Rieseltia
23 Capítulo 21 - O Quarto Membro
Notas iniciais
Dois sons de batidas na porta ecoaram pelo quarto de Ravel. Sem nem olhar para a porta, ele falou em voz baixa:
— Pode entrar.
A porta foi aberta e duas pessoas entraram: Luca e Vivian. Ravel sinalizou para que eles se sentassem na cama e os dois se sentaram.
— Por que nos chamou? — Perguntou Luca, curioso. Os dois estavam treinando quando Melanie os falou que Ravel queria conversar com eles.
— Queria fazer uma reunião. Conversar sobre duas coisas. Primeiro, como está o treino de vocês? Já fazem cinco dias desde que Lúcifer falou o que vocês precisavam treinar, não?
Luca e Vivian se olharam, e ela falou primeiro:
— Como ele falou, estou tentando melhorar o tempo e a quantidade de areia que eu consigo controlar. Nesses últimos dias estive pensando no que ele disse e me veio uma ideia para uma “técnica secreta”. Entretanto, acho que vai demorar um tempo até que eu consiga realmente utilizá-la.
— Quanto tempo? — Ravel perguntou, balançando a cabeça afirmativamente.
— Um mês para que eu consiga criar, no mínimo. Para dominá-la completamente, nem ouso dizer quanto tempo.
— Um mês é um bom tempo. E você, Luca?
— Estou treinando com o pessoal das Guerreiras Imortais para melhorar os meus reflexos, enquanto treino para aumentar o alcance do meu sensor. Pensei no que Lúcifer me disse e uma ideia muito boa me ocorreu. Se conseguir completar ela, poderei lutar sem problemas ao lado de vocês. Assim como a Vivian, acho que em um mês consigo ter um resultado.
— Muito bom. Se pudermos utilizá-lo não só para suporte, mas nas lutas também, será muito mais fácil planejar as nossas ações. Agora, a segunda parte. Quero conversar com vocês sobre a próxima pessoa que vamos recrutar.
Os dois ficaram surpresos com a fala do companheiro e Vivian perguntou rapidamente:
— Já tem alguém em mente?
— Sim, e queria pedir a opinião de vocês. A pessoa que eu estou pensando é a Sarah. O que vocês acham?
— Não que ela seja ruim, mas tem certeza? Ela não tem poderes, mesmo que seja boa com a espada, vai chegar uma hora em que ela alcançará o seu limite. Enquanto isso, pessoas com poderes vão continuar crescendo. — Falou Vivian, um pouco confusa com a ideia do Ravel.
— Me diga, Vivian, quem disse que ela não tem poderes? — Perguntou Ravel com um sorriso malandro.
— Ela mesma? — Disse Luca, totalmente confuso.
— Desde o início eu duvidei quando você me disse que ela não tem poderes, Luca. — Ravel começou a falar. — Eu conheço uma pessoa que não tem poderes e ela nem sequer tentou treinar para luta. Como a Vivian disse, quando ela chegar no seu limite, não terá como superá-lo, ao contrário de pessoas com poderes.
— Você está querendo dizer que ela tem poderes, mas que mentiu para todo mundo? Por que ela faria isso? — Vivian, ainda sem entender, perguntou.
— Esse era o ponto que eu estava tentando entender, por isso que escolhi o Luca como a primeira pessoa a recrutar e não ela. Descobri o motivo na batalha da floresta. — Contou Ravel.
— O que a batalha na floresta tem a ver com ela? — Perguntou Vivian.
Luca, no entanto, não falou nada. Ele estava se lembrando de uma cena de algumas semanas atrás. Ravel e Sarah bateram as mãos na sala.
— Você absorveu o poder dela. Nesse momento você descobriu que ela tinha poder, não?
— Você se lembrou? Sim, nessa hora eu percebi que ela tinha poderes, mas ainda não entendia o por quê dela não usá-lo. Só quando eu o usei na batalha da floresta que percebi. É absurdamente difícil de controlá-lo. Deve ter acontecido alguma coisa no passado que a fez não querer mais usar a habilidade.
— Se esse é o caso, não me importo com a entrada dela, mas o que você fará se ela não quiser usar o poder? — Vivian perguntou, enquanto Luca concordava com a cabeça.
— Vou conversar com ela hoje. Ver se consigo convencê-la. Se vocês não tem nenhum problema, vou sair e falar com ela.
Acabada a reunião, Luca e Vivian se dirigiram novamente para a sala de treinos e Ravel foi em direção do dormitório da Cruzada Noturna.
Não demorou muito para ele chegar em frente a uma construção semelhante a um sobrado de quatro andares com coloração verde clara. Ravel apertou a campainha e esperou que alguém abrisse a porta.
— Posso ajudar? — Uma garota de cabelos levemente esverdeados abriu a porta.
— Muito prazer, meu nome é Ravel e sou o líder dos Cavaleiros Dragões. Além disso, sou um colega de sala da Sarah. Será que eu poderia falar com ela?
— Sou a líder da Cruzada Noturna, me chamo Camille. Sarah está no quarto dela. Me siga. — Camille respondeu com um sorriso e guiou Ravel pela residência.
A casa era simples, mas bonita. Cada cômodo era pintado com uma coloração clara diferente.
Camille guiou Ravel pela residência até um quarto. Parando na frente da porta, ela bateu duas vezes e a abriu devagar.
— Sarah, você tem uma visita. — Falou Camille em voz baixa.
Sarah estava sentada na cama lendo um grosso livro. Ouvindo Camille, ela levantou a cabeça e olhou os dois que estavam parados na porta, sem parecer surpresa.
— Ravel... Sabia que viria... — Disse ela sem pressa e com a voz baixa. — Entrem...
— Vou deixar vocês a sós. — Camille se virou para sair.
— Camy... Pode ficar... — Murmurou Sarah, ainda com a voz baixa.
Com o comentário de Sarah, Camille também entrou e fechou a porta. Ravel se sentou no chão, olhando diretamente nos olhos de Sarah.
— Você quer conversar... sobre o meu poder, não? — Sarah perguntou lentamente.
— Sobre o seu poder? Como ele saberia disso, Sarah? — Camille perguntou assustada. Elas eram amigas de infância, por isso Camille era a única pessoa da escola que sabia sobre o poder dela.
— Sim e não. — Ravel respondeu com um leve sorriso. — Meu objetivo principal hoje é desafiar a sua facção por você. No entanto, não adianta te forçar se você não quiser vir. Além do mais, gostaria de saber por que você não usa o seu poder, mesmo já tendo uma ideia do motivo.
— O poder do Ravel é copia... Nós batemos mãos semanas atrás. — Sarah respondeu Camille, que ainda estava em dúvida. — Por que você acha que não uso?
Sarah olhou Ravel diretamente nos olhos quando perguntou.
— Porque é difícil de controlar. Eu usei o seu poder na batalha da floresta.
— Você usou o poder!? — Sarah gritou, se levantando e segurando Ravel nos ombros. A mudança de personalidade confundiu o garoto.
— Sim, por isso sei que é difícil de controlar. Em cinco segundos, quase matei o Sétimo Fragmento de Gungnir. Meu corpo se movia sozinho. — Ravel respondeu rapidamente, para que Sarah largasse o seu ombro. — Deduzo que algo aconteceu com você no passado, por isso você não quer usar ele.
A garota soltou os ombros de Ravel e se sentou na cama, sem falar nada por um bom tempo. Vendo que Sarah não ia falar, Camille começou a contar.
— Eu e Sarah crescemos juntas. Nós sempre brincávamos, juntas com um outro amigo nosso. Esse era o nosso dia a dia. Até que chegou um dia que resolvemos mostrar para ele o nosso poder. — Camille respirou profundamente antes de continuar. — Eu mostrei o meu poder sem problemas, mas quando Sarah foi mostrar o poder dela, ela não conseguiu controlar e... matou ele.
— Meu poder me permite me fundir com a alma da arma. Isso aumenta minha velocidade, reflexo, força, mas também me deixa vulnerável mentalmente. Se eu não conseguir controlar, a alma da arma tomará posse do meu corpo. — Sarah murmurou em voz baixa. — Você deve ter pensado que sou tímida, não é? Não é que eu seja, mas eu selo meus sentimentos, com medo de que a arma que eu carrego tome o controle.
Ravel olhou a reação de Sarah e, quando falou, duras palavras saíram da sua boca:
— Você vai continuar fugindo até quando? No meu ponto de vista, você está simplesmente com medo de enfrentar o seu poder.
— Fugindo? — Perguntou Sarah com raiva. — Você acha que o meu poder é simples? Não estou fazendo isso por mim, mas sim pelas pessoas ao meu redor. Não é o caso de perder o controle e machucar alguém. É o caso de se eu perder o controle, eu vou provavelmente matar.
— E é por isso que você está fugindo. Isso não é nada mais do que uma desculpa. Se você realmente quisesse, poderia treinar em lugares sem pessoas. No entanto, você usa o acidente do seu passado como desculpa para não usar o poder.
— Desculpa? — Sarah se levantou e começou a gritar, despejando toda a sua raiva. — Você acha que isso é uma desculpa!? Por acaso você sabe qual é a sensação de ter uma outra alma no seu corpo!? De não saber se vai conseguir controlar ela!?
O garoto não se moveu do lugar, nem sequer pareceu ligar para o que Sarah estava gritando. Lentamente, a cor dos seus olhos mudou para verde escuro e duas marcas negras apareceram nos seus olhos.
— Se eu sei qual é a sensação de ter uma outra alma no meu corpo? Acredite, eu sei melhor do que você. Porque selado dentro de mim eu tenho um demônio.
O balão de raiva que estava inchando dentro de Sarah pareceu ter estourado ao ver as marcas no rosto do garoto. Ela se sentou.
— Desculpa pelo que eu disse. — Ela falou sem graça.
— Acredite quando eu digo que sei como você se sente. Dentro do meu corpo eu tenho selado um dos imperadores demônios, Lúcifer. A sensação que você descreveu, eu sei como ela é. E é exatamente por isso que eu te digo que você está fugindo.
Camille observava a reação dos dois sem saber o que falar. Ela também tinha ficado irritada com o que Ravel tinha dito para Sarah, mas ficou completamente surpresa ao ver as marcas no rosto dele.
— Você tem que enfrentar ele. — Ravel falou com a voz baixa, antes de se dirigir para a porta. — Se quiser, posso ajudá-la a treinar. Pense nisso. Quando tiver uma resposta, venha me encontrar.
— Você sabe como é perigoso. Só você... — Sarah começou a falar, mas foi interrompida.
— Eu sou o suficiente. Ou está achando que você consegue me ferir, humana? — A voz fria de Lúcifer saiu pela boca de Ravel, surpreendendo as garotas.
Sarah ficou parada, vendo Ravel caminhar lentamente para a porta. Sua cabeça estava a mil. Tudo que Ravel tinha falado estava passando rapidamente pela sua mente.
— Você consegue mesmo me ajudar a controlar?
— Se você conseguirá ou não controlar, só depende de você, humana. Eu posso te dar algumas dicas e te segurar, quando necessário. — A voz que saiu foi novamente a de Lúcifer. Ravel tinha pedido para que ele ajudasse no treinamento de Sarah, quando fosse preciso.
Sarah abriu a própria mão e a olhou. A cena de seu passado passando claramente nos seus olhos. Com o canto deles, ela observou a sua espada, que estava em cima do armário. Algumas memórias passaram pela sua mente.
“Você gosta de treinar com espadas filha? Com o seu poder, não tem ninguém mais forte do que você.” A voz da sua mãe rondou pela sua cabeça.
“Filha, por que você está cheia de sangue!? O que aconteceu!?”
“Foi um acidente. Não adianta você ficar se culpando por isso, filha.”
“Você vai parar de treinar com espadas? Pense bem nisso, minha querida. Você sempre gostou delas.”
Sarah fechou os olhos e respirou profundamente antes de falar.
— Eu aceito. Vou entrar na sua facção. Em troca, por favor, me ajude no meu treino.
Ravel se virou e mostrou um grande sorriso para ela. Sarah se virou para Camille e falou:
— Camy, me desculpe, mas tem como você me liberar sem nenhum desafio? Eu preciso disso, preciso enfrentar esse poder.
Camille sorriu para ela. Era um sorriso totalmente sincero, do fundo do coração.
— Tudo bem Sarah. Eu quero que você enfrente. Sei que você vai conseguir. Confie em si mesmo. Vou esperar ansiosa pelo dia em que poderei te ver lutando com espadas com aquele sorriso que você tinha antigamente. — Se virando para o Ravel, ela esticou a mão para ele. — Você tem a minha gratidão. Por favor, cuide bem da Sarah e a ajude a treinar. Como agradecimento, não irei desafiá-lo.
Ravel esticou a mão e apertou a mão dela.
— Não se preocupe. Comigo junto, não terá nenhum perigo.
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