Rika to Hayato
24 Se você cair mil vezes, levante-se mil e uma.
Parte 1
Shinki Tanaka estava sentado perto da janela do quarto de Ayazawa Inori, observando a cidade grande que se estendia à frente. O apartamento pertencia à jovem pediatra, que trabalhava em um hospital próximo, e ele já estava ali com frequência. A vista urbana trazia lembranças e sentimentos mistos, lembrando a noite em que conhecera Inori. Em silêncio, permanecia absorvendo cada detalhe, talvez procurando respostas que nem sabia exatamente quais eram.
Shinki pegou do bolso da camisa o papel que Hayato lhe entregara, com o endereço de sua mãe.
Questionava-se se era certo ir até ela, mesmo sabendo que havia sido abandonado. O que poderia fazê-lo mudar de ideia?
Ele voltou a olhar através da janela, agora com um ar de desinteresse. Fechou os olhos e guardou o papel, deixando os pensamentos em silêncio.
Com os olhos fechados, ele escutou o suave clique da maçaneta.
Ayazawa Inori usava um jaleco branco que chegava até os joelhos, de mangas compridas e com três bolsos frontais. Estava descalça, caminhando na ponta dos pés, segurando cuidadosamente as sandálias para não acordar o garoto que dormia.
Por um breve descuido, seu dedo mindinho bateu na beira da cama. Ela conteve o grito, sentiu os olhos lacrimejarem pela dor e, imediatamente, colocou as sandálias no chão, subindo cuidadosamente na cama. Pegou o travesseiro, pressionou contra o rosto e soltou todo o ar contido na garganta.
Mesmo com o mínimo de barulho que produziu, Inori colocou o travesseiro ao lado de seu colo e olhou para Shinki, que permanecia imóvel. Aos poucos, começou a tirar o jaleco, revelando as roupas que, apesar de cafonas, era obrigada a usar devido às reclamações de terceiros.
Após todo o processo, ficou apenas de calcinha e sutiã. Então, abriu a gaveta, pegou uma pequena liga preta e colocou na boca, preparando-se para prender os cabelos. Com as duas mãos, ajeitou os fios loiros longos, ao mesmo tempo em que mantinha os olhos fixos na figura imóvel de Shinki, observando cada detalhe com atenção silenciosa.
“Até que hoje chegou cedo.” — disse Tanaka, sem esboçar reação.
Ela suspirou, talvez percebendo que seus esforços haviam sido em vão.
Mesmo vestindo apenas roupas íntimas, Inori caminhou até a janela e passou a observar a cidade. Shinki abriu os olhos ao notar seus passos se aproximando e, ao vê-la no campo de visão, decidiu acompanhá-la, olhando a cidade junto com ela.
Ele não sentia vergonha — não havia motivo, afinal estava acostumado com situações como aquela.
Ayazawa Inori era elegante, calma e confiante. Ao mesmo tempo, sutil e observadora.
Apesar de sua beleza delicada, havia um toque de provocação — de um jeito só seu.
De fato, eles já haviam compartilhado momentos íntimos, mas, naquele instante, eram apenas amigos.
Ela podia confiar em Shinki Tanaka.
E ele podia confiar em Ayazawa Inori.
“Hayato me informou o endereço onde minha mãe se encontra. Estranho… ele nem deveria saber disso.” — disse Tanaka, observando a reação da garota pelos cantos dos olhos.
“Algo me diz que você está envolvida com isso.”
“Sim, estou. Não concordo com o que pretende fazer, mas também não vou pedir para ficar.”
Ela se virou para ele, firme.
Shinki a encarou nos olhos, tentando transmitir seriedade diante da situação.
“Eu… estou com medo…” — sussurrou, como um desabafo.
Ela apenas assentiu, compreendendo o peso daquela confissão.
Ela compreendia o peso daquelas palavras, mas não o iludiria com um simples “tudo vai dar certo”. Shinki Tanaka mal sabia o que realmente se passava nos bastidores do divórcio de seus pais. Algumas pessoas se recusam a crescer, mas ele estava sendo forçado a isso de uma forma cruel, envolto em mentiras.
Não eram seus avós que estavam doentes; era sua própria mãe que planejara a viagem de forma a impedi-lo de presenciar seu falecimento.
Se Inori, naquele momento, revelasse toda a verdade, estaria ajudando ou apenas destruindo ainda mais a alma de Tanaka?
Ela sabia que já havia se intrometido demais na vida particular dele. Por isso, seria melhor deixá-lo resolver tudo com seus próprios passos.
Ela se ajoelhou lentamente, olhando nos olhos do garoto que parecia perdido diante de tudo. Mesmo sendo repentino, envolveu-o em seus braços, abraçando-o com cuidado.
Não seria cruel a ponto de sussurrar que tudo daria certo, mas havia palavras que, mesmo difíceis, podiam ser ditas.
“Você sempre terá um lugar para voltar...” — disse Inori, apertando-o ainda mais forte, cada palavra um sussurro carregado de significado.
Tanaka sentiu o peso das palavras atravessar sua alma quebrada. Apesar da vontade de chorar, nenhuma lágrima escorreu.
Ele retribuiu o abraço. Não entendia exatamente o motivo, mas, apesar das dores que carregava, sentiu um leve alívio.
As lágrimas não desceram pelo seu rosto — parecia que não havia mais nada a transbordar em seu interior. Ainda assim, o silêncio permaneceu, pesado, mas reconfortante.
“Obrigado...” Foi um leve sussurro.
Perfeito! Aqui está uma versão revisada do seu texto, mantendo a essência e o tom emocional, mas com uma fluidez maior e pequenos ajustes de pontuação e ritmo:
Inori ficou em silêncio — não havia mais nada a ser dito.
Aos poucos, começou a se afastar, ciente de que talvez estivesse se intrometendo. Ainda assim, apoiou a testa na dele. Observou os olhos sem ânimo do garoto e, lentamente, seus lábios começaram a se mover.
“Eu irei te apoiar, não importa suas decisões. Se não deseja ver sua mãe, eu entendo. Se prefere apenas ficar aqui, não tem problema. Leve o tempo que precisar.”
“Tá bom...” — comentou.
Ele apoiou a cabeça no encosto da poltrona e olhou para o teto do quarto. Suspirou, deixando os pensamentos se dispersarem.
“Eu só preciso de um tempo... para pensar.”
“Enquanto não pensa, que tal sairmos um pouco?” — sugeriu Inori, caminhando até o guarda-roupa.
Shinki Tanaka refletiu sobre o convite. De fato, permanecer trancado ali não mudaria nada. Olhou para si mesmo, ajeitou a camisa social branca e se levantou.
Permaneceu em pé por alguns segundos, respirando fundo o ar gélido da noite — como se buscasse renovar as forças que o tempo havia levado.
Ele sorriu, mesmo que de forma forçada.
Ao vê-lo, ela retribuiu o gesto com outro sorriso.
Ainda de roupa íntima preta, Inori verificava cada peça de roupa que poderia usar. Queria algo confortável, nada luxuoso — apenas o suficiente para se sentir bem em uma saída casual.
“Então... como foi com a amada?” — perguntou, após escolher uma peça de roupa.
Ela colocou sobre a cama um vestido wrap verde e se abaixou para pegar as sandálias. Não foi nada delicada — ao se abaixar, suas curvas se desenharam sob a luz suave do quarto, enquanto algumas mechas de cabelo escapavam do laço e caíam sobre os ombros.
Shinki a observou, coçando a cabeça, sem saber ao certo se aquilo fora proposital ou apenas natural.
A verdade é que Ayazawa Inori era provocante mesmo quando não queria ser.
Por cima de tudo, ele sabia que recentemente ela havia se envolvido em uma confusão com uma das famílias de pacientes — o pai de um dos garotos havia a acusado de “provocar os pais” com seu jeito.
Ao perceber que estava sendo observada — mais do que o normal — Inori desviou o olhar para si mesma e só então notou que ainda estava apenas de roupa íntima.
Era um pouco tarde para demonstrar vergonha. Mesmo que quisesse, ela já não teria.
Ela sorriu, mas de um jeito que deixava claro que não apreciava o olhar insistente dele.
“Tá bom.”
Shinki levou uma das mãos à cabeça e suspirou, desviando o olhar antes de sair do quarto.
Parte 2
Escorado ao lado da porta do apartamento de Ayazawa Inori, Shinki Tanaka observava o corredor silencioso do prédio. A essa hora da noite, quase não se ouvia nada — apenas o som distante de um elevador ou o eco abafado de uma televisão em algum dos apartamentos vizinhos.
Enquanto esperava por Inori, que podia sair a qualquer momento, ajeitou a postura e respirou fundo. Vestia uma camisa social azul-celeste e calça preta, o que lhe dava um ar mais maduro do que costumava ter.
Seus pensamentos voltaram à pergunta que Inori fizera mais cedo. Ainda não tinha uma resposta. Talvez por isso tivesse permanecido quieto — ou talvez porque, depois do modo como a observou, não quisera responder.
Talvez o ar frio do corredor fosse menos sufocante que a resposta que poderia dar.
Por um breve momento, Shinki pegou o celular do bolso da calça e olhou para a tela. Nos contatos, o nome dela ainda estava lá — intacto, como uma ferida que se recusa a cicatrizar.
Até pouco tempo atrás, o aparelho vibrava com mensagens e ligações perdidas de sua amiga. Agora, só restava o silêncio.
Seu coração havia tido um dono, mas, ao mesmo tempo, não pertencia a ninguém.
Ele havia se declarado, mas não esperava resposta — talvez porque, no fundo, soubesse que não queria ouvir o que viria depois.
Enquanto os pensamentos o arrastavam para longe, o som do clique da maçaneta o trouxe de volta.
Ayazawa Inori surgiu no corredor, agora vestida com o vestido verde wrap que havia escolhido. O tecido leve se ajustava ao corpo dela de forma natural, e o contraste do verde com seus cabelos loiros criava uma harmonia quase hipnótica.
Shinki a observou dos pés à cabeça, sem falar nada fez um sinal de positivo. Ele não queria elogiá-la, queria evitar essa parte constrangedora.
“Demorei?” — perguntou Inori, ajeitando uma mecha solta atrás da orelha.
“Um pouco,” — respondeu ele, guardando o celular no bolso. “Mas eu não estava com pressa.”
Ela sorriu, fechando a porta do apartamento atrás de si.
“Ótimo, então me acompanhe. Hoje, você vai respirar um pouco de ar fresco.”
Shinki assentiu em silêncio. Não sabia se o que precisava era ar fresco ou apenas um motivo para continuar caminhando — mas, de qualquer forma, aceitou o convite.
O som dos passos ecoou pelo corredor vazio.
Enquanto caminhava, Inorivasculhavasua bolsa, o som suave dos objetos tilintando entre si. Parecia procurar algo — e talvez, Shinki já soubesse o que era.
“Onde será que eu coloquei...?” — murmurou, mais para si mesma do que para ele.
Shinki manteve as mãos nos bolsos, evitando dar atenção ao que ela fazia. Sabia que, em questão de minutos, o elevador os levaria até a garagem. Até lá, preferia permanecer em silêncio.
Ele não tinha interesse em andar de mãos dadas com Inori.
Não havia nenhum desejo escondido por trás daquele vínculo.
Para ele, AyazawaInori era alguém especial — mas não de forma romântica.
No meio do caos em que sua vida havia se tornado, ela se tornara algo mais raro e importante: uma espécie de família.
Eles poderiam ter se encontrado por acaso, mas o fato de ainda estarem próximos não era mera coincidência — era um desejo compartilhado, silencioso, de ambos.
Shinki não gostava da ideia de ter sido obrigado a amadurecer tão cedo.
Ainda assim, entre todas as perdas e mudanças, havia pequenas partes boas em sua nova vida — fragmentos de paz que o tempo não conseguiu arrancar.
Mesmo assim, a realidade o lembrava de tempos em tempos: ele ainda era menor de idade.
Ainda precisava de alguém que o tivesse sob guarda — alguém que o chamasse de “filho”, mesmo que só no papel.
“Eu me declarei... mas antes de qualquer resposta, fui embora.” — disse Tanaka, escorado na parede metálica do elevador.
Enquanto Inori apertava o botão que levaria à garagem do prédio, as palavras do garoto cortaram o silêncio como uma lâmina fina. Por um instante, Inori engoliu em seco. O tilintar da chave do carro a trouxe de volta à realidade.
Não era como se ela quisesse estar ao lado dele. Ela não o amava romanticamente, mas as palavras de Shinki a deixaram profundamente desconfortável. Todas as ações têm suas consequências, e ela sabia disso. Mais cedo ou mais tarde, todos teriam que sentar-se à mesa das consequências. O arrependimento, ela sabia, é cruel.
“Você não pode simplesmente dizer o que sente e desaparecer da vida de alguém.”
Sem encará-lo, apertou novamente o botão do elevador, ouvindo o leve “click” ecoar no silêncio ao redor.
“Eu não quero me envolver com ela. Não quero que ela sinta pena de mim.”
Por um instante, antes de se virar para ele, ela respirou fundo, enchendo os pulmões de coragem. Algo estava prestes a acontecer, e ele ainda não percebia.
“Mas não é isso que você está fazendo consigo mesmo?” — disse Inori, apoiando a ponta do dedo no peito dele. “Essas palavras… não são você falando consigo mesmo?”
Seu olhar permanecia fixo no rosto abatido do garoto, marcado por sombras e hesitação.
Não veio resposta alguma dele, mas...
“Se você conhece tão bem a pessoa que ama, então deve saber que ela está chorando. Sentindo-se impotente diante das circunstâncias.”
De fato, Sakura Fujiwara se sentia incapaz de ajudá-lo. Não sabia o que fazer diante daquela situação; parecia que todos os momentos que haviam compartilhado juntos fossem agora uma grande ilusão.
“Se ela era a parte boa da sua vida, por que não continuar?” — continuou, a voz carregada de uma sinceridade quase dolorosa. — “Deixe que as coisas entre vocês fluam, principalmente agora que ela sabe de tudo. Você não pode forçá-la a crescer, mas isso não significa que ela permanecerá imatura e ingênua para sempre.”
“Eu estou com medo...” — ele sussurrou.
Tanaka baixou a cabeça, evitando encará-la nos olhos.
“E quem não está!?” — respondeu ela, aproximando-se devagar.
Sem pensar, Inori passou os braços pelos ombros do garoto, pegando-o de surpresa. Ele não se afastou. Ela o envolveu em um abraço firme.
Lentamente, ele retirou as mãos dos bolsos e envolveu a cintura dela, correspondendo ao gesto.
“Eu sei que você está com medo” — sussurrou em seu ouvido. “Todo mundo tem sua própria guerra, que precisa ser enfrentada dia após dia. Não posso dizer que é fácil. Não posso garantir que tudo terminará bem, mas...”
Ela sentiu o abraço se tornar mais firme, quase como se ele estivesse se rendendo àquelas palavras.
Shinki Tanaka apoiou a cabeça no ombro de Inori, entregando-se à confiança que ela transmitia.
“Se você cair mil vezes, levante-se mil e uma. Pode ter medo dos conflitos, mas sempre poderá recomeçar.”
Seu corpo se sentiu acolhido naquele gesto. Ainda assim, era como se apenas a casca estivesse ali — nenhuma lágrima ousou escorrer por seu rosto.
“E se eu não conseguir ficar de pé?” — ele sussurrou, a voz trêmula, quase se desfazendo em meio ao silêncio.
“Nesse caso” — respondeu ela, com suavidade —, “não há vergonha em pedir ajuda. Não é sinal de fraqueza... pelo contrário, é um ato de coragem. A coragem de quem se recusa a desistir.”
Um leve som metálico interrompeu o momento. A porta do elevador se abriu, e o clima que os envolvia se quebrou de forma silenciosa. Nenhuma palavra foi dita.
A primeira a sair foi a pediatra — de certa forma, uma ironia.
Aquele que fora forçada a crescer, ainda assim, em certos momentos, parecia apenas uma criança.
Shinki Tanaka demorou a deixar o elevador. Parou por um instante, observando a mulher que se afastava lentamente.
Havia tristeza em seus olhos, mas também admiração.
Não havia um motivo específico para que ela o ajudasse. Ainda assim, ela o fez.
A palavra que escapou de seus lábios não tinha a intenção de alcançar os ouvidos de Inori.
Mesmo assim, era algo que precisava ser dito:
“Obrigado...” sussurrou.
Inori caminhava animada, mas, ao olhar para os lados, percebeu que estava sozinha.
Virou-se e viu o garoto parado diante do elevador, observando-a.
Dessa vez, porém, havia algo diferente em seu olhar — mais sereno, mais calmo.
Talvez, aos poucos, ele estivesse recuperando as forças.
Ela ergueu a mão direita e acenou, tentando chamar sua atenção.
“Por quanto tempo pretende ficar aí?” — perguntou, sorrindo.
Shinki enfiou as mãos nos bolsos da calça e, mesmo com um sorriso simples, havia algo novo em seus passos — uma leveza, uma confiança que antes não existia.
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