Rise of Jedi
7 Sentimentos
Notas iniciais
Após algum tempo, Rey se responsabilizou por levar Eilenia a seus aposentos; Ben, surpreendentemente, decidiu-se por acompanha-las. E foi uma boa ideia, pois a invasão mental instabilizara profundamente a diplomata, exausta e padecendo dores de cabeça terríveis o bastante para dificultar-lhe o caminhar. A Jedi passou o braço da amiga por seus ombros, apoiando-a, e o Líder Supremo sustentava ambas através da Força. Sim, poderia fazer outra coisa, mas depois do ataque naquele dia não deixaria Rey fora de suas vistas um segundo que fosse!
A Twi’lek habitava na ala militar, sendo esposa de um capitão. Por sorte ou azar, este encontrava-se nos próprios aposentos, e espantou-se em ver o estado da esposa. Capitão Isval Shan era um Twi’lek de pele verde-escura, olhos vermelhos marcantes, rosto de feições fortes e lekkus grossos e longos, que indicavam seu vigor. Recém-chegado aos aposentos, ainda estava fardado, e com espanto e preocupação correu para a esposa:
— Lena – tomou-a nos braços, erguendo-a como se nada pesasse – meu amor, o que houve?
— Umbaranos – explicou Rey – um deles entrou em sua mente. Os médicos disseram não haver nada a fazer, além de lhe dar sedativos e deixá-la dormir, quando a dor de cabeça começasse.
— Lady Solo – o capitão percebeu com quem falava, e espantou-se mais ainda ao ver Kylo Ren – Líder Supremo! Perdoem-me, eu...
— Cuide de sua esposa – disse Kylo – ela é sua prioridade, agora, e não formalidades.
— Sim, meu senhor. – ele executou uma reverência, mesmo tendo a esposa nos braços – se me permitirem, levá-la-ei para a cama, e chamarei uma unidade médica.
— Tomei a liberdade de chamar uma – respondeu Rey – está a caminho, com sedativos e analgésicos.
— Obrigado, Lady Solo. – Ele se curvou outra vez – fico muito grato.
— Vá. Cuide dela, capitão Shan. – disse a Jedi, curvando a cabeça em cumprimento respeitoso – Lena é minha amiga, e é a prioridade de todos nós neste momento.
— Obrigado, minha senhora – Rey lutou para não revirar os olhos. Mais tarde pediria a ele que não a tratasse daquele modo, mas no momento apenas ficou aliviada quando um droide-enfermeiro entrou nos aposentos, e Isval o acompanhou. Quando as portas se fecharam, a Jedi se voltou para o esposo:
— Como está sua cabeça?
— Dolorida, mas passaria facilmente ante a possibilidade de matar lentamente cada um dos que a atacaram.
— Fico lisonjeada com a preocupação, mas tudo o que quero é desativar a sirene que parece ter sido colocada em minha cabeça. – ela apertou as têmporas – melhor pensando, parece um torno mecânico particularmente barulhento. Vou sobreviver.
— Os Umbaranos precisarão de algumas horas para voltarem a ter mentes individuais. – ele deu um sorriso levemente cruel – até escaparem da teia que você criou.
— Eles criaram. Eu escapei de lá e os deixei se emaranharem sozinhos – defendeu a moça – não piore meu sentimento de culpa.
— Certo, Lady Solo – suspirou Ben – não quero brigar agora. Minha cabeça também está estourando. – ele a segurou pelo braço e a puxou – vamos para meus aposentos, onde eu tenho certeza de que ninguém atentará contra nossas vidas, pelo menos por algum tempo.
No quarto, o Sith sentou sua esposa numa poltrona e foi até um criado-mudo que emergiu da parede. Abriu uma gaveta e retirou de lá uma minúscula ampola acoplada a uma agulha. Quebrou o lacre, expondo a agulha, e abaixou-se junto a Rey, segurando-lhe o braço. De imediato ela se encolheu:
— O que vai fazer com isso?!
— Prefere ficar com dor o resto do dia? – ele a segurou com mais força e aplicou. Foi rápido e indolor, havendo terminado antes que ela pudesse protestar. Levantando-se, o homem pegou outra e aplicou em si mesmo, na base do pescoço.
— O que é isso? – indagou Rey, confusa.
— Um tipo específico de analgésico. Não causa sono, mas alivia a dor. – ele deu de ombros – não se preocupe, não é viciante.
A Jedi teria dito algo, mas sabia muito bem por que o esposo tinha aquilo no quarto: quantas centenas de vezes ele não fora torturado daquele modo por Snoke? Quantas vezes não tivera de se arrastar para os próprios aposentos com a mente dilacerada, os nervos em farrapos, e ainda ter de se mostrar forte? Era óbvio que teria aqueles analgésicos para ajuda-lo.
— Pensei que a dor fosse encorajada... – perguntou ela, enfim.
— Apenas em certos limites. Dores mentais tiram a lucidez e embotam o pensamento. – ele parecia sem energia até mesmo para discutir, quando se largou na poltrona ao lado da de Rey, parecendo cansado. Não fisicamente, mas o modo como curvava os ombros e fechava os olhos dizia a ela que já conhecera dias melhores.
— Ben, posso fazer algo? – perguntou a garota, segurando a mão do marido, que a fitou intensamente.
— sim. Mande a um droide que traga seus pertences para cá. Dividirá os aposentos comigo, agora, ao menos por algum tempo.
— O quê? – ela se espantou – quer que nós... Dividamos os aposentos?
— Com pessoas querendo nossas cabeças, Rey, não é hora de estarmos separados. – ele tinha um tom que não admitia contestação, e ela compreendeu.
— Posso me acostumar a dormir ao seu lado, toda noite – tentou sorrir, mas a dor de cabeça transformou o sorriso numa careta – quanto tempo isso leva para fazer efeito?
— A primeira vez é a pior – disse o Sith, subitamente erguendo a esposa e deitando-a na cama – além disso, foram seis Umbaranos. É um mistério que não esteja alucinando e delirando. – ele acariciou o braço dela – talvez as engrenagens em sua cabeça não funcionem normalmente.
— Não funcionam – respondeu a moça, suspirando – vendi a maioria delas em Jakku, no entreposto.
Ben sorriu e, percebendo que Rey tremia, puxou cobertores sobre ela; a violação mental era a experiência mais traumática e destrutiva que havia. Ele fora treinado para suportar e resistir, e ainda assim estava abalado... Mas ela suportara dois ataques maciços – um de Snoke e outro dos insurretos – em menos de dez dias. Como conseguia manter-se lúcida e forte, em vez de se desmanchar em delírios, confusão e fugas era um grande mistério.
Ficou sentado ao lado da esposa – nunca conseguia dormir depois de confrontos mentais, os quais punham abaixo suas inibições racionais e libertavam toda a tempestade emocional que havia em seu interior – observando-a dormir e meditando... O Mestre Jedi sobre o qual ela falara, parecido consigo... Talvez fossem os ciúmes falando, o despeito por uma garota recém-despertada para a Força igualá-lo e mesmo superá-lo em tantos aspectos diferentes, mas tinha uma certeza: fora Anakin Skywalker quem falara a sua esposa. O avô a quem idolatrara por toda uma vida, cujos passos seguira à custa de incontáveis sofrimentos, em cujo nome abdicara de tudo o que fora! Para seguir os passos do avô! Para continuar aquilo que Darth Vader não concluíra! Para dar orgulho a ele! E era a REY que ele se mostrava? QUANTAS VEZES ELE NÃO ESTIVERA SENDO DESTROÇADO POR SNOKE, DESESPERADO POR SOCORRO?! E ALGUMA VEZ HOUVERA ALGUMA AJUDA?! POR QUE ELE ERA MENOS DIGNO DO QUE UMA ILUSTRE DESCONHECIDA, SEM QUALQUER LIGAÇÃO COM O SANGUE SKYWALKER?!
A raiva quase o cegou, fazendo a dor e a confusão passarem completamente, obliterando a razão; fitava Rey, e no momento odiava-a com todas as suas forças: segurou o sabre de luz, dominado por ódio. Se a matasse agora, provaria a todos que era forte... Eliminaria a rival que ameaçava ofusca-lo muito em breve. A Jedi que jamais se curvaria ao Lado Sombrio, e fatalmente tornar-se-ia sua inimiga, um dia. Por que esperar? Por que aguardar que ela o conhecesse, que o vinculasse a si ao longo do tempo, tornando tudo mais difícil? Por que não fazer agora o que teria de fazer, um dia, e evitar a ameaça que ela representava mesmo para seu domínio sobre o Lado Sombrio, influenciando-o com sua luz?
Sua mão tremeu, incapaz de acionar o sabre. Sabia que era necessário, que algo nocivo devia ser exterminado pela raiz... E aquele sentimento que começava a nutrir por ela era a maior de todas as ameaças! Acima da frustração por ser preterido em função de um recém-desperta, acima do medo de que as habilidades dela o ofuscassem, acima da raiva por Vader proteger a sucateira, e não ao próprio neto... Acima de tudo isso havia medo. O medo terrível que ela lhe inspirava, pois com ela sua raiva abrandava, sua escuridão flamejante tornava-se serena e suave... Ela o tirava de suas emoções primitivas e o... Transformava. Sentia-se melhor? Sim. E a tentação à luz que isso representava era a maior ameaça. Precisava cortar aquele mal imediatamente.
Tentou mais uma vez acionar a arma, mas não conseguiu: seus dedos tremiam violentamente... Viu a moça abrir os olhos, confusa, assustada... O que viu no olhar dela lembrou-o de si mesmo. Do que sentira quando vira seu tio, Luke Skywalker, prestes a mata-lo! Misto de resignação, desapontamento, mágoa, ressentimento, medo, traição... Tudo aquilo no olhar dela, como um dia estivera no dele, e naquele momento percebeu que não conseguiria fazer. Não porque não podia, mas porque não queria. Não iria. Precisava, mas não queria! Preferia enfiar a espada em seu próprio peito a descê-la sobre a garota que, ainda sob os efeitos debilitantes do ataque mental, não conseguia invocar o próprio sabre de luz para se defender. Seria tão fácil... Ela levaria um segundo para se recompor, e um segundo, para um Cavaleiro, era uma eternidade... Sua mente gritava “Faça!”, mas seu coração o impedia com força maior.
“Ela não é sua inimiga, Ben.” Sussurrou a voz misteriosa em sua mente “Não cometa o erro que cometi.”
“Ben?” As palavras fizeram um calafrio percorrer todo o corpo de Kylo, mas tudo se desvaneceu quando Rey se sentou e o fitou com firmeza, embora também houvesse profunda mágoa:
— Faça. – ela o fuzilava com o olhar — Vamos. Acione o sabre, e termine com isso antes que comece. Mate-me, antes que o destino nos faça inimigos.
Kylo a encarou com perplexidade... Olhou para o sabre em sua mão, e havia algo de horror em seus olhos. Ele quase matara Rey! Quase matara a mulher pela qual nutria algo terrivelmente poderoso e maravilhoso, e unicamente por ensinamentos que lhe diziam não poder ter fraquezas, principalmente daquele tipo... Agora ela o observava sem medo, embora resignação não fosse algo presente em seu semblante... Desafiava-o a completar o que tentara começar! Em resposta, com um grito de ódio Ben arremessou longe sua arma e caiu de joelhos diante de Rey, os olhos negros cheios de culpa, dor, confusão, uma súplica muda... Ela se levantou da cama e o fitou de cima, consciente de cada emoção do homem diante de si.
— Eu lutei ao seu lado. – disse Rey, alterada pelos sentimentos em ebulição dentro de si, incapaz de controlá-los não apenas devido às feridas mentais, mas ao choque sofrido no despertar – entreguei-me a você. Entreguei-lhe meu corpo e deixei mesmo que soubesse de meus sentimentos... – ela tinha incredulidade, algo de raiva e muito de decepção. Ficou imóvel em frente ao esposo, seu olhar preso no dele em absoluto silêncio antes de, repentinamente, desferir um tapa em seu rosto com as costas da mão e elevar a voz – CRETINO! Sabe O QUE me deu forças para lutar, durante o ataque?! EM QUEM EU PENSEI?! EU PENSEI EM VOCÊ! NÃO PODIA ME RENDER, NÃO PODIA DEIXAR QUE FOSSEM ATRÁS DE VOCÊ, SEU INGRATO! – a Jedi se esquivou dele e tentou sair correndo do quarto, mas braços muito fortes se fecharam ao seu redor e a tiraram do chão, de modo que não tivesse apoio para resistir.
Rey se debateu e lutou, mas não havia como se livrar dos braços de Ben sem o chão como apoio. Rendeu-se, então, padecendo uma terrível vontade de chorar que apenas o orgulho permitia reprimir. Não choraria diante dele! Nunca diante dele! Estendeu a mão e chamou seu sabre de luz, mas foi subitamente jogada na cama e, a despeito de sua luta, acabou imobilizada sob o corpo de Ben. As mãos grandes seguravam os pulsos da moça, ele se sentava sobre suas coxas de modo que a menina não pudesse fazer o menor movimento.
— LARGUE-ME, KYLO REN! – gritou ela, furiosa, virando o rosto para não ter de ver aqueles olhos negros.
— Rey, olhe para mim. – a voz dele era imperativa e tão firme quanto o aperto que mantinha nos pulsos da esposa, mesmo sem machuca-la. A Jedi cerrou os olhos com força e engoliu em seco: sentia-se traída e machucada em tantos níveis diferentes! Como ele pudera...? Enfim, não conseguiu mais evita-lo e abriu os olhos. O semblante de Ben era cheio de culpa.
— Agora sente-se culpado, Líder Supremo? – a voz dela era cheia de veneno.
— Uma vez em sua vida, apenas escute! – precisava que ela o ouvisse. Precisava se explicar... Não podia deixar que ela passasse a odiá-lo! Não pelo maior erro que já cometera em um momento de raiva.
— ESCUTAR O QUÊ?! – ela se contorceu e conseguiu escapar das mãos do esposo, rastejando de costas para o lado oposto da cama, deixando o móvel entre ambos e chamando seu sabre de luz, contudo sem acioná-lo – escutar como pretendia eliminar-me, por ter medo de um dia eu representar ameaça a seu poder? Por temer um dia termos de nos defrontar como inimigos? Ouvir como desejou destruir-me antes que me tornasse uma Jedi completa? Por eu ter recebido o conselho de ANAKIN SKYWALKER, quando precisava, em vez de VOCÊ?! – os olhos do Sith se arregalaram em espanto – acha que não senti seu ressentimento e raiva, quando lhe contei? Que não percebi quem era o Mestre da Força, quando vi em seu olhar o reconhecimento? Você...
— CHEGA, REY! – ele esmurrou a parede com tanta força que a moça jurou ter ouvido ossos se partindo, antes de se virar para ele – sim, eu quis mata-la! Eu tentei, com todas as minhas forças! Por todos os motivos que disse, eu sabia que era o que um Sith deveria fazer. Mas não tive forças para isso!
— Então tenha agora, como teve para destruir seu pai! Talvez eu estar acordada torne mais fácil! – ela estava tão machucada, que no momento queria que ele sentisse ao menos uma fração de sua angústia, e apelava para o que sabia doer mais na alma do esposo. – livre-se de vez de qualquer laço que possa enfraquecer seu ódio, de qualquer pessoa que possa amá-lo!
— FOI EXATAMENTE O QUE ME PAROU, REY! – ele disparou de volta – MALDITA SEJA, TUDO ME DIZ QUE EU DEVIA MATÁ-LA, MAS ESSE SENTIMENTO QUE CRESCE EM MIM, O QUAL ME ENFRAQUECE E TORNA SUA MORTE UMA NECESSIDADE URGENTE, É EXATAMENTE O QUE ME TORNA INCAPAZ DE MATÁ-LA! – ele deu a volta na cama e foi até Rey, que se encolheu contra a parede, tão incapaz de acionar sua arma quanto ele estivera. Ben tinha raiva nos olhos, mas também desespero, desejo e... Ela não se deixou acreditar que pudesse ser amor, pois não queria ter o próprio coração partido novamente. Encolheu-se mais quando Kylo ergueu as mãos e, defensiva, pediu em voz baixa:
— Não me toque.
— Você tem duas opções – começou ele, segurando-a pelos braços com firmeza – ouvir-me até o final por bem, ou ser imobilizada e obrigada a ouvir de qualquer jeito.
Ela o fitou com olhos marejados, e duas palavras saíram de seus lábios trêmulos:
— Por quê? – saber que ele desejara mata-la e, pior ainda, enquanto estava adormecida, confiando nele, acreditando estar segura em sua companhia... A traição era o que doía acima de tudo.
— Porque você está me mudando, Rey. – ele a tocou de modo quase doce, percorrendo seu rosto e pescoço com os dedos, envolvendo levemente a garganta da Jedi, sem apertar – porque exerce um poder sobre mim que me assusta, e como um Sith eu deveria eliminá-la. Mas não posso. Não posso, porque o mesmo sentimento que me obrigaria a exterminá-la já se tornou forte demais. Eu não percebi o que acontecia, até ser tarde; houvesse compreendido antes, tê-la-ia matado sem hesitar... – ele umedeceu os lábios secos e tomou o rosto dela entre as mãos — Mas não posso mais. Prefiro enfiar aquele sabre em meu peito ou deixar que você me mate a fazer o que, em minha mente, sei ser necessário. E eu a odeio tanto por isso... Eu a odeio por me fazer sentir desse modo. Queria ter forças de fechar as mãos em sua garganta e apertar até a vida deixar seus olhos, mas a mera ideia de vê-la morrer é mais dolorosa do que qualquer coisa que já senti. – agora era ele quem tinha os olhos marejados – o que está fazendo comigo?!
— O mesmo que você faz a mim. – ela não resistiu: enterrou os dedos nos cabelos de Ben e o puxou para si, beijando-o com misto de fúria, raiva e amor. Ele correspondeu erguendo-a do chão pela cintura:
— Odeio você, Jedi. Odeio-a e anseio por si. Odeio-a e... Que as trevas a amaldiçoem por isso! Creio que começo a amá-la. – envolveram um ao outro num beijo que oscilava nos limites entre a fúria e a paixão. Diziam que o ódio é próximo ao amor... Então a raiva caminhava de braços dados com a paixão, pois sentiam suas carnes se incendiando, e nada era perto o bastante, beijo algum os saciava, de fato. Seus toques e carícias eram agressivos um com o outro, mas igualmente carregados de desejo, nenhum deles agindo de modo racional, suas emoções completamente libertas.
De repente, contudo, Rey o empurrou e se afastou bruscamente, ajeitando as roupas tortas e amarfanhadas:
— isso não tem como dar certo. — mirou seu esposo, cujo semblante era misto de sofrimento, raiva e confusão — você não me matou porque não teve forças. Desta vez, não teve. E quando tiver? Quando sentir que eu sou uma ameaça terrível demais, e o Lorde Sith falar mais alto do que o homem?
— Dane-se o Lorde Sith! — respondeu Kylo, intenso e feroz — danem-se os Jedi, danem-se as regras desse jogo hipócrita! Lado Sombrio, lado luminoso, regras do equilíbrio... Dane-se tudo isso! – ele caminhou de um lado para outro, seus sentimentos em turbilhão — Eu sou o Líder Supremo deste império! Estou farto de ouvir que estou errado, que devo ou não fazer algo! Estou farto de regras do Sith, dos Cavaleiros de Ren! Agora, eu comando! Farei a minha vontade, e a minha vontade é você, comigo, ao meu lado de todos os modos possíveis! Para o inferno com o que é esperado de um servo do lado sombrio. — ele a abraçou possessivamente — perdi coisas demais. Não perderei você, também. Não serei mais um servo: serei um mestre.
— Eu sou uma Jedi, Ben...
— É a sua escolha. A minha é matar em minha mente todas as regras e ensinamentos estúpidos sobre o que devo ou não fazer. Este é o meu império. Esta é a minha vontade. Este é o MEU caminho, através das sombras, e ninguém mais me dirá como trilhá-lo.
Rey não sabia dizer se alegrava-se ou não com aquilo. Ben estava disposto a se livrar do passado, das amarras que o haviam prendido... Mas até que ponto isso era uma coisa boa? Pela Força, ele acabara de tentar matá-la, e agora dizia aquelas coisas... De algum modo, ela entendia o que o motivara e, o mais assustador, algo em si alegrava-se com o que ele dissera, agora. Outro lado perturbava-se, sentindo que algo mais sombrio pudesse ter sido libertado... Não conseguiria pensar ali, ao lado dele, ela própria fervendo de ressentimento e paixão simultâneas...
— Preciso respirar – disse a jovem, afastando-se. – estarei em meu quarto, quando precisar de mim.
Saiu mal conseguindo dar acordo do que fazia: aquele dia fizera de tudo para tirar sua sanidade! Primeiro os Umbaranos, agora Ben – provavelmente também reagindo ao ataque mental. Precisava afastar-se de tudo aquilo, pensar, acalmar-se e encontrar seu centro, pois sentia-se como se arrastada por uma tempestade de areia!
Fechou-se em seus aposentos sem ativar móvel algum, apenas o entorno vazio que, de alguma forma, ajudava-a a esvaziar também seus pensamentos. Sentou-se de pernas cruzadas no centro do aposento e, respirando fundo, concentrou-se apenas no lento inspirar e expirar, abandonando lentamente a tempestade em seu interior.
*
Em sua mente, ela flutuava acima de um vasto oceano, sem peso, longe de qualquer indício de terra. Apenas mar e céu azul até onde os olhos podiam alcançar, fundindo-se no horizonte até acima e abaixo tornarem-se indistintos. Sentiu uma presença ao seu lado e, virando-se, encontrou um homem de cabelos louro-escuros e cacheados, olhos tão azuis quanto o oceano, rosto oval, de malares fortes e traços firmes. Não precisou que ele se apresentasse, pois sentira aquela energia antes:
— Anakin Skywalker...
— Rey. – o homem sorriu e, de braços cruzados às costas, aproximou-se da moça – foi exemplar, hoje.
— Como posso ter sido exemplar? Minha mente quase se estilhaçou, minhas barreiras vieram abaixo... Eu disse coisas que jamais teria dito, coisas cruéis... Agi de um modo sombrio, deixei-me levar por emoções baixas e selvagens...
— É tentadora, não é? A vingança. – ele deu de ombros – sentimo-nos feridos e queremos que o outro experimente a mesma dor. – ele viu a expressão de vergonha e arrependimento da padawan e pousou uma mão em seu ombro, confortando-a – não que isso a isente completamente, mas, em sua defesa, um ataque como o que sofreu confunde e lacera a mente. Foram suas emoções que falaram, descontroladas e desinibidas. Assim como as dele.
— Ben... – Rey levou a mão à testa – tudo o que houve foi... Tão confuso!
— Nenhum dos dois possuía razão para mediar as próprias ações. Se isso a consola, as palavras dele foram absolutamente verdadeiras. Não havia razão em qualquer dos dois: aenas emoções em seu estado mais bruto. – o Jedi fitou o horizonte distante – entende por que os Jedi proibiam relacionamentos amorosos e familiares? Torna-se muito difícil ser isento, pôr em primeiro lugar seu dever... Amar é um ato sublime, encorajado como o mais nobre dos sentimentos quando estendido a tudo o que existe. Mas amar um indivíduo em si, apaixonar-se... É uma fraqueza, e não adianta negar. Mesmo que seja excepcionalmente lúcida e capaz de conter os próprios impulsos, sua primeira preocupação será em relação ao ser amado. – ele a fitou com um olhar levemente amargo – sei bem qual a sensação. É preciso uma força de caráter incomum para conseguir lidar com tais sentimentos e ainda cumprir seu dever.
— O que faço, Mestre Anakin? – perguntou ela, exasperada – ele me perturba e desconcentra, provoca em mim sentimentos que não desejava ter... Mas sinto que também o afeto. Certo, ele confessou que o faço...
— Preocupe-se menos com o que há entre vocês dois, menina. Ocupe menos sua mente com isso. – foi o conselho do Jedi – Dedique-se a seu papel como Jedi: trazer a paz. E mantenha as questões da Força e seus caminhos fora de seu relacionamento com Bem: separar as coisas será um bom começo. Saiba diferenciar quando ele é seu aliado em um objetivo, seu adversário enquanto seguidores de lados opostos da Força, ou apenas seu esposo; não tente agir como se pudesse ser mais de uma coisa por vez.
— E o que posso fazer, agora? Sei que preciso encontrar um modo de restaurar o Equilíbrio, proteger os que foram abandonados à própria sorte, trazer paz para a galáxia... Mas não sei como! Não sei por onde começar a fazer algo maior, mais significativo.
— Continue aprendendo. – ele retirou do bolso do colete marrom uma pequena esfera semi-translúcida, metade negra e metade branca, entregando-a a Rey – medite. Sinta a Força, e procure compreendê-la. Estude a política, a história da galáxia e dos Jedi, para compreender onde seus predecessores erraram ou acertaram. Conheça a história da linhagem de seu marido, e conseguirá compreendê-lo enquanto Lorde Sith.
— E como posso ajudar Ben?
— Não tente. Tentar ajuda-lo aumentará a raiva do garoto, além de desviar sua atenção de seu verdadeiro objetivo, Rey. Seja quem você realmente é, mantenha-se fiel a seus princípios, a seus verdadeiros sentimentos. Não se deixe infectar pelo meio corrupto no qual foi enredada e, cumprindo sua missão, ajudará o homem a quem ama. – um sorriso amargo se esboçou no rosto de Skywalker — eu tentei ajuda-lo, ao longo de todos esses anos... Porém, ele nunca me ouviu, de fato. Cria que minha voz era apenas a manifestação dos próprios pensamentos, e absorvia-se demais nos ensinamentos de Snoke para ter lucidez e compreensão do que fazia. Isso mudará, agora, pois está livre para explorar os próprios limites. Tenha cuidado, pois meu neto estará mais perigoso do que jamais foi; farei o possível para orientá-lo, mas é um jovem teimoso.
— Tenho de proteger as pessoas de sua ira. – declarou a moça, determinada, o que gerou um pequeno sorriso no rosto do cavaleiro.
— Sim. Um bom começo, enquanto aumenta suas forças e conhecimento. – eles caminhavam pelo ar sem ir a lugar algum, mas o ato tranquilizava a garota – muitos pensam que apenas grandes poderes podem conter o mal, mas a bondade e luz residem também nas pequenas coisas. Pequenos gestos de altruísmo, coragem e nobreza, quando combinados, podem ser tão ou mais poderosos do que um grande e terrível confronto. – os olhos azuis se fixaram na moça – nós nos veremos outra vez, Rey Solo. Até lá, mantenha-se fiel a si mesma, e à luz. Compreenda o que eu não pude: a sombra não vem de fora. Está dentro de nós, e aflora quando permitimos que se fortaleça. Não existe lado claro ou lado sombrio na Força: apenas em nós mesmos. O restante é a manifestação do que trazemos em nosso interior. A Força reage ao que somos, mas é neutra e equilibrada em si mesma. Sinta-a, e encontre nela seu próprio equilíbrio, quando perder o controle.
— Eu me lembrarei disso, mestre Skywalker.
— Eu sei que sim. – o Jedi tocou a testa da menina, que sentiu uma pontada aguda – a dor passará depressa. Quando retornar, estará novamente sã. Seja firme, padawan, e sobretudo, seja sábia.
A moça ergueu o rosto para falar algo, mas Anakin desaparecera, deixando-a sozinha naquele mundo de paz e serenidade, com apenas a esfera branca e negra em mãos. Após um tempo impossível de definir, Rey se sentiu lentamente puxada para trás, enquanto sua visão ia gradualmente escurecendo, levada a um sono profundo.
*
Acordou sentindo-se melhor do que estivera em muito tempo; não sentia dor alguma, e seu espírito estava sereno. Estranhamente, não estava no chão, mas deitada em sua cama, com seus aposentos configurados como quarto. Não havia ninguém consigo, entretanto soube de imediato que fora Ben quem a encontrara em transe e – tomando-a por adormecida – colocara-a na cama. Uma breve onda de ternura a invadiu, antes de se lembrar das palavras do Mestre Jedi: prioridades. E a sua, agora, era ajudar Kylo Ren, o Líder Supremo, a desvendar quem estava por trás do ataque.
Jogou as cobertas para o lado, e a esfera de vidro de seu sonho rolou sobre a cama. Apanhou-a com curiosidade, imaginando como podia ter se materializado... Era um objeto estranho e fascinante, opaco quando visto de quase todos os ângulos... Porém, ao fita-lo de modo que só se visse a cor branca ou a cor negra, tornava-se levemente translúcido e permitia visualizar o lado oposto. Era intrigante, fascinante, e sentia haver um significado naquela esfera que o Mestre Jedi pretendia lhe ensinar... Mas não agora. Guardou a esfera no criado-mudo e se levantou, calçou os sapatos, pegou o sabre de luz e foi para o corredor. Era noite, mas já descansara demais; algo lhe dizia que não tornaria a dormir, tão cedo.
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