa.”

Robin riu. “Isso foi mais rápido do que eu imaginei.”

“Você está me ofendendo, rapaz.”

“Você ofendeu Regina e não pediu desculpas em nenhum momento. Então não espere que eu lhe peça desculpas.” Robin atravessou a sala e pegou sua jaqueta. “Queria você ou não, eu quero ficar com ela. Eu a adoro, e ela é a mulher mais interessante que já conheci na vida. Então se poupe e poupe Marian. Pare de jogá-la no meu caminho. Não vai acontecer.”

Ben estava pronto para continuar a discussão, mas Robin não se importou. Bateu a porta ao sair, irritado. Estava quase chegando à sua moto quando ouviu Killian o chamando. Ótimo, exatamente o que ele não precisava.

“Hey, perdedor. Onde vai? Vamos beber uma cerveja.”

Robin virou-se, irritado mas conteve sua irritação ao se deparar com Rosie. Ela não merecia ver uma discussão. Já era uma carga gigantesca aceitar essa família, com todos os seus dramas e problemas. “Tenho ensaio da banda.”

Killian retirou os óculos, percebendo imediatamente que havia algo de errado. “Eu vou esperar você no corredor, Killy.” Avisou Rosie, e se afastou, percebendo que ela deveria deixá-los a sós.

“O que houve, Robin?”

“Por que disse a ele sobre Regina?”

“Eu não disse nada demais. Ele perguntou se você estava saindo com alguém e por quê eu mentiria, mate? Você e Regina parecem bem e felizes, e”

“Não cabia a você, Killian. Eu deveria decidir a melhor hora para isso. Você não faz ideias das coisas que ele falou sobre ela.”

“Robin, me desculpa. Cara, eu não fazia ideia...”

“Você não faz ideia porque não vê quem ele realmente é. Mesmo eu lhe dizendo várias vezes.”

“Ele é meu pai.”

“Achei que era nosso.” Robin balançou a cabeça, ironicamente. “Rosie está esperando.”

“Robin.” Chamou Killian, mas seu irmão não devolveu. Apenas colocou o capacete, acenou para sua namorada e saiu, deixando-o para trás. Deixando-o com uma sensação de arrependimento. Rosie não perguntou, mas era claro que ela havia percebido que algo não estava bem. Como sempre, ela havia respeitado seu espaço. Passou o braço por trás da cintura dele e eles entraram na casa sem trocar nenhuma palavra.

***



Ariel manteve os olhos na porta. A agência havia lhe enviado para uma das caçadoras de modelos que supostamente tinha ligação com o Papai Noel. Aquela talvez fosse a chance de entrar na organização. Usando brincos largos e cabelos ondulados, ela balançava a perna inquieta. Nunca na vida havia usado algo tão ridiculamente curto. A saia de látex ajustava-se ao seu quadril absurdamente, acentuando curvas que ela mal conhecia. Seus peitos estavam apertados no bustiê.

“Você sabe para onde eles irão mandar a gente?” Perguntou outra garota. Sua voz era firme e bem resolvida. Tinha traços orientais, mas a pele bastante bronzeada. Cabelos lisos lhe caíam pelos ombros. “Aliás, meu nome é Mulan.”

“Meu nome é Úrsula Godoy.” Mentiu, sorrindo e cumprimentando-a com simpatia. “E não, eles disseram que essa é a última fase. Disseram que precisam primeiro saber quantas garotas serão aprovadas para depois dividi-las pelas unidades ao redor do mundo.”

“Eu quero ir para Barcelona. Sabe, meu sonho? Eu já consigo ver o meu futuro, casando com um magnata espanhol lindo e cheio de dinheiro, um homem com um passado de casos emocionais difíceis e que eu vou ajudar a amadurecer.”

“Bem, ninguém pode dizer que você não sonha grande.”

“Qual seu sonho?”

“Honestamente, qualquer vida é melhor do que a minha aqui. Eu quero mudar de vida, não sobreviver. Viver de verdade.”

“Awn, isso é fofo.” Zombou Mulan, mas Ariel apenas sorriu. Percebeu a movimentação dos funcionários. Todos os nomes haviam sido checados, mas poucos tinham ficha criminal. Entretanto, algo lhe dizia que estava no lugar certo. Sentia-se segura com a escuta, e sabia que seus sapatos tinham um dispositivo GPS. Não estava sozinha. Tinha todo um time de policiais acompanhando-a religiosamente.

Cassie, uma das loiras fazendo a triagem no começo, apareceu na sala. “Atenção, meninas!” Chamou ela, e as quinze garotas fincaram seus olhos no belo rosto. “Vocês foram escolhidas pela Stallion Incorporate para nos representar em desfiles internacionais. Parabéns!” Comemorou ela, e diversos funcionários a acompanharam nas palmas. “Melina vai lhes entregar os contratos, para que possam ler e assinar. Na última folha há o horário em que devem estar aqui para pegarem o ônibus que as levará ao aeroporto. Vão para casa, façam suas malas, se despeçam da família.... Um brilhante futuro as espera. Quem sabe desta sala não sai a próxima Alessandra Ambrósio!”

Aplausos se seguiram, e Ariel pegou seu contrato enquanto saía. Precisava entregá-lo à perícia, e ainda tinha que realmente despedir-se de seu namorado. Afinal, de um jeito ou de outro, ela faria uma viagem.

***

“Hey Nicole.”

Nicole ergueu os olhos por cima de uma pilha de papel, apenas balançando a cabeça. Roxy colocou a bolsa sobre o pequeno mancebo, e deu uma olhada ao redor. Ela estava certa. Aquilo era uma bagunça. Como é que sua tia aceitava aquilo? Pensando bem, Valerie tinha muitas outras coisas para se preocupar. Nicole possivelmente entregava tudo no horário.

Mas aquilo não bastava para ela. “Nicole, nós precisamos conversar.”

“Uhum.” A loira levantou-se e caminhou até a mesa improvisada de Roxy. “Manda.”

“Eu, hm, eu...”

“Algum problema aí?” Riu a loira, e Roxy sentiu-se pessoalmente ofendida.

“Eu acho que esse escritório está uma bagunça. Eu não consigo me encontrar, eu me sinto sempre tapando seus buracos. Eu preciso achar meu próprio ritmo. Então eu não quero ofender ou pisar em algo seu, eu só preciso arrumar as coisas do meu jeito para que eu saiba trabalhar melhor.”

Nicole encarou-a por algum tempo. Um silêncio que pareceu bastante incomodo, quase constrangedor. “Hoje é meu último dia.”

“O que?”

Não, não era isso que sua tia tinha lhe dito. Além do mais, Valerie não voltaria à revista tão cedo. Recusava-se a aparecer com tantos hematomas, ainda mais quando havia tantos jornalistas dançando na frente da portaria. Fingiam estar escondidos, mas eram previsíveis. Qualquer carro executivo que parava na frente do edifício os deixava alvoroçados.

“Ela está numa situação péssima. Você não pode deixa-la assim.”

“Eu não tenho culpa dos relacionamentos da Sra. Deville. Eu tenho um casamento para cuidar e ela sabia que eu ia ficar poucos dias.”

“Mas Nicole... Ela não podia prever o que ia acontecer.”

“Bem, ela não deveria se envolver com tantos homens. É o tipo de coisa que acontece.”

Roxy arqueou as sobrancelhas. “Não fale da minha tia.”

“Bem, como eu ia dizendo...”

“Vá embora.”

“Como é, barbiezinha?” As sobrancelhas da loira se franziram e ela sorriu como se tivesse sido ofendida. “Você já está se achando a dona, não é? Acha que consegue dar conta disso sem mim? Boa sorte. Você sequer arruma seu próprio quarto, garota e vai querer gerenciar um escritório desses? Tomara que se dê mal.”

Roxy não disse nada. Apenas observou-a, pensando se ela poderia estar certa. Lembrou-se das palavras de Robin. Das palavras escritas naquele papel, e sim, ele estava certo. Ela poderia ser uma Roxy melhor. E para isso, ela não poderia levar nada para o lado pessoal. Não deveria se preocupar com isso e qual era mesma a quarta regra? Ah, sim. Ela ia dar o melhor que tinha. Independente do que acontecesse, ela daria o seu melhor.

“Talvez eu me dê mal, Nicole. Mas eu vou tentar.”

Com isso, ela despediu-se do drama. Virou as costas e resolveu organizar as papeladas. Em algum momento, Nicole deve ter saído. Ela precisava começar por algum lugar. Resolveu tirar todas as pastas e agendas da mesa. Investidores. Ela precisava saber quem eram, os dados, o que providenciavam, seus contatos. Clientes. Modelos. Jornalistas. Patrocinadores. Era bastante para ser feito em um dia, e ela não podia manter tudo por muito tempo.

Pegou seu celular e discou os números que já lhe pareciam familiares.

“Leo?”

“Oi Roxy.”

“Eu preciso de ajuda. Muita ajuda.”

“Me manda o endereço. Estou a caminho.”

***

Regina chegou em casa depois do jantar. Estava cansada, irritada ao ter que lidar com tantos pepinos, e de certo modo, preocupada. Ela havia sido a única a se opor à inserção de Ariel Montelle na operação Papai Noel. Não era uma boa ideia. Quem quer que fosse essa pessoa, ela não deveria ser provocada. Ela não brincava em serviço.

Mas ela não era soberana sobre a operação. Era uma delegada, mas muitas coisas lhe escapavam por entre os dedos. Caminhou até a cozinha, certificando-se de achar alguma coisa do jantar. Seus filhos provavelmente já haviam ido dormir. Assim como Greta.

A luz acendeu e ela avistou uma Roxanne assustada.

“O que está fazendo acordada? Não está um pouco tarde?”

“Err...” Roxy caminhou até a cafeteira e então Regina percebeu que a mesma estava ligada. “Só vim abastecer minha garrafa.”

“Como você vai dormir desse jeito? Não deveria beber café a essa hora, Roxanne.”

“Eu tenho muita coisa para fazer, mãe.”

“Faça amanhã.”

“Não tem como eu fazer amanhã. Eu tenho que estar onde tenho que estar. Se eu levar coisas do trabalho para a escola, estarei complicando tudo.”

Regina espantou-se com a firmeza de sua filha, sorrindo. “Muito bem, madame. Mas não se pressione demais, por favor. Nada vale a sua saúde.”

“Eu sei, mãe. Eu sei. Vou me cuidar.”

Regina observou-a saindo da cozinha com a garrafinha cheia, e rapidamente desapareceu. Resolveu encher uma taça de vinho em vez de comer e em dois segundos, estava na frente da vidraça que dava acesso à cidade. A vista era linda. A cidade parecia uma noite de natal, escura, mas brilhante, luzes que lhe davam vida. Relaxou um pouco. Seus pensamentos viajaram para Robin.

Como sempre.

Sentia falta dele. De sua voz, das palavras gentis e cheias de discernimento. Ele era uma companhia tão agradável, e ela simplesmente gostava dele. Sentia-se um pouco egoísta por querer mantê-lo para si, pelo menos por enquanto. As crianças mereciam conhecê-lo. Podia imagina-lo em casa, podia imagina-lo jantando com eles, podia imagina-lo ficando até tarde com ela, assistindo filmes, abraçados, ouvindo as piadas de Roxy e Henry. Ele já havia demonstrado mais de uma vez que não era apenas um casinho; que não era como os outros homens com os quais ela havia se envolvido depois do divórcio. Ele queria ficar com ela, e não se importava com o resto. Ele concordava em ser colocado depois dos filhos, ele concordava com as peculiaridades de seu trabalho.

Ela estava sendo boba, pensando bem. Ele era um homem incrível e ela não podia esperar para vê-lo de novo. Apertou alguns botões, diminuindo o som do aparelho estéreo para que somente ela o ouvisse, e este não ecoasse pela casa e acordasse o resto da família. Pegou seu celular e digitou algumas palavras para ele. Eu não vejo a hora de te ver de novo. Hum, não. Desesperado demais, talvez. Ela não queria parecer carente. Mas o que isso importava? Ela sabia que não precisava fingir para ele. Não precisava se importar em usar as palavras certas. Podia inclusive ouvi-lo dizendo ‘Regina, palavras são apenas casulos para os sentimentos. As borboletas são as mesmas’ ou qualquer outra besteira poética. Era quem ele era e ela adorava que fosse assim. Decidiu ser sincera – Eu já estou com saudades, estranho— e então colocou o mesmo sobre a mesa de centro. Deitou-se sobre o sofá, ao som de Tom Odell, acompanhando a melodia de Another Love e o sono rapidamente a embalou.

***


Ariel estava adormecida quando o ônibus parou. A luz forte a cegou temporariamente, e ela tentou lembrar-se quando é que ela tinha dormido. Ela não estava com sono. Eles haviam servido o generoso coquetel de frutas antes de saírem e....

O coquetel.

Eles haviam drogado todas elas.

“O conto de fadas acabou, queridas.” Anunciou um homem entrando no ônibus com uma arma semiautomática em mãos. Atrás dele, outros dois homens, também armados, o acompanhavam de perto. “Bem-vindas ao inferno.”

Aos poucos, eles foram retirando uma a uma do ônibus. Elas não estavam no aeroporto. Não estavam em nenhum lugar bonito, ou ponto turístico. Estavam no meio de um local deserto, cercadas de arvores, e terras. Um galpão fechado atrás dela estava vagamente iluminado, mas muito bem cercado por diversos homens e inúmeras câmeras.

Estava feito.

Ela estava dentro da organização.