Rieseltia
22 Capítulo 20 - Formando Laços II
Notas iniciais
Ponto de vista de Rosalyn.
— Chefe, você está indo dormir?
Rosalyn estava andando pelo corredor do dormitório da facção Luz Pura. Seus cabelos castanhos estavam um pouco desarrumados e seus olhos bem escuros. Suas olheiras faziam alguém pensar que ela não tinha dormido por vários dias.
— Sim, eu estou indo para a cama. — Ela falou, dando um sorriso amargo. Sem pressa, ela continuou no corredor e entrou em um quarto.
Chegando em frente a cama, a garota olhou desanimada e ligeiramente assustada. Ela respirou profundamente e ficou parada por alguns instantes, até se deitar.
Deitada olhando para o teto, Rosalyn não ousou fechar os olhos. Desde o evento da Grande Batalha na Floresta, suas noites tem se tornado infernos. Toda vez que estava dormindo ela tinha o mesmo pesadelo. A mesma voz feminina, fria e assustadora.
Mesmo sem ter a intenção de dormir, seus olhos se fecharam lentamente, o cansaço ganhando da resistência.
— Você está de volta. — Uma voz fria a saudou logo que ela adormeceu. Rosalyn olhou assustada ao seu redor, mas tudo estava preto. Tão preto que ela mal conseguia ver a sua mão esticada.
A única coisa visível nesse universo escuro era um grande selo branco, com vários símbolos em preto e vermelho. O selo, no entanto, estava se decompondo. Pouco a pouco pedaços tão pequenos quanto grãos de areia caíam e desapareciam no nada.
Era como se uma pequena brasa estivesse queimando ao poucos o grande selo.
— De novo não... — Rosalyn colocou as mãos na cabeça e se abaixou, desesperada. — Chega! Eu não aguento mais isso!
— Ah, querida... Não resista. Você sabe o que precisa fazer para todo o seu medo passar. — A voz feminina se tornou mais doce e suave, tentando convencê-la. — É só arrancar o selo. Sem o selo, todos os seus medos passarão.
— Pare! Eu sei que você está mentindo! Saia da minha cabeça! SAIA! — Gritou ela desesperada e saiu correndo, mas não importa o quanto ela corria, não saía do lugar.
— Ah, não importa. — A voz voltou a ser fria e indiferente. — Não importa o quanto você resista, não vai adiantar. Quando o selo se romper você vai morrer e eu finalmente vou ter um corpo! Ah, Meus Imperadores, esperem só mais um momento. Só mais um pouco e eu vou ter um corpo.
Percebendo que não ia adiantar correr, Rosalyn parou e se sentou, agarrando as pernas. Seu corpo começou a tremer, como se ela estivesse sentada no meio da neve.
Lentamente, na sua frente, o corpo de uma mulher apareceu. Praticamente igual a ela, tirando os olhos e a testa. Seus olhos eram totalmente pretos e vermelhos e na sua testa estava um desenho preto semelhante a uma estrela.
— Não adianta o seu medo. Não adianta a sua resistência. Seu corpo vai ser meu. Os malditos humanos vão sentir o terror de um dos setenta e dois pilares. O chão vai se tornar vermelho e a chuva vai cair na mais bela cor escarlate.
A mulher lentamente se aproximou da que estava sentada e a abraçou forte, como se não quisesse soltar. Seu rosto mostrou um sorriso maligno, malicioso e louco.
— Depois de me banhar no sangue dos meros mortais, vou oferecer os seus corpos ao Meus Imperadores e admirar enquanto eles destróem todo esse mundo inútil. Toda a vida vai sumir! E sem pressa nós vamos finalmente matar os malditos que fizeram isso conosco!
Acabando de falar, ela começou a rir. Uma risada que cogelava até mesmo a pessoa mais corajosa. Soltando o abraço, ela se levantou.
— Nosso clã vai renascer e nós vamos nos tornar os verdadeiros donos do mundo! Ninguém vai nos parar! Ah, Meus Imperadores, só mais um pouco. — Sua voz foi sumindo, assim como o seu corpo. — Só mais um pouco e vou poder vê-los de novo, meu clã.
Rosalyn não conseguiu se levantar, nem acordar. Ela simplesmente continuou agachada nesse universo negro.
Ponto de vista de Ravel.
— Finalmente você está indo ver ela. — A voz de Lúcifer soou na cabeça do garoto enquanto ele andava pela escola. Sua aparência não era mais a do demônio, mas sim a sua normal, sem as luas negras no seu rosto.
— Eu te disse que ia entrar em contato com ela. — Suspirou Ravel enquanto caminhava.
Durante a batalha na floresta, Lúcifer tinha dito que Rosalyn tinha um demônio selado nela, assim como ele. Como a promessa dos dois envolvia os outros demônios, Ravel tinha que entrar em contato com a garota.
— Prevejo que você não irá destruir o selo dela e deixar o demônio tomar conta. — Disse Lúcifer lentamente, com uma voz fria. No entanto, Ravel não mostrou nenhum desconforto. Era visível que ele estava acostumado com isso.
— Se eu fizer isso o demônio vai instantaneamente destruir a alma dela e tomar conta do corpo.
— E o que importa? A vida de um mero mortal não faz a diferença.
— Sabia que você ia dizer isso. — Suspirou Ravel, balançando a cabeça negativamente. — Se ela tivesse uma personalidade ruim ou más intenções eu concordaria, mas esse não é o caso. No entanto, não se preocupe. Ela vai destruir o selo um dia, eu tenho certeza.
— Oh, e o que te faz afirmar com tanta convicção? — A voz do demônio percorreu pela sua mente, mostrando leve curiosidade.
— Não existe um ser humano que não busque poder. Quando ela precisar de poder, vai destruir o selo por vontade própria.
— Não pense que todos os humanos são como você.
— Não se preocupe. Tudo que precisamos fazer é mexer alguns pauzinhos. Você vai fazer a conexão com o demônio, certo? — Perguntou Ravel, se aproximando da área de dormitórios.
— Sim. Mesmo com o selo nós poderemos conversar com ele a qualquer momento na sua consciência.
— Então não tem com o que se preocupar. — Riu o garoto.
Já na área de dormitórios, Ravel caminhou até uma residência não muito grande. Ele apertou a campainha e esperou por alguns instantes, até uma garota abrir a porta.
— Bom dia. Será que eu poderia ver a Rosalyn? — Perguntou ele cordialmente.
A garota o observou lentamente e murmurou.
— Peço desculpas, mas a chefe está doente. Teria como voltar outro dia?
— Eu estou ciente do problema dela. Acho que posso ajudá-la. Poderia me levar até ela?
Com uma cara de dúvida, a garota se afastou da porta e o indicou para seguí-la.
— Pelo que parece você estava certo. O demônio está tentando destruir o selo. — Ravel comentou.
— Essa é coisa mais óbvia para um demônio. Todos querem ter um corpo para si.
Não demorou muito até que eles parassem em frente a um quarto. A garota bateu na porta e abriu.
Dentro do quarto, Rosalyn estava sentada na cama, abraçando as pernas e tremendo. Seu rosto estava ensopado de suor.
— Poderia nos deixar a sós por um momento? — Ravel murmurou para a garota.
Ela abriu a boca para negar, mas se calou ao ver a cara séria do garoto. Sem hesitar, ela fechou a porta e deixou os dois sozinhos.
— O que está fazendo aqui? — Rosalyn perguntou com a voz rouca, levantando um pouco a cabeça. Seus olhos estavam vermelhos e a sua olheira era enorme.
— Vim te dar uma mão. — Falou Ravel com um simples sorriso.
— Humph. Saia daqui. Isso não é uma doença, então não tem como ninguém me ajudar. — Depois de falar com convicção ela abaixou a cabeça novamente.
— Ohh, sério? Então ta bom, vou te deixar sozinha. — Ravel se virou e abriu a porta. Com a voz leve, ele murmurou. — Uma pena que eu sei como refazer o selo do seu demônio, mas se você insiste...
— O que você disse!? — Rosalyn se levantou de um salto da cama e o agarrou no ombro. — Você sabe como selar isso de novo!? Isso é impossível!
— Não existe nada impossível nesse mundo. — Com um sorriso, Ravel fez as marcas negras no seu rosto voltarem. Rosalyn se assustou e caiu no chão.
— Você... Você também tem um? — Ela perguntou abobada.
O garoto suspirou levemente e olhou diretamente para ela com os olhos verdes.
— Sim, por isso eu disse que conseguiria refazer o selo. Feche os olhos para mim.
Vendo os olhos verdes do garoto, Rosalyn não hesitou e fechou os olhos. Ravel colocou a mão direita na cabeça dela e se concentrou. Lentamente ele entrou na sua consciência.
Quando abriu os olhos e viu o universo negro ao seu redor, o garoto se assustou. Como Lúcifer não estava tentando tomar o seu corpo, nem teve pensamentos ruins, a sua consciência sempre esteve completamente branca. A de Rosalyn, no entanto, estava completamente negra.
— Isso acontece por causa das emoções negativas que o demônio libera. — Explicou Lúcifer.
Ravel se aproximou do selo e colocou a sua mão direita nele. Provavelmente Rosalyn não sabia que, se quisesse, ele poderia arrancar o selo e soltar o demônio, senão provavelmente não teria o deixado entrar na sua consciência tão facilmente.
Rapidamente, o selo começou a aumentar e a onda negra que se espalhava por todo lado diminuir.
Não foi preciso nem um minuto para o garoto refazer o selo.
— Fez a conexão? — Perguntou Ravel.
— Sim. Quando quiser podemos falar com o demônio. Quero saber quem é... — A voz de Lúcifer sumiu e Ravel saiu da consciência de Rosalyn.
— Você refez o selo...? — Rosalyn perguntou assustada.
— Sim. — Ravel respondeu balançando os ombros.
A garota ficou de boca aberta durante um tempo, sem conseguir pronunciar nada.
— Como que você consegue controlar o demônio?
— Eu não controlo. Estamos dividindo o corpo.
Rosalyn abriu a boca mais ainda, completamente surpresa. Ela queria perguntar mais sobre, mas sabia que não devia.
— Bom, já fiz o que eu vim aqui fazer. Estou indo embora. — Ravel se aproximou da porta.
— Espere! O que-o que posso fazer para te agradecer? — Perguntou Rosalyn se levantando.
— Não se preocupe. Quando chegar a hora você saberá. — Ravel riu e abriu a porta. — Mas recomendo uma coisa. Tente conversar com o demônio as vezes. Vale a pena.
Acabando de falar, o garoto saiu do quarto, deixando a menina confusa. Ravel não parou em nenhum lugar e foi direto para a mansão das Guerreiras Imortais. Entrando no seu quarto, ele cruzou as pernas e mergulhou na sua consciência.
— Vou liberar a conexão. Só um momento. — Falou Lúcifer quando viu que ele tinha chego.
— Tenho que admitir, isso é um poder bem roubado. Poder se conectar com os outros demônios e conversar mentalmente.
— Humph, quem você acha que eu sou? — Lúcifer deu um sorriso e esticou as mãos. Na frente dos dois, o corpo de uma garota começou a aparecer, praticamente igual a Rosalyn.
O demônio, na verdade a demônio, apareceu e olhou confusa para os lados. Entretanto, quando seu olhar parou em Lúcifer, ela exclamou e se ajoelhou.
— Meu Imperador! Sua serva está feliz de poder vê-lo novamente!
A voz dela esbanjava felicidade e um sorriso bonito se espalhou pelo seu rosto.
— Shax, já fazem algumas centenas de anos. Então era você que estava selada na menina.
Shax não se levantou, ela continuou ajoelhada com um grande sorriso. Quando seu olhar coincidiu com o de Ravel, ela olhou confusa para Lúcifer.
— Meu Imperador, por que esse lixo humano está aqui?
Lúcifer, que estava calmo e com um leve sorriso, olhou para ela com desprezo. Sua voz ficou extremamente fria e assustadora, como se mil agulhas estivesse penetrando o corpo de Shax.
— Esse humano é especial. A próxima vez que você o chamar de lixo, vou garantir que os seus portadores nos próximos quinhentos anos nunca vejam a luz do dia.
A demônio tremeu da cabeça aos pés ao ouvir o que Lúcifer tinha dito. Suor escorreu pela suas costas. Olhando Ravel novamente, ela se curvou e falou:
— S-Senhor... Não, Vossa Majestade! Peço perdão pelas minhas palavras rudes. Essa insignificante é conhecida como o quadragésimo quarto pilar, marquesa Shax. É uma honra conhecê-lo. Poderia me dar a honra de saber o eu nome?
Todos os demônios desprezavam os humanos, mas sabendo que Lúcifer considerava Ravel especial, Shax não ousou desrespeitá-lo. Ela tinha completa ciência do que ele poderia fazer.
— Ravel. Não precisa ser tão respeitosa. — Riu o garoto.
— Vossa Majestade é muito gentil. Se tiver algum pedido, Shax não hesitará em cumprí-lo. — Gaguejou a demônio.
— Bom, já que você falou, eu tenho dois. — Ravel sorriu para ela. — Primeiro, não tente destruir o selo. Segundo, quando Rosalyn conversar com você, responda normalmente e tente manter uma conversa.
— Não quebrar o selo? — Ela estava surpresa. Para um demônio, a regra da sua vida era quebrar o selo para conseguir um corpo.
— Não se preocupe. Quando chegar a hora, ela vai tirar ele por vontade própria. — Shax o encarou, sem saber o que falar. Virando-se para Lúcifer, o garoto perguntou. — Ela é a primeira que encontramos. São quantos demônios no seu clã? Preciso saber, já que você quer que eu reúna todo mundo.
— São setenta e dois pilares, contando com Shax. Além deles, quatro reis cardinais e os outros seis imperadores.
Ravel suspirou e deu um sorriso para ele.
— Quanta gente... Não consegue sentir mais ninguém aqui em Rieseltia?
— Consigo sentir outros, mas por causa do selo deles não sei a posição exata. Mas não se preocupe com isso, com o tempo descobriremos.
— Shax, — Lúcifer virou-se para ela, ainda com a voz um pouco fria. — faça o que Ravel falou, você pode confiar nele. Se conseguir sentir alguém, me avise imediatamente que eu tomarei as devisas providências. A princípio, não vamos fazer nada.
— Sim, senhor! Shax irá cumprir o que Vossa Majestade e o Meu Imperador dizem! — Shax abaixou a cabeça para os dois de novo, mas dessa vez para simplesmente esconder a sua cara, que estava assombrada. Quem era esse humano!? Para Lúcifer, o imperador do orgulho tratá-lo assim, quem realmente é esse humano?
Ela estava ciente de que de todos os imperadores, aquele que mais desprezava os humanos era Lúcifer. Olhando com o canto dos olhos para os dois, ela não conseguia fazer outra coisa a não ser ficar abobada.
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