Notas iniciais
Oi, gente! Sim, eu editei esse capítulo, juntando-o com o primeiro que, por algum motivo, não estava abrindo. Então, esse aqui é o primeiro, de verdade. Desculpem o transtorno! Então, sem mais delongas, deixo vocês com o capítulo que trará não apenas a união de Kylo e Rey, mas algumas explicações para uma decisão tão inesperada. E se esperam que tudo corra bem, melhor acionar os escudos defletores, pois talvez ocorram alguns tiros de blaster! Agradecimentos a todos que estão acompanhando! Vocês tornam meus dias melhores!

— Deixemos tudo isso morrer – disse Ben, mão estendida para Rey – venha comigo. Deixemos o passado morrer: os Jedi, os Sith, a Rebelião... – Rey meneava a cabeça, desesperada, implorando com os olhos para que ele não terminasse a frase como sabia que o faria...

— Ben, não... Não tem de ser assim, por favor...

— Governe a galáxia comigo. Façamos nosso próprio império, criemos uma nova ordem. Você e eu, Rey. Ninguém jamais se importou com você, seus próprios pais a venderam, não é importante para ninguém... Mas é, para mim. – as palavras dele doíam como punhais no coração da jovem, que via os disparos da nave passarem raspando nas cápsulas de evacuação restantes... Já havia apenas 10 delas... Logo não restaria nenhuma! Seus amigos estavam morrendo, e ela se sentia um monstro por, no fundo de sua alma, desejar de algum modo poder fazer o que Ben dizia... Seria um crime tão grande assim? Procurar seu lugar no mundo? Um lugar onde a amassem, onde ela fosse relevante, de algum modo? E estando ao lado de Ren, não poderia ela trazê-lo de volta à luz? Todos esses pensamentos se misturavam num turbilhão na mente da moça, que apenas conseguia sentir as mortes dos amigos, mesmo à distância.

— Por favor, Rey. – pediu Kylo – venha comigo. Fique comigo. Mate o passado, deixe nosso futuro existir.

Ela olhou uma última vez para as naves, e então fitou os escuros e perturbados olhos de Ben:

— Ordene o cessar fogo, e serei sua. Menos de duzentas pessoas em dez cápsulas de fuga não são uma rebelião, muito menos uma ameaça a você, mas são os únicos amigos que já tive, independente do que você diga. Ordene cessar fogo, poupe essas pessoas, e ficarei ao seu lado, como quer que eu faça. – ela viu a desconfiança no olhar dele, e finalizou – tem a minha palavra. Olhe em minha mente, se quiser, mas, por favor, poupe-os! Eu juro aceitar o que me pede, se os poupar. – os olhos de Rey eram pura súplica, mas sua mente trabalhava depressa. Passara por seus pensamentos a ideia de enfrentar Kylo Ren, mas a verdade é que não conseguiria mata-lo... Não depois de ter tocado sua mente e visto que ainda havia luz nele. E fugir para fazer o que? Mesmo que conseguisse embarcar imediatamente na Falcon, seria impossível proteger todos os rebeldes. Eles morreriam antes de chegar ao planetoide. Não... Uma troca com Kylo era a única chance de dar aos seus amigos uma fuga. E ele claramente considerava a possibilidade. Finalmente, após o que pareceu uma eternidade, ele declarou:

— Temos um acordo. – levou o comunicador perto do rosto e falou – O Líder Supremo ordena o cessar fogo. Deixem as naves alcançarem o planetoide. – ele olhou para Rey, cujos olhos estavam fechados num alívio que a deixara levemente trêmula. Com expressão séria, ele viu os disparos se interromperem e aproximou-se da jovem Jedi – considere isto como um presente de núpcias.

— Núpcias? – os olhos dela se abriram, estupefatos e confusos.

— O que pensou que eu lhe propunha, ao pedir que governasse ao meu lado, Rey? – ele acariciou o rosto da garota com as costas da mão enluvada. Como era jovem! Teria mais de 20 anos? Ele duvidava, apostando antes em 18, 19... E ainda assim, sem treinamento nem orientação, as habilidades dela se equiparavam às suas; suspeitava que a moça não tinha a menor ideia do quão poderosa era, do que tamanho domínio sobre a Força significava, e desejava muito ser a pessoa que lhe mostraria todo o seu potencial. Talvez, enfim, ela compreendesse e se desapegasse da escravidão à qual se submetia em relação aos tolos ideais plantados em sua mente pela Rebelião. Ah, sim: ele via todo o potencial latente, e ansiava por ter ao seu lado a mulher que a sucateira se tornaria, um dia.

— Ben... – começou a moça, olhando para os cadáveres de Snoke e sua guarda – o que faremos? Vão nos matar quando souberem que...

— Não – ele a puxou levemente para si e, quando a mulher não resistiu, envolveu-a num abraço possessivo, os olhos tão insondáveis quanto sempre, a mesma muralha de impassibilidade na expressão – tentarão desertar. Mas existe um novo Líder Supremo, agora.

— Ben... Não precisa fazer isso. – ainda havia esperança nela: esperança de que ele percebesse o quão vazia e desprovida de sentido era a que vinha experimentando, pautada unicamente em medo e poder, desprovida de alegria ou esperança — Como você disse, podemos deixar tudo para trás, matar o passado – ela tomou a liberdade de tocar seu rosto, ansiando por fazê-lo enxergar — podemos fugir para o recanto mais distante da galáxia, onde nunca nos encontrem, e vivermos em paz! Por favor, Ben. Eu prometi que ficaria ao seu lado, e o farei, mas... Não tem de ser assim. Não tem de ser aqui. Podemos trazer a paz, para nós mesmos e para a galáxia.

Ele deu um sorriso carregado de emoções obscuras: tanta ingenuidade e determinação combinadas! Ela realmente cria em suas palavras, com o simplismo da mente de alguém que crescera por conta própria, sobrevivendo, alheia ao mundo do poder, política e comando. Conhecia as trapaças de um comerciante, de um salteador, podia ver más intenções à distância e compreender em segundos as complexas engrenagens de uma nave, mas não possuía qualquer entendimento de como a galáxia realmente funcionava. Mas ele a faria ver... Faria com que compreendesse que as pessoas eram os algozes de si próprias, que poder e dominação eram o que comandava tudo, que a paz da qual Rey falava não era senão um sonho utópico plantado em sua mente pela Resistência e alimentado pelos próprios anseios da garota.

— Você não compreende, Rey? Não existe paz. Todas as criaturas são ambiciosas e possuem potencial para o mal. – ele suspirou e se virou para ela, o semblante levemente suavizado — Suponha que eu faça como me pede, e fuja com você para longe de tudo. O que acha que aconteceria? Que a República seria magicamente restaurada, e tudo voltaria à paz? – ele acariciou o rosto dela com o polegar, percorrendo a bochecha, a linha do maxilar, parando sobre os lábios – menina tola. Os comandantes e generais se digladiariam pelo controle da força militar da Primeira Ordem, criando caos e guerra civil. O mais forte, que angariasse mais aliados, eliminaria todos os demais e reinaria sobre a galáxia como imperador. E sabe qual seria a primeira ação de todos, antes mesmo de se voltarem uns contra os outros? Destruir os remanescentes dos rebeldes. Matar até seu último amigo, e qualquer um que houvesse travado contato com a Rebelião; sistemas solares inteiros arrasados. Isso é o que aconteceria. E nós dois seríamos caçados até os confins do Universo, sem piedade. Lutaríamos por nossas vidas até o último suspiro. Não haveria paz, para nós ou para todo e qualquer planeta até os limites da Orla Exterior.

— Poderíamos lutar ao lado dos Rebeldes... – parecia difícil lutar contra os argumentos dele de modo racional, embora ela sentisse em seu âmago que era apenas uma verdade parcial. Sempre havia um meio. Sempre havia um modo de fazer o que era correto.

— Para que? Vivermos com medo, escondidos ou nos privando de tudo, para que a paz durasse outros trinta anos, antes de outro tirano assumir? Não, Rey. Se tem de haver um único governante na galáxia, prefiro ser eu este governante, e não rastejar no pó, com medo e dúvidas, seja em que lado for. – ele a fez erguer o rosto – você sabe o que é viver sem medo, Rey? Sem ter de agradar a ninguém além de si mesma?

Ela não respondeu: essa seria uma discussão infrutífera, ao menos por hora. Entretanto, não esperava pelas próximas palavras e ações de Ben Solo:

— Tão forte, intrépida, inteligente... Já ouviu isso de outros, antes. Mas já ouviu o quão bela é? Atraente, intrigante, um enigma instigante... No dia em que nossas mãos se tocaram pela primeira vez, sabe o que fez? Você me libertou, Rey. Libertou-me do medo que tinha de Snoke. Libertou-me para ser eu mesmo, e não a sombra de Darth Vader. Foi por você que consegui matar o Líder Supremo. Apenas por você. – a mão dele subiu por suas costas e segurou levemente sua nuca, a mão pousada no rosto da Jedi enquanto seu próprio rosto se aproximava do dela. Sentia a respiração acelerada, o coração palpitante, as dúvidas e medos na mente da moça... Sentiu-a estremecer em antecipação, pousar a mão em seu peito na intenção de empurrá-lo, e falhar miseravelmente quando seus braços pareceram pesados demais para impedir o que se seguiria. Seus lábios tocaram os dela, e as mãos pequenas se seguraram aos ombros de Kylo enquanto a garota se perdia em seu primeiro beijo. Um beijo que desejava nunca interromper... Um beijo que lhe provocou a mais perigosa das sensações: a de estar segura nos braços daquele homem. Era loucura, a mais completa insanidade, mas já estava tão cansada de ser racional! Fizera tudo o que a razão lhe exigia, e recebera nada em troca senão perdas. Não podia ser um crime deixar-se guiar pelo coração, uma vez na vida! Afinal, fora em nome de seu coração que viera até Ben, e fora o único resultado positivo que obtivera, até agora: a sobrevivência de seus amigos e morte de Snoke. Entretanto, parte de sua mente gritava que ela estava apenas se deixando enredar pela sedução de Kylo, que tudo não passava de uma mentira para ganhar uma aliada forte que, pela vontade do no Líder, seria dobrada à escuridão... E ela sabia que este aviso não era totalmente descabido.

Seus lábios se afastaram, e a catadora estava extremamente pálida. Kylo a segurou um pouco mais firmemente, com medo de que as pernas de Rey vacilassem – apenas naquele dia ela fora torturada até a beira da inconsciência, mentalmente violada, passara várias vezes a milissegundos da morte e vira seus amigos serem mortos... – e estendeu a mente em direção à dela, tocando apenas a superfície para não fazê-la se sentir agredida outra vez. E sentiu-a tão machucada, nas emoções e na mente, que imaginou como ainda conseguia andar; foi uma surpresa constatar que estava DE FATO preocupado com o bem estar da moça, mas uma coisa o surpreendeu acima de tudo:

— Está com medo de mim? – ele a fitou, suavizando o próprio olhar – Não... Está com medo de si mesma. De nós. Do que acabou de acontecer.

— Estou confusa, Ben. Tudo mudou rápido demais, e ainda há muito a ser resolvido. Eu... – ela sentiu algo – Finn! – olhou para Ben – está aqui! Vão mata-lo! – e como um raio, disparou para fora dos outrora aposentos de Snoke, esquecendo-se mesmo do próprio sabre de luz. Ren revirou os olhos, sabendo que tentar usar a Força para trazê-la de volta seria inútil, e apenas foi atrás da moça, falando em seu comunicador:

— General Hux, Phasma, comandantes, quero todos reunidos na ponte. Tenho ordens do Líder Supremo a lhes passar, agora.

***

— Se tocarem nesta jovem, estarão mortos em segundos – disse a voz de Kylo Ren, quando as armas laser estavam a centímetros do pescoço de Finn, Rose e Rey, os quais jaziam de joelhos no chão; a Jedi, como era de se esperar, precisava ser contida por três soldados – Ela está sob a proteção do Líder Supremo, Phasma.

A comandante de tropas ergueu a mão, ordenando que a execução fosse interrompida, e explicou:

— Comandante Ren, veja o caos que ela provocou – Kylo não conseguia contar o número de stormtroopers mortos e máquinas destruídas. Aquela garota conseguira fazer tudo aquilo SOZINHA, antes de ser capturada?!

— Ordens são ordens, Phasma. Liberte-a. – ele olhou para os dois rebeldes em cujo socorro sua noiva viera – sigam para a ponte. Eu cuido de lidar com os três. – e ante a hesitação da comandante e do general Hux, aplicou maior tom de ameaça à própria voz – não ouviram as ordens?

Os oficiais, mesmo a contragosto, deixaram o convés; Kylo encarou os stormtroopers e deu suas ordens:

— soltem-nos. Isso não é um pedido.

Armas laser desligadas, os soldados se afastando e soltando os prisioneiros de sua contenção; Finn e Rose se entreolhavam com confusão... O que estava havendo, ali? Ben parou diante de Rey, braços cruzados e uma expressão de “o que faço com você”:

— Destruiu cinco naves e meia tropa de Stormtroopers com uma arma laser simples? – ele lhe estendeu o sabre de luz – acho que não precisa disso para causar estragos, mas ainda assim, lhe pertence.

Ela pegou o sabre e o guardou na cintura, agradecida. Finn e Rose, porém, olhavam confusos para aquilo, e o rebelde perguntou:

— Rey, o que está acontecendo? – o tom incrédulo e perplexo de sua voz deixava claro que ele suspeitava de traição da parte dela, e isso o dilacerava internamente – você não se venderia a ele... Não aceitaria!

— Fiz o que tinha de fazer para manter vocês vivos, Finn – respondeu a moça, coração doendo ao ver a decepção no rosto do amigo – caso não tenha reparado em meio convés destruído, o que me importa é proteger vocês. – ela encarou Ren, que tinha no rosto traços endurecidos ao ver, ou melhor, sentir a forte ligação entre a Jedi e seu amigo stormtrooper desertor. Ela sentiu a hostilidade em seu “noivo” – acho que o estão esperando na ponte...

— Estão, e a quero bem longe daqui quando souberem da morte de Snoke. Haverá mortes, certamente, e você não gostaria da visão – ele encarou os rebeldes – pegue uma nave e leve-os ao planetoide. Avise à general Leia que estão banidos dos territórios da Primeira Ordem. – ela anuiu, e ia se voltando para uma das naves inteiras quando a mão de Ben se fechou em seu braço – Rey: não me desaponte. – ele lhe entregou um comunicador – enviarei um sinal quando for seguro retornar. Não me traia, ou eu a perseguirei até os confins da Orla Exterior por descumprir sua palavra. Você é minha, agora.

— Eu lhe dei a minha palavra – disse ela, sustentando firmemente o olhar de Solo – minha palavra é minha garantia.

Kylo, porém, achou por bem deixar uma imagem bastante nítida na mente dos rebeldes, que não a aceitariam mais entre si: puxou a moça para si e a beijou suavemente. Não durou mais do que um segundo, mas a perplexidade e raiva de Finn disseram a ele que alcançara seu objetivo com sucesso. Ela se afastou com as faces coradas e, sem nada dizer, sinalizou para Finn e Rose a seguirem. Enviou o sinal a Chewbacca, e viu a Milenium Falcon pousar no convés.

— Chewie! – era bom ver um rosto que não se mostrava hostil a ela, no momento, ou o qual não teria dificuldades em encarar – vamos lá, amigo. Temos passageiros. – Nesse instante, uma bolinha branca e laranja chegou perto de si – ah, BB-8! Imaginava onde você estaria! – ela encarou Finn da rampa que levava para dentro da Falcon – Finn... Temos de embarcar...

— Para você levar seu namorado até a Resistência? – havia veneno nos olhos do rebelde. Pela amizade que tinha com a moça, sentia-se traído de todas as formas possíveis por ela.

— Para eu salvar vocês de serem destruídos pelo louco do Hux! – ela meneou a cabeça: compreendia a decepção de Finn, ao mesmo tempo em que queria lhe dar um soco por não ver que ela abrira mão da única coisa que possuía, sua liberdade, em prol da Resistência! – olhe, não há tempo para explicar. Eu fiz uma troca: minha liberdade pela vida dos “rebeldes”. Kylo Ren cumprirá sua palavra, mas eu preciso tirar vocês daqui, e logo. Por favor, discutimos na Falcon!

Rose se irritou, pois compreendia o que a jovem fizera, e o que isso lhe custaria; ela e BB-8 empurraram Finn pela rampa, que logo se fechou atrás de todos. Rey se sentou na cabine do comandante ao lado de Chewbacca, dando instruções:

— Para o planetoide mineral, Chewie. Para junto da Resistência. – e por todo o percurso tentou evitar o olhar dos outros. Sentia que deveria ter lutado mais, resistido de alguma forma, encontrado um meio de salvar os amigos que não envolvesse a rendição... Mas sua própria fraqueza, seu desejo de salvar Ben Solo de si mesmo, sua ânsia por ser amada (algo que ela não estava certa de que ocorreria, com o Lorde Sith) haviam ajudado a restringir suas opções em uma direção perigosa. Talvez Luke estivesse certo ao repreendê-la, adverti-la, mas agora já não havia retorno... E em seu íntimo, acreditava com sinceridade, ou melhor, sentia que fizera a escolha certa. Contudo, rezava para ser uma sensação legítima, e não apenas fruto de seus anseios.

****

Leia recebeu Rey com um abraço apertado; ao se afastarem, seus olhos se encontraram, e a Jedi soube que a general estava ciente de tudo o que acontecera. Afinal, não apenas tinha o dom da Força, mas era a mãe de Kylo Ren; seu olhar era de afeto, orgulho e admiração.

— Foi de uma coragem sem-igual, Rey. – Disse a mulher, serena e firme – Eu sei que isso lhe custou muito. Que pode lhe custar ainda mais.

— E mesmo assim, metade das pessoas aqui me odeia. Dificilmente vão entender o que fiz... – ela fitou as próprias mãos – acha que fiz a escolha errada?

— Rey... Não se preocupe tanto com o que eles pensarão. Farei com que saibam que estamos vivos por sua causa – a princesa suspirou, e fez a pergunta final, resposta à indagação da própria jovem – mas não fez isso apenas por nós, não é? Não foi até lá por nós, pois nem sabia que estávamos sob ataque. Existe algo mais.

— Sim. – concordou a moça, sentando-se de frente para a mulher a quem encarava como algo similar a uma mãe – Leia, ele ainda não está perdido. Eu o senti, eu o toquei... E senti que ainda havia luz naquele coração. – ela cerrou os punhos – mesmo com tudo o que ele fez, senti tanta solidão e dor em seu interior... Mas ainda havia brasas de bondade em seu interior, então, como podia desistir dele?

— Você... O viu? – Leia não compreendia exatamente como isso poderia ter ocorrido.

— Quando estava na ilha, com Luke... – a menina suspirou – uma ligação se formou entre nossas mentes. Snoke disse ter sido ele quem a arquitetou, mas não acredito, porque já havia sentido isso, antes. Seja como for, nós podíamos ver um ao outro, e nos falamos algumas vezes... Na última vez, ele me contou o que o levou a se aliar a Snoke.

— Foi aquela víbora que o atraiu com falsas promessas. – disse Leia, determinada a não pensar na alternativa, simplesmente por ser dolorosa demais para alguém com tantas perdas quanto a princesa.

— Não. Não foi. – Rey encarou fixamente a amiga – você também tem a Força, Leia. Acho que não precisa que eu lhe conte... Creio que sempre soube.

O rosto da general exprimiu toda a sua decepção e exaustão ao reconhecer o que negara para si mesma por tantos anos:

— Luke. – sim, ela sabia. Mas como condenar seu irmão? Como o culpar por tentar impedir algo e, precipitando-se no medo, acabar por ser o responsável pela consumação do que temia? Afinal, em fria análise ela era tão culpada quanto Luke, pois confiara o filho ao irmão quando percebera não apenas a Força, mas as trevas em seu interior — Por isso ele se isolou.

— Sim... Mas eu consegui sentir que Ben ainda estava em conflito, que podia ser salvo, e por isso fui até ele. E... Ele me salvou! – havia emoção nos olhos de ambas – Ele matou Snoke, Leia, para me salvar!

— Mas tomou o lugar de Snoke. E teria deixado que fôssemos mortos, se não fosse por você. – mesmo com seu coração ansiando por acatar a possibilidade de ter seu filho de volta, ela procurava ser realista.

— Sim... – o pesar se manifestou na voz e no rosto de Rey – Ele ainda está em conflito. Mas existe alguma verdade nas coisas que me falou... A morte de Snoke não significaria nada, além de lançar a galáxia numa guerra civil, e propiciar o extermínio da Resistência. Talvez, de algum modo, a ambição dele possa ser um mal menor, ou até algo benéfico. Se eu puder fazê-lo enxergar...

— Não exagere suas esperanças, Rey, ou suas ambições. Você é uma menina, alheia às perversidades dos jogos políticos que ditam as regras em qualquer governo, seja ele despótico ou democrático; não será fácil como imagina, e ele provavelmente não será o aliado que espera. Eu espero com todas as minhas forças que ainda haja algo do menino doce a quem amei, mas Kylo Ren é um homem sombrio e perigoso. Eu lhe advertiria a fugir, se não soubesse que seria um alerta inútil.

— Você me conhece bem. – sorriu Rey, deixando que Leia visse em eu rosto a mescla de apreensão, vontade, determinação, medo... Sentimentos demais para ter, de uma só vez, e nem todos conseguia reconhecer.

— Conheço sua fidelidade a uma promessa, e conheço o olhar de uma mulher apaixonada. – disse a general, fazendo uma leve carícia no rosto da menina que podia bem ser sua filha – cuidado, Rey. Ele pode ser encantador e sedutor, como o próprio lado sombrio, mas também muito perigoso. Casar-se com ele não será algo fácil, e pode e tornar mesmo perigoso.

— Não tenho dúvidas disso, mas preciso tentar. Mesmo se não houvesse prometido... Eu vi o quão só e perdido ele se sente e... Preciso tentar. Não sei explicar, mas sinto que desistir dele seria como desistir do que acredito. – ela esfregou o rosto – é ilógico, mas ele me faz sentir diferente. Segura. Como se houvesse um lugar para mim, no mundo. Não me sentiria assim se ele fosse todo escuridão, sentiria?

General Organa sorriu tristemente: ah, as paixões da juventude. Via em Rey a mocinha que ela própria fora, apaixonada pelo contrabandista e trapaceiro Han Solo, cheia de esperanças acerca de um mundo livre, imaginando que o amor podia mudar o que um homem era, como agia e se sentia.

— Apenas não se desaponte, se tudo não correr como deseja. – orientou a mulher mais velha, lembrando com saudades do esposo a quem tanto amara, e do qual fora tão impiedosamente separada pelas contingências do fado – raramente a vida se importa com nossos planos.

— Não se preocupe, eu posso cuidar de mim e de Ben. Em verdade, ele terá problemas, caso se esqueça de que, num casamento, os votos são mútuos. – ela se levantou com determinação – Eu o farei me ouvir, de alguma forma. É com vocês que estou preocupada: Ben os baniu para longe dos sistemas controlados pela Primeira Ordem, e isso não é de todo ruim: possuem aliados, lá fora. Pessoas que começam a deixar de acreditar, mas cujo ânimo pode ser refeito, se a princesa Leia se apresentar! Precisam ir, e logo. Cuidem de suas feridas, refaçam suas forças... A Resistência perdeu coisas demais... Saiam do território, protejam os mais fracos que vocês, tentem trazer alguma paz a lugares esquecidos mesmo antes que Darth Sidious surgisse. – ela fitou a imagem do imenso cruzador de Kylo Ren – algo me diz que ele não será a maior ameaça. Os lordes... Estão hostis. Muitos tentarão derrubar Ben e se tornarem os líderes... Talvez atingindo primeiro locais distantes, onde possam conseguir recursos, armas e tropas. Talvez enfrentando Ben diretamente, ou até agindo como os mais fiéis escudeiros, apenas para estarem mais perto na hora de lhe enfiar uma faca nas costas. – seus sentidos lhe mostravam as coisas com uma clareza que sua instrução não lhe permitiria enxergar.

— Rey, você não pode lutar essa batalha sozinha. – declarou Leia, preocupada. A jovem assumia um encargo monstruoso, e riscos indizíveis!

— Não estarei sozinha – respondeu a menina. – lutem comigo: minem o poder desses oficiais e baronetes locais, reduzam sua opressão sobre os povos, e irão enfraquecer muitos dos parasitas que tomariam o lugar de Ben, se ele deixasse o poder. Faça com que não haja mais justificativa para ele se manter no poder, e eu sei que poderei demovê-lo!

Leia suspirou, vendo na jovem o tipo de determinação que ela mesma possuía:

— Que a Força permita seus instintos estarem corretos, criança – a princesa tirou do pescoço um colar, e o colocou ao redor da garganta de Rey – um comunicador unidirecional. Se algum dia precisar de mim, ative-o: o rastreador me levará até você.

Um comunicador? Mas por quê?! Como se lendo à pergunta muda da mais moça, a general respondeu:

— você estará sozinha num ninho de cobras. Ben é meu filho, mas eu não confio nele mais do que confiaria em Vader. Se a qualquer minuto você precisar de socorro, orientação ou ajuda de qualquer tipo, eu a protegerei.

A moça sorriu e abraçou a outra com força; ao se levantar, ergueu os olhos para o céu e, voltando-os para sua interlocutora, desejou:

— Que a Força esteja com você.

— E com você, Rey. – a princesa viu sua protegida deixar a sala de comando e marchar de cabeça erguida para o hangar. No caminho, alguns a fitavam com desprezo, decepção ou desconfiança, enquanto outros poucos lhe agradeciam com olhares ou palavras pelo que fizera. Finn e Rose haviam preparado um X-wing antigo, que poderia transportá-la sem problemas até o cruzador; ela se despediu de ambos com um abraço, e o rebelde falou:

— Por favor, Rey, não deixe que ele a torne outra coisa. Seja apenas Rey. A Rey que conheci em Jakku, e que está aqui, hoje.

— E quem mais eu poderia ser, Finn? – perguntou ela, com um sorriso que transmitia mais confiança do que sentia – cuide-se.

Abraçou Chewbacca com força e entrou no X-wing, pilotando de volta para junto de seu futuro esposo. Sua jornada estava apenas começando, e o medo a devorar sua alma era combatido apenas pela esperança. Esperança... Esse sentimento que jamais a abandonara, e agora se convertia em sua principal, talvez única força.

*

Foi estranho despertar num colchão largo e macio, em vez de um catre ou cama de metal; sentia-se um pouco dolorida pela falta de costume – ou seria efeito da tensão que a dominava, desde o dia anterior? – e ainda estava cansada, mas não conseguiria voltar a dormir, mesmo se quisesse. Escorregou para fora do leito e olhou em volta: mal reparara no quarto quando, horas atrás, Kylo a levara até os aposentos a ela destinados. Eram minimalistas, como tudo em uma nave, mas bastante confortáveis; a cama que se moldava à forma de seu corpo, um armário dentro da parede — aparentemente operado por comando de voz, se identificara corretamente o aspecto do painel – janelas pequenas a oferecer-lhe visão do espaço. Havia outros móveis, todos retráteis e dobráveis de modo a se fundirem às paredes; divertiu-se um pouco explorando o quarto, ativando e desativando peças de mobiliário como mesa, banco, base luminosa para reprodução de hologramas... Sua curiosidade a distraiu por alguns minutos da apreensão e receio, até uma voz masculina a surpreender:

— Vejo que está intrigada com as acomodações. – ela deu um salto, ficando em pé e puxando a camisa longa que usava de modo a se cobrir melhor:

— Ben! – fitou o homem de modo constrangido – É... Eu estou quase nua... – ela puxou um lençol da cama e o segurou diante do peito – será que pode se virar?

— Não seja infantil, Rey. Ao fim do dia será minha esposa, portanto, seu constrangimento é tolice. – ele olhou ao redor – espero que os aposentos lhe sejam agradáveis. – pelo menos para aguardar as próximas horas e se aprontar.

— São... Extremamente confortáveis. Obrigada – ela não sabia ao certo o que dizer, dada a situação estranha em que se encontravam. Sentia como se uma pedra de gelo se houvesse instalado em seu peito, tamanha sua apreensão e receio ante aquele casamento súbito e com o qual não havia exatamente concordado – Mas por que veio pessoalmente me acordar?

— Imaginei que mandar um rosto estranho poderia ocasionar um assassinato com sabre de luz, se ainda estivesse adormecida. – ele lhe estendeu o sabre azul que pegara sobre a cama, antes de avisá-la de sua presença – e também queria olhar para você agora, passada toda a loucura que vivenciamos.

— Passada? – a voz dela se fazia firme para ocultar o receio – e nos casarmos esta noite lhe soa como o que?

— Uma medida sensata, embora não a tivesse tomado, se não se fizesse muito necessária. – ele se divertiu com a confusão dela – Rey, em um dia eu tomei o controle de todo o império da Primeira Ordem. Em toda a galáxia, existe apenas uma coisa que não controlo: você. E antes que comece a protestar, lembre-se de que meu nome será sua única proteção dentro de um universo particularmente hostil a uma Jedi. Ambos temos a ganhar com este arranjo.

— Caso sua memória esteja falha, ou lhe falte um espelho – ela tocou o próprio rosto do lado direito – sei cuidar muito bem de mim mesma, e lhe dei algo para lembrar sempre disso. E casar-me com você não lhe dará mais controle sobre mim. – ah, droga, por que estava sendo tão hostil? Ela gostava daquele homem (ou ao menos de uma parte dele), e ainda assim só lhe dirigira palavras cortantes desde o dia anterior, mesmo quando sua própria vida estava à mercê da boa vontade de seu interlocutor! Sem falar na estupidez de enraivecer Kylo Ren quando teria de consumar seu casamento em apenas algumas horas!

— Em verdade, dará, sim. De um modo que compreenderá, mais tarde. – ele a viu travar o maxilar e seus olhos brilharem com fúria — Está com raiva, não é? – havia um leve tom de vitória em sua voz – por não poder controlar a situação. Eu a conheço, Rey: sei o que está sentindo.

Ela tentou recuar quando o moreno avançou em sua direção, mas a parede estava às suas costas e a impediu de se esquivar quando, para sua surpresa, ele se curvou e tomou seus lábios num beijo profundo. Filho-da-mãe, tentando baixar sua guarda com carícias e seduções, por saber da atração que nutria! Podia esperar sentado o dia em que isso funcionaria para corrompê-la!

— está confusa com suas emoções, ansiosa em uma situação que não pode controlar, assustada com os próprios sentimentos. – ele falava com voz macia e persuasiva, e pousou a mão suavemente em seus olhos, fechando-os – não tente resistir, não tente lutar. Apenas renda-se. Renda-se a mim, deixe-me lhe dar tudo o que sempre desejou.

— Você quer muito que eu me renda, não é? – ela abriu os olhos e fitou os orbes negros de Kylo, sentindo um estranho arrepio percorrer seu corpo. Não era algo ruim, muito pelo contrário, mas ainda assim a confundia, por saber que as ações dele deviam ter destruído todo e qualquer sentimento que houvesse começado a nutrir, quando estava no Templo Jedi.

— Sim. Eu quero – sussurrou Ben, sem desviar o olhar do dela – e você irá, cedo ou tarde. Não pode lutar contra seu destino, Rey.

— Talvez. – respondeu ela, no mesmo tom – ou talvez seja você quem se renderá. – Rey sorriu ao ver a surpresa nos olhos dele, por não mais do que um segundo, mas ainda assim real – Não será com um beijo e forçando-me a ser sua esposa que irá me dobrar.

— Não hoje. – ele acariciou a bochecha dela com o polegar, a mão pousada na lateral do rosto feminino – mas o tempo muda as coisas.

— Muda. E mudará você, Ben Solo. – ela falou aquilo não como uma afronta, mas como algo no qual realmente acreditava.

— Meu nome é Kylo. Kylo Ren. – Rey era a única pessoa que o chamava por seu nome verdadeiro, e a única que não o enfurecia ao fazê-lo. – guarde isso muito bem.

— Não mesmo. – ela imprimiu tom de humor à própria voz — Eu não tenho sobrenome, o que significa que receberei o seu! Rey Ren? É um trava-línguas ridículo – ela nunca em sua vida esperara que uma falha tentativa de humor, para aliviar sua própria ansiedade, pudesse fazer o sombrio Líder Supremo reprimir um sorriso que lhe torceu os lábios. Ele se divertia um pouco com a espontaneidade dela – De jeito nenhum vou adotar esse nome, mesmo porque nem chega a ser um nome – ela se esquivou do futuro esposo – é só parte de um apelido que Snoke escolheu para você, não foi? – o revirar de olhos dele foi toda a resposta de que precisava – serei Rey Solo. – ele abriu a boca para dizer algo, mas a garota não deixou – Porque minha promessa foi feita a Ben Solo. E eu não quebro minhas promessas.

Ren travou o maxilar, confuso: qualquer outra pessoa lhe despertaria um acesso de raiva destrutivo, mas a menina fazia sua fúria se mesclar a outro tipo de sentimento: ela era instigante, intrigante... Fascinava-o de muitas maneiras, especialmente por não o temer. Tinha a têmpera perfeita para um destino glorioso! Ah, Rey... Rey Solo. Quando iria abrir sua mente e sentimentos a ele, como fizera durante os breves momentos em que haviam estado conectados? Casar-se com ela era apenas uma estratégia para começar a submetê-la, mas começava a perceber que essa união poderia ser mesmo agradável. Afinal, era uma mulher jovem, bela e muito poderosa. Tudo o que poderia querer na pessoa para se sentar ao seu lado no comando e, um dia, segui-lo no domínio do Lado Sombrio.

— Chamar-me Ben Solo não vai me tornar menos um Lorde Sith. – estava firme, mas não com raiva. — Continuarei sendo o que sou. Você não irá me mudar, Rey.

— Então, não há por que se incomodar se eu preferir o sobrenome Solo, concorda? – droga, Rey! Precisava parar de provocá-lo e irritar, mas não conseguia! Era esse o modo como lidava com o medo, como o impedia de dominá-la ao saber que não teria escapatória! Solo, porém, continuava impassível ao dizer:

— Como preferir: não faz diferença. Uma pessoa de minha confiança virá lhe fazer companhia e proteger até a noite. – ele se afastou sem tirar os olhos da futura esposa – esperarei por você.

Ele deixou o quarto e Rey se deixou cair na cama, bufando: por que será que “proteger” parecia muito mais “encarcerar”? Aproveitando os momentos sozinha, tratou de descobrir como destrancar o armário, esperando por uniformes ou algo do tipo... Em vez disso, havia ali um vestido branco, simples, porém gracioso e bonito: longo, de tecido leve em duas camadas, mangas curtas, transparentes e soltas que deixavam os ombros expostos, sendo apenas um adorno. O corpete tinha pequenos detalhes azuis no decote em V e nas laterais, unindo-se sem costura à saia vaporosa. Mas onde alguém conseguira arranjar aquilo? Droides, talvez? Considerando que tinha suas medidas exatas, ela imaginava que fora algo posto ali enquanto dormia, por algum robô-serviçal.

Estava contemplando o vestido, tentando não pensar na ocasião em que o usaria, quando a porta se abriu novamente; irritada pela súbita interrupção de sua solidão – supunha tratar-se de um dos oficiais da Primeira Ordem — Rey foi mais ríspida do que pretendia:

— Privacidade e bater na porta são coisas que não se conhece por aqui? – mas viu que se tratava de uma mulher Twi’lek de pele azul-clara com minúsculas e numerosas manchas prateadas. Era belíssima, com traços suaves e delicados, esguia e alta; usava uma túnica translúcida de cor lavanda, e seus tentáculos lekku eram adornados por fios dourados que se entrelaçavam na testa. Sua delicadeza fez Rey se sentir desengonçada e sem graça por alguns instantes, antes de perceber que precisava se desculpar – ah, me perdoe. Eu pensei que fosse... Outra pessoa.

A Twi’lek entrou no quarto e realizou uma mesura:

— Senhorita Rey, eu sou Eilenia Shan, esposa do capitão Shan e membro da equipe de relações diplomáticas da Primeira Ordem.

— Diplomáticas? – Rey não sabia o que dizer... A única “diplomacia” da Primeira Ordem envolvia eliminar os dissidentes, até onde sabia. E como se lesse a mente da Jedi, a outra respondeu:

— Sim, sou pouco solicitada num cruzador espacial, e menos ainda ouvida. Mas procuro cumprir meu trabalho do modo mais eficaz. – ela se aproximou um pouco mais – serei sua acompanhante e protetora, enquanto precisar de mim. – devia ter percebido a descrença de Rey, pois segurou o próprio bracelete e sorriu – nem toda arma é facilmente percebida. E quanto mais discreta, mais tarde o oponente perceberá que foi pego em uma armadilha. Enquanto eu estiver aqui, terão de passar sobre meu cadáver para lhe fazer mal.

— Bem... É um prazer. – ela ficava aliviada por não ser um stormtrooper ou uma das mulheres que vira fardadas pelos corredores e galpões da nave. Eilenia parecia alguém agradável e, ainda que não confiasse nela mais do que em qualquer outra da Primeira Ordem, a Jedi não sentiu nenhuma ameaça, tampouco a necessidade de ser hostil – imagino que tenha sido o... Novo Líder Supremo a ordenar que viesse.

— Ele ordenou, sim. Fizemos muitos favores um ao outro, quando ele ainda era apenas o Comandante Kylo Ren, e suponho que tenha por mim alguma consideração e confiança. – ela fitou a menina com curiosidade – posso lhe perguntar por que fez isso?

— Isso o que?

— Render-se. Não é usual a um Jedi, de acordo com as histórias.

— Para salvar vidas. – foi a resposta da humana – mas eu preferiria não falar disso, agora.

— Compreendo. Bem, senhorita Rey, ele me ordenou que a preparasse para o casamento; será apenas uma cerimônia legal, mas Lorde Ren a quer bem-vestida e arrumada.

— ah, é claro que quer – Rey revirou os olhos com irritação: se Ben pensava que seria seu bichinho de estimação, estava muito errado! – e não acho que qualquer de nós tenha alguma escolha quanto a isso, estou certa?

— Correto. – formal, polida e discreta... Certamente aquela Twi’lek divergia em tudo do que a mais moça esperara encontrar entre o alto escalão da Primeira Ordem! – em que posso ajudá-la?

Rey olhou para o vestido: nunca usara um antes, e os cordões das costas lhe pareciam uma confusão incompreensível! Preferiria mil vezes lidar com uma fiação em curto a tocar naqueles cordões que pareciam de seda. Não parecia sequer certo usar um traje como aqueles enquanto pessoas passavam fome em lugares como Jakku! Tentando quebrar a sensação estranha que pairava no ar, perguntou:

— Quais as chances de algo dar errado se eu preferir usar calça e camisa?

— Eu diria que superam 100%. – sorriu Eilenia – permite-me lhe falar não como sua protetora e subordinada, mas de uma mulher para outra?

— Não precisa de minha permissão. Não sou como B... Digo, o Líder Supremo.

— Isso é bastante evidente, desde o primeiro momento. – a mais velha mantinha o ar polido e gentil, mas abandonou a fria formalidade ao continuar – caso queira um conselho, eu lhe diria para não irritar seu esposo. Sei que é jovem e impetuosa, por tudo o que já se ouviu nesta nave a seu respeito, mas nem toda guerra é travada com um sabre de luz, blaster e ataques físicos. Às vezes, a gentileza e tato são uma arma melhor sucedida do que um confronto direto.

— Vou tentar me lembrar disso, quando tiver vontade de estrangular meu... Marido. Essa palavra soa muito estranha.

— Deve estar assustada – ponderou Eilenia, digitando uma sequência no painel de parede que fez erguer-se do chão um banco e uma porta na parede se abrir para revelar um espelho de corpo inteiro. Com a mesma gentileza e suavidade de gestos, segurou a mão de Rey e a fez se sentar no banco – o Líder Supremo é um homem difícil de lidar.

— Francamente, estou mais confusa do que assustada. – Rey não confiava na Sr.ª Shan, mas não havia nada demais em falar aquilo. Em verdade, ficava feliz de ter alguém com quem falar, mesmo se fossem superficialidades; ajudava a distrair da apreensão e tensão – Creio que saiba o que esperar dele, de um modo geral, e isso não me assusta. Mas as coisas aconteceram rápido demais.

— Se o Líder Supremo não a assusta, então a senhorita é muito corajosa, muito tola, ou não o conhece. – disse a Twi’lek, soltando os cabelos de Rey dos coques desmanchados em que estavam presos e pensava em como deveria arrumá-la. Não era como um casamento voluntário, no qual a moça quisesse estar o mais deslumbrante possível; nem parecia a Jedi alguém que fosse dada a vaidades. – Seria muita ousadia minha perguntar em que está pensando?

— Apenas lembranças. – Não era mentira, mas não chegava a ser uma verdade: pensava nas vezes em que se conectara ao homem com quem se casaria. Num primeiro momento ela apenas o odiara, pelo que fizera a Han Solo... Mas depois fora capaz de ver a vulnerabilidade interna de Ben Solo, e ele vira a sua; havia sido uma conexão verdadeira, e ela sabia que o homem com quem conversara naquela cabana, separados por uma galáxia de distância, era o verdadeiro Ben. Entretanto, o modo como ele vestia a persona de Kylo Ren a incomodava profundamente, pois tornava a enxergar o inimigo na floresta, aquele que lhe tirara Han... E a maior loucura era saber que estaria se casando com ambos ao mesmo tempo, por serem faces de uma só pessoa. Com Ben Solo ela podia lidar. Mas Kylo Ren? Haveria com ele algum tipo de interação que não envolvesse sabres de luz e pistolas laser? Numa tentativa de afastar a mente disso, perguntou à sua acompanhante/carcereira – Ele fará questão de tornar isto um circo, não é?

— Não. Ele não gosta de exposição. Aquele vestido, seu penteado? Ele a quer bonita para si mesmo.

— Por que isso não me acalma? – ela se levantou, contendo a vontade de correr para longe apenas em pensar na noite de núpcias. Não, não era daquele modo que ele a via, então... O que Ben Solo estava armando? Por que fazer aquilo? – acho que vou enlouquecer até de noite.

— Também fiquei assim, no meu casamento – disse a diplomata – não era mais velha do que você, e só havia visto meu noivo uma vez. Isso foi há dez anos, e as coisas foram muito melhores do que eu podia ter esperado; éramos estranhos um ao outro, no começo, mas nos aproximamos. Hoje posso dizer que o amo. Será o mesmo entre vocês.

“Quem dera” pensou Rey. Desejava que fosse apenas o casamento com um desconhecido. Entretanto, conhecia-o bem até demais...

— Bom, já que não temos muita escolha... – começou a Jedi – melhor começarmos logo.

Ao longo do dia, a Jedi se submeteu ao incômodo processo de se deixar arrumar por outra pessoa, e descobriu que a outra mulher era uma companhia bastante agradável, diminuindo seu desconforto com conversas sobre vários assuntos. Achou-a frívola, algumas vezes, mas a impressão logo era desmanchada por algum assunto mais relevante que, ainda assim, mantinha a mente da jovem longe do evento que se aproximava. E Rey aproveitou cada palavra acerca de como o Império funcionava, quem eram os dignitários e oficiais... Não sabia ao certo como usaria tais informações, mas se lembrou do que Leia dissera acerca de estar em um ninho de cobras. Parecia sensato reunir o máximo possível de informações, afinal.

Quando enfim estava pronta, a jovem se olhou no espelho e sua imagem lhe pareceu a de uma estranha: estava bonita. Mais do que bonita, estava linda! Nunca fora vaidosa – não era o tipo de coisa relevante, quando sua meta consistia em obter alimento para o dia seguinte – mas era impossível deixar de admirar o trabalho de Eilenia. Uma leve maquiagem azul-clara nos olhos, lábios pintados de rosa, um suave delineado negro nas pálpebras superiores, cabelos soltos e arrumados em ondas, um colar com um único pingente de pedra azul. E sobre o vestido branco, um cinto prateado no qual prendeu sua espada laser.

— ouvi dizer – começou Shan – que os Jedi as usavam mesmo em cerimônias formais. Não vejo por que não a usar em seu casamento.

— Porque o noivo é irritante, arrogante e tem o dom de me tirar a calma? – perguntou Rey, com um risinho nervoso. A outra também riu baixinho, mas a mais moça meneou a cabeça – não, eu não faria isso. Apesar de tudo, gosto dele. De parte dele, ao menos. – e ao perceber que quase começara a falar consigo mesma sobre assuntos que não diziam respeito a mais ninguém, desconversou – Eilenia, pude ver que tem muito conhecimento, sobre muitas áreas. Um conhecimento do qual, acredito, vou precisar muito. Aprendi a ler e escrever, mas muito pouco, e não tenho muito conhecimento sobre política, governo, diplomacia...

— Isso é algo que precisa ser remediado, e logo. Seu futuro esposo tem muitos inimigos e problemas a resolver, não pode ter uma companheira ignorante nos assuntos da política. – a Twi’lek parou por um segundo – quer que eu a ensine, não é?

— Se não for pedir muito, sim.

— Na verdade, não sou muito ocupada. Somos muitos, e meu cargo é basicamente honorário, para me permitir acompanhar meu esposo nas viagens longas; então tenho bastante tempo livre. Seria uma honra ser professora da princesa consorte.

— Apenas Rey, por favor. – pediu a moça – continuarei a mesma pessoa de agora, mesmo com aliança na mão.

— Certo, Rey. Sim, eu posso ser sua professora. Aliás, será um prazer: em nosso meio há poucas pessoas agradáveis, e você é uma delas.

— Obrigada – a jovem sorriu e suspirou – bem, está na hora.

— Sim. – Eilenia Shan lhe ofereceu a mão, como um conforto à menina claramente ansiosa – vamos? Serei sua testemunha.

Com mão trêmula, a Jedi segurou a da outra e respirou fundo: hora de aceitar as consequências de seu acordo.

*

Kylo Ren segurou as mãos de Rey, levando-a com gentileza até diante do juiz, que tinha consigo um droide escrevente em cujas mãos estava um computador de registros. Além de Eilenia, havia mais duas damas e três homens que ela não conhecia; seu noivo usava as roupas de Lorde Sith, iguais às de Jedi, porém negras, sabre de luz no cinto, e ela não podia negar que era um dos homens mais bonitos que já vira.

— Está linda – sussurrou ele para a noiva, numa tentativa de ser gentil e deixá-la menos desconfortável.

— Você também.

Ficaram diante do juiz, que falou:

— o contrato de casamento define os termos pelos quais se dará sua união. Primeiro, pelo presente ato contratual a fidelidade conjugal será mantida, sob pena de divórcio e perda dos privilégios – Rey compreendeu que aquilo valia unicamente para ela, e que “perda dos privilégios” poderia ser um equivalente a banimento, aprisionamento ou morte, de acordo com o humor do esposo. Sua mente devaneou enquanto ouvia os termos gerais, estes comuns a outras uniões pela galáxia: comunhão de bens, isenção jurídica dos parceiros perante tribunais (ou seja, não responderiam em conjunto pelos crimes cometidos por apenas um deles), e, finalmente, a última cláusula determinava o sobrenome de Rey como “Solo”. Neste momento ela sorriu e apertou levemente a mão do noivo, que retribuiu. – Rey, é por livre vontade que assume este compromisso?

— Sim. – sua mente gritava “Mentira! Mentira!” mas a moça se obrigou a manter o rosto plácido. Afinal, poderia ser pior. Gostava de Ben, quando ele não vestia a persona de Kylo Ren.

— Repita, então, seu compromisso matrimonial.

Ela encarou Ben e repetiu as palavras ensinadas a ela por Eilenia:

— Ben Solo, eu me comprometo a ser sua esposa fiel, protegê-lo e honrá-lo, ligando minha vida à sua. Esta decisão eu tomo de livre vontade, e faço destas palavras meu juramento. – num impulso, ela trouxe a mão do noivo para perto de seu rosto e beijou suavemente sua palma. Fora ternura o que vira nos olhos dele, neste momento? Gostaria que sim.

— Ben Solo, Líder Supremo da Primeira Ordem, é por sua vontade que assume este compromisso?

— Sim.

— Repita, por favor, seus votos matrimoniais.

Ben repetiu as palavras de Rey, terminando-as com uma reverência elegante e um beijo no dorso da mão de sua noiva.

— Suas digitais, por favor – o escrivão apresentou o computador e segurou respeitosamente a mão de Rey – senhorita. – ela tocou a tela, que capturou suas digitais. O nome que aparecia, Rey, foi substituído por Rey Solo. Em seguida foi a vez de Ben, cujas digitais também foram capturadas. O droide se afastou e o juiz pegou um objeto circular brilhante, que parecia um disco de holografia:

— As alianças. – colocou a mão de Rey sobre o disco brilhante, e uma espécie de laser percorreu sua pele, tatuando um aro em redor de seu anelar esquerdo. O mesmo se deu com o noivo; o par formava um laço, com mini-rastreadores subcutâneos que permitiriam sempre saberem onde estava o cônjuge... Mas que conveniente, para Kylo Ren... Agora sabia por que a insistência no casamento! Em seguida, foi pedido que as testemunhas fornecessem suas digitais e, ao término da etapa, a declaração final:

— Perante a lei, são agora marido e mulher. Minhas congratulações ao casal.

Kylo Ren assentiu, olhou em redor e ordenou:

— Deixem-nos a sós. – sem um questionamento, deixaram o casal sozinho na ampla sala iluminada apenas pelas chamas ardentes no raso poço central do aposento circular. Foi a primeira vez que ela viu seu esposo dar um sorriso desprovido de seu costumeiro tom sombrio – Casamentos civis são um evento aborrecido.

— Que bom que não sou a única a pensar assim – respondeu Rey, desviando então os olhos para as chamas – por que os dispensou?

— reparou em minhas vestes?

— as de um Lorde Sith – havia um gosto amargo na boca de Rey, ao reconhecer.

— sim. – ele a virou de frente para si num gesto delicado, mesmo carinhoso: sentia-se calmo e satisfeito ao contemplar sua esposa, que nunca estivera tão linda quando naquele momento – quero me unir a você perante a Força, Rey.

— Ben... – ela hesitou – isso não vai dar certo. Uma Jedi e um Sith, unidos pela Força? O que aconteceria?

— Não quer descobrir? – perguntou ele, acariciando as mãos da esposa. Ela sentiu as palmas dele aquecendo intensamente, um fluxo de energia que se concentrava naquele ponto, apenas pedindo permissão para tocar a energia da própria Rey. Ela suspirou... Devia negar ou aceitar? Sabia uma coisa: aquele casamento não tinha outra função além de subjugá-la a Kylo... Ele jamais pretendera tê-la como esposa, mas este era o único modo de mantê-la presa ao seu lado... E agora queria usar a Força para completar o vínculo. Não. Não podia aceitar, por mais gentil que ele houvesse sido até o momento.

— Não. Não quero – foi sua resposta final, e o fitou com coragem – não vou deixar que use a Força para me ter acesso a minha mente, Ben Solo, pois isso é o que uma união assim possibilitaria. – ela respirou fundo e continuou, vendo o canto do lábio dele se retorcer de raiva; num tom calmo, mas firme, continuou – grite, ataque-me, faça o que quiser, mas minha resposta a isso é não. – ela mostrou a mão com a tatuagem da aliança, tentando manter seu tom sempre calmo – estou legalmente casada com você. Aceitei isso, mas não serei submissa: se tem quaisquer planos nesse sentido, esqueça.

— Eu sou seu marido – rosnou Kylo, em tom profundamente ameaçador. – vai me obedecer.

— Obediência não constava no contrato que assinei. E um juramento em nome da Força não pode ser feito por coerção – retrucou ela – aceitei você com suas limitações e imperfeições, Ben. Faça o mesmo, ou não, mas não espere que eu mude. – ela ergueu um pouco a saia longa para poder caminhar sem tropeçar. Melhor sair dali antes de sua voz se alterar mais ainda – não precisa me acompanhar. Sei o caminho até meu quarto. Pode ir até lá, ou não: eu realmente não me importo. – e com essas palavras, deixou o marido na sala, agora aterrorizada... Se ele fosse até seu quarto, as coisas poderiam acabar muito mal para um deles. Não sabia dizer qual... Mas acima de tudo, estava desapontada e com raiva dele: por que tinha de estragar tudo, todas as vezes em que as coisas corriam bem entre ambos?

*

Rey esperava em seus aposentos, usando ainda o vestido do casamento. Ansiosa e assustada, ainda não tivera coragem de se trocar, receosa de que Ben Solo entrasse a qualquer momento naquele aposento. Mantinha até mesmo o sabre de luz ao seu lado, porque tinha apenas uma certeza: ele viria. Viria, e ela não sabia como estaria, mas, em se tratando de Kylo Ren, havia grande chance de querer descontar sua raiva nela. Tentava manter em mente as palavras de Eilenia, sobre gentileza e tato, mas não estava certa de que adiantaria algo.

Em Jakku, quando mocinha, via as mulheres que vendiam o corpo falarem sobre o que acontecia entre um homem e uma mulher, e haviam se encarregado de assustá-la terrivelmente com histórias de primeiras noites apavorantes, violentas e dolorosas. Mas não podia ser verdade... Kylo não faria isso com ela, faria? Ele, que agira com tanta gentileza durante o casamento... Mas também vira tanta raiva em seus olhos, quando se recusara à união pela Força! Não podia ter certeza alguma quanto a um homem que portava tamanha dicotomia em seu interior! Ah, sua mente estava prestes a explodir!

Cheia de angústia, serviu para si uma taça da estranha e forte bebida deixada para ela pelo droide-serviçal e bebeu tudo de um só gole. O líquido desceu queimando como ácido e a deixou um pouco tonta, mas aliviou seu medo, então serviu-se de outra taça. Dessa vez, bebeu metade num fôlego, respirou fundo e terminou o conteúdo do recipiente. Talvez fosse mais fácil se estivesse embriagada... Ia se servir de uma terceira quando a voz de seu... Marido... Soou atrás de si:

— se tomar a terceira, vai passar nossa noite de núpcias praticamente em coma. — ele se aproximou e tirou sua camisa sem qualquer pudor, permanecendo apenas com a calça negra e as botas, o que fez Rey desviar os olhos, o coração terrivelmente acelerado. Se aquele era o conceito dele de vingança, estava dando certo! — qual o problema? — ele sentiu a energia da moça, a qual mais parecia um animal acuado do que a mulher forte que tão bem conhecia. Um misto de satisfação e aborrecimento se misturaram dentro de si: se por um lado gostava de saber que ela o receava em algum nível, isso também o desapontava. Medo era uma fraqueza, e indesejável em um Sith. — por que está tão apavorada?

— Não estou. – ela fingiu indiferença, mas o tremor em sua voz, acentuado pelo ardor na garganta que a bebida deixara, denunciou seus sentimentos. Droga! Ela pigarreou para limpar a garganta e se encostou à parede, braços cruzados, espada laser no cinto – Apenas imagino que não tenha vindo aqui para conversar ou pedirmos desculpas um ao outro.

— Não, não vim. – ele se aproximou sem hostilidade – pode deixar a arma. Não estou com a minha, e tampouco pretendo machucar minha esposa em nossa primeira noite como casal.

Ela o fitou e viu que estava sendo sincero; sem hesitar, para não demonstrar medo, tirou o sabre de luz da cintura e o largou na mesa, abrindo os braços para se mostrar desarmada. Ben não parecia feliz, mas ao menos não estava com raiva, e isso já era uma vantagem.

— Estou desarmada. – declarou. Sem saber o que dizer, perguntou – quer beber algo?

— Dispenso. Um de nós precisa estar sóbrio. – ele se aproximou e apoiou um braço na parede, ao lado da cabeça de Rey – Por que se recusou? – era uma pergunta, não uma ameaça ou o começo de uma briga.

Rey o encarou fixamente por alguns segundos, antes de deixar escapar um risinho nervoso e ir até a cama, sentando-se de pernas cruzadas nela. Ao que parecia, a bebida já fizera efeito, pois não estava exatamente em seu estado normal ao dizer:

— o que esperava, Líder Supremo? Fizemos um acordo para salvar a vida de meus amigos, e você imaginou que eu cairia em seus braços como uma garotinha apaixonada, dando-lhe tudo o que me pedisse? – ela se levantou e o fitou intrepidamente – entrei nessa nave sem leme por não ter opção, e não por causa de meus sentimentos. Se tenho atração por você? Sim, eu tenho: quando não está agindo como agiu naquele salão, e sim como o homem que vi na cabana, poderia até chegar a me apaixonar. Mas atração e esperança não vão me fazer abrir mão do controle sobre mim mesma. Eu lhe dei a chave para minha vida. Não vou entregar a chave de minha alma.

Ben cerrou os punhos e os olhos, baixando a cabeça com o maxilar trincado; estava claramente reprimindo a raiva. Finalmente relaxou um pouco, abriu os olhos e fitou sua esposa com seriedade:

— Rey, você deseja estar aqui tanto quanto eu desejava uma esposa. Mas estamos casados: precisamos encontrar um modo de fazer isso funcionar. – ele respirou fundo, curioso com o modo como a raiva ia se desvanecendo, em vez de recrudescer – eu devia esperar que uma Jedi não fosse ceder tão fácil, especialmente em algo tão importante. Posso conviver com isso. É só uma questão de tempo.

A vontade de Rey era lhe dirigir uma resposta baixa até mesmo para uma sucateira de Jakku, mas conteve a língua – o que era aquela coisa que bebera?! Estava REALMENTE fora de seu estado normal, muito menos inibida e com mais dificuldade para conter a língua – e olhou para as próprias mãos cruzadas no colo, procurando palavras para ir direto ao assunto:

— Veio consumar nosso casamento, não veio? Para que tenha validade legal...

— Sim. – ele não sabia como se sentir, naquela situação estranha e desconfortável. Não que Rey não fosse uma mulher desejável, mas as coisas haviam saído ao controle de ambos; ela estava claramente contrariada, não o desejava nem um pouco, e ele próprio estava bastante incomodado em olhá-la e pensar que aquela era sua esposa. Onde estava a cumplicidade que haviam tido ainda no dia anterior, ao lutar contra a guarda imperial lado a lado?! Onde estava a mulher que se entregara a Snoke por crer em Ben Solo, e o homem que matara seu mestre pela garota a quem desejava como aliada? Pareciam ter existido num passado distante demais.

Ela, por sua vez, estremeceu, lembrando-se das histórias ouvidas em Jakku; sua mente estava levemente enevoada, mas ainda conseguia pensar. Entretanto, boa parte da timidez e do pudor se fora, de modo que ela se levantou de novo: melhor acabar de vez com aquilo, em vez de se angustiar em inércia.

— Que se dane – sussurrou para si mesma, indo para perto do esposo; entretanto, não teve coragem de tocá-lo, as mãos parando a centímetros do peito nu. Parou a menos de um passo de Kylo, indecisa, e de repente o efeito do álcool se reduziu bastante, devido à adrenalina que corria em seu corpo. Já não estava tonta, mas a timidez e o medo haviam reduzido consideravelmente, pelo que era grata. Ergueu o rosto para fitar os olhos negros e, quando menos esperava, estavam se beijando: as mãos dele a cingiam pela cintura, subiam por suas costas até os cabelos, o rosto. E para duas pessoas tão renitentes com aquela união, a paixão despertou depressa; não pensavam mais na briga, na raiva um do outro... Aquela atração que os movera no primeiro beijo retornara com força, talvez intensificada após a raiva sentida por ambas as partes, e fazia com que tudo se tornasse fluido, espontâneo, instintivo.

As mãos dele deslizaram até as costas de Rey, desfazendo os laços do vestido e puxando-o para baixo; sentiu-a estremecer ao ser despida, e a angústia dela foi tão tangível quanto uma onda gelada; sem saber ao certo por que fazia aquilo, ele lhe segurou a mão na sua e, abraçando-a, sussurrou num tom calmo:

— Não tenha medo de mim. Não hoje. Não agora. – deslizou os lábios pela garganta dela numa trilha de beijos e a ergueu pelas coxas, carregando-a até a cama. Encarou os olhos castanhos da jovem por alguns segundos, gravando na memória o rosto dela antes de tornar a beijá-la, colocando nesse gesto toda a serenidade de que era capaz. Aos poucos ela se entregou a seus toques, rendida ao desejo que aos poucos despertava em seu corpo, retribuindo de início timidamente, ganhando confiança ao vê-lo reagir com prazer a suas carícias.

Os beijos de Kylo tornavam-se progressivamente mais possessivos e intensos, à medida que a sentia mais receptiva e entregue. Ele se deleitava explorando o corpo da moça, ouvindo os gemidos de prazer que ela emitia, sentindo as mãos pequenas correrem por suas costas, peito, segurarem seus cabelos enquanto ela arqueava ante as carícias que fazia com a boca no corpo feminino... O estranhamento passara, substituído pelas sensações físicas; não sabiam o que seria no dia seguinte, mas agora seus corpos ditavam as ações, reagindo um ao outro de forma natural e instintiva. O Lorde Sith se fora, substituído pelo homem cuja atenção e desejo estavam inteiramente concentrados na bela mulher em seus braços. A Jedi fora afastada pela jovem que, com seus medos obliterados pela bebida e pelo toque de Ren, entregava-se àquela experiência nova e deliciosa. Nunca o imaginara capaz de tanta gentileza e intensidade simultâneas, e só o que queria era esquecer a situação que os levara até ali. Pelo menos por hora, desejava pensar apenas no presente, no prazer que compartilhavam.

Imergiram um no outro completamente quando enfim se uniram num abraço íntimo, esquecendo por alguns instantes tudo o que não fosse eles dois, naquele momento. O dia seguinte não importava, o Império não importava. Apenas eles, o desejo que os movia... Naquela hora não precisavam ser rivais, aliados ou atender a qualquer tipo de dever, plano, princípio; eram um homem e uma mulher unidos não apenas pelo desejo, mas por um sentimento indefinido – misto de afeto e antagonismo — que não podiam explicar ou entender, e não menos real por causa disso.

Quando adormeceram ao fim de tudo, foi nos braços um do outro, abraçados como amantes, esquecidos das palavras rudes... Sentiam-se aquecidos no toque do outro, o primeiro toque amável que ambos experimentavam em muito tempo, e isso afastou os pesadelos e memórias que pudessem tentar se aproximar. Em seu sono estavam em paz, em casa, no lugar em que se sentiam seguros, longe do mundo real e seus infindáveis obstáculos. Era ilógico, dado tudo o que ocorrera antes, mas o mundo dos sonhos não é racional.

Notas finais
É isso, pessoal! Espero que tenham gostado! Com o Ano-Novo, vou evitar um prazo muito curto, mas o próximo capítulo deve sair até dia 10, ok? Bom ano-novo para todos, e um feliz 2018!!! Que a Força esteja conosco no ano que se inicia!