Roleta Russa
13 Capítulo 13
O dia começou acinzentado, assim como o humor de Regina. Respirou fundo, ouvindo Torres comentar sobre a abordagem de alguns gerentes do tráfico e a obtenção da lista de clientes. “Vamos indiciar todos.” Comentou ela, tentando concentrar-se. “Mas cuidado. Não mandem os procuradores sem acompanhamento policial e coloquem todos os nomes em alerta para possíveis saídas da cidade e país. Apesar de não ser muito, quem estiver envolvido com outras situações vai tentar se safar disso desesperadamente.”
O oficial assentiu e saiu, deixando a sala da delegada. John caminhou até ela, parando na sua frente. “Você está bem?”
Ela ergueu o rosto e fitou os olhos dele por alguns segundos. “Sim, só uma leve dor de cabeça.”
“Posso pedir aspirinas na enfermaria, se quiser.”
“Não há necessidade.” Ela caminhou até a mesa dela, avistando uma pasta larga e preta sem nenhuma identificação. “O que é isso?”
“O superintendente quer que infiltremos uma agente na operação Papai Noel.” Ele aproximou-se da mesa, fitando-a. “Há uma lista de candidatas, e você deve selecionar a mais adequada. Eles esperam um nome até sexta.”
Ela não gostava da ideia. Um pressentimento ruim percorreu sua espinha, mas ela nada podia fazer a não ser agir de acordo com o que lhe era requisitado. Não podia interromper uma operação apenas por conta de uma sensação. Quem quer que fosse essa pessoa, não era de brincadeira. Não pensaria duas vezes em devolver uma agente especial em pedaços como um recado para a polícia se afastar. Madeleine poderia dizer, afinal, eles haviam assassinado seu próprio marido como um mero aviso.
“Verei isso com calma na minha casa.” Pensou alto, e puxou o outro processo na pilha. O caso da garotinha desaparecida. “Alguma novidade no caso dos Langston?”
“Ainda apurando as denúncias anônimas para ver se alguma delas é verídica. Os mandatos de busca não deram em nada, acredito que os pais realmente sejam vítimas.”
“Não dá para ter certeza, infelizmente.”
E ela sabia que sim, afinal, sequer podia imaginar o que era perder um filho assim. Mas anos de experiência haviam lhe ensinado a não seguir o lógico. Nem tudo é o que parece, nem todos são inocentes, nem todas as lágrimas são reais. Um dos efeitos colaterais de seu trabalho era este: a deterioração da opinião dela sobre a humanidade em geral. Suspirou, pegando o celular e procurando o número de telefone da Srita Hyatt. Um toque depois, a mulher atendeu.
“Olá, Senhorita Hyatt. Aqui é Regina Mills, mãe da Roxanne. Eu gostaria de saber como ela tem se saído? Ela está cumprindo tudo corretamente?”
“Oh sim! Roxanne é uma garota adorável! Não temos problemas com ela.” Regina arqueou as sobrancelhas, surpresa. “Inclusive o seu marido entrou em contato conosco para alterar a mudança dos serviços alternativos e conseguimos. Vou enviar para ambos uma cópia do novo cronograma, e para Roxanne também.”
“Ex marido.” Corrigiu ela, levemente incomodada.
“Oh minha querida, me desculpe. Ex marido. O Doutor Hatter.”
“Fico feliz de saber. Qualquer problema que houver sinta-se à vontade para me ligar. Na delegacia ou em casa, ou no meu celular.”
“Agradeço, mas não acho que seja necessário. O conselheiro também tem dito coisas ótimas sobre ela. Sua filha é ótima, Sra. Mills. Não se preocupe.”
Regina desligou a chamada com um sorriso nos lábios. O que havia acontecido com Roxy? Talvez a ideia de trabalhar com Valerie, ou o psicólogo estivesse mesmo surtindo resultados incríveis. Era bom poder respirar um pouco mais aliviada, sem a premissa de que receberia uma ligação de urgência a cada segundo. Pensativa, recostou-se contra a cadeira preta e acolchoada, olhando para o porta retrato que pairava sobre a sua mesa. Jefferson, ela, Roxy e Henry, lado a lado, posando com aquele moletom ridículo de natal que a mãe de Rosie havia confeccionado para eles.
Estendeu a mão e pegou o mesmo. Puxou o suporte da foto, retirando a fotografia. Alinhou a mesma entre ela e Jefferson e dobrou, empurrando-o para trás da fotografia. Feito isso, voltou a foto para o suporte, e colocou-a de volta ao lugar. Ela havia ficado sem um braço, mas bem, ao menos não tinha mais que olhar para ele e lembrar-se do que havia sido o passado, a lembrar-se diariamente do que havia acabado.
Graham observava de longe, mas não disse nenhuma palavra.
***
Roxy estava vestida com uma blusa de moletom e calças pretas da Adidas. As listras brancas davam um ar cool ao seu visual, e ela poderia se importar, se não estivesse entrando no consultório de seu conselheiro. Arrancou o boné de cima da cabeça, enfiando-o na mochila de qualquer forma e soltou os cabelos compridos e castanhos. Bateu na porta duas vezes.
“Pode entrar.” Disse ele, o sotaque britânico presente e marcante.
Ela empurrou a porta e entrou, indo direto ao sofá.
“Roxy.” Comentou ele, e ela finalmente o viu. Ele estava lindo. A camisa azul destacava os olhos, dobrada elegantemente até metade do antebraço, a calça social escura, sapatos bem lustrados. Os cabelos estavam bem penteados e ele estava usando óculos. Ela sentiu o rosto enrubescer quando percebeu que ele estava ciente de estar sendo assistido de cima à baixo por ela.
“Olá, Sr. Locksley.”
“Como foi sua semana?”
Ela ajeitou-se no sofá, colocando um dos pés por baixo da outra perna. Ao menos sentia-se mais confortável agora. “Foi bem.”
“Bem pode ser várias coisas.” Comentou ele, caminhando até sua mesa e dando a volta, para sentar-se na cadeira a uma distância confortável para ambos. “O que significa bem para você?”
“Eu...” Ele só podia estar brincando. Quem é que faz essas perguntas existenciais tão cedo no dia? “Foi razoável.”
“O que podemos falar sobre as tarefas que eu lhe dei?”
“Ah. Aquilo.”
E ele percebeu. A mudança súbita no semblante da garota, a maneira que ela relocou as pernas, e olhou para qualquer outro lugar que não fosse ele. “Roxy, o que aconteceu?”
Ela permaneceu em silêncio, pois bem, ela nem sabia como abordar aquele assunto. Era tudo tão complicado, era tudo tão doloroso. Desde que ela abandonara Leo no café, ela não voltara a falar com ele. Eles se encontravam nos corredores, na biblioteca, nas aulas que faziam juntos; ele a encarava com aquele olhar curioso e preocupado e ela sentia-se esmagada por ser tão confusa. De qualquer forma, aquilo só acabou com as possibilidades de eles serem bons amigos um dia.
“É, eu saí com ele. Por que você fez isso?” Rebateu ela, a voz um pouco mais agressiva. “Estava tudo bem. Poderia ter ficado tudo bem. Mas eu fiz a besteira de cair nesse papo de psicólogo, ‘oh Roxy por que você não sai com o garoto esquisito’ e eu fui lá e fiz isso. Que grande besteira.”
“Se você me contar o que aconteceu em vez de tentar me atacar, talvez possamos ter uma sessão mais produtiva.”
A voz calma com que ele disse isso fez com que ela recuasse. Respirando fundo, ela relaxou, os ombros perdendo a tensão. Afastou uma mecha de cabelo, colocando-a atrás da orelha e começou a falar, os olhos presos ao chão.
“Estava indo tudo bem. Quer dizer, o Leo é um menino legal. Estávamos conversando sobre coisas aleatórias, tomando café e sabe, eu gostei dele. Ele é uma companhia legal.” Ela limpou a garganta, tentando não fraquejar – o que Robin achou muito preocupante para uma garota tão nova, mas não interveio. Deixou-a continuar em seu ritmo. “Mas ele começou a ser legal demais.”
“Ele tentou algo?” Questionou Robin, esperando que não. Leo Scarlett era quase um filho para ele e mesmo que ele não pudesse dizer isso em sessão, ele ficaria desapontado e teria que chamar o garoto para uma conversa muito séria.
“Não!” Defendeu ela, encarando Robin. “Ele jamais faria algo desse tipo. Leo não é assim.”
“Não estou acompanhando.”
“Ele é muito legal. Ele é bonzinho, ele gosta de ajudar pessoas, ele me trata com respeito, com paciência... E então ele começou a falar de livros, e o livro favorito dele é o mesmo que o meu, e isso me apavorou naquela hora, então eu fui embora tão rápido que ele não deve ter entendido nada.”
Robin esboçou um sorriso. Ao menos ele não era o único que passava por isso. “Muitas pessoas vão ter o mesmo livro favorito que você.”
Ela revirou os olhos. “Eu sei disso. Mas não alguém com quem eu saí, eu... essas coisas criam afeto, apego e eu... eu não quero me apaixonar por ele. Será que você entende isso também? O que é não querer se machucar? Qual o problema comigo? Por que não posso ser como essas garotas que se apaixonam a cada trimestre?”
“Não há nada de errado. É uma decisão sua, Roxy.” A voz dele era calma e transmitia serenidade. “O problema é quando essa decisão começa a prejudicar você. Por exemplo, se ele não fez nada, e você acha ele uma boa pessoa, por que fugir? Não é uma situação onde seus medos estão te atrapalhando?”
“Talvez seja. Mas o amor é muito problemático, Sr. Locksley. Como o senhor espera que eu acredite em algo sublime assim se eu vejo em casa algo muito, muito diferente?” Ela sentiu sua garganta fechando-se, um reflexo dos nós que se formavam ali. “Meus pais se amavam. Todo mundo fala que eles eram o casal mais lindo do mundo. Mas meu pai não demorou nada para arrumar outra namorada e agora ele vai se casar e minha mãe... eu sei lá, minha mãe parece que não sente nada.”
“Roxy...”
“O amor machuca, Sr. Locksley. Por isso ninguém pode me julgar por querer distância. Uma vez, eu me apaixonei ou eu achei que tinha me apaixonado. E eu achava que o cara também tinha se apaixonado, mas no final das contas, ele só...” ela suspirou e fechou os olhos, e Robin percebeu lágrimas deslizando no canto do rosto dela. “Ele só...” A voz dela parecia ainda mais frágil, prestes a quebrar.
Robin sentiu um frio na barriga quando ela começou a chorar. Levantou-se e caminhou até ela, sentando-se ao seu lado. Por mais que quisesse, não poderia tocar em uma aluna, então simplesmente permaneceu ali, acompanhando-a. Minutos depois, ela reestabeleceu sua respiração, limpando os olhos na manga de seu moletom. “Desculpe.”
“Não peça desculpas por sentir. É um direito seu.”
“Bem, é por isso que eu não quero me apaixonar. Machuca.” Respondeu ela, encarando o homem que a olhava com carinho.
“As relações humanas machucam, Roxy. Não porque queremos, ou não sabemos escolher, mas porque a natureza humana não é perfeita, as pessoas são falhas, vez ou outra, mesmo com a nossa melhor intenção, acabamos por magoar ou decepcionar alguém. A diferença é o que fazemos depois disso. Aprendemos com os erros ou simplesmente o justificamos?” Ele respirou fundo. “Por exemplo, sua mãe.” Ele não estava seguro se devia ou não pisar neste solo, mas ela estava receptiva e ele resolveu tentar. “Você já tentou se colocar no lugar dela? Se você está magoada assim por algum namoro do passado, consegue imaginar o que sua mãe sentiu quando o casamento de dezoito anos dela acabou?”
“Mas ela nunca fala a respeito.” Resmungou a garota.
“Porque ela se vê no papel de mãe. Se você estivesse com seus dois filhos, você negligenciaria eles para poder sentir sua dor sozinha? Talvez sua mãe esconda a dor dela de vocês porque ela quer proteger vocês. Ela, muito que possível, pensou no que vocês estavam sentindo com o término em vez de pensar no que ela estava sentindo. Mães são assim, Roxy, elas escondem o que estão sentindo até que é tarde demais quando descobrimos.” Confessou ele e sentiu sua voz tremular.
“Por que diz isso?” Era claro que ela havia sentido a mudança de tom nele.
“Minha mãe quando ficou doente, não quis nos dizer nada. Ela foi diminuindo a seriedade de sua doença, ela não respondia nossas perguntas, ela dizia que estava tudo bem. E não estava. Quando finalmente descobrimos o que estava acontecendo, era tarde demais. E ela nos deixou.”
Roxy engoliu em seco. “Eu sinto muito, Sr. Locksley.”
“Obrigado. Mas você precisa pensar sobre isso. Eu sei que não quer falar sobre a sua mãe comigo, mas é muito claro que ela é uma influência direta sobre você. Só temos uma mãe, Roxanne, e talvez, sua mãe precise tanto de você quanto você dela.”
“Mas por que ela não fala? Por que ela se esquiva o tempo todo?”
“Porque é dever dela cuidar de você, e não o contrário. Ela jamais vai lançar os fardos e preocupações dela sobre você, porque é o que mães fazem. Protegem.” Robin suspirou, olhando nos olhos castanhos da garota. “Eu sei que você tem raiva. Você tem dúvidas, você tem mágoa sobre coisas que aconteceram entre vocês. E não estou lhe dizendo para esquecer tudo de um dia para o outro, porque eu sei e você sabe que isso jamais aconteceria. Mas dê uma chance a ela. Veja o que acontece.”
“Isso é muito difícil.”
“Claro que é. Você acha que sua mãe faria isso por você?”
“O que? Me dar uma chance?”
“Sim.”
Roxy sorriu, embora fosse um riso triste. “Minha mãe me dá muitas chances, Sr. Locksley. Eu é que estrago todas elas.”
“Temos um acordo então?” Perguntou ele sorrindo, e ela não pode evitar a não ser sorrir.
“Certo. Temos um acordo. Inclusive, eu vou começar a trabalhar e gostaria de saber se podemos trocar os horários dos atendimentos para a tarde; eu conversei com a minha agente da pena e ela disse que desde que você concorde.”
“No final da tarde?”
“Sim.”
Robin levantou-se, caminhando até sua mesa. Abriu a agenda e analisou os horários. Bem, ele podia remanejar alguns. “Certo. Dezoito e quinze. Mesmo dia. Tudo bem?”
“Perfeito.” Sorriu ela.
“Conte-me sobre esse trabalho. Você estava procurando?”
“Não. Na verdade, eu vou trabalhar com a minha tia. Ainda preciso pedir para a minha mãe, e torcer para que ela aceite. Mas acho que vai me fazer bem, e é algo que eu gosto.”
“Fico feliz por você, Roxy.” Rebateu ele com um sorriso genuíno, fechando a agenda e dando a volta na mesa, sentando-se sobre o móvel de madeira. “Voltando aos nossos tópicos, eu acho que você não pode se fechar para a vida. Nem todos os dias serão bons dias, mas viva-os mesmo assim. Nem todas as pessoas dirão a verdade, mas confie mesmo assim. Nem todo mundo vai lhe amar de volta, mas ame mesmo assim. A vida é frágil e curta para ficarmos nos privando, afinal, nós temos pouco comparado à vastidão do mundo.”
Ela rapidamente entendeu que ele estava de Leo. “Eu não quero excluí-lo da minha vida, Sr. Locksley.” Respirou fundo. “Mas eu não preciso de um namorado. Eu não quero esse tipo de relacionamento agora, e tenho medo de ofendê-lo ao sugerir outra coisa.”
“Você só vai saber se perguntar.”
“Eu imaginei que fosse dizer isso.” Ironizou ela. Ela balançou o tênis, alongando os tornozelos ligeiramente adormecidos. “Dizem que o Sr. é musico em uma banda, é verdade?”
Robin arqueou as sobrancelhas. “Sou, mas de onde saiu o rumor?”
“Eu não sei. É um colégio, eles falam muito e sobre todos.” Riu ela. “Mas não se preocupe, eu não vou falar nada. Era só uma curiosidade. Eu tenho interesse em música também.”
“Você toca algum instrumento?”
“Eu gostaria de cantar, na verdade.” Ela parecia tímida, talvez incerta sobre ter ou não o talento necessário. Mas Roxy sentia-se confortável na presença dele, de modo que ao menos ali dentro, podia ser ela mesma. “Por enquanto estou lendo alguns livros. Talvez um dia ingresse na aula propriamente dita.”
“Eu tenho alguns livros de exercícios em casa. Posso trazê-los na sua própria sessão se você quiser.”
“Eu quero sim!” Devolveu ela, tão rápido que seu entusiasmo surpreendeu ele.
“Combinado. Vou anotar na minha agenda. Há mais alguma coisa que você queira me contar hoje, Roxy?”
A sessão já havia acabado e ela não queria acreditar que estava realmente gostando. Sentiu-se inclusive ligeiramente triste de ter que ir embora, quando poderia ficar a tarde toda conversando com ele. “Não.”
“Como você está se sentindo agora?”
“Bem mais bem-humorada do que quando entrei.” Riu, e ele riu em resposta. “Tente fazer aquelas coisas que conversamos hoje. Mas não se cobre. Não é uma tarefa. Nos vemos na semana que vem.”
“Okay. Obrigada, Sr. L!” Falou ela, pegando sua mochila e colocando sobre os ombros, saindo da sala logo em seguida. Ele pensou em falar a ela sobre o Sr. L, mas decidiu deixar passar. Afinal, as coisas estavam indo muito melhor do que ele imaginava.
***
Regina gargalhou, virando a segunda taça de champanhe. Sentadas nas cadeiras externas do restaurante, ela e suas fiéis escudeiras jogavam conversa fora. O sol do entardecer as cobria, pessoas atravessando as calçadas sem pressa, na direção de suas casas após um dia de trabalho. É nesse momento do dia que sentimos o leve desacelerar do dia, aquele sopro de ar que refresca e anima para a chegada do agito e frescor da noite.
“Então o pub boy é o mesmo rapaz pelo qual você teve aquela paixãozinha no curso de fotografia em Granada?” Questionou Victoria, sorrindo, os dedos circulando a borda da taça.
“Sim, é ele.” Suspirou Rosie.
“Devemos levar esse lance a sério?” Regina observou a melhor amiga suspirando e arqueou uma das sobrancelhas. “Porque com todo o respeito, Rosie Bell, eu nunca vi você desse jeito por nenhum cara. Nunca.”
“Eu...” O rosto iluminou-se e Regina trocou um olhar com Valerie que só significava uma coisa. Ela estava apaixonada. “Killian é tão... Eu não sei explicar. É apenas natural. Eu me sinto confortável com ele, como se eu não tivesse que me esforçar, como se não tivesse que desempenhar nenhum papel para conquista-lo. Eu posso ser eu mesma e ainda assim ele me olha como se estivesse olhando para uma obra de arte.”
“Uau.” Rebateu Valerie, erguendo sua taça. “Um brinde a isso.”
Elas voltaram a beber e Valerie foi a primeira a terminar. Limpou a garganta e respirou fundo, fato que chamou a atenção de ambas as mulheres ao redor da mesa. “Eu... Conversei com Giles. Ele concordou em tentarmos novamente. Apesar de eu não ter certeza se é uma boa ideia, eu acho que vou aceitar...”
Rosie estava batendo palmas, animada mas Regina mordiscou o lábio inferior antes de perguntar. “O que está segurando você, Val?”
“Eu não sei.” Valerie encostou-se na cadeira e perdeu um pouco da postura festiva e alegre. Poucas vezes ela podia ser vista libertando-se de sua armadura social mas podia garantir que era sempre ao lado delas. “Quando uma relação acaba assim, não dá para você fingir que as rachaduras não estão ali. Você pode colar os pedaços, mas bem, não é perfeito. Não reflete totalmente. Algumas partes refletem diferente, para ângulos diferentes, e pode até ser bonito, mas as peças nem sempre estão voltadas para o mesmo foco. Eu tenho um pouco de medo de termos nos tornado pessoas diferentes. Giles e eu. De que tudo que aconteceu tenha nos tornado em estranhos, e que nós estejamos apaixonados por pessoas que não existem mais.”
Não havia como rebater aquilo.
“Val...” Começou Regina, mas a loira balançou a cabeça, sorrindo.
“Não tente me convencer com psicologia de bolso, delegada. Poupe a energia.”
Rosie sorriu, voltando a beber. O telefone dela tocou, e ela pediu licença, mas não se levantou. Não é como se houvesse algo sobre a sua vida que elas não soubessem; algumas vezes, era até mesmo enervante o quanto que elas a conheciam melhor do que ela própria.
“Rosie Bell falando.” Ergueu os olhos para Regina ao se dar conta de que se tratava da prova do vestido do casamento. A costureira falava sem parar, e embora Regina e Valerie estivessem falando alguma coisa sobre Roxy, ela sabia que não conseguiria enrolar muito. Já havia tentando dispensar a mulher, mas a mesma ressaltava algum problema com o vestido. “Não, eu não quero mudar o modelo. Encontre um tecido melhor, eu pago a diferença. Mas eu preciso com certa urgência.”
Regina parou de falar, os olhos atentos e Rosie soube que ela havia entendido do que se tratava. Valerie arqueou as sobrancelhas, balançando a cabeça quase que imperceptivelmente. “Eu ligo mais tarde.”
“Quem era?”
“Não era nada demais.” Rebateu a loira e Regina sorriu, encostando as costas na cadeira, os ombros enrijecendo, as sobrancelhas formando uma linha impassível. Bem, ela estava encrencada agora.
“Você está tentando esconder de mim o fato de que vai no casamento de Jefferson e Emma, Rosie?”
“Regina, eu...”
Ela suspirou, afastando a taça; parecia bastante ofendida, mas não irritada. No fundo, ela estava magoada. Precisava acreditar que pelo menos suas melhores amigas entenderiam sua frustração. Que fossem estritamente sinceras sobre aquilo. “Rosie, a pior coisa que você poderia fazer não é ir à essa festa. Eu não me importo. Você e Emma são sócias, faz todo o sentido para mim. Mas esconder isso como se eu fosse ter uma recaída e passar a noite chorando e comendo chocolate apenas porque você decidiu ir... eu esperava mais de você.”
“Eu não queria...”
“Não queria o que?” Regina suspirou, irritada. “Que eu ficasse ofendida? Eu me sinto ofendida agora. Você acabou de demonstrar que não confia no meu julgamento. Ou o que? Achou que eu ia ficar de mal de você por causa disso? Pelo amor de Deus, Bell!”
Percebendo que a conversa não estava seguindo um fluxo favorável, Valerie tentou intervir. “Regina, eu não acho que ela tenha feito por mal, eu...”
“Valerie, por favor. Não tente defendê-la. Ou você também vai e está escondendo de mim com medo de eu fazer uma cena?”
“O que eu faria naquela festa, dahling? Não há nada que me interesse lá. Eu mal conheço a noiva.”
“Certo, Regina. Eu errei.” Rebateu Rosie, irritada. “Eu errei, e me arrependo. Okay? Eu não queria ofender você fazendo preparativos para uma festa que eu sei que não te traz nenhuma alegria. Foi só isso.”
Regina permaneceu em silêncio, olhando para longe. Rosie continuou. “Não, eu não achei que você fosse ter uma recaída, ou que você não tem maturidade, ou qualquer outra coisa. Mas porra, Regina, estamos andando em ovos porque você se recusa a falar sobre o assunto. Você anda por aí com as paredes erguidas e nem mesmo nós sabemos o que fazer exatamente para te ajudar!”
“Rosie!” Ralhou Valerie, com medo de que aquilo saísse ainda mais do controle. O quanto elas haviam bebido?
“Não me venha com Rosie, Val. Você sabe muito bem o que eu estou falando.”
“Não, não sei.” Tentou a loira. “Regina eu...”
“Eu cansei dessa conversa.” Regina abriu a carteira e jogou duas notas de cinquenta sobre a mesa, levantando-se e encaixando a bolsa no antebraço.
“Isso, pode fugir.” Rebateu Rosie, irritada. Regina encarou-a como se fosse sufoca-la até a morte, mas a loira pareceu ilesa a isto. “Assim como você foge de todas as coisas que te levam para o futuro. Das pessoas que significam um recomeço ou uma nova história. Porque é isso que você está fazendo, Regina. Você fica revisitando esses velhos sentimentos, porque é reconfortante. Porque você está familiarizada com eles e você já sabe como eles acabaram. É seguro para você.”
“Você não sabe do que está falando.”
“Não sei? Não sei mesmo?” Valerie engoliu em seco, abrindo mão daquela conversa. O caos já estava plantado ali, entre as respirações cortadas de Regina e Rosie, na troca de olhares de fúria e irritação. “Eu sei que errei, Regina, mas coloque a mão na consciência e dê uma olhada no que você tem feito.”
Regina engoliu em seco, dando meia volta e afastando-se da mesa sem olhar para trás. Valerie a observou até que ela desapareceu, deixando os clientes pelo caminho curiosos com a cena. “Você não acha que pegou pesado com ela?” Perguntou, fitando Rosie que estava encostada na cadeira, respirando ofegante. A loira virou-se para ela, o rosto cansado que transparecia o peso emocional daquela discussão; bastou apenas um olhar para que Valerie erguesse as mãos para o alto, renunciando o resto da conversa.
“Oh right, dahling. Não está mais aqui quem falou.” Ergueu a mão e chamou o garçom. Assim que o jovem de cabelos loiros e olhos castanho mel se aproximou, ela sorriu. “Pode trazer duas doses de uísque irlandês. Essa reunião acabou de subir alguns níveis de intensidade.”
***
Regina estava furiosa. Mais do que furiosa, ensandecida. Insanamente, até. Pior do ter seus sentimentos subestimados, era tê-los superestimados. De todos seus pesadelos após um divórcio, tornar-se a ex-mulher maluca e desestruturada sem equilíbrio emocional e instável era seu pavor número um e bem, sua melhor amiga acabara de anuncia-lo com flores enfeitando a faixa.
Tudo por causa daquele maldito casamento do ano.
Enfiou a mão na bolsa, tentando encontrar a chave do carro. Memorizou em sua lista de tarefas encontrar um porta chaves que coubesse nos bolsos laterais, aquilo economizaria tempo. Estava com a cabeça baixa, os pensamentos a milhão quando se deu conta de que pisara em um falso degrau. A sensação de queda avisou-a de que ela se estatelaria no chão, mas segundos depois, ela sentiu uma palma firme em sua cintura, ajudando-a se firmar de novo.
Sua atenção voltou-se imediatamente para seu salvador.
“Regina.”
Oh não. De novo, não.
“O que você está fazendo aqui?” Grunhiu ela, e tinha certeza de que ela soara tão irritada quando estava.
“Um obrigada seria mais do que suficiente.” Rebateu ele, encarando-a com os olhos azuis cristalinos. “Você está bem?”
“Eu estou ótima e não pedi sua ajuda.” Ela olhou em volta, percebendo que ele estava sozinho. Carregando flores. “O que está fazendo aqui?”
“Eu estava esperando você.”
Claro que estava. Ela encostou na lateral do carro, fitando-o. Ele estava lindo. Os cabelos loiros estavam bagunçados no topo da cabeça, a barba rala, o rosto calmo que transparecia calmaria. Uma echarpe verde estava enrolada no pescoço grosso, dando-lhe certo ar de elegância. A jaqueta de couro o mantinha sexy e misterioso. Como sempre. “Eu não lembro de ter marcado nada com você. Como sabia que eu estava aqui?”
“Rosie me contou.” Regina mordeu o lábio inferior, a irritação com sua melhor amiga dobrando em volume. Por um lado, podia entender a intenção da amiga. Nenhuma das duas esperava que aquele encontro adorável terminaria de maneira tão frustrante. Sentindo o peso imediato da briga com a loira, Regina suspirou.
“Certo, e o que você quer?”
Robin pareceu pensar a respeito por alguns segundos, que para ela, pareceram uma eternidade. Logo em seguida, ele lhe estendeu as flores, uma mistura feliz de rosas brancas e amarelas e vermelhas. “Eu vim lhe entregar isso. Achei que pudesse gostar.”
Bem, aquilo não fazia sentido. Por que ele estava sendo gentil? “Robin...”
“Eu sei que isso pode ser demais. Me desculpe. Eu realmente não quero parecer um maluco que te segue pelos lugares, ou sufocante, eu só... eu penso em você, bastante e....”
“Por que está sendo legal comigo sendo que eu deixei você plantado naquele bar e nunca mais apareci?”
Ele sorriu. Regina era tão parecida com ele, neste ponto. Em não ter paciência, ou tempo, para historias esfarrapadas ou conversas sociais. Uma dúvida precisava ser saciada, e as perguntas eram feitas de maneira bem direta, como flechas. A verdade precisava sobressair-se, independente de quem se machucasse com ela. “Porque não importa, Regina. Não importa se você saiu correndo, eu gosto de você. Eu quero conhecer você. Então a menos que você me peça para parar, eu vou continuar por perto. Porque eu realmente gosto de você.”
Regina precisou respirar fundo, sua mente digerindo aquelas palavras lentamente. Seu coração, entretanto, havia engolido as palavras e batia descompassadamente. Ela encarou os olhos azuis que a encaravam com nada mais do que calor, e sentiu-se desarmada. O que ela poderia fazer? Esperava todo tipo de reação da parte dele, exceto a que ele estava lhe mostrando. Gentileza, carinho, respeito.
“Robin, eu...” Ela pausou sua fala e respirou, abraçando as rosas com carinho. “Eu acabei de discutir com alguém que eu gosto muito e não acho que seja uma boa companhia para você agora.”
A expressão dele suavizou-se e ele aproximou-se um pouco mais, roubando-lhe o ar. “Você confia em mim?”
“Robin, eu...”
“Vamos fazer o seguinte. Nós vamos dar uma volta, eu ajudo você a espairecer o que quer que estiver te deixando mal e depois eu te trago de volta ao seu carro. Você pode ir embora, e eu vou para casa. Pode ser?”
Ela fitou o carro, depois voltou a encarar o homem à sua frente. “Eu prometo que só vamos conversar, e você pode ir embora quando quiser. Sem problemas.” Assegurou ele e ela sentiu que poderia beija-lo simplesmente por ser quem ele era: um cavalheiro. Um homem que se preocupava com ela. Tudo que ele estava tentando fazer era ajuda-la, era se aproximar e ela o havia afastado. Talvez Rosie estivesse certa. Talvez ela precisasse colocar a mão na consciência e pensar nas suas ações. Ela balançou a cabeça, finalmente aceitando a proposta dele. “Só me deixe guardar as flores, e minha bolsa.”
Robin esperou em silêncio. Assim que ela retornou, parecia inquieta. “Certo, Romeu. Para onde vamos?”
“Se vamos fazer isso, vamos fazer do meu jeito, Julieta.” Provocou ele, causando um sorriso nos lábios delicados. Regina observou-o em silêncio enquanto ele deslizou a mão pelo seu braço delicadamente, deixando-a ansiosa pelo que viria a seguir. Uma sensação quente e reconfortante se apossou dela quando ele entrelaçou os dedos nos dedos dela, grudando suas mãos. “Vamos?” Perguntou ele e ela apenas balançou a cabeça, acompanhando-o.
Eles saíram do estacionamento, e passaram para a calçada. “Quer falar sobre a discussão?” Comentou ele, a voz leve e suave. Regina olhou para a frente, engolindo em seco.
“Eu... Eu te disse sobre o meu ex marido, certo?”
“Sim.”
“Bem... O fato é que minha amiga vai à festa. Mas não é isso que me incomoda, quer dizer, meus filhos também vão. Mas ela esconder tudo de mim é.... “ Ela suspirou, e percebeu que ele apertou levemente sua mão. Aquilo lhe passou uma sensação de segurança inesperada. “É enfurecedor. Ela não tem razão para esconder isso. Eu não quero ser tratada como uma criança, como se isso fosse um namorinho de adolescente. Eu posso lidar com isso e quero que me permitam fazer isso.”
“Não me leve a mal, mas você tem tornado isso possível?”
Ela encarou-o por alguns segundos enquanto eles caminhavam lentamente, sem pressa, apenas passeando. “O que?”
“Você tornou possível que ela trate esse assunto diretamente? Você fala a respeito com naturalidade? É um assunto aberto entre vocês?”
Regina parou. Robin sentiu, e parou meio passo à frente, olhando-a de maneira carinhosa. Era claro que não, pensou ela. De repente, tudo fazia um gigantesco sentido e ela sentiu-se minúscula perante sua própria paradoxialidade. Ela não deixava ninguém tocar no assunto, como é que as pessoas deveriam sentir-se à vontade para falar a respeito? Toda vez trazido à tona, Regina havia se especializado em sufocar o assunto, dando respostas curtas e fechadas. Era como um ferimento que ela não permitia que fosse tocado, olhado, não permitia que fossem feitos curativos, nada que promovesse a cura. Quase como se ela quisesse ficar olhando para aquele pedaço de carne ferido e exposto.
“Regina?” Perguntou ele, parecendo ligeiramente preocupado. Quando ela olhou em seus olhos, ele percebeu que ela havia chegado a uma conclusão.
“Robin eu... Você está certo. Meu Deus, você acabou de chegar e já me mostrou o quanto eu estou errada e eu... Eu sequer me dei conta. Eu errei. A reação da Rosie foi exatamente o que eu mesma provoquei, todas as vezes que fechei a cara ou tentei encerrar o assunto assim que ele surgia. Eu reprimi isso em mim e consequentemente, nelas.”
Ele deslizou o polegar pela pele da mão dela, despertando-a do transe. Sorriu. “Continue andando, Regina. Vai ajudar a clarear sua mente.”
Eles voltaram a caminhar. “Eu fui dura demais com ela, Robin.”
“Bem, você sempre pode pedir desculpas.” Ele sorriu, e ela brincou com os dedos, roçando-o nos dedos dele. Poderia se acostumar com aquilo, com ele, a voz suave, a sabedoria tão abundante, o calor da mão dele sobre a sua. “Posso fazer uma pergunta?” Questionou ele, encarando-a com o semblante sério, e ela apenas assentiu, olhando-o por rápidos segundos.
“Pode.”
“Você ainda o ama?”
“Quem? Meu ex?” Questionou ela, parando-o para encará-lo enquanto o semáforo não indicava que eles poderiam atravessar. Ele apenas balançou a cabeça, confirmando.
“Eu... Acho que nós nunca deixamos de amar as pessoas completamente, mas como mulher, apaixonadamente, não. Eu não o vejo mais dessa forma.” Ele desviou o olhar, indicando que o semáforo abrira e eles atravessaram a rua. “Por que?”
“Porque eu não faço esse tipo de coisa. Então, eu precisava fazer essa pergunta.”
“O que?” Riu ela. “Sair com pessoas divorciadas?”
Ele sorriu, então parou para poder olhar para ela. Ventava, e a noite chegava gradativamente. Estava escurecendo aos poucos, mas ela podia ver claramente os olhos azuis que tanto a atraiam. Ele parecia vasculhar através de seus próprios olhos, como se a estivesse lendo e embora aquilo fosse estranhamente diferente, ela não podia dizer que não gostava. “Eu não entro em triângulos amorosos.” Esclareceu ele, encarando-a atenciosamente. “Eu posso soar um pouco egoísta, mas eu gosto de pensar que a pessoa por quem estou me envolvendo também está sentindo o mesmo por mim, e só por mim. Esse tipo de coisa – esses triângulos – isso machuca as pessoas. É por isso que eu sou direto; eu não quero isso para a minha vida.”
Ela engoliu em seco. “Você tem razão.”
Ele sorriu, e puxou a mão entrelaçada à dela. “Eu posso perguntar sobre aquela noite ou este também é um assunto vetado?”
O rosto dela ganhou um tom roseado, e ela sentiu-se grata por estar anoitecendo. “O que há para ser dito? Eu fui sacana e fugi.”
“Você ao menos teve bons momentos? Quer dizer eu não quero fazer aquela pergunta pretensiosa do...”
“Foi bom para você?” Fraseou ela e dessa vez foi ele quem corou instantaneamente. Ela riu da timidez súbita dele, empurrando seu ombro contra o dele. “Foi, Robin. Foi maravilhosamente bom para mim.”
Ele riu. Ela adorou aquele som, surpreendendo a si mesmo com o tanto que gostava das características dele. Por que mesmo ela fugia tanto desse homem? Era uma dúvida sem sentido algum. “Como está seu irmão? Finalmente descobri qual o passado dele com Rosie. Quem diria, uma paixão platônica nascida na Espanha se tornando praticamente um namoro aqui.”
Robin sorriu, o polegar acariciando a mão dela delicadamente. Mas ela não demonstrou nada, a não ser o sorriso suave e delicado que se tatuou nos lábios carnudos. “Acredito que algumas histórias precisam acontecer. Talvez seja o destino. É quase se determinadas pessoas estivessem sempre indo na direção oposta e o universo os puxasse de volta e dissesse ‘Hey, o que vocês estão fazendo? Vocês não perceberam que devem ficar juntos?’ E bem, eu só posso invejá-los. Acho que todos nós desejamos esse tipo de amor em nossas vidas.”
Regina balançou a cabeça, concordando. “Ela realmente disse a você que eu estaria aqui?”
“Sim.” Ele sorriu. “Ela e Killian ficam tramando as coisas pelas nossas costas. Tome cuidado.”
Uma lufada de vento os atingiu, e Regina encolheu os ombros. Robin parou, soltando sua mão. Ela fingiu ignorar a maneira com que seu corpo rapidamente sentiu falta do calor da mão dele sobre a sua, mas manteve sua atenção quando ele tirou a echarpe do pescoço, colocando-a ao redor do pescoço dela, delicadamente. “Robin, não precisa...”
“Eu faço questão.” Rebateu ele. “De qualquer forma, ela fica muito mais bonita em você do que em mim.”
“Eu duvido muito.”
Ela não sabia como ele fizera aquilo, mas eles já estavam de volta à calçada do estacionamento. Estava tão entretida naquela conversa que simplesmente o deixara conduzir, e ele havia sido honesto sobre tudo. Caminharam até o carro, passando pelo segurança que os cumprimentou educadamente.
Caminharam pela lateral da rua até chegarem ao carro dela. Regina adiantou-se em tirar a echarpe, mas parou quando sentiu os dedos dele ao redor dos seus. “Pode ficar com ela. Pelo menos há algo que nos mantenha até o próximo encontro.”
“Quem disse que haverá um próximo encontro?” Provocou ela, sorrindo.
“Eu continuo apostando na sorte. Tem dado certo até agora.” Respondeu ele, colocando as mãos dentro dos bolsos frontais de seu casaco.
“Você não pode chamar este encontro de acaso ou sorte se alguém lhe disse que eu estaria aqui. Isso é trapaça.”
Robin arqueou os ombros, desculpando-se de maneira não verbal. Eles permaneceram olhando nos olhos do outro, como sempre faziam. Havia se tornado um hábito para eles, essa conversa silenciosa, assim como a incrível relutância em se despedir. “Onde... está sua moto?”
“Eu vim andando.”
“Eu posso lhe dar uma carona.”
Ele sorriu. “Não, Regina. Não quero incomodá-la. Eu já tomei bastante do seu tempo.”
“É o mínimo que eu poderia fazer. Está anoitecendo e estou levando sua echarpe comigo. Ande logo, entre no carro.”
Robin sorriu quando ela deu meia volta e entrou no veículo, abrindo a porta do passageiro em seguida. Não havia como discutir com essa mulher, ele entendeu. Segundos depois, ele pulou para o banco do passageiro, fechou a porta e afivelou o cinto.
***
Na verdade, ela não dirigia mal. Foi o primeiro pensamento que cruzou sua mente enquanto eles cruzavam a avenida movimentada na direção do apartamento dele. Sentiu-se incomodado por ter sido preconceituoso com ela após a maneira brusca com que se conheceram. Quer dizer, ela deveria estar em um dia tão horroroso quanto ele estava. Na rádio tocava alguma música de rock melódica dos anos 80, mas Regina havia diminuído o volume até que a voz dos vocalistas se misturava ao som dos instrumentos, tornando tudo um leve ronronar de sons.
Encarando-a em silêncio, ele se deu conta de que ela parecia ainda mais bonita. Toda vez que a encontrava era como se as memórias não fizessem jus e lá estava ele novamente, encantado e surpreso com a beleza dela. Com a maneira com os cabelos negros e brilhosos caíam em ondas por seus ombros, pelos lábios que ela mordia delicadamente, e ele sentia-se um pouco melhor por não ser o único absurdamente nervoso de estarem no mesmo carro. Mas o semblante dela não parecia nervoso. Parecia calmo, quase relaxado.
“O que foi?” Perguntou ela e ele entendeu que havia sido pego encarando-a.
“Nada.” Riu, literalmente sem jeito.
“Você não precisa ter vergonha de me admirar. Quer dizer, eu possivelmente vou ficar vermelha, mas eu não ligo que você o faça.” Rebateu ela, olhando-o ligeiramente com um sorriso mas logo voltando sua atenção para a direção.
“Você é mesmo muito bonita.” Confessou ele e ela sorriu de uma maneira esplêndida, e ele desejou poder dizer a ela que ela era muito, muito, muito bonita todos os dias, tudo para que ela continuasse sorrindo daquele jeito.
“Obrigada.” Ela apertou os punhos ao redor do volante rapidamente, e depois soltou. “Bem, quando veremos mais uma apresentação da The Merry Men novamente?”
Robin encostou a cabeça no banco. “Teremos um show na Downtown semana que vem. Eu adoraria que você estivesse lá.”
“Vou pensar no seu caso.” Respondeu ela sorrindo.
Segundos depois, ela entrou na rua paralela à de seu prédio. Robin soltou o cinto, e em menos de um minuto, Regina estava estacionando a alguns metros da entrada. Ela colocou o carro na lateral da rua, desligando-o, e soltando seu cinto delicadamente. “Bem, Romeu, chegamos.”
Desligou o carro, e de repente, eles estavam mergulhados no silêncio e escuridão. Encostados em seus bancos, eles se viraram para o lado; os olhares rapidamente se alinharam, uma dança familiar para eles. Ele adorava aqueles olhos. Adorava a nuance, a maneira como o marrom chocolate tinha leve misturas de caramelo e mel, adorava o calor e densidade que transparecia dela quando encarava aquelas írises. E ela, bem, Regina tinha plena certeza de que adoraria se afogar no azul daqueles olhos que a deixavam simplesmente sem palavras.
Ela estendeu a mão, aproximando-a do rosto dele e ele assentiu, balançando a cabeça delicadamente. A palma da mão dela pousou sobre a pele dele e ele fechou os olhos lentamente, registrando o calor e a sensação eletrizante do toque dela. Ela acariciou a barba com o polegar, rapidamente. “Obrigada.” A voz dela soou suave e vulnerável. “Você sempre sabe o que dizer... Eu estava tão furiosa quando saí daquele restaurante hoje.”
“Eu fico feliz em ajudar você.” Respondeu ele, abrindo os olhos e voltando a encará-la.
“Robin, eu quero... Eu quero deixar você se aproximar. Eu não sei se você sente isso. Essa coisa que nos puxa, como imãs magnetizados. Eu sinto. Eu não paro de pensar em você há semanas e isso... Meu Deus, isso me tira do sério.” Confessou ela, a voz tão suave que quase parecia uma cantiga de ninar.
“E qual é o problema?” Arriscou ele. Bem, havia um problema. Era melhor que ele soubesse de uma vez.
“O problema é que eu... Eu não estou pronta. E eu sei que quanto mais eu me aproximo de você, mais difícil é me afastar. Você é viciante. Apaixonante. Você é tudo o que eu não sou.” Ela soltou o rosto dela e deslizou a mão para seu pescoço, descendo numa carícia carinhosa. Deslizou a mão para o peito dele, colocando a mão sobre o tórax dele, na altura do coração e sorrindo. “Eu sou uma pessoa machucada demais. Eu não sei o que quero, eu me auto saboto, eu venho com uma bagagem que muitos homens querem distância.”
Ela pousou a mão sobre a coxa dele, os olhos abandonando os dele. Fitou a jaqueta dele, e sentiu quando ele colocou a mão sobre a sua, deixando que ela ditasse o que estava acontecendo ali. “Robin, você é.... o oposto de mim. E a ideia de que posso achar o meu equilíbrio em você é....”
“Assustadora.” Completou ele.
Ela voltou a encará-lo, surpresa por ele nomear exatamente o que ela estava sentindo. Ainda com a mão pousada sobre a dela, ele continuou. “Regina, você não é a única com medo aqui. Pode ter certeza, eu tenho os meus e eles são bem grandinhos. Encarar você faz com que meu corpo todo entre em chamas, e as vezes acho que vou entrar em combustão espontânea por isso, mas eu simplesmente não ouso parar. A vontade que eu tenho é de abraçar você com tanta força, ao mesmo tempo que eu tenho que provar a mim mesmo que se eu tocar você de algum jeito errado você não irá se partir em pedaços. Você me deixa vulnerável, mais vulnerável do que eu já me senti por qualquer outra mulher e isso me deixa aterrorizado. Eu também não estou acostumado a não ter o controle da situação. Mas por mais que me assuste, eu não tenho coragem de fugir disso.”
Os olhos dela estavam marejados quando a resposta finalmente atravessou seus lábios trêmulos. “Eu não estou pronta para algo assim, Robin.”
Ele aproximou-se lentamente, aproximando seus rostos. “Eu adoraria beijar você agora. Adoraria tocar seus lábios delicadamente, sem intenção de aprofundar ou de deixar o prazer tomar conta. Adoraria, verdadeiramente, selar nossos rostos com esse toque de carinho, para que você soubesse que eu não ligo. Tudo bem não estar pronta. Tudo bem estar com medo, assustada, apavorada. Tudo bem estar insegura. Mas eu prometi que não beijaria você hoje, que só íamos conversar – e você pode não saber disso muito bem, mas sou um homem fiel às minhas palavras.”
Regina suspirou, encarando-o atenciosamente. Ele continuou falando de maneira suave e terna com ela, os olhos azuis mergulhados nos olhos cor de avelã. “Mas acima de tudo, Regina, eu preciso que você saiba de algo. Eu me recuso, terminantemente, a desistir de você. Que leve mil anos até você se sentir pronta, eu não vou desistir. Talvez eu esteja esperando demais, ou sonhando demais, mas eu não vou desistir sem tentar e eu lhe garanto, eu não vou me arrepender de nem um segundo sequer."
Ele acariciou seus cabelos antes de se afastar, e Regina observou, como se fosse um vídeo em câmera lenta, quando ele abriu a porta do carro, agradeceu pela carona e saiu porta afora, acenando para ela de longe.
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