Rizzoli And Isles - Life As We Know It
3 Capítulo 3 - Quase agradável, nada agradável
Notas iniciais
Capítulo dedicado a Nize por motivos de Nagumo.
Ótima leitura.
Chega o ponto de uma relação que você vai dividir a casa com a pessoa, seja para ver se vocês vão continuar dando certo quando resolverem engatar nessa vida de pré-casados para finalmente partir para o casamento, seja porque vocês se casaram e automaticamente vocês tem que dividir uma casa ou como diz o português claro, você decidiu “juntar as escovas” já que o casamento de papel passado não é para você, mas você quer viver com aquela pessoa.
Há dezessete anos Jane e Maura conversavam sobre viver juntas, mesmo que a morena não gostasse muito da palavra casamento, não via problema em dividir uma casa com a pessoa que ela mais amava na vida, para falar a verdade sempre que esse assunto surgia Jane se sentia muito empolgada com a ideia, mas com o passar do tempo e com um término, morar com Maura era a última coisa que Jane queria na vida, mesmo porque não tinha necessidade disso já que elas não estavam mais juntas e nunca mais se veriam na vida, claro, até Tommy e Lydia morrerem e deixar a condição que elas teriam que viver juntas caso quisessem permanecer com a guarda de TJ.
Chega até ser irônico você ter que dividir a casa com alguém que você não queria nem respirar o mesmo ar quando se tem pessoas que dariam tudo para dividir a casa com alguém que ama e passar o resto da vida com ela.
Jane teve alguns dias para se acostumar com a ideia de viver um ano debaixo do mesmo teto que Maura, tentava se apegar aos pontos positivos disso, mas quanto mais pensava em neles, nenhum ela encontrava, tirando o fato de ter a guarda de TJ. Pelo tempo que tinha passado com Maura percebeu que ela continuava a mesma irritante, sabichona e sofisticada de sempre e ela odiava isso, talvez fosse pelo fato de ter sido o motivo dela ter se apaixonado por Maura da primeira vez, mas ela nunca admitiria isso para ninguém e nem para ela mesma já que chegou a admitir isso para Maura uma vez, mas dezessete anos tinham se passado e as coisas mudam, sentimentos mudam, então ela procurou pensar que só odiaria tudo em Maura, odiaria tudo em sua estadia na casa dela e odiaria tudo mesmo se não tivesse motivo aparente já que era algo que ela fazia com excelência.
Maura também teve alguns dias para se acostumar com a ideia de viver um ano debaixo do mesmo teto que Jane, e assim como a morena tentou se apegar aos pontos positivos disso, mas não estava dando muito certo. Na adolescência teve que encarar uma Jane mais ou menos parecida com a dos dias atuais, mas a diferença é que na adolescência sabia o motivo de Jane ser do jeito que era, mas agora imaginava, e se tivesse que lidar com isso seria complicado. A morena a acusava de terminar com ela e ir estudar em Londres, quando na realidade todos sabiam que a história não era bem assim, a própria Jane sabia que a história não era essa, mas mesmo assim, depois de todo esse tempo, continuava se fazendo de vítima e a fazendo a vilã da história e ainda por cima tinha que aguentar todo o mau humor dela e ela sendo desagradável 24 horas por dia. Eram adultas, pensava que com o passar do tempo Jane poderia se tornar mais madura, mas o que tinha visto no dia que ficou novamente cara a cara com a morena a realidade não era essa. A única coisa que faria com que ela suportasse esse um ano com Jane seria o TJ, porque jamais iria deixar o filho de sua amiga ser adotado por qualquer pessoa.
– Chegamos a sua nova casa Jo.
Jane soltou a coleira de Jo Friday que saiu correndo para cima de Maura que estava indo ao encontro de Jane para perguntar – mais uma vez – se ela precisava de ajuda com as malas. Maura abriu um sorriso ao ver a cachorra e se abaixou para fazer carinho nela. Jane fez uma careta, tinha conversado com a cachorra e dito para ela não gostar de Maura, pelo contrário, era para ela fazer xixi nos sapatos caros da legista, mas parece que ficou falando com as paredes do apartamento.
– Não sabia que você gostava de cachorros. – Levantou a cabeça para olhar Jane, mas sem deixar de fazer carinho em Jo Friday. – Ele é muito fofo.
– Não é ele é ela. Jo Friday e eu também não sabia que gostava de cachorros, mas Korsak me deu, então... – Deu de ombros.
Jane não estava ainda a melhor pessoa do mundo para conversar e muito menos para morar junto, mas passaram o dia inteiro terminando de arrumar as coisas da mudança que ela estava até um pouco mais agradável do que no dia que se reviram. Ainda não perdia a oportunidade de ser ríspida e usar o sarcasmo excessivo e só faltava engolir Maura toda vez que ela perguntava se ela precisava de ajuda com as malas, mas tirando isso estava tudo bem. Pelo menos isso era o que a Maura otimista procurava pensar para deixar a convivência mais fácil, mas sabia que Jane não estava ajudando nisso e ela só não estava igual ou pior como no dia da leitura do testamento porque trocaram poucas palavras, caso contrário não saberia como estariam as coisas agora.
– Tem cerveja nessa casa? – Jane se encaminhou até a cozinha, mas antes que pudesse cruzar o balcão até a geladeira, parou no meio do caminho. – Oh meu Deus! Por que tem uma tartaruga na cozinha?
– Ele não é uma tartaruga. – Maura respondeu se encaminhando até a cozinha também. – Ele é um cágado. Bass.
– Bass? – Perguntou arqueando uma sobrancelha.
– Willian M. Bass. O famoso antropólogo que fundou a fazenda de corpos.
– Oh... – Fez um positivo com a cabeça. – E por que você tem uma tartaruga com o nome de um antropólogo na sua cozinha?
– Cágado. – Maura corrigiu novamente. Tinha se esquecido dessa mania de Jane de mesmo ela ensinando o correto ela continuar optando por dizer o errado. – Foi um presente da Lydia. Cuido dele desde que ela era desse tamanho. – Fez o gesto com a mão. – Ele é uma ótima companhia.
– Claro! Por que se você jogar uma bolinha para ele, ele vai sair correndo e pegá-la em tempo recorde. – Maura não achou ruim Jane usar de seu sarcasmo, pelo contrário, gostava desse sarcasmo divertido dela, algo que ela por algum tempo pensou que a mrorena tinha deixado de possuir. – Afinal... Tem ou não tem cerveja nessa casa?
– Eu não bebo cerveja. – Jane a encarou como se perguntasse se aquilo era sério. – E não tem nada em casa, pensei que pudéssemos sair para fazer compras.
– Você sabe que não estamos casadas, certo? – A loira a encarou esperando aonde aquilo ia dar. – Eu não vou fazer compras com você.
– Tudo bem então. Eu faço as compras então. – Maura pegou a chave do carro em cima do balcão. – Só gostaria de te lembrar que meus hábitos alimentares continuam os mesmos. – Mandou um sorrisinho para Jane. – Você pode trazer o TJ para casa enquanto isso.
Aquilo não podia ser verdade. Quanto mais Jane tentava pensar que a Maura por quem ela tinha se apaixonado não tivesse ficado nenhum vestígio, a loira fazia coisas ou se comportava de um modo que era impossível pensar desse jeito. A cada segundo que passava ela sabia que a legista não tinha mudado em nada. Poderia estar até mais bonita do que há dezessete anos, – o que parecia ser impossível – seu modo de se vestir estava bem mais aprimorado, como seu modo de falar também, não tinha fugido de suas origens ricas, mas ela sempre foi assim, pelo menos nessa parte, por que sempre gostou de moda e de um ótimo vocabulário, mas na forma de se portar com ela, de conversar, até suas pequenas chantagens para conseguir o que queria – não de um modo mimado – continuavam as mesmas. O sorriso doce continuava o mesmo, o modo suave e também doce com que ela falava continuava o mesmo, não sabia se sua inocência ainda estava ali, mas descobriria com o passar do tempo, mas a Maura por que ela se apaixonou na adolescência continuava ali, e isso ás vezes lhe causava um pânico e claro aquela raiva de sempre, porque lembrava que se ela continuava a mesma pessoa que ela se apaixonou na adolescência, ela continuava sendo aquela mesma pessoa que lhe trocou para ir estudar fora. E mesmo que ela tivesse ciente de que não se apaixonaria por Maura de novo, já que ela jurava de pé junto que essa paixão e todo amor que ela sentia pela loira não existia mais, ter a Maura de dezessete anos atrás ainda em sua frente chegava a ser um pouco perturbante e até perigoso. Perigoso para seu coração.
– Pensando melhor... Não somos casadas, mas vamos morar juntas, precisamos de comida que nós duas comemos nessa casa.
Maura saiu andando na frente de Jane para que a morena não pudesse ver o imenso sorriso que ela carregava no rosto ao ouvir aquela frase. Mesmo depois de tudo que tinha passado em sua cabeça, que a Jane por quem ela se apaixonou pudesse ter sumido de vez, ficou feliz em saber que mesmo que fosse mínimo, ainda tinha vestígios dela lá e isso a alegrava.
***
Podiam não ser casadas, mas quem via Jane e Maura fazendo compras no supermercado não acreditaria muito nisso. A cada sessão que passavam para comprar as coisas era uma discussão diferente, não concordavam com absolutamente nada, e quando concordavam fingiam não concordar só para que uma contrariasse a outra e acabassem discutindo mais uma vez.
– Quantos engradados de cerveja você está pensando em levar? – Maura perguntou ao ver Jane colocando um mais no carrinho. – Já não está bom?
– Não. – Colocou mais um no carrinho.
– Quantas cervejas você pensa que vai tomar por dia?
– Várias.
– Tem alguma coisa que você queira me contar Jane? – A morena a encarou sem entender. Que pergunta era aquela? Não tinha nada para contar a Maura, só queria terminar aquelas compras e ir para casar tomar as cervejas que estava colocando no carrinho. – Você não teve nenhum problema com bebida durante esses anos?
– O que? – Perguntou indignada com a suposição de Maura. – Você está me chamando de alcoólatra?
– Eu não estou te chamando de alcoólatra, mas seis engradados, com seis cervejas cada, acredito que é demais tendo em vista que só você bebe cerveja e disse que são só para uma semana.
– Você tem uma adega cheia dos vinhos e você não me vê te chamando de alcoólatra por causa disso.
– Por que não tem motivo, já que só vou abrir os vinhos em ocasiões especiais.
– E depois eu não posso ter a certeza de que você não vai beber minhas cervejas.
– Eu já disse que não tomo cerveja.
– Você também me dizia que não comia hambúrguer, então...
Não ia discutir. Já tinha discutido demais esse tempo todo que estavam andando pelo supermercado, se Jane não era uma alcoólatra tinha certeza que aquela cerveja ia durar mais de uma semana, tinham uma criança para cuidar, Jane não poderia beber diversas cervejas por dia, não era nem saudável ela fazer uma coisa dessas.
– Jane!
Maura viu uma morena, bem mais nova que elas indo em direção a detive com um imenso sorriso. Encarou Jane para ver se a detetive esboçava alguma reação de que a conhecia, mas o que ganhou foi uma expressão surpresa e de confusão. Deveria estar em apuros.
– Olá! – Jane respondeu com um sorriso forçado. – Como você vai?
– Espero que você tenha uma ótima explicação para não ter me ligado.
– Bom... Eu acho que perdi o seu número.
– Sério? Por que tenho certeza que anotei ele no seu celular.
– Oh é verdade! Me desculpa. Meus dias ultimamente estão puxados, mas prometo te ligar para marcar algo.
A morena abriu um sorriso, mas diferente do primeiro que foi de alegria e de recepção por encontrar com Jane novamente, esse foi um sorriso indignado, seguido de um balançar em negativo com a cabeça e quando Jane menos esperou os cinco dedos da garota estavam estampados em sua cara. Maura fez uma expressão de dor ao presencia aquele tapa, mas se sentiu até um pouco representada pela garota.
– Você é louca? – Jane perguntou com a mão na parte do rosto que tinha sido atingido.
– Bem que me avisaram sobre você. – A garota dizia irritada. – Não deve nem lembrar o meu nome! Eu te ligo. – Imitou a voz de Jane. – Ridícula! – Passou por Jane quase a jogando nas prateleiras.
Jane olhou para a garota se distanciando indignada ainda com a atitude da mesma. Quando essas mulheres tinham se tornado tão agressivas? Voltou a olhar para frente e encontrou Maura segurando o riso, mas assim que encontrou o olhar da detetive não se aguentou e caiu na gargalhada. Essa era a melhor cena que ela tinha presenciado em dias.
– Eu não sei qual é a graça.
Estava irritada e incomodada com Maura rindo de sua cara. Maura nada disse, só pegou o carrinho e saiu o empurrando ainda gargalhando. Inacreditável como Jane continuava a mesma.
***
Com o fim das compras elas foram até a casa de Angela para pegarem o TJ. Ambas sabiam que assim que chegassem em casa com o menino teria oficialmente começado a convivência, não teria como voltar, elas teriam que se aguentar por um ano e ainda cuidar de um bebê.
Assim que Maura chegou na casa de Angela, depois de ser recepcionada com um abraço de sua ex-sogra e ter que aguentar uma careta de Jane pelo gesto ela pôde finalmente ficar cara a cara com TJ. Só tinha visto o bebê pelas fotos que Lydia havia lhe mandado, e também pelas fotos que Angela lhe mostrou no dia que elas tomaram café juntas, mas ver o menino pessoalmente lhe deixou com um sorriso bobo no rosto, ele era mais lindo e fofo pessoalmente e estava tão quieto que nem parecia um bebê.
Ao ver que Maura tinha ficado parada feito boba e não tinha dito nenhuma palavra ao ver TJ, Jane pensou em entrar na frente da legista e pegar o menino, mas teve seu braço segurado por Angela.
– Deixa Maura pegá-lo. – A loira a encarou surpresa, algo que não deveria acontecer, porque ela teria que segurá-lo em certo ponto, ia cuidar dele no mínimo por um ano, mas ele era tão pequeno, tinha até medo de acontecer alguma coisa. – Está tudo bem querida, se até Jane conseguiu segurá-lo, você também consegue.
Maura mandou um sorriso sem graça para Angela e com cuidado pegou TJ do carrinho. Ás vezes se pegava pensando como seria se ela fosse mãe, mas ser realmente mãe nunca se passou pela sua cabeça, não tinha um belo exemplo de como ser uma mãe e não queria repetir os erros de sua mãe, – mesmo depois de um tempo a mãe ter pelo menos começado a tentar repará-los – não queria ser ausente na vida de seu filho, não queria mandá-lo para um colégio interno, não queria que ele fosse recluso, não tivesse amigos e fosse taxado como estranho, então mesmo que ás vezes junto com o pensamento viesse a vontade de ser mãe, nunca se passava disso, pensamento e vontade, não arriscaria colocar um filho no mundo. Mas agora, com TJ em seus braços ela procurava entender o que cuidar do filho de sua amiga morta seria diferente do “ser mãe”, ela tinha em mente que a criança não havia saído dela e que ela também não era a mãe dele, só era a guardiã que cuidaria dele daquele momento em diante, mas ela teria que educá-lo, ensinar o que é certo e o errado, teria que fazer o papel de uma mãe na vida dele e... Era ótimo, não fazia cinco minutos que estava com TJ no colo e já estava pensando em um futuro mais a frente do que o próximo um ano, mas é que se sentiu tão bem segurando o bebê, ele tinha uma carinha tão angelical, e o cheiro que ele exalava era um dos melhores cheiros que ela já tinha sentido na vida, ela poderia sim se acostumar com isso, mesmo sabendo que não devia.
Não fazia ideia como Maura ficava ainda mais linda segurando um bebê e por causa disso Jane ficou a encarando feito uma idiota com um sorriso de canto. Lembrava de quando na adolescência elas conversavam sobre ter filhos, mesmo com o receio que a legista tinha porque não queria ser igual seus pais no quesito de criar um filho, mas ela sempre prometia para Maura que não deixaria com que ela fosse que nem eles, mesmo porque ela tinha certeza que ela seria uma ótima mãe. Jane sabia que elas são seriam a mãe de TJ, ela ainda continuava sendo a tia dele só que agora tinha um detalhe maior já que ela também era sua guardiã, mas vendo Maura, segurando TJ, conversando com ele, não tinha como não admitir que ela seria uma ótima mãe, assim como ela já admitia na adolescência sem nem ao menos ter visto Maura segurando uma criança. Foi despertada do seu “momento mágico” com sua mãe lhe puxando pelo braço até a cozinha.
– O que foi? – Perguntou em um tom de irritação. Odiava quando Angela fazia aquilo.
– Essa é sua chance de consertar a burrice que você fez há dezessete anos.
– Burrice? Que burrice que eu fiz? Pelo que eu saiba foi ela quem me deixou!
– Eu já falei para você parar de bancar a vítima, Jane!
– Mas eu sou a vítima, ma. E não tem nada para consertar.
– Está na cara que vocês duas ainda se amam!
– O que? – Estava completamente perplexa com aquela afirmação. – Você está louca? É claro que eu não amo a Maura, aliás, eu já não a amo há muito tempo porque ela me deixou! – Disse entre os dentes tentando conter a raiva que estava sentindo por sua mãe tocar naquele assunto. – E eu não vou ficar discutindo isso com você! – Deu as costas para Angela e começou a andar de volta a sala. – Vamos embora Maura!
– Mas...
– Temos coisas que precisam ser guardadas na geladeira. – Pegou o carrinho de bebê e foi se encaminhando com ele até a porta. – Vamos.
– Tchau TJ. – Angela deu um beijo na cabeça do neto. Maura se sentiu um pouco triste por ter que levar TJ embora, viu o olhar triste de Angela ao se despedir do menino, sem duvidas ela não via problema nenhuma em cuidar de neto e deveria ser difícil deixá-lo ir, mesmo que ela pudesse vê-lo sempre, porque ver sempre e morar na mesma casa as pessoas acham que é quase a mesma coisa, mas não é. – Cuidem bem dele.
– Vamos cuidar Angela. – Maura disse com um pequeno sorriso. – Pode ir visitá-lo quando quiser.
Angela deu mais um beijo na cabeça de TJ e acompanhou as duas até a saída. Ela estava triste sim por ver seu neto indo embora, mesmo que fosse com sua filha e sua ex-nora, mas também estava otimista pelo motivo de ele ter ido embora com sua filha e sua ex-nora, obrigando com que as duas dividissem a mesma casa, as responsabilidades, cuidasse deles e quem sabe, por que não, se entenderem.
***
– Dormiu. – Jane disse assim que chegou a cozinha. – E eu tenho que andar com isso mesmo? – Perguntou mostrando a babá eletrônica que Maura tinha lhe dado assim que chegaram em casa.
– Como a minha está aqui não precisa, poderia ter deixado no seu quarto, mas sim, precisa para você poder ouvi-lo caso ele acorde.
– Por isso eu queria que morássemos no meu apartamento, lá é pequeno e eu ouviria ele chorando de qualquer cômodo. – Disse se encaminhando até a geladeira.
– Fiquei sabendo que no seu apartamento só tem um quarto. O berço dele poderia até caber lá, mas e nós duas? Dividiríamos a mesma cama?
Jane engasgou com a própria saliva. Maura não deixou de abrir um sorriso divertido ao perceber que a morena tinha ficado desconsertada com sua colocação. A detetive pegou uma cerveja na geladeira e deu a volta no balcão para ficar de frente com Maura.
– Não... Você dormiria no sofá. – Disse com um sorriso cínico. Tinha se sentido uma estúpida por ter ficado sem jeito com a suposição de Maura, mas prometeu para si mesma que isso não aconteceria de novo.
– Claro. – Maura respondeu fazendo uma careta. – Vai me ajudar no jantar?
– Desde quando você cozinha?
– Aprendi algumas coisas enquanto fazia faculdade. – Jane balançou a cabeça enquanto tomava um gole de sua cerveja. – Vai me dizer que você ainda não sabe cozinhar?
– Não preciso saber cozinhar quando eu tenho um armário cheio de cereal e o número de uma pizzaria. – Jane se encaminhou até a sala e sentou no sofá ligando a televisão. – E respondendo sua pergunta... Não, eu não vou te ajudar no jantar. – Ergueu sua garrafa de cerveja. — Divirta-se.
Não esperaria muito de Jane mesmo, não nessa primeira noite das duas dividindo a mesma casa. Já estava feliz com ela ter se tornado um pouco mais suportável, mesmo depois de todas as discussões no supermercado, porque as discussões do supermercado não deixaram de serem discussões normais, discussões que aconteciam quando elas eram adolescentes, discussões de quando elas namoravam.
– Não é como se você estivesse comendo as deliciosas comidas que sua mãe faz... – Maura entregou o prato para Jane após colocar um pouco de comida nele. – Mas eu acredito que você vai gostar.
– Tem mais coisa verde do que não sei o que nesse prato. – Fez uma careta. – O que é isso afinal?
– Salada verdade, com queijo de cabra ao molho de mostarda e maracujá. – Outra careta de Jane. – É ótimo!
– Claro que é ótimo... Para eu sentir fome daqui quinze minutos. Se vamos dividir a mesma casa é bom você começar a cozinhar coisas que eu goste de comer também. – Tinha saído absolutamente ríspido o comentário de Jane, o que irritou um pouco Maura.
– Eu não sou sua empregada Jane. Eu perguntei se você queria me ajudar com o jantar, você disse que não e foi assistir televisão, então...
– Isso tudo por que eu não quis te ajudar com o jantar? – Soltou um riso de indignação. – Não quero nem saber o que você vai cozinhar da próxima vez.
Ás coisas estavam boas até demais para ser verdade. A Jane irritante demorou, mas estava de volta. Por algum tempo Maura achou mesmo que as coisas começariam a melhorar para ela e que Jane passaria pelo menos a tornar suportável a convivência das duas, mas parece que tinha se enganado.
Em silêncio as duas deram as primeiras garfadas na comida. A morena não ia admitir nunca, mas até que a comida estava boa, estava ai algo que faltava acrescentar no currículo perfeito de Maura, ela era uma ótima cozinha, poderia se atrever a dizer até melhor que a sua mãe.
– Será que podemos dar uma trégua? – A legista perguntou. Estava odiando aquele silêncio, estava odiando o clima. – Não podemos ficar nesse clima, temos um bebê em casa.
– Único motivo pelo qual estavam dividindo uma casa.
– Eu falo sério Jane. Não faz bem para o TJ se ficarmos nesse clima. Eu estava lendo alguns artigos que dizem que bebês são sensíveis, que um clima pesado os afeta fazendo com que eles fiquem mais agitados, causando dificuldade para dormir, não queremos isso para o TJ, certo? – Jane deu de ombros. Não queria, mas também não queria concordar com Maura. A legista entendeu aquilo como um sim. – Me diz... Está trabalhando de que?
– Você tomou café com a minha mãe naquele dia e não conversaram sobre mim?
– Angela disse que como íamos viver juntas era melhor nós conversarmos.
– Claro! – Balançou a cabeça. Típico de sua mãe pensando que mesmo que elas conversassem sobre suas vidas fosse mudar alguma coisa, como se elas fossem voltar. – Não tenho um trabalho.
– Como assim não tem um trabalho? – Esperava que aquilo fosse mais uma de suas “brincadeiras”, caso contrário passaria muito do que ela esperava quando Angela disse que ela estava mais irresponsável que o comum. – Mas você já teve um trabalho?
– Sim... – Colocou um pouco de comida na boca. Enquanto mastigava teve os olhos de Maura a fitando, tinha medo de que aquele jantar fosse o jantar para ficar sabendo tudo uma da vida da outra, mas estava parecendo que era esse jantar mesmo, só que o único problema é que Jane não ia sair contando muita coisa de sua vida. – Eu bati no desgraçado que matou o Tommy e a Lydia, então o departamento me suspendeu.
– Departamento? – Maura parecia surpresa. – Você é uma policial?
– Detetive do Departamento de Homicídio de Boston.
– Desde quando? – Ela estava realmente surpresa. – Quero dizer... Quando eu deixei Boston você não sabia o que ia fazer de sua vida e agora...
– Muitas coisas mudaram depois que você foi embora doutora. Você salva vidas e eu acho os assassinos.
– Na realidade eu não salvo vidas. – Jane a encarou curiosa, tentou não transparecer, mas Maura percebeu. – Eu até pensei que cirurgia fosse para mim, mas definitivamente não sei lidar com pessoas, então optei pelos mortos.
– Você virou uma médica legista? – Maura fez um afirmativo com a cabeça. – E quando eu penso que não pode ser mais estranha...
– Eu não sou estranha.
– Pelo menos é uma profissão que combina com você, seria irônico se você tivesse virado cardiologista, já que você não sabe consertar um coração e sim despedaçá-lo.
Maura soltou um suspiro. A conversa estava correndo muito bem – na medida do possível — para ser verdade.
– Será que você não pode deixar isso para lá?
– Eu tinha deixado isso para lá, mas então você voltou para minha vida e eu descobri como eu sinto raiva por tudo que você me fez.
– Tudo que eu te fiz? – Soltou um riso indignada. – Eu não te fiz nada! Você que me fez. Você fica com essa história de coração despedaçado, mas você esquece que também despedaçou o meu, no modo popular de se dizer, claro.
– Eu despedacei o seu coração? – Jane soltou os talheres no prato e se levantou da cadeira. Aquilo era a coisa mais absurda que Maura poderia dizer. – FOI VOCÊ QUE FOI EMORA! VOCÊ QUE TERMINOU COMIGO! VOCÊ QUE ME DEIXOU!
– POR QUE VOCÊ ME TRAIU!
Fazia muito tempo que ela não dizia isso em voz alta, e mesmo assim causou o mesmo efeito da primeira vez que ela disse. Pensou que não ficaria mais irritada com esse assunto, que já tinha superado, mas quando se deu por si já tinha largando seus talhes e também estava em pé.
– Você não deixou com que eu me explicasse.
– Explicasse o que Jane? Eu vi. Eu podia ser a idiota que se apaixonou por você quando todo mundo me alertou que não era para eu me apaixonar, mas eu não era cega, eu vi vocês duas.
– Eu... Eu... – Fazia dezessete anos que ela não tocava naquele assunto, mas a raiva ao ter esse assunto presente novamente era a mesma. – Eu era imatura e você sabia disso.
– Eu estava disposta a ficar aqui em Boston, estudar aqui como tínhamos combinado, mas... Se você acabou de me dizer que era imatura porque eu trocaria meus estudos por você? Como eu ia viver com uma pessoa que dizia que me amava, mas eu corria o risco de chegar em casa e encontrar ela fazendo sexo com alguma mulher, na nossa cama? Me diz Jane.
– EU TE AMAVA!
– Não... Eu te amava e muito, mas você...
– Quer saber, Maura? VÁ PARA O INFERNO!
E a única coisa que a legista viu foi um vulto deixando a casa batendo a porta com tudo. Parecia que tinha virado rotina Jane mandá-la para o inferno e ir embora. Sentou de volta na cadeira respirando fundo, não ia se permitir chorar, já tinha chorado muito por causa de Jane no passado, ela não ia simplesmente voltar para sua vida e fazer com que ela chorasse, não ia fazer com que ela sofresse tudo de novo, por que como ela mesma havia dito ela a amava, passado, não tinha motivo para se abalar e nem se entristecer por causa dessa discussão, ficar brava sim, mas chorar estava fora de cogitação. Se as coisas continuassem assim, esse seria o um ano mais longo de sua vida.
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