Notas iniciais
Olá!!! Tudo bem com vocês?! Aqui estou, de novo! Mais um capítulo para vocês, feito com muito amor, e ainda com a cabeça um pouquinho "nas nuvens", então avisem sobre qualquer erro ou confusão, ok? Boa leitura!

— Lena! – Rey abraçou a amiga com alegria ao vê-la recuperada. Estavam na sala comunal da equipe de relações interplanetárias, no momento apenas as duas mulheres, Brenwen e Asala, as meninas protegidas de Eilenia Shan. Afastou-se um pouco, segurando-lhe as mãos – como se sente? Ah, perdoe-me, eu não queria que aquilo...

— Acalme-se, Rey! – pediu a Twi’lek, com um sorriso divertido – eu estou bem. Foi apenas uma dor de cabeça: não tenho memórias tão terríveis a ponto de me perturbarem de modo significativo. Nós duas fomos enganadas, atraídas para uma armadilha, e você nos salvou.

— Ben salvou você. – corrigiu a Jedi, lembrando-se dos corpos que encontrara pelas escadas.

— Ele não teria vindo apenas por minha causa. Foi por você que ele buscou, e eu tive a sorte de ser encontrada no caminho. – rebateu a diplomata, o que a mais moça reconheceu como verdade – mas estou realmente bem. Fique tranquila.

— Agora, sim. – a moça se ergueu aliviada, voltando sua atenção para as aprendizes, as quais apenas cumprimentara brevemente antes de correr para Eilenia – desculpem-me, meninas: não fui muito gentil.

— Sua aflição é compreensível, Lady Solo – respondeu Brenwen, formal e elegante – não nos ofendeu, em absoluto.

Rey se obrigou a não bufar de tédio com o tratamento usado pela mais nova, e se aproximou da adolescente e da criança:

— É... Sei que não tivemos um primeiro contato muito encorajador, mas Lena explicou-me a situação. E, para mim, seria maravilhoso se aceitassem serem minhas damas, mas não para me servir, e sim como amigas, exatamente como Lady Shan. – ela viu os olhos das meninas brilharem, e Asala se manifestou:

— mas a senhora é uma mestre Jedi, e a imperatriz da galáxia... Como podemos ser amigas? Devemos servi-la.

— Não, Asala – Rey se abaixou para ficar da altura da menina – eu não sou imperatriz: sou a esposa do Líder Supremo, mas isso não muda quem sou, de verdade. Quanto a ser Jedi, ainda estou aprendendo: todo Jedi é para sempre um eterno aprendiz da Força, e isso não me torna superior a ninguém. Podemos, sim, tratar-nos como amigas. – ela fitou Brenwen – se aceitarem, é claro.

— A honra é nossa... Rey. – declarou a moça de cabelos dourados, tocando o ombro da garota Togruta – lembra-se do que Lena disse, para confiarmos nela? Não precisa ter medo, Asie. – a energia agressiva que Rey sentira na outra humana, até o momento, abrandou-se; foi fácil perceber que ela se preocupava muito com a mais nova, e que a agressividade sentida até o momento, ainda que natural na princesa, acentuava-se com os fortes sentimentos protetores em relação à criança. – Lembra-se do que Lena nos disse, Asala?

— Para mostrar... Aquilo?

Rey piscou algumas vezes, surpresa, e olhou para a Twi’lek, que lhe sorriu misteriosamente e veio para junto das três mais jovens, sentando-se numa das poltronas circulares:

— Eu lhe disse que eram sensitivas à Força. Não contei tudo. – olhando em redor, continuou – sabe dizer se estamos sozinhas, Jedi?

A humana mais velha fechou os olhos e expandiu seus sentidos: não havia ninguém nas imediações. Todos os embaixadores, diplomatas e economistas encontravam-se ocupados, como a própria Lena estaria se os colegas não houvessem insistido para que se desse algum repouso, após o ataque sofrido.

— Nem mesmo um droide senciente por perto. – respondeu enfim, cada vez mais intrigada. O que as duas jovens poderiam querer lhe mostrar? – estão me assustando, Lena.

As garotas olharam indagadoras para sua mentora, que anuiu e lhes assegurou:

— Confiem em Rey como confiariam em mim, e ainda mais. Vocês me pediram orientação, e encontrei alguém que realmente poderá ajuda-las; agora, precisam confiar nessa pessoa.

Após segundos de hesitação, Asala se pronunciou:

— Posso fazer primeiro, se quiser, Bren.

— Cuidado, Asie – pediu a adolescente – sem causar acidentes, ou o Líder Supremo pode sentir algo...

— Eu sei – protestou a pequena, concentrando-se então na mesa redonda que ocupava o centro do espaço circular delimitado pelos sofás curvos. A princípio nada aconteceu, mas após alguns segundos os papéis nos quais Eilenia havia trabalhado, naquela manhã, começaram a levitar. Não durou mais do que alguns instantes, antes de caírem espalhando-se para todos os lados, enquanto os olhos escuros da criança fitavam uma atônita Rey. Isso era manipulação dos aspectos físicos da Força!

— Desde quando faz isso, Asala? – perguntou a Primeira Dama, ajoelhada no chão junto à criança.

— Começou há alguns meses. Derrubo coisas sem tocar nelas... Faço-as levitar... Estendo a mão para pegar um objeto, e ele vem até mim. – cada palavra era como um punho a socar o diafragma da jovem Jedi, que sentia o ar lhe faltar. Céus! Ela mesma era apenas uma Padawan, tinha um infindável caminho pela frente, e agora precisaria cuidar de uma criança excepcionalmente dotada?! Os Mestres só podiam estar lhe pregando uma peça! De repente queria que a Força fosse uma entidade física, apenas para poder dar-lhe uma cajadada por fazer tais coisas consigo!

— Isso é um talento poderoso – disse enfim, medindo cada palavra- mas sabe que não pode usá-lo de modo irresponsável, não é?

— Tento não usar, mas acontecem acidentes. – havia medo no olhar pueril – tenho medo de acontecer algum diante de um Cavaleiro de Ren, ou do próprio Líder Supremo, e me obrigarem a servi-los... Eu não quero usar o Lado Sombrio... Não quero ser torturada, nem machucar pessoas, nem...

— Calma – num impulso incontido, Rey abraçou a menina Togruta – isso não vai acontecer. Nenhum acidente acontecerá e, mesmo se algum deles descobrir, terão de me matar antes de encostarem em um único lekku seu. – jurou a Jedi – posso ensiná-la a controlar. A lidar com isso... – ela não acreditava que ia dizer as próximas palavras, mas pronunciou-as mesmo assim – mesmo a ser uma Jedi, se for sua vontade.

— Uma Jedi? – os olhos da criança brilharam com uma chama de esperança e alegria – como nas histórias de Lena?

— Ainda não as ouvi, mas talvez seja algo parecido – sorriu Rey – escute, o mais importante é não causar acidentes. Eles acontecem quando você se irrita, ou se assusta, não é? – a garota anuiu silenciosamente – então, o mais importante é não agir quando estiver com raiva, ou com medo. Não vou lhe dizer para lutar contra esses sentimentos, porque lutar contra eles apenas os fortalece, então, quando se irritar ou estiver amedrontada, procure pensar em coisas boas, nas pessoas a quem ama, em Lena e Brenwen, que a amam e protegem... Essa é sua primeira lição: precisa manter a calma, para manter nosso segredo guardado. Acha que consegue fazer isso?

— Se Bren estiver comigo, ou Lena, consigo.

— E eu vou estar, sempre. – assegurou a humana de cabelos dourados – do seu lado, protegendo-a, como prometi.

A Jedi e a diplomata trocaram um sorriso, enternecidas pelo cuidado entre as duas meninas que, separadas de suas famílias, lares e mesmo planetas, haviam encontrado uma na outra um vínculo emocional forte, que poderia fazer toda a diferença em seus futuros. Pouco depois a Twi’lek se dirigiu à princesa Lisin:

— Bren, agora é você quem tem algo a mostrar. – os olhos cinzentos ficaram apreensivos, mas mesmo assim ela se levantou e encarou Rey:

— consigo saber coisas que os outros não sabem. Ver o que está distante, ou escondido... Acham que meus reflexos são rápidos, mas, na verdade, eu vejo o que vai acontecer com alguns segundos de antecedência... – para provar o que a outra falava, Eilenia pegou um peso esférico de vidro e o arremessou na direção da humana, em pé de costas para si. Num ato rápido e fluído, a moça se voltou e agarrou o objeto com precisão, mostrando então para Rey. – isso é o que faço. Mais fácil de esconder do que as habilidades de Asala, mas também temo ser descoberta, em algum momento.

— Estendo a você a promessa que fiz a Asala: apenas por cima de meu cadáver o Líder Supremo ou seus Cavaleiros tocarão em vocês. E acreditem: ele já tentou me matar muitas vezes; falhou miseravelmente em cada uma delas. – pela Força, o que estava fazendo?! Sua mente gritava-lhe que parasse, que assumir tal responsabilidade era loucura, mas seu coração insistia em prosseguir – assumo responsabilidade por vocês. Para todos os outros, serão minhas damas de companhia, mas posso começar a lhes ensinar o que sei sobre a Força. Ao menos o suficiente para que sejam capazes de se proteger. Depois, quando puderem controlar o modo como a Força age em ambas, então decidirão se querem prosseguir ou não. Não sou uma Mestra, ainda, mas juro fazer absolutamente tudo o que puder para ajuda-las, se aceitarem minha oferta.

Com uma troca de olhares, as duas jovens assentiram e Asala tomou a palavra:

— Queremos ser suas padawans, mestra Rey.

— Não devem me chamar assim – disse a moça – primeiro, porque não podemos comprometer esse segredo. Segundo, porque não sou uma mestra, ainda. Sou apenas uma padawan mais velha passando às duas o que já aprendi.

— Certo. – a menina Togruta estendeu a mão para a Jedi com os dedos levemente flexionados. Rey a encarou confusa, e Brenwen riu baixinho:

— É só uma brincadeira que fazemos ao entrar em acordo – ela estendeu a mão para a criança mais nova e engancharam os dedos por um segundo, antes de puxarem as mãos nas respectivas direções. – algo como um “pacto” ou “acordo”, significa que estamos dando nossa palavra... – ela estava vermelha, constrangida — é coisa que fazemos entre os mais jovens. Uma brincadeira, apenas. Bobagem.

— Ensinem-me isso, urgentemente – pediu Rey – já estou me sentindo velha demais sendo casada e tendo pessoas me tratando por “senhora”, com apenas dezenove anos!

Duas tentativas depois, a Jedi aprendeu o gesto, e ria com as duas mais novas dos erros anteriores. Vendo-a, Eilenia sorriu e suspirou: pareciam três crianças, sentadas no tapete e sorrindo juntas como se não houvesse maldade ou agonia no mundo, ainda que todas elas já houvessem sofrido consideravelmente. A Twi’lek apenas esperava que isso nunca morresse naquelas três, especialmente na mais velha: para ela, Rey tornava-se algo como uma irmã mais jovem, e desejava de todo o coração poder preservar a amiga de todo o mal e dor que podiam acometê-la. Uma ilusão, é claro, a qual gostava de acalentar.

— Certo, crianças – interrompeu a diplomata – cada uma tem algo a fazer! Brenwen, Asala, terminem as lições que lhes passei, e Rey... – ela fitou a humana de alto a baixo – se tiver tempo, quero lhe dar uma coisa.

— O Líder Supremo irá me chamar em breve, mas enquanto não o fizer, estou desocupada. – declarou a padawan – espere... Chamou-me de criança, também?

— Disse que se sentia velha – a mais alta deu de ombros, sorrindo, e levou a humana para seu escritório particular, elevando duas cadeiras diante dos arquivos digitais – configurei um acesso especial para você, tanto à minha biblioteca física quanto à digital.

— acesso especial? – aquela história estava muito interessante!

— Coloque o dedo aqui... – ela pressionou o polegar de Rey contra um leitor de digitais, e um código surgiu na tela, liberando uma vasta extensão de títulos – e agora, todos esses arquivos estão acessíveis em qualquer sistema que você acesse. Apenas você. – virou-se na cadeira giratória, e mostrou a preciosa biblioteca escrita, cujo vidro se abrira – esses aqui também, embora eu peça que só os leia em meu escritório. Muitos dos volumes, se associados a mim, são motivo suficiente para uma execução.

— Lena... Eu nem sei o que dizer... – a confiança da outra emocionou a Jedi, que segurou os dedos finos e azuis em sua mão pequena – obrigada.

— Não me agradeça, ainda: apenas alguns estão em idioma Básico. Terá de aprender a ler em outras línguas e alfabetos.

— Sou boa decifrando códigos. – sorriu a moça – não será mais difícil do que entender um Wookie, com certeza.

— Wookie? – a Twi’lek riu – certo, se entende um desses, vai aprender a ler em quatro alfabetos antes do final do mês. – ela digitou algo que Rey não compreendeu, num idioma estranho – é claro que há os tradutores, mas pessoalmente sou adepta de aprender a linguagem, em vez de usar as vias mais fáceis. Conhecimento é sempre algo útil. – ela abriu um arquivo – sugiro que comece por este. O original não está em Básico, mas gerei uma tradução confiável no sistema. Fala sobre as origens da Ordem Jedi, sua filosofia, história, surgimento dos Sith... Um volume dedicado a cada temática. – ela adicionou outro arquivo – e este trata da criação de um sabre de luz. Consegue ler correntemente no idioma Básico?

— não muito rápido, mas leio fluentemente.

— Agilidade é apenas questão de treino. – ela fitou a amiga – Haverá menções a muitas guerras, conflitos, ordens e nomes que provavelmente lhe serão desconhecidos. Por favor, tire suas dúvidas comigo, pois usar o sistema de pesquisa da nave deixa um histórico de acesso que... Bom, apenas não criemos provas contra nós mesmas, certo?

— Ben irá descobrir, cedo ou tarde. Você sabe disso.

— Quanto mais tarde, melhor, pois mais você terá aprendido, e menos ele poderá corromper os ensinamentos. – ela segurou o próprio pescoço com um leve tremor, ainda que disfarçando o medo com humor – e mais tempo terei de vida.

— Não permitirei que ele a fira, Lena. – garantiu Rey – não permitirei que nenhum deles fira alguma de vocês.

— Fico grata por isso, menina, mas até você tem limites. – a diplomata respirou fundo – ah, sim, esse sistema é clandestino. Significa que não existe oficialmente nos registros, e só nós duas temos acesso.

— Você o criou? – perguntou Rey, lendo os títulos disponíveis.

— Conheço uma pessoa que conhece uma pessoa. – Eilenia Shan... Sempre cheia de segredos! – Resumidamente, este aqui não deixa rastro ao ser acessado, então nunca o deixe aberto diante de outras pessoas, e não nos descobrirão.

— Certo... – cada vez mais fascinada com tudo o que via, a Jedi hesitou antes de prosseguir – Posso fazer uma pergunta, talvez, indiscreta?

— Somos cúmplices no que creio se configurar um crime galáctico. Pergunte o que quiser. – A diplomata abriu uma segunda tela e começou a trabalhar em suas próprias obrigações.

— Como sabe de tudo isso? Digo... A Força, os Jedi, o Lado Sombrio?

A mulher de pele azul parou onde estava e cerrou os olhos, suspirando. Rey pensou que não responderia, mas enfim sua voz se fez ouvir, muito baixa:

— Minha avó era Jedi. Uma das poucas que sobreviveu à Ordem 66, dada por Darth Sidious há quase 60 anos; tinha acabado de concluir o treinamento, e se escondeu ao receber a mensagem de Obi-Wan Kenobi, alertando sobre o extermínio. Nenhum dos seus filhos ou netos nasceu com o dom da Força, ou se o fez, não foi de modo acentuado. Não houve aprendizes, para ela, mas nos contou o que sabia, e eu... Sempre quis saber mais. Busquei, li, aprendi tudo o que podia. Decidi que, se não havia nascido uma Jedi, ao menos conheceria tudo quanto havia para se saber sobre eles. – ela encarou Rey – parece que a Força entrelaçou nossos destinos muito antes de nascermos.

— A Força precisa deixar de ser poderosa e começar a ser sensata, não se abrindo a criaturas como Snoke ou Darth Sidious. – resmungou a Jedi, enquanto começava a ler o volume digital sugerido por Eilenia – e parar de me colocar em situações como a de agora... – ela desviou a atenção da tela – como eu vou ensinar duas meninas?! Mas, ao mesmo tempo, como podia dizer não?! Se a Força fosse uma pessoa, eu bateria em sua cabeça até começar a tomar decisões lógicas!

— Eu creio que isso seria um tipo de blasfêmia – riu-se a diplomata – acalme-se, Rey, e apenas confie. Você tem um dom para se meter em problemas, mas um igual para resolvê-los. Vai treinar essas meninas com sucesso, assim como sei que aprenderá depressa tudo o que tenho a lhe ensinar, e logo saberá muito mais do que eu.

— Sem você, eu provavelmente já estaria morta, nesta nave. – um suspiro longo – só posso agradecer.

— Sem você, eu estaria morta de tédio. Agradeço igualmente. E agora, por favor, preste atenção em sua leitura. Qualquer dúvida, estarei ao seu lado.

A Jedi sorriu e mergulhou sua atenção na história da Ordem. Era tudo muito mais complexo, fascinante e intrigante do que imaginara, e nunca na vida pensara que ler pudesse ser tão prazeroso. Nem mesmo percebeu que se alienara completamente do mundo, e que sua guardiã ria da absoluta atenção dedicada às palavras. Naquele segundo, tudo o que lhe importava era continuar, absorver todas aquelas informações e seguir adiante, curiosa, instigada e empolgada, como é próprio dos jovens ante o aprendizado de algo novo.

Quase uma hora se passou antes de a Jedi sentir um chamado sombrio em sua mente, indicando que seu esposo encontrava-se em um momento particularmente obscuro. Com um suspiro, voltou-se para Lena:

— O Líder Supremo chama...

— Precisa de reforços para lidar com ele? – perguntou a Twi’lek, desviando a atenção do que fazia.

— Não é uma boa ideia. Ele não está em seu melhor humor, depois de descobrir amotinados no alto comando...

— Se as coisas fugirem ao controle, mande me chamar. – orientou a diplomata.

— Se as coisas fugirem ao controle, a Primeira Ordem colapsa e a guerra civil se instala. – declarou a jovem – ou seja: não pode acontecer. Até as execuções dos insurretos, temos de manter o mais perfeito controle sobre tudo.

— A galáxia é um cilindro de plasma perto de cabos de ignição. Tenha cuidado, Jedi. – pediu Eilenia, enquanto Rey desativava o arquivo clandestino que usara para estudar. A outra não respondeu, mas olhou para a amiga e, anuindo, deu-lhe um breve sorriso forçado antes de deixar o escritório. Mais problemas para lidar... A Força não tinha piedade, quando se tratava de dar trabalho a uma Jedi!

*

— As execuções ocorrerão no átrio principal, em dois dias – informou Kylo Ren, fitando com desprezo os mais de trinta prisioneiros enquanto se dirigia à esposa.

— Então, tudo funcionou bem. Os líderes foram capturados, os movimentos serão sufocados e você se firmará como senhor incontestável da Primeira Ordem. – ela sabia que não era o caso, que havia muito mais, porém fingiu-se de desentendida, apenas para saber o quanto Ben descobrira.

— Serei? – perguntou ele, e parecia extremamente colérico – pois não se tratam de meros gananciosos em busca da poder. Não todos, pelo menos... – ele puxou um Bothano do meio do grupo e, jogando-o no chão, pisou em sua mão de modo a revelar a marca da Resistência, anteriormente oculta sob o pelo do prisioneiro, agora exposta após a incineração da pelagem castanha. Ele fitou Rey com profunda raiva, como se a esposa fosse a responsável por aquilo – um de seus amiguinhos da Resistência! Tem algo a dizer, senhora Solo?

Ela encarou o Bothan e o esposo alternadamente: imaginava que todos os membros da Resistência haveriam fugido ou morrido! Nem mesmo suspeitava de que houvesse algum ainda infiltrado em pleno destroyer estelar! Sua expressão de surpresa foi uma espécie de resposta para o Líder supremo, que prosseguiu:

— Bem, se não conhece este aqui, eu suponho que a morte dele não faça diferença para você – ergueu o sabre de luz para descê-lo sobre o prisioneiro, quando a Jedi entrou em sua frente e segurou sua mão, protegendo o Bothan com o próprio corpo.

— Não! – num ato impensado movido pela raiva, Kylo usou a Força para arremessar Rey de costas contra a parede. Ela caiu no chão, por um momento atordoada com o impacto, mas não levou nem mesmo um segundo para recuperar a presença de espírito e usar ela mesma a Força para empurrar o Líder Supremo abruptamente, derrubando-o. O tempo que usou para se levantar foi mais do que suficiente para a esposa se colocar entre ele e o Bothan, ante os olhos perplexos de todos os presentes, que não sabiam se podiam ou não interferir. Um pouco mais ousado, o Conselheiro Kahso atreveu-se a apontar um blaster para a Jedi, mas a voz do Líder Supremo o alcançou com a ferocidade de um Zagarryano:

— AFASTE-SE DELA! – ele caminhou com sabre em punho até Rey, que permaneceu firme no lugar, recusando-se a desembainhar seu próprio sabre – a Primeira Dama é assunto meu. – a mão enluvada agarrou-a pelos cabelos e a obrigou a fitar o prisioneiro rebelde – o que tem a dizer sobre isso, Jedi? Você me afronta por essa escória, diante de todos os comandados! O que devo fazer, além de executá-la como traidora, também?

— Concedeu vida a todos os membros da Resistência, Líder Supremo – disse ela, impassível – exílio na Orla Exterior. E o senhor de toda a galáxia tem sua palavra como sua fiança. – ela o encarou audazmente – ou a palavra de um imperador já não vale nada?

— Você não sabe quando parar de falar – ele a soltou, e a jovem se virou defensivamente na direção do Líder Supremo, que se dirigiu aos demais – entretanto, a Primeira Dama tem razão em um aspecto: eu dei minha palavra, e minha palavra é irrevogável. – ele fitou o Bothano, assim como dois outros espiões infiltrados, chutando-o com selvageria que fez a criatura ganir quando algumas costelas se partiram – decepem a mão direita e a língua de todos os membros da resistência encontrados nesta nave, e os libertem em cápsulas de evacuação rumo à Orla exterior. Enviem-nos a Leia Organa, como um lembrete do que acontece aos que me desafiam.

— Lorde Ren – Rey começou a dizer algo, mas ele a fuzilou com os olhos e declarou:

— A menos que pretenda juntar-se a eles, não dirá mais uma só palavra, Jedi. Agradeça por eu poupar não apenas a vida deles, mas a sua também, e unicamente por ser minha esposa. – voltou-se para os comandados – estão surdos, ou apenas desejam se juntar aos prisioneiros nas celas e execuções? Eu já dei minhas ordens.

Enquanto os prisioneiros eram levados, o Mestre dos Cavaleiros de Ren segurou sua esposa pelo braço e a puxou consigo para a sala de comando; assim que a porta se fechou atrás de ambos, ele a soltou e perguntou com misto de raiva e preocupação:

— Está tentando se matar, garota?! Eu poderia tê-la matado! Do mesmo modo que a lancei para longe, você poderia não ter conseguido segurar minha mão, e sido ferida! – ele a segurou pelos ombros com força suficiente para Rey não poder escapar – qual é seu problema?!

— Achou que eu ia ficar parada, vendo-o matar alguém a sangue-frio?!

— Não pareceu chocada quando matei os Umbaranos, ou quando dei a ordem para destruírem os desertores. – os olhos negros pareciam desprender labaredas – ou apenas interveio porque ia matar seus amiguinhos rebeldes?!

— Eu interferi para salvar uma vida! – protestou a Jedi – mesmo se eles fossem condenados à execução, eu não poderia permitir que se desse daquele modo! E você PROMETEU poupar a vida dos membros da Resistência! Deu sua PALAVRA!

— Em relação aos malditos a bordo das cápsulas de fuga! Não em relação a rebeldes infiltrados em MEU comando, sabotadores e espiões! Agora, graças a uma adolescente que não mede os próprios atos, pareço incapaz de controlar até mesmo minha esposa de dezenove anos! Quanto mais um império! – ele bateu com ambos os punhos na parede, sua melhor alternativa a golpear a esposa, o que certamente resultaria num duelo até a morte... Um pouco menos furioso, sua mente clareou e soube como poderia afetá-la – ainda assim, sua insensatez funcionou bem, de outra forma: membros infiltrados da Resistência saberão que não me é submissa, que resiste e está a favor dos rebeldes. Virão até você. Irão procura-la.

Rey sabia que Kylo pretendia tirar-lhe a razão e lucidez, coloca-la em xeque para que tomasse uma decisão precipitada ou se submetesse por medo de comprometer os rebeldes, mas não se deixou pegar de surpresa:

— É claro que irão me procurar, e isso será algo que pode fortalecê-lo, Ben. Mas não destruindo-os: não percebe que a Resistência pode ser sua aliada? – a moça andava pelo aposento desconfortavelmente pouco iluminado – se pudermos mostrar a eles o caos que a galáxia se tornaria, caso a Primeira Ordem se desfizesse hoje, e a estabilidade que o seu comando pode trazer, eu sei que nos apoiariam.

— E o que você sugere? – ele a fitou com misto de irritação e ironia – mandar uma carta? “Saudações, General Organa, remeto-lhe esta mensagem a fim de pôr termo a nosso passado de hostilidades e combinar nossas forças na dominação da galáxia. Creio que considerará meus termos ao perceber que meu governo trará ordem e estabilidade. A propósito, espero que o incidente envolvendo a morte de seu esposo tenha sido esquecido. Atenciosamente, Kylo Ren, Líder Supremo da Primeira Ordem, Mestre dos Cavaleiros de Ren.” – ele deu um riso sarcástico e totalmente desprovido de humor – você é tão ingênua assim, ou apenas ilude a si mesma?

— Não estou me iludindo! – insistiu a Jedi – Leia é razoável e racional: uma boa argumentação poderia convencê-la!

— Talvez de sua parte! – exclamou o homem, perdendo novamente a paciência – ou já se esqueceu do pequeno problema diplomático em que consiste o fato de eu ter matado Han Solo, o qual, por acaso, era marido dela?!

— Ela é sua mãe, Ben! – exclamou Rey, e de repente os olhos do moço se tornaram ainda mais negros, com uma faísca de pura fúria em seu interior:

— Não. Repita. Isso. – uma aura escura o cercava, tornando o ambiente ainda mais sombrio.

— Não repetir a verdade? – ela não se deixou intimidar — Você sabe que estou certa. Sabe que ela quer poder consertar as coisas... E se isso for uma chance? Uma chance para acabar não apenas com a cisão na galáxia, mas também nos laços entre vocês!

— Não tente me chantagear com questões familiares, Rey Solo! – seu tom de voz parecia capaz de desabar o teto da nave — esse passado eu enterrei fundo o bastante para não me afetar. – o cavaleiro respirou fundo e se conteve antes de prosseguir – mas, se quiser insistir nessa tentativa frustrada, sinta-se à vontade. Fale com o Bothan, com a Cereana ou qualquer dos outros rebeldes. Tente convencê-los. Peça ajuda a Eilenia, se precisar. Agora eu lhe pergunto: o que os rebeldes poderiam fazer por nós? O que um bando de refugiados desorganizados e sem recursos pode fazer por um império que abarca toda uma galáxia?

— Manter a paz na Orla Exterior. – a resposta veio rápida – acabar com a escravidão e as lutas locais pelo controle de recursos, sistemas menores e rotas de comércio, além de combater os mercados clandestinos. Colocar ordem em regiões que sempre foram desprezadas, e nas quais se assentam todos os dissidentes, insurretos, desordeiros... Lugares sem lei são refúgios para todos que possam querer derrubá-lo, e também a fonte de grande parte do caos que sempre existiu. Se a Resistência puder fazer algo a respeito...

— Entendo sua linha de raciocínio. – o Líder Supremo já estava mais calmo — Mas Leia Organa não é uma pessoa fácil de negociar. Ela poderia convencer um Aqualish de que ele é um Wookie, com apenas algumas palavras.

— Hm, alguém poderia ter herdado essa habilidade diplomática – sussurrou Rey, consigo mesma – ou, no mínimo, tentado aprender.

— Eu ouvi isso, Jedi. – rosnou o Sith. Ela o irritava de propósito, ou simplesmente não conseguia controlar a própria boca?

— Apenas um comentário – rebateu a moça, dando de ombros, antes de se encostar à parede junto à porta, o mais longe possível da cadeira de espaldar alto onde Snoke um dia se sentara enquanto a torturava. Não contara a Ben, e talvez nunca contasse, mas ainda estremecia ao se lembrar daquilo. Para fugir aos pensamentos desnecessários e irrelevantes, começou a girar o sabre de luz entre os dedos – falarei com os prisioneiros e enviarei uma mensagem à General. Tomara que suas estúpidas ordens de mutilação não a deixem ainda menos disposta a colaborar – ela se levantou e foi até o esposo, ficando frente a frente com ele. Ainda estava zangada, mas já não tanto – será que algum dia iremos nos entender, Ben?

— Eu espero que sim... Com o tempo. – respondeu ele, passando os dedos timidamente pelo rosto da menina – com a paciência que nenhum de nós tem, hoje. Eu sei que quer ajudar, Rey, e que está procurando a melhor forma de fazer isso sem violar seus princípios. É admirável, mas não se frustre se for inútil. Sua honra Jedi não tem lugar neste mundo... Apega-se a algo que está morto há tempo demais. A ideais que você é a única a seguir, agora.

— Então, talvez eu precise criar um lugar para minha “honra Jedi”. – respondeu a moça, segurando a mão do Líder Supremo – ainda não confia em mim, Ben... Ainda tem medo de que eu o traia. — ela ergueu a mão e a pousou suavemente sobre o rosto dele, seguindo a linha da cicatriz que causara – Se algum dia eu for obrigada a me virar contra você, não será por suas costas, mas de modo claro e honesto. – ela o fez baixar a cabeça para encostar suas frontes. A tormenta dentro de ambos se aplacava, as sombras dele se abrandando como um suave manto noturno sobre o casal, o fogo ardente na alma dela tornando-se apenas um suave calor que os envolvia – e eu desejo que esse dia nunca chegue. Sei que também está tentando... Que de algum modo, faz o que pensa ser o certo, mesmo que enxerguemos “certo” como coisas diferentes.

Ele respirou fundo e abraçou a Jedi, estreitando-a por alguns segundos contra si antes de soltá-la:

— Faça o que deseja. Talvez Leia Organa a escute, e o pior que se pode obter é uma resposta negativa. Enquanto isso, terminarei de lidar com meus comandados e os amotinados.

— quais eram os envolvidos? – pela Força, eles realmente não podiam ser normais... Passavam da fúria absoluta à cumplicidade em alguns momentos, e sequer havia algum ressentimento entre ambos pelos ataques mútuos de minutos atrás...

— seis facções: dois Cavaleiros de Ren, dois militares, um rebelde e um conselheiro.

— Espero que não se tenha espalhado demais...

— Depois da destruição dos desertores, e do que foi feito aos Umbaranos, muitos dos seguidores desistiram. Ficaremos alertas, pois é certo que esperarão a poeira baixar até acharem que já não esperamos uma revolta, para então começarem a agir novamente. – ele se sentou na cadeira um dia pertencente a Snoke – não existe descanso no exercício do poder.

— Sério? Mal havia reparado – ironizou ela – Certo... Ambos temos coisas a fazer. – ela ia deixar a sala de comando quando a mão do esposo pousou em seu ombro, impedindo-a de avançar e virando-a para si. Sem nada dizer, ele a fitou com misto de apreensão e preocupação, e assim ficou por longos segundos antes de se manifestar:

— O que faço com você, mulher?

— Eu me faço essa pergunta sobre você, todos os dias. – ela mordeu os lábios, um pouco tensa – Eu não vou traí-lo. Tenha isso em sua mente.

— Sei disso. O que não significa que não seja uma ameaça maior do que qualquer facção rival, simplesmente por tudo o que representa... Ao mesmo tempo, é minha melhor aliada, a única pessoa em quem posso confiar... A única que resiste a mim, e ao mesmo tempo apoia-me. O que pretende com isso?

— Fazer o que é certo – respondeu a Jedi – E antes que me pergunte, eu não planejo nada; não tenho muita ideia do que estou fazendo, na maioria das vezes, até já ter feito. Sigo meus instintos.

— Os mesmos que a trouxeram até Snoke? – a alfinetada não passou despercebida a ela, que franziu o cenho e se controlou para não chutá-lo em uma parte bastante sensível da anatomia masculina:

— Os mesmos que me trouxeram até VOCÊ, seu idiota. Agora, se já terminou de despejar a enxurrada de sarcasmo, ambos temos coisas a fazer. Eu preciso lidar com rebeldes feridos e desconfiados, e você... Tem pessoas para aterrorizar.

E mais uma vez, a Jedi conseguia tirar qualquer autocontrole do Sith. Parecia mesmo uma competição sobre quem conseguia desarmar os escudos emocionais do outro, primeiro! Mas ele não a deixaria sair vitoriosa, mesmo se tivesse de apelar a algo especialmente baixo de se fazer.

— Você se esconde atrás dessa máscara de raiva para esconder a verdade, Jedi.

— A verdade? E qual seria? – ela não estava nem um pouco satisfeita com aquele esgar malicioso no rosto do marido... Não significava nada bom, com certeza!

— Está lutando com todas as suas forças porque, em seu íntimo, quer se render. Quer dobrar esse orgulho irritante e estar verdadeiramente ao meu lado, de todas as formas. Isso a aterroriza, e procura me irritar para me afastar. – ele se aproximou até seus rostos estarem a centímetros um do outro – diga que minto, se estiver enganado, mas faça-o olhando em meus olhos.

— Está. Enganado. – o olhar castanho sustentou firmemente o dele – eu não tenho medo de você, nem de meus sentimentos, e muito menos sinto-me inclinada a... – ele a silenciou com um beijo voraz, ao qual a garota resistiu, a princípio, mas acabou por se render, ao menos por alguns segundos. Enlaçou-o pelo pescoço e retribuiu calorosamente, até perceber o modo como caíra pateticamente no jogo de sedução do homem! Furiosa, empurrou-o para trás com uma torrente de xingamentos, ainda mais brava ao ver o sorriso triunfante de Kylo Ren. – Desgraçado, filho de uma... – ela conteve o xingamento ao se lembrar que o esposo era filho de Leia, e sibilou – isso foi baixo demais, até mesmo para você.

— Diga que não gostou, Primeira Dama. – ainda aquele ar de superioridade e arrogância! AH! Como queria arrancar aquela expressão de seu rosto com um chute estratégico! – ou devo trata-la por “Alteza”?

— Não era assim que Han Solo chamava Leia Organa? – um palpite rápido, que acertou em cheio: o sorriso de Kylo desapareceu numa carranca de mau-humor – certo, Majestade. Já que chegamos a um acordo quanto aos rebeldes, tenho mais o que fazer. Tenha um bom dia.

Separaram-se, ambos com misto de raiva e indignação, embora houvesse algo mais... Alívio em saber que podiam discutir daquele modo, e ainda assim permanecer firmes aliados, ao menos quando a ameaça era externa. Rey não se esqueceria de como ele a defendera veementemente do Togruta, enquanto Ben tinha em seus pensamentos o modo como a Jedi, mesmo sem concordar com seus métodos, procurava ajuda-lo a garantir o controle sobre a galáxia. Aliados estranhos, improváveis e explosivos, mas fieis um ao outro. E havia nisso algo de profundamente reconfortante.

*

— Mestre – começou a Conselheira Puuan – com todo o respeito, permita-me manifestar minhas dúvidas acerca da lealdade de sua esposa. Ela parece muito apegada aos amigos da Resistência.

— Ela o é, de fato, Conselheira – ele acabara de se dirigir aos sete Cavaleiros de Ren remanescentes, passando ordens e orientações acerca das ações para os próximos dias – Entretanto, Jedi ou não, é só uma menina. Não vai me trair: está completa e tolamente apaixonada, fiel a mim como um animal adestrado. – uma mentira deslavada, mas necessária: não podia passar aos demais a impressão de que uma sabotagem viria de dentro do próprio alto comando — Ela irá contatar os rebeldes, com certeza, e isso nos dará enorme vantagem: saberemos onde montaram sua nova base e, por intermédio da Primeira Dama, tomaremos ciência das intenções deles.

— Irão recusar ajuda, isso é óbvio. – manifestou-se Acad, um Rattataki jovem e especialmente belicoso, de pele branco-pérola e tatuagens azuis na cabeça descoberta.

— Eu aprendi a não subestimar as capacidades dessa padawan para obter o que quer. – Kylo Ren parecia confiante e despreocupado, sequer parecendo que não tinha em suas palavras metade da confiança aparentada – a General Organa confia na Jedi... Não seria um absurdo pensar que, talvez, possa aliar-se a ela.

— Vão tentar volta-la contra o senhor, Mestre – constatou Kahso – convencê-la a traí-lo, a enfraquecer seu poder. Agirão a mando dela, não seu...

— Tentarão, e falharão estrondosamente. Ao mesmo tempo, se pensarem que podem obter alguma vantagem manipulando a Primeira Dama, eles o farão... Mas eu mesmo farei dela o meu peão dentro da Resistência, sem deixa-la saber. – mais uma mentira: Rey provavelmente já conhecia suas intenções.

— Como, Mestre? Como forçar uma Jedi a algo com o qual não concorda? – Niaka era uma Mirialan com mais tatuagens do que se podia contar na pele verde-amarelada, e possuía um talento excepcional para seguir rastros, mesmo nos recantos mais vazios dos cosmos, graças a uma especial sensibilidade às alterações mais sutis na Força.

— Ela concordará. Apenas preciso fazê-la ver as coisas pelo ângulo certo, e deixar que interprete precipitadamente. – ele esboçou um sorriso de cruel satisfação – nesse exato momento, ela certamente planeja cuidadosamente como me manipular a seu favor. Deixarei que creia ter obtido sucesso, ao menos por hora, e utilizarei suas habilidades quando o momento oportuno surgir. Conto com cada um de vocês para cumprir seus papéis, garantindo que nada nesta galáxia aconteça sem meu conhecimento, ou autorização. Enviem os emissários, equipem os destroieres e interceptores. Rumamos para Rakata Prime, e tudo deve estar preparado quando pousarmos em nossa base. E lembrem-se: se algo acontecer à Jedi, o responsável será punido como se atentasse contra MINHA vida. Essa mulher é uma peça crucial em meus planos e, se prezam as próprias integridades físicas e mentais, garantirão que nada de mal lhe ocorra. – ele sabia em seu íntimo que esta era apenas uma desculpa para si mesmo e para os demais, a fim de não demonstrar fraqueza.

— Sim, Mestre – disseram as sete vozes, enquanto seus donos se curvavam. Havia muito a ser feito... Muito em breve, Kylo Ren não seria apenas o Líder Supremo da Primeira Ordem, mas o Imperador incontestado de toda a galáxia. Seu império estava prestes a começar, e Rey o estava ajudando de mais maneiras do que ela mesma podia imaginar. No momento, certamente estaria com Eilenia, imaginando como transformar a conversão da galáxia em um império num recurso que lhe permitisse alcançar sua subjetiva meta de restabelecer o Equilíbrio; talvez se ocupasse, também, de estratégias que convencessem a Resistência a não se tornar um obstáculo à consolidação de tal império. Ah, Rey... Mesmo com métodos tão opostos, eram muito mais similares do que podia parecer.

*

— E então? – perguntou Eilenia, curiosa acerca dos resultados obtidos na conversa com a Cereana prisioneira, a única que não fora privada de sua língua, a fim de poder transmitir a mensagem do Líder Supremo a Leia Organa.

— Pensei que as últimas quatro horas teriam sido um imenso desperdício de tempo, mas finalmente ela concordou em levar minha mensagem a Leia. Você ter entrado e mostrado a ela sua insígnia da Resistência foi o argumento mais convincente, a prova de que precisava para confiar em nós. Obrigada pela ajuda.

— Pensei que o comunicador que a General lhe deu possibilitaria o contato.

— Apenas quando eu o inicio. Leia precisa poder me contatar quando for necessário. – a Jedi pegou o microchip de memória que anexaria ao motor da cápsula de evasão, o qual Liajha, a prisioneira com a qual conversara longamente, explicando prós e contras de seu plano, removeria ao chegar a seu destino final: um planeta desabitado na Orla Exterior, a partir do qual poderiam contatar os rebeldes remanescentes. Apenas por precaução, Rey já utilizara seu comunicador para avisar Leia Organa sobre o terrível ocorrido no destroyer estelar, sobre as questionáveis decisões de Kylo Ren e, principalmente, a respeito da rota prevista para as cápsulas nas quais os prisioneiros seriam embarcados. A preocupação da General fora clara, mas o risco de ser ouvida fizera Rey prometer entrar em contato posteriormente, tão logo tivesse mais informações.

— O Líder Supremo vai estrangulá-la lentamente, se descobrir isso...

— Aposto que ele já sabe. Sabia que eu enviaria uma mensagem a Leia, e tinha conhecimento de meu comunicador, eu creio. A menos que seja estúpido, somou dois e dois. – a humana tentava se manter firme e não pensar na horrível punição dada ao rebeldes. Sentia-se culpada, mas nada havia que pudesse ter feito de forma diferente... Pelo menos não com resultados melhores. Ela apenas esperava com todas as suas forças que sua argumentação fosse lógica e firme o suficiente para convencer os exilados.

— está assumindo um risco enorme com esse jogo, Rey. Kylo Ren não é um peão que se manipule facilmente.

— Eu não quero manipulá-lo, Lena – ela reconsiderou – bem, talvez um pouco, mas não de um modo ruim. Quero fazê-lo enxergar... – a Jedi suspirou e deixou-se cair na poltrona do escritório, exausta – não somos inimigos, e conhecemos um ao outro... Neste exato momento, Ben deve estar imaginando formas pelas quais os rebeldes tentarão me voltar contra ele, planejando como me fazer ver as coisas de um modo que lhe seja conveniente e, em último caso, preparando modos de destruir os remanescentes da Resistência.

— E ainda assim, você quer ajuda-lo. – ponderou Lena – O que está planejando, Rey?

— Não posso mudar quem meu esposo é, então preciso encontrar um jeito de usar isso a meu favor. Ele quer dominar a galáxia como um imperador? Ótimo, um império trará a estabilidade de que a galáxia precisa. Se as guerras internas cessarem, teremos um pouco de paz para... – ela pensou em Asala e Brenwen – aprender e decidir o próximo passo.

— Então, sem mudanças no plano original.

— Sem mudanças no objetivo original – corrigiu a humana — mas a estrada se tornou um pouco mais complicada, com essas punições. – a Jedi mordeu o lábio nervosamente – agora, precisamos convencer a Resistência, ou eles mesmos serão o obstáculo à paz que almejam.

Eilenia tamborilava os dedos em sua mesa, pensando em um milhão de coisas ao mesmo tempo.

— Então, deixe-me ver se eu entendi essa bizarra e complexa relação de vocês: são rivais e aliados, ao mesmo tempo. Estão usando um ao outro como elementos de seus próprios planos... Sabem que o outro trama algo que desconhecem, mas mantêm uma confiança mútua de que não haverá traição, ainda que eventualmente possam discordar quanto à natureza dos resultados... – A Twi’lek riu e apoiou a cabeça na mão – e eu achava a política uma coisa complicada.

As moças sorriram uma para a outra com cumplicidade: sim, tudo ficava mais e mais complexo, especialmente a estranha relação entre o sombrio Líder Supremo e sua radiante Primeira Dama. Entretanto, essa complexidade parecia capaz de leva-los a algum lugar, se pudessem superar os ressentimentos e mágoas deixados pelas constantes rusgas e apenas trabalhar juntos, confiando um no outro tanto quanto fosse possível.

— Espero algum dia conseguir compreendê-la, Rey Solo – declarou Shan – sua lógica não faz nenhum sentido, para mim, e o que faz menos sentido ainda é o modo como parece funcionar tão bem. – a diplomata se levantou, ansiosa demais para permanecer sentada – se não resolvermos essa questão, logo, Lorde Ren destruirá toda a Orla Exterior, apenas para garantir sua posição no poder. É melhor conseguirmos, senhorita Jedi.

— Vamos conseguir. – afirmou a moça, com profunda certeza no que dizia – confie em mim, Lena. Quando ouvirem minha mensagem, eu sei que ficarão ao nosso lado.

— Que a Força esteja conosco. – desejou a Twi’lek.

Notas finais
E então? Mereço Reviews? Beijos enormes a todos os que leram, e peço perdão se houver algum erro, se algo ficou confuso ou se o capítulo deixou algo a desejar. Sendo esse o caso, avisem-me e farei uma revisão, ok? Beijos, e que a Força esteja conosco!