Rika to Hayato

23 suco de Tamarindo


Parte 1

Na sala de aula vazia, apenas uma figura feminina permanecia sentada perto da janela, observando a entrada do prédio ao longe.

Rika havia ficado responsável por algumas tarefas da turma, mas, mesmo aparentando desânimo, esperava por alguém em silêncio.

Ela se perguntou quanto tempo havia se passado desde o início do namoro e percebeu o quanto tudo havia mudado. Estendeu a mão direita, olhando para a própria palma, e começou a abri-la e fechá-la devagar, como se tentasse compreender algo que escapava entre os dedos.

Enquanto olhava pela janela, Rika notou as silhuetas de Etsuya Hisato e Narumi Mio se afastando — aparentemente discutindo sobre algum assunto aleatório. Um leve sorriso surgiu em seus lábios ao perceber que, no fundo, eles se gostavam… do próprio jeito.

Com suavidade, ela abriu o caderno e começou a escrever. Naquele instante, deixou de lado suas obrigações e se permitiu aproveitar a inspiração para continuar sua light novel.

Se não estivesse tão concentrada, talvez tivesse ouvido os passos se aproximando. Ou melhor — dificilmente perceberia Hayato; seus passos eram suaves demais para serem notados.

Ele trazia na mão direita uma sacola com produtos gelados, comprados para agradar a namorada. Na outra, segurava uma caixinha de suco de maracujá.

Hayato parou diante da porta e, sem chamar a atenção da garota, observou Satsuki Rika pela janela. Ela parecia tão serena que, por um instante, um breve questionamento surgiu em sua mente. Não era algo ruim — tampouco dúvidas capazes de abalar o relacionamento — apenas uma reflexão silenciosa.

(Como as coisas mudaram tanto?) pensou, abrindo a porta cuidadosamente.

Rika demorou alguns segundos para perceber sua presença, mas, assim que o viu se aproximar, um sorriso genuíno surgiu em seu rosto.

Ela estava apaixonada por ele — e não havia razão para esconder isso. Afinal, eles estavam namorando.

“Você demorou.”

“Ah, desculpa. A loja de conveniência estava cheia, por isso me atrasei.”

Ele ergueu a mão, mostrando a sacola com os pedidos.

“Está perdoado”, disse ela, conferindo o conteúdo com um olhar atento.

“Só por isso estou perdoado?” — perguntou ele, sorrindo desconfortavelmente, embora satisfeito com a resposta.

Ela ainda sabia ser cruel em certos momentos… mas isso não importava.

Afinal, essa era a Satsuki por quem ele havia se apaixonado.

Kazumi lançou um olhar rápido para a mesa de Rika e percebeu que ela estava escrevendo algo. Mesmo namorando, não se lembrava de ter lido qualquer coisa escrita por ela antes. Ainda assim, pegou a cadeira ao lado da mesa, se acomodou e começou a conferir também os afazeres.

“Já terminei as anotações. Quer ir a algum lugar hoje?” — comentou ela, observando-o.

Kazumi fez uma pausa, relaxou na cadeira e deixou o olhar vagar pelo teto da sala. Para ser sincero, não havia nenhum lugar específico que quisesse visitar; talvez seu maior desejo fosse simplesmente ficar ao lado de Rika.

O vento que entrava pela janela fez os cabelos marrons de Rika esvoaçarem, chamando a atenção de Hayato. Ele a observou com um sorriso discreto.

“Hum?” — questionou ela, inclinando a cabeça.

Hayato sorriu novamente, mas não parou por aí. Inclinou o corpo e levantou a mão direita e apoiou suavemente no rosto de Rika.

Sentiu a maciez da pele dela sob os dedos. A atitude inesperada a surpreendeu, mas, mesmo um pouco envergonhada, ela não afastou a mão dele. Hayato ficou fixo nos olhos azuis de Rika, profundos como o fundo do mar, sereno e incrivelmente belos.

Rika delicadamente pegou a mão de Hayato que repousava em seu rosto e a transformou em um travesseiro improvisado para apoiar o próprio rosto.

O silêncio foi interrompido quando Aoi se aproximou da porta e bateu levemente, quebrando o clima entre eles.

“Desculpa, não queria interromper vocês… Mas não consegui esperar o momento certo para entrar na sala. Do jeito que as coisas estavam, bem… poderia passar tempo suficiente para eu acabar com diabetes de tanta doçura.” — disse, abrindo a porta e dirigindo-se ao armário.

O casal se afastou, observando discretamente a garota de cabelo curto e negro. Ambos estavam, de certa forma, envergonhados por terem sido descobertos. Disfarçadamente, trocaram um sorriso tímido, como se estivessem se cumprimentando após o ocorrido.

Por um instante, Aoi parou de mexer em seu armário e se virou para Hayato. Eles perceberam que havia algo que ela queria dizer, então apenas esperaram.

“Ah, agora lembrei… Kazumi, na loja de conveniência a três quarteirões daqui surgiu um novo sabor de bebida que está se tornando bastante popular, justamente por ser diferente.” — disse, retirando-se em seguida.

“Sabor diferente?” — murmurou ele para si mesmo, intrigado com a informação.

Eles se olharam por um instante. Aquele comentário despertara a curiosidade de Kazumi. Talvez Aoi tivesse ouvido alguma conversa mais cedo — embora não tivesse sido nada constrangedor.

“Quer ir lá?” — perguntou Rika, quebrando o silêncio com um sorriso.

Ela assentiu.

Em seguida, abriu a mochila escolar e começou a guardar seus pertences.

Kazumi se levantou e a ajudou a organizar as coisas, mas, enquanto terminava, algo capturou sua atenção.

Do outro lado do pátio, próximo ao portão da escola, uma figura masculina permanecia escorada ali — alguém que ele nunca havia visto antes.

Por algum motivo, aquilo o deixou inquieto.

“O que foi?” — perguntou Rika, interrompendo o que fazia ao notar a expressão dele.

Kazumi não respondeu de imediato. Rika seguiu seu olhar até a entrada e, mesmo que apenas por um breve momento, conseguiu ver a silhueta do homem desconhecido.

Sem os óculos, ainda se acostumando às lentes de contato, sentiu os olhos arderem levemente.

“Só… senti algo estranho vindo daquele homem,” murmurou Kazumi, desviando o olhar e tentando se concentrar novamente no que fazia.

Rika ajeitou os cabelos castanhos, colocando uma mecha atrás das orelhas. Ela não conseguiu distinguir o rosto do sujeito — e, mesmo se quisesse, dada a distância, seria impossível.

Então, tudo o que podia fazer era confiar nas palavras de Kazumi.

“Vamos!?”

Ao perceber que já estava tudo organizado, Hayato pegou a mochila de Rika e caminhou ao lado da garota.

Ao saírem da sala de aula, um longo corredor vazio se fez presente. Rika olhou com os cantos dos olhos para figura masculina ao seu lado, mas sem dizer nenhuma palavra, direcionou seus olhos para as mãos de Kazumi. Por um momento, o questionamento se fez presente — Até que ponto ele iria se caso Aoi não atrapalhasse? Talvez fosse impossível de saber, mas de certa forma, gostou da sensação empolgante.

Kazumi mesmo com um temperamento calmo por fora, seu interior estava agitado como uma tempestade. Ele se perguntava o que aconteceria se caso Aoi não tivesse interrompido o clima.

Por mais que tenham se beijado em algum momento, ainda não era natural andar de mãos dada — Não ainda, pois estava mudado a mudar os fatos.

“Rika...”

Ele finalmente começava a chamá-la pelo nome sem se sentir tão envergonhado.

“Hum?”

Ela virou o rosto em sua direção e inclinou levemente a cabeça, aguardando o que ele tinha a dizer.

Kazumi parou por um instante. Respirou fundo, enchendo os pulmões — como se o ar pudesse lhe dar coragem. Então, virou-se para ela, tentando encará-la nos olhos, mas a vergonha o fez desviar o olhar por um momento.

Rika não entendeu de imediato o que estava acontecendo, mas logo percebeu a mudança na expressão dele. Franziu as sobrancelhas, curiosa, e não conseguiu evitar um pequeno sorriso. Gostava de ver o jeito como o rosto de Hayato mudava quando ficava nervoso — especialmente quando tentava esconder o rubor com as mãos.

“O que?” — perguntou tentando segurar o sorriso.

“Nada!!!” — Ele respondeu de imediato, evitando de olhá-la.

Ele apertou a alça da mochila e caminhou com passos mais rápido que o normal, fazendo a garota ficar sem reação para o que estava acontecendo. Ela segurou o riso, mas ao perceber que estava ficando para trás acelerou os passos.

“Ei! Espera!” Rika disse enquanto se aproximava.

Parte 2

Após comprarem as bebidas, Satsuki Rika e Kazumi Hayato seguiram lado a lado pelas ruas tranquilas. O sol da tarde tocava suavemente o asfalto, e a brisa carregava o cheiro doce das lojas próximas.

Enquanto caminhavam, conversavam sobre os novos sabores das bebidas que haviam escolhido, comparando as preferências de cada um entre risadas leves.

Felizmente, não demoraram muito na loja de conveniência — o que lhes permitiu retornar mais cedo, com tempo de sobra para continuar aproveitando a companhia um do outro.

Kazumi carregava não apenas a bolsa, mas também a sacola com três novos sabores de suco. Por um breve momento, seus passos começaram a ficar mais lentos.

“O que houve?” — perguntou Rika, ao perceber a mudança no ritmo dele.

“O que acha de fazermos uma pausa e provarmos os novos sabores na praça?”

Ele ergueu a sacola, mostrando os produtos com um leve sorriso.

Rika respondeu com um grande sorriso e assentiu. De certa forma, era uma ótima ideia.

Ali perto havia uma pequena praça que ela costumava frequentar quando criança, então não precisariam caminhar por muito tempo.

E, de fato, não andaram. Logo avistaram o lugar — um espaço simples, com árvores alinhadas e bancos de madeira que guardavam ecos de risadas antigas. Rika se sentou em um dos bancos e fez um pequeno gesto, chamando o garoto para sentar-se ao seu lado.

“Ok...” — murmurou ele, coçando a cabeça de forma um tanto envergonhada.

Ao contrário de Hayato, Rika preferia refrigerantes — por isso, dentro da sacola havia uma mistura colorida de sucos e bebidas gaseificadas. Ela analisava cada rótulo com atenção, os olhos brilhando de curiosidade enquanto tentava decidir por qual começar.

A empolgação dela era quase infantil, e isso fez Kazumi sorrir. Ele observava em silêncio, apreciando aquele lado mais espontâneo de Rika.

Inclinou-se um pouco, espiando os sabores dos sucos como se tentasse adivinhar qual seria o mais estranho — ou o mais doce.

Kazumi analisou os rótulos com atenção, franzindo uma das sobrancelhas. Aqueles sabores definitivamente não pareciam promissores. Algumas frutas sequer lhe eram familiares — nomes estranhos que soavam como se tivessem sido inventados na hora.

Algo dentro dele dizia que estava prestes a provar uma das maiores abominações já criadas em forma de suco.

“Esse é meu!”

Rika pegou uma pequena latinha de 330 ml e entregou a sacola ao namorado, que passou a examinar o rótulo com interesse.

A embalagem vermelha indicava “frutas vermelhas”, o que não parecia nada exótico à primeira vista — mas, ao ler a lista de ingredientes, ambos perceberam que até demonstrava ser promissor.

Kazumi então pegou uma das caixinhas menores, com um nome ainda mais estranho estampado na frente, e virou-a nas mãos.

“Que fruta é essa...?” — sussurrou, confuso, enquanto tentava decifrar o rótulo.

“Tamarindo!?” — Rika exclamou ao ler o rótulo.

Hayato pousou a sacola com os outros sucos ao lado dos pés e observou novamente a pequena caixinha em suas mãos.

Em seguida, olhou para a garota em busca de algum sinal de compaixão — mas tudo o que recebeu foi um aceno animado, incentivando-o a seguir em frente.

Ele engoliu em seco.

Com um suspiro resignado, Hayato pegou o canudo e o espetou na caixinha. Antes de experimentar, lançou mais um olhar para Rika, que o encarava com uma empolgação quase infantil.

Por dentro, ele só queria voltar atrás — jogar o suco fora e fingir que nunca o comprara.

Mas, naquele instante, sentia-se em uma missão de honra: provar o misterioso sabor do tamarindo.

“Bom, se ele foi aprovado pra venda, então deve ser bom.”

Hayato tentou parecer confiante, forçando um sorriso enquanto reunia coragem para provar o desconhecido. Levou o canudo à boca e tomou o primeiro gole.

No mesmo instante, sua expressão se transformou. O rosto ficou pálido, as bochechas inflaram e o líquido começou a escapar pelos cantos da boca, pingando sobre o blazer.

“Hayato?”

Rika o segurou pelas costas, preocupada. Tentava ver o rosto dele, mas ele parecia ter perdido a alma. A caixinha escorregou de seus dedos e caiu no banco, tombando de lado.

Por alguns segundos, o silêncio reinou. Então, cuspindo o resto do suco que ainda tinha na boca, Hayato ergueu o olhar, os olhos lacrimejando.

“É… como se eu tivesse bebido terra.”

A expressão dele era um misto de desespero e repulsa.

“Como é possível isso ser aprovado pra consumo humano?” — resmungou, pegando de volta a caixinha caída.

“Não deve ser tão ruim assim.”

Rika a pegou das mãos dele e balançou suavemente, percebendo que ainda restava um pouco do líquido.

Mesmo depois de ver a reação de Kazumi, Rika segurou a caixinha de suco de modo que pudesse ler o rótulo e os componentes. De fato, tamarindo não era uma fruta nativa do Japão — ela nem sequer sabia de qual país vinha. Ainda assim, queria acreditar que não poderia ser tão ruim.

Ela levantou o olhar e encontrou o garoto ao seu lado, que a observava com uma expectativa quase infantil. O peso daquele olhar a fez se sentir desconfortável.

“Posso desistir da ideia?” — perguntou num sussurro.

“Hum?”

Hayato inclinou o rosto na direção dela, tentando ouvir melhor.

Rika soltou um breve suspiro.

“Vou mostrar que não é tão ruim quanto você pensa.”

Determinada, colocou o canudo na boca e puxou o resto do suco para dentro.

O arrependimento veio no mesmo instante. Era difícil descrever a sensação — agora ela entendia perfeitamente o motivo da expressão de nojo do namorado. O sabor ácido fazia suas papilas gustativas protestarem, e havia algo estranho na textura… como se houvesse resquícios da fruta no líquido.

Não era exatamente o gosto de terra molhada ou de lama, mas estava bem perto disso. Apenas… um sabor indescritivelmente errado para um suco.

“E então?” — ele perguntou animado, ansioso pela opinião da namorada.

Era horrível.

Ela jamais beberia aquilo se soubesse o gosto. Mas, naquele momento, tinha uma missão: não demonstrar fraqueza.

“Viu só? Não é tão ruim assim.” — respondeu, forçando um sorriso enquanto fazia um sinal de “V” com a mão esquerda.

“O quê?” — ele arregalou os olhos, incrédulo.

Por um instante, Hayato duvidou do próprio paladar. Será que estava sendo infantil por rejeitar um sabor diferente? Pegou novamente a caixinha de suco da mão dela e leu o rótulo com atenção. Talvez… devesse dar uma segunda chance.

Enquanto isso, Rika mantinha o sorriso o máximo que podia, lutando internamente para ignorar o gosto ácido e estranho que ainda insistia em ficar na boca.

“Vou procurar outro.” — disse ele, abaixando-se para mexer na sacola com os produtos.

Foi o momento perfeito.

Rika juntou o resto do suco que ainda tinha na boca e, disfarçadamente, virou o rosto para o lado — cuspindo o mais longe possível, sem querer ser descoberta.

O som foi inconfundível.

Hayato se virou na mesma hora. A garota, percebendo o olhar curioso, girou o corpo de volta e fingiu estar concentrada na sacola em suas mãos.

“O que foi esse barulho?” — ele perguntou, desconfiado.

“Barulho?” — ela repetiu, fingindo confusão. Virou o olhar para a direção oposta e respondeu com naturalidade:

“Deve ter sido um gato.”

“Gato...?” — ele murmurou, franzindo o cenho.

Algo naquelas palavras não fazia sentido. Aquilo definitivamente não tinha soado como um gato — era mais parecido com alguém cuspindo.

Ele a encarou em silêncio, como se procurasse alguma prova do que realmente havia acontecido.

Ela percebeu o olhar suspeito e, rapidamente, tratou de mudar de assunto.

“Quais sabores sobraram?”

Antes que ele pudesse responder, Rika tomou a iniciativa — pegou a sacola das mãos de Hayato e mergulhou entre as embalagens coloridas, fingindo interesse nos rótulos. Era sua forma de escapar da pergunta.

No entanto, algo a fez parar. Um pequeno detalhe lhe veio à mente, e ela começou a olhar em volta, como se tivesse esquecido algo importante.

“O que foi?” — perguntou Hayato, confuso ao ver a súbita mudança de foco.

“O refrigerante de frutas vermelhas... onde eu coloquei?” — murmurou, vasculhando a área próxima.

Ela olhou para um lado e para o outro, mas a latinha parecia ter desaparecido.

“Ah...”

Kazumi inclinou-se para o chão e, ao olhar debaixo do banco, encontrou a resposta.

“Achei.” — disse, esticando o braço para pegá-la.

Ele segurou a latinha suja de areia e a entregou para Rika, que apenas assentiu em agradecimento, limpando-a com o lenço que trazia no bolso.

“Talvez o barulho tenha sido a latinha que caiu...” — comentou casualmente, evitando contato visual.

“Será?” — ele retrucou, semicerrando os olhos. — “Não parecia isso.”

Kazumi suspirou. Bom… não importava.

Ao erguer o olhar, percebeu que o céu já começava a se cobrir de estrelas. O tempo havia passado mais rápido do que imaginava.

Rika notou a expressão pensativa dele.

“Está ficando cada vez mais frio, não acha?” — perguntou ele, observando o ar que saía em pequenas nuvens diante de seus lábios.

Mesmo sentada no banco, ela assentiu em silêncio.

O vento cortante trouxe um arrepio leve, e por um instante, ambos ficaram apenas ouvindo o farfalhar das folhas secas.

Parecia que, na pacata cidade de Kanagawa, o inverno teimava em chegar mais cedo — mesmo que o outono ainda não tivesse ido embora.

“Melhor nós irmos, não?” — sugeriu ele, levantando-se.

Rika se ergueu logo em seguida, ajeitando a mochila sobre os ombros.

Kazumi observou-a se afastando alguns passos à frente e, sem perceber, um leve sorriso surgiu em seu rosto.

De certa forma, estava feliz com o dia que tiveram.

Porém, a sensação de tranquilidade logo deu lugar à lembrança de algo que ainda o preocupava.

Shinki Tanaka, seu melhor amigo, continuava enfrentando dificuldades — e, mesmo querendo ajudá-lo, Kazumi sabia que talvez houvesse pouco que pudesse fazer.

Ele guardava informações que ninguém ao redor de Tanaka conhecia.

Se contasse tudo a Satsuki Rika, será que ela entenderia?

Será que ela poderia ajudá-lo de alguma forma?

E, acima de tudo… será que Tanaka teria coragem de confrontar a própria mãe?

Havia perguntas demais, e poucas respostas.

Talvez, como o vento frio daquela noite, algumas coisas simplesmente passassem sem explicação.

Com passos leves, Kazumi caminhou em direção a Rika, que o esperava na entrada da praça — sob a tênue luz dos postes que começavam a se acender.

Saindo de trás de uma das árvores, uma figura masculina surgiu, tragando calmamente um cigarro enquanto observava ao longe o casal que se afastava. Seu traje social preto contrastava com o tom amarelado das luzes do entardecer. O cabelo, igualmente escuro e bem cuidado, completava uma aparência impecável — quase meticulosamente planejada.

Era o mesmo homem que havia sido visto mais cedo nos arredores da escola. Sua expressão fria e postura rígida deixavam claro que não era alguém acostumado a conversas casuais.

Não era nenhuma surpresa ele estar ali — afinal, seu verdadeiro interesse não era Satsuki Rika, mas sim Kazumi Hayato.

Mesmo tendo a oportunidade de agir imediatamente, preferiu observar primeiro. Queria analisar cada movimento do filho de Yuzuka Raiden antes de dar o próximo passo.

Aquele homem prometia trazer caos para a vida de Kazumi Hayato.

Hayato talvez nem estivesse familiarizado com seu rosto, mas seu nome certamente seria inesquecível.

Ele esmagou a ponta do cigarro com o pé, apagando-o no chão, e retirou o celular do bolso do terno. Após digitar alguns números, completou a ligação:

"Sakuya Hirotaka falando.” — disse, firme, ao atender a chamada.

Enquanto caminhava, ouvia atentamente as informações que chegavam. Seus olhos perderam de vista o casal, mas não se importou — sabia exatamente onde encontrar Kazumi Hayato quando fosse necessário.

Porém, por um breve momento, uma dúvida atravessou sua mente: seria aquele garoto realmente quem ele procurava? Algo no rapaz não correspondia totalmente às descrições recebidas.

Após encerrar a ligação, ele guardou o celular e olhou ao redor. Por um instante, seus pensamentos escaparam em voz baixa:

“Então era isso que planejava, Yuzuka Raiden?”

As palavras soaram como um breve depoimento ao vento.

Todos acreditavam que Yuzuka Onodera havia traído Yuzuka Raiden, mas a verdade não era exatamente essa.

Sakuya Hirotaka conhecia os bastidores — sabia que Yuzuka Akatsuki jamais havia visto o neto pessoalmente.

Kazumi Hayato, na realidade, não carregava em suas veias o sangue da família Yuzuka. Ainda assim, Yuzuka Raiden o amou como se fosse seu próprio filho. E mais do que isso:

Com um propósito oculto, o treinou como herdeiro — mesmo contrariando abertamente a vontade de Yuzuka Akatsuki.

Notas finais
Bom, acabo que depois de anos ausentes, eu voltei. Espero que tenha pelo menos um pouco de visualização. Desde que mudou o site, parece que algumas historias ficaram no limbo. Depois de mais de 7 anos ausentes.)