Rise of Jedi
10 O rumo certo
Notas iniciais
Finalmente sozinha, Rey se encolheu contra a parede do quarto que, agora, também era seu – mudar-se para os aposentos do esposo era algo estranho, ainda que de algum modo reconfortante – e abraçou o próprio corpo, escorregando lentamente até se sentar no chão, pernas dobradas, olhos cerrados com força. Descruzou os braços e segurou a cabeça com ambas as mãos, contendo a angústia que a acossava violentamente, disparando seu coração, secando sua boca e tornando sua respiração curta e rápida. Sentia-se esmagada pelas circunstâncias, sem saída verdadeira para a armadilha que se fechara sobre si. O que estava pensando ao achar que poderia lidar com Kylo Ren, ser uma Jedi, convencer o Líder Supremo a não iniciar um governo de terror? A mutilação e tortura dos prisioneiros rebeldes fora, para ela, um banho de água fria a despertá-la de toda e qualquer ilusão! Sentia-se horrorizada, com raiva de Ben, apiedada das nove vítimas infelizes e, acima de tudo, com raiva de si mesma por ter estado tão... Impotente! Ela era uma Jedi! Não podia estar impotente! Devia ter lutado mais, encontrado uma forma... Salvara-lhes a vida, é certo, mas não era o bastante. E se não conseguira lidar com aquela situação, como poderia desfazer o emaranhado nó de atribuições e responsabilidades assumidas? Como levar adiante aquele simulacro de plano que montara em sua mente?! Até pouco tempo atrás, forçava-se a manter a confiança, mas todos podiam vacilar em algum momento e... Bom, aquele era o seu. O chão parecia faltar a seus pés, e sentia ter falhado miseravelmente, sem saber para onde seguir nas inúmeras ramificações de sua “estratégia”.
— O que eu estou fazendo? – perguntou a si mesma, censurando-se por ter-se deixado enredar naquelas tramas. Não a angustiava ter decidido ficar ao lado de Ben, mesmo porque a alternativa teria resultado na dizimação da Resistência, mas percebia o quão inexperiente era em tudo aquilo, e ao estar enfim sozinha, tudo parecia desabar. Não se sentia pronta. Sabia o que precisava fazer: impedir que a Resistência entrasse em choque com o governo de Kylo Ren, conter as trevas e ira de seu marido para que essas não se espalhassem por toda a galáxia num reinado tirânico, proteger e treinar duas meninas que, provavelmente, possuíam mais conhecimento sobre aquele mundo de política do que ela... E ainda aprender a ser uma verdadeira Jedi. Mas como fazer isso, já não sabia. Pensara ter algum controle sobre a situação, mas a mutilação dos rebeldes, mais cedo, mostrara a verdade: era Lorde Ren quem realmente detinha o poder, e ela ainda não possuía sutileza suficiente para manipulá-lo de modo a impedir tais crueldades de serem perpetradas. – Rey, sua idiota... Tomou decisões baseadas apenas em seu coração, e agora não consegue lidar com o quadro que desenhou.
Pegou dentro do bolso o pequeno caderno e a pena digital que Eilenia lhe dera, dizendo ser algo útil para organizar pensamentos, e decidiu utilizá-los: se fosse útil, melhor... Se não, ao menos não pioraria o modo como se sentia. Abriu na primeira página e escreveu nas letras irregulares de alguém que pouco exercitara aquela habilidade:
“prioridades”
Lembrava-se do que Anakin Skywalker lhe dissera, sobre definir prioridades, e sabia que sua angústia resultara de tentar fazer várias coisas ao mesmo tempo, dando a todas o mesmo valor. Assim, quase nenhuma saíra como planejado... Abaixo de “prioridades”, continuou:
“Treinamento Jedi” – este era o principal, pois dizia respeito ao que verdadeiramente era. Precisava fazer daquilo seu norte e guia – como vinha fazendo, ainda que de modo um pouco confuso – para não ser envolvida e desviada do caminho pelas ações tortuosas do que a rodeavam... Principalmente do homem que era seu amor e maior ameaça ao caminho diante de si.
“Manter a paz à buscar o equilíbrio” – sabia que ajudar Kylo Ren na confirmação de seu domínio sobre a galáxia era arriscado por um simples motivo: para ele, tudo se daria através da força e do medo. Ele não se importaria em matar bilhões ou mesmo trilhões, apenas para garantir seu poder. Controlá-lo era algo que não podia fazer sozinha, não porque não conseguisse lidar com o lorde Sith – este ela cria conhecer razoavelmente bem, e melhor ainda o homem que se ocultava sob tal máscara — mas porque não sabia como lidar com o Imperador – uma face nova, mais poderosa e cruel. Nisso teria a ajuda de Eilenia, mas cada atitude teria de ser cuidadosamente medida... O que a levava ao próximo item:
“General Leia Organa à negociações” – não acreditava que Leia aceitaria trabalhar com a Primeira Ordem, mas sabia que poderia convencê-la a agir, ao menos por hora, em favor da estabilidade. Se a Resistência pudesse sufocar pacificamente as querelas e escaramuças da Orla Exterior, o império de Kylo Ren teria menos motivos e lugares sobre os quais enviar suas tropas... Ela se lembrava dos eventos da Base Starkiller, e de como o último bastião da Nova República caíra com a destruição de Nova Prime... O evento teria aterrorizado os que se opunham à Primeira Ordem, e esta lembrança perduraria ainda algum tempo... Mas logo os opositores fariam dessa memória o estandarte de uma causa pela liberdade, e dos mortos verdadeiros mártires. A guerra recomeçaria... Isso não podia ser impedido, mas talvez houvesse como redirecionar os ânimos revolucionários e... Como fora que Lena dissera? Nem toda batalha era travada com blaster e sabres de luz. Talvez os movimentos libertários pudessem adquirir caráter diplomático e político, em vez de se converterem em guerrilhas e revoltas que não fariam senão provocar mais e mais mortes. Isso, porém, estava muito além de suas capacidades. Precisaria da ajuda de Leia Organa.
“Brenwen e Asala” – as meninas eram uma grande preocupação, mas não a inquietavam verdadeiramente por um motivo: sabia que não estava sozinha. Confiava nos Mestres da Força, e sabia que a ajudariam a fazer o que era preciso. Ainda assim, não confiava nem um pouco nos Cavaleiros de Ren, e jurara manter as jovens a salvo. Como fazer isso? Tinha algumas ideias, mas precisaria aprimorá-las.
Finalmente, traçou uma última linha:
“Ben Solo. Meu esposo. Meu rival. Meu amado.” – Amor... O sentimento mais improvável e ilógico do mundo. Amava Ben Solo com todas as suas forças, tanto quanto nutria forte antagonismo em relação a Kylo Ren; sendo eles a mesma pessoa, precisaria de muita paciência e lucidez para conseguir lidar com tal relacionamento, mas sentia que poderia dar certo. Cada fibra de seu ser tinha certeza de uma coisa: ela e Ben Solo tinham algo a cumprir. Algo que só poderiam realizar juntos, e por isso a Força interligara seus destinos; por isso ligava mesmo suas habilidades, garantindo que um não conseguisse superar o outro. Mas por quê?
Leu e releu suas anotações, as impressões e ideias sobre cada tópico, sorrindo ao perceber como escrever ajudara a acalmar sua mente e coração. Fechou o caderninho, guardou-o novamente em seu bolso e cruzou as pernas, pousando as mãos nos joelhos para meditar. Dessa vez não se deixaria entrar em transe: manteve o foco na própria respiração, estendendo sua consciência para dentro de si mesma, ao mesmo tempo em que a estendia para o exterior. A mesma força que vibrava em seu âmago era a Força que nutria e mantinha o Universo, e sua mente a captava como uma sensação, um som baixo demais para ser ouvido senão com as profundezas da mente, um brilho suave que se mesclava a nuvens de sombras. Luz e Trevas. Sempre em equilíbrio.
Os sentimentos se foram, restando apenas a paz; Rey abriu os olhos e observou o entorno do quarto, sentindo cada objeto ali dentro, as engrenagens que faziam funcionar os mecanismos de configuração do espaço. Expandiu mais sua consciência, e já podia captar os espaços adjacentes, o suave burburinho das mentes dos que iam e vinham no andar, alheios à Jedi. Relaxando um pouco mais, era capaz de ver flashes de imagens ao mesmo tempo em que sentia o que acontecia. Continuou o processo até abarcar uma área equivalente à ilha de Ach-To, satisfeita ao constatar que conseguia captar mesmo os detalhes de tudo o que acontecia concomitantemente. Expandir mais foi um pouco mais difícil, mas descobriu que, uma vez superado o limite que cria existir – limite este presente apenas em sua mente – sua percepção parecia expandir-se sozinha, abarcando mais e mais do entorno... Foi apenas ao sentir as mentes de dois Cavaleiros de Ren – estas lhe surgiram como duas flamas vermelhas e negras extremamente desagradáveis – que ela se retraiu, mais por prudência do que por medo. A curiosidade a impelia a continuar, descobrir até onde poderia ir, mas a prudência falou mais alto, dessa vez. Já fizera coisas demais por impulso, e isso a pusera em uma situação bastante difícil. Não podia cometer mais erros por não pensar antes de agir.
Recuou e, com mente mais lúcida, analisou novamente os fatos. Tinha certeza de algumas coisas, apenas: não tinha conhecimento ou experiência para realizar sozinha as complexas manobras políticas. E apenas Eilenia não poderia fazer tudo... Em verdade, precisava urgentemente falar com Leia Organa, não apenas sobre a questão da Resistência, mas sobre o panorama politico do presente e futuro próximo, pois não havia pessoa mais indicada do que a General para aconselhá-la – sabia disso após ler na última hora várias menções à atuação da princesa na destruição do Império e nas tentativas de estabilizar a Nova República. Era seguro dizer que, sem Leia Organa, não teria havido Nova República, e a Jedi precisaria muito de sua orientação. Sabia, também, que precisaria aprofundar sua relação de confiança com Ben... Não podiam continuar tomando decisões estando alheios aos planos um do outro... Precisava fazê-lo confiar em si, até mesmo para ser ouvida e poder impedir ao máximo que o esposo tomasse decisões cruéis que espalhassem dor e sofrimento pela galáxia. Também compreendia que representava mais do que uma mera aliada de Kylo Ren: ela era sua esposa, alguém que o amava, e que podia ajuda-lo a serenar a tormenta em seu interior, a descobrir quem era o verdadeiro homem, por detrás da persona criada sob o domínio de Snoke. Precisavam um do outro. Estavam unidos de um modo muito mais poderoso do que qualquer casamento poderia garantir, um elo que não podia explicar, mas não menos real por isso.
Voltando a prestar atenção em seu próprio corpo, descruzou as pernas e se levantou; a dolorosa angústia de antes havia desaparecido, substituída por calma e determinação. Foi até o criado mudo onde deixara guardada a esfera de vidro dada a ela por Anakin Skywalker e a girou nas mãos, curiosa... Branca e Nega... Luz e Trevas. Opaca em quase todos os ângulos, exceto quando observava apenas o hemisfério de cor única... Ao olhar de uma posição em que a esfera parecesse completamente negra, esta se tornava translúcida, e era possível ver o branco do outro lado. Vendo-se o hemisfério branco, este era transparente e deixava ver o negrume atrás de si. Fez a esfera flutuar sobre sua palma, virando-a para um lado e para outro apenas com o pensamento: opaca por todos os lados, menos nas extremidades. Opacidade, transparência... De quase todos os ângulos, branco e preto eram distintos e tinham limites definidos... Mas quando imergia em uma das cores, automaticamente era levada a ver a segunda. Imersa em uma delas, percebia que estavam unidas e eram... Uma coisa só!
Um sorriso delicado espalhou-se no rosto da Jedi, que guardou o objeto e sussurrou:
— Obrigada, mestre Anakin. Entendi o que quis dizer. – sentou-se na cama, cansada após quase dois dias sem fechar os olhos, e sentiu o perfume de Ben. Passando a mão sobre as cobertas macias, sussurrou como se ele estivesse ali:
— Não somos inimigos, Ben. Não precisamos ser, nem temos de deixar para trás aquilo em que acreditamos, ou mudar nossa essência... Precisamos apenas saber o que realmente somos, e encontraremos um meio. Juntos. – não conseguiu conter um breve sorriso, pensando no homem que ele se tornava quando estavam sozinhos. O verdadeiro Ben Solo, o homem a quem amava: obscuro e sombrio, mas não cruel. Um homem que possuía tanta luz quanto ela possuía trevas.
Olhou para a porta, desejando vê-lo entrar e deixar para trás a máscara de Kylo Ren, para que pudessem falar sem hostilidades, mas sabia que isso ainda demoraria. Assim, tomou um revigorante banho, trocou de roupas – os droides não haviam deixado passar absolutamente nada! – colocando túnica e calças brancas, estola e sapatos cinza, o sabre de luz preso ao cinto, indo para o refeitório a fim de ter a refeição da noite.
Encontrou-se com Durgard Teff e as esquipes de engenharia, que a receberam com empolgação e abriram espaço para a moça entre os membros do grupo. Fizeram indagações acerca do que estava acontecendo, se realmente haviam ocorrido tentativas de levante, ao que a moça respondeu do modo mais esquivo possível, afirmando que fora um problema breve e já resolvido. Não era uma mentira, ainda que omitisse os detalhes. Junto aos colegas, ouviu o tipo de boato que circulava, especialmente sobre as prisões – tema principal em todas as mesas – e próximos passos do Líder Supremo. Ponderavam o que ele faria a seguir, uma vez que rumavam para Rakata Prime... Rey aproveitou para sanar sua ignorância acerca da história do planeta, o qual por eras fora um santuário para o Lado Sombrio da Força, desde os tempos do Império Infinito Rakata, quando a raça ainda era dotada de sensibilidade à Força. Fora ali, assim como em alguns outros planetas das Regiões Desconhecidas, que os remanescentes do Império Galáctico se haviam escondido e tramado, ressurgindo na forma da Primeira Ordem com força assustadora e caindo como bombas sobre a fragilizada Nova República, a qual já tinha problemas suficientes com a rivalidade entre as facções Centralizadoras e as Autônomas, gerando instabilidade política e brechas através das quais grupos criminosos promovidos pela própria Primeira Ordem penetravam e perpetravam o caos.
— Então, Rakata Prime é uma espécie de... Capital da Primeira Ordem? – perguntou a moça, piscando com força para banir o sono que começava a pesar em seus olhos. Quarenta horas submetida a todo tipo de tensão e estresse começavam a cobrar o preço...
— Com a Base Starkiller destruída, provavelmente sim. – explicou Trajan, um Sullustano particularmente amável, cujas bochechas caídas tremiam cada vez que ria ou ficava nervoso – era a principal base do antigo Líder Supremo.
— Ah, ótimo – murmurou Rey para si mesma... Estavam indo em direção a um antro do Lado Sombrio. Perfeito! As notícias podiam ser piores? Pensava ainda no que falar, quando viu Eilenia e Brenwen acenarem para si. Uma vez que terminara de comer, dirigiu-se aos amigos – com licença, Lena está me chamando.
Despediram-se amavelmente da jovem, que foi até as diplomatas; Eilenia apenas olhou para a amiga de alto a baixo e comentou num sorriso preocupado:
— Você está péssima. Precisa de um descanso... Esqueça o que íamos falar, é melhor só ir para o quarto e deixar o assunto para amanhã.
— Vou descansar, daqui a pouco. – prometeu a mais moça – mas e vocês? Como estão?
— Consultando algumas dúzias de registros dos últimos anos, procurando algo útil para ajudar na argumentação com a General Organa. Talvez tenhamos achado uma coisa ou duas, mas passaremos uma revisão nos apontamentos amanhã, quando estiver em condições de pensar. – respondeu Lena.
— Não se preocupem, eu posso passar mais uma noite... – curiosamente, foi Brenwen quem a interrompeu:
— Nem pensar! Precisa estar lúcida para fazer o que for, e repousada para ter compreensão do panorama geral da galáxia. – a menina loira viu o espanto da outra, e sorriu – pode ter muito a me ensinar, mas temos quase a mesma idade e, como sua dama, não posso deixar que adoeça por negligência para consigo mesma.
Rey deu um sorriso divertido para a mais moça e, apoiando as mãos na cintura, concordou:
— Certo, senhorita “dama”. Acho mesmo que minha cota de estudos políticos e planejamentos estratégicos já foi preenchida. Mas vocês tiveram o trabalho de...
— Os arquivos não vão fugir, senhora Jedi – ponderou a Twi’lek – podem esperar até amanhã. A galáxia não vai se esboroar em uma única noite, isso eu garanto. Agora, vá descansar.
— Eu tinha perguntas a lhe fazer sobre Rakata Prime... – começou Rey, lembrando-se das informações obtidas, mas foi interrompida:
— Rey, está abatida e claramente exausta; ninguém aprende coisa alguma nesse estado. Amanhã eu responderei tudo o que quiser, mas, uma vez em sua vida, escute alguém e vá descansar. Não dorme há praticamente dois dias, pois um breve cochilo depois de ser mentalmente atacada não é descanso! – a mais velha pousou a mão em seu ombro num pedido encarecido – por favor, agora chega. Amanhã continuamos.
— Certo, senhora Shan. – a Jedi meneou a cabeça, vencida – continuamos amanhã. – ela franziu o cenho – a propósito... Onde está Asala?
— Na cama, como uma criança de sua idade deve estar, a esta hora. – riu Brenwen – e para onde certa Jedi precisa muito ir.
— Nem pense em me dar ordens, senhorita Lisin – brincou Rey – já me basta aturar Kylo Ren e Eilenia Shan, as duas criaturas mais autoritárias da galáxia!
A humana mais nova riu, a Twi’lek fingiu expressão de zanga e, em meio a sorrisos gentis, ambas as “damas” da Jedi a acompanharam até o andar de seus aposentos; despediram-se, e só ao entrar em seu quarto foi que a moça percebeu o quão cansada estava, de fato. Queria muito esperar por Ben, mas haviam sido dois dias terríveis, em termos de tensões... Sentou-se na cama, pensando se aguentaria ficar acordada, mas teve tempo apenas de tirar os sapatos e a estola, antes de adormecer profundamente.
*
Acordou sentindo um toque familiar, mas ainda assim foi o bastante para sobressaltá-la, fazendo com que se sentasse abruptamente; seus olhos sonolentos fitaram o semblante de Ben, que ergueu as mãos em gesto de paz:
— calma. Sou eu. Estava deitando você, pois dormiu sentada.
— ah... Obrigada – ela se ajeitou em um dos lados do leito, enquanto seu marido se deitava ao seu lado. Sentiu o braço dele ao seu redor, a respiração quente perto de sua nuca, e logo imergira outra vez em sono profundo, exausta demais para resistir.
Quando acordou novamente, estava sozinha na cama, e por alguma razão isso a deixou chateada; levantou-se, despiu-se e pegou roupas limpas, indo para o banheiro se lavar... Mas não imaginara encontrar Ben fazendo o mesmo! Por um instante pega de surpresa, não conseguiu deixar de percorrer com os olhos cada detalhe do corpo de seu esposo: os cabelos negros e molhados jogados para trás, revelando melhor o rosto de feições másculas, os ombros largos, braços musculosos, tórax e abdômen definidos por anos de treinamento... Reparava nas várias cicatrizes pelo corpo do homem, destacadas em branco na pele rosada pelo impacto e calor da água... Sentia pena dele, pois sabia de onde vinham, e desejava poder apagar cada maldita marca, sumindo também com as memórias de dor que contribuíam para torna-lo alguém mais amargo, cruel e sombrio.
— Não precisa permanecer como plateia – disse Solo, arrancando a moça de sua contemplação e fazendo-a corar intensamente, ainda mais ante o olhar que lhe lançava – pode se juntar a mim aqui dentro, se quiser. – se antes estava vermelha, a Jedi sentiu que seu rosto devia ter assumido um tom arroxeado – É apenas um convite, Rey, não precisa ficar tão escandalizada.
Após um segundo de hesitação, ela decidiu que não havia por que não aceitar, deixando suas roupas sobre a bancada, ao lado das de Ben. Mesmo hesitante, entrou no box, para satisfação do Sith, que a puxou para baixo dos jatos de água e a estreitou contra seu corpo; entretanto, o desconforto da moça deixou claro que algo estava errado.
— Ainda zangada comigo, pelas decisões que tomei. – era uma declaração, não uma pergunta.
— Foi tolice esperar outra coisa. – respondeu ela, sem acusação na voz – você é o que é...
— Assim como você. Talvez eu também não devesse esperar que aceitasse pacificamente. – ele ficou mais sério – arrepende-se? – e ante o olhar indagador dela – de ter aceitado. De ter ficado ao meu lado, em vez de partir.
— Não. – respondeu a moça, sincera: com todos os percalços e dificuldades, não conseguia sentir que fora um erro – arrependo-me de ter sido arrogante o bastante para pensar que eu poderia mudar tudo em poucos dias. Racionalmente eu sei que suas decisões foram adequadas a quem pretende se firmar no poder... Mas não consigo deixar de me horrorizar. E não consigo deixar de sentir raiva de mim mesma, por ter sido tão... Impotente!
Ele não falou nada, mas virou-a devagar de costas para si, percorrendo com os dedos os hematomas claros que haviam ficado, decorrentes do impacto contra a parede.
— Lamento – sussurrou ao ouvido de Rey, que respondeu:
— não se preocupe com isso. Você reagiu como era esperado ao ser impedido, e eu retribuí da mesma maneira. – ela se voltou com olhos censuradores – mas se me segurar pelos cabelos, outra vez, especialmente diante de outras pessoas, vai levar um cilindro de combustível na cabeça, fui clara?
Ela não esperava que Ben Solo risse. Foi a primeira vez que o ouviu rir, e surpreendeu-se com o quanto gostava do som: não era um riso forçado ou cruel, mas divertido, do tipo que nunca imaginara ouvir naquela voz. Confusa, perguntou:
— A queda de ontem foi tão feia, a ponto de acabar com sua pouca sanidade, Ben Solo?
— Não é isso – ele conteve o riso, censurando a si mesmo por não ter conseguido impedir – você me diverte, Rey. É jovem, pequena e pouco experiente, mas tem mais coragem do que todos os meus Cavaleiros juntos. E eu pensei que ser casado com você seria algo aborrecido... – meneou a cabeça, e sua expressão se tornou um pouco mais séria – não exija demais de si mesma, padawan. Impediu a morte daqueles infiltrados. Está negociando com Leia Organa, e tentando fazer algum bem, mesmo sem experiência alguma. Os Jedi levavam mais de uma década sendo treinados em combate, retórica, política, estratégia e o que mais puder imaginar, antes de serem enviados a missões. Você se lançou nisso sem treinamento algum.
— Ben, se sua intenção é me assustar, agindo desse modo estranho, está conseguindo. – de repente ele a elogiava e aceitava-a como Jedi? Ou estava apenas ressaltando o quão despreparada ela era? — Se sua intenção for me aliciar, foi um fracasso completo.
— Eu aceitaria sua luz, e você aceitaria minhas trevas, lembra-se? – perguntou ele, tomando o rosto dela entre suas mãos – não podemos forçar a mudança um no outro, mas eu ficaria satisfeito se pudéssemos nos entender, respeitar e... Sermos um casal. Já disse que a quero comigo. Mas não será agindo como ontem que conseguiremos levar isso adiante.
— Eu não posso concordar com seus métodos – começou ela – e você não os mudará... Mas talvez possamos encontrar um meio-termo. Talvez, entre minha luz e suas trevas, haja um crepúsculo onde possamos nos encontrar, e manter a paz. – ela se aproximou mais, acariciando os braços de seu esposo – eu sinto suas dores, Ben. Sua raiva, sua tristeza... Sua solidão. Seu medo. Vejo como o fizeram se tornar mais cruel do que realmente é... – traçou com os lábios uma longa cicatriz ao longo do braço esquerdo, antes de erguer o rosto e fitar aqueles lagos negros – não precisa ser assim. Não está mais sozinho.
Ele mergulhou seus olhos nos dela, incapaz de explicar a conexão que os unia quando se encaravam daquele modo... Como se suas almas mergulhassem uma na outra, tentando tornar-se uma coisa só. Sim, ele tinha raiva: do passado, de sua família, dos abutres que o cercavam em busca apenas de poder. Tinha medo de não ser o suficiente, de nunca conseguir superar o vazio dentro de si, de nunca o preencher... Sentia-se só, como se não houvesse criatura no mundo capaz de amá-lo e compreendê-lo, mas, quando Rey estava ao seu lado, tudo isso desaparecia. Não sentia medo, nem dor. Sabia que não estava sozinho e, mesmo quando a raiva o assolava, esta era intensa e breve, passageira. Com ela, não era um servo do Lado Sombrio, mas seu senhor. Com ela, sentia que tinha uma escolha, que podia decidir o quão fundo desejava ir nas sombras... Que o vazio se completava, como se ela fosse a parte de si que faltava.
— Também você não está sozinha. – respondeu, reconhecendo no olhar dela o sentimento de isolamento que já o atormentara. Surpreendeu-se quando ela colou seus corpos e, abraçando-o, pediu:
— Beije-me. – deveria censurar a si mesma por se sentir tão segura e confiante, nos braços de Ben Solo? Sim, pois de Kylo Ren não havia sequer a sombra, naquele instante, e no homem ela encontrava forças para fazer o que não queria, mas precisava. Ele a obrigava, ou melhor, ajudava a confrontar os recantos obscuros de sua alma, onde residiam o medo, a raiva, a mágoa, a incerteza... Pois apenas ao reconhecer e aceitar suas próprias falhas ela as impedia de conduzirem-na ao Lado Sombrio, e tornava-as de fraqueza em força. O medo ensinava prudência. A incerteza ensinava planejamento e humildade. A raiva ensinava autocontrole. A mágoa ensinava a perdoar... De um modo que não compreendia, Ben Solo fazia-a evoluir e aprender apenas com sua presença, com o contato travado entre ambos, com a conexão de suas almas, através da segurança que lhe passava. – beije-me, Ben.
Sem indagações ou hesitações, ele o fez, e foram muito além dos beijos enquanto encontravam um no outro o alívio para as próprias dúvidas e medos.
*
Haviam perdido completamente a noção da hora, espantados ao ver que era quase meio-dia; rindo, a Jedi comentou:
— Devem achar que eu matei você. – virou-se no abraço de seu amado e o beijou.
— Você se esforçou muito nesse intento – ele devolveu com aquele olhar malicioso que ela adorava, mesmo que a fizesse corar e querer esconder o rosto.
— Pare com isso! – ela virou o rosto para o outro lado, a fim de fugir do olhar que a deixava tão tímida. Alcançou as próprias roupas e começou a se vestir, seus pensamentos aos poucos reorganizados; porém, agora ficava mais difícil pôr ordem na própria mente, uma vez que Ben deslizava os dedos por suas costas – Ben! Assim vamos nos atrasar ainda mais!
— Provavelmente – ele começou a beijar a nuca da moça, deslizando para os ombros, a mão enlaçando sua cintura, e tudo o que ela queria era se entregar mais uma vez. Droga! Sentia-se uma adolescente apaixonada (basicamente o que realmente era), e apenas com muita determinação colocou à frente da paixão suas obrigações, enrijecendo o corpo ante o toque caloroso de Solo – por que está resistindo, Rey?
— Porque é quase meio-dia, e temos deveres a cumprir. – ela parou por um instante, criando coragem para fazer o que se propusera, no dia anterior – Se eu lhe contar algo, pode apenas me ouvir e confiar em mim?
Ele parou as carícias e a virou de frente para si, muito sério: aquelas palavras não anunciavam nada de bom. A expressão de tensão da jovem o preocupava ainda mais:
— O que você aprontou agora, mulher?
— Prometa que confiará em mim e não irá interferir. – insistiu ela – se confiarei em você, peço que retribua da mesma forma.
— Eu confio em você. – respondeu ele, com sinceridade – conte-me, e conversaremos a respeito como pessoas civilizadas.
— Conheci duas jovens sensíveis à Força. – tomara que a sinceridade não fosse a pior estratégia, agora! – pediram-me que lhes ensinasse a controlar suas habilidades.
— Serão suas Padawans. – constatou Kylo, com pontadas de ciúmes, indignação e, talvez, alguma irritação – e quando pretendia me contar?
— Na primeira oportunidade, como fiz. – respondeu a Jedi – Ben, eu quero lhe pedir que não interfira. Elas têm medo dos Cavaleiros de Ren, de serem forçadas ao serviço do Lado Sombrio. Eu confiei em você, e lhe contei este segredo para que não se sentisse traído, mas não é um pedido de permissão: eu prometi a ambas que as protegeria e ensinaria, e conhece bem minha fidelidade a minhas promessas.
O Sith nada disse, a princípio: levantou-se e caminhou até a janela, fitando as estrelas de modo pensativo. Rey ensinaria o caminho da Força a duas meninas? Porém, a própria Jedi sabia muito pouco... Cedo ou tarde, seus conhecimentos não seriam suficientes, e precisaria pedir-lhe ajuda. Nesse momento, se alguma das garotas tivesse qualquer propensão ao Lado Sombrio, ele as aliciaria facilmente... Virou-se enfim para a esposa e respondeu:
— Treine-as. Não direi nada aos Cavaleiros de Ren e, se descobrirem, proibirei que façam mal às jovens. Porém, eu tenho uma condição.
— Diga. – ela receou o que poderia ser, mas ouviria antes de negar.
— Se sentir nelas propensão ao Lado Sombrio, não as impedirá de fazer a escolha. E será a mim que deverão vir, se e quando sentirem a atração do Lado Sombrio.
Rey pensou por um longo segundo, ponderando os prós e contras antes de anuir:
— É uma promessa. Contanto que garanta o segredo e, em caso de algo dar errado, impedir que seus Cavaleiros tentem coagi-las pelo medo, dor ou coisa similar. – não parecia descabido: afinal, se uma das jovens, ou mesmo ambas, optasse por seguir o lado escuro da Força, quem era ela para dizer não? Faria o possível para impedir que tomassem aquele caminho, mas a liberdade de escolha era das padawans.
— Tem minha palavra. – anuiu o Lorde, com uma estranha satisfação em constatar que Rey confiava em si daquele modo. Maldição, ela o atraía cada vez mais, como se aquela luz o ajudasse a curar as feridas em sua alma, a sanar coisas que pensara serem suas forças, mas que se constatavam as verdadeiras fraquezas: marcas deixadas pelo passado, as quais pensara mortas e enterradas, mas o assombravam mais intensamente do que qualquer coisa. Casara-se com uma mulher igualmente estranha, assustadora e maravilhosa, e a cada dia sabia menos como um Lorde Sith reagiria. Mas sabia muito bem como ele queria reagir: apagar as memórias do passado e tê-la ao seu lado como sua imperatriz. Se ela desejava a luz, que fosse: o povo precisava de um ídolo ao qual amar, e ele próprio reconhecia que faria bem ter alguém capaz de confrontá-lo e conter sua raiva desmedida, impedindo-o de se precipitar em atitudes que abalassem a lealdade dos seguidores. Snoke o fazia através da dor e humilhação, mas Rey o conseguia pelo amor e coragem. E ele novamente dobrava o joelho, ao menos em parte, mas dessa vez não havia vergonha em ceder, pois o fazia por sua vontade. Reconhecer isso perante a Jedi, entretanto, estava fora de cogitação.
Uma vez vestidos, iam deixar o quarto quando Rey segurou seu esposo, puxando-o para perto de si com um sorriso:
— Ben, antes de irmos eu só queria dizer... Obrigada. Por confiar em mim.
— Mereceu minha confiança com sua mostra de honestidade. – ele lhe deu um último beijo suave – agora, temos de ir. Já nos atrasamos demais.
— É claro. – a garota lhe fez uma última carícia no rosto, antes de tomarem direções diferentes. Rey desceu para o andar da diplomacia, enquanto Kylo seguia para a ponte de comando. Ambos tinham coisas importantes a fazer.
*
— Saudações, Rey – disse a holografia de Leia Organa, quando a moça iniciou o contato.
— Saudações, General – respondeu a jovem – desculpe-me pela pressa, ontem, mas as coisas saíram ao controle.
— Eu percebi, por suas notícias – a voz de Leia era séria, mas não havia censura – como estão os prisioneiros?
— As cápsulas foram ejetadas ontem mesmo. Dois dias galácticos de viagem para se aproximarem da órbita do planetoide Baraan. – a Jedi baixou os olhos momentaneamente – sinto muito por não ter conseguido mais do que isso.
— Não posso censurá-la: conheço Kylo Ren, sei as coisas de que é capaz e, acredite, estou surpresa que o tenha convencido a poupar a vida dos infiltrados.
— Creio que seja parte do plano dele. Os membros da resistência que conseguiram permanecer aqui, ocultos, irão confiar em mim e tentar me contatar; ele pensa poder fazer disso uma vantagem.
— E talvez seja, mesmo... – disse Leia, para surpresa de Rey – se deixarmos vazar falsas informações, ele ficará cego para...
— General, desculpe-me, mas tenho com Kylo Ren um acordo mútuo de não mentirmos um para o outro. A confiança dele é tudo o que tenho como vantagem: se trair essa confiança, perdemos qualquer trunfo que possa haver.
— Confiança? – Leia parecia atônita – Kylo Ren não confia em ninguém.
— Ben Solo confia em mim. – disse a moça – é longo demais para explicar, mas tenho a confiança dele. Até mesmo algo de seu afeto. – ela tentou seguir no fio de lógica fiado com Eilenia para argumentar – e... Não creio que seja uma boa hora para começar uma guerra.
— Precisamos iniciar antes de ele se tornar forte. – disse a princesa – somos poucos, mas sabotagem e divisão interna são armas...
— Que destruiriam a galáxia. – interrompeu Rey – estou aqui dentro, Alteza, e vi pessoalmente que há seres bem piores do que Kylo Ren. Seres que, numa galáxia instável, seriam fortalecidos e promoveriam uma guerra infinita, uma eterna cisão alimentada por rivalidades cada vez maiores. Não haveria paz em lugar algum, por mais tempo do que podemos contar.
— Está me pedindo para aquiescer e assistir enquanto outro tirano sobe ao poder?
— Esse tirano já está no poder, General – declarou Rey – os republicanos são os único que se opõem a ele, mas não é hora para começar uma guerra. Não militar, pelo menos.
A princesa da destruída Alderaan não precisou de maiores explicações para compreender a intenção de Rey:
— Pede-me que pacifique os conflitos armados, e concentre a luta em negociações e ações diplomáticas.
— Exato. – confirmou a mais jovem – não posso lhe pedir que trabalhe com a Primeira Ordem, mesmo porque Ben... Digo, Kylo Ren, vai esmagar sem piedade qualquer insurreição, e alicerçará seu governo no medo. Porém, se não houver levantes armados, eu posso colocar as equipes diplomáticas para atuar. Acredite, tenho autonomia para isso: uma guerra diplomática não é menos válida, mas custará infinitas vidas a menos. Não peço que parem de lutar, mas que mudem seus métodos, ao menos por enquanto.
A expressão da mulher mais velha era misto de curiosidade e admiração quando, após segundos de silêncio, declarou:
— Você me parece tanto o meu irmão, quando mais novo... – suspirou – levarei isso aos outros oficiais da Resistência, mas saiba que entendo sua argumentação.
— Enviei uma mensagem detalhada na cápsula de evasão de Liajha. – informou a Jedi – é uma Cereana, e expliquei a ela os pormenores... Junto, está um comunicador holográfico, para que possa me contatar quando precisar.
— Agir como agente dupla é algo perigoso, Rey. Não tem treinamento para isso.
— Eu não tinha treinamento para nenhuma das coisas que fiz até agora, General Organa; por isso preciso de sua orientação e ajuda: porque não tenho experiência nesse meio, e mesmo que minha intuição guie-me com algum sucesso, lidar com todas essas tramas é algo além de minhas atuais habilidades. Por isso peço: ajude-me. Você é minha única esperança. – de algum modo, Rey sabia que essas últimas palavras tinham significado especial para a outra mulher.
Leia Organa fechou os olhos, de fato afetada pelas palavras da menina, e ao abri-los tinha determinação estampada no olhar:
— Eu os convencerei a lhe dar tempo. O suficiente para a Resistência se recuperar, apaziguar os conflitos na Orla Externa, recriar sua base e reforjar as alianças com os republicanos. Dois anos, a princípio. Uma vez que tenhamos cuidado da Orla Exterior, e ante o panorama do restante da galáxia, tomaremos as próximas decisões. E o que você fará, neste tempo?
— Consigo controlar, ao menos em parte, a ira do Líder Supremo; será o que farei enquanto for necessário. Continuo meu treinamento com Luke, mesmo à distância, e nossa melhor chance é recriar a ordem Jedi, para manter a paz sem a necessidade de repressão armada dos conflitos. Sei que há alguns Jedi espalhados pela galáxia, com diferentes níveis de conhecimento e treinamento, escondidos. Tomei sob minha proteção duas padawans... – o espanto no olhar da mulher mais velha não era difícil de se perceber – e sei que Kylo irá se opor, mas pretendo lembra-lo dos Cavaleiros Imperiais, fazê-lo ver que o renascimento dos Jedi pode lhe ser útil, enquanto governante.
— Espere um momento – interrompeu a princesa de Alderaan – onde aprendeu tudo isso, em alguns dias? – receava que fosse o próprio Líder Supremo a manipular os conhecimento da moça, por mais que duvidasse disso.
— Lembra-se de uma informante da Resistência chamada Eilenia Shan?
— Pela Força! Não me diga que a encontrou! Pensei que houvesse morrido! – É claro que Leia conhecia Eilenia: vira-a pessoalmente duas ou três vezes, e os relatórios da jovem Twi’lek eram sempre os mais completos e úteis! Entretanto, o súbito desaparecimento dela fora tomado como uma possível morte, ou deserção, já que o localizador se desativara. Era uma surpresa boa ouvir aquele nome outra vez, e saber que a Jedi pela qual tinha grande apreço estava em boas mãos!
— Está bem viva, ainda porta a insígnia da Resistência, embora atue autonomamente, e tem me ensinado muito mais do que pode imaginar. Tem os mesmos objetivos que nós: a paz.
— Não haverá paz enquanto um déspota controlar a galáxia. – ponderou a senadora – porém, a liberdade não perdurará se não for construída sobre alicerces sólidos. – ela pensou por alguns momentos – eu lhe dei um prazo inicial, em que orientarei nossas forças na reconstituição da rebelião e apaziguamento dos locais que alcançarmos. Quanto a sua ideia de recriar os Cavaleiros Imperiais, para transformá-los na nova Ordem Jedi... É com Luke que deve falar. E com algumas outras pessoas... Providenciarei o contato. Para onde o cruzador ruma, agora?
— Rakata Prime.
— Tome cuidado, Rey: é um antro do Lado Sombrio. Com duas padawans, eu sugiro que as faça experimentar a luz o quanto antes possível, antes de ouvirem os sussurros das sombras. – Leia podia não ter feito o treinamento de Cavaleira Jedi, mas compreendia muito bem o uso da Força que vivia em seu espírito. – algo chamou a atenção da General, que declarou – preciso ir. Contate-me novamente se houver qualquer problema, por menor que seja. Que a Força esteja com você, Rey de Jakku.
— E com você, Leia Organa, de Alderaan.
A ligação se encerrou, e Rey guardou seu comunicador com um sorriso nos lábios: daria certo. Sim, iria conseguir! A esperança brilhava para ela como um sol poente: mesmo se uma noite escura se seguisse, ela sabia que a alvorada chegaria. E agora, tinha diante de si uma longa tarde de estudos na companhia de Lena, Asie e Bren. Quando esta terminasse, procuraria pelos Mestres da Força nos mundos sutis. Não podia cometer erros quando parecera conseguir encontrar a direção certa para o leme daquela nave. Mesmo com os perigos que circundavam, com a nova ameaça que seria estar no planeta obscuro, com o receio de que Ben se aprofundasse ainda mais no Lado Sombrio, ela sentia que encontrara uma direção, e iria segui-la a qualquer custo.
Fale com o autor