Roleta Russa

14 Capítulo 14


“Mãe, você ouviu alguma coisa que eu disse? ”

Regina ergueu o rosto e percebeu que Henry a olhava, esperando por uma resposta que bem, ele já sabia. Mas ela não podia ser a única culpada. Desde a noite anterior, a única coisa que seu cérebro repetia eram as palavras de Robin. Eu me recuso, terminantemente, a desistir de você.

“Querido, eu estou com a cabeça cheia hoje. Você não pode me passar por escrito o que precisa?”

Ele respirou fundo, e ela esperou pelo resmungo mal-humorado. Ela sequer o repreenderia, considerando que estava tão distante emocionalmente; mas nada apareceu. O garoto balançou a cabeça, aceitando conformado e isso causou-lhe um aperto. Regina se debruçou, correndo os cabelos recém cortados com as unhas e o afagou, fazendo-o sorrir. “Me desculpe, Henry.”

Greta estava tirando pó de um dos suportes das plantas. Fitou sua atenção em Regina, mas não proferiu nenhuma palavra. Observou quando Henry terminou seu café da manhã e correu pelas escadas, desaparecendo. Minutos depois, Roxy deixou a mesa também, sob o olhar atento de sua mãe.

“Está tudo bem, Regina?” Perguntou a velha senhora, chamando a atenção de sua patroa.

Um sorriso gentil cobriu os lábios da delegada. “Sim, Greta. Só estou... distraída.”

“A senhora nunca ficou tão desligada assim com trabalho.”

“Não é trabalho, é....” O que ela poderia dizer? É um homem? Alguém com quem eu não sei o que fazer? Um leve rubor apareceu nas maças de seu rosto, causando um sorriso na alemã.

“Você não precisa me dizer nada, minha querida. Mas precisa resolver isso, certo? Você depende do seu estado de alerta, quer como mãe, quer como delegada.”

Era um conselho precioso e ela sabia que estava corretíssimo. Regina suspirou, terminando sua refeição e estava prestes a retirar seus pratos quando a alemã de pele enrugada colocou a palma da mão sobre a dela, reconfortando-a com o calor e maciez.

“Não, não, não. Este é o meu trabalho. Vá fazer o seu.” Piscou a mesma.

***


Roxy estava puxando alguns livros da prateleira quando ouviu a batida na porta. Virou-se rapidamente, se deparando com sua mãe. “Posso entrar?” Perguntou ela e Roxy apenas consentiu, balançando a cabeça.

Regina entrou devagar. Os olhos vasculharam o ambiente, vez por outra focando nas fotos penduradas nas paredes, os rabiscos no quadro, a quantidade absurda de livros. A guitarra pela qual Jefferson pagara uma pequena fortuna servindo como cabide de roupas. Sentou-se na beirada da cama, e permaneceu em silêncio, observando-a arrumar a mochila.

“Aconteceu alguma coisa, mãe?” Questionou Roxy, encarando-a de maneira desconfiada enquanto fechava o zíper e dirigia-se ao espelho. Por que veja bem, quando sua mãe decide vir conversar com você, no seu quarto, e esse não é um hábito regular, possivelmente alguma coisa deu errado.

“Eu não sei, Roxanne. Aconteceu alguma coisa?” A voz dela soou calma e tranquila, e Roxy alinhou alguns fios de cabelo antes de dar meia volta, encostando-se no espelho e cruzando os braços enquanto devolvia o olhar.

“Por que está perguntando isso?”

“Você desceu para o café calada e voltou ainda mais calada. Quando cheguei ontem, você já estava dormindo e geralmente eu preciso chamar sua atenção até a exaustão para que você desligue o telefone e vá dormir.”

“Não aconteceu nada, eu só estou pensando nas coisas.”

Regina esboçou um sorriso no canto dos lábios. “Se importa em compartilhar?”

“Mãe, o que está acontecendo? Você nunca vem aqui perguntar essas coisas. Você quer saber alguma coisa, basta perguntar, eu prometo que não vou me importar em dizer.”

Regina sorriu abertamente dessa vez. “Roxy, eu escutei você. Certo? Você estava certa. Eu desisto das coisas, eu fui injusta com você, eu não me abro. Não foi isso o que você disse? Mas eu quero melhorar. E eu não quero que todas nossas conversas sejam discussões que machucam e magoam. Eu quero me desculpar por tudo que tem dado tão errado.”

“Você não acha que precisa muito mais do que um pedido de desculpas para consertar as coisas?”

Roxy não estava tentando ser mal-educada. Mas ela tinha sim, muitas emoções sufocadas sobre sua mãe. Muitas conversas inacabadas, outras que sequer haviam existido, mas cujos fantasmas pairavam sobre a relação delas, como sombras obscuras.

Regina suspirou. “Sim, eu acho. Mas você precisa me permitir começar em algum lugar, meu amor. Me ajude, e eu te ajudo.”

“Você promete?” Perguntou a garota, ainda desconfiada.

“Sim, eu prometo. Eu só quero ter certeza que você não está com problemas.”

Um súbito de raiva irrompeu dentro dela. Onde é que estava essa pessoa quando ela realmente teve problemas? Não era tarde demais para bancar a mãe maravilha? Ela não ia se vender, ela não ia esquecer simplesmente todas as merdas que haviam acontecido. Roxy estava prestes a responder algo que sua mãe não ia gostar de ouvir quando a voz dele ecoou em sua mente. Eu sei que você tem raiva. Lhe dizia o sotaque britânico de seu conselheiro. Mas dê uma chance a ela. Veja o que acontece.

Roxy respirou fundo. Ela podia fazer isso; ela podia tentar.

“Está tudo bem. Mas de qualquer forma eu precisava lhe contar uma coisa, mãe.”

Respirando fundo, a menina desencostou-se da parede e sentou-se na beirada da cama. Sua mãe afastou-se um pouco para lhe dar espaço. “Eu sei que eu fiz um monte de coisas erradas, mas isso é muito importante para mim.” Os olhos amendoados buscaram qualquer coisa nos olhos de sua mãe, mas ela não encontrou nada. Respirando fundo, ela continuou. Sentia a ponta de seus começando a tremer, mas encarou seus receios. “Eu sei que já disse isso um monte de vezes antes, mãe, e acabei te decepcionando. Eu.... Eu juro, eu tento. As coisas acabam saindo do meu controle as vezes e eu...”

Regina suspirou, sabendo o que ela estava tentando falar. Embora seus instintos estivessem lhe provocando para que ela dissesse que entendia que sabia do que se tratava, algo em seu coração lhe mandou parar. Lhe ordenou que deixasse sua filha falar o que quer que ela quisesse. “Não é fácil ser sua filha ou filha do meu pai.” Confessou a garota, surpreendendo a si mesma com sua brutal sinceridade. “As pessoas esperam o mesmo nível de sucesso e profissionalismo de mim, e eu ainda não sei o que eu quero fazer da minha vida, e eu... eu...”

“Me desculpe se eu fiz você sentir-se encurralada, querida.” Comentou Regina, segurando-a pelo rosto de maneira delicada. “Você não tem que decidir toda a sua vida assim, tão subitamente. Eu não acho que ter pouca idade seja desculpa para fazer todo tipo de porcarias, mas eu acho que você só vai ser jovem assim uma vez na vida. Então faça o que te faz feliz. Não se compare comigo, ou com seu pai, porque bem, nós temos o dobro da sua idade. Você ainda está começando. Não tenha pressa.”

“Você me deixa trabalhar com a tia Valerie?” Regina sorriu, notando o pânico nos olhos dela. O medo de que Regina se negasse. Sentiu quando ela colocou as pequenas mãos sobre as mãos da mãe, engolindo em seco. “Mãe eu prometo que não vou desapontar você, ou ela, eu prometo que não vou lhe dar trabalho algum, eu vou continuar pagando a pena alternativa, eu só quero uma chance de...”

Regina segurou-a pelo rosto, encaixando suas mãos nas laterais e olhando nos olhos da garota com carinho. “Sim.”

“Por favor, mãe, eu juro, eu vou fazer tudo direitinho, eu...” Roxy piscou algumas vezes, finalmente entendendo o que sua mãe havia lhe dito. “Sim?”

“Sim, Roxanne. Você pode trabalhar com a sua tia.”

Segundos depois, Regina sentiu os braços dela ao redor da sua cintura, um abraço apertado e firme. Fazia muito tempo desde que Roxy a abraçara daquele jeito. Tanto tempo que ela mal conseguia se lembrar. Seus olhos se encheram de lágrimas quando ela abraçou a menina, acariciando seus cabelos. “Eu prometo não decepcionar você dessa vez, mãe.”

Regina precisou respirar fundo para não deixar nenhuma lágrima cair após aquelas palavras. Ela não se considerava uma mulher emotiva, mas seus filhos eram um ponto tão sensível em seu sistema. Eram sua força e também seu ponto fraco. Aos poucos, Roxanne a soltou. Não se levantou, ficando ajoelhada entre as pernas de sua mãe; Regina por sua vez voltou a acariciar o rosto dela. “Me desculpe, querida.”

“Por que está pedindo desculpas, mãe?”

“Porque eu sei que magoei você. Eu ainda não sei exatamente como, mas eu sei que sim. Eu sei que te devo desculpas.”

“Você vai ao casamento do papai?”

“Não, mas posso ajudar vocês com as roupas se precisarem.”

“Você se importa que ele esteja casando novamente?”

Regina sorriu de maneira triste. “Sim, Roxanne.” Brincou com os cabelos dela, acariciando suavemente. “Eu sei o que parece, mas me importa sim. Não porque eu quero ficar com seu pai. O casamento não estava indo bem quando chegou ao final, querida. Mas eu amei o seu pai. Nós fomos amigos, namorados, cumplices por mais de uma década. Eu tentei fingir que estava bem com isso, mas eu só estava me enganando. É doloroso vê-lo com outra pessoa, mas eu quero que ele seja feliz.”

“Você precisa ser feliz.” Rebateu a garota, voltando ao seu tom habitual.

“Quem disse que eu não sou feliz?” Regina sorriu. “É um absurdo uma garota tão inteligente e culta supondo que eu só posso ser feliz se estiver com um homem. Eu sou feliz. Eu tenho o emprego dos meus sonhos, eu tenho filhos lindos que as vezes me dão trabalho, mas são os amores da minha vida, eu tenho amigas formidáveis...”

“Não é que você precise de um homem, mãe. Mas eu sei que as vezes, deve ter coisas que você quer contar ou conversar, e não pode falar comigo porque sou sua filhinha.”

“Para isso existem suas tias Valerie e Rosie.”

“Você entendeu, mãe.” Roxy revirou os olhos. “Sexo.”

Regina corou imediatamente.” Eu definitivamente não vou ter essa conversa com a minha própria filha. Roxanne, vá terminar de se arrumar. Eu vou ver se seu irmão precisa de alguma coisa.” Ela levantou-se rapidamente, afastando a garota. “Era só o que me faltava. Você tentando me dar conselhos sobre a vida amorosa. Não, não, não.”

Roxy sorriu enquanto observava sua mãe desaparecendo como um jato de seu quarto e balançou a cabeça, sentindo-se subitamente feliz.

***

“Você sempre quis trabalhar com administração de empresas?” Questionou Rosie, cortando seu crepe com o garfo de prata. Quando ele sugerira um café da manhã parisiense, ela imaginou que era apenas uma brincadeira. Mas ele levara a sério. Crepes, diversas geleias, croissants, suco de laranja, café, e até mesmo champanhe compunham a mesa delicada e decorada com alguns itens elegantes de cunho vintage.

Ele estava se esforçando por ela e ela não sabia o que fazer com os sentimentos que aquilo proporcionava.

“Na verdade...” A voz dele soou muito menos confiante do que ela estava acostumada. Quando ela levantou os olhos, percebeu que a expressão facial dele havia perdido muito de sua luz. Ele parecia mais velho, abatido.

“Killian? O que houve?”

“Esse assunto é complicado.”

Ela suspirou. “Você não precisa falar sobre o que não quer. Eu não pretendo pressionar você.”

Os olhos azuis dele pareciam mais cautelosos do que o normal. “O meu único medo é afastar você. Quando você se dar conta do tipo de homem que eu sou.”

Ela afastou sua cadeira da mesa, saindo dela e caminhando até a cadeira dele. Afastando-o, ela sentou-se delicadamente sobre o colo dele, alinhando os olhos aos dele. “Não importa o que você diga, Killy. Eu não quero que você seja perfeito. Eu só quero que você seja você.”

Ele circulou a cintura dela, apertando-a contra si e finalmente suspirou. Era hora de se abrir. Ela merecia conhece-lo. Merecia saber a verdade, e se decidisse deixa-lo, ao menos seria em bons termos. “Eu nunca quis trabalhar com isso. Nunca quis ser administrador. Eu sempre quis fazer música, sempre quis continuar com a banda.”

Rosie arqueou as sobrancelhas, mas não disse nada. Acenou, indicando a ele que continuasse. “Eu invejo o meu irmão. Robin. Ele percebeu que aquilo não o faria feliz, e ele jogou tudo para o alto sem saber se conseguiria se virar. Ele seguiu o coração dele, foi fazer o que queria. Mas eu nunca tive coragem. Eu era covarde demais para enfrentar meu pai, de modo que quando ele veio todo furioso xingando meu irmão e dizendo que ele era um ingrato por não tomar a frente das franquias, eu apenas abaixei a cabeça e fiz o que ele queria.”

“Killian...” Suspirou ela.

“Eu sei, eu sei. Eu deveria, nesses anos todos, ter dito alguma coisa. Eu ficava nutrindo essa raiva pelo Robin sendo que a culpa não é dele. Eu é que não tive coragem de deixar meu pai lidar com as responsabilidades dele, e me submeti a isso em troca de algumas palavras de apoio e uns tapinhas nas costas. Quer dizer, dá muito dinheiro. Mas não é o que eu queria. Não me sobra tempo para nada. Eu passo dias e noites em frente de um computador, vendo números e números, planilhas e mais planilhas.”

Ela acariciou o rosto dele, e ele continuou. “Então é isso. Eu sou um covarde que deixei outras pessoas decidirem minha vida por mim e me tornei infeliz. Nenhum namoro meu sobreviveu porque cedo ou tarde as mulheres percebiam a minha infelicidade e o fato de que eu não tinha tempo para fazer absolutamente nada.”

Rosie percebeu que ele estava com a cabeça baixa, os olhos fixos em algum ponto no chão. Parecia envergonhado por tudo que havia confessado, e ela não podia sentir-se mais apaixonada por ele. Delicadamente, ergueu o rosto dele e o beijou, os lábios macios tocando os lábios dele com cuidado, a leveza do beijo aos poucos substituída pela paixão dele, as mãos dele emaranhando-se aos cabelos loiros e a língua dele pedindo acesso, um que ela facilmente cedeu. O beijo rapidamente ganhou alguns degraus de intensidade, e segundos depois, eles pararam, ofegantes. Ela acariciou a barba dele, antes de fazê-lo olhar em seus olhos.

“Como eu disse, eu não quero perfeição. Eu só quero você.”

“Mas Rosie”

“Se você quiser continuar vivendo assim, eu posso levar um colchonete para o seu escritório. Não vai ser um problema. Se quiser que as coisas mudem, eu vou exatamente ao seu lado, ajudando você. Independentemente do que você decida fazer, Killian, eu estou com você. Enquanto você permitir.”

“Você não existe, Srita Bell.” Suspirou ele, puxando-a para outro beijo.

“Eu também já tive um passado.” Suspirou ela, assim que ele a libertou de seus beijos. A sentença chamou a atenção dele, que manteve os olhos fixos nela. “Eu estudava advocacia. Meus pais são advogados. Mas não era o que eu queria, e eu tinha muito medo de dizer isso a eles. Eu sabia que eles esperavam que eu continuasse o legado de uma família. Regina foi a única a me apoiar. Ela quem fez o investimento inicial da joalheria, enquanto eu ainda estava estudando para me formar como desenhista profissional de joias.” Rosie sorriu. “Eu sei o que é ter que desapontar os outros para ser fiel a si mesmo, mas acredite, a vida se torna muito melhor depois. Ser desleal consigo mesmo é a pior forma de tortura psicológica que existe.”

“Regina.” Pronunciou ele, se acostumando ao som. “Como será que Robin se saiu ontem?”

“Bem, ela ainda não mandou nenhuma mensagem sugerindo um encontro, então possivelmente não deve ter ido nem tão mal, nem tão bem.”

“Você acha que isso vai dar certo? Eles, no caso.”

“Eu acredito que sim. Algo me diz, uma intuição, um pressentimento. Eu não sei. Mas algo me diz que eles precisam um do outro.”

***

Regina havia se esquecido completamente da apresentação do caso. Na verdade, era incontável o número de informações que ela havia esquecido no decorrer daquele dia. Maldito Robin. Maldito músico e suas palavras carregadas de significado.

Ajeitou os papéis na sua mesa. Pela vidraça, observou a delegacia em movimento, como um organismo vivo; cada repartição trabalhando a seu ritmo, passando o processo à frente, dando continuidade ao que poderia ser considerado uma esteira de produção simbólica. Havia recados do Conselho e um convite a um dos bailes de Madeleine, mas ela estava sem humor para ambos naquele momento.

Foi até a vidraça e anunciou o nome da agente escolhida. “Ariel Montelle?”

O nome ressoou dos lábios de Regina como uma poesia. A garota de cabelos ruivos levantou-se, tomando sua posição bem treinada. “Sem formalidades aqui, Agente Montelle.”

Caminharam para dentro da sala, e Regina sentou-se ao lado de John.

“É um prazer, Delegada Mills. A senhora é uma lenda viva na polícia.”

Graham sorriu e Regina cutucou-o com o cotovelo, fazendo-o grunhir de dor. “Perdoe meu parceiro. Ele tem um distúrbio mental que o faz rir nas horas mais inconvenientes possíveis.” Encarando-a, Regina sentiu novamente o mal-estar que a assombrava. Aquela menina era uma criança, pelo amor de Deus. Os cabelos ruivos eram brilhosos, bem cortados, vivos. O rosto dela era juvenil e delicado. Apesar do físico que parecia definido e firme, ela era pequena. “Você tem noção da gravidade desta operação?”

“Sim, senhora.”

“Você tem noção de que nosso contato pode ser interrompido em último caso e você estará em missão solo?”

“Sim, senhora.”

“Você leu todos os relatórios sobre a operação?”

“Cada linha, senhora. Estou pronta.”

Algo não parecia certo. Algo lhe dizia que aquilo era um erro. Eles estavam subestimando pessoas perigosas demais. Regina balançou a cabeça, tentando afastar aquele pensamento.

“Amanhã, enviaremos você para um treinamento de campo. Vamos tentar todos os tipos diferentes de abordagem que esta gangue já utilizou e colocar você em diversas situações. De acordo?”

“Sim, senhora.”

“Você sente-se à vontade no trabalho de campo?”

“Sim, senhora. Prefiro me colocar em ação do que agir por intermediação burocrática.”

“É suficiente, Agente Montelle.” Anunciou Regina, respirando fundo e estreitando os ombros. “Bem-vinda à Operação Papai Noel. Suas especificações são impressionantes, eu gostaria de adicionar. Sua ficha é de longe a mais completa que passou pela seleção. Parabéns.” Disse Regina, sorrindo. Estendeu-lhe uma pasta escura e a jovem pegou-a de imediato. “Aqui há toda as diretrizes sobre o caso, detalhes, depoimentos de sobreviventes. Prepare-se. É um material pesado.”

“Obrigada, senhora. Estou liberada?”

“Pode se retirar, Agente.”

Regina observou-a se afastar, sentindo o coração pesar. “O que há, Mills?”

A voz de Graham a trouxe de volta. Ela percebeu que ele estava a assistindo curiosamente. “Nada.”

“Você não engana ninguém assim, Mills. Há algo errado. Você não achou a garota apropriada?”

“Ela é... praticamente uma criança.”

“Ela tem vinte e cinco anos, Regina.”

“Ainda é uma criança, John.” Rebateu ela. “Eu acho que é um erro mandar essa garota para a boca dos leões.”

“Se você falar isso para o McDonald, ele...”

“Vai tentar me tirar do caso. Eu sei.” Regina suspirou. “A melhor chance dessa garota é eu continuar em alguma parte deste caso. Eles não vão pensar duas vezes se tiverem que tombar a isca.”

“Madeleine sabe sobre isso?” Questionou ele, provocando um sorriso na delegada.

“Por que? Está preocupado com a sua musa, Graham?” Riu ela. Ele apenas balançou a cabeça em negação, sorrindo e ela adicionou. “McDonald acha que há alguém infiltrado na organização dela e eu concordo. Até termos certeza, é mais seguro para ela manter-se desavisada.”

“O que temos agora?”

“Reunião com o Prefeito daqui cinquenta minutos.” Ela fitou o relógio na parede. “Uma sessão na sala de tiros?”

“Você leu meu pensamento.” Respondeu ele, puxando a jaqueta de couro e seguindo-a na direção da porta.

***

“Oi.”

Leo virou-se rapidamente, mas seu sorriso se desfez ao olhar nos olhos dela. Aquela reação a feriu mais do que ela imaginava. “Roxanne.”

“Podemos conversar?”

Ele suspirou. Despediu-se dos garotos com quem estava conversando, e estendeu a mão, indicando a ela que passasse à frente. Ele estava bonito hoje, admitiu ela. Os cabelos escuros estavam bagunçados por baixo do boné vermelho, e ele estava usando uma camisa branca, jeans azuis, e um tênis preto. Pensando bem, ele estava vestido de maneira extremamente simples e ela achara aquilo lindo; preferiu desligar-se desse pensamento de uma vez. Eles caminharam em silêncio, as mãos dele firmes ao redor das alças da mochila preta, como que tentando manter seu nervosismo sobre controle, ou ela estava apenas se refletindo. Ela estava nervosa. Era isso o que ele fazia com ela.

“Tyler tem importunado você outra vez?” Perguntou ele, preocupado e ela segurou os lábios por alguns segundos. Ele era mesmo um menino de ouro. Depois de tudo, ainda preocupado com a segurança dela.

“Não, não tem nada a ver com o Tyler.” Respondeu ela, falando baixo.

Assim que chegaram perto da escadaria, ela parou. Sentou-se sobre a mureta de pedras e ele a acompanhou, sentando-se ali também. “Você está me deixando preocupado.” Comentou ele, encarando-a.

“Eu não posso fazer isso, Leo. Eu tenho problemas para trabalhar, e talvez um dia no futuro, a gente possa retomar isso, mas agora.” Começou ela, tentando ser objetiva com ele. Afinal, ele merecia.

“Você já disse tudo isso, Roxanne. Se você só veio enfatizar o ponto, não precisa. Eu entendi.”

Ela engoliu em seco, e ele suspirou, balançando a cabeça. Talvez fosse melhor deixa-lo ir embora. Talvez ficando longe dele, ela não se machucaria, nem o machucaria. Mas assim que Leo se levantou, ela percebeu que estava errada. Ela se machucaria ainda mais se ele fosse. Sem pensar duas vezes, ela segurou na mão dele e os olhos azuis rapidamente encontraram os seus.

“Leo, o que eu estou tentando te dizer é que eu não quero que você saia da minha vida.” Disse ela, atropelando suas palavras apressadamente por conta do nervosismo; um reflexo fez com que ela soltasse a mão dele, e ela encolheu-se, se dando conta do que havia dito. Leo voltou-se para a mureta, sentando-se ao lado dela, dessa vez um pouco mais perto.

“Mas você acabou de dizer que não pode fazer isso, que não está pronta... Eu não estou entendendo você.”

“Eu quis dizer que agora, nesse momento, eu não quero um namorado.” Ele arqueou as sobrancelhas, sem saber se pela objetividade do que ela havia dito, ou por ter se dado conta de quão perto seus rostos estavam. “Mas eu preciso, muito, de um amigo. De alguém que eu possa confiar.”

Ele permaneceu em silêncio. Ela suspirou, concluindo de que bem, ele jamais aceitaria aquilo. O que ela estava pensando? Você deveria ter aprendido com o passado, Roxanne. Homens são todos iguais. Eles só...

“Eu entendi o que você quis dizer, e tudo bem por mim.”

As palavras dele ecoaram pela mente dela por alguns minutos, como se não fossem reais. Aos poucos, ela permitiu-se digeri-las e se deu conta de que ele ainda estava olhando em seus olhos, o semblante calmo e observador.

“Eu não estou tentando fazer você...”

“Roxy.” Interrompeu ele. “Nós somos amigos, daqui para a frente. Ponto final.”

Ela sorriu, e lágrimas ameaçaram subir aos seus olhos, mas ela as afugentou. Abraçou-o, apertando os braços ao redor dele.

Uau.

A sensação era.... Ela já havia abraçado outros garotos. Mas ele parecia quente. Reconfortante, de certa forma. Talvez fosse o perfume cítrico, ou o corpo magro, mas ela adorou aquilo. Ele apertou os braços ao redor dela, e ela sentiu-se segura, muito mais segura do que havia se sentido durante o último ano. “Eu senti sua falta.” Sussurrou ele, antes de soltá-la.

Ela sorriu e beijou-o na bochecha antes de se despedir. “Preciso ir. Aula de Física III.”

“Não esqueça a tabela de fórmulas.” Alertou ele e ela agradeceu, subindo as escadas. Sorriu, porque ela jamais admitiria a si mesma o que havia acabado de pensar. Ela também sentira a falta dele, muito mais do que ousaria aceitar.

***



Little John o avisara que não ia voltar e Robin sorriu. John tinha muito mais sucesso com as mulheres do que ele, ao contrário do que a grande maioria pensava. Talvez porque o que ele queria, e o que as mulheres em geral queriam eram coisas bem diferentes. Elas queriam maridos, especificamente maridos como seu irmão, homens fadados a trabalhar como escravos do dinheiro para sustentar um modo de vida que esbanjasse ouro e bens materiais.

Robin riu sozinho, pensando no péssimo partido que era. Suas maiores aquisições eram sua moto, alguns itens de cozinha, um guarda roupa batido e de vestuário gasto. Astros do rock não precisam de grife. Repetiu para si mesmo, zombeteiro.

Retirou o telefone do suporte e ligou na pizzaria. Uma pizza pequena bastaria para ele, e ele tinha algumas cervejas na geladeira, era suficiente para uma noite feliz. Estava começando a escurecer, e ele decidiu ir tirar as roupas do varal antes que elas ficassem molhadas pelo sereno da noite. Passou pela lavanderia, pegou o cesto vazado e se dirigiu à área externa. Estava recolhendo as roupas quando seu celular tocou. De maneira ágil, enfiou o celular entre o ombro e a clavícula, e continuou o que estava fazendo.

“Sr. L?”

“Roxanne?”

“Pelo jeito eu sou a única que lhe chama de Senhor L.” Riu ela, e ele franziu as sobrancelhas.

“Roxanne, quando é que eu lhe passei meu celular?”

“O senhor não passou, mas eu lhe disse, adolescentes falam muito.”

Aquela ideia o deixou levemente assustado. O que mais seus alunos falavam sobre ele? “Aconteceu alguma coisa, Roxy? Precisa de atendimento urgente?”

“Na verdade, não. Liguei para dizer ao senhor que estou muito feliz!” Grunhiu ela animadamente e ele sorriu involuntariamente. Lembrou-se de tudo que ouvira sobre ela desde o começo. Sobre a aluna fechada e apática que entrara em seu consultório pela primeira vez. Era impossível não ficar feliz com o progresso dela. “Leo e eu nos entendemos. Eu estou tão feliz de poder conversar com ele!”

Robin terminou de recolher as roupas. “E sua mãe? Conversou com ela?”

“Sim. O senhor estava certo! Como consegue? Eu quase briguei com ela, sabe... mas resolvi ouvir seus conselhos. Ela foi muito legal comigo.”

“Uma atitude inesperada tem o poder de transformar água em vinho, Roxy.”

“Na verdade, quem fez isso foi o..”

“Você entendeu.” Cortou ele, exasperado.

“É verdade! Foi muito bom, Senhor L.”

“Agora podemos falar sobre o fato de que você não deve ligar no meu telefone privado, Srita Hatter?”

O silêncio do outro lado da linha o fez sorrir. “Foi mal, senhor Locksley.” Ela suspirou. “Mas se serve de consolo, todo mundo tem seu celular no colégio.”

Ele grunhiu. “Tudo bem.”

“Obrigada pelo que tem feito, Senhor L. Você é demais.”

“Certo, certo. Tenha uma boa noite, Senhorita Hatter.’

Ele desligou a ligação e enfiou o celular no bolso, rindo sozinho. Roxanne Hatter era uma garota sensacional quando bem orientada e incentivada. Esse era um dos motivos pelos quais ele não conseguia desistir do aconselhamento. Pegou a cesta de roupa e colocou no canto da sala onde ele e John escondiam as tranqueiras. Arrumaria aquilo depois.

A campainha tocou e os olhos dele se voltaram para o relógio. Não era possível que a pizza havia chegado tão cedo. A menos que John tivesse esquecido as chaves e mais alguma coisa, mas ele faria uma bagunça gigantesca. A campainha tocou de novo, e ele entendeu que não era John. Nem mesmo ele era tão apressado. Caminhou até a porta de maneira rápida, tentando impedir que quem quer que fosse apertasse a campainha de novo. Aquele barulho era infernal.

“Regina?”

No segundo seguinte, ela deu um passo à frente, deslizando as mãos para a nuca dele, puxando-o para si. Robin sentiu seu corpo estremecer, suas pernas amolecendo por alguns segundos quando ele deslizou as mãos para a cintura dela e aceitou o que ela estava ofertando, a boca se entreabrindo e permitindo que ela o beijasse com o vigor que estava demonstrando. Ela suspirou e ele apertou-a ainda mais contra si, e eles refizeram toda a ação, beijando-se mais uma vez como se dependessem daquilo, como se as unhas dela fossem se enterrar na carne de seus ombros, como se ele fosse esmagar a cintura dela, como se as suas línguas fossem derreter-se de tanto deslizar uma sobre a outra. Regina cedeu devido ao ar que havia desaparecido de seus pulmões, mas manteve seu rosto encostado no dele, mesmo quando Robin soltou-a, deixando-a livre de seu abraço. As mãos dela ainda estavam em seu tórax, segurando sua fina camiseta branca.

“O que está fazendo aqui?” Sussurrou ele, os olhos fechados, ainda decidindo se aquele momento era uma fantasia ou real e ela achou adorável. Quando ele abriu os olhos, percebeu que ela estava sorrindo. Os olhos cor de chocolate pareciam ainda mais brilhosos, mais vivos, mais aveludados.

“Eu não faço ideia, Robin. Mas não há nenhum outro lugar que eu gostaria de estar nesse momento.” Ela suspirou, imersa na intensidade dos sentimentos refletidos em seus olhos azuis. “Eu não consigo tirar você da minha mente. Sim, eu tenho medo de acabar me apaixonando, mas eu tenho muito mais medo de me arrepender. De daqui a cinco anos olhar para trás e lamentar minhas decisões, pensando em como as coisas poderiam ter sido diferentes se eu não tivesse sido uma covarde. Eu... só preciso mergulhar nisso com você. Eu não quero ficar pensando o quão profundo vamos cair. Só... mergulhe nisso comigo. Você pode fazer isso por mim?”

Ele encarou-a por alguns segundos, deixando-a levemente apreensiva e em seguida tocou a base de seu queixo, aproximando-a delicadamente, puxando seus lábios para os seus em um beijo delicado. Em seguida, ele deslizou os dedos pelos dedos dela e entrelaçou seus dedos, exatamente como fizera no dia anterior. Regina assentiu, e eles caminharam em silêncio para dentro do apartamento.