Rhorus
7 Yunna
Notas iniciais
Symmeon treinou-a dia após dia, noite após noite, incessantemente, incansavelmente, insistentemente; isso por uma semana inteira. Yunna havia cortado seus longos cabelos brancos na altura do ombro por causa do calor da Capital, e seus dedos eram puro calo depois de todo aquele treinamento.
Na noite em que chegou ela dormiu e comeu bem. Symmeon lhe mostrou seus alojamentos no fundo do galpão com uma cama com um colchão levemente desconfortável, mesa, cadeira, um lugar para pendurar o arco e guardar a aljava de flechas, e era bem perto da latrina. Na manhã seguinte a moleza acabou. Symmeon acordou-a à primeira luz da manhã. Levante garotinha, é tempo de treinar., ele disse. Levando Yunna pelo galpão ele parou em frente a uma gaiola com no mínimo 50 lebres, no chão à frente duas dúzias de buracos. 20 abates, ele pediu, ou não terá almoço hoje. Vou até a latrina e quando eu voltar quero estas lebres mortas. Uma visita à latrina não daria muito tempo a ela, então ela começou. Deu uma dúzia de tiros e uma dúzia de lebres morreu. Ela recarregava rapidamente, colocando a flecha na corda e puxando, mas perdia o tempo na mira; as lebres não paravam quietas.
Quando Symmeon voltou alguns instantes depois Yunna tinha 30 lebres mortas. Pedi 20, ele disse, sem almoço pra você., e assim foi feito. Yunna se manteve com alguns pães secos pela manhã e quando o almoço se aproximava ela ficou treinando, enquanto Symmeon preparava algumas das lebres para ele. A tarde correu com mais treinos, mas à noite ela provou de seu abate; as lebres cozidas com batatas e cebolas estavam ótimas.
A semana se arrastou com ela sendo acordada à primeira luz da manhã e dormindo muito mais tarde do que estava acostumada. Todos os dias atirava em coelhos e lebres, aves e alvos minúsculos em uma extremidade do galpão, enquanto ela puxava uma flecha deixando uma corda tensa na outra extremidade. No fim da semana Symmeon a chamou. Nada de coelhos, nada de arcos naquele dia.
– Estou pensando em inscrevê-la no torneio do rei. – o experiente arqueiro falou. – O prêmio poderia melhorar muito o galpão e você poderia comprar o que quisesse com a sua parte.
Aquilo pegou Yunna de surpresa.
– Não sei se estou pronta, mestre. – disse ela. – O senhor com certeza venceria esse torneio, por que me inscrever?
Symmeon sorriu. Um sorriso que ia de uma orelha a outra.
– Sim, eu venceria. Mas eu nunca disse que não participaria. – o arqueiro pegou um arco e uma flecha, armou, esticou e disparou. A flecha foi certeira em uma flecha que Yunna disparara no dia anterior. Ele sequer mirou, a garota notou. – Vamos competir. E se um de nós ganhar, bem.
Naquele dia cearam leitão assado no espeto com cebolas e nabos, e um guisado de coelho. Yunna nunca comera tão bem.
Mas a segunda semana de sua convivência com Symmeon chegou com o amanhecer. À primeira luz Yunna abriu os olhos em sua cama. Mestre Symmeon não me acordou , a garota pensou se levantando, foi até a latrina e se aliviou. Quando saiu para pátio viu o homem plantando alguns finos gravetos em cada extremidade do galpão.
– Vejo que a garotinha aprendeu quando acordar. Muito bom.
– Obrigado, mestre. – ela agradeceu afastando o sono dos olhos. – Pra que serve isso?
– São alvos. – Symmeon respondeu.
Alvos?, Yunna se perguntou incrédula. Não tinha como ser. São muito finos. Cada graveto tinha a grossura de um dedo mínimo e o tamanho de dois palmos. Seja lá como Symmeon planejava o treino parecia improvável acertar aqueles gravetos. Até que o mestre estrangeiro disparou uma flecha e acertou um que estava há aproximadamente 100 metros dele.
– Vê? Se eu posso, você pode. Pegue suas ferramentas e venha para o pátio. – ferramentas era como Symmeon chamava o arco as flechas e a aljava.
Yunna foi até o quarto, pegou a luva longa que cobria o antebraço e suas outras ferramentas e voltou.
– Quero que acerte os gravetos. – ele falou. Mas isso ela já sabia. – Dispare suas flechas de modo que eles deitem para trás sem quebrar. Apenas para trás, veja bem. – ele puxou uma flecha de sua aljava, colocou na corda do arco e disparou. A flecha foi certeira em um graveto. Ele entortou para trás sem quebrar e sem sair da linha que Yunna acabara de notar, estava riscada no chão, em reta com os gravetos. – Assim.
A garota de cabelos brancos teve que esconder seu descontentamento com o treinamento. É isso que é o treinamento do grande Symmeon Arcolongo? Como isso vai me transformar em uma arqueira de verdade? Ela estava ali já há mais de uma semana e não aprendeu nada que já não soubesse. Exceto este novo exercício, mas ela não conseguia ver utilidade nele. Mesmo assim puxou uma flecha.
– Vou até a cidade. Comprar algumas provisões. Quando chegar, espero ver gravetos deitados sobre os riscos no chão. Sem trapaças. – o jeito pausado que seu mestre tinha de falar estava começando a aborrecer Yunna. – Tenho olhos em você. – ele falou por fim, saindo.
Yunna se perguntava o que ele queria dizer com aquilo. Symmeon é um mestre de arquearia, era de se esperar que ele tivesse mais alunos nesse galpão. No tempo que ela passara lá viu apenas quartos sem ocupantes. Nenhuma outra pessoa era vista lá dentro além dela e seu mestre. Estranho.
Ela então começou seu exercício.
A princípio Yunna achou que seria difícil, mas não tanto. Acertou o graveto que estava na marca de 10 metros e depois o que estava na marca de 20, sem dificuldade. Quando se aproximou para averiguar, o primeiro graveto quebrara e o segundo voara há um metro de distancia da linha marcada. A garota mordeu o lábio.
Ficou treinando a manhã toda, até Symmeon voltar.
O mestre voltara vestido com uns trapos velhos, mais largos que ele, e não ficou feliz ao ver o progresso da jovem.
– Vejo que tem mais gravetos espalhados pelo galpão que flechas. Talvez seja uma tarefa difícil demais para a garotinha.
– Talvez uma tarefa inútil demais para eu levar a sério. – a garota murmurou baixinho.
O mestre pareceu ouvir. Caminhou até ela.
– Não sabe colocar sua vontade na flecha. Acha que pode me vencer no torneio?
Vontade na flecha? Do que ele está falando?, ela pensou, dizendo: – Perdão, não quis dizer isso.
– Diga-me. Yunna de Riverstone, já matou alguém? – perguntou Symmeon colocando-se ao lado dela. – Acredito que não. Mas quando tiver que fazer e não fizer direito, vai desejar ter feito.
Yunna tremia enquanto Symmeon Arcolongo a rodeava. Matar alguém? Ela sequer queria pensar nisso. Abaixou a cabeça para que ele não visse o medo em seu rosto.
– É uma garota de bom coração, Yunna de Riverstone. Mas um dia, se quer ser arqueira, terá de matar alguém. Então é bom que faça direito. – Symmeon atirou uma flecha em um graveto. – Não consegue por a vontade na flecha. Não consegue entortar o graveto sem quebrar. Pretende atirar em alguém para matar, ou apenas que fazê-lo sofrer e sangra como um porco até a morte?
Yunna estremeceu.
– E-eu... Eu não quero matar ninguém. – ela respondeu. Lágrimas vieram aos seus olhos.
– Não. Não quer. Mas terá. – o mestre falou. – Se quer virar arqueira. Terá que matar alguém. E quando isso acontecer. É melhor que saiba o que está fazendo.
Nesse momento a porta do galpão se abriu. Seis homens entraram. Estavam com arcos em mãos, e nas suas costas aljavas com flechas negras. Aço negro. Essas flechas perfuram até a mais forte armadura.., a garota notou. Os homens caminharam até uma proximidade de 20 metros dos dois.
– Symmeon Arcolongo, vimos que pretende participar do torneio do rei. — o mais alto deles falou. Era aproximadamente duas cabeças mais alto que Symmeon, e seu cabelo era vermelho fogo. – Não nos parece justo.
Os homens que estavam com ele puxaram flechas quando concordaram. Todos vestiam estranhas roupas, mais largas que eles, mas não era nisso que Yunna prestava atenção, era nas flechas; um disparo de uma flecha negra atravessaria o corpo de um homem vestido em pano tão facilmente quanto atravessaria uma folha de papel. Yunna também puxou uma de suas flechas.
– Crianças – Symmeon falou se colocando à frente. – o que fazem aqui? O treinamento de vocês já terminou.
A verdade atingiu Yunna como uma pedra. Ex-alunos de Symmeon. Mas ele não percebe? Como pode falar assim tão calmamente com eles, quando eles vieram aqui para matá-lo. A garota estava aterrorizada.
– Mestre – ela sussurrou. – vamos fugir. Eles não vieram aqui com boas intenções.
– Symmeon Arcolongo nunca foge garotinha. – o mestre arqueiro falou, puxando cinco flechas. Depois voltou a falar com seus ex-alunos. – O galpão não é lugar para homens que terminaram seus treinamentos. Por favor, vão embora.
Os seis homens armados se entreolharam e riram. O mais alto voltou a falar com a voz de todos.
– Não iremos embora, Symmeon, não até termos fincado algumas flechas nessa sua cabeça feia. E termos estuprado essa sua putinha também. – dito isso, ele lambeu os lábios. Yunna tremeu.
Symmeon suspirou nesse momento. Olhou para o homem e disse algo que Yunna não compreendeu, na língua de sua terra natal. Quando Yunna percebeu os movimentos rápidos de Symmeon, dois dos homens já estavam no chão, com flechas cravadas em seus peitos. O homem alto e os três restantes se apreçaram em colocar suas flechas nos arcos, mas Symmeon era muito rápido e suas flechas atingiram os três homens, restando apenas o alto. As flechas do mestre acabaram, Yunna percebeu então. O homem alto estava acabando de esticar a corda do arco, Symmeon Arcolongo só teve tempo de virar o rosto para sua pupila e sorrir. Preciso fazer algo, mas era tarde demais, a flecha assoviou e atingiu o peito de Symmeon com um ranger nada natural, um barulho de metal gemendo, e então o grande Symmeon Arcolongo estava no chão. Depois disso Yunna sequer se lembra de como aconteceu; seus olhos estavam embaçados por lágrimas, mas mesmo assim ela atirou sua flecha contra o homem grande que matara seu mestre, enquanto ele colocava outra flecha no arco, uma flecha para ela. O homem caiu quando sua flecha o atingiu no peito, e Yunna correu até o corpo de seu mestre, aos prantos.
– Perdão mestre. Perdão. – ela dizia chorando. – Eu deveria ter feito algo antes. O senhor ainda estaria vivo. É tudo culpa minha. É tudo culpa minha.
Uma mão correu seu rosto e limpou suas lágrimas.
– Abra os olhos, garotinha. – a voz de Symmeon soou. – Abra os olhos e veja.
E ela abriu. A flecha estava lá, fincada no meio do peito de Symmeon, mas algo estava estranho naquilo. Não tem sangue. Nenhuma gota, em lugar algum. Quando Yunna se virou cinco dos homens se levantaram, exceto o alto. Ela não compreendeu, mas ficou apavorada.
– Acalme-se, filha. – Symmeon falou se levantando. Caminhou até o alto que ainda estava caído, os outros cinco também estavam em volta dele.
– Ele está sangrando, mestre. – um dos ex-alunos falou. – a cota de malha não segurou a flecha.
Yunna não estava entendendo mais nada.
– Eu vejo. – ele se ajoelhou ao lado do homem alto. – Millian, você está bem?
O homem alto abriu os olhos. Um sorriso ensanguentado surgiu em sua boca.
– A garota conseguiu atravessar a cota de malha. – tossiu. – Ela é mais forte do que eu imaginava.
– Não se esforce. – disse Symmeon. – A flecha não foi muito fundo. Graças à cota de malha. E nem atingiu um ponto vital. – ele se virou para Yunna. – Garotinha, venha cá.
E ela foi, mesmo tremendo, mesmo com lágrimas rolando pelo rosto. Mesmo sem estar entendendo nada.
– Veja o que você fez. – Symmeon lhe mostrou o sangue correndo pelo buraco onde a flecha entrara. – Estes eram homens bons. Ex-alunos meus que fizeram aquilo que lhes foi pedido. Mesmo conhecendo o risco. – o mestre se levantou. – Você atirou com medo. Com raiva. As flechas captam seus sentimentos. Você poderia tê-lo matado.
– E-eu não. Eu não quis. Eu não vi.
– Exatamente. – Symmeon se virou para seus ex-alunos. – Levem Millian para algum curandeiro na cidade. Diga-lhe que Symmeon Arcolongo irá pagar o tratamento.
– Sim, mestre. – os cinco disseram em uníssono.
Depois que os homens saíram carregando o outro Symmeon esperou Yunna se acalmar para enfim explicar o ocorrido.
– Esses seis eram meus alunos, como pode ver. Quando fui à rua me reuni com os eles e os vesti com cotas de malha do gnomo. Essa cota de malha é feita especialmente para parar flechas. Muito forte e útil. Também vesti uma e voltei para cá. – Symmeon levantou a velha roupa de trapos e por baixo uma reluzente cota de malha dourada segurava uma flecha negra. Symmeon arrancou a flecha e a jogou no chão.
– Mas essas flechas são negras. É aço negro. Nada segura aço negro. – ela falou, as lágrimas voltaram a correr.
– Tudo havia sido planejado, de forma que você acreditasse que eles vieram aqui para me matar. As flechas são de ferro comum, pintadas de negro para amedrontar você. Você tinha de fazer alguma coisa, antes ou depois de eu estar no chão. E fez. Bem, você viu o que acontece quando não coloca sua vontade na flecha. Atirou-a com medo e poderia tê-lo matado. Você não queria matar ninguém, foi o que me disse. É pra isso que serviam os gravetos. Se consegue atirar em gravetos e fazê-los apenas deitar, consegue escolher matar ou não matar um homem.
Yunna levantou os olhos da mesa e encarou seu mestre. Seu rosto sem expressão.
– Na verdade – ela disse. – Eu coloquei minha vontade na flecha. – seus olhos estavam vermelhos de chorar, as pupilas dilatadas de medo. – Eu quis matá-lo. Eu quis.
Nenhum dos dois sabia como processar aquela nova informação. Não estava nos planos. A garotinha de 15 anos que chegara à Capital a mando de seu Senhor acabara de tentar matar um desconhecido. Talvez houvesse motivo para aquilo, a raiva faz isso com as pessoas; fazem elas deixarem de pensar, e Symmeon precisava ensina-la que pensar era o mais importante para um arqueiro, era uma parte da sabedoria dele que ele sempre passava para seus alunos, e Yunna, mais do que qualquer um, precisaria pensar muito em breve. Mas isso era uma coisa que nenhum dos dois poderia jamais esperar.
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