Rizzoli And Isles - Life As We Know It
13 Capítulo 13 - O encontro de Maura e Julie
Notas iniciais
Capítulo dedicado a Mari, sim Mari, a você que foi batizada de Marianna, mas algumas pessoas da farofa te chamam de Maria, mas que eu conheci primeiro em tempos sofridos de nossas ships que continuam sofridos, espero que goste dessa bíblia ♥
Ótima leitura!
Não foi só Jane que teve a experiência “aluna nova”, aquele momento maravilhoso que você entra na sala e a professora te apresenta para a sala inteira fazendo com que você queira morrer por não entender a necessidade de tudo aquilo. Beth tinha passado por aquilo também e assim como Jane quando foi para “a escola de ricos”, a ruiva ficou procurando um lugar no fundo enquanto a professora terminava a tortura que as pessoas costumavam chamar de apresentação e diferente da morena Beth conseguiu um lugar no fundo para se sentar, ao lado de Jane, claro.
Era engraçado... Toda sala tinha a olhado como se ela tivesse vindo de outro planeta, mas Jane não, mal olhou para a cara dela enquanto ela estava sendo apresentada e a cara que já estava fechada mostrando um imenso mal humor fechou mais ainda quando Elisabeth sentou-se ao seu lado, o que fez com a ruiva não fosse nenhum pouco com a cara de Jane e para pessoas sensatas não ir com a cara de alguém é deixar a pessoa para lá, manter o menor contato possível e procurar pessoas que você vai com a cara para se relacionar, mas como Beth não era sensata e para ela “pessoas que você não vai com a cara” era sinônimo de importunar era o que a ruiva faria.
– Tem um lápis pra me emprestar?
Ouviu um bufar de irritação por parte de Jane. Nunca se enganava, sabia que a cara emburrada dela era de alguém que não queria conversar com ninguém, que tinha ido para escola obrigada e que provavelmente ela baixaria a cabeça e dormiria na aula, porque era a típica aluna do fundão que não estava nem ai para nada na vida. Não que Beth fosse diferente, imaginava se Jane não tivesse a recepcionado tão mal, com toda certeza elas podiam ser ótimas amigas, daquelas que vão parar na diretoria juntas.
– Você é nova na escola e não traz nem um lápis? – Jane respondeu de forma incrédula e mal humorada. – Quer uma folha do meu caderno também?
– Não... Só um lápis e seria mais fácil se você tivesse respondido com um “sim” ou “não”. – Mandou um sorriso cínico para Jane fazendo com que a morena fechasse mais ainda a cara. – Então... Tem ou não tem um lápis para me emprestar?
Jane estava fazendo uma cara tão feia, mas tão feia que Beth pensou que teria um caderno sendo arremessado em sua direção, mas foi surpreendida quando viu a morena tirando um lápis de seu estojo e estendendo para ela.
– Pode ficar com ele.
– Obrigada. – Disse com um sorriso debochado pegando o lápis da mão de Jane. – Eu posso ficar com ele porque você não precisa, já que não faz lição, certo?
A morena ia abrir a boca para responder algo, mas foi impedida por sua professora chamando por seu nome.
– Jane venha ler sua redação aqui na frente, porque temos que dar um ótimo exemplo para essa turma.
– Não. A senhora já leu, já deu minha nota, eu não preciso ler essa porcaria ai na frente.
– Por favor, Jane.
– Não... – Pegou o papel com a redação e o balançou. – Lê a senhora.
– Que tal mais meio ponto na sua nota?
– Eu vou acabar lendo ai na frente de qualquer jeito, não vou? – A professora fez um afirmativo com a cabeça. – Okay. – Disse vencida levantando de sua cadeira e indo praticamente se arrastando para frente da sala.
Beth tinha que admitir que estava errada sobre Jane. Ela podia ser alguém do fundão, mas ela estudava ou pelo menos sabia fazer ótimas redações, mas o que lhe intrigava era o jeito mal humorado dela, mas pelo visto parecia que a professora era acostumada, porque na sua escola antiga se ela respondesse um professor assim além de ser obrigada a ir ler na frente também teria que assinar uma advertência, então...
– Nerd do fundão! – Beth chamava por Jane assim que deixaram a sala de aula, mas a morena não deu atenção. – Nerd do fundão! – Ignorada. – Nerd do fundão que me emprestou o lápis!
Jane parou de andar, respirou fundo e se virou olhando para Beth com a famosa cara fechada que ela já tinha aguentado na aula.
– Meu nome é Jane! – Respondeu com um pouco de irritação.
– Muito prazer, Jane! E caso você não tenha escutado na apresentação meu nome é Elisabeth, mas meus amigos me chamam de Beth, mas como eu não tenho amigos...
– Não da nem pra imaginar por que você não tem amigos, não é verdade? – Disse sarcasticamente. – O que você quer de mim? Eu já não te dei um lápis? Ah... Não vai querer que eu te chame de Beth né? Por que eu não tenho interesse nenhum em ser sua amiga.
Dito isso Jane nem deu oportunidade para a ruiva responder, simplesmente virou as costas e foi embora.
Jane podia estar certa sobre o fato de Beth não ter amigos, mas não era porque ela queria, mas sim porque seus amigos tinham ficado na escola antiga e a morena dizer que não queria ser amiga dela só fez com que ela quisesse o contrário. A ruiva não era aquela desesperada, obsessiva que sempre que via uma pessoa queria que ela fosse sua melhor amiga para sempre, ela gostava de observar e entender por que a pessoa não queria ser sua amiga, não que todos tivessem a obrigação de serem seus amigos, mas ela gostava de saber por que a pessoa não ia com a sua cara, fosse por ela ser desagradável, fosse por ela ficar com alguém que outra pessoa gostava, fosse por ela não ter limites na hora de encher o saco de alguém ou fosse só pelo simples fato de ela ser ruiva natural – sim, houve fatos assim -, ela só queria saber e com Jane não seria diferente, mesmo que a morena não quisesse ser sua amiga ela queria saber o porquê, mesmo isso a tornando desagradável e fazendo com que esse fosse um motivo para que Jane não quisesse ser amiga dela, mas enfim...
Alguns dias se passaram desde que Beth começou na nova escola e óbvio que ela não mudou seu lugar do fundão ao lado de Jane. Tentava puxar algum assunto, mas sempre era ignorada pela morena. Pôde perceber que Jane não tinha amigos também, porque nunca a via conversando com ninguém, ás vezes via algumas pessoas cochichando e olhando para ela, mas não sabia sobre o que se tratava. Estava começando a achar que Jane não ia com a cara dela por que “o santo não bateu” ou porque ela era desagradável mesmo, com Jane a ignorando seria difícil saber a resposta.
Em um fim de tarde Elisabeth tinha resolvido mudar seu caminho de volta para casa, costumava ir a uma padaria que ficava algumas quadras dali, não foi de propósito, ela só quis fazer um caminho diferente, mas por coincidência passou em frente a casa de Jane e encontrou a morena fazendo alguns arremessos. Beth que estava do outro lado da rua não deixou de atravessá-la e ir até a calçada da casa da morena, que até então nem tinha percebido sua presença.
– Então é aqui que você mora?
Jane quase caiu para trás quando ouviu a voz da ruiva, mas só demorou segundos para se recuperar do susto e a encarar com a mesma cara fechada de sempre.
– Eu vou ter que pedir uma ordem de restrição para você? Tá me seguindo até em casa agora?
– Menos Jane, eu só estava passando por aqui. – Levantou o saco de pães que estava em sua mão. – Fui só na padaria. Eu moro no fim da rua.
– Pessoas melhores já moraram por aqui viu?
Jane pegou sua bola de basquete no chão e voltou a fazer seus arremessos, se iludindo pensando que se fizesse isso Elisabeth iria embora, mas óbvio que isso só fez com que a ruiva entrasse no quintal de Jane, talvez essa fosse a oportunidade das duas conversarem ou de Beth levar uma bolada na cabeça, nunca se sabe.
– Qual o seu problema comigo?
Jane que tinha acabado de fazer uma cesta pegou a bola que venho quicando em sua direção e voltou a atenção para a ruiva.
– Eu não tenho problema nenhum com você, mas eu acho que você tem algum comigo, porque não me deixa em paz. Ás vezes eu acho que você tem algum sentimento reprimido por mim.
– Sentimento reprimido? – Beth soltou uma risada. – Eu só sou intrigada com você Jane, só isso. – Jane a encarou curiosa. – Você estuda naquela escola há séculos e não tem um amigo, até eu já tenho amigos. – Jane a encarou com um olhar descrente como se dissesse para ela parar de falar mentira. – Tudo bem, não tenho nenhum, mas sou nova, as pessoas tem preconceito com alunos novos.
– No seu caso não da nem pra saber o motivo, não é verdade? – Disse sarcasticamente ganhando uma careta da ruiva. – Olha... – Jane se encaminhou até a frente da casa e sentou-se ali deixando a bola de basquete de lado. – Eu tinha um grupo na escola, eram meus amigos, mas provavelmente depois do que eu falar você vai fazer parte deles, então... – Agora era a vez de Beth olhar Jane curiosa. – Depois que eles descobriram que eu gosto de garotas, as garotas se distanciaram de mim porque pensam que eu quero ficar com elas e os garotos porque eu quero ficar com as garotas e também posso roubar a namorada deles, então agora eles me dão gelo e ficam falando de mim pelas costas e agora que você sabe disso pode ficar a vontade para mudar de lugar também e me deixar em paz.
Jane pensou que assim como todos os seus amigos de sala e alguns conhecidos, Elisabeth viraria as costas para ela, mas se virasse não ia ter importância, desde que pareceu que a ruiva queria fazer amizade ela fez questão de ignorá-la e ser desagradável já para não correr o risco de ficar feliz por ter uma amiga para depois acontecer que nem os outros.
– Você podia ter me dito isso antes sabia? – Beth disse sentando-se ao lado da morena. — Assim você poupava várias caras emburradas e coices que você deu em mim, tirando que assim poderíamos dividir a mesa na hora do intervalo já que você almoça sozinha e eu também.
A morena olhou para Beth surpresa. Depois dos últimos tempos essa era a coisa mais legal que já tinham dito para ela.
– Isso não é um problema pra você?
– Por que seria? – Deu de ombros. — Cada um com a sua vida. Não acredito que você perdeu a oportunidade de já ter a melhor amiga do mundo há dias. – Fez um negativo com a cabeça. – Sua mãe ta te odiando por causa disso?
– Por causa disso o que? Por eu ser gay? – Beth fez um afirmativo com a cabeça. – Eu nunca tinha levado muita fé quando minha mãe falava que a única coisa que ela esperava da gente é sermos felizes e darmos netos para ela, mas quando eu contei e ela disse que só queria minha felicidade foi a melhor coisa que me aconteceu, tirando que ela falou que já desconfiava. Só meu pai que eu acho que ainda estava assimilando, mas...
– Então por que você está de mal com o mundo? Esses babacas que pararam de falar com você só por causa disso definitivamente não eram seus amigos e acredito que naquela escola deve ter muita gente querendo ocupar o lugar que nunca deveria ter sido deles como seus amigos.
– Tipo você? – Perguntou com um sorriso convencido.
– Não...
Jane fez um positivo com a cabeça descrente com aquela afirmação não tão convincente assim e logo em seguida as duas caíram no riso. Não sabiam muito bem o motivo das risadas, provavelmente por terem sido tão idiotas uma com a outra esse tempo todo sendo que a única coisa que precisavam era de uma pequena conversa.
– Você está fazendo o que em Boston? – Jane perguntou depois que os risos tinham cessado. – Por que você não é daqui e não me fale que veio para estudar.
– Eu morava em Lowell.
– Tirando você alguém mais morava em Lowell? – Beth fez uma careta. – Seus pais resolveram mudar para uma cidade que existe pessoas?
– Não... Eu vim morar com os meus avós.
– Sério que nem os seus pais te aguentaram e mandaram você vir morar com os seus avós?
– Para você ver. Acho que foi até minha mãe que fez o avião perder o controle e cair para ela se ver livre de mim logo, mas fazer o que né? – Deu de ombros.
– Oh... Seus pais estavam naquele avião que caiu mês passado? – Jane perguntou sem jeito se achando a mais idiota do mundo por ter feito a brincadeira sobre os pais dela. Beth fez um afirmativo com a cabeça. – Sinto muito.
– Está tudo bem. Pelo menos estou morando com meus avós maternos que deixam eu fazer o que eu quero.
– Caso sinta saudade de uma comida materna pode vir comer aqui em casa qualquer dia, minha mãe é a melhor cozinheira de Boston e ela vai ficar feliz em pensar que eu tenho uma amiga.
– Eu não sinto falta de uma comida materna porque minha mãe era péssima na cozinha. – As duas riram. – Mas você também... – Beth se levantou e enquanto falava ia se encaminhando para a saída do quintal de Jane. — Se quiser comer uma comida de vó minha casa é o lugar certo e também minha avó vai ficar feliz em pensar que eu tenho uma amiga.
– Talvez eu te peça um lápis emprestado amanhã.
– Pode pedir... Eu não vou ter pra emprestar, até o que você me emprestou eu já perdi.
Jane mandou um sorriso para Beth e a ruiva respondeu com outro sorriso. Sua mãe vivia dizendo que se ela desse oportunidade para as pessoas se aproximarem ela ia começar a fazer amigos verdadeiros. Não sabia se Beth seria esse amigo que tanto falava, mas talvez não fosse custar nada dar uma oportunidade.
– Ah e a propósito... Eu não tenho sentimento reprimido nenhum por você porque você não faz meu tipo, mas né...
Mandou uma piscadela para Jane e foi embora com um sorriso divertido por causa da cara de confusão da morena.
Jane não sabia se tinha entendido muito bem o que Elisabeth quis dizer com aquilo por isso a expressão confusa, mas pelo visto ia ter muito tempo para entender ou até mesmo nem tanto tempo assim, provavelmente no outro dia.
Se dissessem para Jane antes dela conhecer Beth que entraria uma aluna nova, ruiva, que veio de Lowell, que sentaria ao seu lado e pediria um lápis emprestado, que fosse a mais insuportável do mundo, mas mesmo assim ela acabaria sendo sua amiga até os dias de hoje ela daria várias risadas, mas agora era a ideia que mais lhe agradava, porque tinha arrumado a melhor amiga do mundo.
Provavelmente se falassem isso para Beth também a ruiva soltaria uma de suas gargalhadas pensando que tudo aquilo não passava de uma grande loucura, mas com o passar do tempo ela percebeu que de loucura não tinha nada e os amigos que ela deixou em Lowell não chegavam nem perto de Jane, não poderia ter escolhido pessoa melhor para importunar e que viraria sua melhor amiga, mas em certas ocasiões ela não ficava tão certa disso e se odiava a cada segundo por ter pedido emprestado um lápis para a morena.
– Miller.
– Que ótimo que você está acordada!
Jane lhe ligando de madrugada sabe-se lá Deus para que, atrapalhando seu sono era uma dessas ocasiões.
– Estou acordada porque você acabou de me acordar. O que você quer sua ridícula?
– Sua ajuda.
– Se você matou alguém e precisa de mim para te ajudar a livrar do corpo, sinto muito. Se tivesse me avisado que faria isso eu poderia até pensar, mas assim sem avisos não mesmo.
– Eu não matei ninguém Beth!
– Então não sei por que você está me ligando.
– Maura tem um encontro hoje.
– Bom para ela.
– Bom para ela? – Perguntou indignada. – Sério Beth?
– São 4 horas da manhã, não espere que eu diga coisas coerentes.
– Você nunca diz coisas coerentes.
Se não tivesse tão cansada Beth teria feito uma careta ao ouvir aquilo, mas estava com tanto sono que estava era deitada de lado, com o celular na orelha, uma mão o segurando, mas estava quase soltando ele e voltando a dormir deixando Jane conversar sozinha, aproveitando que nem a luz do abajur ela tinha acendido.
– O que você quer? – Sua voz era carregada com um pouco de irritação
– Já disse que sua ajuda.
– Minha ajuda com o que? Amarrar Maura no pé da cama para ela não ir ao encontro? Aliás... Com quem ela vai sair?
– Com a pediatra do TJ. – Respondeu em tom de tédio.
– A pediatra do TJ? – Estava surpresa. – Mas isso não é antiético?
– Diz Maura que só seria antiético se ela pedisse para sair com o TJ, já que ele é o paciente dela. Mas enfim... Preciso saber aonde elas vão se encontrar.
– Pra que? Pra você tacar fogo no lugar?
– Não... Eu ainda não sei o que vou fazer, mas assim que eu descobrir o lugar eu posso pensar em alguma coisa.
– E pra que você quer minha ajuda mesmo? Porque está óbvio que não sou eu que vou sair com a Maura, então se quiser saber para onde ela vai pergunte para ela ou pergunte para a tal pediatra.
– Se eu perguntar ela não vai me dizer.
– E você quer que eu pergunte? – Beth perguntou um tanto receoso, porque se a resposta fosse sim ela desligaria o telefone na cara de Jane sem pensar duas vezes.
– Não! – Jane bufou. Estava difícil a ruiva entender para que ela tinha ligado. – O celular da Maura tem GPS, quero que você a rastreie para que nós possamos segui-la até o restaurante.
– Nós? – A ruiva perguntou pensando que tinha ouvido alguma coisa errada. – Eu posso até rastrear a Maura, mas eu não vou em canto nenhum com você não. Meu rosto já arde cada vez que ela olha para mim porque a visão dela é mais potente que a do Ciclope do X-man, não preciso dela me odiando mais.
– Qual é Beth! Você precisa vir comigo, eu tenho um mal pressentimento sobre esse encontro.
– Eu também, mas eu comecei a ter esse mal pressentimento quando você disse que quer seguir a Maura, boa noite Jane.
– Beth? Beth? Alô?
Jane olhou no visor do celular e viu que a amiga tinha desligado. Sabia que não tinha o melhor plano do mundo, na realidade não tinha plano nenhum, a única coisa que sabia que ia fazer era seguir Maura até o restaurante onde ela ia jantar com a pediatra, mas para isso precisava de Beth, sempre foi sua parceira nessas situações, tudo bem, não em situações de estragar o encontro de sua ex-namorada, mas outras situações como batizar a comida de alguém que eles não gostavam em alguma lanchonete da vida, mas enfim... Discou o número da amiga novamente.
– O que foi inferno? – Estava realmente irritada dessa vez.
– Você vai me ajudar?
– Se eu falar que vou você vai me deixar dormir?
– Provavelmente...
– Tá bom! Eu vou te ajudar. Agora me deixa paz!
E desligou o celular, disposta a jogá-lo longe caso Jane ligasse mais uma vez atrapalhando seu sono.
***
Mesmo tendo passado a noite toda praticamente em claro pensando em um jeito de fazer com que o jantar de Maura e Julie não passasse de um simples jantar, que não tivesse nenhum indicio de começo de romance ou que até mesmo não acabasse com Maura na cama da tal pediatra nem que fosse só por uma noite, Jane acordou antes da ex-namorada, o que foi uma surpresa para Maura assim que chegou a cozinha e viu a morena já dando café da manhã para TJ.
– Bom dia.
A loira desejou com um pequeno sorriso. Sabia que era obrigação de Jane cuidar de TJ também, mas sempre que ela viu a morena fazendo isso ficava encantada, mesmo depois de 4 meses morando juntas e vendo isso todo dia, ainda se encantava.
– Bom dia. – Jane respondeu com um sorriso deixando suas covinhas a amostra fazendo com que Maura se desconsertasse por segundos, mesmo que a legista não tivesse expressado tal desconserto. – Fiz o seu café e também panqueca caso esteja com fome.
Claro que Maura estranhou e vinha estranhando o comportamento de Jane nos últimos dias. Desde que tinha dito que ia ter um encontro com Julie a morena não se mostrou nenhum pouco mal humorada ou falou coisas com a intenção de fazê-la desistir. Não que ela quisesse isso, mas ela pensou que aconteceria porque esse era o jeito de Jane, pelo menos quando elas eram adolescentes.
– Em qual restaurante você é Julie vão se encontrar?
Não era um plano perfeito, provavelmente Jane não poderia nem chamar de plano. Tinha pensado que se fazer de indiferente sobre o jantar de Maura com Julie faria com que a legista desistisse dele, porque quando Maura contou sobre ele, depois de ter passado a noite acordada pensando sobre o encontro tinha chegado a conclusão que a ex-namorada só estava fazendo aquilo para lhe fazer ciúmes, que ela queria dar o troco por estar irritada com a volta de Beth, então se ela se mostrasse indiferente sobre o assunto e agisse como se nada tivesse acontecendo era possível que Maura desistisse, mas não aconteceu, foi quando ela decidiu pedir a ajuda de Beth, porque se essa conversa da manhã não funcionasse, ela teria que fazer alguma coisa e essa coisa que ela ainda não sabia o que era seria no restaurante e mesmo que ela tivesse dito para a amiga ruiva que Maura não falaria o restaurante em que ela e a tal pediatra jantariam, não custava nada perguntar, nem que fosse para começar a real conversa.
– Nós não vamos nos encontrar no restaurante. – Disse enquanto colocava café na xícara, sem encarar Jane. — Julie vai passar aqui em casa para me pegar. – Voltou sua atenção para a morena. – E eu não faço ideia do restaurante que ela vai me levar.
– Ela vai vir aqui em casa? – Maura fez um afirmativo com a cabeça. – Nossa! – Jane pousou o pote que estava o mingau que ela dava para TJ na cadeirinha. – Você gosta dela?
– Se eu não gostasse não sairia com ela, Jane.
– Eu sei... Mas estou dizendo de gostar ao ponto do beijo de boa noite não ser no rosto. – Maura que tomava um gole de seu café enquanto Jane falava, olhou para a morena sem entender o que ela estava tentando dizer. – Você transaria com ela, Maura?
A loira quase cuspiu seu café de volta na xícara. Que tipo de pergunta era aquela? Mas logo entendeu que esse era o jeito de Jane não se fazer de indiferente com o encontro dela e Julie, mas sem falar um monte de besteira ou tentar fazer com que ela desistisse.
– Eu não sei. Provavelmente sim. Julie é uma mulher muito atraente, divertida e parece ser bem sofisticada.
– Sim... – Jane já estava começando a se arrepender de ter começado a sessão perguntas. — Mas isso se tivesse outros encontros?
– Por que “se” tivesse outros encontros? Eu espero muito que tenha outros encontros, eu gosto da Julie.
“Eu gosto da Julie.” Era melhor parar com as perguntas, caso contrário ouviria outras coisas que não gostaria. Mesmo depois de dezessete anos Jane não conseguia imaginar Maura com outras mulheres, era óbvio que deve ter existido algumas em sua vida, mas dado a atual situação de solteira da ex-namorada nenhuma tinha sido séria, pois a legista nunca tinha comentado nada, então por qual motivo Julie seria? Por que ela queria outros encontros com Julie sendo que nem tinha tido o primeiro? Por que ela estava cogitando transar com Julie? Por que tudo isso se Maura já tinha deixado bem claro que era apaixonada por ela (Jane)? Sabia que tinha irritado a loira com toda essa história da volta de Beth e a amizade das duas ainda intactas, mas isso não era motivo para Maura querer seguir em frente ou era? Se fosse poderia estar tendo o pensamento mais egoísta do mundo, mas ela ia arrumar um jeito de estragar o jantar ou pelo menos de impedir que o jantar acabasse com Maura pelada na cama de Julie.
– Você já terminou de dar café para o TJ? Quero ir comprar um vestido e como você vai ficar a noite toda com ele pensei em levá-lo comigo para não deixar com que você cuide dele o dia todo...
– Pode ir comprar seu vestido, eu cuido dele, assim você pode comprar com calma sem se preocupar com o TJ.
– Tem certeza? – Jane fez um afirmativo com a cabeça. – Obrigada. – Respondeu com um doce sorriso, fazendo com que Jane se segurasse para não agarrar Maura ali mesmo fazendo com que ela desistisse de toda essa história de encontro. – Então eu já vou.
Nem Jane tinha entendido porque não deixou com que Maura levasse o TJ até a loja de roupas, seria uma forma de impedir o encontro já que correria o risco do bebê babar, sujar ou fizesse lá o que fosse com o vestido novo da loira, mas por outro lado nada disso poderia acabar acontecendo, provavelmente Constance a encontraria na loja, seria só mais uma perca de tempo e era melhor o sobrinho com ela no momento, pois ela estava tendo que lidar com vários sentimentos e um deles era o medo de perder Maura, porque parecia que a ex-namorada estava realmente ansiosa pelo encontro e que estava disposta a seguir em frente e isso seria horrível, mais horrível do que se Maura tivesse seguido em frente quando estava em Londres, porque quando ela morava em Londres não tinha Jane para assistir o seu “seguir em frente”.
***
A noite chegou e com ela chegou também o horário do encontro de Maura. Nada tinha dado errado, a loira tinha comprado seu vestido – que Jane não viu porque quando sua ex-namorada chegou das compras ela não estava em casa e quando ela chegou Maura já tinha subido para se arrumar – o encontro ainda estava de pé e Jane não tinha nenhum plano que prestasse em mente e um que ela não podia chamar muito bem de plano e sabia que Beth não ia concordar, mas era o que tinha naquela sexta-feira a noite.
Com a intenção de desligar um pouco seus pensamentos do tal encontro Jane resolveu assistir um pouco de desenho com TJ na sala. Ainda tinha tempo de alguma coisa dar errada e o encontro não acontecer.
– Baby Looney Tunes, isso sim é desenho que crianças deveriam assistir. Você vai ser uma pessoa mais feliz que as outras TJ, porque enquanto essas crianças de hoje em dia assistem Dora a Aventureira você assiste aos Baby Looney Tunes, bem mais educativo, engraçado e menos idiota. – Deu um beijo na cabeça de TJ que estava sentado em seu colo e parecia realmente entretido no desenho. – Próximo desenho que vamos assistir é 101 dálmatas, por que...
– Eu já estou indo Jane.
Assim que Jane mudou sua atenção da televisão para Maura a detetive ficou sem reação, pois sua ex-namorada estava lindíssima. Maura usava um vestido roxo liso um pouco a cima do joelho, com uma cinta preta e os cabelos soltos. Qualquer um podia dizer que a roupa era simples, mas em Maura tinha ficado completamente perfeita. Julie era uma mulher de sorte.
– Você está linda. – Jane finalmente conseguiu dizer algo. E Maura se segurou para não abrir um largo sorriso ao ouvir aquilo, ainda mais pela expressão abobada que Jane estava fazendo. – Quero dizer... – Ela tentou consertar depois que viu que tinha elogiado a loira em voz alta e possivelmente com uma cara de boba que só Maura fazia com que ela tivesse. – Para alguém que passou o dia fora comprando um vestido, ta legalzinha.
Depois do sorriso, Maura se segurou para não rir de Jane. Adorava quando a ex-namorada ficava desconsertada, na realidade era uma das coisas que mais gostava nela, mas infelizmente esse desconserto não era de alguém tímido que não consegue disfarçar o interesse, era o desconserto de uma cafajeste apaixonada, que mesmo por mais apaixonada que fosse Maura ainda tinha o pé atrás com ela, mas mesmo assim achava uma das coisas mais lindas quando Jane ficava assim.
– Não assista desenho até muito tarde com o TJ e qualquer coisa pode me ligar, mas qualquer coisa importante, tudo bem?
– Como se eu fosse ligar para você estragando seu encontro como você fazia comigo. – Respondeu em tom de tédio.
A loira pensou em retrucar, mas achou melhor não, primeiro porque podia se atrasar começando uma discussão e Julie já estava do lado de fora esperando e segundo talvez fosse um plano de Jane começar uma discussão para que ela se atrasasse então se limitou só a uma careta.
– Comporte-se viu TJ? – Deu um beijo na cabeça do bebê. – Nos vemos de manhã. Tchau Jane.
Jane só acenou com a mão carregando um pequeno sorriso no rosto. O “nos vemos de manhã” que Maura disse a TJ tinha lhe afetado, mesmo que ela tenha dito aquilo para TJ, Jane levou aquilo para ela e a morena não tinha gostado nenhum pouco da frase, não queria ver Maura só pela manhã, pelo contrário, queria ver a ex-namorada chegando dizendo que o encontro foi uma porcaria e que elas iam ter até que mudar TJ de pediatra já que ela nunca mais ia querer ver Julie na vida. Claro que isso era um pensamento de uma pessoa egoísta que não quer que o grande amor de sua vida siga em frente, mas quem se importava? Mesmo que provavelmente Maura fosse chegar em casa já com um segundo encontro marcado a morena estava disposta a fazer com que o “provavelmente” não existisse e que seus pensamentos egoístas se tornassem realidade.
Esperou com que Maura deixasse a casa para ir até a janela ver com que tipo de mulher estava lidando, mas infelizmente estava escuro e para ajudar o carro da pediatra tinha vidros fume, teria que esperar até chegar ao restaurante para ver se Julie merecia um jantar com Maura.
***
– Vamos? – Jane perguntou ao cruzar a porta do departamento e em resposta ganhou um dedo indicador pedindo só mais um minuto. – Você não conseguiu rastrear ainda o celular da Maura? – Se aproximou da mesa de Elisabeth e ao ver o que a amiga estava fazendo ao invés de rastrear Maura foi obrigada a balançar a cabeça em negativo de indignação. – Sério Beth?
– Só um minuto, essa fase 72 do Candy Crush tá complicada. A propósito... Você deveria jogar para me mandar energia. Merda! – Disse soltando o mouse e cruzando os braços. — Perdi de novo!
– Será que agora você poderia... – Apontou para o computador.
– Tenho outra alternativa? – Voltou a mexer no computador. – Mas qual é o plano Jane? – Antes que a morena respondesse Beth já a cortou. – Já sei! Você vai chegar lá na mesa em que as duas estão jantando e dizer: “Oi eu sou a Jane e você deve ser a mulher que está transando com a minha esposa”. Tudo bem que Maura não é sua esposa e que ela e a pediatra não estão transando ainda, mas ninguém precisa saber.
– Da onde você tira essas coisas? – Perguntou indignada. Poderiam ter 300 anos de amizade, certas coisas que saia da boca de Beth sempre iria indignar Jane.
– Longa história de quando eu tentava virar gente. Wow! – Soltou um riso. – A pediatra sabe escolher restaurante. Eu amo comida italiana, ainda mais de restaurantes cinco estrelas.
O restaurante em que Julie tinha levado Maura não era mais do que o restaurante italiano mais requisitado de Boston, todos os clientes e as pessoas que comiam lá a primeira vez diziam que era o restaurante que as deixavam mais perto da Itália, não era a toa que era cinco estrelas e não era a toa que Jane odiou saber disso porque tudo mostrava que a pediatra tinha o mesmo gosto refinado que Maura e se não tinha estava fazendo isso para agradá-la, porque tudo que envolvia culinária europeia ainda mais uma culinária que fazia você se sentir em algum país da Europa fazia com que as pessoas ganhassem vários pontos com a loira.
– Deixa eu ver se eu entendi direito... Você realmente não tem nenhum plano? Nós vamos entrar nesse restaurante e ficar observando as duas jantando?
– Você tem alguma ideia melhor?
– Tenho! – Respondeu com tanta certeza que fez com que Jane tivesse um fio de esperança de que esse jantar não passaria de um jantar. – Irmos embora e deixar com que Maura tenha o jantar dela em paz. – Claro que ao terminar de dizer aquilo Beth recebeu um olhar de indignação de Jane. – Olha Jane... Eu shippo você e a Maura mais do que qualquer ship meu nesse mundo e fico chateada por ter sido um dos motivos de estragar esse ship, mas na hora que Maura nos ver lá dentro é capaz de ela nos matar com um bisturi que ela deve carregar na bolsa e fazer com que tudo pareça um acidente.
– Maura faz Ioga, ela não perderia a paciência com a gente.
– Aquela mulher de Orange Is The New Black também faz Ioga, mas isso não impediu dela ter dado um safanão na outra.
Jane soltou um longo suspiro, fez uma careta para Beth como se dissesse que já estava bom as besteiras que ela tinha dito pelo dia de hoje e puxou a ruiva pela mão para dentro do restaurante.
– Boa noite. – Jane disse com um simpático sorriso.
– Boa noite. – A recepcionista respondeu com um sorriso mais simpático ainda. – Em qual nome que está a reserva?
– Nome? – Elisabeth não acreditava naquilo. Tinha deixado de jogar Candy Crush para nada. Bem que algo lhe dizia para deixar o celular desligado e se trancar em um quarto de hotel e só aparecer no outro dia, porque caso se trancasse no apartamento fingindo que não estava lá Jane tinha a chave e lhe perturbaria do mesmo jeito. Vida de amiga era tão difícil. – Veja bem... Nós não...
– Me desculpa, mas sem uma reserva eu não posso deixar vocês entrarem, estamos lotados até o fim do mês que vem.
– Maravilhoso Jane! – Disse entre os dentes no ouvido da amiga.
– Meu desculpa... – Jane olhou o nome da recepcionista no crachá. – Denise. – Abriu um sorrisinho. – Mas nós duas somos da polícia. Eu sou a detetive Jane Rizzoli e essa é a detetive Elisabeth Miller. – Cutucou Beth para que ela mostrasse o distintivo já que estava sem o seu. Com um sorriso amarelo Beth mostrou seu distintivo. Daria qualquer coisa para sair dali. – Nós estamos investigando um homicídio. – Se virou para ficar de frente ao salão com as mesas do restaurante, passou o olhar pelo local procurando por Maura e encontrou sua ex-namorada sorrindo e conversando com a tal de pediatra Julie, mas não conseguiu ver o rosto da mulher pois ela estava de costas, mas pelo menos agora sabia que ela era loira. – Sabe aquelas duas moças loiras ali? – Aponto com a cabeça. A recepcionista fez um afirmativo com a cabeça. – Temos grandes motivos para suspeitar que a loira que está de costas é uma assassina e que a loira na frente dela é a próxima vítima.
– Não podemos dar mais detalhes sobre o porquê de nossas suspeitas, tanto que esse caso não está nem na mídia, mas vocês não vão querer carregar um assassinato nas costas não é verdade? – Mesmo que não tivesse sido a ideia mais esperta do mundo e que mesmo se elas conseguissem entrar no restaurante ainda não tinham um verdadeiro plano, Beth decidiu ajudar a amiga. – Só queremos entrar para ficar de olho nela, só isso.
A recepcionada pediu um momento para as duas e chamou um homem que possivelmente deveria ser o gerente para um canto e cochichou algumas coisas para ele, segundos depois o homem caminhou até elas com um pequeno sorriso no rosto.
– Podem vir comigo, por favor, detetives?
Se as duas falassem que não tinham ficado surpresas por aquela história de última hora ter dado certo para que as duas pudessem ganhar uma mesa no restaurante estariam mentindo. Tinham ficado sim completamente surpresas, pois pensaram por alguns segundos que seriam expulsas do restaurante, pelo menos o lugar parecia se importar com o bem-estar de seus clientes ou provavelmente só pensavam na imagem cinco estrelas dele, mas isso pouco importava agora, pelo menos estavam dentro e com uma mesa que dava total visão para a mesa de Maura e Julie.
– Droga! Ela é bonita. – Comentou Jane se escondendo atrás do cardápio. – Até eu marcaria um encontro com ela.
– Ela é loira... Você não fica com nenhuma mulher loira desde a Maura. Me respeite, Ja... Não pode ser! – Beth disse completamente perplexa se escondendo atrás do cardápio e quase e enfiando embaixo da mesa. – Socorro! Aquela ali é a Julie!
– Eu sei que o nome dela é a Julie, eu que te disse. Por que o espanto?
– Ela é minha ex-namorada. – Sussurrou tirando o cardápio da frente de seu rosto e o colocando de lado só para Jane ver seu rosto, mas seu rosto ficando fechado para as pessoas sentadas nas outras mesas. Leia-se Julie.
– Desde quando você tem uma ex-namorada? Pelo que eu saiba você tem um ex-marido.
– Eu pulei essa parte da história. Foi em um momento difícil da minha vida que eu quis largar essa vida de policial. Meu Deus! Como ela está linda! – Disse com uma expressão abobada. Se isso fosse um desenho animado era capaz de aparecer corações em torno da cabeça de Beth. – Sinto te dizer isso Jane, mas a Maura vai amar a Julie, ela é a melhor pessoa que eu conheci na vida.
– Se ela é a melhor pessoa que você conheceu na vida por que ela é sua ex-namorada?
– Ela pode ser a melhor pessoa que eu conheci na vida, mas tenho quase certeza que eu não sou a melhor pessoa que ela conheceu na vida e se ela for de guardar mágoas minha vida pode estar em risco caso ela me veja aqui.
– Não vai ser a primeira e muito menos a última mulher que vai querer te matar, então... – Deu de ombros. – Tem certeza que a Maura vai gostar dela?
– Até minha avó materna que não gostava nem de mim ia gostar dela Jane, por favor.
– Com licença... – Disse o garçom. – As senhoritas já vão pedir?
– Não, obrigada, nós só estamos...
– Eu vou! – Beth cortou Jane. – Me vê uma lasanha a bolonhesa, mas com muito molho, não vem com aquela mendigagem de molho que não da nem pra sujar a boca. E eu também quero umas batas fritas e refrigerante. Poderia pedir alguma bebida alcoólica, mas como estou em serviço melhor não. Obrigada. – Disse com um sorrisinho. O garçom só assentiu com a cabeça e se retirou. Claro que ela teve que aguentar o olhar de desaprovação de Jane depois desse pedido. – O que foi? Você sabe que eu amo comida italiana.
– Tirando pizza e lasanha me diga outra comida italiana.
– Macarrão! – Disse em um tom como se dissesse “que pergunta mais óbvio”. Jane revirou os olhos. – Você acha que eu vou ficar não sei quantas horas aqui sentada passando fome? – Soltou um riso de deboche. – Nunca nessa vida!
O jantar de Maura com Julie parecia estar realmente muito animado, ambas não paravam de conversar, carregavam um sorriso que não desaparecia nenhum segundo sequer, tirando as gargalhadas que elas davam quando parecia que uma tinha dito algo engraçado para a outra. Ás vezes Jane e Beth até esqueciam que não podiam ser vistas e paravam de se esconder atrás do cardápio e ficavam olhando para a mesa das duas, até perceberem que estavam encarando demais e voltavam a se esconder atrás do cardápio, comentando alguma coisa ou começando uma pequena discussão.
– Olha! Julie tá levantando. – Comentou Jane. – Será que ela vai fugir do encontro?
– Não... Ela só vai ao banheiro e... – Beth resolveu parar de falar, pois percebeu que Maura tinha visto que as duas estavam sentadas próximas as duas e a expressão que ela tinha feito ao perceber isso não foi nada boa, tanto que ela levantou da mesa e caminhou até a mesa das duas. – Ferrou! – Disse se escondendo atrás do cardápio.
– O que vocês estão fazendo aqui? – Perguntou tentando conter o tom de irritação.
– Nós? – Jane não sabia o que fazer ou dizer, mesmo por que tudo que fizesse ou falasse não ia adiantar, mas precisava inventar uma desculpa. – Beth ama esse restaurante. Vínhamos muito aqui quando ele não tinha estrela nenhuma. A lasanha é maravilhosa, você deveria provar.
– Sério? – Maura cruzou os braços completamente descrente do que tinha acabado de ouvir. – Engraçado que Julie disse que teve que cobrar um monte de favores para conseguir uma reserva para hoje e que também esse restaurante tem 7 anos, Beth não morava mais aqui em Boston quando ele inaugurou.
O sorriso amarelo que Jane carregava com a esperança de que Maura acreditasse naquela história desapareceu.
– A parte de que a lasanha daqui é maravilhosa é verdade. – Disse Beth colocando uma garfada de sua lasanha na boca. – Olha... – Fez uma pausa para que pudesse engolir o pedaço de sua comida. — Eu disse para Jane que essa história de te rastrear pelo GPS do celular ia dar ruim, mas você sabe como ela é teimosa, nem um plano inteligente essa pessoa tinha para estragar seu jantar, então eu não sei... – Jane deu um chute na perna de Beth por debaixo da mesa. – AI INFERNO! – Reclamou passando a mão na parte que tinha levado o chute e olhou Jane com um olhar de repreensão e em resposta só ganhou uma cara fechada. – Não me chame mais para essas coisas sua ridícula!
– Vocês são inacreditáveis. – Disse Maura completamente indignada. – Qual o seu problema Jane?
– Meu problema é que eu nunca fui a favor de você sair com essa tal de Julie e eu sei bem que eu não tenha a ver com isso, que a vida é sua, mas... – Tinha um milhão de coisas para dizer, provavelmente a um milhão de coisas que Maura queria ouvir, mas nunca foi boa em se expressar e provavelmente não seria dessa vez que iria. – Ela não é boa o suficiente para você.
– Ela não é boa o suficiente para mim? – Soltou um riso de indignação. – Você nem a conhece Jane! E você tem razão... Você não tem nada a ver com isso e eu tenho todo o direito de seguir com a minha vida.
– Você só quer seguir com a sua vida porque está com raiva da volta da Beth, caso contrário se não fosse isso estaríamos juntas de novo e você sabe disso!
– A melhor decisão que eu tomei na minha vida foi não ter voltado com você Jane, por que...
– Não venha com a história de que eu continuo a mesma pessoa não! – Jane cortou a legista irritada já com aquela discussão. – Eu já estou cansada de ouvir isso.
– Por dezessete anos eu não consegui seguir com a minha vida porque você sempre esteve presente nela, sempre esteve em meus pensamentos fazendo com que eu ficasse imaginando “e se ela mudou?”, mas agora estou diante de você, aliás, estou convivendo com você há 4 meses e imagino que agora eu posso seguir em frente, de verdade, porque minha pergunta já foi respondida. Então será que você pode, por favor, parar de querer estragar meu encontro e ir buscar o TJ na casa da sua mãe e ir para casa?
A única vez que Maura tinha conseguido atacar o coração de Jane do modo que ela atacou agora foram com suas palavras na carta deixada quando ela foi embora. Nunca palavras tinham doído tanto, nunca pensou que palavras pudessem fazer tanto efeito assim, na realidade com ela mal podiam, só quando elas saíam de Maura. Não conseguiu dizer mais nada, tinha ficado completamente para baixo com tudo que tinha ouvido, ainda mais por Maura simplesmente virar as coisas e ir de encontro com Julie que estava voltando do banheiro.
– Está tudo bem? — A pediatra perguntou.
– Está. – Respondeu com um pequeno sorriso. – Será que podemos ir comer a sobremesa em outro lugar? Por que... – Deu uma olhada rápida para a mesa em que Jane e Beth estavam sentadas só para ver se Julie entenderia.
– Sempre achei a hora da sobremesa excelente para conversar sobre a sua longa história. – Fez sinal para que o garçom trouxesse a conta. – Espero que você goste de sorvete.
– Vamos embora. – Jane disse totalmente sem animo nenhum.
– Não vou para canto nenhum enquanto Julie ainda estiver aqui. – Disse ainda se escondendo com o cardápio. – E eu ainda não terminei de comer minha lasanha e também espero que quando eu diga para você que certa coisa é uma péssima ideia você me escute, assim você se poupa de todo sofrimento.
***
– Julie me desculpa ter feito a gente sair do restaurante, sei como não foi fácil para você conseguir uma reserva.
– Não tem problema, Maura. A comida daquele restaurante é maravilhosa, mas eu não gosto da sobremesa de lá não. E depois eu estou louca para ouvir sua longa história depois de ouvir todas as suas histórias curtas no jantar.
– Eu não acho que é uma boa ideia. Não que envolver você na confusão que é a minha vida, na verdade eu não deveria nem ter aceitado jantar com você.
– Por quê? O jantar foi tão ruim assim?
– Não Julie, não! Pelo contrário, foi o jantar mais agradável que eu tivesse nos últimos tempos, mas é que...
O jantar com Julie realmente estava maravilhoso, até o momento que Maura viu que Jane estava sentada em uma mesa próxima a delas. A loira realmente tinha pensado que poderia deixar Jane de lado e finalmente seguir com sua vida amorosa, pois Julie era uma mulher maravilhosa e qualquer mulher que se envolvesse com ela teria sorte, mas então ela viu Jane e por alguns segundos acreditou que tudo que tinha dito a ex-namorada era verdade, só que ela se deu conta que ela estava se enganando e seu “Black Hole” continuava.
– Eu também tenho uma longa história Maura. Claro que não tem a ver com eu ser mãe, mas não sendo mãe, mas eu posso compartilhá-la também se você quiser. – Disse em tom brincalhão fazendo com que Maura soltasse um risinho.
– Minha melhor amiga morreu tem pouco tempo, então ela deixou a guarda do TJ comigo, mas eu teria que dividi-la com a Jane.
– A morena do restaurante que não é sua esposa, mas pelo jeito você já teve alguma coisa com ela? – Maura fez um afirmativo com a cabeça. – Sua amiga te odiava ou o que?
– Ela não me odiava não. – Respondeu inocentemente. Não seria amiga de alguém que a odiasse. – Mas é que ela era casada com o irmão da Jane que também morreu. Eles deixaram esse testamento dizendo que nós duas tínhamos que cuidar do TJ juntas, morando na mesma casa durante um ano, caso contrário o bebê teria que ir para adoção. Os primeiros dias morando juntas foram horríveis porque Jane me odiava pelo término, mas com o passar do tempo começamos a nos dar bem de novo e houve até a oportunidade de voltarmos, mas a melhor amiga dela voltou, então eu fiquei incomodada, irritada e marquei esse encontro com você por estar com raiva e sabia que deveria ter desmarcado já que acho errado usar as pessoas para atingirem outras. Me desculpa Julie, de verdade.
– A melhor amiga da Jane era aquela que estava se escondendo atrás de um cardápio e eu não consegui ver o rosto? – Maura fez um afirmativo com a cabeça. – Mas por que a amiga dela é um problema na relação de vocês duas?
– Por que Jane me traiu com ela, por isso terminamos.
Maura tinha dito aquilo com tanta tranquilidade que Julie perdeu a fala por alguns segundos e foi obrigada a encher a boca de sorvete pelo menos para tentar disfarçar que tinha ficado sem reação.
– Eu não ligo de você me usar para atingir sua ex-namorada. Acho até divertido. – Disse arrancando mais risos de Maura. – Eu não te culpo de ainda ser apaixonada por ela, não é fácil esquecer alguém que você ama, ainda mais quando o término é recente e você é obrigada a morar debaixo do mesmo teto que a pessoa. Vocês estão separadas há quanto tempo?
– Dezessete anos. – Maura respondeu receosa. Não estranharia se Julie levantasse dali e fosse embora. A pediatra a encarou novamente sem palavras comendo mais uma colherada de seu sorvete. – Nós namoramos quando éramos adolescentes, eu sei que isso pode soar como loucura e eu pensei que eu conseguiria esquecê-la, que eu podia começar um novo relacionamento e deu tudo errado.
– O coração é o pior órgão do mundo inteiro. Nunca vi alguém tão teimoso que insiste em amar as pessoas erradas.
– Você como médica sabe que está errada sobre essa afirmação sobre o coração, certo?
– Eu sei Maura. – Julie soltou um riso. – Mas eu acho mais divertido culpar o coração do que o cérebro, o cérebro já é culpado por tantas outras coisas. – Maura mandou um pequeno sorriso para Julie. – Mesmo que você tenha aceitado jantar comigo só pra causar ciúmes na sua ex eu fico feliz por você ter aceitado. Fazia muito tempo que eu não me divertia assim, nunca arriscar meu trabalho foi tão prazeroso.
– Arriscar seu trabalho?
– Pois é... Eu ia desmarcar com você quando eu descobri que meu chefe é o seu pai. Você se saiu muito bem durante o jantar escondendo que é uma Isles.
– Eu não escondi que era uma Isles... – Julie a encarou com uma sobrancelha arqueada dizendo que não acreditava naquilo. – Em Londres eu era a Maura Isles, a grande legista, aqui em Boston eu voltei a ser Maura Isles, filha de Richard Isles, o grande cirurgião geral.
– As pessoas ou se aproximam de você por interesse ou se afastam por medo. – Maura fez um afirmativo com a cabeça. – Eu não quis ser chamada de medrosa, então eu perdia o emprego, mas não perdia o encontro.
– Meu pai jamais te demitiria, pelo contrário, ficou feliz em saber que eu sairia com você.
– Eu tenho que admitir que seu pai é um cara legal. No meu primeiro dia no hospital tive uma ótima conversa com ele no elevador, por sorte não soltei nenhuma gafe, porque quando ele deixou o elevador ele disse: “Espero que você seja um diferencial na nossa equipe de médicos assim como todos os outros que contratei doutora Rosewater. Tenha um bom dia e prazer finalmente conhecê-la”. Eu tive que sentar por alguns minutos quando deixei o elevador.
Maura soltou uma gargalhada que consequentemente fez com que Julie gargalhasse também. Sabia que provavelmente tinha estragado o encontro e que Julie não ia querer nunca mais sair com ela, mas a pediatra era uma ótima companhia e mesmo que tivesse aceitado sair com ela pelos motivos errados ficou feliz por ter saído, porque ela se mostrou uma ótima surpresa em sua vida.
– Esse sorvete é muito bom Julie.
– É a sorveteria favorita dos meus sobrinhos, sempre trago eles aqui quando estou de babá, ainda mais porque é 24 horas e nós somos ousados e sempre tomamos sorvete às 2 horas da manhã.
– Você tem sobrinhos?
– Tenho três. Dois meninos e uma menina. Se souberem que vim a sorveteria sem eles terei problemas.
E a conversa agradável que tinha começado no restaurante se estendeu na sorveteria...
***
– Não fica assim não Jane. – Beth sentou ao lado de uma Jane emburrada que estava no sofá. – Você ainda tem chances, Maura te ama, ela não vai ficar com a Julie.
– Se você não tivesse terminado com a Julie provavelmente ela não ficaria com a Maura mesmo não, porque ela estaria namorando você. A propósito... Por que vocês duas terminaram?
– Se eu pulei essa parte da história é por que eu não estou a fim de contá-la, mas o término envolve uma aposta, óculos e aparelho.
– Apostaram que você não namoraria a Julie por que ela usava óculos e aparelho? – Beth fez um afirmativo com a cabeça. – Meu Deus Beth! Não acredito nisso! – Jane soltou uma gargalhada. – Agora entendo sua surpresa quando falou que ela estava mais bonita.
– Eu sai de Boston para virar gente, por que não queria ser como você e aqui estou eu sentada em um sofá do seu lado. – Jane a encarou fazendo uma careta. – Tirando que eu sou a causa dos seus problemas amorosos. Você quer que eu seja aquela amiga que diz que vai se afastar para que você possa ser feliz com o grande amor da sua vida?
– Você ia gostar se eu fosse essa amiga?
– Se você falasse algum dia isso para mim provavelmente eu iria para rua. — Jane abriu um pequeno sorriso e Beth retribuiu com o mesmo. – Nós nos conhecemos em um momento ferrado das nossas vidas. Sabemos resolver os problemas, ou tentamos ou arrumamos outros problemas, mas...
– Nunca vou esquecer que dentro do seu estojo tinha mais lápis do que em uma papelaria.
As duas deram risada.
– A Maura te ama Jane. O jeito que ela sorria para a Julie hoje não chegava nem ao perto do jeito que ela sorri para você.
– E o jeito que a Julie sorria para Maura chegava perto de quando ela sorria para você?
Jane tinha perguntado só para provocar a amiga, adorava ver Beth ficando sem jeito e o modo que ela desviava do assunto.
– Vamos arranjar um jeito de você e a Maura se entenderem, tudo bem? Mas um que você não tenha que me acordar de madrugada.
***
– Está entregue.
– Muito obrigada Julie pelo jantar, foi tudo maravilhoso.
– Digo o mesmo.
– E me desculpe pela confusão da minha vida e eu vou entender se você nunca mais quiser sair comigo, por que...
– Maura, cala a boca.
E pegando Maura completamente de surpresa Julie lhe deu um beijo. De começo, como a legista estava sem reação nenhuma, ela não correspondeu, mas com a surpresa passada ela aprofundou o beijo. Alguma coisa em seu interior dizia que era uma ótima ideia corresponder ao beijo de Julie, para ver se ela estava certa em tudo que disse, que não queria envolver mais ninguém em sua vida louca por não conseguir seguir em frente. Podia ser triste, mas a verdade era que desde Jane todas as pessoas com quem Maura tinha ficado o beijo não trazia aquela reação clichê das pernas bambeando, coração mais acelerado, frio na barriga ou entrando um pouco para o meio dos Contos de Fadas, o pé não subia e infelizmente com Julie não foi diferente, sua decisão de não envolvê-la estava infinitamente certa.
– Julie... – Maura tentou procurar alguma coisa para dizer depois do beijo, mas...
– Desculpa, mas minha noite não poderia acabar sem eu ter a certeza de que vamos ser só ótimas amigas.
– Ótimas amigas? – Maura perguntou confusa.
– Eu tenho uma longa história de 7 anos atrás também. Podemos marcar um almoço, jantar, café, sei lá... Posso contar ela pra você. Claro que não envolve filho que não é filho e nem esposa que não é esposa, mas depois de alguns anos em terapia eu descobri que é uma ótima história, mas envolve os grandes amores da nossa vida que devíamos ter superado, mas não superamos e por causa disso não damos certo com ninguém.
– Eu adoraria ouvi-la.
– Ótimo! Boa noite Maura.
– Boa noite Julie.
Maura estava encantada. Não aquele encantamento que pode levar a paixão, mas com toda a situação, tanto que ao entrar em casa e ver Jane dormindo no sofá com TJ em seu peito e Beth ao lado dela não se incomodou.
Quando Jane tinha lhe dito que ela precisava de uma amiga tinha doído e ela tinha ficado irritada porque ela sabia que era verdade, mas não admitiria já que nunca tinha sido muito boa em fazer amigos, mas assim como Jane tinha aparecido na época de escola, Lydia tinha aparecido na época de faculdade e agora pelo visto Julie tinha aparecido em sua fase adulta, os amigos aparecem quando mais precisamos e talvez Beth tivesse aparecido porque Jane precisasse dela. Ao perceber isso tinha certeza que sua confusão sentimental ia voltar, mas agora ela tinha outros critérios para lidar com ela.
Notas finais
Só gostaria de pedir para que todas preparem o coração para o capítulo que vem... Agora só não vou dizer se é pra preparar para uma tragédia ou para uma coisa boa na vida de Rizzles, então... Keep calm and aguarde ;)
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