Notas iniciais
Oláááááá! Aqui estou, de volta das férias! Preparei um capítulo com muito carinho, mas como realmente estive no mundo da lua, talvez haja um furo ou dois... Não deixem de me avisar se algo ficou confuso ou estranho, ok? Espero que gostem! Ah, agradecimentos infinitos a todas as pessoas maravilhosas que vêm comentando, favoritando e recomendando a fic! Boa leitura

Não foi difícil encontrar Kylo Ren: na ala de detenção, para onde os Umbaranos insurretos haviam sido transferidos. Para a surpresa da moça, estava acompanhado de três pessoas: um Togruta, um Miraluka e uma Umbarana idosa, os três fortemente armados e claramente guardando o novo Líder Supremo contra novos ataques.

O quarteto se encontrava com um dos seis prisioneiros em uma sala de vidro, aparentemente interrogando-o, uma vez que Kylo, o Miraluka e a Umbarana tinham as mãos direitas estendidas diante do rosto do cativo, cujos olhos apertavam-se em agonia e os lábios murmuravam palavras em seu idioma nativo. O cubo de vidro era espelhado pelo lado interno e acusticamente isolado, projetado para garantir a sensação de total isolamento para aquele a quem confinava, possibilitando constante vigilância.

A vítima sofria terrivelmente, mas não cedia à pressão, e a Jedi sentiu que ele sofreria muito mais, antes de finalmente não suportar manter suas barreiras mentais e ter a verdade arrancada de sua mente. Não podia permitir que aquilo continuasse, de modo que estendeu sua mente até a de Kylo, deixando-o senti-la. De imediato ele interrompeu os próprios esforços e, empertigando-se, disse algo para os demais, que anuíram enquanto seu líder deixava o espaço. Seus olhos se estreitaram ao fitar Rey:

— O que faz aqui? – perguntou friamente. Ela se aproximou de modo confiante e cúmplice, encarou-o sem medo e respondeu:

— Se você luta, eu luto. – e apertou o ombro dele num sinal de confiança – discutimos como casal, depois. Agora, sou sua aliada. – virou-se para o grupo dentro da cela – estão torturando-o. – não era uma pergunta.

— Devia haver um jeito mais fácil, mas ele é resistente. Recusa-se a dizer qualquer coisa, então teremos de arrancá-la de seus pensamentos.

— ele já está debilitado. Vão destruir a mente dele, antes de conseguirem uma resposta satisfatória. Ele pode fingir desistir, dar falsas informações, simular uma derrota quando sentir que está perto de seu limite, e não saberemos o que é real ou não.

— Repetiremos o processo com os demais, e compararemos as informações.

— Vai destruir seis mentes? E se todas as informações forem desencontradas? Eles são especialistas em mentes, trapaças e ilusões, não dá para vencer isso pela força. – ponderou Rey – e se eles sequer têm ciência de todo o plano? E se, por medida de segurança, cada um conhecer apenas parte do que está sendo feito? As informações serão completamente desencontradas, e boa sorte tentando montá-las num cenário coerente.

— A Conselheira Puuan afirma ser capaz de diferenciar as mentiras da verdade, mesmo nas mentes de seu povo. Ela já deu mostras de sua competência.

— Eles estão com as mentes parcialmente dilaceradas – insistiu a Jedi – pode haver outro modo. – não consentiria em tortura, mas simplesmente confrontar o esposo seria inútil e, em verdade, teria o efeito oposto ao desejado.

— qual? Diga algo que possa assegurar sucesso, e estou disposto a tentar. Drogas, suborno, nada disso funciona.

— Não... – o olhar castanho da moça se perdeu por alguns segundos em lugar nenhum. De repente ela voltou o olhar para o Líder Supremo – disse que não conseguem penetrar a mente dele, certo?

— A teia que os uniu tornou-se uma sólida barreira, fazendo com que seus escudos mentais sejam partilhados... – ele compreendeu de imediato o que a moça pretendia – nem. Pense. Nisso.

— Prefere matar todos eles ou enlouquece-los, e perder a chance de descobrir o que tramam contra si? – indagou a moça – a teia deles é fraca em um ponto: o ponto em que eu estava presa, e do qual escapei. Disse que a Conselheira Puuan consegue reconhecer os ardis de seu povo, que é treinada... E se eu a levasse até lá? Se eu a levasse ao centro dessa teia? Ela poderia penetrar em suas mentes sem feri-los, sem ter de lutar contra seus escudos. Descobriria o desejado e...

— Rey, não é assim que as coisas funcionam! Não é como um mapa ou...

— Na verdade, é sim. – rebateu a Jedi – ou melhor: é como um código computacional. Eu ouvi os médicos conversando, no hospital, quando acompanhamos os prisioneiros até lá: o cérebro é composto por condutores de eletricidade, e os pensamentos são basicamente energia eletromagnética. Assim como todo sistema tem uma chave, uma abertura, também as mentes dos seres vivos.

— Eu sei disso! – declarou o Sith – mas não é uma espécie de ciência exata em que dois e dois são quatro. Precisa achar o elo fraco, acessar as memórias vulneráveis e fazer delas uma ponte para o subconsciente. E fazer isso na mente de um membro dessa raça, ainda mais ligado a outros cinco?

— Depois de vocês o terem torturado, ele estará fraco e exausto. Ele será o elo fraco. Se eu não me apresentar como ameaça...

— algo difícil, uma vez que mutilou ambos os braços do prisioneiro.

— digo a nível mental. – ela revirou os olhos – eu sei que é uma tentativa arriscada e talvez inútil, mas é melhor do que quebrar as mentes deles ou, pior ainda, conseguir informações erradas! – ela segurou os pulsos de Ben com um olhar de súplica – por favor. Confie em mim. Eu posso fazer isso.

O Cavaleiro de Ren respirou fundo, pensativo; media os prós e contras, e ficou um bom tempo em silêncio antes de dizer:

— Vamos tentar. Mas se eu perceber que está sendo ferida de algum modo, a cabeça daquele homem será arrancada dos ombros.

— Temos um acordo. – pela Força, tomara que realmente soubesse o que estava fazendo... Nunca fizera aquilo, e só o que tinha eram as memórias das mentes umbaranas tocando a sua, enredando-a... Pequenos fragmentos de memória que compunham a trama a enredá-la, os elos que os ligavam uns aos outros. Mas precisava tentar, de alguma forma. Não se tratava apenas de impedir a tortura, mas de fazer exatamente o que dissera a Ben: garantir informações precisas e coerentes.

Entrou com o Cavaleiro de Ren na sala espelhada e fitou o prisioneiro – estava tão fraco, que a vontade da Jedi era de expulsar todos os demais daquele espaço, mais precisamente ARREMESSÁ-LOS porta afora! Contudo, contentou-se em travar o maxilar e sentiu uma estranha satisfação quando os conselheiros se curvaram diante dela, saudando-a. Satisfação em saber que cumpririam suas ordens, e que isso significava, no momento, conseguir fazer a coisa certa.

— Boa noite. – cumprimentou formalmente – Lorde Ren me falou sobre o problema com os prisioneiros. – dirigiu-se especificamente à Umbarana – Conselheira Puuan, creio que possamos contornar o problema, se trabalharmos em conjunto.

Resumidamente, a moça explicou o modo como sua mente se ligara brevemente às dos atacantes, os fragmentos de lembranças que captara em sua luta, e como esperava que eles funcionassem como pontes para o interior da rede que ora interligava os prisioneiros. Foi opinião unânime que era experimental e arriscado, mas o Líder Supremo tomou a decisão final:

— Apenas façam. Conselheira, a segurança de Lady Solo é de sua responsabilidade.

— Assim será, meu senhor. – a mulher se curvou, e Rey aproximou-se do cativo, imobilizado em uma prancha vertical de ferro cujos grilhões prendiam as pernas, peito e os tocos dos braços. Ela mesma já estivera presa em aparelho muito similar, e estremeceu levemente. O ser pálido ergueu o olhar atormentado para a recém-chegada, hostil.

— Qual o seu nome? – perguntou a Jedi, gentilmente. O Umbarano a fitou com raiva e despejou uma torrentes de palavras cujo tom tornava desnecessário saber o idioma para compreender o significado. – Está tudo bem. Eles não o irão machucar, outra vez. – tentava parecer o menos ameaçadora possível, buscando sentimentos de gentileza e compaixão, afastando as memórias do ataque anterior. – Senhores, por favor, eu gostaria de ficar a sós com ele.

Ante a anuência do Líder Supremo, o Togruta e o Miraluka deixaram o lugar, restando Ben e a Conselheira. Contudo, a Jedi insistiu:

— A sós, por favor. – olhou para o marido por sobre o ombro, e ele compreendeu de imediato: Rey tentaria amenizar a hostilidade do prisioneiro, primeiro, e ter seus torturadores na sala seria contraproducente. Assim, a garota foi deixada sozinha com o homem amarrado. Por um longo tempo permaneceu apenas observando-o, até o prisioneiro se manifestar:

— Você é a mulher que fez isso comigo. – ele encarava o chão, os olhos transtornados e toldados de exaustão.

— Não sou sua inimiga. – respondeu ela – sinto muito pelo que lhe fizeram... Não era para ter acontecido. – ela estendeu a mão perto do rosto pálido, que se virou para fugir – permite-me?

— Saia. – rosnou ele, atormentado. Ainda estava preso nos fios da trama de loucura tecida para Rey. A aranha agonizava em sua armadilha.

— Eu apenas quero ajudar. – tocou-o suavemente, emanando tranquilidade. Contudo, o prisioneiro não era capaz de compreender suas palavras, transtornado demais para compreender o que acontecia. Esperava conseguir convencê-lo a colaborar sem ter de entrar em sua mente, mas estava claro que não ocorreria. Assim, expandiu sua consciência em direção à dele, tateando a teia, sentindo sua trama, seus “fios”, os pensamentos e lembranças que os compunham, as cadeias a uni-lo aos outros. Já estavam mais fracas, porém ainda existentes... E todas bastante danificadas. Tencionara dialogar, convencê-lo a colaborar, se possível, mas não havia essa alternativa: precisaria da ajuda da Conselheira. Mas não o entregaria a ela sem ter encontrado brechas grandes o bastante. Não podia deixar um motivo que fosse para justificar mais tempo de tortura...

A Jedi se aventurou mais fundo naquele terreno abstrato. Ia lentamente encontrando o caminho até o ponto no qual fora aprisionada, reconhecendo fragmentos de suas próprias lembranças, usadas contra ela ainda naquela manhã. Apegava-se a tais memórias, evocava-as ao primeiro plano de seus pensamentos, e assim a mente do outro abria-se mais e mais, reconhecendo algo familiar; ela entregava pedaços de suas memórias como chaves, e estas destrancavam imagens, sons, formas e informações que chegavam à menina ora timidamente, ora com a força de um tsunami. Os outros indivíduos se inquietaram e fortaleceram a corrente, como se a presença de Rey fosse a chave para libertá-los. Assim que retornasse ao local de onde fugira nos momentos de conexão, recompor-se-ia o mosaico responsável pelo aprisionamento do Umbaranos, e as cadeias poderiam se romper. Nesse afã, puxavam-na com força, com a mesma intensidade da areia movediça a sugar um corpo para o fundo; mas a humana não podia ceder. Conseguira entrar, encontrar a brecha, sabia o que tinha de fazer... Mas não possuía experiência para aquilo. O que obtivera até o momento podia não ser tudo, mas teria de se contentar.

Romper a ligação mental foi um ato doloroso quase a nível físico, mas ela enfim conseguiu – quase tornando a se prender nas próprias lembranças, antes de bani-las para as profundezas da própria consciência e agarrar-se a pensamentos desvinculados do ataque precedente. Voltando a si, coberta de suor pelo esforço, fitou o homem inconsciente diante de si: nada mais havia que pudesse fazer por ele, além de lhe garantir uma execução rápida ao fim de tudo – pois Kylo não consentiria em nada além da morte.

Deixou a cela de vidro apenas por tempo suficiente para chamar pela Conselheira e pelo Líder Supremo, levando-os para dentro:

— Ele não está mentalmente são. Nenhum deles está: sentem-se feridos, e são perigosos. Querem recompor o padrão que quebrei ao fugir das cadeias mentais, pois assim podem reorganizar as próprias mentes e se libertar. Foi como consegui entrar: usando as memórias das quais se utilizaram para me capturar. – ela fitou a anciã – eu poderia ter tentado obter algo, mas não possuo essa habilidade. Entretanto, posso lhe mostrar as memórias cujos pedaços se prendem à teia de pensamentos. Poderá se guiar por meio delas?

— Basta-me uma lembrança que reconheçam e permitam adentrar seus escudos. – declarou a umbarana – uma vez superados, saberei extrair a informação que desejar. E como não são minhas memórias, não ficarei presa a eles. – a mulher de pele acinzentada estendeu a mão para a Jedi – por favor, Primeira Dama. Conceda-me a chave.

Rey ergueu a mão de modo hesitante, olhando de Kylo para a Conselheira, e de volta para o esposo. Tinha de ser feito. Assim, tocou a mão fria que lhe era estendida, sentindo a mente da outra deslizando para a sua como sombras por sob as soleiras de uma porta. Agora compreendia como haviam entrado em seus pensamentos sem que percebesse, horas atrás... Concentrou-se com todas as forças nas imagens da tempestade de areia, mantendo-a como seu único foco até, enfim, a sombra recuar e a mão gélida soltar a sua. Quando encarou Puuan, esta curvou a cabeça:

— agradeço. – e para o Líder Supremo – meu senhor, trabalharei com os prisioneiros por um longo tempo. Não há como dar um prazo para tais procedimentos.

— Faça o que precisa. – ordenou o Cavaleiro – Reporte-se a mim imediatamente, quando obtiver resultados.

— assim será, Líder Supremo. – ela curvou a cabeça enquanto Ren e a Jedi deixavam o espaço espelhado. Do lado de fora ainda estavam o Togruta e o Miraluka: o primeiro era ainda mais alto do que o Líder Supremo, característica acentuada pelos montrais brancos e azuis, contrastantes contra a pele vermelho-sangue. Usava um manto alaranjado longo, faixa Togruta na cintura e um adorno na testa que mostrava sua posição de destaque. O Miraluka tinha pele rosada, cabeça raspada e olhos cobertos por uma venda azul, a mesma cor da túnica e calça que vestia.

— Conselheiros, já conhecem Lady Solo, a Primeira Dama. – segurou a mão da esposa de um modo que nada tinha a ver com afeto, mas com reiterar a aliança entre ambos – Minha dama, estes são os Conselheiros Tanar Kahso, do comando militar – o Togruta curvou a cabeça — e Kels Davron, responsável pela segurança – o Miraluka sorriu e baixou a cabeça, dizendo:

— uma honra conhecer uma mestra Jedi.

— Não sou mestra, Conselheiro Davron – disse a jovem – mas é um prazer conhecê-lo. – o cego exibiu um sorriso mais enigmático:

— Se minha senhora assim o diz, aceito sem questionar. – ele a incomodou: o modo como podia enxerga-la com muito mais nitidez do que o humano e o Togruta, vendo não apenas seu exterior, mas a Força que fluía através dela, deixava-a desconfortável.

— Conselheiros, é um prazer conhece-los, mas preciso falar com Lorde Ren. Poderiam, por favor... – Kylo a interrompeu:

— Kahso e Davron são de plena confiança. Vamos à sala de controle da ala. – ele liderou o grupo pelos túneis branco-e-cinza, iluminados por tiras radiantes longitudinais; ali não havia aumento ou redução na intensidade da luz artificial em função do horário, tornando fácil se perder no passar do tempo.

A sala de controle da ala de detenção era um espaço circular, no centro da circunferência descrita pelo complexo de celas – um panóptico. Ligada ao corredor por pontes, possuía amplas janelas a fornecer visão panorâmica de todo o entorno, o painel de controle situado ao centro, câmeras instaladas em redor de toda a estrutura conectadas diretamente aos monitores; a fuga era algo difícil – embora não impossível, como Rey se lembrou com uma leve sensação de vitória.

Tão logo a porta circular se fechou atrás dos quatro, o Líder Supremo se manifestou:

— creio que tenha algo a me dizer, Primeira Dama. – e ante a hesitação dela, insistiu – você viu algo. Algo que não diria na frente da Conselheira Puuan.

— Tenho dúvidas quanto a se devo dizer diante de qualquer um além do Líder Supremo. – ela foi direta, manifestando sua desconfiança. A resposta de Ben a tomou de surpresa:

— Os Cavaleiros de Ren são minha guarda pessoal. O que for dito ficará apenas entre nós.

A Jedi levou um segundo para se recuperar do espanto, mas então percebeu o quanto era descabido: é claro que Ben confiaria apenas naqueles que lhe houvessem prestado alguma prova de lealdade, ou se ligado por algum vínculo. E o modo como haviam utilizado juntos a Força contra o prisioneiro... É, devia ter imaginado. Suspirou, enfim, e deu de ombros.

— Eu vi algo na mente do prisioneiro. Fragmentos, apenas, mas algumas coisas eram claras o suficiente. – respirou fundo – apoiam vários insurgentes ao mesmo tempo, com o objetivo de causar a guerra civil na galáxia.

— Com a guerra civil, podem manipular líderes, agir como agentes duplos e obter destaque e poder em qualquer que seja a facção vencedora. – ponderou Kahso – é de se esperar desses ratos desleais. – ele se virou para o Mestre dos Cavaleiros – senhor, permissão para esmagar esse movimento, antes que se espalhe.

— Primeiro, quero ouvir tudo o que nossa Jedi tem a dizer. – o tom do Líder Supremo era sério e firme. Ele sabia que a moça não terminara. – continue, Rey.

— Não vi todos os envolvidos... Mas Hux é um dos aspirantes. Ele pensa poder usar sua patente de general a fim de ter apoio militar suficiente para uma dominação violenta. Há militares a apoiá-lo, oficiais, mas não consegui enxergar tudo... Outros são seus claros rivais, e desejam eles mesmos o poder. Há diplomatas e embaixadores envolvidos, e separatistas... Pessoas que desejam a independência de seus sistemas. – ela esfregou as têmporas – a Conselheira Puuan poderá dar mais detalhes, mas tenho esses nomes: general Armitage Hux... Capitã Phasma, aliada ao general... Embaixador Adiron Thrax, outro aspirante que tem vários membros da alta cúpula a seu favor... Vários sistemas. – ela se apoiou na parede, levemente tonta. Fisicamente sentia-se apta a correr uma maratona, mas sua cabeça parecia pesada e lenta, ao menos no momento. – não me lembro de mais nomes, mas sei que fomentam seis facções fortes. Há outros pequenos dissidentes e insurgentes que aspiram ao poder, mas logo serão derrubados ou englobados por uma das facções maiores.

Kels Davron tinha uma expressão preocupada no rosto semiencoberto pela venda; o silêncio reinou por alguns segundos antes que dissesse:

— Pouco poderemos fazer sem as informações da Cavaleira Ania, Mestre Kylo.

— A Conselheira levará algum tempo, mas temos nomes: Armitage Hux, Phasma e Adiron Thrax. – ele fitou o Togruta – um Cavaleiro de Ren que trai os seus viola nossa lei mais sagrada. Busque-o, Kahso, e faça-o saber que será punido por sua traição. Não o mate, porém: isso eu mesmo farei. – virou-se para o Miraluka – Davron, deixarei que lide com Phasma. Sinta-se à vontade para vasculhar seus pensamentos e arrancar deles o que houver de útil.

— Não sou gentil, Mestre. Ela não será a mesma quando eu terminar.

— Espero que não seja. – declarou Kylo, antes de fitar Rey. A Jedi não se manifestara, especialmente ao ouvir os Cavaleiros de Ren se referirem a Kylo como Mestre. Imaginava bem por que não o faziam senão entre os membros do grupo: mantendo seus nomes originais e tratamento formal, passavam-se por pessoas comuns, não-vinculadas ao Líder Supremo Kylo Ren senão como o seriam ao Líder Supremo, e assim podiam mesmo penetrar círculos amotinados sem levantar suspeitas. Se não soubessem quem respondia verdadeiramente ao Líder Supremo, ou não, era impossível selar todas as brechas pelas quais informações e boatos poderiam vazar... E isso fazia a moça pensar quantos seriam os Cavaleiros de Ren. Quantos subordinados seu esposo teria, e quais deles seriam confiáveis? Pois, até onde vira, um deles ousava se levantar contra seu mestre... Algo que o próprio Ben propiciara ao matar seu mentor. Novamente as palavras de Leia vieram à mente da menina: “ninho de cobras”. Falavam sobre tortura, traição, assassinato e punição como se debatessem o funcionamento de uma nave... Isso a enojava e horrorizava, embora não surpreendesse.

— Pelo modo como me olha, Líder Supremo, suponho que me queira ao seu lado para confrontar Hux. – declarou, perfeitamente ciente das intenções do esposo.

— Exato. – voltando-se para seus subordinados, prosseguiu – estão dispensados. Encontrar-nos-emos pela manhã, tão logo Puuan nos contate.

Ambos se curvaram brevemente diante de seu senhor, mas antes de deixarem o lugar fitaram a Jedi; Tanar Kahso tinha franca hostilidade no olhar, como se desafiasse a mulher ou esperasse o melhor momento para cravar-lhe uma faca nas costas. Kels Devron, por sua vez, parecia-lhe menos agressivo e mais astuto, como se estudando-a a fim de formar uma opinião, buscar as falhas e fraquezas assim como forças da menina e decidir se e como ela poderia ser útil. Ou, o contrário, quando se tornaria uma ameaça. Ela não se encolheu, mas sustentou o olhar do Togruta e se fechou aos sentidos do Miraluka, que deu um sorriso malicioso:

— Uma Jedi capaz de se ocultar da visão da Força? – sua voz era quase cruel – que forte tendência ao Lado Sombrio isso revela!

— Já chega, Agon Ren. – era a segunda vez que o Líder Supremo se dirigia a um deles por seus nomes de Cavaleiros – É melhor ter em mente que se trata de MINHA esposa. Dirija-se a ela como menos do que sua mestra, e não terá mais uma língua para falar.

— Perdão, Mestre. – o Miraluka tomou seu caminho, e Kylo enfim se aproximou da esposa:

— Eles têm medo de você.

— Percebi – respondeu a jovem – E Devron, o Miraluka... Ele quer muito encontrar uma fraqueza em mim. Acha que sou uma presa para o Lado Sombrio.

— Ele se sente ameaçado por alguém que consegue se fechar a sua sensibilidade. É uma habilidade rara – ele cruzou os braços – se algum deles tentar ataca-la, mate-o, pois farão pior com você.

— Não deveria proteger seus irmãos de... Ordem?

— Minha primeira lealdade é para com minha esposa e consorte. A única pessoa nesta nave que jamais me trairia. – ele fitou as janelas do panóptico, tentando não parecer preocupado – apenas tenha cuidado.

— Terei. – ela se colocou ao lado do esposo – sabe que não concordo com seus métodos, não sabe?

— Fiquei surpreso que não tenha interferido em momento algum. Por suas emoções, parecia prestes a derrubar a estrutura sobre minha cabeça.

— Não vou desautorizá-lo diante de seus subordinados. Você matou Snoke: nada garante que algum deles não se sentirá inspirado pelo gesto, e apenas parecer forte e intocável em sua autoridade o manterá seguro. – ela sorriu brevemente ante a leve surpresa no olhar dele – brigas pelo poder não são tão diferentes, seja no alto comando da galáxia ou num lixão. – ela parou por alguns segundos – confia mesmo neles?

— Em Puuan e Kahso, sim. Longa história, mas já tiveram oportunidades demais para me trair, e não o fizeram; pelo contrário, arriscaram vidas e carreiras em nome de nosso vínculo como membros da mesma Ordem. Os outros... São úteis.

— Quantos?

— Oito. – ele a encarou – de repente parece interessada em meus assuntos.

— Prometi ajudar. Será o que farei, mas não posso agir sem saber o que estou fazendo e, principalmente, com quem lido. E os mais próximos de você serão os primeiros a querer me eliminar, por temerem que tenha influência sobre seus atos e pensamentos.

— Vai sentir saudades de Jakku, quando conhecer todos. – ele se empertigou – entretanto, temos algo mais urgente a fazer: lidar com Armitage Hux.

— O que tem em mente? Forçá-lo a falar? – ela tentou não pensar no prisioneiro Umbarano, mas a lembrança do modo como haviam tentado extrair informações de sua mente pela Força não sairia tão cedo dos pensamentos da Jedi.

— Não muito. Certamente menos do que merece. Ele é um conspirador, mas acima de tudo, é um covarde. Com a encenação certa, as palavras corretas, será nosso peão: tornar-se-á delator de seus próprios apoiadores e sabotará a própria facção.

— Ele pode sabotar a própria imagem como um borra-botas que desiste ao ser confrontado. – disse Rey – mas isso faria seus seguidores apenas procurarem outro líder.

— Tenho outra coisa em mente: usá-lo para solapar qualquer ideia sobre eu não ser um governante adequado. – ele lançou um olhar significativo para a esposa – mas não posso fazer isso sem ajuda.

— Eu? – o receio se abateu sobre ela: receio de qual seria o plano de Kylo Ren. Tratou de preparar a melhor recusa possível, apenas para a hipótese quase certa de se tratar de algo absurdo ou que fosse uma completa deturpação de seus princípios.

— Precisamente. Um pequeno teatro, por assim dizer... Ameaço a vida de Hux, causo-lhe alguma dor até que fale uma coisa ou duas. Quando ele começar a fraquejar, você terá de me impedir.

— Impedi-lo por quê? Não basta controlar-se? – ela sabia para onde aquilo caminhava, e não gostava nem um pouco da ideia.

— Você não entende, Rey... Não entende o sabor que existe em causar dor, a embriaguez de poder que... – ele segurou seu ombro – apenas faça-me parar, antes que eu o mate. Desejo destruir Hux há mais tempo do que posso contar, mas não posso mata-lo, agora. Ele tem de nos ser útil. Se o dobrarmos e obrigarmos a colaborar, a dissuadir os próprios seguidores de seus intentos, mostrará a outros insurretos que não será tão fácil me derrubar. – havia uma chama intensa no olhar de Ben, algo que assustava e, ao mesmo tempo, enchia Rey de determinação. Aquele homem era um líder. Aquele homem podia manter a ordem, mas Rey precisava conter sua sede de sangue, sua raiva e vontade de destruir.

— Tenho uma condição: quando eu o parar, falarei sozinha com Hux. Ressaltarei tudo o que pode lhe acontecer, tudo o que você lhe poderia fazer. Farei com que sinta medo, e oferecerei minha proteção, caso siga minhas ordens. – ela o observou – serão as suas ordens, mas ele não precisa saber disso. E se achar que, de algum modo, eu quero sabotar seu poder, Ben, ele me ajudará, pois não desistirá facilmente de destruí-lo.

— Gosto do modo como me compreende. – o Mestre dos Cavaleiros de Ren segurou delicadamente a mão da moça – Rey, eu o irei torturar. Pode suportar isso?

— Alguém tem de fazê-lo parar, não é? – ela não gostava da ideia, odiava estar ali, queria encontrar outra alternativa, mas o medo era a única coisa que poderia atingir Armitage Hux e torna-lo de inimigo em aliado, ao menos para ela – comece sozinho. Entrarei e interromperei sua ação, qualquer que seja.

— Ótimo. Tente ganhar a confiança dele, ou ao menos fazê-lo acreditar que você pretende me sabotar. Uma vez que o manipulemos, manipularemos todos os seus apoiadores.

— Eu não sou boa em mentir, sabe disso. Não sei esconder a hostilidade que sinto em relação a alguém; nem tentarei, pois seria um total fracasso.

— Não precisa fingir coisa alguma. Conheço você: irá se apiedar do general, e mesmo sem gostar dele, será capaz de lhe mostrar que ficar ao seu lado é o único modo de não ser preso e torturado até a morte, algo que eu faria com particular prazer. – o tom de voz indiferente do Líder Supremo fez surgir no peito da jovem a sensação de ter garras apertando seu coração, mas ela não o demonstraria:

— E depois?

— Acabamos com o motim antes que comece de fato, desmascarando alguém incompetente, covarde e invejoso, cujas aspirações se basearam unicamente em ambição, e não ideologia.

— Certo... Um passo por vez. – ela mordeu a língua para não perguntar se falavam de Armitage Hux ou do próprio Kylo, ao falar em ambição desmedida, desejo pelo poder e falta de ideologia. Seriam palavras inúteis que apenas causariam uma desnecessária discussão. – Pelo que esperamos?

— Está pronta?

— Não ficarei mais do que já estou. – ela tamborilou os dedos na borda do painel — Gosto disso? Nem um pouco, mas temos de fazer. – respirou fundo e seguiu até a porta da sala de controle – vamos?

Kylo não sabia se devia sentir-se satisfeito ou preocupado: confiava em Rey, de fato, pois a moça era um livro aberto quanto a seus posicionamentos e ideologias. Porém, também era imprevisível em atitude, e as ideias nada convencionais que lhe ocorriam – as quais ela seguia sem hesitar – poderiam tirar às mãos do Líder Supremo todo o controle da situação. Como tudo o mais em relação à jovem, era arriscado e, ainda assim, sua melhor chance. Pela Força, o que fizera quando trouxera aquela mulher para sua vida? Ainda não tinha certeza... A maior loucura era o fato de não se arrepender nem um pouco, e foi com esses pensamentos que a acompanhou.

*

O general fora trazido por dois stormtroopers, algemado à cadeira de uma das salas de interrogatório e deixado a sós com o Líder Supremo. Apenas a palidez mortal que se apoderou dele ao ver seu superior, fugindo à costumeira impassibilidade do militar, já era boa denúncia de suas atividades escusas, por mais que Kylo Ren fosse, de fato, alguém a ser temido por qualquer pessoa provida de bom-senso.

Do lado de fora, Rey não apenas observava, mas expandia seus sentidos para saber os rumos que tomava a “conversa”; podia não ouvir com clareza o que se passava, mas sabia que o Líder Supremo não exatamente indagava qualquer coisa ao subordinado, mas fazia as acusações e o “pressionava” a confessar tudo. Àquela altura, já teria arrancado da mente do outro tudo o que queria saber, mas continuava o processo como se nada houvesse obtido, desejoso de vingança contra o homem que o atormentara desde seus primeiros dias naquele lugar, ansiando por obriga-lo a falar em voz alta sobre sua traição... Raiva, ódio, medo, dor... Era isso o que emanava da sala. Ela sabia que devia esperar um pouco mais, mas quando o general se contorceu de dor, impedido de cair da cadeira apenas pelas algemas, a Jedi decidiu agir: entrou na cela com um olhar fulminante para o esposo, e apenas declarou:

— Eu assumo, agora, Líder Supremo, antes que mate o prisioneiro e o torne completamente inútil, de fato. – seu olhar era pura censura e repreensão ao esposo, e ele sabia que, se pudesse, a moça quebraria algo em sua cabeça naquele exato momento.

Ben parecia disposto a discutir: ter Hux sob seu poder, fazer com ele tudo o que desejasse, descarregar suas frustrações e raiva naquele a quem tanto odiava era um prazer à parte, mas fora ele mesmo quem pedira à moça que o interrompesse... Não conseguiriam os serviços de um homem morto, ou louco... E mesmo sabendo tudo o que o desgraçado pensava – fizera questão de escavar as memórias mais antigas, vergonhosas e dolorosas do outro – ele ainda era mais útil vivo do que morto. Ia deixar a sala quando a voz de Rey o alcançou:

— Eu o encontrarei tão logo termine este assunto. – Ben anuiu, compreendendo que não era uma farsa: Rey realmente não o queria por perto enquanto lidava com o general, e talvez fosse mesmo melhor... A raiva do Líder Supremo seria capaz de destruir toda uma ala, após descobrir as intenções e atos do miserável!

— Reporte-se a mim assim que finalizar aqui. Os stormtroopers o levarão à cela na ala do panóptico, e desejarei um relato completo do que foi dito. – não era um pedido. A raiva de Kylo era tanta que se projetava mesmo em direção à Jedi!

“Vai receber um relato depois de eu arrancar seus dentes um a um, Ben Solo” pensou a jovem. Não conseguia deixar de se zangar e querer distância de Ben quando o via agir daquele modo, mesmo sabendo que sua raiva, agora, era justificável. Assim, foi com alívio que o viu deixa-la a sós com o general, o qual a fitava com misto de desprezo, ironia e superioridade.

— Não parece o olhar de alguém que só não está sendo torturado porque eu interferi – começou a jovem – por mais que você merecesse tudo o que o Líder Supremo deseje fazer, e ainda mais.

— Vejo que se tornou o cãozinho fiel de Kylo Ren. – zombou Armitage, com sarcasmo cáustico – faz tudo o que ele manda, não é?

— Já que parece tão pouco interessado em minha ajuda, posso sair daqui e deixar que ele termine o que queria fazer. Não deve estar muito longe, e voltará com enorme alegria. – disse a moça, levantando-se da própria cadeira – apenas não garanto que sobrará algo de você para o funeral... – estava quase na porta quando ouviu a voz do ruivo, esganiçada com a pontada de pânico:

— Espere! – Rey se virou e o fitou:

— Você precisa de mim, Armitage Hux. Kylo Ren já conhece absolutamente todos os seus passos desde o momento em que respirou pela primeira vez, isso eu posso lhe garantir. Isso significa que você não é mais útil a ele: pode ser exterminado, assim como seus seguidores. E acha que o Líder Supremo permitirá uma morte rápida ou indolor?

O ex-general deixou pender a cabeça, a boca seca de medo, o coração acelerado em desespero até o momento que a garota se sentou novamente de frente para si e o encarou com os olhos de avelã... Olhava-o com piedade, com tanta bondade que fazia o humano desejar arrancar-lhe os olhos, para não ter de suportar a intolerável Jedi.

— Você tem raiva de mim – disse a jovem – porque frustrei seu plano de usar os pesadelos para tirar a sanidade de Kylo Ren. – ela franziu o cenho ante a expressão surpresa do outro, e de repente não achava que Ben exagerara na punição – era isso o que queria... Enlouquecê-lo através do medo e das manipulações dos umbaranos! – ela sentiu como se uma lâmina gélida a partisse ao meio quando sentiu os detalhes do plano – deixa-lo aterrorizado e insano o suficiente para tirar a própria vida, ou no mínimo ser incapaz de se defender de um ataque pelas cotas. – um esgar de nojo torceu a boca da garota – isso é... Como pôde agir de modo tão vil? Um motim é uma coisa, mas isso...

— Seu marido não merece uma morte rápida. – disse o militar – você não sabe metade das coisas que ele já fez. Nenhum de nós tem uma alma pura, neste comando, mas ele é quem mais crimes carrega.

— Não duvido, e não questiono. Mas ele é seu líder. E tem sua vida nas mãos. Mais do que isso, tem sua morte nas mãos: lenta, dolorosa e criativa, se o conheço.

— Kylo Ren estaria morto, agora, se não fosse por você, a cadelinha adestrada que o segue e defende. – a Jedi cerrou os punhos e trincou o maxilar para não perder a calma – Por que defende o homem que lhe tirou sua liberdade, seus amigos e a tornou um mero troféu a exibir para os rivais, uma arma a ser usada de acordo com sua própria vontade e um corpo para aquecer sua cama, à noite?

— Porque pior do que um homem como Kylo Ren, no comando da galáxia, seria ter vários homens como você disputando-a tal e qual cães disputam um osso. – rebateu ela, sem alterar o tom de voz. – Mas eu não vim discutir o que me vincula ao Líder Supremo. Vim fazer um acordo.

— Acordo? – havia incredulidade e ironia na voz do prisioneiro, embora estas não servissem para ocultar o terror que o tomava ante o que o Cavaleiro de Ren poderia fazer consigo. – O que uma Jedi teria a me oferecer?

— Sua vida. – respondeu ela – muitos dos que o apoiaram também apoiam outros aspirantes. Fazem jogo duplo, incentivam a cisão para enfraquecer a galáxia e obter poder através da guerra civil. Essas pessoas o matarão sem pestanejar, no instante em que puser os pés fora de uma cela.

— E Kylo Ren irá me matar lenta e dolorosamente se eu ficar dentro de uma. Ao que parece, temos um impasse.

— Ele não o matará, se lhe for útil. – ela suspirou – o que vim propor é: sua ajuda para desmantelar o grupo que o apoiou em seu motim, seu apoio incondicional ao Líder Supremo, e em troca você vive. Será rebaixado para capitão, mas receberá uma guarda pessoal encarregada de mantê-lo seguro, pelo tempo em que agir. Uma vez que cumpra seu papel, será afastado e enviado para um sistema distante, onde viverá como civil.

— Que garantias eu tenho disso? Como sei que não irão simplesmente me assassinar? – ele estreitou os olhos para ela – como posso confiar na palavra da esposa de Kylo Ren.

— Confie na palavra de uma Jedi. – respondeu ela, levantando-se – certo, tem minha proposta. Terá tempo de pensar nela até amanhã. Ajude-nos a reverter o que você mesmo criou, e terá não apenas sua liberdade, mas receberá proteção contra aqueles a quem traiu. Recuse-se, e não terei argumentos para impedir meu marido de fazer o que bem entender. – ela sentia nojo de si mesma, por barganhar com a vida de alguém, mas não havia alternativa possível. Ou melhor, havia: matar Armitage Hux ela mesma, findar aquilo e deixar que Ben cuidasse dos que seguiam o capitão. Mas se tudo se pudesse resolver sem sangue, ou com o mínimo de mortes, não seria muito melhor? Mostrar que o Líder Supremo punia a traição com a morte, e a lealdade com o perdão, seria um passo para torna-lo não apenas temido, mas respeitado. E respeito era algo tão importante quanto o temor, ao menos para um governante. Disso ela sabia, pois era assim até mesmo entre as alcateias de caçadores do deserto: uma lei natural tão atávica quanto todos os laços que vinculavam qualquer grupo humano. — se não fizer isso por ele, faça-o por mim: eu não me esqueço daqueles que me ajudaram.

Estava já na porta, indicando aos stormtroopers que levassem o prisioneiro, quando este perguntou:

— por que quer me ajudar? Eu quis destruí-la.

— Porque eu não sou você – respondeu a jovem, encarando-o – e embora queira assegurar o poder de Lorde Ren, gostaria de fazer isso derramando o mínimo possível de sangue. Poupar sua vida ajudará a poupar inúmeras outras, contanto que aceite nos ajudar. Mas esta decisão já não é minha; apenas pense nos que seguiram SUAS ideias, e no que acontecerá não apenas a si, mas a todos eles. – ela arqueou uma sobrancelha – além disso, quando souberem quem fez Lorde Ren poupar sua vida, a quem acha que serão gratos? É claro... Se achar que não vale à pena, poderá desfrutar de dor excruciante e incessante por dias a fio, antes de uma morte vergonhosa e indigna. – a Jedi viu o brilho de reconhecimento no olhar do general. Ele compreendia que para ela iriam os louros da vitória, o reconhecimento pelo perdão e piedade, e Rey soube no mesmo momento que, para Hux, isso significava vê-la como uma possível futura rival do Líder Supremo. Afinal, o que mais esperar de uma Jedi, senão obscurecer a imagem de um senhor do Lado Sombrio, roubar-lhe o controle e derrubá-lo antes que este percebesse o que ocorria?

Sabendo que o adversário fora fisgado pela isca que poucas palavras verdadeiras haviam deixado, a moça abandonou a cela de interrogatórios e seguiu pelos infindáveis corredores metálicos, na boca um gosto amargo de desagrado e decepção: se aquilo era um tipo de política, já entendia por que nunca houvera verdadeira paz, na galáxia. Era hora de falar com Ben, e contar o que já sabia: Armitage Hux era, ao menos no momento, um peão de seu jogo.

*

— O que conseguiu? – perguntou Ben Solo, deixando de lado o sabre de luz com o qual golpeava alvos de treinamento. Não o fazia por necessidade, mas apenas para dar vazão à raiva que, de outro modo, seria liberada sobre a primeira pessoa que o encontrasse no pequeno pátio de treinamento.

— Ele reagiu como previsto. Acha que pretendo esboroar suas forças como comandante, e que tudo é parte de um plano Jedi para destruir a Primeira Ordem. Vai nos ajudar, embora ainda não o tenha declarado de fato.

— Ele irá declarar, quando vir um laser indo em direção a seus membros para amputá-los. – respondeu o Líder Supremo – Levou menos tempo do que pensei.

— Você o aterrorizou muito mais do que EU pensei. – rebateu a garota, em tom de censura – por que, Ben?

— O medo é o caminho mais rápido e eficaz. – ele a fitou e se aproximou – na maioria das vezes, ao menos. Deixemos que me temam, e que a amem: assim equilibraremos os sentimentos de nossos súditos.

— SEUS súditos – salientou a Jedi – não sou uma governante, Ben. Nunca quis ser uma. Sou sua aliada, e sua esposa, mas não uma governante.

— Para eles, você é. Como Primeira Dama ou como Jedi, não importa: é uma figura de inspiração. Os que me temem sentem que os protegerá, e quando perceberem que não nos opomos um ao outro, entenderão que não sou seu inimigo, contanto que sigam minhas leis.

Rey meneou a cabeça e suspirou: ela era uma peça no jogo de Kylo; uma peça importante, mas uma peça, e escolhera este caminho quando se entregara. Tinha de lidar com o fato e se fortalecer para continuar com seu próprio jogo, este apenas incipiente, malmente delineado quanto às estratégias pelas quais atingiria seu objetivo. A prioridade, agora, era revelar os traidores, e precisariam esperar que a Conselheira Puuan concluísse seu trabalho... Mas isto deveria acontecer apenas dali algumas horas, pois ainda era madrugada.

— Este é um mundo cansativo, trapaceiro, deprimente e perigoso – comentou Rey, divagando – como pode gostar?

— tudo tem seu preço. Este é o do poder. – sentia-se mais calmo, menos ansioso e certamente mais seguro ao lado da moça. Passou a mão gentilmente pelos cabelos castanhos presos em rabo-de-cavalo e falou – sei que não é fácil, Rey, que não é seu mundo, nem seu feitio. Mas, se isso a consola, está se saindo bem.

— Não sei se me consola ou me assusta. Não quero me transformar em algo que não sou. – As palavras de Finn não saíam de sua cabeça... O pedido para que não se deixasse transformar em alguém que não era.

— Nem todos os Sith da história reunidos poderiam mudar quem você é, no âmago, Rey Solo. – desde quando se sentiam abertos a uma conversa tão íntima? Percebendo que se expunha demais, o Líder Supremo se levantou – pegue seu sabre de luz.

— Para que? – indagou ela, surpresa.

— Precisa treinar, não acha? – perguntou o homem – alguns meses com um sabre nas mãos, e acha que não precisa se aprimorar? Ainda tem muito que aprender, Padawan.

Ela pegou seu sabre e o girou nas mãos... Talvez um pouco de atividade a ajudasse a tirar todos aqueles pensamentos desagradáveis da mente. Assim sendo, acionou a arma e foi para perto de Ben.

— Vamos lutar um contra o outro?

— Apenas treinar. – ele se colocou atrás dela – primeiro, relaxe. Treine com os alvos de metal para se alongar e esvaziar a mente, focar apenas na luta. Depois treinaremos juntos.

E assim ela fez, descarregando golpes ora rápidos, ora suaves em alvos de formas e tamanhos diversos, que surgiam do chão ou se ocultavam dentro das paredes como se fossem adversários vivos. Realmente, o movimento bania as preocupações e angústias, restando uma paz preciosa dentro de si, do tipo que lhe permitia sentir até mesmo o bater de asas de um inseto à distância. Neste momento sentiu-se pronta, e cruzou lâminas com o esposo.

Algum tempo depois, transpirando devido ao exercício intenso – parecia que o progresso de um automaticamente implicava na evolução do outro – sentaram-se juntos no chão, encostados à parede.

— Você progrediu muito desde a última vez – ofegou Kylo, no que parecia um elogio.

— E você não ganhou uma cicatriz, hoje, então posso dizer o mesmo. – respondeu a menina, rindo baixinho. Numa carícia, deitou a cabeça no ombro de Ben – ainda quer me matar?

— Tudo o que eu aprendi diz que eu deveria querer. – disse ele, virando-se de frente para a moça – e sabe o que digo a esses ensinamentos? Para o inferno com eles. Não vou abrir mão da única coisa que me faz sentir... Bem. – ele esfregou o rosto com as mãos – não tem nenhum motivo para acreditar em minha palavra, Rey, mas juro que está segura ao meu lado. Sua vida não corre perigo.

— Eu sei. – ela segurou a mão do amado e a trouxe para junto do rosto – não concordo com seus atos e filosofia; algumas vezes gostaria de partir sua cabeça com uma pedra, para que deixe de agir de modo tão cruel... Mas se você puder aceitar minha luz, eu posso aceitar suas trevas. E no fim... Talvez algo bom resulte disso. Talvez sejamos o Equilíbrio, um para o outro.

Ante as palavras da moça ele deu um sorriso e a beijou com carinho; com ela não sentia as trevas, a raiva... Não entendia, mas não queria entender. Bastava-lhe fruir da sensação de estar sólido e inteiro quando a tinha ao seu lado. Ia beijá-la de novo quando a jovem se levantou:

— Já é dia. Temos coisas a fazer: você precisa falar com os demais Cavaleiros de Ren, saber o que a Conselheira Puuan descobriu. E antes de encontra-lo, quero saber como está Lena. – ao vê-lo suspirar em tédio e aborrecimento, brincou – não seja tão rabugento, pelo menos comigo, ou me sentirei menos motivada a dividir o quarto com você.

— O quê?! – ele se levantou também, um pouco surpreso – ainda vai aceitar?

— Separados somos mais fracos e suscetíveis a ataques, até mesmo de seus seguidores. Juntos, podemos guardar as costas um do outro. – ela deu de ombros – eu não devia confiar em você, mas... Sinto que é a coisa certa, agora. Então vou lhe dar... Vou NOS dar outra chance. – um beijo suave – e agora, Líder Supremo, temos um dia cheio pela frente.

Quando a Jedi desapareceu de seu campo de vista, Kylo Ren tinha certeza de poucas coisas: Rey era um enigma que ele não conseguia desvendar; sua aliada, sim, mas também sua rival quanto às ideologias e princípios. Sua antítese e complemento a um só tempo. E não conseguia dizer se lhe trazia sensatez, ou se o enlouquecia cada vez mais... Fosse como fosse, fazia-o forte como nunca antes fora.

Notas finais
Certo, é isso, por hora. Espero não ter decepcionado ninguém, mas foi um capítulo particularmente difícil de escrever: Rey teve de fazer coisa que não gosta e com as quais não concorda, mas que reconhece como necessárias. Como lidar com esse tipo de situação? Acham que se saiu bem, mal? Obrigada de novo a todos que leram, e podem avisar sobre qualquer furo, pois, como disse, foi um capítulo bem difícil. Beijos enormes, amores, e até muito breve! Espero postar um capítulo novo até dia 31! Que a Força esteja com vocês!