Rizzoli And Isles - Life As We Know It
14 Capítulo 14 - Apenas Mais Uma de Amor
Notas iniciais
É impressionante como quando estamos apaixonados todas as músicas românticas começam a fazer perfeito sentido. Não só as músicas como as poesias, textos e filmes românticos também. Quanto mais apaixonado você está, mais parece que certas músicas, poesias, textos e filmes foram escritos para você, e isso pode ser bom ou pode ser ruim, depende o tipo de história que essa música, poesia, texto ou filme está contando.
O amor é assim mesmo
Tem dias que é pra sempre
Ás vezes dura menos
(Manno Góes – O tempo da Gente)
O maior medo de Jane era que músicas, poemas, textos e filmes românticos fizessem sentido, pois ela sabia que se isso acontecesse ela estava completamente perdida. Sempre foi contra as pessoas que sofriam por amor e contra também a aquelas pessoas apaixonadas que pareciam estar felizes 24 horas por dia, era a pior visão que ela podia ter na vida e mesmo quando se deu conta de que estava completamente apaixonada por Maura ela não se tornou essa “idiota”, mas infelizmente não conseguiu fugir dos significados do que os autores e compositores deixaram. Não há dezessete anos e não agora. Tudo que eles diziam sobre coração partido, sobre como o amor é lindo, mas mesmo assim machuca, de como perder a pessoa amada era a pior coisa do mundo, de como é ruim amar e não ter a pessoa ao seu lado, tudo lhe descrevia, tudo dizia como ela se sentia, tudo fazia com que ela tivesse vontade de arrancar seu coração fora, e depois de tudo que ela ouviu de Maura no restaurante, de toda aquela conversa de seguir em frente e por pensar que sua ex-namorada que ainda era o grande amor de sua vida dormiu com outra pessoa, isso fazia com quem ela tivesse vontade de matar quem inventou o amor, pois as pessoas que escreviam sobre ele, Jane concluiu que eram somente simples afetados por esse terrível, devastador e maravilhoso sentimento.
Me disseram uma vez que o danado do amor pode ser fatal
Dor sem ter remédio pra curar
Me disseram também
Que o amor faz o bem
E que vence o mau
Até hoje ninguém conseguiu definir o que é o amor
(O que é o amor – Arlindo Cruz e Maria Rita)
Até Maura teve suas experiências com músicas românticas. Sempre foi alguém que só ouviu música clássica, sentir a música, apreciar a sinfonia, mas não tinha nada em letra, nada cantado entrando em seus ouvidos dizendo sobre seus sentimentos, só que então ela conheceu Lydia, não que Jane não tivesse lhe apresentado bandas e músicas, mas Lydia era aquela apaixonada que ficava na fossa comendo sorvete, ouvindo e cantando The Police como se ela fosse sofrer por amor para sempre. O que Maura mais gostava mesmo eram dos poemas e textos, se fosse Shakespeare então ela podia sofrer pelo resto da vida, mesmo que ela entendesse o sentido de todos os textos dele era diferente quando sentia e ás vezes fazia mais sentido do que ela pensava que fazia. Seus amores platônicos nunca fizeram os autores e compositores terem sentido, seu namorado que mudou para a França também não, só Jane fez com que isso acontecesse, só Jane trazia sua confusão de sentimentos e se Maura soubesse que seu “Black Hole” tinha uma música com esse nome, definitivamente ela cantaria para Jane, porque só a morena fazia com que ela se sentisse assim a ponto de não conseguir seguir com sua vida, a ponto de fazer com que toda a esperança romanticamente que ela tinha se perdesse, pois como as músicas e textos dizem: Sempre existe aquela pessoa que nasceu para você, que não importa por onde você passe, que não importa quantos amores você viva, vai ser difícil você ser feliz sem essa pessoa.
E isso só fica tão confuso
Não é em nenhum lugar aqui
E está em todo lugar
Que eu não quero estar
Mas eu estou presa aqui
Ficando confusa por você
Eu estou sozinha
Numa bicicleta para dois
(Black Hole – She & Him)
Sem conseguir pregar o olho á noite inteira Maura resolveu que iria lidar com seus sentimentos e que tomaria uma decisão definitiva sobre sua relação com Jane. Desde o beijo com Julie ela soube que a relação das duas não passaria de uma simples amizade e ficou feliz quando a pediatra também percebeu isso e disse que queria prosseguir com uma amizade, como também o beijo fez com que ela soubesse que Jane era sua pessoa das músicas românticas, o que ela não sabia era se era hora de dar realmente uma segunda chance para o amor e depois de tanto pensar ela não conseguiu tomar decisão nenhuma, pois ela sabia que alguma coisa estava faltando, que ela precisava ouvir alguma coisa e como amanheceu e ela não sabia muito bem o que era resolveu descer para tomar um café, mas ao chegar a cozinha deu de cara com Beth atrás do balcão dando mamadeira para TJ.
– Maura! – Beth disse no susto ao perceber que a legista estava na cozinha a encarando. Tanto que tirou a mamadeira da boca de TJ. – Eu... – Voltou a dar mamadeira para o TJ, pois ele tinha começado a murmurar indicando que logo mais ia começar a chorar. – Jo Friday estava latindo que nem uma doente mental, então Jane foi dar uma volta com ela pro TJ não acordar, só que não adiantou muita coisa, dois minutos depois que ela saiu ele acordou e eu não sei o que vocês dão de café da manhã pra ele, então fiz uma mamadeira mesmo. Eu já estava indo embora.
– Não sabia que você levava jeito com crianças.
Maura disse em um tom suave, esboçando até um pequeno sorriso e se aproximando do balcão. Beth não podia negar que ficou até assustada com isso, pensou que seria expulsa da casa ainda mais por estar dando mamadeira para TJ, mas foi pega completamente de surpresa com esse comportamento da loira, mas tentou transparecer a menos assustada e surpresa possível e continuar o que parecia ser uma tentativa de conversa.
– Antes do TJ fazia muito tempo que eu não segurava um bebê. Acho que a última vez que eu segurei um bebê foi a sobrinha de uma ex-namorada minha há uns sete anos, mas acredito que todo esse jeito que eu levo ainda é graças a minha irmã.
– Ela estava no avião também, não está?
– Eu falei para os meus pais que eu cuidava dela, mas eles falaram que eu precisava de total atenção para o meu projeto de ciência e... – Beth colocou a mamadeira de TJ em cima do balcão assim que viu que ele tinha terminado e colocou o menino de pé em seu colo. – Era pra ela ter 20 anos agora, estar na faculdade e provavelmente me enlouquecendo com os 200 namorados que ela ia ter.
– Namorados?
– Definitivamente namorados. Meu gaydar funciona muito bem, aquela ali ia passar o rodo em todos os meninos. – Disse em tom divertido arrancando uma risada de Maura. – Mentira! Ela ia ser a irmã madura e sensata que casaria primeiro que eu teria uma família e eu ia morar em um quartinho nos fundos da casa dela. Íamos ser uma ótima família.
– Eu tenho certeza que sim.
– Olha Maura... Eu sei que não tenho direito nenhum de me intrometer e dizer isso, mas mesmo assim eu vou dizer por que eu sou esse tipo de pessoa. Você e Jane podem jurar de pé juntos que não, mas isso aqui que vocês têm é uma família. Vocês não podem ser casadas, mas eu sei que depois de todo esse tempo vocês ainda se amam e o TJ pode ser filho do Tommy e da Lydia na certidão de nascimento, mas com toda certeza quando ele começar a falar não vai ser a Lydia que ele vai chamar de mãe. Você fica tentando disfarçar dizendo que quando esse um ano acabar você vai dar a guarda total do TJ para a Jane e vai se contentar em ver a criança ás vezes porque não quer briga. – Maura ia dizer alguma coisa, mas foi cortada por Beth. – Ás vezes eu e Jane conversamos sobre coisas série também. – Mandou um sorriso de canto de rosto. — Eu sei que eu ajudei na separação de vocês, que em algum momento você começou a confiar em mim e eu estraguei tudo isso, mas a Jane te ama e assim como eu, você sabe que ela mudou, ela não é mais aquela a toa que incendiava ginásios de escola, mesmo que não fosse de propósito, ela não é mais aquela a toa que não queria fazer nada da vida, que dizia que depois que terminasse a escola ia procurar um emprego em uma lanchonete ou em um posto de gasolina, ela não é mais nem aquela cafajeste que transava com a primeira mulher que via no bar. Desde que começou essa história de segunda chance Jane não transou com mais ninguém, e provavelmente ela vai me matar caso descubra que eu contei isso para você, mas desde que você foi embora ela não ficou com nenhuma mulher loira, ela disse que não queria nada lembrando você e olha que a doida daquela Nize fez de tudo para amarrar a bichinha, falou que até pagaria uma viagem para Las Vegas e com toda certeza ela embebedaria a Jane e elas voltariam casadas, mas enfim... Jane não é mais aquela irresponsável de dezessete anos atrás e ela ainda te ama acredito que até mais do que antes, exemplo disso é ela me levar em um restaurante para estragar o seu encontro, mesmo sem ela saber como ia fazer isso e ela está devastada porque acha que você transou com essa Julie, coisa que eu sei que você não fez porque eu vi você chegando ontem e vi que vocês só trocaram um beijo e que provavelmente não vai dar em nada, mas eu fingi que estava dormindo para evitar algum barraco. Você tem uma família maravilhosa bem na sua frente Maura, praticamente formada, não vejo por qual motivo não se deve dar uma chance para ela.
Se tivesse ouvido isso saindo da boca de Beth nos primeiros dias que soube que a ruiva estava de volta a cidade com toda certeza Maura não daria um mínimo de importância devido ao seu “incomodo”, mas depois que chegou em casa na noite passada e viu a ruiva dormindo em seu sofá e pela primeira vez não se incomodou, ela aproveitou e usou a noite em claro para pensar sobre Beth também e como lidaria com o ciúmes que sentia da detetive tendo em vista se ela fosse dar uma segunda chance para Jane que Beth estaria inclusa no pacote.
Ia abrir a boca para dizer algo, provavelmente o que tinha ouvido de Beth era uma das coisas que ela precisava ouvir para tomar uma decisão definitiva sobre toda sua confusão sentimental, mas infelizmente foi interrompida com Jane chegando em casa.
– Antes que você comece toda sua exaltação... – Jane se adiantou em dizer antes que Maura pudesse dizer qualquer coisa. — Eu pedi para a Beth ficar de olho no TJ para eu levar a Jo para passear por que eu não sabia se você já tinha chegado.
– Eu acho que vou embora. – Beth entregou o TJ para Maura. – Vocês duas precisam conversar.
– Deixa que eu te levo para casa. Não estou a fim de conversar com a mais nova namorada da pediatra do meu sobrinho agora.
– Jane...
– Conversamos depois Maura.
Só que esse depois nunca chegou. Por algumas vezes Maura tentou puxar um assunto, mas sempre era cortada por Jane que limitava a conversa delas só sobre o TJ. Jane estava brava, mas no decorrer daquela semana ela não conseguiu distinguir se estava brava consigo mesma por aparentemente ter perdido Maura ou se estava brava com a loira por ter seguido em frente sem nem ao menos ter dado uma segunda chance para as duas, sem nem ao menos comprovar que ela tinha realmente mudado. As músicas desde sempre ensinaram que um relacionamento não é fácil.
Ás coisas andam muito mal, meu bem
Não vejo nem sinal de vida além
Paraíso, sem abrigo, sem você
Tentei entender porque isso assim
Você sem mim
(Paraíso – Jammil e Uma Noites)
– Eu a perdi. – Disse Jane assim que entrou na sala de seu psicólogo e tratando logo de se estirar no sofá. Já tinha enchido a Beth com todo esse seu drama de que tinha perdido Maura durante a semana e qualquer coisa que a melhor amiga dizia ela achava que era errado e que ela não sabia o que falava, então Gavin era sua última chance. – Ela simplesmente seguiu em frente e não tem nada que eu possa fazer.
Gavin era um psicólogo, não podia julgar e óbvio que não podia rir de certas situações, mas ele achava graça em Jane. Não aquela graça de “nossa como ela é estúpida”, mas graça de toda a situação, pois meses atrás quando a terapia tinha começado a morena se recusava a falar de seus sentimentos e agora ela já chegava em seu consultório despejando tudo e ás vezes parecia até uma adolescente em seu primeiro relacionamento sério que estava indo para o espaço, e mesmo que seu trabalho fosse fazer com que Jane voltasse ao departamento sem correr o risco de matar ninguém, ele ficava feliz por ter recebido uma paciente diferente de todos os outros que ele estava acostumado a tratar, pois Jane não tinha só um problema de trauma pós alguma situação, mas tinha o maior problema de todos, o problema do amor.
– Você já assistiu “Como se fosse a primeira vez” Jane?
– Quem nunca assistiu a esse filme?
– Então... O filme mostra a história de um homem que tem que conquistar uma mulher todo dia, pois ela sempre que acorda esquece dele e do dia que passaram juntos, mas ele não se importa em fazer isso, porque ele a ama.
– Você está me convidando para assistir a um filme com você? – Perguntou sem entender sobre o que realmente aquela conversa se tratava. – Por que se for já vou logo dizendo que não sou muito fã desses filmes não.
– Você tem uma história de dezessete anos com a Maura, você não a perdeu, você só precisa fazer com que ela se lembre do motivo de ter se apaixonado por você.
– É doutor... – Jane sentou-se no sofá. – Não vai rolar, por que eu não sou mais aquela pessoa. Maura se apaixonou por uma pessoa que ficava com garotas em festas por esquema da melhor amiga.
– Você sabe que não foi por essa pessoa que Maura se apaixonou e como você também sabe o que tem que fazer para reconquistá-la.
Na realidade ela não sabia.
Depois da consulta Jane sentou em seu carro e ficou pensando no que teria que fazer para reconquistar Maura, porque pelo que ela se lembrava nunca tinha sido o exemplo de menina romântica na adolescência, ela tinha seus momentos doces com Maura, seus momentos românticos, mas nada extrapolado como ela presenciava, foi então que ela se deu conta que precisava desse extrapolado, mas não sabia como fazê-lo, então teria que pedir ajuda.
– Beth eu preciso da sua ajuda. – Jane disse entrando na sala do departamento.
– Olá para você também Jane. – Disse Frost sarcasticamente.
– É... Oi pra vocês, oi. – Disse como se tivesse no modo automático só acenando com a mão sem nem ao menos olhar para Frost ou até mesmo Frankie e Korsak que também estavam na sala. – Beth!
– Seja sincera Jane... De 0 á Essa foto merece ganhar, qual o nível de beleza dessa foto? – Disse Beth mostrando seu celular para Jane.
– Você ta mudando a foto do seu twitter de novo?
– Estou! Mas não é por que eu quero, mas é que a gente tem esse grupinho no twitter e uma das garotas que faz parte do grupo chegou no twitter dizendo que a foto dela era a mais linda do site inteiro, ao invés desse pessoal acabar com o assunto ali mandando a garota nascer de novo e para de sonhar uma criatura que eu não vou citar o nome disse que não, que a foto dela era a mais linda do site, então começou uma discussão sobre quem tem a foto mais linda do site e para dar fim na discussão resolvemos montar uma votação no facebook para ver quem tem a foto mais bonita do twitter e as pessoas que não entraram na discussão que vão votar.
– Você não vai citar o nome da criatura que começou a discussão por que essa criatura foi você né?
– Claro que não! – Jane a encarou cruzando os braços. – Tudo bem! Mas eu só comecei essa discussão porque eu estava entediada, não tem nada pra fazer nesse departamento.
– Que tal pegar assassinos?
– Que assassinos? – Korsak soltou um riso de deboche. – Desde que Beth chegou aqui nós fechamos nossos casos em aberto e parece que os assassinos resolveram dar uma trégua.
– Detetive Elisabeth Miller é sinônimo de Boston segura. – Disse com um sorriso convencido. – Vou colocar essa foto mesmo. Até eu colocando uma foto minha acordando vai ser mais bonita que desse povo. – Beth ficou algum tempo em silêncio só concentrada em seu celular e Jane ficou assistindo aquilo sem dizer uma palavra, pois sabia que de nada adiantaria. – Pronto! – Colocou seu celular em cima da mesa. – Depois você entra lá no grupo pra votar em mim. Agora me diz... O que você quer?
– Sua ajuda para pensarmos em um jeito de eu reconquistar a Maura.
– Por que a Beth? – Perguntou Frankie fingindo indignação.
– Isso mesmo! – Disse Korsak. — Por que a Beth? Por que não a gente?
– Me poupe vocês. Korsak já se divorciou três vezes e eu não vejo o Frost e muito menos você Frankie em relacionamentos, então não vejo motivo para Jane pedir ajuda a vocês. – Disse com um sorriso cínico.
– Falou a especialista em relacionamentos que destruiu um casamento de cinco anos dormindo com a secretária do marido. – Disse Frankie sarcasticamente. – Definitivamente você é a pessoa ideal para Jane pedir ajuda.
– Nesse momento eu estou ignorando vocês. – Beth fez uma careta para eles e voltou sua atenção para Jane. – Qual sua ideia de um jeito de reconquistar a Maura?
– Eu não sei! – Bufou. – Queria um jeito que dissesse que ela é a coisa mais importante na minha vida, que eu não vou ser feliz nunca sem ela.
– Eu tenho o jeito ideal então.
– Qual? – Jane perguntou com esperança e um pouco de animação, mas possivelmente ela devia ter esquecido que era Elisabeth que estava em sua frente.
– Você ir até sua casa e dizer isso para Maura, mas claro que acrescentando outras coisas mais melosas que eu sei que você sente por ela.
– Vocês ainda querem que eu peça ajuda para vocês rapazes? – Jane perguntou ignorando completamente o que Beth tinha acabado de dizer. – Tenho algumas ideias que eu vim pensando no meio do caminho e... Eu não acredito que estou fazendo isso.
– Larga de ser ridícula Jane! Senta aqui, vamos pensar nesse jeito e se os rapazes quiserem eles podem ajudar, mas eu que comando a operação.
Ninguém contestou. Não o fato de Beth dizer que comandava a operação, pois todos queriam ser responsáveis pela reconciliação de Jane e Maura, pois acompanhavam a história de Jane tentar voltar com a Maura desde o começo, desde antes de a morena descobrir que queria Maura de volta, então nada mais digno do que eles a ajudarem, mas outros fatores foram bem contestados, foram bem discutidos, quase tendo barracos o que só não ocorreu porque estavam em um departamento de policia e mesmo que aparentemente não tivessem nada para fazer não podia circular por ai que eles estavam usando o tempo vago para reconciliar um casal.
“Como reconquistar a Maura em quatro semanas” foi o nome que Beth escolheu para a operação. Ridículo nome, todos sabiam disso, mas a ruiva disse que eles tinham outras coisas para perder tempo do que escolhendo um nome, então ficou esse mesmo, mas o que o nome da operação tinha de ridículo, o que compunha a operação tinha para dar certo.
Eles não dividiram a operação por etapas. Não listaram coisas que Jane tinha que fazer durante a semana para que pudesse começar a operação, eles simplesmente listaram quatro coisas que Jane teria que fazer, uma em cada semana, coisas que pudessem mostrar para a Maura o que ela significava na vida de Jane, coisas que pudessem mostrar ou descrever o amor que Jane sentia por ela, coisas que pudessem mostrar que Jane não estava pronta e que não iria desistir de Maura e depois de feito o que eles decidiram ficava por conta da detetive levar as coisas até a próxima semana, até a próxima demonstração.
Um buque com tulipas e rosas vermelhas foi entregue para Maura naquela tarde. De primeiro momento a loira tinha pensado que podia ter acontecido algum mal entendido, que o entregador tinha errado de endereço, mas não podia ser já que ele tinha sido bem claro quando disse que a entrega das flores era para Maura Isles, não conhecia nenhuma Maura Isles, então só podia ser ela mesma. Levou as flores até o balcão da cozinha e ficou as admirando por um bom tempo até lembrar que podia ter um cartão no meio delas que indicasse quem tinha mandado ou o melhor, o porquê tinham mandado. Ao ver de quem era as flores e o que veio escrito no cartão a surpresa foi imensamente maior do que simplesmente só receber as flores, tanto que Maura voltou a olhar para as flores, com um sorriso bobo no rosto, passando suavemente suas mãos pelas flores. Pensou que depois das poucas palavras trocadas durante a semana as coisas não ficariam boas tão cedo, mas depois das flores recebidas teve uma esperança de pelo menos uma conversa.
– “Por você é eterno”? – Julie perguntou em tom incrédulo ao ouvir Maura contando sobre as flores que tinha recebido junto com o cartão. As duas estavam ao telefone. – Eu sou romântica, mas isso tá muito brega Maura. Aliás, tá confuso, o que por você é eterno?
– Você não sabe o que tulipas e rosas vermelhas significam?
– Rosas vermelhas significam dia dos namorados, mas estamos longe do dia dos namorados e tulipas vermelhas nem sabia que essas flores ainda existiam quanto mais que tinham um significado. As duas flores juntas significam que Jane está errada na hora de mandar flores?
– Não, amor. – Maura disse entre risos.
– Amor? Meu amor por você é eterno. Hum... Agora faz mais sentido, eu poderia usar isso. Vai agradecê-las ou vocês vão continuar se ignorando? Aliás... Ensaie seu agradecimento comigo depois dessa semana de gelo.
– Julie...
– Estou falando sério Maura...
A loira que estava no balcão da cozinha desde que tinha recebido as flores deu mais uma olhada para elas, pegou o cartão na mão, deu uma última lida e abriu um sorriso. Ainda estava boba com o recebimento daquelas flores e tinha muita coisa para dizer para Jane e mesmo assim ela ainda achava que não deveria dizer muito, que tinha que ouvir algo de Jane, mas ainda não tinha descoberto o que era.
– Eu espero que seja eterno mesmo. – Disse com uma voz doce ainda olhando completamente apaixonada para o cartão. – Obrigada pelas flores, são lindas.
– Meu Deus como você ainda é apaixonada pela Jane! – Julie soltou um riso. – Vai treinando esse agradecimento para parecer menos apaixonada e me liga mais tarde porque tenho pequenos pacientes para atender. Tchau.
– Bom trabalho.
Maura desligou o telefone e ainda ficou por algum tempo olhando para o cartão. Lembrava-se de algumas vezes quando ambas diziam que o amor de uma para outra seria eterno e dada a situação em que se encontravam era a mais pura verdade, mesmo depois de anos ainda guardavam todo esse amor adolescente que durante anos Maura desejou que desaparecesse, que não fosse eterno, e que mesmo que ainda fosse confuso e ela não soubesse o que fazer estava feliz dele não ter desaparecido. Ia subir para o seu quarto e levar o cartão junto para pensar em um agradecimento “menos apaixonado” pelas flores e se preparar para uma possível conversa, mas foi surpreendida com Jane atrás de si. A loira ia abrir a boca para dizer alguma coisa, mas foi interrompida por Jane que só fez um negativo com a cabeça e um sinal com a mão dizendo para que Maura não falasse nada, o que deixou a legista completamente confusa.
A verdade era que Jane tinha ouvido a conversa de Maura com Julie, pelo menos pensou que tinha ouvido, além de chegar na metade e pensar que Maura estava chamando Julie de amor ainda pensou que sua ex-namorada estava agradecendo a pediatra do TJ pelas flores que ela havia mandado e ouvir Maura dizendo que esperava mesmo que o amor de Julie fosse eterno e a loira dos olhos claros não dizer nada para arrumar aquilo e dizer que aquela demonstração de amor não era ela que tinha mandado a deixou muita irritada e se perguntando se toda aquela operação tinha sentido, porque naquele momento parecia que tinha tudo, menos sentido, ainda mais quando aparentava que Maura tinha realmente seguido em frente.
Andam dizendo por aí
Que o fogo no seu coração apagou
Tenho certeza que você já ouviu tudo isso antes
Mas você nunca tinha dúvida
Não acredito que alguém
Sinta o mesmo que eu sinto por você agora
(Wonderwall – Oasis)
Jane tentou abortar a operação, mesmo com os conselhos intermináveis que Beth lhe dava e os rapazes pedindo para que ela desse tempo ao tempo, era só a primeira semana, as coisas podiam mudar, mas ela estava relutante e não queria seguir para a próxima semana, não estava pronta para fazer algo que Julie pudesse roubar o crédito novamente, mas como Beth, Korsak, Frost e Frankie falaram as coisas podiam mudar e mudaram.
Mesmo sem entender o comportamento de Jane de ainda limitar as conversas só para assuntos sobre o TJ e nem sequer conversarem sobre as flores, em uma das noites de completo silêncio entre as duas guardiãs em que Maura da cozinha só ouvia a televisão com mais um desenho animado que Jane assistia com o TJ e comentava tudo que acontecia com o garoto como se ele pudesse realmente começar um grande assunto sobre aquilo, a loira foi até a sala e disse um “obrigada” para Jane e subiu até o seu quarto. Jane olhou para trás confusa tentando encontrar alguma expressão em Maura que pudesse explicar qual era o significado daquele “obrigada”, mas como a ex-namorada não tinha ficado por lá para mostrar alguma expressão, ela passou o fim do desenho sem nenhuma atenção no mesmo, ficou pensando no agradecimento de Maura, ficou tentando descobrir algum significado, mas só conseguiu achá-lo depois que colocou TJ para dormir e foi até o quarto de Maura e a encontrou olhando para o cartão que ela tinha mandado, claro que o significado era um “talvez”, um talvez Maura estivesse a agradecendo pelas flores, um talvez ela tivesse descoberto a mentira de Julie, um talvez que ela e Julie não estivessem se falando mais e foi esse talvez que fez com que Jane não abortasse a operação.
Na segunda semana não tinha como haver mal entendidos, pelo menos todos os envolvidos esperavam que não.
You're a falling star, you're the get away car
(Você é uma estrela cadente, você é o carro da fuga)
You're the line in the sand when I go too far
(Você é a linha na areia quando eu vou longe demais)
You're the swimming pool on an August day
(Você é a piscina num dia de agosto)
And you're the perfect thing to say
(E você é a coisa perfeita para se dizer)
And you play it coy, but it's kind cute
(E você se faz de tímida, e é meio fofo)
Ah, when you smile at me you know exactly what you do
(Oh, quando você sorri para mim, você sabe exatamente o que faz)
Baby, don't pretend that you don't know it's true
(Amor, não finja que você não sabe que é verdade)
Cause you can see it when I look at you
(Porque você vê quando eu olho para você)
And in this crazy life, and through these crazy times
(E nessa vida louca, e por esses tempos malucos)
It's you, it's you, you make me sing
(É você, é você, cocê me faz cantar)
You're every line, you're every word, you're everything
(Você é cada frase, Você é cada palavra, Você é tudo)
You're a carousel, you're a wishing well
(Você é um carrossel, você é um poço dos desejos)
And you light me up, when you ring my bell
(E você me ilumina, quando lembro de você)
You're a mystery, you're from outerspace
(Você é um mistério, você é do espaço sideral)
You're every minute of my everyday
(Você é cada minuto do meu cada dia)
And I can't believe, that yet I'm not your man girl
(E eu não posso acreditar que ainda não sou seu homem sua mulher)
And I get to kiss you baby just because I can *I hope so*
(E eu te beijo meu amor só porque eu posso *Eu espero*)
Whatever comes our way, ah we'll see it through
(O que quer que venha no nosso caminho nós perceberemos)
And you know that's what our love can do
(E você sabe que é isso que nosso amor pode fazer)
Michael Bublé – Everything
Maura teve que reler o email que tinha acabado de receber umas cinco vezes para ter certeza de todas as palavras ali. Estava em seu quarto, TJ pelo milagre divino tinha resolvido dar um cochilo, então ela resolveu ler sobre as novas atualizações da ciência, ver se tinham lançado novos documentários, quando foi surpreendida com esse email de Jane. Após ler cinco vezes o email e começar a assimilar o que aquilo poderia ser, ela finalmente conseguiu procurar pela música no Youtube e ficou mais encantada ainda que só conseguia sorrir. Nunca foi a pessoa mais indicada para falar de músicas e/ou estilos musicais populares, talvez a música não fosse as mil maravilhas que ela pensava, mas quem se importava? Depois das flores que Jane lhe enviou dizendo que a amava, que o amor das duas era eterno, a morena agora tinha mandado uma música dizendo que ela era tudo? Não tinha como ela ficar mais maravilhada, a letra, a melodia, quem cantava a música, nada importava, só importava a declaração que ela trazia e depois de finalmente conseguir assimilar tudo isso Maura pensou em responder ao email, na verdade ela estava prestes a enviar uma resposta, mas resolveu se conter, Jane tinha mandado flores e um cartão e ficou agindo estranho a semana inteira, não trocaram nenhuma palavra sobre aquilo sem ser o “obrigada” que ela se importou em dizer, então se a ex-namorada queria saber o que ela tinha achado ou se queria algum tipo de comentário sobre a música, ela teria que perguntar, teria que puxar um assunto, pois ela não aguentaria mais uma semana de assuntos limitados, não mesmo.
Em seu apartamento, que agora Elisabeth morava, Jane estava inquieta, já fazia mais de uma hora que tinha mandado o email para Maura e nenhuma resposta. Só existia duas explicações para aquilo: Ou ela não estava mexendo no computador ou ela viu o email, leu e excluiu sem dar grande importância. Essa opção dois enlouquecia Jane, era engraçado que mesmo depois de anos Maura ainda fazia com que Jane parecesse uma adolescente idiota, pois ela podia nunca ter mostrado sua parte extrema de idiotice apaixonada para a loira, mas Beth conhecia muito bem, teve que lhe aguentar todo o um ano de namoro, não que ela se importasse, mas agora tinha aprendido a ignorar.
– E se ela odiou a música? E se ela estiver rindo de mim? É Michael Bublé, não é todo mundo que gosta de Michael Bublé, eu demorei para gostar de Michael Bublé.
– Todo mundo gosta de Michael Bublé. – Disse Beth sem tirar a atenção do computador. – Se não gostam das músicas dele, gostam dele, por que ele é uma ótima visão, ele é gostoso e se eu encontrasse com ele na rua ou se me infiltrasse no camarim dele depois de um show eu sem duvidas pegava.
– Você tem certeza que é lésbica?
– Não. – Beth mudou sua atenção para Jane. – Sou bi. – Mando um sorrisinho para ela e voltou a olhar para o computador.
– Ela deve ta rindo com a Julie de mim, tenho certeza. – Balançou a cabeça em negativo revirando os olhos com raiva de si mesmo. – Por isso que eu levava a filosofia de vida que a melhor coisa do mundo era não se apaixonar, mas eu tinha que me apaixonar né? Ai eu fico aqui que nem uma idiota de 18 anos. Você tem sorte sabia, Beth?
– PARA O MUNDO! – Disse Beth animada olhando para o computador. – PARA O MUNDO! PARA O MUNDO!
– O que? – Disse Jane se aproximando da amiga com o coração saindo da boca já pensando que era a resposta de Maura. – Maura respondeu? O que ela disse?
– O que? – Beth que ainda estava distraída olhado para o computador voltou seu olhar para Jane. – Maura? Não, ela não respondeu seu email não. Estou em um grupo aqui do facebook de séries em um tópico de spoilers sobre Revenge. Várias teorias. — Jane a encarou com uma cara fechada. – Mas você não quer saber disso, na realidade você nem deve ter um gosto bom o suficiente para séries para acompanhar a vingança da diva suprema Emily Thorne, mas tudo bem. Não se preocupe, ela vai te responder e se ela não te responder ainda temos duas semanas.
Era tão fácil para Beth dizer, pois não era ela que estava tentando reconquistar uma ex-namorada e não teria que passar por isso na vida já que a única ex-namorada que ela teve na vida era a Julie e era bem provável ela nunca mais querer olhar na cara da ruiva. Pelo menos era o que Jane pensava.
Cansada de ter suas paranoias ignoradas Jane resolveu ir para casa e estava com a intenção de não fazer nenhuma pergunta para Maura sobre o email, sabia que a ex-namorada não podia mentir, então se ela tivesse visto o email ela não poderia dizer que não viu, e caso ela dissesse que tinha visto, mas que não deu a mínima, sua vontade de continuar com a operação ia diminuir para algum número negativo, mas qual não foi sua grande surpresa ao ir para o andar de cima e ouvir a música que ela tinha mandado tocando e ela vinha do quarto de Maura e como a porta do quarto da loira estava aberta ela não deixou de parar por lá e admirar com um imenso sorriso a ex-namorada ouvindo sua pequena declaração de amor.
– Jane... — A loira notou sua presença antes que ela pudesse sair dali. Jane mandou um sorriso sem jeito para ela. – Desde quando você gosta de Michael Bublé?
– Desde quando você conhece Michael Bublé?
– Lydia.
– Ah sim, claro. Aposto que a música favorita dela era Home e que ela ficava ouvindo a música no último volume e cantando.
– Como você sabe? – Perguntou em tom curioso.
– Eu não sei... Normalmente todas gostam de Home.
Maura só fez um positivo com a cabeça junto com um sorrisinho e o silêncio tomou conta do lugar por alguns segundos até que a própria loira resolveu quebrá-lo.
– O que diz aqui que é verdade?
– Tudo.
Foi a única coisa que Jane disse mandando um sorriso tímido para Maura e seguindo para seu quarto, fazendo com que Maura fosse obrigada a ouvir a música novamente, pois aquela foi a melhor conversa que ela teve com Jane em dias.
Com aquela noite a relação das duas melhorou infinitamente, voltaram a conversar normalmente, mas não tinham tocado nem no assunto das flores e muito menos o assunto da música. Maura quis tocar por diversas vezes, mas achou que se Jane tivesse alguma coisa para dizer ela que tinha que dizer, caso contrário pareceria que ela estava pressionando. Jane também quis tocar por diversas vezes no assunto, mas não quis apressar as coisas, o assunto seria tocado na última semana, não só sobre as flores, música ou o que ainda estava por vir, Jane ia colocar tudo para fora, se não pegasse Maura pelo coração, não teria mais o que fazer, mas por enquanto ela não queria pensar nisso, estava se focando na terceira semana.
***
– O que você está assistindo?
Perguntou Jane ao chegar a sala e encontrar Maura assistindo algo que ela não sabia explicar muito bem o que era.
– Eu também não sei. – Disse sem tirar os olhos da televisão ainda tentando entender o que estava acontecendo no programa. — Começou com uma mulher cozinhando, o que fez com que eu pensasse que estava passando um programa de culinária, mas então agora eles estão brigando e eu não faço ideia do por que e tem uma mulher tendo um bebê no andar de cima da casa dentro da banheira... Eu estou confusa.
– Estão mostrando... – Jane fez uma careta se contorcendo e fechando os olhos quando filmaram o bebê saindo. – CREDO! Maura desliga isso, desliga isso! – Muitos segundos depois, que Jane pensou que fosse uma eternidade, Maura conseguiu achar o controle e desligou a televisão. – Obrigada! Você ainda gosta de filmes de romances, comédias românticas, essas coisas chatas?
– Desde que a Lydia deixou Londres eu nunca mais assisti nenhum, mais eu gosto sim. Por quê?
– Estava pensando em assistirmos algum. – Jane mostrou uma sacola onde tinha alguns DVDs. – Já assistiu The Vow?
– Não que eu me lembre.
– E mesmo se tiver assistido não vai ligar de assistir de novo, por que você me fez assistir Cidades dos Anjos não sei quantas vezes.
– Por que você alugou romances para a gente assistir se você odeia?
– Eu não odeio romances. – Disse Jane colocando o DVD no aparelho. Maura a encarou com um olhar de que duvidava do que ela dizia. – Só não são meus filmes favoritos, mas... – Deu de ombros. – Pensei em fazermos alguma coisa tranquila e que você gosta já que estávamos meio que brigadas essa semana.
Maura não pensou nem em argumentar, contestar ou entrar em qualquer assunto que trouxesse o motivo da briga a tona, só deu de ombros e se ajeitou no sofá para assistir The Vow.
O filme contava a história de uma mulher que perdeu a memória e o marido fez de tudo para que ela se lembrasse dele, do amor que viveram, era a típica história que Maura adorava e que ela sabia que Jane detestava, e uma hora ou outra ela se pegava olhando para a morena que na primeira hora de filme se pareceu bastante interessada, mas ela não gostava muito mesmo daquele tipo de filme, então antes que ele acabasse Jane adormeceu.
Se Maura ligasse os fatos, ligasse o que já estava acontecendo nas últimas cenas ela descobriria que a escolha daquele filme foi completamente proposital, mas ela só foi descobrir no final do filme quando apareceu a seguinte frase:
Eu não vou desistir de você Maur.
Imediatamente Maura virou para o seu lado para dizer alguma coisa para Jane, mas só então ela percebeu que a ex-namorada estava dormindo. Pensou em acordá-la. Pensou em iniciar a conversa, em perguntar sobre o que tudo aquilo se tratava, pois por mais que ela estivesse apreciando, por mais que ela entendesse que tudo aquilo era algum tipo de declaração, ela ainda queria saber o significado de tudo aquilo, o que Jane estava querendo realmente dizer, se era alguma forma de reconciliação, por que se fosse, sua confusão sentimental estava prestes a se encerrar. Na realidade ela já tinha se encerrado e aparentemente Maura tinha tomado uma decisão, tanto que depois de ler a frase no fim do filme uma segunda vez, ela deu um leve beijo nos lábios de Jane que nem se moveu e com um sorriso deixou a sala.
Bote na ideia que eu sou o seu amor
Bote na ideia que eu sou o seu ar
Bote no juízo
Bote na cabeça
Bote no seu coração o que é amar
(Claudia Leitte – Seu Ar)
– Eu não acho que é sério esse negócio com a Julie, então hoje quando eu for conversar com ela, vamos ficar bem, certo? Beth falou que Maura e a Julie não transaram e as vezes que a Maura saiu com ela nem demorou para voltar, então... Tudo bem que... – Balançou a cabeça em negativo. – Se eu falar que atiraria em quem inventou o amor você ia continuar sem me liberar?
– Jane... – Gavin estendeu um panfleto para Jane.
– O que é isso? – Jane pegou o panfleto da mão de seu psicólogo.
– Eu recebi ligações e essas ligações me cobravam a sua liberação e eu disse que você ainda não estava pronta para voltar, então... – Jane parou para ler pelo menos o enunciado do panfleto para ver do que se tratava e quando viu fez uma cara de indignada. – Eu já mandei alguns pacientes meus passar um mês ai, deu resultado.
– Isso é como se fosse de volta a Academia de Polícia. Eu não vou! Ainda mais agora.
– Jane pode ser bom para você. Desde que tudo aconteceu você não teve um momento para espairecer, tudo foi jogado em você. Sua suspensão, a guarda do TJ, Maura...
– Você sabe que eu não posso. Não estou a fim de mandar meu sobrinho para adoção.
– Tenho certeza que não vai contra ao testamento já que você não está indo embora, só...
– Não doutor... – Jane o interrompeu. – Eu tenho mais o que fazer do que ficar indo para um retiro de policiais traumatizados.
– Esse “mais o que fazer” está incluso procurar um novo emprego?
– Eles não... – Gavin a encarou como se dissesse para ela não duvidar disso. Jane bufou. – Vou conversar com o advogado e ver se eu posso mesmo passar um tempo fora, mas eu só vou se as coisas derem errado com a Maura. Cavanaugh não vai deixar ninguém me demitir sem ser ele mesmo. – Disse com um sorriso vitorioso. – Você gosta de Shakespeare, doutor?
Terei coragem
Não deixarei nada levar embora
O que está à minha frente
(A Thousand Years – Christina Perri)
– Pensei que tinha morrido Jane! – Disse Beth assim que viu a amiga chegando ao departamento. – Demorou tudo isso por quê? Nem começou a chover ainda e o inferno dessas ruas ficarem todas engarrafadas.
– Eu fui ver o advogado. – Colocou o panfleto em cima da mesa de Beth. – Meu psicólogo quer que eu vá pra essa porcaria ai.
– Falaram que servem sucos de frutas maravilhosos nesse lugar. Você vai gostar. – Jane olhou Beth com um olhar de reprovação. – Mas claro que você não vai, não é verdade?
– Jane separei alguns textos. – Disse Korsak com alguns papéis na mão. – Mas eu acho que você não deveria só entregá-lo, você deveria dizer algo.
– Eu vou falar com ela Korsak, não vou só jogar o texto para ela.
– Mas não foi só isso que você veio fazendo essas últimas semanas? – Observou Frankie. – Você até dormiu semana passada e sonhou que Maura tinha te beijado.
– Eu estava preparando as coisas.
– Espero que essa preparação demorada não tenha dado vantagem a Julie. – Disse Korsak.
– Será que vocês podem parar? – Disse Beth. – Minha amiga é nova nessa coisa do amor.
– Obrigada Beth!
– Ela não vai ter culpa se perder a Maura para Julie. Existem pessoas que nasceram com o dom da conquista. Se der ruim você não precisa se sentir mal por isso Jane.
– Será que podemos... – Puxou os papéis da mão do Korsak. – Vocês são péssimos amigos.
Então não me importa o que dizem
Pois eu já vi que, quando corremos, fazemos chover
Não há nada melhor que isso
Continuarei esperando você só por mais um beijo
Então faça chover
(Make it Rain – Colbie Caillat)
Quantas coisas românticas não aconteceram debaixo de chuva? Algumas pessoas podem dizer que chuva e romance só combinam nos filmes, pois na vida real a mulher está muito ocupada com seu cabelo, mas isso não é verdade. A chuva pode sim proporcionar momentos completamente românticos. A luz pode acabar e um jantar a luz de velas pode ser feito. Um filme pode ser assistindo ou uma noite inesquecível pode ser feita nas quatro paredes da casa.
Chovia em Boston. Tinha acabado de anoitecer e Maura estava em casa pensando no que ia fazer para o jantar, pois Jane disse que chegaria para a hora do jantar. A loira imaginou que seria um jantar comum como elas haviam tendo nos dias anteriores. Já tinha perdido as esperanças de Jane dizer algo, pois fazer ela estava fazendo, mas ela precisava ouvir alguma coisa, na realidade ela precisa só ouvir uma única coisa, mas parecia que isso nunca ia acontecer.
A campainha tocou e Maura foi atendê-la. Ao abrir a porta não deixou de soltar um riso com o que via em sua frente.
– Você não tem algo que as pessoas costumam chamar de guarda-chuva?
Essa foi a pergunta que ela fez seguida de mais um riso a uma Julie completamente encharcada em sua frente
– Tenho. Assim como eu tenho a mania de não colocá-lo no carro.
– E você não podia ligar que eu te buscava ali no carro com o meu guarda-chuva?
– Acredita que eu também tenho essa mania de não colocar meu celular para carregar? E eu não pensei que me molharia tanto assim, só que essa chuva me enganou. Mas parece... – Julie olhou Maura de cima a baixo e viu que a loira usava um roupão branco. – Parece que você também andou tomando chuva. Tá com goteira sua casa?
– Goteira? – Perguntou sem entender. – Não. – Julie olhou mais uma vez para Maura para ver se dessa vez a amiga se tocava que ela estava usando um roupão. – Ah... – Ela olhou para o que vestia. – TJ me deu um banho e eu ainda não tive tempo de me trocar. Mas... – Maura fez sinal para que Julie entrasse. – Acho melhor você se trocar.
– Tem mais desse roupão? Podíamos fazer a festa do roupão. Só até minhas roupas secarem.
– Você sabe que pode usar uma roupa minha, não sabe?
– Você vai colocar uma roupa agora? – Maura a olhou sem entender o motivo da pergunta. – Festa do roupão então.
Quando Julie tinha dito festa do roupão Maura ficou torcendo para que a amiga só quisesse usar um roupão, por que se ela quisesse realmente fazer uma festa com direito a música e tudo mais, ela teria que barrar, não tinha nem dois minutos que ela tinha conseguido colocar TJ para dormir, não ia arriscar acordar a criança, mas por sorte Julie só estava mesmo querer usar um roupão e a festa se transformou em um jantar que as duas resolveram fazer juntas enquanto dividiam uma garrafa de vinho.
– Por que você não me disse que a Jane está vindo para o jantar? Trocamos duas palavras e sei que ela me odeia.
– Ela não te odeia! – Julie a olhou com uma expressão de que aquilo não era verdade. – Eu não sei mais o que pensar Julie. Jane me confunde.
– O que tem de tão confusa nessas declarações que ela fez para você todos esses dias?
– O fato dela não se declarar realmente. – Julie a encarou sem entender. – Eu fiquei esse tempo todo pensando no que faltava para a segunda chance da Jane e... Eu entendo no passado, ela tinha problemas em se expressar, mas... – Soltou um suspiro.
– Oh entendi! Está faltando o “Eu te amo”. – Maura fez um afirmativo com a cabeça um pouco chateada e até envergonhada por ter que admitir aquilo. Julie pegou a mão direita de Maura. – Ela já fez tudo isso Maura. Se ela tinha esses problemas todos de expressar sentimentos ela está na vantagem, só está faltando realmente dizer. Ninguém em sã consciência deixaria de dizer um “Eu te amo” para você. – Disse Julie com um sorriso doce ainda segurando a mão da legista. – Aquelas rosas e tulipas vermelhas significavam mais que só amor. Elas significavam...
– Eu te amo para sempre. – Julie fez um afirmativo com um sorriso encorajador como se dissesse para Maura acreditar que Jane ia dizer tudo que ela quer escutar.
Acreditar Maura poderia até acreditar, mas ela realmente ouvir não fazia parte de sua realidade. Fazia, até Jane presenciar outro mal entendido. Até Jane entrar em casa e ver Maura e Julie trajando roupões e a loira dos olhos verdes amarronzados dizendo um “Eu te amo para sempre” enquanto Julie segurava sua mão e sorria. No cenário de Jane logo em seguida elas iriam se beijar, mas ela não deixaria que isso acontecesse, não diante de seus olhos, já tinha visto demais.
– A regra de não transar com ninguém aqui em casa só vale para mim?
– Jane...
– Não quero atrapalhar o casal não. Só vou subir e arrumar minhas coisas.
– Arrumar suas coisas? – Maura perguntou sem entender. – Você está indo embora?
– Meu psicólogo quer que eu vá para esse lugar que trabalham com policiais como eu que não conseguem ser liberados para o trabalho.
– E você pretendia me contar isso quando?
– Agora. E não se preocupe, eu conversei com o advogado e ele disse que não tem problema eu ficar um mês fora. E acredito que você não precisa se preocupar em ficar sobrecarregada cuidando do TJ. Tem minha mãe para te ajudar, sei que a sua também vai adorar ajudar e Beth se você pedir ela não vai se importar em ajudar. Ah e sua namorada pode te ajudar também.
Sem dar nem chance de Maura poder dizer alguma coisa Jane subiu até seu quarto. Maura pensou em subir para conversar com a morena, explicar que não era nada daquilo que ela estava pensando, mas ia adiantar o que? Jane desde sempre adorava ficar irritada sem necessidade e quando isso acontecia ela sempre acabava ouvindo coisas absurdas, então não ia se sujeitar a isso, mesmo porque estava um pouco irritada, pois Jane tinha passado essas últimas semanas estranhamente romântica como quisesse lhe dizer algo e no final das contas só diz que está indo passar um mês fora sem nem ao menos perguntar o que ela achava sobre isso. Jane a confundia de um jeito que nunca conseguiu confundir quando elas eram adolescentes. Talvez fosse maravilhoso esse tempo que elas iam passar separadas, as coisas podiam se alinhar e parar de ser um pouco menos confusas.
No pensamento de Jane nada estragaria seu último dia da operação. Por mais que ela imaginasse que Maura e Julie podiam ter alguma coisa, a esperança de que elas não tivessem nada e que tudo não passava de algo de sua cabeça era maior, mas ter praticamente visto que podia ser realmente séria a relação das duas, fez com que ela não quisesse seguir em frente. Tinha ficado irritada, poderia ser o pensamento mais egoísta do mundo, mas ela não queria ver Maura com outra pessoa que não fosse ela e ver doeu mais do que ela imaginou que poderia doer.
De almas sinceras a união sincera
Nada há que impeça: amor não é amor
Se quando encontra obstáculos se altera,
Ou se vacila ao mínimo temor.
Amor é um marco eterno, dominante,
Que encara a tempestade com bravura;
É astro que norteia a vela errante,
Cujo valor se ignora, lá na altura.
Amor não teme o tempo, muito embora
Seu alfange não poupe a mocidade;
Amor não se transforma de hora em hora,
Antes se afirma para a eternidade.
Se isso é falso, e que é falso alguém provou,
Eu não sou poeta, e ninguém nunca amou.
(William Shakespeare)
Olhando para o papel que ela tinha escrito sua última declaração para Maura a morena percebeu que precisava realmente de um tempo, que esse um mês fora poderia fazer maravilhas, que mesmo que ela não deixasse de amar a Maura ela podia colocar na sua cabeça que suas chances com ela tinham se esgotado, que ela tinha realmente seguido em frente e ela teria que se acostumar com isso.
Nas músicas, nos poemas, nos textos e até mesmo nos filmes eles costumam contar sua versão do amor. Sobre como ele é maravilhoso, mas complicado. Sobre como ele machuca e você tem que aprender a viver com a dor. Mas eles também costumam dizer quando é hora de seguir em frente...
Acho que não adianta correr atrás desse amor
Se já o perdi de vista
Não achei nem rastro, nem pista
Somente o tempo irar encontrar
(Resto de uma saudade – Sensação e Lecy Brandão)
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