Rise of Jedi

11 Treinamento Jedi


Notas iniciais
Oieeeee! Finalmente de volta, venho aqui com mais um capítulo feito com muito carinho! Tomara que gostem!

Nos dias que se seguiram, Rey se dedicou a estudar a história dos Jedi, dos Sith, das guerras entre ambos, bem como os códigos que norteavam a Ordem Jedi. Nisto, Brenwen e Asala a acompanharam assiduamente, e após cada tarde de estudos formais, a garota mais velha se sentava para ensinar às outras o que sabia sobre a Força. Começou ajudando-as a lidar com suas próprias habilidades, e nisso sentia-se claramente ajudada pelos Mestres da Força, pois o conhecimento lhe vinha na forma de intuições, breves visões ou mesmo na voz sussurrada de Anakin Skywalker. Ensinou Asala a não recear o próprio poder, a não lutar contra o medo, raiva e tristeza, mas tampouco deixar-se dominar por eles: ensinou-a a deixa-los fluir, em vez de retê-los, e usar memórias de alegria e paz para encontrar autocontrole. E quando a menina falhava, consolava-a dizendo ser este um treinamento que durava toda a vida. Quando iniciavam cada “aula”, não era raro que as emoções da pequena Togruta a fizessem derrubar móveis, mover objetos aleatoriamente ou, ao contrário, fizessem com que nada acontecesse. Em um desses momentos, quando nada acontecia, por mais que a menina se esforçasse por fazer levitar a esfera branca e negra sobre a mesa, Asala desanimou:

— Eu nunca vou conseguir dominar isto, Mestra Rey – a despeito dos pedidos de Rey para que não a chamasse assim, a criança simplesmente adorava a ideia de ser Padawan de uma Mestra Jedi, de modo que o tratamento permanecera e até mesmo enternecera a humana morena.

— Faz apenas alguns dias, Asie – a mais velha se sentou ao seu lado e pousou as mãos nos ombros delicados – você tem as habilidades de uma Jedi: mas não é com a mente que deve tentar. Não deve nem mesmo tentar: apenas relaxe, acredite, e deixe fluir. – ela estendeu a mão para o objeto, que se ergueu no ar e começou a girar graciosamente sobre si mesmo – vê? Não se esforce. Sua mente duvida, e a dúvida a bloqueia e impede de fazer voluntariamente: por isso só move objetos quando não tenta. Agora, respire fundo, esvazie sua mente de toda a dúvida, de todo pensamento, e apenas sinta a Força fluindo entre você e a esfera. – a criança fechou os olhos e estendeu a mão, seus sentimentos aos poucos acalmando-se, a mente mais limpa – sim. A Força conecta tudo e, quando sentir isso, perceberá que não existe “você” e “outra coisa”, porque tudo é parte de uma coisa única. A Força nos torna um com tudo. – ela já desistira de tentar saber se aqueles insights vinham dela mesma, dos Mestres da Força, de memórias ou qualquer outro lugar. Apenas confiava e os seguia.

O orbe tremeu, a princípio, e Rey continuou com um sorriso:

— Acredite, Asala. Sinta. Faça.

Oscilando levemente, a esfera flutuou no ar, e os olhos da menina se abriram, arregalados de espanto e felicidade!

— Consegui! – o orbe quase caiu com a breve desconcentração, mas Rey o equilibrou e deixou que a jovem o fizesse vir até suas mãozinhas, fazendo-o pairar alguns centímetros acima delas, passando-o de uma para outra, executando pequenas manobras – consegui, Mestra!

— Eu lhe disse que conseguiria – sorriu a Jedi – com calma, devagar. É a Força quem age, você apenas a conduz, influencia e direciona. Agora, leve-o devagar de volta para a mesa.

Fazer o objeto pousar com sucesso foi relativamente fácil, ainda que a descida tenha sido trêmula e hesitante ante o receio de falhar. O sucesso foi premiado com muitas felicitações da Jedi, de Brenwen e Eilenia, esta companhia constante das moças.

O treinamento de Brenwen consistia em longas meditações que a ajudavam a se conectar à Força, sentir o que estava longe de si e ‘ver” o que estava oculto. Nas palavras da jovem, ela sentia a Força como uma fina teia de aranha com incontáveis fios, um dos quais a conectava a todo o resto; os eventos ao seu redor, longe ou perto, eram como movimentos em outros fios, os quais identificava e através dos quais seguia para encontrar seu objetivo. Fazia-o com espantosa facilidade, assim como parecia capaz de enxergar o íntimo das pessoas. E não foi de um modo agradável que Rey o descobriu...

Na manhã seguinte após o sucesso de Asala – a qual continuava firmemente seu treinamento para controlar a própria habilidade telecinésica – as duas adolescentes se sentaram juntas no tapete do escritório de Eilenia, que observava sempre com vivo interesse e, não raras vezes, com enorme divertimento. O dom da humana parecia não sofrer bloqueios como o da mais nova, mas variava em natureza e intensidade... Por vezes conseguia apenas “ver” pessoas e seres vivos. Outras vezes, conseguia sentir mesmo as mais ínfimas engrenagens da nave, e em outras, ainda, captava as emoções dos que entravam no alcance de sua mente. Isso a deixava particularmente instável e, por um infeliz infortúnio, um dos Cavaleiros de Ren sentiu a manifestação das habilidades de Brenwen... Tanto quanto ela o sentiu. Foi um choque intenso para a moça, que se recolheu em si mesma, apavorada e trêmula, tão fechada na própria mente que apenas com algum esforço a mais velha conseguiu alcança-la. Mais tarde, já refeita do terrível susto, a princesa Lisin descreveria o Cavaleiro que percebera como uma “flama negra que espalhava sombras, em vez de luz”. Em seguida, fitou a outra humana com intensidade, e falou com toda a sua determinação:

— Eu NUNCA me permitirei tornar-me algo como aquele... Ser. – enfiou os dedos entre os cabelos dourados – nunca havia sentido algo tão horrível! Raiva, crueldade, ressentimento, um prazer mórbido quando sentiu minha dor... – Rey a acalmou, embora as palavras da outra a tranquilizassem de um modo particular, fazendo-a nutrir mais esperanças de que a moça não se voltaria ao Lado Negro. – Como alguém pode viver assim, Rey?

— O Lado Sombrio concede seu mais profundo desejo... – disse a mais velha – e cobra, como preço, aquilo que você mais ama. Na maior parte das vezes, eu imagino que não seja uma troca equivalente... Resta raiva, a mágoa, a frustração... E a incapacidade de retornar, para quase todos. – Isso fora algo que ouvira do próprio Anakin, durante uma de suas “visitas” aos planos sutis da Força. A história do Jedi, inclusive seu trajeto pelo Lado Sombrio.

Com o evento desagradável daquela aula – o qual posteriormente resultara num confronto entre Rey e o Cavaleiro de Ren, do qual a Jedi saíra vitoriosa ao falar que o treinamento das padawans era não apenas de conhecimento do Líder Supremo, mas nem um pouco concernente aos Cavaleiros – a moça percebeu que, para seu bem e o das meninas, talvez fosse uma boa ideia visitarem algum outro lugar, antes de chegarem a Rakata Prime. Discutindo alternativas com Eilenia, testou as habilidades de pilotagem de Bren – não chegava a ser um prodígio, mas, graças a sua habilidade de prever o que ocorreria com alguns segundos de antecedência, saíra-se razoavelmente bem, mesmo numa nuvem de poeira estelar – e chegou à conclusão de que sua ideia de visitar um planetoide repleto de vida, a um dia de distância da atual localização, não era descabida. Porém, havia ainda um obstáculo: Kylo Ren não apenas queria a esposa ao seu lado, mas precisava dela, especialmente ao lidar com o recém-reincorporado Armitage Hux, embora fizesse questão de conversar sobre a jovem sobre boa parte de suas decisões e problemas com o recém-criado império. Rey começava mesmo a crer que ele realmente apreciava suas divergências de visão e opinião, pois nenhuma discussão havia terminado em briga, desde o episódio com os membros da Resistência... Mesmo assim, uma ausência de três ou quatro dias não provocaria nada danoso, certamente.

Assim, no meio daquela tarde a Jedi se levantou do lugar no sofá circular onde estava lendo e dirigiu-se às outras três:

— Preciso falar com meu marido, informar a ele que estaremos ausentes por algum tempo. – olhou para a Twi’lek – vem conosco, Lena?

— Com Kylo Ren refazendo seu Conselho e me consultando a cada duas horas para recriar o Senado Imperial? – riu-se a mulher – os gritos dele iam ser capazes de se propagar no vácuo, se eu desaparecesse desse modo. – ela pousou o datapod em suas mãos na mesa – além disso, acho que terei mais diversão aqui, resolvendo esses assuntos, do que perdida em lugar nenhum com vocês três, uma vez que não tenho sentidos Jedi e minhas meditações renderiam apenas um atraso monstruoso no meu trabalho.

— Eu não sei como Lena pode gostar tanto assim do que faz! – declarou Asala, incrédula – ficar aqui, afundada em leis, escrevendo mensagens aos governos de cada sistema ou planeta independente, em vez de ir conosco para um lugar diferente... – a criança se debruçou no encosto do sofá e fitou a mestra com olhos pidões – quando vamos viajar, mestra?

— Logo, ansiosa – riu a humana, beijando a testa da Togruta – Brenwen, vem comigo? O Líder Supremo está na sala dos comandantes. Talvez seja bom ter companhia de uma boa embaixadora júnior.

— Há, o esposo é seu! – ironizou a princesa – lutar contra um esquadrão armado? Estarei ao seu lado. Viajar através da galáxia, numa rota cheia de piratas? Aceito. Enfrentar o Líder Supremo, cujo humor varia de mau a péssimo, para dar a ele uma notícia que claramente o irá desagradar? Eu tenho algum amor por minha vida. – ela ia se esconder atrás de seu datapod, onde trabalhava redigindo mensagens e comunicados para os planetas do sistema Corelliano, quando terminou – além disso, odeio o modo como o Conselheiro Arnut olha para mim.

— Como exatamente ele a encara? – Rey nunca vira os dois junto em um aposento, e as palavras da padawan a inquietaram.

— Como se fosse um morto de fome, e eu, algo muito saboroso. – ela deu de ombros – de qualquer jeito, estou fazendo meu trabalho, aqui. O Sistema Corelliano pode dar especial trabalho em se submeter, depois que Snoke e o Líder Supremo explodiram seus últimos governantes em Hosnian Prime.

Eilenia ergueu o rosto, franzindo levemente o cenho: compreendia a personalidade defensiva e sarcástica de Brenwen – não podia culpa-la por isso, uma vez que fora levada como refém para Snoke em pessoa, com apenas doze anos, e ameaçada, escarnecida e aterrorizada por ele por alguns intermináveis minutos. Tudo graças à família que a barganhara como a uma mercadoria. — mas não podia dizer que esse traço não a preocupava. Havia mágoa e medo demais na menina que tão bem conhecia, e posteriormente falaria sobre isso com Rey; talvez a Jedi houvesse percebido, talvez não... Por mais esforçada e talentosa que fosse, a humana mais velha ainda era pouco mais que uma criança, e tinha monstruosos encargos. Talvez deixasse escapar algo importante e, por isso, a Twi’lek precisava tirar a dúvida.

Rey disse mais alguma coisa – algo como “prestarei atenção a isso” ou “resolverei isto”, antes de desaparecer, e a humana de cabelos louros se virar para a diplomata:

— Eu ainda não consegui decidir se esses dois vão salvar a galáxia ou matar um ao outro, primeiro. Quer dizer, pelo que Rey fala, não parecem ter brigado nos últimos quinze dias, mas... Eles são como fogo e água.

— Rey está se saindo muito bem como Primeira Dama. – ponderou Lena – aprende rápido, é inteligente e conseguiu um armistício com a Resistência. Ela sabe lidar com o Líder Supremo. – isso era o que ousava falar para as meninas. Não falaria, porém, de seu medo acerca de que o amor eventualmente pudesse cegar Rey e fazê-la enxergar em Kylo Ren algo melhor do que realmente havia, esperar dele mais do que poderia conseguir, ou confiar muito mais do que deveria. Pois tinha certeza acerca do quanto a Jedi confiava no esposo, e o quanto o amava; amor suficiente para fazer brilhar os olhos castanho-claros, toda vez que o mencionavam. E ante os fatos, podia apenas esperar que sua protegida estivesse certa, e Ben Solo ainda vivesse dentro da armadura impassível chamada Kylo Ren, cujo olhar era mais pétreo do que a máscara de metal outrora usada. Mas isso não seria comentando com as meninas: eram confidências da Jedi para a Twi’lek, e não diziam respeito a mais ninguém.

Ao mesmo tempo, tinha de reconhecer que o novo Líder Supremo, a despeito de seus eventuais rompantes de fúria, era um político infinitamente mais hábil do que Snoke; sutileza não era um traço seu, muito menos comedimento, mas conseguia pesar muito bem as consequências do que fazia e – por influência de Rey ou não, embora pudesse apostar antes no “sim” – evitava ao máximo deflagrar conflitos armados. Por duas vezes enviara tropas a planetas menores (Kallirk e Uluran), com ordens de ocupação e criação de bases militares, porém sob o comando mais claro ainda de não hostilizar a população e evitar provocar o pânico. Os planetoides haviam sido avisados de antemão das consequências de resistir e, assim, a ocupação foi feita de modo relativamente pacífico, sem mortes, ainda que o exército local se houvesse mostrado inicialmente hostil aos stormtroopers. Ela admirara tal mostra de diplomacia, nunca demonstrada pelo senhor anterior. Mais além, o serviço diplomático nunca tivera tantas ocupações, que iam desde arquitetar a formação de um novo Senado até enviar emissários, negociar acordos de rendição, tratados de paz e alianças dos mais variados níveis, submetendo-se à autoridade de Kylo Ren, o qual começara a ser intitulado por alguns como Imperador. Como esperado, era com Rey que a grande maioria dos embaixadores e diplomatas tratava – muito mais seguro e fácil do que lidar com o tempestuoso Lorde Sombrio – entretanto, já por algumas vezes ele se apresentara pessoalmente nos setores de relações interplanetárias e, apesar do humor sombrio e modos gélidos, haviam sido experiências muito melhor sucedidas do que esperado.

— Ele a ama – disse Asala, para surpresa das mais velhas, arrancando Lena de seu devaneio. Não haviam percebido sequer que a jovem estava atenta, quanto mais que percebera em que pensavam. – O Líder Supremo – explicou ela, seus lekkus ainda curtos balançando quando se inclinou para frente, para explicar – ainda não notaram?

— Como pode ter certeza disso, Asie? – indagou Lena, confusa. As duas meninas a surpreendiam cada vez mais.

— Eu os vi conversar, num corredor – disse a criança – estava nos dutos de ar, então não me viram – as outras nem questionaram: a mania da Togruta de se esgueirar pelo sistema de ar era algo que bronca ou castigo algum conseguia tirar. Para ela, era uma diversão explorar os intermináveis túneis de vento... – os olhos dele brilhavam tanto! Fez carinho no rosto dela e... Awgh – o rosto pré-adolescente se torceu com um pouco de nojo — Eles se beijaram. Mas é o que pessoas apaixonadas fazem, não é? – ela deu de ombros como se parecesse uma tolice que ela, por algum castigo, tivesse de suportar – de qualquer jeito, ele não parecia tão... Mau. Pude senti-los, e... Ele a ama.

— Asala, você NUNCA poderá falar disso a mais ninguém, entendeu? – Brenwen foi assertiva, segurando o braço da menina. Não importava se era verdade, ou se a garota apenas imaginara ver e sentir emoções daquela natureza no imperador – se os Cavaleiros sequer acharem que o Líder Supremo vacila em seu caminho no Lado Sombrio, e o amor é, para eles, uma enorme fraqueza, ele perderá todo o respeito dos seus. Você entende o que isso significa? – e ante a mudez da menina – entende?

— Assassinato. – respondeu a jovem, entristecida – dele e de Mestra Rey.

— E de todos que se puserem ao lado deles. – concluiu Lena, ajoelhando-se ao lado da criança – por tudo o que lhe for sagrado, nunca revele isso a alguém.

— Não irei. – assegurou a criança; entristecia-lhe que amar fosse algo praticamente proibido, naquela galáxia... Que as pessoas a quem mais amava houvessem sido as que mais cruelmente a haviam traído, e que isso se repetisse constantemente, por todos os lugares, agora impedindo mesmo que sua mestra pudesse expor sua felicidade com o casamento.

Ao ver o ar triste da menina a quem tinha como sua irmãzinha, Brenwen encarou sua tutora num pedido mudo, respondido com uma anuência, e falou:

— Asie, vamos largar um pouco esses assuntos desagradáveis. Quer ir ao hangar, apostar corrida de speeder?

— Armed vai nos matar, se explodirmos mais alguma coisa. – disse a criança, com um sorriso maroto, voltando-se para Eilenia – podemos?

— Eu não vou intervir se ele as colocar para limpar manchas de óleo no chão com uma escova – sorriu a Twi’lek – mas impedi-las? Vão se divertir um pouco. – beijou a testa de cada uma das garotas e as viu sair correndo, erguendo as saias até os joelhos numa corrida até o hangar. Obviamente, Brenwen deixaria a menor ganhar, como quase sempre fazia, e o simples pensamento arrancou um sorriso dos lábios da diplomata.

As mocinhas disparavam pelos corredores, sem ligar para os olhares tortos de outros membros da equipe de diplomacia, de moradores em geral ou de militares; alguns as fitavam com sorrisos, condescendentes com a energia e alegria da juventude que trazia um pouco de cor e alegria para os corredores cinzentos. Sem olhar para onde iam, de repente trombaram com algo... Ou melhor, alguém. A pessoa mal deu um passo para trás, mas Asala caiu com tudo sobre Brenwen, que estava menos de um passo atrás. Em pânico, viram contra quem haviam batido: o Imperador em pessoa!

Apavorada, a humana puxou a criança para seus braços e, erguendo-se, colocou-a atrás de si enquanto executava uma profunda reverência:

— Meu senhor, mil perdões! A culpa foi toda minha! Se houver algum modo pelo qual eu possa compensá-lo por minha... – Kylo Ren apenas ergueu a mão, sem raiva em seus olhos cor de ébano ao falar:

— é o suficiente, princesa. – ele fitou a menina Togruta, que o olhava timidamente por trás da outra – estão bem?

— S-sim, meu senhor – mais uma reverência da humana, que quase fez o homem bufar de tédio. Não ia machucar crianças por meramente esbarrarem nele! Sequer haviam esbarrado em si, mas sim, no escudo criado ao sentir a veloz aproximação.

— Basta-me saber disso. Agora, sigam seu caminho e não me tomem mais tempo. Olhem melhor por onde correm. – Frio, porém calmo. Espantadas, as moças perceberam o quão diferente o Imperador parecia, naquele mês desde que o outrora Líder Supremo fora morto... Mais maduro, controlado e firme, menos dado a rompantes de raiva. Em outros tempos, aquele esbarrão, mesmo tendo sido aparado por ele com um escudo da Força, lhes teria rendido no mínimo um tapa no rosto... Agora...

— Acho que ele estava de bom humor... Nem tentou nos sufocar! – sussurrou Asala, depois que o homem desapareceu no corredor.

— É o que parece... – Brenwen arqueou as sobrancelhas e comentou baixinho, rindo maliciosa – sei bem qual era o problema, antes, e do que ele precisava para aliviar aquele mau-humor constante.

— Do quê?! – indagou a mais nova, curiosa, ao que a humana se lembrou da idade real da amiga, repreendendo-se mentalmente por falar com ela o que teria dito para alguém de sua idade... Droga... Certas piadinhas não podiam ser feitas na frente de uma criança!

— Espere uns três anos e eu explico. – riu, mais de nervoso do que diversão. Para desfazer a tensão, segurou rapidamente o ombro da menor e exclamou – está com você! – ergueu as saias e tornou a correr, com Asie em seu encalço. Não houve outros acidentes, nem mesmo quando chegaram ao hangar e subiram nos respectivos speeders. O episódio com Kylo Ren já fora totalmente esquecido.

*

Rey não encontrara Ben na ponte de comando; de acordo com Kells Devron, havia acabado de sair, após resolver certas questões que careciam de sua atenção. A Jedi não precisou perguntar onde ele estava, pois sabia muito bem em qual lugar o esposo descarregava sua raiva, frustração e irritação, após cada reunião com os conselheiros: sua sala de treinamento. Ela mesma já comprovara, por experiência própria, que exercitar-se com o sabre de luz poderia ser algo extremamente libertador e calmante. E ao menos ele, agora, reservava sua sala de prática para esse fim, em vez de descontar nos pobres elevadores e shafts de energia, como fazia nos primeiros dias do casamento. Ao que parecia, um imperador não podia perder o controle na frente de seus comandados – tomava para si algum mérito por enfiar tais noções naquela cabeça dura.

Porém, ela não imaginara que o pequeno pátio coberto – “pequeno” quando comparado ao tamanho da Supremacy, uma vez que contava quase cinquenta metros de extensão e largura – parecia ter sido demolido por uma versão menor da Base Starkiller... Os alvos móveis que surgiam nos lugares mais inesperados estavam todos partidos em vários pedaços, os obstáculos postos abaixo e, não bastasse isso, rasgos alaranjados cobriam largos pedaços de parede, dos quais o metal derretido escorria alaranjado, como feridas abertas. No centro de tudo aquilo, sentado sobre os calcanhares e esforçando-se para meditar, estava Kylo; a irritação emanava dele como o calor de uma pequena estrela, mas Rey não mais o temia.

— Vendo o estado do pátio, eu diria que as paredes criaram vida e o atacaram violentamente — brincou ela, fazendo-o abrir os olhos. Indo até o esposo, sentou-se de frente para ele – ou a reunião com os conselheiros não seguiu muito bem, dado todo esse estrago.

— Eram as paredes ou a cabeça de alguém – respondeu ele, soturno, mas visivelmente um pouco mais confortável e satisfeito em ter a única pessoa cuja presença não o incomodava (na maioria das vezes) ou ameaçava.

— Hm, continue com as paredes, ainda que as pobres não tenham feito nada contra você – riu a moça, colocando-se ao lado de Ben e tocando seu ombro numa carícia reconfortante, que ele pôde sentir mesmo através dos trajes espessos – querido – ela hesitou em usar essa palavra, imaginando se eram próximos o suficiente para usá-la, mas logo em seguida mandou às favas esse pensamento – converse comigo. Diga-me o que há de errado.

— Nada de errado. – respondeu ele; nunca fora de se abrir com ninguém, mas... Gostava de ter Rey ao seu lado, para ouvir ao menos o que conseguia dizer – não no comando, mas... Às vezes pareceria mais fácil matar todos eles. Irracional, eu sei... Mas os conselheiros e políticos têm um talento especial para testar todo o meu autocontrole.

— Cujos limites parecem ter aumentado muito – era uma brincadeira e provocação, mas também um elogio, e Kylo compreendeu isso. Finalmente relaxando ao toque da companheira, permitiu-se passar o braço em torno de sua cintura e tombar levemente a cabeça contra a dela. Quantas pessoas lhe haviam dirigido ou permitido algum carinho, desde que era apenas um menino de sete anos? Nenhuma. Rey era a primeira a tocá-lo sem medo e, mais ainda, a primeira que se aproximava sem ser para machuca-lo, censurá-lo... Ela lhe dirigia carícias que nada tinham de similares às de uma amante, mas simplesmente a de um companheira: para confortá-lo, mostrar-lhe que estava ao seu lado, que não estava sozinho... E como era grato por cada segundo desses!

— Não o suficiente – respondeu, enfim – alguns parecem ter esquecido quem é o imperador, e tentam fazer objeções a minhas decisões sobre a criação do Senado Imperial... Parecem alienados ao modo como funciona uma galáxia!

— Parece que ouço um verdadeiro político falando – ela preferiu não mencionar Leia, mas a similaridade entre mãe e filho era notável – estavam acostumados a Snoke. Ele não queria ser um governante verdadeiro: queria que o temessem, que se submetessem e fossem escravos de sua vontade unicamente pelo medo. Algo assim não exige muito tato e compreensão.

— Bom, a Supremacy ainda é o único mega-destroyer estelar da galáxia; ainda temos a maior arma de destruição, e isso é um bom argumento nas negociações, mas, se apelar para seu uso a cada contratempo, não restará uma galáxia para comandar, e é ISSO o que aquela horda de incapazes não compreende. – ele fechou as mãos, furioso, antes de se voltar para Rey outra vez – irei refazer o alto escalão. Rebaixar os incompetentes, premiar os merecedores, renomear conselheiros.

— está pedindo uma opinião, ajuda, ou apenas informando?

— você conhece o serviço de relações interplanetárias, travou contato com os oficiais ao se juntar a eles no refeitório... Conheceu até mesmo os stormtroopers e pilotos de elite – Rey gargalhou ao lembrar da expressão de Ben quando soubera que ela jantara com os stormtroopers, mesmo que sob os olhos vigilantes do Capitão Shan. Fora uma pequena discussão, mas a Jedi simplesmente fingira dormir no meio da conversa, deixando Kylo falar sozinho, e nenhuma tentativa dele de “acordá-la” funcionara, sinalizando que ela simplesmente não iria ouvir mais uma palavra que fosse. Ele também parecia se lembrar do episódio, pois uma leve contração dos lábios quase se tornou m esboço de sorriso – Estou pedindo sua ajuda.

Kylo Ren pedindo ajuda? Melhor avisar ao responsável pelo leme para checar a rota, pois uma chuva de asteroides poderia cair sobre a nave a qualquer momento!

— Ajuda? – perguntou, e ele confirmou com um leve anuir – farei o que puder, é claro. Quando pretende fazer isso?

— Quando nos instalarmos em Rakata Prime. – respondeu ele – não quero pequenas revoltas e egos feridos enquanto estamos nesta nave: mais alguns dias, apenas, até mesmo para saber com certeza quem devo eliminar ou não – Rey torceu para que “eliminar” fosse apenas rebaixar, mas tinha a leve sensação de que estava mais para, como Eilenia definia, uma “exoneração via sabre de luz”.

— Farei o melhor possível – disse a Jedi, acariciando o rosto do esposo e dando-lhe um beijo suave nos lábios.

— Eu sei. – Respondeu o Sith, com uma breve carícia no rosto da esposa, antes de se levantar, rígido e tenso como sempre. Era um pouco frustrante o modo como ele se distanciava toda vez que a moça começava a encontrar um caminho através de seus escudos emocionais, mas ela não o censurava: não conseguiria fazê-lo superar vinte e dois anos de isolamento e desconfiança em apenas um mês, mas gostaria muito que ele se sentisse um pouco mais aberto, que não sentisse tanto medo de confiar nela mais do que já o fazia. Ambos sabiam que conheciam os sentimentos mais profundos um do outro, mas assumir aquilo em voz alta ainda não era algo ao alcance de qualquer deles.

Mais calmo do que quando Rey entrara no pátio, ele subitamente desconversou:

— Pretende viajar ao planetoide Dantroix, antes de chegarmos a Rakata Prime, não é?

— Sentiu isso, ou Eilenia lhe falou?

— Apenas conheço você. E Dantroix é a escolha mais óbvia, pela posição e por não possuir formas de vida hostis, especialmente com duas padawans ao seu lado.

— Eu preferiria ir antes de a Supremacy aterrissar em Rakata; mas, se precisar de mim agora, posso adiar essa viagem em alguns dias.

— Não – ele se virou e a encarou; tentar proibir a Jedi seria algo completamente inócuo, então logo descartou a ideia – se pretende ir, de fato, vá agora. Precisarei de você quando estivermos em terra, refazendo o Conselho, lidando com uma galáxia em ebulição. A ameaça de ter a Supremacy cruzando seus territórios intimida os republicanos, mas logo irão querer retaliar pelo episódio de Hosnian Prime; será quando eu realmente precisarei de você, pois simplesmente bombardear os planetas resistentes apenas alimentará a animosidade, e me forçará a destruir meia galáxia, o que eu realmente não quero ter de fazer.

— É mesmo meu marido quem eu escuto falar? – ela arqueou uma sobrancelha – está se saindo um verdadeiro imperador.

— Não crie ilusões, Rey: eu ainda destruirei alguns planetas, se e quando for necessário. Mas pretendo criar um império sólido e firme: destruir a Nova República com sabotagem e terrorismo foi fácil. Não tão fácil será aniquilar ou dominar os carteis criminosos alimentados por Snoke, que poderiam nos sabotar com a mesma facilidade... Ou lidar com uma facção da opositora que, mesmo fraca, abarca dezenas de planetas.

— Conversando com Lena e a Conselheira Shalya – Rey podia não concordar com a opção de Shalya pelo Lado Sombrio, mas a Cavaleira de Ren era extremamente competente enquanto diplomata – imaginamos que os antigos centristas, com as negociações certas, poderiam se aliar a seu império com alguma facilidade. Eles se alinhavam aos ideais de um governo centralizado, forte e capaz de manter a ordem. Um “império parlamentarista”, mesmo que sejam palavras quase opostas.

— Rey, não quero falar sobre isso, agora – ele admirava profundamente a velocidade de aprendizado e facilidade de raciocínio da esposa. Queria, um dia, ser capaz de exprimir o quanto a admirava, mas por ora isso não era relevante – Seu trabalho com a diplomacia é mais do que satisfatório, e por isso precisarei de sua ajuda. – ele parou por alguns momentos – por minha vontade, você não empreenderia viagem alguma, mas dar uma ordem a você é o mesmo que nada. Então, vá. Parta logo, para retornar antes de aportarmos.

Ela sorriu suavemente e anuiu; ia deixar o lugar quando sentiu a frustração de Ben em tê-la partindo... Por reflexo, voltou para ele e o envolveu num abraço apertado, pegando-o de surpresa! Sentiu as mãos trêmulas do novo imperador pousarem em suas costas, e sussurrou ao seu ouvido:

— Eu não o estou abandonando. Voltarei em menos de uma semana. – beijou-lhe o rosto e finalizou – Amo você, Ben Solo, mesmo que ainda duvide disso, em seu íntimo.

Ele não disse nada: apenas a abraçou com um pouco mais de força, e suas emoções se tornaram obscuras demais para a garota conseguir captá-las, como se ele se fechasse num escudo impenetrável. Não sabia dizer se era algo bom ou ruim, mas ao menos dissera o que precisava; quando finalmente se separaram, a moça lhe sorriu e falou:

— conte os dias. Estarei de volta em breve. E, enquanto isso... Ao menos não me terá rolando para cima de você, à noite.

Ele meneou a cabeça com ar condescendente, como se dissesse “que se há de fazer”. Viu a esposa deixar o lugar, e estranhou o vazio que a ausência dela deixou não apenas no ambiente destruído, mas em si mesmo.

“Está se tornando fraco e vulnerável, Kylo Ren” repreendeu a si mesmo. O fato de gostar da presença da moça não podia torna-lo mais fraco, ou fazê-lo sentir a presença dela como algo que o fortalecesse. Era uma excelente aliada, mas não podia ser mais do que isso. Ele era o imperador. O Líder Supremo. Não podia depender de ninguém, nem mesmo e talvez principalmente em suas emoções!

*

— Brenwen, conferiu as bagagens? – insistiu Rey, pela décima vez.

— Pela décima vez, Rey, conferi: a minha e a de Asala. Mas você mesma verificou se Asie estava levando tudo!

— Eu sei, mas... – ela deu de ombros – nunca viajei levando uma criança comigo, então prefiro exagerar por cuidado demais, do que por negligência. – ela e a princesa Lisin terminaram de colocar as mochilas na nave, providas de algumas mudas de roupas, alimento para alguns dias e só. Dormiriam na própria nave, ou fariam um abrigo se houvesse necessidade, mas a Jedi queria levar o mínimo possível de coisas; não era uma viagem de férias.

Asala, vestida com calças curtas, bustiê e faixa togruta nos quadris, parecia incapaz de conter o próprio entusiasmo ao dar um último abraço em Eilenia e saltar para dentro da nave-comando A, que se tornara o transporte oficial da Primeira Dama. As mulheres mais velhas se despediram, e a Twi’lek recomendou uma última vez:

— ative os escudos de camuflagem, apenas para ter certeza de que não a seguirão.

— já os programei para se ativarem assim que deixarmos o raio dos escudos defletores da Supremacy – disse a Jedi – não se preocupe, Lena: ficaremos bem, e voltaremos em uma semana.

— Não se esqueça de corrigir a rota para... – Rey respondeu aquilo erguendo a mão onde estava grava sua aliança. Os nanorastreadores que permitiam a Ben encontra-la onde estivesse, e ela a ele. Para não mencionar sua ligação através da Força, mas disso ela preferia não falar a respeito. – ah, certo. Então, tudo parece pronto.

— Serão dias curtos – as humanas abraçaram a diplomata e entraram na nave, Rey no assento do piloto, Brenwen ao seu lado – cuide-se, Lady Shan.

— Vocês também.

Rey acionou os motores, ativou os jatos propulsores e o trem de pouso se recolheu enquanto a nave pairava alguns metros acima do chão; nos corredores acima, olhando fixamente para ela, estava Ben. Apenas Rey reparou, e seus olhos encontraram os dele por alguns segundos... Talvez fosse impressão, mas ela poderia jurar que ele lhe deu um breve sorriso quando sentiu, mais do que ouviu, a voz masculina dizer em sua mente “tome cuidado”. Anuiu com um sorriso, e decolaram, saindo para a noite eterna do espaço.

— Rota traçada – informou às duas padawans, enquanto acionava os escudos de camuflagem – vinte e duas horas até Dantroix.

— Nem acredito que estamos saindo daquela sucata! – empolgou-se Asala, praticamente surgindo do nada entre as duas humanas.

— Você deve ser a única criatura que chama a Supremacy, a mais letal nave da galáxia, de sucata – riu Brenwen.

— Se fosse uma sucata, vocês se sentiriam em casa – declarou a Jedi, pensando com saudades na Milenium Falcon. A lembrança a fez evocar a imagem de Han, e por alguns instantes isso deixou um gosto amargo em sua boca... Porém, não durou muito – um dia, se o destino permitir, vocês conhecerão a melhor “sucata” da galáxia: Milenium Falcon.

— Ouvimos histórias sobre você pilotando a Falcon em Jakku – disse Asala – como foi? É verdade que entrou em carcaças de velhas naves e... – ante as infindáveis perguntas da Padawan, Rey riu consigo mesma: seria uma longa viagem, mas certamente nem um pouco aborrecida.

*

— Dantroix a vinte minutos, Rey – informou Brenwen. O pequeno planeta era menor do que muitas luas, mas recobria-se com mares de água doce e seu equador apresentava florestas de clima ameno, com vegetação de médio porte e sem a presença de grande predadores. A gravidade, ali, era 0.8 do valor experimentado nos cruzadores e destroieres, nada extremamente relevante. Todos os dados apontavam como um lugar mais do que ideal para o propósito das moças.

— Ativando propulsores de desaceleração – alertou a mais velha – Asala, tudo bem aí atrás?

— Bem?! É mais vida do que vi e senti em meus últimos quatro anos, e tem alguma dúvida quanto a se estou bem, mestra?! – ela sorria como nunca antes – mal posso esperar para pousarmos!

— Vinte e duas horas numa nave, e a energia dela não acaba – lamentou Brenwen, quase rindo.

— Ah, Bren! Diga que isso não é maravilhoso! Olhe só... Eu nem sabia que existia tanto verde, assim! – Rey engoliu em seco, lembrando-se de quando dissera aquelas mesmas palavras; a Togruta dissera quatro anos... Significava que ela fora entregue para a Primeira Ordem com apenas um ano a mais do que a moça tinha ao ser deixada em Jakku. Imaginou a garotinha, tão pequena e sozinha, escoltada por soldados para aquela nave sombria, e sofreu por ela. Talvez pudesse, como mentora, compensá-la ao menos um pouco pelo sofrimento passado; sorrindo, virou-se para ela:

— Sim, Asie; o universo tem muito mais coisas do que podemos sequer imaginar. Pronta para conhecer um pouco mais?

— Claro!

— Certo, copiloto – disse a morena – pousando em dez minutos. Prepare os amortecedores e a inversão polar: o terreno é irregular demais para trem de pouso.

Os próximos minutos foram apenas um contínuo procedimento de controlar a descida, despressurizar lentamente o interior da nave para ambientar seus corpos à pressão atmosférica local... Quando finalmente pousaram, era impossível dizer qual das três parecia mais eufórica! Com suas mochilas nos ombros, Rey se obrigou a um último alerta antes de abrir a porta:

— Fiquem perto. Os sensores não apontam nenhuma forma de vida perigosa, mas sempre pode haver riscos desconhecidos.

A nave pousara numa planície às margens de uma floresta com árvores esparsas, que permitiam fácil circulação; mais adiante, um dos inúmeros cursos de água que cruzavam o planeta, e floresta adentro brotava da terra uma formação rochosa cristalina. O ar era frio – ao menos para alguém que crescera num deserto tórrido – e úmido, e a brisa agradável trazia um perfume de ervas desconhecidas.

— Se formos dormir na nave – começou Brenwen – precisaremos ativar o modo de levitação magnética; se formos construir um abrigo, é melhor subir a montanha. Esta planície é inundável. – ela respondeu à pergunta muda das outras – eu tive uma vida, antes de me tornar refém.

Rey esboçou um sorriso e pegou o bastão de metal – seu acompanhante desde que tinha treze anos – para testar o terreno. Seus pés tocaram a grama úmida, e o cheiro de terra molhada a inebriou. Sentia a vida ao seu redor, como se todo o planeta fosse um ser a vibrar e respirar, a Força percorrendo tudo ao seu redor... Podia expandir sua percepção até os seres que escavavam túneis, abaixo, e às aves e estranhos animais que voavam acima... Sentir cada árvore de tronco largo e abaulado, raízes que descreviam um S, subindo para o ar antes de mergulharem na terra encharcada e largas folhas recobertas por suaves pelos macios...

— isso é... Lindo – suspirou a Corelliana, expandindo sua percepção do mesmo modo que aprendera a fazer nas aulas com Rey, as sensações se apoderando de si de um modo súbito e intenso, ao mesmo tempo assustador pela intensidade, e magnífico por sua natureza. Nunca se sentira tão... Em paz. – Isso é a Força?

— Tudo é a Força – respondeu a Jedi – isso é um mundo em equilíbrio, onde as ações das criaturas não desfizeram os ritmos naturais. – fitou Asala, satisfeita com o semblante da menina – sente, também, não é?

— Sinto tudo... E nada – respondeu a pequena, abaixando-se para tocar, maravilhada, a lama sob seus pés. – Sinto tudo ao meu redor, mas dentro de mim... Silêncio.

As palavras de ambas definiam muito bem o que a própria Jedi sentia; grata que tudo se houvesse iniciado tão bem, olhou em redor e decidiu seguir o conselho de Brenwen acerca de procurarem terrenos elevados: não queria ser pega numa inundação súbita.

— E então, o que estamos esperando? – perguntou, empolgada – vamos andar um pouco e conhecer o lugar em que estamos!

Com sorrisos, começaram a andar em direção à montanha, felizes como não se sentiam há um bom tempo! A primeira lição? Aprenderem a caminhar na charneca. Exigia concentração e, acima de tudo, que não tentassem se forçar a ter resultados. Assim como fazer objetos flutuarem, tratava-se de sentir o entorno, harmonizar-se a ele, deixar a energia percorrer seus corpos.

“Seja um recipiente vazio” sussurrou aquela voz conhecida na mente de Rey “abrande o ego e a vontade”

Prestando atenção ao que lhe era dito, respirou fundo e silenciou a mente; não se tratava de abandonar a consciência, mas de não pensar assiduamente no que fazia... Apenas deixar acontecer. Sentir a natureza fluir ao seu redor e através de si, relaxar até achar que poderia ser tão leve quanto a brisa; quando percebeu, caminhava sobre o terreno molhado mal deixando pegadas suaves.

— Como está fazendo isso? – perguntou Brenwen, os pés afundados até quase os tornozelos.

— Acho que... Parei de tentar. – ela toou o ombro das padawans, para que sentissem sua própria tranquilidade – abrandem-se, abandonem o ego e a arrogância de achar que podem controlar. Deixem que a terra as eleve, que o ar as torne mais leves... Fluam com a Força, deixem-na preenchê-las, conduzam-na, apenas, em vez de tentar dobrá-la.

Foi uma longa caminhada, e a própria Rey afundava ocasionalmente na lama quando seus pensamentos e sentimentos a traíam, mas quando alcançaram o sopé da montanha rochosa, as três haviam dominado razoavelmente a arte de, ao menos, não deixarem mais do que pegadas rasas. Com alguma inveja, Brenwen fitou a trilha dos passos da mais velha, não mais do que marcas suaves já prestes a desaparecer, assim que a grama se desamassasse.

— Como conseguiu tão rápido? – perguntou.

— Eu não sei. Disse a vocês exatamente o que estava fazendo... É uma questão de prática, apenas, eu creio. De não ter medo de falhar. – segurou o ombro da menina – não se cobre tanto. Não é uma corrida, nem uma tarefa. Cada um tem seu tempo, e tentar força-lo apenas atrasaria seu aprendizado.

— É claro, Rey. – concordou a outra – fui precipitada.

Enquanto isso, Asala estava bastante satisfeita com o progresso que tivera, ainda que suas pegadas fossem mais visíveis que as de Rey, e já se ocupava procurando uma trilha para subir as rochas cristalinas brilhantes.

— Mestra, encontrei um caminho! – anunciou, interrompendo as outras – para subir.

As mais velhas riram e acompanharam a garota, que ia à frente, maravilhada, empolgada, sentindo aquele mundo afastado ao seu redor como o aconchegante abraço de uma mãe. Sentindo que era parte de tudo aquilo, e tudo aquilo uma parte de si. Como mais uma árvore na floresta, uma gota de água na chuva, uma grão de areia na praia... E quando Rey a alcançou, imaginando o que fizera a criaturinha hiperativa parar, perguntou à Jedi:

— Já sentiu como se... Como se de repente descobrisse que você é, ao mesmo tempo, muito mais e muito menos do que pensava ser? Como se, mesmo não sendo tão importante ou poderosa, fosse essencial a seu próprio modo? Como uma árvore de uma floresta... Não é importante, sozinha, mas se não houvesse cada uma delas, não haveria floresta.

— Eu me espanto com você, Asala – Rey se abaixou para falar com a criança – é tão jovem, ainda, mas tem uma compreensão tão maravilhosa do mundo, e tanta sensibilidade! Sim, é isso mesmo: tudo é importante. Tudo é vital, porque o todo é composto por cada parte. Tire uma, e já não será o mesmo. Somos partes do Universo, da Força, e reproduzimos isso dentro de nós mesmos. – levantou-se – continue, padawan, mantenha sua mente e sentidos abertos, e este lugar lhe ensinará maravilhas.

Brenwen se aproximou, alcançando-as, e falou com um sorriso:

— Eu disse que ela era incrível.

— Vocês duas são. – corrigiu Rey, ajeitando a mochila nas costas – vamos, antes que fiquemos ambas para trás.

Alcançaram um platô mais de quarenta metros acima da charneca, coberto por árvores mais baixas e de troncos menos volumosos, cujas raízes serpeavam pelas ranhuras na rocha, dispostas de modo a abrir uma clareira ao centro, de onde podiam observar o sol azulado pairar acima do oceano, prestes a se pôr. E como se houvesse feito isso por uma vida, Asala começou a reunir pedras no centro da clareira, explicando:

— aqui é frio: precisaremos de fogo, para nos manter até mesmo secas com esse vento úmido do mar doce. Trouxeram os sacos de dormir, não é?

— Sim, hiperativa – confirmou Brenwen – vá devagar. Já quer assumir o controle de tudo e todos?

— Você sabe que fazíamos isso em meu planeta natal! – disse a menina. O comentário despertou a curiosidade de Rey, que desejou saber mais sobre suas protegidas... Assim, tão logo terminaram de afastar para o lado as pedras pontiagudas e reuniram galhos e gravetos mortos para o fogo, estenderam os sacos de dormir e se sentaram sobre eles para assistir aos últimos raios de luz desaparecerem atrás do mar. As estrelas surgiram acima e, a despeito de algum cansaço físico, tudo o que a Jedi sentia era a mais profunda e perfeita paz.

— Rey – começou Brenwen – seria muito atrevimento perguntar sobre sua história?

— Não, se eu puder fazer as mesmas perguntas. – respondeu a Jedi – uma noite de conversas, e amanhã iniciamos o treinamento propriamente dito?

Foi consenso geral do trio, naquele momento antes três amigas acampando num planeta ermo e maravilhoso, do que guerreiras da Força em treinamento. Afinal, até mesmo os mais fortes guerreiros precisavam saber apreciar a paz.

Enquanto o final da tarde se tornava noite, nenhuma delas imaginava as coisas que descobriria acerca das outras, e o quanto aquela viagem haveria de se tornar importante não apenas para o treinamento Jedi, mas para tudo o que viria, dali por diante.

Notas finais
E então? O treinamento de Asala e Brenwen começou para valer, e a própria Rey terá muito a aprender pela frente, mas excelentes mestres a guiá-la. O que acham disso? Suposições? Para os que eventualmente tenham ficado confusos com as ações de Kylo, a explicação: ao contrário de Snoke, ele não quer reinar sobre o que restar de uma galáxia destruída. Quer ser um Imperador de fato, provar a si mesmo e seu valor, deter um poder real de comando; ser obedecido por seus comandados, em vez de viver a retaliar insurreições. Ser o que Darth Vader poderia ter sido. Se eu falar mais do que isso, já seria spoiler, então, é só o que posso contar. Espero realmente que tenham gostado, e nos vemos dia 14, com o capítulo bônus, ok? BEIJOOOOOOOS!