Mar deu um passo para frente e sorriu. Nada do que tinha visto tinha feito ela mudar seus planos.

— Gostaria de te pedir algo, senhor Bedoya, e desejo te dar algo em troca.

— Vejo que você é diferente de muitas das pessoas que vêm por aqui.

— Sim? O senhor é um homem de sucesso quando o se trata de negócios, e se preocupa de verdade com a qualidade de seu trabalho, e para mim, isso te diferencia de muita gente.

— E por que pensa isso de mim, senhorita Rinaldi? — Disse ele, e logo se deu conta de que poderia estar caindo na armadilha dela.

— Fiz minhas pesquisas. Li tudo que pude sobre sua companhia e sobre você. — Disse ela entusiasmada — Nós dois temos algo em comum, tenho certeza. É por isso que estou aqui, porque se seu tempo é algo valioso, o meu também é. — Não queria ser arrogante, simplesmente gostava de ser direta.

— Então você tem uma vantagem sobre mim — Disse Thiago intrigado — Porque eu não sei nada sobre você.

— Tenho minha própria empresa também, Paisagens Rinaldi. É uma companhia bem menor que a sua, e a tenho há cinco anos, sendo que, no ano passado ganhei um prêmio local e outro municipal por um parque que desenhei para o norte da cidade.

Mar, incapaz de conter sua energia, se levantou e caminhou até as janelas gigantes que cobriam a parede, observando a chuva cair.

— Amo esta cidade, senhor Bedoya. E quero que seja um lugar agradável para as pessoas que nela vivem. Na verdade, quero que passe a ser um lugar mais agradável ainda, e é aí que o senhor pode me ajudar, porque penso que compartilhamos os mesmos valores quanto a isto.

— Não me desagrada fazer dinheiro — Disse ele prontamente.

— Nem a mim, me desculpe por isto.

Ele se aconchegou em sua cadeira, e colocou as mãos em sua nuca, respirando profundamente.

— Então... Que mudança você propõe para a minha agenda?

Ela sorriu, juntando as mãos à sua frente.

— Não quero seu dinheiro, quero seu terreno.

Ela realmente era uma pessoa direta, pensou Thiago, e sem saber o porquê, quis fazê-la oscilar.

— Um terreno é dinheiro, com certeza você sabe disso.

— Um terreno é mais que dinheiro, muito mais. Suponho que você também sabe disso. Mais especificamente, estou interessada em duas propriedades, uma é o antigo estacionamento do planetário, e a outra é a esquina entre a avenida Córdoba e Francia. Nenhuma dessas possui um valor monetariamente alto.

Ele se levantou de seu lugar e caminhou até a janela, olhando-a.

— Então por que as quer? — Perguntou com um olhar fixo.

— O estacionamento poderia ser transformado em um estupendo jardim comunitário, um local para que as famílias aproveitem. Atualmente ele é apenas um lugar desperdiçado que serve apenas para descarga de lixo.

—Muito convincente. — Disse ele, sem deixar de olhá-la. Mar o olhou, fechando os olhos logo em seguida.

— Vim enganada então? Todas as revistas falavam muito bem do senhor, de sua integridade e de seus valores às antigas construções. Era tudo forjado?

Thiago a olhou com rancor. Os cílios da mulher a sua frente eram largos e lindos, e muitas modelos pagariam fortunas para ter lábios como os dela.

— O que você me diz da outra propriedade? A de Córdoba e Francia?

— Por ali vivem vários idosos e algumas casas para alugar. Daria para fazer um parque pequeno com bancos, flores e algumas árvores que dariam sombras.

— Você desenha e eu pago? É este o trato?

— Não precisa me ofender, senhor Bedoya.

—Pode ir se quiser.

— E depois me arrepender por me dar por vencida? Não, obrigada!

Ele estava apenas confirmando o que já sabia.

— Você quer mesmo levar esses projetos a sério?

— Claro que sim! Caso contrário, não estaria aqui. Já te disse que meu tempo vale muito também.

— Então... Qual seria sua parte?

— Se o senhor doar as propriedades para a cidade com a condição de que se transformem em jardins, e em um parque, eu farei o desenho gratuitamente, as plantas, e o trabalho no geral.

Thiago levantou uma sobrancelha.

— É muito generoso de sua parte... Qual o motivo disto?

— Faz muito tempo que um homem não me leva a sério como o senhor. — Disse ela amavelmente — Não posso estar fazendo isso apenas pelo altruísmo?

— Não. Do meu ponto de vista, o altruísmo não existe.

— Parece uma opinião mais que discutível. — Sorriu provocando. — O que me diz de interesse próprio? Soa melhor?

— Agora vai melhorando...

— Aprendo rápido. E quanto a minha motivação para isto, é um prazer para mim ver um lugar sem valor ser transformado em algo útil e bonito. O que me diz?

— Vai te custar.

— Posso pagar.

— Não sabia que o desenho de jardins e parques dava tanto dinheiro. — E foi aí que ele percebeu que, pela primeira vez durante esta conversa, ela estava realmente brava.

— A fonte da minha renda não te diz respeito. A unica coisa que você precisa saber é que eu posso pagar, e isso é tudo.

— Precisaria dos papéis e documentos a respeito disso antes de me comprometer.

— Terá toda a documentação que precise. — Ela tragou saliva — Isso quer dizer que aceita a minha proposta?

— Amanhã estou livre entre onze e meio dia e meia, suponho que terá tempo para ver os terrenos.

— Tenho uma entrevista às dez. Posso passar para te buscar às onze e meia.

E ele interpretou como se ela quisesse dizer que também tinha uma vida com planos e ocupações.

— Te esperarei aqui. Traga os documentos e planos.

— Obrigada — Disse ela em tom amável — Te deixo meu cartão, caso haja alguma mudança em seu horário. — Dito isto, pegou um cartão verde e bege, entregando-o para Thiago. Logo adicionou em tom irônico — Foi um prazer te conhecer, senhor Bedoya.

— Digo o mesmo, senhorita Rinaldi. — Respondeu Thiago, entregando seu casaco. Novamente a fragrância de seu perfume despertou seus sentidos. Fazia muito tempo que a presença de uma mulher não o afetava tanto.

— Te vejo amanhã.

— Acho que não vai achar estranho se eu fizer algumas pesquisas sobre sua empresa a partir de agora até amanhã.

— Absolutamente.

Thiago abriu a porta. A senhora Torres olhava a cena com certa curiosidade, o que não fez mais que aumentar o mau humor dele. Então, sem olhar nem mais um segundo para Mariana Rinaldi, fechou a porta de seu escritório. Pediria à senhora Torres os documentos das duas propriedades, e logo se ocuparia de comprovar algumas questões sobre Paisagens Rinaldi. Mas agora precisava urgentemente se concentrar nos planos do Porto.

Infelizmente, isto não aconteceu. Estava se distraindo demais naquele dia. Se aproximou da janela. A tempestade ainda não tinha parado. Pensou então em voltar para Buenos Aires, ao seu escritório de lá, sua casa e seus amigos. Talvez fosse ver sua mãe depois do trabalho, ela sempre lhe levantava o ânimo.

No ar se podia sentir a delicada e fugaz fragrância de uma mulher que parecia o enganar daquilo que estava acostumado a viver.

Continua...