Roleta Russa
10 Capítulo 10
Aquela era a quarta ou quinta xícara de café, ela não sabia. O dia ainda não havia alcançado sua metade, ela sequer havia percorrido o caminho até o almoço, mas já podia sentir os músculos tensos devido à sobrecarga de estresse. Algumas operações voltaram a ela sem resultado, e tudo que ela tinha era Adameo, o homem por trás dos passaportes falsos. Ele tentara fugir pela escada de incêndio, mas um dos policiais estava um passo à frente e o pegou no meio do caminho.
“Pode trazer.” Pediu ela, batendo os nós dos dedos na janela de vidro. Graham levantou-se e caminhou até ela. Ela percebeu que aqueles jeans deviam estar marcando seu quadril mais do que o normal pois os olhos dele eventualmente flutuavam naquela área e mesmo ele fazendo um esforço bastante evidente em disfarçar, não era suficiente.
Poucos minutos depois, Borges apareceu com o homem. Branco, cabelos pretos e lisos, olhos escuros e amendoados. O terno e a camiseta eram de grife, o tecido bem cortado assentava o corpo dele com elegância. Sentou-se na cadeira, as mãos algemadas na frente de seu colo. Regina percebeu que ele a despiu com os olhos lascivamente, fitando seu corpo sem nenhum pudor. Apesar do jeans justo ela estava usando uma camiseta básica e fechada, o que na verdade deixava muito mais a ser imaginado do que visto.
“Acredito que já tenham lido sobre os seus direitos, senhor Lorenzo.” Começou ela, os olhos fixos nos olhos do homem sentado à sua frente.
“Sim, eles leram.” Ele olhou em volta, parecendo entediado. “Eu não vou dizer nada sem a presença do meu advogado.”
“Onde está o advogado dele?”
“Deve estar chegando.” Murmurou Graham, e ela quis lhe dar um tapa. Odiava inconsistência, ainda mais quando estava na frente dos réus. Eles eram policiais, pelo amor de Deus. Deveriam ao menos parecer que tinham tudo sob controle.
“Podemos conversar amigavelmente enquanto isso.” Flertou ela, e deu a volta na mesa, sentando-se sobre a superfície firme. Cruzou as pernas e observou a atenção dos homens ao seu redor em como aquela calça marcava os músculos das suas coxas. Era uma boa distração. “Para quem iria entregar aquele pacote?”
“Isso não é conversar amigavelmente. Você está me interrogando.”
“É impressão sua.” Rebateu ela, respirando fundo. “Você tem filhos, Adameo?”
“Isso é relevante?” As sobrancelhas arqueadas dele indicavam sua desconfiança. “Não tenho.”
“Mentiroso.” Riu ela. “Eu vi seus pertences pessoais. Há uma foto dos seus filhos na carteira de couro.”
Ele havia sido desmascarado e pouco podia ser feito. Respirou fundo, encarando a mulher à sua frente com receio. “Por que você quer saber?”
“Você não sente culpa? De providenciar a ferramenta que muitos vão usar para sequestros? Para levar crimes a um patamar internacional e impedir que sejam solucionados?”
“Às vezes um homem tem que fazer o que tem que fazer, Senhora Hatter.”
Regina em nenhum momento havia lhe dito seu sobrenome. Mas impediu a si mesma de esboçar qualquer reação, continuando a conversa. “E se fosse a sua filha? E se alguém a tirasse do país com um passaporte falso como os que você produz e você perdesse todas as chances de um dia revê-la?”
“E se alguém tirasse a sua, delegada?” Provocou ele, sorrindo com um semblante diabólico.
Mas ela não conseguiu responder. Um falatório incessante interrompeu a conversa e ela suspirou quando Jefferson abriu a porta, erguendo um papel como um troféu. “Habeas Corpus. Vim buscar o meu cliente.”
***
Regina pediu aos gritos para que fosse deixada a sós com seu ex. Porque era claro que ela não estava feliz; ela estava absurdamente, infinitamente, em aspectos desproporcionais de tão longe do que seria estar feliz. Andando de um lado para o outro ela tentava aplacar a fúria que a queimava viva, ciente de que toda a delegacia a estava ouvindo e assistindo atentamente.
“Como é que você ousa aparecer aqui e arrancar meu suspeito de mim mais uma vez, Jefferson? Não tem outra delegacia nessa cidade não? Você tem algum prazer secreto em atrapalhar os meus casos em particular?”
“Regina, eu estou trabalhando. Como você.”
Ela riu, o sarcasmo presente de maneira explícita. “Como eu não. Eu estou tentando fazer a coisa certa.”
“Eu sou um advogado criminalista. Ajudar meu cliente também é a coisa certa.”
“Seu cliente é culpado.” Gritou ela, e ele sorriu antes de balançar a cabeça, gesticulando sua negação.
“De acordo com quem? Você não é juíza aqui, Regina!”
“É claro que uma pessoa de bem produz documentos falsos. Uma pessoa muito de bem mesmo que produz passaportes para que outras pessoas de um bem maior trafiquem adolescentes e mulheres pobres para prostituição em outro país.”
“Não há evidência que ele trabalhe para o Papai Noel e você sabe disso.” Jefferson encarou-a com os olhos azuis frios e beirando a indiferença. “Você não vai sacrificar meu cliente porque não consegue avançar na sua operação.”
“Pare de se intrometer nos meus casos.” Sibilou ela e ele riu.
“Eu estou trabalhando. Eu tenho clientes importantes e leais, que confiam no meu trabalho. Se eu tiver que morar nessa delegacia, eu vou e você não pode me impedir.”
“Se você quer morar aqui eu fico feliz em arrumar uma cela para você.” Retrucou ela.
“Oh e que solução prática para você, não? Só vai faltar o Henry. Considerando que essa delegacia já é praticamente sua casa, poderíamos jantar como família. Uma pena não termos pensado nisso antes. Não existiria o divórcio.” Zombou ele, embora ele não fosse capaz de admitir que aquele assunto o machucava tanto quanto à ela. Mas Regina, ela era uma fortaleza indestrutível, forte e espessa como as Muralhas da China e ele tentava, através das alfinetadas costumeiras, uma confirmação de que ele não havia sido o único a desabar.
Mas Regina não esboçou nada. Um sorriso, uma lágrima ou um comentário maldoso. Ela simplesmente olhou para ele, com os olhos opacos e vazios. “Acabou o drama ou tem mais?”
Ela juntou as pastas com os processos, e caminhou até a cadeira, pegando a jaqueta de couro e vestindo-a como se houvesse esquecido que ele estava ali. Colocou a arma no coldre adaptado à sua cintura, e sua bolsa. Caminhou até estar ao lado dele, o corpo voltado para a saída; virou o rosto e ele a acompanhou, e eles permaneceram ali, próximos, os rostos familiares com a presença do outro.
“Você sabe, Jefferson…” Ela falou baixo, a voz suave e delicada. “Você pode me ferir o quanto quiser, mas eu não vou deixar de apontar o que está errado. As coisas que seu cliente faz determinam o futuro de centenas de garotas. Garotas que tem a idade da Roxy. Garotas que não tem a mesma oportunidade na vida que ela, garotas que são ludibriadas a acreditar em ofertas de emprego no exterior que prometem pagar bem e ajudá-las a mandar dinheiro para as suas famílias e muitas vezes, essas sequer conseguem passar por isso com vida.” Ele entreabriu os lábios para falar, mas ela balançou a cabeça, continuando. “Por incrível que pareça, isso não é sobre eu e você. Sobre essa disputa entre família e delegacia que você criou e colocou na cabeça dos nossos filhos. Isso é sobre fazer a coisa certa, isso é sobre estender a mão a pessoas que precisam de ajuda e você está errado. Seu cliente é culpado e você, bem… você escolheu o lado errado.”
Ela suspirou e ele percebeu a tristeza em seus olhos. Regina passou por ele, mas ele não se moveu. Podia ouvi-la se distanciando, podia ouvi-la dizendo à Graham que ela iria trabalhar de casa o resto do dia. E aos poucos ela se foi. A porta atrás dele se abriu de novo e Jefferson limpou a garganta ruidosamente antes de se virar e encontrar Graham encostado na porta, mantendo-a fechada e impossibilitando sua saída.
“O que fez a ela, Hatter?”
“Como é?” Rebateu o moreno, confuso.
“Eu perguntei o que fez à Regina para que ela fosse embora com aquela cara.”
A animosidade nas palavras do loiro atingira Jefferson com força. Dúvida começou a ecoar em sua mente. Será que Regina e ele.... ?
“Por que quer saber? Por acaso vocês estão juntos?”
“E se estivéssemos?”
“Eu diria que ela pode arrumar coisa melhor.” Provocou o moreno, sorrindo. Ele deu um passo para a frente, encarando o policial. “Eu sempre soube.” Sibilou, o ar entre eles tão tenso que chegava a ser palpável. “Eu sempre disse a ela que você era solícito demais. Prestativo demais. Você a queria, e Regina não percebia isso.”
“Infelizmente ela só tinha olhos para o imbecil que a deixou.” Graham encarou-o e sorriu, deliciado. “Mas isso mudou, graças a você.”
Jefferson não deveria estar com ciúmes. Afinal, ele estava apaixonado por Emma. Ele a tinha pedido em casamento e faria tudo a seu alcance para que desse certo. Mas a ideia de Regina sendo tocada ou beijada por aquele idiota fazia suas têmporas pulsarem com a premissa de uma enxaqueca. Ela merecia muito mais do que aquilo.
“Fique longe dela, Jefferson.” Ameaçou o policial, saindo do caminho de maneira lenta e sorrateira. “Ou vamos ter problemas.”
“Então vamos ter problemas. Regina e eu temos filhos juntos e o trabalho eventualmente cruza nossos caminhos. Além do mais não vai ser um babaca como você que vai me afastar dela.”
“Você foi avisado.”
Graham caminhou até sua mesa, e voltou a trabalhar como se nada tivesse acontecido.
***
“Ei, Piper Chapman.”
Roxy virou-se para trás e observou Tyler aproximando-se com um sorriso nos lábios. Sorriu. Ele era mesmo muito bonito. Ela continuou fincando o espeto com a ponta de ferro nas folhas secas no chão gramado, descartando-as dentro do saco. “Olá, Tyler.”
“Quer ajuda?”
Ela olhou nos olhos dele por algum tempo, procurando algum indício de ironia ou zombaria, mas encontrou apenas solidariedade. Ele usava uma regata branca que realçava os diversos músculos e calças de moletom do time de ginástica. Os tênis caríssimos estavam brancos como neve e ela não pode evitar olhar de relance para o relógio de couro preto em seu pulso.
“Você não pode me ajudar. Se alguém pegar você fazendo isso por mim, eu vou ter a pena duplicada.” Rebateu ela, e voltou a fazer aquilo, tentando ignorá-lo. Quer dizer, se ela estava ali, era por causa dele. O mínimo que ele poderia fazer era deixa-la em paz.
“Roxy...” Começou ele e ela pressentiu o que viria. Fechou os olhos e suspirou.
“Nem comece, Ohill.” A voz dela parecia abatida. “Tanto faz. Eu não quero ouvir que você sente muito, não quero ouvir que você quer se desculpar, que se sente culpado ou qualquer outra baboseira. Me economize.”
“Mas eu sinto muito, Roxy. Me desculpe ter encrencado você e Henry.”
“Supere, Ohill.” Rebateu ela, virando-se de costas para ele e continuando seu trabalho. Tudo que ela queria era terminar aquela porcaria de tarefa e ir para casa. Por que ele não ia para a casa dele e a deixava em silêncio?
“Há algo que eu posso fazer para me redimir?” Perguntou ele e ela revirou os olhos ao perceber pela proximidade da voz que ele estava exatamente atrás dela. Roxy virou-se para ele, os olhos sombrios e sem vida.
“Redimir para o quê, Tyler? Ou você acha que eu tenho interesse em algo depois de passar uma noite na delegacia para acobertar você?”
“Babe...”
“Não me chame de baby, porque eu não sou. Eu não tenho interesse, Ohill. Considere a noite que eu passei numa cela como nosso primeiro encontro e conclua que bem, não acabou como gostaríamos. Fim.”
“Você está sendo injusta.”
Ela riu, fechando o punho ao redor do saco de lixo e piscando para ele ironicamente. “E que diferença faz para você? Não é você mesmo o atleta número um da escola que tem todas as garotas aos seus pés? Você vai ficar bem sem mim.”
“Eu estou... interessado.” Sussurrou ele como se estivesse contando algo sigiloso e preocupante e Roxy balançou a cabeça com um sorriso no rosto. Alguns garotos eram realmente garotos.
“Mas eu não estou. Fim de conversa, Ty.”
Aquilo deveria bastar. Uma rejeição simples, um corte rápido, como uma faca nova corta a carne em apenas uma incisão firme e única. Mas bem, ele era um jogador, e sua estratégia deveria ser a persistência, pois ele continuou a cercando. “O que eu fiz a você, Roxy?” Ele segurava as alças das mochilas com os punhos firmes, encarando-a com curiosidade. Ela concluiu que Tyler não costumava levar muitos foras.
“Eu só não quero sair com você, Tyler.”
“Todas as garotas querem sair comigo.” Murmurou ele e ela revirou os olhos. Aos poucos a beleza dele era ofuscada por seu enorme ego e mais enorme ainda era sua imaturidade.
“Talvez eu seja um garoto.” Brincou ela, olhando em volta e sorrindo ao se dar conta de que havia terminado de limpar tudo. Puxou os sacos na direção da lixeira, e ele a acompanhou, observando-a atentamente.
“Roxy...”
Era isso. Ela só tinha mais uma opção. E se aquilo não desse certo, bem, ela seria obrigada a chutar o saco dele e nunca mais olhar em seus olhos. “Tudo bem.” Ele pareceu iluminar-se imediatamente e ela quase riu, sabendo o que viria a seguir. “Eu estava tentando ser legal com você e não dizer o real motivo, mas você não me deixou escolha. Eu não posso sair com você porque já estou saindo com outra pessoa, Tyler.”
“Que pessoa?”
“Uma pessoa, oras.”
“Parece que você acabou de inventar isso.”
Ela estava prestes a assumir sua mentira deslavada quando ele apareceu. Quase como um querubim enviado por forças divinas na hora exata em que era aclamado. Com o boné enfiado na cabeça, virado para trás, os cabelos pretos bagunçados. Ele estava usando calça e moletom, escuros, como sempre e o coturno mal amarrado nas canelas. “Leo.” Chamou ela e ele encarou-a, parando imediatamente. Seus olhos viajaram dela para Tyler e depois voltaram para ela.
“Como?” Indagou Tyler, pouco convencido.
“Eu estou saindo com Leo. Não é verdade, Leo?”
Os segundos seguintes pareceram uma eternidade absurda para ela. Leo fitou-a por alguns segundos e na certa deve ter chegado à conclusão de que ela era louca. Mas por alguma razão, ele decidira entrar naquele barco com ela. Saiu de trás de Tyler e caminhou até o lado dela, um sorriso suave começando a brotar em seus lábios. “É verdade, nós estamos saindo.”
Tyler suspirou, observando quando o outro garoto entrelaçou os dedos com ela e sorriu. Bem, aquela era uma guerra perdida. Roxy sorrira nervosamente para Leo, sem saber como ignorar a sensação da mão dele sobre a sua. Aquilo era diferente do que ela estava acostumada, mas era tão... quente. Era de certa um toque reconfortante, algo que não a fazia imediatamente pensar em sexo. “Eu não sabia, dude. Me desculpe por perturbar a sua garota.” Desculpou-se Tyler e Roxy ergueu as sobrancelhas.
“Se você a perturbou, não é para mim que deve desculpas.” Começou Leo, sorrindo para ele de maneira educada. “Roxy está bem aqui.”
“Me desculpe, Roxy.”
“Eu que peço desculpas, Ty. Devia ter falado logo que já estava com alguém, mas eu não quis chatear você.”
Tyler sorriu. A situação toda era bastante desconfortável, e ele sentiu que precisava sair da mesma o mais rápido possível. “Se me derem licença, eu tenho um treino daqui quinze minutos e preciso me trocar. Foi bom te ver, Leo. Roxy.”
Assim que ele se distanciou, Roxy fechou os olhos e respirou fundo. Certo. Um problema se foi, um problema restou. Ela abriu os olhos lentamente, encontrando um Leo sorridente e até mesmo ligeiramente brincalhão. “O que foi isso?”
“Eu... Ele...” Ela respirou fundo. “Ele não aceitava um não como resposta e minhas defesas estavam escassas e você passou...”
“Hey.” Leo colocou a mão sobre seu antebraço, transmitindo conforto. Os olhos verdes a encaravam com atenção. “Tudo bem ter me usado para sair de uma situação ruim. Eu não vou dedurar você.”
Ela finalmente conseguiu respirar despreocupada, até que o ouviu completar a frase. “Com uma condição.”
“Fale seu preço, Scarlet.”
“Você vai aceitar tomar um café comigo e me contar sobre o porquê de estar cumprindo pena alternativa.”
Ela o fitou, mordendo o lábio inferior. Podia lidar com isso, não é? Um encontro. Afinal, ela o havia colocado em uma situação complicada com Tyler, e se ele descobrisse que ambos estavam mentindo, não os deixaria em paz pelo resto do ano letivo. Um encontro, alguma conversa aleatória, e tudo ficaria bem.
“Eu topo. Mas um só. Apenas um encontro, e nada mais.”
O sorriso dele esticou-se tanto que facilmente poderia alcançar suas orelhas.
***
Emma cruzou o jardim quando o avistou, sozinho, sentado na beira da piscina. Pensou várias vezes se devia ou não buscar uma aproximação. Qual era o ponto ali? Se ela pretendia se casar com o pai do garoto, ela não seria sensata de passar uma imagem diferente do que o padrão pobre e especulativo de madrasta má que não se importa? Suspirou, e caminhou por trás da área de banho até estar a um metro de distância das costas dele.
“Henry?” Chamou ela e percebeu quando ele se virou lentamente, um sorriso tímido em seus lábios. Henry estava usando uma camiseta cinza, simples e lisa. Seus jeans justos contornavam as pernas finas, e seus tênis estavam ao seu lado, os pés descalços enfiados na água da piscina.
“Oi Emma.” Respondeu ele, com sua habitual gentileza. “Você precisa de alguma coisa?”
“Posso me sentar com você?”
Era uma dança que eles estavam acostumados a fazer. A rispidez de Roxy sempre fazia com que Emma se sentisse indesejada, e ela se sentia pisando em ovos com ambos, o que era um absurdo quando ela percebia que Henry jamais a intimidara. Ele era um ponto de paz em meio à tormenta.
“Claro.”
Ela ia sujar a roupa, mas não se importou. Acabara de chegar de uma reunião com uma empresa de suplementos vitamínicos e havia usado um macacão branco e justo que delineava seu corpo com ousadia, deixando faixas de pele aparecer aqui e ali. Era um segmento exigente, e infelizmente, seu corpo era melhor do que qualquer cartão de visita. Exposição era um contra, mas os prós eram bastante generosos.
“Você está bem?”
Ele riu, mas ela percebeu que ele não estava muito feliz. “Não sei. O que é bem?”
A pergunta dele era bastante importante. Bem era uma coisa relativa. Evasiva, se lhe perguntassem realmente. Muitos conceitos podiam se encaixar naquela palavra, diferentes níveis de euforia ou mesmo felicidade. “Eu gostaria de saber.” Murmurou ela, finalmente retirando as sandálias e deslizando os pés para a agua. A sensação era refrescante e relaxante.
“Você está feliz, não é, Emma?”
“Por que pergunta isso?” Os olhos dela fitaram os dele, e ele manteve contato visual por algum tempo antes de voltar a encarar o fundo da piscina.
“Por causa do casamento.”
“O casamento foi adiado por algum tempo.” Ele merecia saber a verdade. Talvez não fosse direito dela detalhar os questionamentos e ponderações que os levaram a tal ponto, mas ainda assim, ele era filho de Jefferson e estava intimamente ligado às implicações de sua decisão.
“Mas está tudo bem entre vocês?” Henry sentiu um leve mal-estar, uma melancolia imediata. Sua fé em romances já estava bastante vaga desde o divórcio de seus pais. Depois de Violet, havia estremecido até sua raiz e se Emma dissesse a ele que o casamento iria acabar antes mesmo de ocorrer, ele não sabia o que aconteceria com sua fé no amor. Talvez morresse ali, e ele preferiria passar o resto da vida como um herege sem amor.
Na certa, sua mãe lhe daria um tapa na cara.
“Nós estamos bem.” Emma assegurou, sorrindo para ele e colocando a mão sobre a coxa dele suavemente, fazendo um carinho próximo ao seu joelho antes de soltá-lo. “Mas as vezes, há problemas que precisam ser trabalhados antes de um relacionamento ser oficializado. Coisas que não podem esperar.”
“Me dê um exemplo.” Pediu Henry. Ele precisava entender, e Emma era sempre bastante receptiva a ele. Sua mãe poderia ficar brava com ele por pensar aquilo, mas muitas vezes, Emma era a única pessoa disponível, a única que parecia realmente interessada no que ele tinha a dizer.
“Você sabe que eu e sua mãe não somos melhores amigas, não é?” Questionou ela, apesar do medo de parecer tendenciosa e de ser mal interpretada por ele.
O comentário abriu um sorriso nos lábios dele. “É, eu sei bem.”
“Essa é uma das coisas que me irritam. É uma das coisas que eu não quero atropelar no caminho para o casamento e olhar para trás e ver uma mancha e então decidir fazer algo a respeito.”
Henry parecia pensar sobre o que iria dizer depois, quase como se algo já tivesse cruzado a mente dele e ele estivesse debatendo se deveria ou não falar. Aparentemente, ele decidira pela primeira opção. “Emma, se você for esperar se tornar amiga da minha mãe para se casar... Bem, isso pode demorar muito. Talvez não seja uma ideia muito boa.”
É claro que ela sabia disso. O temperamento de Regina não era um segredo para ninguém, e Emma sabia que a morena ainda segurava uma generosa porção de raiva e ressentimento contra ela. “O problema é seu pai. Tudo bem a sua mãe não gostar de mim, eu realmente entendo os motivos dela e por isso não a culpo.” Emma suspirou. “Mas seu pai, muitas vezes, acha que se trata de rivalidade. Acha que tem que apontar os erros dela para mim, como se isso fosse me fazer sentir melhor, e não faz. Não é o tipo de visão que quero manter sobre Regina Mills.” Henry a estava observando com atenção. “Quer dizer, olhe para vocês. Olhe para ele. Regina tem feito um ótimo trabalho nessa família e eu não quero ser a pessoa que vai tentar minimizar isso. Eu admiro muito tudo o que ela faz.”
Henry sorriu abertamente, os dentes brilhando. Os olhos dele pareciam mais leves. “Um dia você vai ter que dizer isso a ela.” Brincou ele e Emma balançou a cabeça, concordando – mas sabendo que esse dia possivelmente demoraria à beça.
“Agora me diga, por que tantas perguntas sobre estar bem e felicidade. O que está te incomodando?”
“Uma garota.” Henry esperou algum comentário, mas esse nunca veio. Grato, ele continuou. “Mas ela tem namorado. Ela me vê como o melhor amigo gay, eu acho. O amigo com quem ela pode assistir filme juntos, ou estudar juntos ou ir às compras juntos. Mas só um amigo.”
“Você já parou para pensar que talvez você não seja mesmo o melhor para ela nesse momento?”
Henry arqueou as sobrancelhas com aquela constatação. “Obrigada por me dar esse toque, Emma.” Ironizou ele. “Agora sei que até mesmo você acha que não sou bom o suficiente para ela.”
“Henry, calma.” Riu ela, segurando na mão dele. “Deixe-me perguntar uma coisa. Você está satisfeito consigo mesmo? Você olha no espelho e sente que você é um cara sensacional e que ela teria sorte de namorar com você?”
“É claro que não.” Riu ele, balançando a cabeça negativamente. Mas ele sentiu quando Emma tocou a base de seu queixo e levantou seu rosto, fazendo-o olhar em seus olhos.
“Pois você é. E no momento, você precisa convencer a si mesmo. Qualquer que seja a maneira que você queira fazer isso, seja um corte de cabelo, um novo closet, seja um curso de culinária ou de esgrima ou de skydiving – na verdade skydiving não, por favor, Regina me mataria; como eu disse, qualquer coisa que você queira, é o que deve fazer. O problema é que você tem se preocupado em ser a pessoa certa para ela, mas você é a pessoa certa para você? Você tem sido o melhor que pode ser para si mesmo? Livre, sem amarras, sem estereótipos?”
“Eu duvido disso.” Brincou ele.
“Então você deveria começar daí. Encontre as coisas que te façam bem, e faça. Cada uma delas. Procure ser um ser humano melhor. Você vai que não somente a Violet, mas todas as pessoas na sua vida vão passar a te ver melhor. A te dar o valor que você merece e almeja.”
“Emma, mas e se tudo isso der errado? E se ela continuar com o Cole?”
“Existe algo sobre o coração que você precisa saber.” Sussurrou ela, sorrindo. “Corações se partem, e é dolorosamente assustador. Mas eles renascem. Por pior que seja um término, uma separação, o fim de um amor, ou mesmo uma rejeição, o coração é como a chuva. Ele lava tudo, ele limpa, descarta as sujeiras nas superfícies. E amanhece tão belo e tão forte quanto foi antes de tudo. Se não tiver que ser ela, você vai se apaixonar de novo e de novo e de novo e vai ser tão intenso e profundo quando a primeira vez e você vai adorar, até encontrar a pessoa que nunca mais sairá da sua vida.”
Ele pensou nas palavras dela, e suspirou. Sabia que ela estava certa. De tão ocupado em pensar em Violet o tempo todo ou de pensar em como esquecer de pensar nela, ele havia negligenciado todos os seus objetivos, projetos, e a sua esquecida bucket list. Ele precisava focar em si mesmo, ao menos uma vez na vida. Sem aviso, Henry debruçou-se e circulou a cintura de Emma, abraçando-a forte e segurando-a firme por algum tempo.
“Obrigada, Emma.” Ele sorriu. Apoiou a mão no chão abaixo deles e fez força para ficar em pé. “Fico feliz que meu pai tenha uma pessoa tão iluminada ao lado dele. Espero que ele tenha aprendido a dar valor.”
“Ele está aprendendo.” Rebateu ela. “Posso perguntar onde você vai?”
“Vou seguir seus conselhos. E a primeira parada é um cabelereiro. Preciso de algo que tenha sido escolhido pela minha mãe.”
Emma sorriu. “Eu conheço um bom cabelereiro no centro da cidade. E é meu amigo. Que tal? Aceita uma carona?”
Ele sorriu para ela. “Claro. Só vou trocar de roupa.”
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