Notas iniciais
Bom... Se tiver algum erro desconsiderem, eu revisei, mas sabe como que é né...

Ótima leitura!

Quem inventou a palavra “paciência” com toda certeza não tinha ninguém em sua vida que o fazia perder a mesma, e quem se aproveitou da palavra para dizer que “paciência é uma virtude que poucos têm” estava completamente certo.

É difícil encontrar uma pessoa realmente paciente, que não se estressa e nem se irrita com qualquer coisa, talvez você possa dizer que conhece algumas pessoas que tem sim paciência, mas será que tem mesmo? Não adianta nada você se dizer a pessoa mais paciente do mundo e mostrar que é, mas segundos depois explodir com quem não tinha nada a ver com o assunto, explodir com a pessoa que não foi o culpado de você perder sua paciência. Mas é claro, existem sim as pessoas extremamente pacientes, que para você irritá-la precisa fazer muita coisa, caso contrário ela vai continuar falando com você normalmente, sem levantar o tom de voz, ás vezes fazendo até com que a pessoa fique irritada, porque existem pessoas que parece que nasceram com o intuito de tirar a paciência dos outros.

Maura era essa pessoa que se encaixava no “extremamente pacientes”, sempre teve muita calma, nunca foi de se estressar fácil e depois que começou a praticar Ioga as coisas ficaram melhores ainda. Lydia ficava pasma em como a amiga conseguia ser daquele jeito, porque mesmo depois dela ter começado a ir para as aulas de Ioga com ela sua paciência ainda era muito limitada, mas sabe o que dizem, até a pessoa mais paciente do mundo tem aquela pessoa que te deixa completamente sem paciência, e mesmo que no passado essa pessoa não causasse o efeito de lhe tirar do sério, dezessete anos depois Maura (re)encontrou a pessoa que faria com que todo o tempo que gastou indo na Ioga não fosse nada mais que uma completa perda de tempo.

Depois da discussão da noite anterior Jane e Maura não haviam conversado. Para falar a verdade a legista não tinha visto nem a hora que a morena voltou para casa, se é que tinha voltado, não precisou dela mesmo para nada de madrugada já que TJ não tinha dado nenhum trabalho e ela tinha aprendido a fazer mamadeira. Era até melhor assim, não ter encontrado Jane na madrugada pelos corredores depois da discussão, serviria para acalmar os ânimos e ver se assim poderiam ter uma conversa como adultas pela manhã, mesmo que ela não estivesse tão otimista para isso e também ela não queria voltar naquele assunto, já tinha acontecido há tanto tempo que não tinha necessidade, ela só queria realmente que Jane desse uma trégua para que elas pudessem viver pacificamente, não era pedir demais.

Já era de manhã e ela preparava o café depois de ter dado mamadeira para TJ que estava no carrinho ao lado do balcão, ainda não tinha toda essa experiência com criança porque nunca cuidou de uma, mas como levava ao pé da letra o significado de cuidar queria o menino próximo para ficar de olho nele, mesmo que ele só tivesse 49 dias, não seria como se ele fosse sair correndo por toda casa, mas queria ficar de olho. A verdade era que ela gostava de ter TJ por perto, não tinha passado nem 24 horas com o bebê, mas estava adorando a presença dele em sua vida.

- Oh meu Deus!

Maura que estava de costas se virou automaticamente ao ouvir a voz de alguém que definitivamente não era Jane. Ao se virar encontrou em sua frente uma garota, cabelos castanhos claros, que não parecia ter mais de 18 anos, trajando uma calça jeans, All Star e uma blusa com a estampa do Garfield. Muito bonito por sinal, para uma garota, claro.

- Quem é você? – Maura perguntou calmamente, mas sem deixar de mostrar seu espanto por ver aquela menina ali em sua frente.

- Por favor... Me diga que você não é casada com ela. – A garota estava quase suplicando. Tinha percebido a cara de espanto de Maura e também tinha visto o bebê na cozinha. – Não quero ser uma destruidora de lares.

- Se eu sou casada com ela quem? – A garota ergueu uma sobrancelha. Ao mesmo tempo em que Maura parecia calma ela parecia nervosa, tinha medo de ser atacada a qualquer momento. – Se eu sou casada com a Jane? A mulher que você passou a noite? – A garota fez um afirmativo com a cabeça. – NÃO! – Maura fez um negativo com a cabeça. – Não! Não! Não! Eu e Jane não somos casadas, só dividimos a mesma casa, mas não somos casadas.

- Graças a Deus! – A garota soltou um suspiro aliviada por ouvir aquilo. – Tem suco de laranja? – Como se já fosse uma das donas da casa a garota foi até atrás do balcão onde se encontrava Maura, passou por ela quase a espremendo no balcão e abriu a geladeira. – Adoro o cheiro do café sabe? – Tirou a caixa do suco da geladeira. – Mas eu não posso beber, fico hiperativa, então minha mãe diz para eu ficar só no suco.

Quanto mais tempo aquela garota permanecia em sua cozinha, mas perplexa Maura ficava. Não era possível que Jane tinha levado uma garota para passar a noite em casa, a primeira noite que elas dividiriam a casa.

- Cadê a Jane?

- Está lá em cima. – Se serviu de um pouco de suco. – Não quis acordá-la, nunca sei como é o humor desse povo de manhã.

- Será que você pode olhar o bebê dois minutinhos para mim?

A garota que tomava um gole de suco só fez um positivo com o dedo da mão desocupada. Maura sabia que não era aconselhável deixar uma garota desconhecida que tinha passado a noite com sua ex-namorada tomando conta de um bebê, ainda mais por que parecia que ela não sabia tomar conta nem dela, mas ela não conseguiu pensar em outra coisa para o momento.

Subiu até o quarto de Jane e deu algumas batidas na porta, mas não obteve resposta, sem pensar duas vezes resolveu por entrar no quarto. Encontrou as roupas da morena espalhadas pelo quarto e ela deitada na cama, de bruços, abraçando um travesseiro e com um lençol cobrindo só metade das costas deixando a amostra o restante que dava para perceber que estava desnudo.

- Jane. – Nenhum movimento da detetive. – Jane. – Ainda nada e isso já estava começando a irritar. – JANE! – Gritou e em resposta só ganhou um murmuro. Bom, agora ela estava irritada.

Maura não se lembrava desde quando Jane tinha um sono tão pesado assim, mas então passou pela sua cabeça que ela deve ter passado a noite muito ocupada com a garota que estava na sua cozinha, tomando o seu suco de laranja. Se aproximou da cama e puxou o lençol que cobria a morena, fazendo com que assim Jane se assustasse e caísse da cama.

- OH MEU DEUS MAURA! VOCÊ ENLOUQUECEU?

Percebendo que seu ato de puxar o lençol ocasionou em uma Jane no chão e pelada, antes de responder qualquer coisa Maura se virou ficando de costas para a morena.

- Será que você pode me explicar porque tem uma garota, que não tem mais de 18 anos na cozinha de casa?

- Uma garota? – Ainda sentada no chão, Jane fez uma pausa tentando se lembrar de quem Maura se referia. – Ah ta... A que passou a noite aqui comi... Por que você está de costas?

- Porque você está nua.

- Como se você nunca tivesse me visto pelada antes. – Fez careta. Percebendo que Maura não ia se virar enquanto ela não colocasse uma roupa se levantou do chão e procurou no guarda-roupa por uma camisa. – Mas o que tem a garota? Ela é legal, acho que você ia gostar dela.

- O que tem? – Maura estava indignada, só podia ser brincadeira ou um modo de Jane tirar sua paciência mais ainda, o que era o mais certo. — O que tem é que eu quero que você a mande embora.

- Você me acordou só para que eu mandasse a menina embora? – Jane perguntou com falso tom de indignação, mas estava até feliz, sabia que Maura estava odiando tudo. A loira deu uma olhada de canto de olho para ver se Jane já tinha vestido alguma coisa, e assim que viu que ela estava vestida – não com a melhor das roupas já que só tinha colocado uma camisa do Red Sox. – se virou e fez um positivo com a cabeça. – Se você já estava com a garota na cozinha porque você mesma não a expulsou?

- Porque não fui eu quem a trouxe pra cá. – Mesmo mantendo o tom de voz baixo, não conseguia esconder sua irritação. – Será que você pode...? – Fez um sinal com a cabeça apontando para a saída do quarto como se terminasse a frase pedindo para que Jane fosse até a cozinha mandar a garota embora.

- Okay.

Jane simplesmente disse. Já tinha conseguido irritar Maura, então não tinha motivo para que a garota continuasse na casa mesmo. As duas desceram e se encaminharam até a cozinha. Encontraram a garota encostada no balcão, comendo um biscoito e encarando TJ.

- Bom dia. – Jane disse fazendo com que a garota se virasse para olhá-la e automaticamente abrindo um sorriso.

- Ele nem parece que é um bebê de verdade. Tenho um irmão da mesma idade que ele e aquela criatura só sabe chorar. Essa foi a primeira noite que eu consegui dormir direito depois de semanas, e olha que nem dormimos muito. – A garota mandou um sorriso malicioso fazendo com que Jane retribuísse e em consequência fazendo com que Maura fizesse careta.

- Você disse irmão? – Teve sua ficha caída depois do momento de troca de sorrisos maliciosos. – Você tem mais de 18 anos, certo? Só pra saber...

- Sim, tenho... – A garota respondeu meio sem entender porque aquela pergunta. – Tenho 19.

Jane quase caiu para trás. Tudo bem que a menina já era maior de idade, – pelo menos para poder dormir com alguém mais velho e esse alguém (leia-se Jane) não ir presa por causa disso – mas nunca tinha passado a noite com alguém tão nova, ficava com garotas de 21 anos para cima, porque era a idade que as pessoas podiam começar a beber nos bares, mesmo sabendo que existia RG falso e pessoas fingindo que já são maiores de idade para poder beber, mas enfim. Olhou de relance para Maura e a loira a olhava com um olhar de reprovação.

- Bom... Eu vou embora. Ainda tenho que passar em casa para pegar minhas coisas para ir para a faculdade e eu já estou atrasada. – Para surpresa de Jane a garota lhe deu um leve beijo nos lábios. – Tenham um bom dia.

- É... Você também... – Jane fez uma pausa tentando lembrar o nome da garota, mas nenhum vinha em sua mente.

- Claire. – Respondeu já imaginando que a morena tinha esquecido seu nome. – Eu não lembro se eu te passei meu número, mas se passei, não me liga não porque eu não costumo sair com pessoas tão mais velhas que eu. – A Maura com um sorriso. – Obrigada pelo suco de laranja.

E a garota deixou a casa deixando uma Jane completamente surpresa com o comportamento da garota. Ela tinha mesmo ido embora, dito que não queria vê-la mais e ainda a chamou de velha? Bom... Pelo menos era uma preocupação a menos, odiava essas garotas que pensava que ela ia ligar depois para marcar alguma coisa.

Como se não estivesse na cozinha naqueles últimos minutos, Jane simplesmente foi para trás do balcão, tirou uma xícara do armário, pegou a cafeteira e se serviu de um pouco de café, quando se virou encontrou uma Maura com a cara fechada e com os braços cruzados.

- O que foi?

- Qual o seu problema? Eu não ligo se você quiser fazer sexo com todas as mulheres ou garotas de Boston, que acredito que é das que você mais está gostando no momento. – Recebeu em resposta por aquele comentário uma careta de Jane. – Mas eu ligo muito quando você resolve as trazer aqui para casa, quando temos uma criança morando nela.

- Bom... Pelo que eu me lembre TJ é o único motivo de estarmos dividindo a mesma casa, então...

- Esse não é o ponto Jane! O que estou querendo dizer é que eu não quero você trazendo essas mulheres aqui para casa. Não é saudável pro TJ ver uma mulher diferente todo dia na cozinha.

- O menino tem só 49 dias Maura, não é como se ele fosse se lembrar de alguma coisa.

- Mas isso não pode virar hábito Jane e depois você pode ter problemas.

- Problemas? – Jane perguntou arqueando uma das sobrancelhas. – Que problemas, Maura? Não é como se uma delas fosse aparecer grávida.

Maura revirou os olhos desacreditada do que ouvia. Caminhou até o carrinho de TJ, pegou a bolsa dele em cima do balcão e deixou a casa sem dizer uma única palavra. Se Jane queria acabar com sua paciência tinha conseguido, então não iria discutir, porque pelo que tinha percebido era praticamente impossível ter qualquer tipo de discussão com Jane ou até mesmo uma conversa, ela não ouvia.

- O que foi?

Jane deu de ombros assim que ouviu a porta ser batido e abriu um pequeno sorriso.

***

- Sabe... – Maura ajeitou o carrinho em que TJ estava ao lado do banco do parque fazendo com que o bebê ficasse metade virado para ela — que tinha acabado de se sentar na ponta do banco ao lado do carrinho – e metade virado para frente onde se encontrava as crianças brincando. – Sua tia não era desse jeito. – Fez uma pausa, buscava lembranças, então abriu um pequeno sorriso. – Na realidade ela era desse jeito sim, mas eu sabia o motivo, mas agora... – Soltou um suspiro. – Não é justo ela me culpar por algo que aconteceu há dezessete anos, foi escolha dela, se dependesse de mim estaríamos casadas e com um monte de bebês igual você. – Tocou com a ponta do indicador no nariz de TJ fazendo com que ele sorrisse. – Pensei que ela pudesse mudar...

E dito isso ela fez questão de vasculhar mais suas lembranças...

Era sábado e Maura se encontrava na casa de Jane, assim como a morena tinha estipulado que seria para que elas pudessem fazer o trabalho de Literatura, trabalho pelo qual no decorrer da semana Jane não tinha demonstrado nenhum interesse.

Mesmo que Jane não perdesse a oportunidade de tirar sarro de Maura, elas depois do primeiro dia de aula de Jane ficaram mais próximas. A morena vivia dizendo que essa aproximação não era porque queria ser amiga dela ou algo do tipo, mas sim porque ela teria que conviver com alguém nesse ano letivo e Maura era a mais suportável de todas as meninas, mesmo que a loira não acreditasse muito nisso, já que desde o primeiro dia de aula Jane teve muita facilidade de se dar com as pessoas, principalmente os meninos que adoravam aquele jeito dela de usar sarcasmo e ironia para tudo, mas em nenhum momento reclamou, era bom ter contato com alguém que não fosse lhe tratar bem em sua frente só por ser filha de quem ela era e depois falar mal pelas costas por achá-la a pessoa mais estranha do mundo.

Uma das coisas que Maura admirava em Jane era o fato de ela falar tudo na cara. Com essa primeira semana de aula a loira tinha aprendido algumas coisas sobre Jane, sabia que a morena era debochada, mas por incrível que fosse parecer, depois do primeiro dia de aula da Jane, a morena não lhe tratava mal, pelo contrário, do seu jeito estranho Jane a tratava bem e ela gostava disso. Era inevitável a morena aparecer e ela não ficar sorrindo que nem uma idiota, coisa que Jane já tinha debochado por diversas vezes, mas ela realmente gostava da presença de Jane, mesmo junto com o sorriso idiota, seu coração batesse mais acelerado e ela sentia coisas em seu estomago sempre que estava com a morena, mas ela sempre ignorava essa parte, não queria entender o que acontecia.

- Você sabe que Shakespeare era um idiota, não sabe? – Maura que estava focada escrevendo alguma coisa sobre o trabalho em uma folha, levantou seu olhar para encarar Jane. – Muito idiota!

- Ele não era um idiota. – Rebateu um tanto quanto ofendida por Jane dizer aquilo deixando sua caneta de lado e encarando completamente Jane agora. – Ele era um grande poeta, com maravilhosas peças.

- As pessoas que sofrem por amor já são idiotas por si só, mas aquelas que escrevem sobre esse sentimento são as piores, ninguém precisa saber que você é um fracassado no amor e muito menos tornar isso publico.

- Ele fala pelas pessoas que não conseguem se expressar. Eu gosto do original, mas também seria lindo se alguém viesse se declarar usando uma dos poemas de Shakespeare. – Jane revirou os olhos. – Não entendo porque você não gosta.

- Já disse... Ninguém precisava saber que você não tem sorte no amor. A mesma coisa para quem compõe músicas. Tem tanta coisa no mundo para falar e você vai falar logo do seu coraçãozinho partido? Me poupe.

- Você diz isso porque nunca deve ter se apaixonado.

- Graças a Deus! Prefiro nunca me apaixonar a virar um Romeu & Julita da vida. Qual foi o propósito desses dois idiotas? Eles podiam só fugir e serem felizes, sem drama, mas não... Teve que rolar todo aquele circo e os dois se mataram.

- Pra quem acredita em vida após a morte seria um modo de dizer que eles ficariam juntos para toda a eternidade, que o amor deles é mais forte que tudo.

- Você sempre acha que o amor é mais forte que tudo. Até você se casar com alguém e depois de anos essa pessoa fugir com a primeira pessoa que encontrar pela frente, deixando você sozinha para cuidar de três filhos. – Maura a encarou sem entender sobre o que aquilo se tratava e Jane se odiou mentalmente por ter dito aquilo.

Não sabia o que acontecia, mas sempre que estava com Maura não tinha freios para falar e a cada segundo que passava não tinha receio de dizer coisas para ela. Gostava da companhia da loira, mesmo que talvez nunca admitisse isso para ela e continuasse usando a desculpa que estava com ela só para não ficar sozinha.

- Sabe... Você tem cara de que se apaixona fácil, mas que nunca deve ter dado um beijo na vida, por isso gosta dessas porcarias.

- Eu não me apaixono fácil. – Respondeu indignada com aquela “acusação”. – E para você saber eu tinha um namorado.

- Namorados imaginários não valem Maura. Conheço muitas garotas que namoram o Richard Gere.

- Quem?

- Você não sabe quem é o Richard Gere? – Maura fez um negativo com a cabeça fazendo com que Jane gargalhasse. – MENTIRA!

- É verdade. Ele é algum vizinho seu?

- Você nunca assistiu Uma Linda Mulher? – Outro negativo com a cabeça. – Você só pode estar brincando comigo! De que mundo você veio?

- Vim da Terra mesmo. – Mais risos por parte de Jane. — Sempre fui mais fã de livros do que televisão, então...

- Tenho quase certeza se eu vasculhar a garagem da sua casa eu vou encontrar uma espaçonave. – Maura a encarou sem entender. Por que encontraria uma espaçonave na casa dela? Começando que as mesmas nem existiam. – Mas enfim... Quer dizer que você tinha um namorado e ele não era imaginário? E por incrível que pareça vocês se beijavam, não andavam só de mãos dadas como se tivessem 4 anos de idade?

- Por que é tão difícil acreditar que eu já namorei? Ele era um ótimo namorado, mas terminamos porque ele foi morar na França e relacionamentos a distancia são difíceis de darem certo.

- Aposto que vou encontrar então um diário cheio de poemas sobre sua separação.

- Não... Por que não sou muito boa em escreve poemas. Mas ele escrevia não só poemas, mas como lindas cartas, dizia que queria montar uma família comigo, que ia me fazer muito feliz...

- Oh meu Deus! – Jane disse em um tom perplexo fazendo com que Maura se calasse. O que tinha dito demais? – Você é daquelas garotas que pensam que a vida é um Conto de Fadas. Que a qualquer momento vai aparecer um Príncipe Encantado em um cavalo branco te pedindo em casamento.

- Nunca li nenhum Conto de Fadas.

- Sério? – Perguntou levantando as duas sobrancelhas mais perplexa ainda com aquela informação. – Sobre você nunca ter assisto uma Linda Mulher, tudo bem, eu acredito, mas não precisa mentir que você nunca leu um Conto de Fadas.

- Mas eu não estou mentindo. Eu não posso mentir.

- Você não pode mentir?

- Eu posso, mas opto por não, caso contrário tenho crise de urticária.

- Você é feliz desse jeito? – Maura a encarou com uma expressão confusa. Por que aquela pergunta? – Nunca assistiu Uma Linda Mulher, nunca leu um Canto de Fadas e não pode mentir, e eu pensei que você disse que prefere ler ao assistir televisão.

- Sim, mas livros científicos ou livros sobre medicina. Estava nos meus planos ler os Contos de Fadas, mas sempre aparece um livro diferente, então...

Jane só fez um negativo com a cabeça ainda desacredita de tudo que ouvia. Realmente queria muito saber de que mundo Maura vinha, era impossível uma pessoa ser daquele jeito, mas o mais engraçado é que ela gostava do fato de Maura ser assim, estava acostumada com garotas tão comuns que a loira era uma surpresa, cada dia descobria alguma coisa sobre ela. Deixou Maura na mesa redonda que tinha no canto da sala onde estavam fazendo o trabalho sem dizer nada, só sumiu da visão dela e minutos depois voltou carregando vários livros que colocou em cima da mesa.

- Eu nunca emprestei eles para ninguém, mas como você é um caso grave de “não tive infância” acredito que vai ajudar e fazer com que você seja uma pessoa mais feliz.

Sem dizer nenhuma palavra, Maura pegou o primeiro livro naquela pilha de livros de leu o título do livro:

- Cinderela? Pensei que você não gostasse de Conto de Fadas.

- Eu não falei que não gostava. Falei que você tinha a cara dessas garotas que pensam que vivem em um. Para falar a verdade sou mais as histórias dos Contos de Fadas, do que qualquer poema de qualquer escritor que fala sobre romance. Porque Contos de Fadas são puros, te faz ver o amor de uma forma diferente.

- Eu não te entendo Jane... Você não gosta de poemas que dizem a verdade sobre o amor, mas gosta de Conto de Fadas que te traz uma definição de amor fantasiosa?

- Não é fantasiosa... Mesmo eu não tendo esse pensamento para a minha vida, Contos de Fadas é uma forma de dizer que você pode ter um amor verdadeiro, mas que você precisa ser paciente e não ficar achando que é um fracasso total e escrever sobre isso, uma hora sua vez vai chegar.

- E se não chegar?

- Sempre chega. Pode não ter o “E viveram felizes para sempre”, mas sempre chega.

Maura ficou em silêncio por alguns segundos folheando o livro que estava em suas mãos. Ainda não entendia muito bem o que Jane quis dizer. Odiava Shakespeare, mas adorava Conto de Fadas. Era difícil entender, mas gostava de saber que a morena tinha um pensamento – mesmo que não se aplicasse a vida dela – que todos encontrariam seu amor um dia.

- Qual o seu favorito?

- A Bela e a Fera. – Respondeu sem nem ao menos pensar. – Leia e depois me conte qual é o seu.

Em resposta ganhou um sorriso.

Maura tinha aquele momento como um dos mais especiais que tinha passado com Jane, cada segundo que passava conhecia mais essa parte “doce” dela e por mais que tivesse lutado por anos para afastar essas lembranças, nesse dia em especial foi difícil não lembrar, porque ela ainda estava tentando encontrar essa Jane que ela conheceu aos poucos.

***

— Detetive Rizzoli.

Jane não se preocupou nem em responder o sorriso que o psicólogo lhe mandava ao vê-la entrando em sua sala. Passou o olhar pelo lugar e foi surpreendida, porque de tudo que ela imaginava que seria a sala do psicólogo aquilo era totalmente diferente. Não existia o famoso divã, só dois sofás (um de frente para o outro), uma mesa e alguns quadros espalhados pela parede. Era até confortável o lugar, mas como essa seria a primeira e a última vez que entraria ali não precisava nem gostar ou desgostar.

- Olha doutor... – Fez uma pausa tentando lembrar o nome do homem, mas pelo que se lembrava nunca tinham dito o nome dele para ela e até agora ela não tinha se preocupado em saber.

- Gavin Reycraft.

- Então doutor Reycraft... Eu só marquei essa consulta pro senhor dizer que já estou apta para trabalhar, só isso.

- Por que você não se senta detetive Rizzoli?

- Eu não vou me sentar. – Jane já aparentava irritação. Ela só queria sua liberação, não queria ficar contando sua vida para o médico. – Eu só quero minha liberação, doutor.

- Eu vou dar sua liberação... – Jane abriu um sorriso de canto de rosto. Adorava essas pessoas que a entendia e não ficava atrapalhando sua vida. – Você foi mandada pra cá porque bateu no assassino do seu irmão e de sua cunhada, certo? – Se limitou só a fazer um afirmativo com a cabeça. – Como você se sentiu depois disso?

Jane soltou um riso de indignação e levantou a cabeça alguns segundos olhando para o teto da sala como se pedisse para que Deus lhe desse forças. Como tinha sido ingênua por pensar que seria tão fácil assim. Encarou o psicólogo por alguns segundos para ver se ele mudava de ideia e decidisse não saber nada dela e só lhe desse a liberação, mas viu que não iria acontecer. Soltou um longo suspiro e se sentou no sofá maior e Gavin a acompanhou sentando no sofá menor que ficava em sua frente.

- Eu sinto raiva o tempo todo. Ele assassinou meu irmão e minha cunhada, deixou meu sobrinho órfão, óbvio que eu vou sentir raiva. – Pensou em levantar e deixar aquela sala antes que falasse o que não devesse e acabasse se complicando mais para ter sua liberação. Mas quer saber? Já estava tudo ferrado mesmo e o psicólogo queria ouvi-la, então ela ia falar. — E como eu me senti depois que eu arrebentei aquele desgraçado? Com mais raiva ainda porque não deixaram que eu batesse mais. Eu sei que batendo nele não vai trazer os dois de volta, mas eu tenho raiva. Raiva do desgraçado ter matado o Tommy e a Lydia. Raiva dos dois terem morrido e deixado o TJ órfão. RAIVA POR QUE ELA VOLTOU!

Sim, agora ela tinha certeza que tinha falado demais e a sua vontade era de sair correndo daquela sala.

- Quem voltou?

- Maura... – O psicólogo ficou só a encarando como se pedisse pra ela prosseguir. – Minha ex-namorada que eu não via fazia dezessete anos. Tommy e Lydia deixaram um testamento dizendo que eu e ela teríamos que dividir a guarda de TJ, mas que teríamos que morar na mesma casa durante um ano.

Gavin já tinha visto de tudo nesse tempo que trabalhava com policiais, mas isso ele podia dizer que era um fato inédito. Sabia que ia ter que trabalhar essa raiva que Jane sentia. Percebeu logo de cara que não podia liberá-la para voltar a trabalhar, não porque ela ia sair por ai agredindo assassinos, mas ela podia ter péssimos julgamentos e acabando fazendo besteira, ainda mais pela raiva excessiva que ela sentia que agora ele tinha percebido que não era só pelo motivo de ter tido seu irmão e sua cunhada assassinados, mas sim também porque um amor do passado tinha voltado por causa de tudo que aconteceu.

***

- Eu não acredito que a Jane fez uma coisa dessas!

Mesmo se tratando de sua filha e ela sabendo que Jane seria capaz sim de fazer uma coisa dessas, ainda foi uma surpresa quando Maura contou para a mãe de sua ex-namorada a cena que presenciou logo de manhã. Depois do parque ela tinha resolvido ir até o Departamento, Angela tinha lhe dito que trabalhava na cantina de lá, e como ela estava precisando conversar com alguém – que falasse tendo em vista que TJ só olhava para ela e sorria – ela resolveu ir até lá e contar tudo.

- Você quer que eu ligue para ela querida? Aliás, eu vou ligar para e falar umas poucas e boas, ela está pensando o que?

- Não precisa Angela, eu vou conversar com ela.

- Eu queria tanto que ela parasse de fazer essas coisas. Sabia que depois de você ela nunca teve ninguém sério?

- Sério?

- Acho que algo mais sério que ela teve foi com uma garçonete do Dirty Robber, o bar que tem aqui perto, acho que durou um mês, mas depois que acabou nunca ninguém ouviu mais falar da garota.

Maura tentava não demonstrar o quanto que estava chocada ao ouvir aquilo, mas era impossível, mesmo ela sabendo que não tinha motivo para se chocar com as coisas que Jane fazia, porque não tinha mudado muita coisa desde a última vez que a viu.

- Eu ainda não estou acreditando que Jane namorou com ela. – Frost estava completamente bestificado ao ver Maura. Ele, Frankie e Korsak estavam parados na entrada da cantina só observando. – Eu sei que Jane só fica com as melhores mulheres de Boston, mas...

- Se eu namorasse uma mulher que nem a Maura eu também ficaria com raiva se ela terminasse comigo, porque ela tem cara daquelas mulheres que é pra casar e ter vários filhos pra multiplicar a beleza.

- Maura queria mesmo casar e talvez ter filhos, mas... – Os dois encaram Frankie. Agora que ele começou tinha que continuar. – Eu vou contar, mas se vocês falarem pra Jane que eu que contei eu nunca mais conto nada para vocês, ouviram? – Os dois assentiram. – Jane traiu a Maura, por isso que elas terminaram.

- Mentira! – Frost e Korsak falaram juntos. Realmente era difícil de acreditar em uma coisa dessas.

- Pois é... Vem, vou apresentar vocês a ela.

Maura não deixou de conter o sorriso assim que se deparou com Frankie em sua frente, ainda não tinha tido a chance de reencontrar o ex-cunhado. Os dois se abraçaram e Frankie não deixou de elogiá-la, porque ela realmente estava mais bonita do que quando era somente uma adolescente. Maura também o elogiou, tinha melhorado 100% ao ver pelo aquele menino magro que ele era na adolescência. A loira também não deixou de se surpreender ao ver que ele também era da policia, o que resultou em comentários de desagrado de Angela que nunca quis que nenhum de seus filhos tivesse esse tipo de profissão, mas não deixava de demonstrar que tinha orgulho. Foi apresentada a Korsak e Frost que não conseguiam segurar algumas piadas sobre Jane fazendo com que assim Frankie os encarasse com desaprovação.

- Ma recebi noticias de que Jane marcou pelo menos a consulta com o psicólogo, parece que era hoje.

- Graças a Deus! Por que ela está mesmo precisando conversar com alguém.

- Jane indo a um psicólogo? – Maura perguntou sem entender. – Por quê?

- Quando ela encontrou o cara que assassinou Tommy e Lydia, ela o agrediu. – Disse Frankie.

- Ela me falou que tinha agredido ele mesmo, mas pensei que ela só ia ficar suspensa por algum tempo.

- O Tenente achou melhor ela conversar com um antes de ser liberada para voltar a trabalhar. – Explicou Korsak. – Mas não se preocupe. Coisas do trabalho somente.

A loira mandou um meio sorriso para Korsak, mesmo sabendo que era coisa de trabalho e que Jane tinha mesmo que conversar com alguém porque era estourada de nascença, não deixou de se preocupar, aliás, pensou que tinha perdido essa mania de se preocupar com Jane, ainda mais depois dos últimos acontecimentos aonde a detetive fez com que seus anos de Ioga não valessem nada, mas percebeu que não, a mania de preocupação com Jane continuava.

***

Jane chegou em casa no final da tarde. Teve uma consulta só de uma hora com o psicólogo, mas decidiu não voltar para casa e como Maura não tinha ligado – se é que ela ligaria depois dos últimos acontecimentos – resolveu dar uma volta para pensar em tudo que foi lhe dito na consulta. Se encaminhou até o segundo andar da casa e parou de frente ao quarto de Maura que estava com a porta aberta. Não deixou de abrir um sorriso quando viu a loira deitada na ponta da cama, com TJ no meio dela e ela lendo uma história para ele, cada segundo que via Maura com TJ ela ficava mais encantada. Parecia que a legista estava tão entretida na leitura que nem notou a presença de Jane a admirando, o que foi ótimo para a detetive, que assim pode pensar pela última vez no que o psicólogo tinha lhe dito.

- Você ainda ama a Maura?

- O que? – Estava muito indignada com aquela pergunta. – Claro que não!

- Então por que a raiva por ela ter voltado?

- Você não ouviu a história que eu te contei não? Ela terminou comigo, me trocou por Londres.

- Por que você a traiu.

- Olha...

Já estava possessa, não sabia nem porque tinha entrado naquele assunto, ninguém nunca a entendia. Queria era mandar o psicólogo para o inferno, assim como estava fazendo com Maura, mas resolveu se calar.

- Eu quero que você faça algo por mim Jane. – O psicólogo prosseguiu vendo que a detetive não ia dizer mais nenhuma palavra. – Se você não ama a Maura como você está dizendo que não a ama você vai superar. Você vai chegar nela hoje e dizer que quer uma trégua e não vai mais tratá-la mal acabando com a paciência dela. Vocês são adultas, vão ter que conviver um ano debaixo do mesmo teto, então precisam pelo menos começar a se darem bem. Ou você pode admitir que ainda a ama depois de todos esses anos e que por isso você não consegue superar ela ter ido embora e seja sincera com ela, fale tudo que você sente, mas sem discutir, converse também como uma adulta com ela.

Depois de ouvir tudo isso foi que Jane decidiu que deveria dar uma volta para pensar em tudo que o psicólogo disse, sabia que ele tinha razão, que ela precisava conversar com a Maura e também sabia qual das duas conversas teria que ter. Deu três leves batidas na porta fazendo com que assim Maura despertasse a leitura que fazia para TJ e a encarasse.

- Se continuar lendo Contos de Fadas para o menino é capaz de ele virar gay quando crescer. – Disse em tom brincalhão fazendo com que Maura abrisse um pequeno sorriso.

- Não tenha muita certeza disso. Sua mãe lia Contos de Fadas para você e mesmo assim você não gosta de um Príncipe Encantado. – Jane soltou um riso.

- Você tem razão.

Sem saber o que dizer depois da última frase de Jane as duas ficaram alguns segundos em um interminável silêncio só trocando olhares, deixando um clima completamente desconfortável. Maura tinha algumas coisas a dizer, mas não sabia se a “bipolaridade” de Jane atacaria e ela não estava a fim de começar uma discussão, então preferiu não dizer uma palavra. Jane também tinha muitas coisas a dizer e sabia que teria que dizer, então respirou fundo e resolveu começar.

- Me desculpa. – Maura a encarou com um olhar de confusão. Tinha ouvido direito? – Eu sei que estou agindo feito uma idiota desde que nos reencontramos, então... Me desculpa. Prometo que serei mais suportável. Vou fazer com que esse um ano não se torne um inferno. – Maura ainda continuou a encarando, agora sem reação. Ainda era muito cedo para dizer que tinha alguma mudança em Jane, mas o pedido de desculpas por ter sido insuportável e desagradável nos últimos dias já era um começo. – Bom... Acho que é isso, eu vou... – Ela ia se virar para ir embora, mas Maura conseguiu recuperar a fala.

- Fiquei sabendo que você foi ver um psicólogo hoje. Está tudo bem?

- Está... Está... Sabe, só precaução por que eu soquei alguém, então...

- Ótimo. – Respondeu com um pequeno sorriso. – Fui até o Departamento hoje.

- Sério?

- Sim. Você trabalha com pessoas muito divertidas.

- Conheceu Korsak e Frost então? – Maura fez um positivo com a cabeça. Jane que ainda estava parada na porta deu alguns passos para frente entrando de vez no quarto. – Você os achou divertidos porque não trabalha com eles todo santo dia, senão você ia ver o que é divertido. Foi até o Departamento falar mal de mim para minha mãe, não foi?

- Claro que não!

- Você pode mentir agora é doutora Isles? – Perguntou Jane em tom divertido com os braços cruzados.

- Claro que eu não posso mentir detetive Rizzoli. – Respondeu no mesmo tom. – Eu não falei mal, só fui conversar.

- Claro! – Respondeu ainda descrente, mas até que era bom Maura ter alguém para conversar sobre as coisas que ela fazia, mesmo que fosse com sua mãe. — E o que você estava lendo pro TJ?

- Cinderela. – Mostrou a capa do livro para Jane.

- Esse é o livro que eu te dei? – A loira vez um positivo com a cabeça. – Você o guardou depois de todos esses anos?

- Claro. Foi meu primeiro Conto de Fadas e ainda tem dedicatória, então...

Foi inevitável Jane não ficar feliz ao ouvir aquilo. Não que ainda existisse algum sentimento, não que ela ainda amasse Maura, porque ela não amava, caso contrário teria seguido a sugestão número dois de seu psicólogo e ter contado tudo que sentia para ela, mas ficou feliz em saber que Maura não tinha se desfeito do livro.

- Quer se juntar a nós e ouvir o final da história?

- Por que não? – Jane caminhou até o outro lado da cama e se deitou nela. – Mas acho que temos que comprar uns livros mais de menino para ler para ele. Supermen talvez? – Maura fez uma cara de reprovação, não que não gostasse da história, mas sim porque TJ ainda era um bebê. – Tudo bem... Pode ser Os Três Porquinhos. – Maura balançou a cabeça em negativo e soltou um riso, sabia que Jane fingia que não, mas adorava também a história dos Três Porquinhos. – Vamos... Termina de ler essa história.

E os três passaram o fim de tarde, ali, deitados na cama, lendo, rindo, se divertindo, mesmo que os três tenha se tornado só duas, por que o terceiro dormiu sem nem que a história tivesse terminando. Mas quem estava se importando? O importante era que as coisas estavam começando a ficar bem, sem brigas, sem perder a paciência.

Notas finais
Vamos ver se Jane se comparta como gente agora. Até o próximo capítulo ;)