Rise of Jedi
6 Insurretos
Notas iniciais
Rey abriu os olhos devagar, mas não se moveu: não queria sair de onde estava, aconchegada nos braços de Ben. Mais uma vez eram apenas eles dois, longe de qualquer título ou obrigação, e só desejava estender aquilo um pouco mais.
— Ainda é cedo, Rey, não se preocupe – sussurrou a voz masculina ao seu ouvido, fazendo-a se arrepiar. A moça se virou para encontrar os olhos negros de seu esposo observando-a com... Seria aquilo carinho?
— Como soube que eu estava acordada? – perguntou, deitada sobre o braço forte, acariciando o peito do Cavaleiro de Ren.
— Sua respiração. – ele levou a mão à nuca de Rey e a puxou para um beijo que começou suave, mas logo se intensificou. Não podiam admitir para si mesmos, não queriam admitir, mas a verdade é que não conseguiam manter as máscaras quando estavam juntos; a atração que sentiam, o elo entre suas mentes, almas ou o que fosse, falava muito mais alto. – Rey – sussurrou ele, com volúpia – você me deseja?
A resposta dela foi aprofundar o beijo, perdendo-se no homem, nas sensações que ele lhe provocava e, acima de tudo, no perigoso sentimento de lar que lhe acometia quando estava em seus braços. Entregaram-se mutuamente e, pela próxima hora, suas preocupações se tornaram uma distante memória.
A intensidade luminosa indicava que já era “dia”, quando enfim se dispuseram a levantar da cama. Rey pegou a camisola jogada no chão e a vestiu, praguejando mentalmente: devia ter colocado alguma coisa, antes de sair para o corredor! Como ia atravessar a distância entre seu quarto e o de Ben, em plena luz do dia, vestida com uma camisola curta e fina?
— Não pensou no problema de voltar para seu quarto quando veio para cá, não foi? – seu tom era sério, mas havia inegável pontada de divertimento com o embaraço de Rey – quando o droide serviçal vier nos servir a primeira refeição, mande-o buscar algo para você vestir.
— Eu nem me lembrei de que estava em roupas de dormir – disse a jovem, percebendo tarde demais ter confessado que saíra com genuína preocupação. Isso não passou despercebido ao Sith:
— Então, preocupa-se comigo.
— É claro. Você é meu marido, e uma das poucas pessoas nessa nave que não deseja arrancar minha cabeça... Ainda. – ela meneou a cabeça, desgostosa com a péssima desculpa – francamente, Ben, a nave inteira tremia com suas ondas mentais! Eu sabia que você estava com medo e sentindo dor, e precisava de ajuda. Não tive tempo de pensar “ah, sim, vou trocar de roupa”.
— Não foi uma crítica. – outra vez ela viu o esboço malicioso idêntico ao de Han Solo no sorriso de Ben – pessoalmente, prefiro esta visão.
Rey sentiu-se corar e arremessou um travesseiro no homem, agora já vestido, que segurou o objeto no ar e o arremessou de volta com algum divertimento no olhar.
— Ben, estou preocupada com uma coisa – disse a jovem, alguns segundos depois; viu os olhos negros se tornarem ainda mais escuros, e prosseguiu – Quando saí procurando por você, estava atordoada demais até para diferenciar direita e esquerda, por causa da dor psíquica que você me causava. Acabei trombando com o general Hux, e nessa hora senti que seu sofrimento diminuiu... Ele estava parado a poucos metros da porta desse quarto, e... Sei que é improvável, mas poderia apostar que ele teve algo a ver com o terror que sentiu em seu pesadelo.
— Hux estava perto de minha porta? – a voz do Líder Supremo era cortante como uma lâmina laser – ele lhe dirigiu a palavra?
— Tentou impedir-me de entrar. – confirmou a moça – largou-me apenas quando queimei sua mão com o sabre de luz e... Eu sei que ele não possui domínio sobre a Força, mas de algum modo sinto que minha presença o distrair e seu sofrimento abrandar simultaneamente não são mera coincidência.
— Aquele filho de uma... – O rosto de Ben ficou mais pálido do que já era, as feições congeladas em ódio – ele ousa ameaça-la? Tramar contra nós? Vai pedir para morrer, antes de eu terminar... – a mão da jovem em seu braço, porém, impediu o cavaleiro de sair. Ele a fitou, e a raiva se esvaiu acentuadamente, restando um feroz sentimento protetor.
— Se você o torturar ou matar, sem ter provas de uma traição real, vai conseguir a animosidade de todos que o seguem. E muitos o seguem. Ele não tem apenas o medo dos demais, como você: já teve tempo de conquistar também a lealdade de muitos. Não pode se dar o luxo de seguir pela raiva, ou vai perder seu império antes de consolidá-lo.
— Sugere que eu permita...
— Sugiro que descubramos o que ele trama, e se realmente não foi uma coincidência. – firme, serena, direta, lógica. Rey não percebia a imperatriz que poderia ser, para a galáxia? Isso apenas reassegurou a Solo o que ele já sabia: a Jedi fora sua melhor e mais importante aliança! Mesmo tendo sido afrontada pelo maldito, punha à frente de seus desejos pessoais a necessidade de manter a ordem...
— Não permitirei que ele fique impune. Não posso permitir que toque minha mulher e não seja punido, e para isso HÁ provas – ele segurou o braço de Rey, indicando os hematomas deixados pelo aperto de Hux.
— Ele já foi punido, com um sabre de luz danificando sua mão. – respondeu a moça, ficando de pé diante de Kylo – Escute-me, Ben Solo: agora você é o Líder Supremo! E se quiser manter esta posição, precisa ter o autocontrole e racionalidade que ela exige. Ter surtos de raiva e punir a torto e a direito não irá fortalecê-lo, pois são os atos de um menino assustado tentando provar que é homem, não os atos de um líder que conhece o próprio poder. É hora de parar de agir como o pupilo inconformado de Snoke e ser senhor não apenas de seu império, mas de si mesmo. – ela cruzou os braços e censurou – como espera tornar-se mais poderoso e controlar melhor a Força, se não controlar os próprios sentimentos e ações? – ela viu um brilho cruel no olhar dele – e não, controlar suas emoções não é espancar seu próprio machucado para atiçar sua raiva! A raiva é o OPOSTO do controle frio que deve ter. Ela o cega e faz tomar decisões precipitadas!
— assim diz a Jedi. – Ren não poderia simplesmente aceitar a verdade daquelas palavras, por mais que as reconhecesse – lidamos com a Força de modos diferentes.
— Não tem a ver com o lado da Força que seguimos, nem com ideologia, dessa vez. Tem a ver com agir como um menino afoito, que não mede consequências, ou como um homem que controla toda uma galáxia. Você não tem o privilégio de se precipitar, ou perderá tudo da mesma forma que ganhou.
— Parece que ouço Eilenia falando através de você.
— Que ótimo! Significa que minhas palavras são sensatas. – ela largou os braços ao lado do corpo e suspirou – Eu entendo que tem motivos para sentir raiva, e nem imagino os motivos que ele já deve ter lhe dado para tanta ânsia em puni-lo, mas não podemos nos precipitar. Especialmente com um homem influente como Hux.
— A influência dele é o que me preocupa, Rey. O que quer que ele trame, terá apoiadores poderosos, e é imperativo pará-lo, antes que atinja seus objetivos. – Ben bateu com a mão espalmada na parede – o que o cretino quer? Por que estava na frente de meu quarto, e logo... – sua expressão revelou uma ideia – se ele se atreveu a fazer isso, sua execução será lenta e dolorosa!
— Isso o que? – uma suspeita se formava, mas era absurda demais para manifestar.
— Conhece os Umbaranos? – ele estava realmente furioso, mas, por algum motivo, continha-se. Seria possível que ele a tivesse ouvido?
— Acha que ele está associado a um? – Rey parou e pensou um pouco: faria sentido. E, se fosse o caso, talvez a onda psíquica que a confundia e impedia de encontrar o esposo realmente viesse de mais de um lugar, e por isso a desorientasse! Afinal, o Povo das Sombras conseguia influenciar e manipular mentes, ainda que ela não soubesse atingirem tal nível de capacidade... Isso SE a suposição fosse correta. – Como poderíamos saber? Umbaranos não deixam rastro em suas ações.
— Poderíamos? Desde quando existe um “nós”, nisso? – ele colocou o próprio sabre de luz no cinto, parecendo indiferente.
— Sou sua aliada, lembra-se? – Como ele podia pôr em dúvida sua lealdade, ainda mais depois da última noite?! – Um ataque a você é um ataque contra mim! Achei que isso estava bastante claro.
— Rey, você é uma Jedi. É minha aliada, mas não vai se colocar no meio desse tipo de conflito. Não existe “nós”, agora: isso é entre Hux e eu.
— Se ele pretende sabotá-lo, então eu já estou nisso! – protestou a Jedi – entrei nisso quando o aceitei como marido, e confirmei minha decisão ao correr para ajuda-lo, ontem à noite. – ela o fitou com uma firmeza e autoridade que não sabia possuir – eu não vou recuar. Você luta, eu luto. Você cai, eu caio. Talvez, um dia, nossos caminhos nos obriguem a lutar um contra o outro, novamente, mas até lá estarei do seu lado, principalmente contra essas feras peçonhentas que não têm coragem de enfrenta-lo pessoalmente. – ela segurou a mão do esposo de modo cúmplice, seu rosto demonstrando firmeza inabalável – então pergunto: o que podemos fazer?
Kylo respirou fundo, profundamente afetado pela reação de Rey. Não a queria em meio a sua rivalidade com o general por mais motivos do que podia contar, mas principalmente porque não queria lhe dever coisa alguma. Como ela mesma salientara, era provável que o futuro os pusesse como rivais, outra vez, e não queria dívidas em relação à mulher. Porém, outra parte sua reconhecia uma razão bem menos lógica para isso: não a queria ferida por uma batalha que não lhe dizia respeito. Ao mesmo tempo, um motim da parte do general não era mais algo pessoal, a partir do momento em que se tornara o Líder Supremo; e como sua consorte, Rey era tão afetada por insurreições quanto ele próprio. Como Jedi, estava inclusive mais propensa a sofrer atentados do que ele... Já não havia como alijá-la da situação.
— Você não tem ideia das coisas nas quais está se metendo. Dos perigos que correrá.
— Está preocupado comigo? – pergunto ela, arqueando uma sobrancelha.
— Sim, estou. – respondeu Kylo, ríspido – não gosto de perder aliados ou vê-los se ferir, especialmente a única pessoa nesta nave que não me deseja morto!
— Isso foi quase gentil de sua parte, Ben, e eu agradeço a preocupação, mas estamos juntos. Você cai, eu caio. Você luta, eu luto. – ela segurou o braço dele e o fez erguer a mão, retirando sua luva esquerda e espalmando a própria mão contra a palma dele, deixando que a sentisse e sentindo-o ela própria. Era como se um choque elétrico a percorresse, quase tão íntimo e ainda mais revelador do que fazer amor... Viu-o fechar os olhos para sentir melhor aquele momento, e quando os abriu fez a pergunta fatídica:
— O que sente por mim, Rey?
— Acho que você sabe. – respondeu ela, sem tentar se defender. Aos poucos desistia de mentir para si mesma e apenas aceitava a natureza de seus sentimentos – a cada dia um sentimento abre um pouco mais de espaço em meu coração, passando através da mágoa e do ressentimento para desabrochar. Não me cega para seus defeitos e erros, ou para o fato de que somos igualmente aliados e rivais... Mas não deixa de existir. Olho para você, e não vejo o Líder Supremo... Eu vejo Ben Solo, com seus medos, dores e forças. Vejo o que tem de melhor e de pior. E quanto mais o conheço, maiores as raízes desse sentimento em mim. – ela se afastou, censurando a si mesma por se expor daquele modo, mas parecia-lhe justo, depois de ter visto a fraqueza dele na noite anterior. Pensou em repetir a pergunta do esposo, mas não queria saber a resposta. Ou melhor, temia qual seria. Não sabia dizer até onde o que sentira nele era real, até onde sua mente e seu coração a iludiam, e não queria ouvir as palavras que fariam doer mais do que tudo. Pois ouvir que ele não a amava seria terrivelmente doloroso. Assim como ouvir que o fazia, pois o fato não mudava grande coisa na posição de ambos.
Ele parecia procurar as palavras certas, e falhava miseravelmente nisso. Não sabia o que responder, e sabia menos ainda o que sentia pela menina... Mas ficava feliz em tê-la ao seu lado. Mas um Lorde do Lado Sombrio não devia se sentir desse modo, quanto mais confessar sensações como aquela! Porém, olhando para Rey e sabendo tudo o que ela podia representar, muito além de uma arma ou Padawan para o Lado Sombrio – após travar contato com ela, tantas vezes, ele sabia que convertê-la seria uma missão praticamente impossível – ponderou, pela primeira vez, por que fazia tudo aquilo. Por quê?! Esta era a questão que o atormentava mais intensamente.
— Rey... – ia dizer algo, quando o droide-serviçal os interrompeu. O alívio nos olhos da moça ante a interrupção provocou um súbito mau-humor em Kylo, que se afastou com o máximo de frieza que poderia.
A refeição foi servida, a Jedi pediu ao droide por suas vestes e, enquanto tomavam a primeira refeição juntos, a moça falou:
— Não diga algo por se sentir na obrigação de fazê-lo, Ben. – sustentou seu olhar – quando me disser algo, para o bem ou para o mal, eu só peço que seja verdade. – ela recebeu suas roupas e as vestiu: calça e túnica cinzentas, estola um pouco mais clara cruzada no peito, cobrindo os ombros e presa no cinto marrom, além de botas cinza. Percebeu o olhar de Ben sobre si, enquanto se vestia, e pela primeira vez isso não a incomodou. – Temos de descobrir o que houve ontem. Alguma sugestão?
— Pressionarei Hux. Fale com Eilenia, ela a ajudará a lidar com os Umbaranos. Mas tenha cuidado: são perigosos, traiçoeiros, manipuladores E dominam a Força. Pelo menos as habilidades mentais que esta confere.
— Serei cuidadosa. – pensava que não devia ter se exposto daquela forma, mas era uma troca justa, já que vira Ben em um momento de profunda vulnerabilidade. Virou-se para ele a fim de se despedir, surpresa ao encontra-lo a centímetros de si – O que está fazendo?
— Um último fôlego, antes de tornar a ser Kylo Ren – respondeu, dando-lhe um beijo casto nos lábios – fique atenta à Força. Eu a chamarei, para que me acompanhe na reunião dos oficiais. E até lá... Apenas tome cuidado.
A Jedi sorriu e tocou a fronte de Kylo com a sua: não precisava ler a mente dele para saber que havia ali confiança e preocupação. Era o bastante, ao menos por hora.
— Seja sábio, Líder Supremo. – sussurrou ela, antes de lhe voltar as costas. Já estava na soleira quando ouviu a voz de Ben em sua mente:
“Rey... Eu também sinto algo crescer em mim. Algo forte, embora não saiba o que é; não queria que fosse embora sem saber disso.”
Ela se virou e lhe lançou um sorriso, antes de desaparecer do campo de visão de Kylo Ren. Seus sentimentos por ele não importavam agora – ainda que a deixassem num estado de rara felicidade – e sua mente se concentrava apenas em descobrir se Armitage Hux realmente tinha algo a ver com os eventos da noite passada. Obrigou-se a respirar fundo e afastar quaisquer pensamentos não relacionados a seu objetivo, e seguiu seu caminho.
Sozinho em seus aposentos, Ren cerrou o punho e socou a parede com força, aliviado quando a dor subiu por seu punho até o ombro. A dor o distraía, o levava a quem era normalmente, fora da influência de Rey. Pois ele temia os efeitos da moça sobre si, quase tanto quanto os adorava; a presença dela parecia um rio de águas frescas a apagar o terrível incêndio que ardia em seu interior, queimando sua alma. Porém este incêndio fora a fonte de seu poder por mais tempo do que se lembrava, e não estava pronto para abandoná-lo! Não queria abandoná-lo!
A raiva e o ódio nele se haviam impregnado de modo profundo demais para se dispor a deixa-los facilmente, ao mesmo tempo em que, quando os esquecia, imerso na presença dela, sentia algo a mais agitar-se sob a superfície de sua alma, uma força estranha, nem sombria, nem luminosa... Algo que ainda não experimentara. Em resumo? Rey era o doce veneno que causaria sua perdição, se não conseguisse retomar o controle. Mas ele queria retomar? Pois com toda a angústia, dúvida e raiva que ainda experimentava quase o tempo todo, estas já não lhe causavam todo o sofrimento de quando era o aprendiz de Snoke. Essas mudanças o perturbavam, e foi na dor que encontrou concentração suficiente para esquecê-las e, enfim, vestir a persona de Líder Supremo. Entretanto, o aviso da Jedi continuava claro em seus pensamentos: agora era o senhor, e não mais um aprendiz rebaixado diante do mestre.
“Desapegue-se do medo” sussurrou uma voz em sua mente. Seus próprios pensamentos, ao que parecia... Golpeou outra vez a parede, e a dor anestesiou as emoções. “Desapegue-se da dúvida” o sussurro mental continuava enquanto a dor agia, deixando apenas uma fria lucidez enquanto ele movia os dedos possivelmente quebrados da mão esquerda para banir toda a confusão, dúvida e memórias do passado. Agora era ELE o senhor de todo um império. Líder Supremo. Imperador. Não tinha mais nada a provar a quem fosse, além de si mesmo. E o que haveria para provar? Não alcançara, enfim, seu máximo objetivo?!
— Honrei enfim o seu nome, meu avô. – sussurrou para si mesmo, e a ideia de ter não apenas se igualado a Darth Vader, mas vivido para saborear a mesma vitória que custara a vida do Lorde Sith, o encheu de sombria satisfação. Era ele o mestre, agora. Faltava-lhe um aprendiz.
*
Rey compartilhou com Eilenia tudo o que ocorrera desde a noite passada. Bem, quase tudo... Apenas o relevante dos eventos sobre o pesadelo, a presença de Hux, as ondas psíquicas de dor que a haviam atordoado e, finalmente, a conversa sobre o assunto com o Líder Supremo. A Twi’lek apenas ouvia pacientemente, processando cada detalhe antes de formar uma opinião. Foi apenas quando o relato terminou que a moça se manifestou:
— Se foram Umbaranos, vocês têm grandes problemas. – ela tinha os braços cruzados, os dedos da mão direita tamborilando sobre o braço esquerdo – A sociedade do Povo das Sombras baseia-se em jogos de influência política, econômica e, acima de tudo, jogos de influência mental para ascender socialmente. Numa Primeira Ordem ainda fragilizada pela súbita mudança de liderança, eles poderiam perfeitamente ver a chance de ascender na hierarquia e tornar-se membros do comando. – ela viu a expressão de “eu sabia” no rosto de Rey, e interrompeu – PORÉM... Uma acusação dessas é grave.
— Eu sei. E se não houverem feito nada, ao serem acusados, a afronta os fará tomar uma atitude. – a jovem apoiou o queixo na mão – quão fortes eles são, mentalmente?
— Não seja arrogante de achar que consegue convencê-los a falar, Rey. – censurou Eilenia – você mal descobriu o uso da Força, e essa raça é criada utilizando-a. É muita pretensão imaginar que poderia entrar em suas mentes ou influenciá-los: perceberiam o que pretende fazer antes mesmo que o fizesse, e virariam isso contra você, mostrando-lhe falsos pensamentos e memórias.
— Foi apenas uma ideia.
— E uma ideia moralmente duvidosa. – completou a Twi’lek – não o tipo de coisa que uma Jedi deve fazer, a menos que não haja outra alternativa.
A jovem mordeu o lábio inferior, envergonhada de seu lapso; o que Luke teria dito, se a ouvisse tendo tal ideia? Sentia que merecia, no mínimo, uma surra com a planta que ele usara para bater em sua mão.
— Tem um jeito... Menos difícil de descobrir. – disse a Twi’lek – como foi o pesadelo de Kylo?
— Kylo? – Rey arqueou uma sobrancelha – depois irei adorar saber como você não tem medo de chama-lo pelo primeiro nome.
— Depois – riu a diplomata – agora, conte-me.
— Conhece o Líder Supremo? – perguntou a Jedi – ele não me contou. Quando entrei em seu quarto, gritava e se retorcia como se sentisse muita dor. E estava com raiva... Não, não raiva... Ódio. Quando o acordei, ele teria me matado, antes de perceber que era eu.
— Ah, pobre garoto. – suspirou Lena, e ante os olhos curiosos da amiga explicou – Nós éramos amigos, num tempo em que ele ainda não era o “poderoso Mestre dos Cavaleiros de Ren”, mas apenas um aprendiz recém-chegado. Assim como eu. Tínhamos a mesma idade, havíamos acabado de começar nossas carreiras a serviço de Snoke, e não tínhamos amigos. Foi uma amizade estranha... Quando caminhávamos juntos, ele podia sentir quem desejava o meu mal. E a cada vez que saía de uma sessão de “treinamento” com Snoke, eu o levava ao hospital e ficava ao seu lado até que se recuperasse.
— Hospital? – Rey estremeceu – o... O que Snoke fazia com ele?
— Ele nunca me contou, mas o modo como saía daquela sala... Às vezes treinavam com sabres de luz, e havia queimaduras. Outra vezes ele estava intacto, sem um única marca de golpe, mas mal conseguia caminhar; o mestre lhe infligia dor extrema, até ele desmaiar; lembro-me do horror e temor dos médicos, de acordo com os quais ele chegava com os sistemas corporais em falha iminente. Aos poucos, porém, tornou-se mais forte, e passou a recusar minha ajuda. Ficou mais sério, perdeu a pouca alegria que tinha, e nos afastamos. Mas eu me lembro bem de como o via, e poderia apostar minha vida que o pesadelo envolveu essas sessões. Nada mais o aterrorizava tanto quanto um membro da Guarda Pessoal ordenar-lhe que fosse até Snoke para o treinamento.
Rey sentiu-se extremamente mal: experimentara na pele aquele poder cruel do Líder Supremo anterior, e ele não o usara por tanto tempo... Apenas até que sua mente estivesse mais ocupada com a dor do que em manter as próprias defesas. Mas em Ben ele usava de modo gratuito, sem um momento que lhe dissesse ser hora de parar, a não ser a resistência do próprio aprendiz! A simples ideia revoltou seu coração e a enojou! A morte de Snoke fora rápida e limpa demais! Não... Não podia pensar assim: não podia se deixar levar pela vontade de vingança. Sim, era um ser humano, e falível, mas ter falhas e ceder a elas era o que separava um Jedi de um Sith.
— E os pesadelos? Hux disse que ele os tem com frequência?
— Sim. Mas não do modo como você falou. Ele nunca chegou a usar a Força enquanto sonhava ou, se usava, era de modo brando. Os Miralukas estão atordoados, esta manhã, e todos dizem que a Força libertada na nave foi tão intensa que suas mentes ainda se encontram embaralhadas e confusas.
— Então aqui não foi normal. – Rey pensou um pouco – não há registros que digam onde estava cada pessoa, durante a noite?
— Existem, mas dizem respeito apenas aos que entram e saem do horário de serviço, ou usam as instalações comuns. A circulação é encargo das câmeras de vigilância, mas não há nenhuma no andar do comando. A vigilância é feita por... Dróides! É isso! – ela encarou Rey – os droides são desativados durante o dia, mas, se algo aconteceu, estará gravado nas memórias recentes.
— Se alguém fazia algo escuso, terá se ocupado de primeiramente desativar os droides em sua seção. Mas a desativação estará presente como uma defasagem do relógio. – a garota acelerou sua mente – não. Não deixariam uma defasagem. Reproduziriam o vídeo em loop durante todo o momento que desejam apagar, ou durante o qual a unidade foi desativada. Mas... – ela bateu na mesa com um estalo – sim! Não teriam como fazer isso em todos os droides. Posso procurar os que acusarem algum tipo de falha, e verificar as memórias das unidades que patrulhavam setores adjacentes. Quem tiver passado por ali, em horário muito próximo, estará numa lista suspeita.
— O quarto de Hux fica a duas alas do de Kylo Ren – explicou Eilenia – venha comigo. Vou lhe mostrar um mapa.
A mais velha puxou a amiga para seu escritório – um espaço não muito grande, mas confortável, com armários, mesa de trabalho, computadores e telas de projeção holográfica e, o que mais intrigou e encantou Rey: livros. Livros de verdade, não digitais. Pareciam muito antigos, e claramente faziam parte da coleção pessoal da moça, protegidos por uma janela de vidro blindado com abertura por reconhecimento de digital.
— São livros de verdade? – perguntou, intrigada.
— Meu tesouro mais precioso! – riu-se Eilenia – os primeiros foram um presente de casamento, e aos poucos... “Encontrei” os demais. – ela deu um sorrisinho culpado, fazendo a amiga entender que “encontrar” fora o mesmo que encontrar no mercado negro. Abriu uma tela holográfica e encontrou nos arquivos o mapa da nave; aplicou zoom no andar de comando, e apontou – aqui. Estes são os aposentos de Hux, neste marcador – uma luz verde se acendeu num ponto, e com os dedos a Twi’lek fez surgir um tracejado da mesma cor, marcando o caminho até os aposentos do Líder Supremo. – ele teve de cruzar esses três corredores para chegar ao lugar onde estava. As unidas droides que patrulhavam são... CB5, CB-09, C08 e CF2.
— Certo. Vou descer à central de operação dos droides. – disse a Jedi – consegue um mapa em tempo real dessa nave?
— Eu não deveria ter acesso, mas o amigo de um amigo ensinou algumas coisas – ela digitou rapidamente, entrando nos sistemas de navegação. Um alerta em vermelho surgiu sobre o mapa, e a Twi’lek tirou de dentro do bolso uma pequena chave, idêntica ao tipo presente nas unidades R2 e BB. Virou-se, abaixou-se sob a mesa e a inseriu na abertura, rodando-a numa sequência precisa; o alerta se apagou e o mapa da nave se iluminou com incontáveis pontos. A diplomata sorriu ao ver aquilo – pronto. Acesso a todas as câmeras de segurança, em tempo real. Elas se comunicam e montam essa imagem.
— Isso. É. Fantástico! – Rey avançou e observou os mapas – eu imagino que mexer na memória dos droides possa suscitar suspeitas. Você pode me guiar, a partir daqui?
— Está falando em ir sozinha? É loucura! – protestou Lena. – e eu prometi não deixa-la vagar sozinha por essa nave.
— Se formos nós duas, chamaremos mais a atenção.
— Nem adianta argumentar. – Eilenia removeu um pequeno cartão de acesso da mesa e pegou um objeto similar a um relógio de pulso, o qual acoplou ao próprio bracelete – tenho o mapa em tempo real comigo, aqui. Vamos.
— Preciso de um desses. – comentou Rey.
— No dia em que eu quiser você se enfiando onde não deve. Ou seja: não tão em breve, assim.
— Você sabe que eu posso aprender a acessar os sistemas, não é?
— Pelo menos não terei sido eu a lhe facilitar isso. – sorriu a mais velha – posso alegar ignorância e inocência.
O depósito de droides ficava num dos pavimentos mais inferiores e, a fim de evitar encontros desagradáveis, as mulheres seguiram pelas escadas de manutenção. Rey estava focada, calma e abria sua percepção à Força: não precisava da orientação de Lena para saber quando precisavam mudar de caminho a fim de evitar serem vistas, e era quase como se pudesse ver o caminho assinalado à frente.
— Lena, isso pode ser perigoso. – disse, parando num lance de escadas – se irem você, podem acusa-la de conspiração.
— Você é uma Jedi. Corre mais riscos do que eu!
— Você é uma diplomata, que nada tem a fazer no compartimento dos droides. Eu, por outro lado, tenho o respaldo de ser a esposa do Líder Supremo e, em último caso, posso alegar ter me perdido ou, no mínimo, ter ido até ali por curiosidade. Sabem que sou mecânica. Não vou deixar que se comprometa desse modo.
— Como vai se proteger? Não pode prestar atenção nos droides e sentir a aproximação de pessoas ao mesmo tempo. Não ainda, pelo menos.
A Padawan mordeu os lábios; sim, ela tentaria manter o foca expandido mesmo concentrada nos mecanismos dos robôs, mas não havia garantias de que não seria distraída, mesmo se por alguns momentos. Olhou para a amiga e perguntou:
— Tem um comunicador?
— Sempre tenho – a Twi’lek o prendeu à orelha esquerda da humana – vou orientá-la à distância. Se me ouvir falar para sair, saia sem discussão.
— Dessa vez eu pretendo obedecer. – prometeu a moça – obrigada pela ajuda.
Rey terminou de descer a escada e seguiu pelo infindável labirinto de passarelas e corredores metálicos, até a porta desejada. Sentiu cuidadosamente o interior e, após constatar que estava vazio, entrou; não pôde deixar de sentir um aperto no peito, como se algo ruim estivesse prestes a acontecer, e redobrou a atenção: absolutamente nada. Estava a salvo, ao menos por hora.
*
Um gemido de frustração deixou os lábios de Rey: os droides haviam, sim, captado a imagem de Hux em seu caminho até onde o encontrara, mas fora apenas isso. Não havia ninguém com ele. Não falara com pessoa alguma ou usara qualquer comunicador... Fora uma busca inútil!
Levantou-se, feliz por nada a ter impedido ou atrapalhado, e acionou seu comunicador:
— Lena, foi inútil. O caminho está livre?
— Sim – sussurrou a outra. Seu tom de voz, porém, era estranho... Quase mecânico, e isso não podia ser um bom sinal! Rey segurou o sabre de luz e deixou a “garagem”, voltando pelo caminho que fizera, preocupada com Eilenia. Porém, seu coração gelou ao perceber que, mesmo subindo os degraus, não saía do lugar! Uma ilusão. Uma ilusão poderosa...
— Quem está aí? – acionou o sabre e se voltou. Perturbadoramente, a imagem não mudou. Estavam brincando com sua mente! Mas quem?! E como?! Ela não sentira nenhum toque mental, nenhuma presença... Umbaranos. Shan avisara sobre o perigo de subestimá-los! Mas como poiam saber onde ela estava? A menos... A menos que manipulassem Eilenia. Ou pior: que tudo houvesse sido uma armadilha para atraí-la até ali!
— Estava à sua espera, jovem Rey – disse uma voz andrógina. A Jedi se voltava para todos os lados, e tudo o que enxergava eram os degraus à sua frente, como se apenas sua mente se movesse, mas não seu corpo. – não lute, será inócuo.
— Por que está fazendo isso? O que quer de mim?! – o pânico ameaçava tomar a moça, presa e iludida por seus próprios sentidos!
— Este deveria ser o momento em que, com uma risada maligna, nós lhe explicaríamos um plano terrível e elaborado? – debochou uma segunda voz – não. Poupe-se. Não se torture imaginando o motivo: já sofrerá o suficiente, sem isso.
A Jedi tentava se libertar daquelas ilusões desesperadamente: esfregou os olhos e se virou, golpeando o ar, e pareceu funcionar, pois tinha diante de si o andar inferior. Começou a descer e, para seu horror, sentia como se subisse. Experimentou subir de costas, e não se moveu. Girava para a esquerda e o mundo virava de cabeça para baixo, como se estivesse pendurada pelos pés às placas metálicas do piso. A angústia a tomava enquanto repetia para si:
— é apenas uma ilusão. É apenas uma ilusão... – tentou chamar a Twi’lek pelo comunicador, mas havia apenas estática. Fechou os olhos e se concentrou em expulsá-los de sua cabeça, mas ouviu um risinho de deboche de uma terceira voz:
— É mais forte do que a maioria. Foi preciso esforço conjunto para captura-la. Mas agora não há escapatória. – algo a tocou, e ela se virou brandindo o sabre, cortando apenas o ar – bela tentativa. Mas como sabe se realmente está se movendo, ou se apenas pensa fazê-lo?
Em pânico, Rey sentiu o laço que possuía com Ben, mas percebeu de imediato que não podia chama-lo: era o que aquelas criaturas desejavam! Não podia lhes entregar seu marido, mesmo se não pudesse salvar a si mesma; mas tampouco iria se entregar sem luta.
Nada mais foi dito: eles a atormentavam lançando-a num labirinto mental. Libertavam-na e deixavam que se lançasse pelas escadas e pontes, mas ao abrir outra porta estava de volta à saída do depósito. Subia, e sentia-se descer. Tentava se mover, e seus pés pareciam pesar uma tonelada! Corria, e era como se mover dentro d’água, puxada para trás, lutando contra cadeias invisíveis! O ar lhe parecia grosso para ser respirado, ela suava frio de medo e desespero! E quando o labirinto de metal deu lugar às dunas de areia de Jakku, sentiu como se sua mente estivesse prestes a colapsar. Era outra vez uma criança olhando para o céu e gritando para que o pai não a abandonasse... Era uma menina buscando peças úteis, sentindo o estômago doer de tanta fome, após dias sem ter encontrado algo de valor... Era uma adolescente perdida em uma tempestade de areia, jogada para um lado e para outro, os pés se afundando no chão a cada passo, derrubada pelo vento, grãos esfolando seu rosto... Caía, e seus braços eram tragados para baixo enquanto lutava para não ser engolida...
Já não encontrava seu sabre de luz, e quase não se lembrava de que ele existia. Era como estar de volta ao momento vivido, como se nada depois daquilo houvesse sido mais do que o sonho de uma jovem morrendo na areia!
E então tudo piorou: a areia se tornou sombra. Sombras que subiam por seu corpo, envolviam-na em garras poderosas, fechavam-se sobre si, e seus gritos morriam em meio à escuridão. A escuridão a cegava, preenchia seus ouvidos e narinas, afogava-a lentamente num aperto mortal...
“Rey, você precisa lutar.” Chamou uma voz. A voz de Luke. E em meio às trevas, ela sentiu a presença do mestre, mas não estava sozinho... Havia outro ao seu lado, parecido com ele, de algum modo, mas cuja energia também remetia à de Ben. E foi desse segundo homem que veio a resposta:
“Estão dentro de SUA mente, padawan. Sua mente é o seu reino, só podem comandá-la se permitir. Se render-se ao medo. Lute. Não desista agora.” Estava tão exausta, sem ar, assustada... Uma parte sua queria apenas fechar os olhos e desistir, mas esse era um lado pequeno e fraco demais para que o ouvisse. E as palavras que se seguiram lhe deram as forças de que precisava. “Ben precisa de você.”
Não permitiria que aqueles seres a matassem, para depois irem atrás de Ben! Não se renderia!
— Esta é a MINHA mente – repetiu para si mesma – aqui, vocês são meus prisioneiros. – Cerrou os olhos e se concentrou em apenas sentir. Não enxergava, não ouvia, não tinha tato, mas possuía algo para guia-la com muito mais certeza: a Força. Invadida pela energia, sentiu seus pulmões expandirem e se libertarem, estendeu a mão e chamou por seu sabre de luz. Os inimigos, agora, eram vultos escuros no entorno que ela percebia com clareza. Sabia onde estavam, e para onde ela própria se dirigia. Precisava ficar de olhos fechados e ignorar os sons de engrenagens, gritos, uivos... Nada era confiável. Nada, além da Força.
Um passo para o lado, e este ela soube ser real; um golpe rápido demais para ser visto, e a sombra se dissolveu. A cadeia que montavam pareceu enfraquecer, dando a ela a chance de escapar à escuridão que a consumia; sentia as mentes deles – cinco deles – tentando romper-lhe as barreiras, destroçar sua mente, bloquear a Força. Mas não havia como impedi-la de sentir algo que era parte de si mesma! Tentavam fugir, mas o elo mental que os Umbaranos haviam criado agora agia para impedi-los de escapar. Rey sentia com ainda mais intensidade, movia-se mais rápido, as mentes daqueles dois Mestres parecendo guia-la e protege-la dos ataques, ajudando-a a aprisionar seus atacantes na teia que eles próprios haviam criado. Sabia onde golpear para aleijar, mas não matar; seus movimentos eram rápidos e fluidos demais para serem previstos, e quando o último tombou, ela sentiu a armadilha soltá-la. Soltá-la, mas mantê-los presos na própria ilusão.
Abrindo os olhos, viu seis Umbaranos caídos ao seu redor, mutilados, pernas ou braços amputados, incapacitados pela armadilha mental... As aranhas presas em sua própria teia. Era um visão horrível e, sob o peso do violento estresse sofrido, vendo o horríveis ferimentos cauterizados das amputações – e pior ainda, saber que ela os causara – e sentindo o odor nauseabundo de carne queimada, ela caiu sobre os joelhos, a vista parcialmente escurecida enquanto seu corpo era sacudido por uma violenta náusea.
— Rey! – a voz que a chamava pertencia a Ben. Ele desceu as escadas com seu sabre vermelho em riste, arrastando com a outra mão um corpo inerte. Ao vê-la, largou o corpo e saltou por sobre o corrimão, pousando bem ao lado da esposa, que se levantou trêmula:
— Estou bem. – o Sith olhou em redor... Sua esposa conseguira lidar com SEIS Umbaranos, sozinha?!
— Você fez isso?
— Eles me atacaram... Prenderam minha mente, cegaram-me... – outra náusea a fez curvar sobre o corrimão ao lado, obrigando-se a não esvaziar o estômago – eu não acredito que fiz isso, não acredito...
— Rey, pare! Eles a atacaram! Você não tinha escolha! – ele os fitou – estão vivos.
— Preferia tê-los matado – ela se obrigou a parar de tremer – mas serão testemunhas do que fizeram, e dirão a quem se associaram. – ela o fitou, percebendo algo – como soube me encontrar?
— Senti seu chamado. Senti sua dor, seu medo. Devem tê-la usado para me atrair, também, pois três me aguardavam; eu os matei, assim como o que mantinha Eilenia sob seu poder.
— Como ela está?
— Fisicamente bem, pelo menos até eu a estrangular por deixar você se expor ao perigo. – ele acionou seu comunicador de pulso e solicitou seis unidades de transporte para feridos. Enquanto aguardavam, examinou Rey repetidas vezes, incrédulo que ela pudesse ter saído ilesa a tão maciço ataque. – como conseguiu? Eu vi através de seus olhos, estava imersa na ilusão!
— Eu estava. – confessou a Jedi – tudo tinha se tornado uma escuridão pegajosa que me consumia, esmagava e afogava... Achei que ia morrer, quando ouvi uma voz. – era melhor não falar de Luke, então focou-se apenas no outro homem – era um Mestre da Força, mas não o conhecia. Apenas o sentia... Ele me disse para não desistir. Que estávamos dentro de minha mente, e esta era o meu reino... Que eu podia vencê-los. Ele uniu seu poder ao meu e me guiou... Eu apenas soube o que fazer. Soube que não podia confiar nos meus sentidos, pois estavam turvos pela armadilha mental, e abri-me completamente à Força.
— Eu senti. As escadas tremeram com violência, e o ar aqueceu...
— Esse mestre, esse homem, seja quem for... Não falou mais nada, mas me orientava sem palavras. Usei a armadilha para prender os Umbaranos à minha mente, e uns aos outros, para não poderem fugir. Orientei-me pela Força, e os ataquei. – ela fitou Ben, intrigada – aquele homem... Ele se parecia com você. Não fisicamente, mas... Mas o fazia de algum modo. E quando eu achei que não conseguiria resistir, disse-me “Ben precisa de você.” Nessa hora eu soube que podia confiar nele, e... Tudo aconteceu.
Kylo nada disse; sua esposa estava pálida, trêmula e machucada após o brutal ataque mental; ainda assim, a suspeita surgia na mente dele, mais como uma esperança, ou inveja: um Mestre Jedi viera em seu socorro, entrara em sua mente, passara a ela novos conhecimentos acerca de seu poder... Onde estavam os mestres quando ELE precisara de socorro e ajuda? De orientação? A tentação de manifestar a própria frustração e raiva era grande, mas não conseguiria fazer isso agora. Não com Rey ainda abalada por um ataque duas vezes mais poderoso do que o sofrido por ele, e com vários Umbaranos traidores com os quais lidar.
Quando os transportes chegaram, os humanoides inconscientes foram levados, enquanto o casal subia lentamente as escadas de volta para o nível do comando. Eilenia os esperava no caminho, e juntos fizeram o percurso até sua meta: o hospital, onde saberiam o estado dos Umbaranos, antes de enviá-los aos corredores de detenção.
Não foi surpresa constatar que os mutilados teriam de passar algumas horas sedados, dentro dos tanques de recuperação. Não seria muito tempo, mas o bastante para Sith e Jedi recomporem as próprias mentes e conversarem sobre o ocorrido.
Eilenia estava muito abalada após sofrer a invasão mental, e Rey se recusou a deixar a amiga sozinha; Ben não pretendia encontrar-se com membro algum do comando, no momento, de sorte que os três se reuniram nos aposentos da Jedi, agora convertidos em sala de estar. Não diziam nada, unidos naquele silêncio cúmplice pelas dores que o ataque fizera aflorar nas respectivas memórias; ainda assim, havia conforto em estarem apenas entre aliados.
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