Rhorus
8 Brynden Sand
Notas iniciais
Partiram dez galés e galeões de Costa do Sal – barcos da pequena frota de Hargalen e alguns outros que ele pagara com ouro emprestado pelo bêbado Senhor. Agora Brynden tinha mais de um milhar de homens de lanças e umas tantas centenas de cavaleiros, arqueiros e mercenários; um total de mil e quinhentos homens, um feito incrível para tão pouco tempo, e a víbora até tentou chamar outros Senhores de Bronze para a sua causa, a “causa de seu pai”, mas todas as mensagens enviadas receberam respostas negativas de homens honrados demais para aceitarem o bastardo de costumes pouco comuns em seus castelos. O jeito foi partir para seu destino.
A próxima parada era a Vila Garden, uma Vila portuária no território da Mata, a oeste, protegida por um vassalo menor dos Templey, os Rose. Bem sabia Brynden que a vila não era rica, e tão pouco era o porto principal do território, mas era a forma mais fácil de entrar, e ele tinha um plano.
Levou uma semana de viagem até chegar à vila. Várias casas de pescador estavam espalhadas pela areia tal como barracas de venda de peixes, e o que se via no mar de barcos era nada mais além de barcos de pesca. Onde está a frota naval?, ele queria saber, mas não tinha tempo para pensar em tal coisa. Longe, rodeado por um jardim de rosas se via uma pequena fortaleza vermelha; o Castelo dos Rose. Brynden não pretendia ataca-los ainda.
Os dez navios do bastardo pararam distante o bastante da praia para não serem notados, e a víbora se reuniu com seu Capitão Luxxis e o Comandante enviado por Lorde Hargalen para auxiliar Brynden no comando de suas forças; era um homem magro, enrugado e de cabelos grisalhos, e sua face mostrava as marcas de várias batalhas. Parecia ser mais velho do que realmente era; a velhice precoce era a marca de sua família; seu nome era Dixon Sunning, terceiro filho do Senhor de Dunalta, e cavaleiro experiente. Este se pôs a falar:
– Notou que não há nenhum navio de guerra nas águas dos Rose?
– Notei. Se eles não estão aqui só pode significar uma coisa.
– Sim. Que o senhor destas terras se pôs em marcha. Talvez seus irmãos já tenham atacado os Templey.
– Se o fizeram provavelmente já estão mortos. – Luxxis se interpôs, olhando para seu amigo de cabelos prateados, esperando alguma reação.
Brynden fitou-o, estreitou seus olhos e depois sorriu.
– Eles seriam tolos se o fizessem. Precisamos ir à vila e averiguar.
O plano de Sand se mostrara bem simples: enviar dez botes, cada qual com cinco homens armados. Nenhuma cor chamativa, e nenhum brasão a mostra, eles se passariam por corsários e atacariam as casas até a guarda chegar. O próprio Brynden se voluntariou para o ataque, mas Dixon achou preferível que ele fosse em seu lugar. Se as tropas dos Rose não chegassem, ou chegassem em tamanho menor, só significaria uma coisa: que os donos da casa saíram.
Os homens logo foram escolhidos; cinquenta, em sua maioria mercenários, e Dixon Sunning na liderança. Não vestiam nada que indicasse um ataque vindo do Extremossul, apenas roupas e armaduras neutras. Os botes foram colocados na água e eles começaram a remar para o lado mais isolado da praia. Brynden acompanhava tudo com uma luneta emprestada por Luxxis.
– Eles chegaram em terra firme. – narrou. – Todos os cinquenta. Estão marchando para o porto.
– Deixe-me olhar. – o capitão pediu, e Brynden se afastou com a luneta ainda em mãos.
– Chegaram!
Enquanto a víbora olhava ele sentiu uma animação crescente. Os vendedores foram os primeiros a ver o ataque, ele percebeu, mas não tiveram tempo para correr. Os homens de Dixon saltavam sobre as barracas com espadas em mãos e cortavam o que estivesse na frente, fosse homem, mulher ou criança. Um guarda com o brasão dos Rose parecia estar patrulhando, e quando viu a carnificina tentou correr, mas foi atingido por uma lança arremessada por Dixon, bem no meio das costas. Depois disso mais nenhum guarda apareceu por minutos.
– Luxxis! – a víbora chamou. – Coloque o navio em curso e avise os outros. Vamos atacar a vila!
Quando as dez embarcações chegaram à praia, a areia estava tomada por corpos e sangue. Sete guardas estavam empilhados em um canto enquanto mercenários os saqueavam. Dixon também estava banhado em vermelho, e correu até o bastardo com um sorriso no rosto.
– Aqueles que escaparam correram para a fortaleza, mas nenhum outro soldado desceu de lá. – era notável o quanto ele estava animado. – Os Rose não estão, víbora. É a nossa chance.
Os olhos de Brynden cintilaram com a notícia.
– Desçam as armas de cerco, saqueiem a vila e depois a queimem. Ao entardecer vamos marchar até a fortaleza.
Brynden Sand mal terminou de falar, puxou sua lança curta e gritou; um grito apenas, não palavras de guerra, apenas um grito de excitação. Correu até uma cabana de madeira e chutou a porta, invadindo, lá dentro uma família se comprimia em um canto, assustada. Ele deixou a cabana limpando a lança com uma tira de pano rasgado de algum vestido e lambendo o sangue respingado em sua boca. Luxxis preferiu apenas observar de cima do navio, mas Dixon e os outros homens faziam o mesmo que a víbora prateada, invadindo cabanas e comércios, e empilhando ouro e pedras preciosas do saque em algum canto, além de mantimentos; nenhum estava sendo mesquinho de guardar o ouro pra si, eles que dividissem depois, a violência gratuita agora parecia mais importante.
Quando o sol começava a baixar no horizonte, a vila estava completamente em chamas e os mais de mil homens de Brynden marchavam para o portão da fortaleza. O homem no comando deixado pelos Rose era velho e parecia apavorado, olhava tudo das ameias do castelo.
– Senhor! – Brynden gritou, mas não ouviu resposta. Sussurrou para seus arqueiros que circulassem os muros e abatessem qualquer ave que saísse lá de dentro. Voltou a gritar então com o velho nas ameias. – Senhor, abra os portões, irá nos poupar assim algum tempo!
– Nunca! – o velho gritou de volta. Era todo valente do outro lado das espessas muralhas. – Seja lá quem estiver à porta, serão esmagados quando nosso senhor voltar.
– Se abrir o portão, juro não matar a todos! – a víbora gargalhava enquanto falava. Os homens à sua volta também riam. – Apenas a alguns.
– Que acampe em nossa porta, inimigo. Nossos muros são fortes, e os homens aqui dentro valentes.
Dixon e Brynden trocaram olhares divertidos. Tão corajosos que se esconderam, mas ele não tinha tempo para troçar daquele senhor, fez um sinal positivo com seu polegar para ele e deu a ordem para seus homens derrubarem os portões.
O aríete coberto de couro e madeira andava vagarosamente sobre suas quatro rodas rangentes, e os homens lá dentro empurravam com vigor. Ao se aproximar da porta, todos, tanto fora quanto dentro daqueles muros, ouviram o metal do portão chorar a cada batida da cabeça de carneiro feita em ferro que ficava na ponta do braço do aríete. Não demorou muito até que a passagem estivesse aberta.
– Homens, vão!
Lá dentro duas centenas de soldados em formação seguravam suas espadas tremulamente aceitando seu destino, quando o mar de areia invadiu a fortaleza gritando. Lanças voaram dos que estavam mais atrás e mataram uma dezena de homens dos Rose, os que estavam na linha de frente sulista brandiram suas espadas e estocaram com suas lanças, e outra fileira de homens caiu. Brynden entrava agora, rodando sua lança no nó dos dedos, seus olhos brilhavam purpúreos, e estudavam o ambiente em busca da sua vitima. Ele quase não notou quando o soldado vestindo uma armadura branca surgiu de repente e brandiu sua espada contra seu pescoço, a víbora recuou, o soldado parecia ser habilidoso. Brynden saltou para um lado e atacou com uma rajada de golpes, seu oponente desviou a maioria, sem perder o equilíbrio.
– Para esfacelar um exército – o homem dos Rose gritava enquanto brandia sua espada furiosamente contra Brynden. Sua voz era mais fina que o comum, e estava abafada pelo elmo florido – basta trata-lo como uma serpente. – e mais golpes vinham de todos os lados, fazendo o bastardo recuar. – Corte a cabeça. Mate o homem na liderança.
A víbora parou. A haste da sua lança curta estava gasta por conta dos golpes que teve que bloquear, mas o sorriso em seus lábios não se perdeu; muito pelo contrário, Brynden estava grato por encontrar tão bom oponente logo em sua primeira batalha. Tudo que desejava era ter uma armadura mais completa, e não apenas os trapos que o senhor seu pai lhe arranjara.
– Creio que seja um cavaleiro. – Brynden estudou-o andando ao seu redor. – Diga-me seu nome e eu não lhe matarei, sir. Juro por minha honra.
Mas o soldado não respondeu. Soltou um grito de fúria e investiu contra o Sand. Esquerda, direita, estocada. Golpes velozes de espada, mas não tão fortes como o normal. Brynden apenas recuava e bloqueava os golpes.
– Diga-me seu nome. – pediu novamente.
E mais golpes choveram sobre ele. Estava começando a cansar, e por vezes quase tropeçava nos corpos de homens caídos às suas costas. Quando ele finalmente parecia encurralado contra o muro, Dixon apareceu e golpeou a cabeça do soldado com o cabo da espada. Na queda o elmo voou longe e revelou com surpresa que o homem dos Rose na verdade era uma bela dama de cabelos ruivos.
– Eu dava conta dela. – Brynden murmurou aborrecido, desencostando da parede fria.
Sir Dixon Sunning riu.
– Eu sei que dava.
A batalha finalmente havia acabado. Pouco mais de cem homens dos Rose mortos e outros tantos feridos; uns cinco feitos reféns, incluindo a garota de cabelos avermelhados. Brynden perdera apenas dez homens. Os aldeões que haviam se abrigado lá foram amarrados e estavam sendo levados para os navios, como escravos, as mulheres e crianças teriam um lugar especial com a tripulação. O velho homem na ameia do castelo olhava aterrorizado.
– Abra a porta do castelo, meu senhor. Alguns reféns estão feridos.
E o pobre velho não tinha mais forças para protestar. Deu a ordem e as portas do castelo se abriram.
Era um belo castelo aquele, com paredes e cerâmicas vermelhas, e bandeirolas tremulando a cada passo que a víbora dava – as cores dos Rose, vermelho e rosa. Atrás de Brynden vinham Dixon e Luxxis, transportando os reféns até o meio do salão, e o velho castelão descia as escadas vagarosamente. Seu semblante cansado e seus olhos inchados.
Um dos arqueiros de Brynden entrou correndo com dois pequenos pergaminhos em suas mãos.
– Senhor, interceptamos estas mensagens. Ele tentou alertar o Senhor da Mata. Achou que fôssemos piratas ou corsários.
– Bom trabalho. – agradeceu. – Então, velho, enviou outras mensagens? – perguntou em seguida. – Perdão, não parece certo da minha parte chamá-lo de velho. Qual o seu nome?
– Karl. – o senhor respondeu pesaroso. – Sou o Conselheiro do Lorde Humbert Rose.
– Então, Karl, enviou outras mensagens?
– Não, nenhuma outra.
– Tem certeza?
– Nenhuma outra mensagem foi enviada.
Brynden deu alguns passos atrás e pegou a espada de Luxxis que ainda não fora desembainhada, se aproximando dos reféns.
– Talvez mais um pouco de sangue lhe refresque a memória. – ele se abaixou até um dos homens amarrado. Este usava uma capa vermelho e rosa, e suas feições e cabelos azuis levavam a crer que ele era um homem importante. Brynden perguntou seu nome e o homem sussurrou em resposta. – Diga-me, velho Karl, enviou outras mensagens? Diga-me e o bravo Roy Numell não terá sua garganta cortada.
Mas o velho continuou calado, olhando com pesar.
– Diga-lhe, velho! Diga a ele se enviou outras mensagens! – Numell gritava em desespero e sequer percebeu o fio da espada retalhando seu pescoço. Sangue esguichou para todos os lados.
Brynden novamente rondava os homens amarrados no chão.
– Odeio covardes. – e voltou sua atenção para o Conselheiro. – Agora sabe que estou falando sério. Enviou alguma outra mensagem?
Mas o velho Karl continuou calado.
– Fez sua escolha então. Homens amarrem-no. Vamos matar todos os reféns.
Quando os soldados de Brynden o seguraram e colocaram-no de joelhos com os braços para trás, foi que o velho Karl pôde ver: em meio aos reféns alguém o fizera mudar de postura, e ele gritou para o bastardo que não enviara nenhuma outra mensagem por que até eles estarem nos portões do castelo ninguém fazia ideia de que fosse outro ataque vindo do Extremossul.
– Outro ataque? – a víbora questionou.
– Sim. Os filhos legítimos do Lorde Rowen atacaram Terralta com um pequeno poderio, mas foram massacrados. – Karl começou a falar quase sem respirar. Brynden estudava em que direção ele olhava para descobrir o que o fizera mudar de ideia. – Depois do pequeno ataque, Lorde Templey convocou os vassalos para suas muralhas, pois esperava um ataque maior, mas este ainda não aconteceu.
Brynden caminhou até a ruiva em armadura branca e a agarrou pelos cabelos.
– Conte-me mais! Há quanto tempo o ataque aconteceu?!
– Três dias. Três dias. Três dias!
E a víbora sorriu, ajoelhando-se ao lado da garota, cheirando os fios embaraçados em sua cabeça.
– O que foi feito dos meus irmãos? – ele gritou de súbito.
– Irmãos? Então você é o tal bastardo. Todos no reino ouviram que foi executado.
– Não fui. Mas esta garota será, a não ser que me conte tudo. Incluindo o que foi feito dos meus irmãos.
E o velho abriu o bico.
– Ainda não nos foi dito que rumo a vida deles tomou, mas até onde sabemos, dois deles foram capturados.
“Todas as forças da Mata estão acampadas em Terralta. Todos os Senhores saíram de seus castelos para juntar forças ao nosso suserano. Eles acreditam que Lorde Rowen não enviaria seus três filhos homens para a morte sem que um grandioso ataque viesse logo em seguida, mas três dias se passaram e nenhum ataque aconteceu. Todas as outras fortalezas enviam mensagens dia após dia para relatar qualquer movimentação estranha ou ataque, mas hoje que fomos atacados, fracassei em comunica-los.”
“Lorde Rose escreveu-me que alguns senhores não estão contentes em deixar suas terras desprotegidas, mas Lorde Templey não quer ouvir falar. Por ele ninguém sairá de lá até que este maldito ataque aconteça”...
– Está ótimo meu senhor. Você falou tudo que eu queria ouvir. – a víbora sacudiu a cabeça positivamente, e um dos seus homens apunhalou o Conselheiro Karl pelas costas, trespassando-o com a espada. Não era possível distinguir o sangue da cerâmica vermelha.
Em seguida Brynden olhou para baixo, para a ruiva e sorriu.
– Agora vamos a você, amor. Seu nome, por favor.
O quarto da torre principal era o maior do castelo, provavelmente a suíte de Humbert Rose e sua senhora, e Brynden decidiu se apossar dela. Ele usara a banheira e todos os óleos aromáticos que encontrara, e quando saiu respingando e nu para dentro do grande quarto encontrou a guerreira ruiva em sua cama, amarrada, porém vestida.
Na verdade ele descobriu interrogandos seus outros reféns que ela não era guerreira coisíssima nenhuma, mas gostava de treinar escondida de seu pai; a garota era Dolores Rose, filha mais nova de Lorde Humbert. Uma donzela de 17 anos, de temperamento forte, traços gentis e belos olhos negros.
– Devo chama-la de senhora? – ele perguntou parando em sua frente. Seu corpo reluzia e cheirava a flores do campo, enquanto a pobre donzela estava suada, e embaraçada.
Ela não respondeu.
– Eu admiro mulheres com força de vontade, e tenho que admitir que me doeu ter que fazer toda aquela cena em que eu te agredia, mas eu precisava das informações.
A garota espumava de raiva, mas mesmo emburrada e desgrenhada, ela era linda de se ver, com aquelas poucas sardas que lhe cobriam o nariz levemente arrebitado, e dentes perfeitamente alinhados.
– Espero que meus homens não tenham lhe feito nada. Ordenei-lhes que não tocassem em você e nem que tirassem suas roupas, apenas a armadura. – ele falou se sentando de frente para ela, em uma cadeira ali perto. – Disseram que tem 17 anos.
E ela lhe cuspiu. Na verdade tentou, mas a cusparada não foi muito longe e caiu em cima dos próprios pés da garota. Brynden sorriu e foi até ela com um pano, limpando-a.
– Não fiz mal a sua família. Seus pais e irmãos estão longe daqui, seguros. Portanto contenha o seu ódio.
– Os homens que você matou eram meus amigos. Roy, Conselheiro Karl, eram homens honrados e justos, e cuidavam de mim. Eles também eram minha família!
Antes que Brynden pudesse lhe responder alguém bateu em sua porta.
– Um momento. – e ele se apressou para vestir um dos roupões do pai de Dolores e saber quem era.
– Brynden, aqui está o que você havia pedido. – era Luxxis segurando uma bandeja com duas taças, uma já cheia e outra vazia. Na sua outra mão uma garrafa de vinho. Brynden pegou tudo e bateu a porta sem agradecer.
– Olha o que nos trouxeram. – ele se virou para Dolores espontaneamente, e enchendo uma taça te vinho colocou ao lado dela na cama.
A garota olhava com suspeita para o líquido roxo na sua taça, e para o vermelho na taça da víbora.
– Que grosseria a minha, como você vai beber se está amarrada não é?
Ele puxou uma adaga não se sabe de onde e caminhou lentamente até a garota que se encolhia assustada e quando sentiu o aço frio em sua barriga, fechou os olhos.
– Pronto, pode beber.
Ela estava livre.
Segurou a taça e cheirou, e Brynden lhe deu um sorriso avermelhado. Ela suspeitava de tudo aquilo, mas não queria contrariar um louco armado, era o que parecia. Deu um longo gole no vinho, talvez achando que fosse melhor morrer envenenada, e depois perguntou à víbora:
– Então os boatos são reais? O bastardo dos Rowen realmente se alimenta de homens.
– Não, querida. Eu uso carne humana em rituais e bebo o sangue, é diferente. – ele respondeu remexendo sua taça. – As feiticeiras de Asran acreditam que o sangue humano é capaz de nos conceder habilidades especiais, e que a carne como oferenda nos aproxima dos Deuses. Qualquer Deus.
– Você é um monstro, esta é a verdade.
– Sim, mas também sou um homem, e como homem eu tenho necessidades. Só que minhas necessidades são bem maiores que o normal.
– O que você quer dizer?
A víbora avançou sobre ela de súbito, como em um bote, e por pouco ela escapou rolando para o lado. Correu até a porta, mas ela estava trancada.
– Perdão, querida. Não quis lhe assustar. – ele murmurou se deitando na cama, observando-a.
Dolores Rose estava ficando apavorada, e seus olhos se enchiam de lágrimas pela primeira vez naquele dia, mesmo depois de tudo o que passara. Ficar presa naquele quarto com a Víbora Prateada do Extremossul era demais para a garota.
Brynden se levantou e caminhou até ela. Seu sorriso vermelho e seus olhos purpúreos faiscavam à luz das tochas, dando a ele feições pouco humanas. Dolores gritava e esperneava enquanto ele sussurrava palavras estranhas em seus ouvidos.
Os guardas na porta não compreenderam quando os gritos de repente viraram gargalhadas, para depois então se tornarem murmúrios de amor.
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A sensação de embriaguez que enchia a cabeça de Dolores era falsa, ela bem sabia, tudo o que ela havia tomado fora um gole de vinho. Perguntava-se se não havia sido drogada, mas nenhuma droga no mundo seria capaz de fazê-la se entregar assim. O bastardo dos Rowen sussurrara-lhe alguma coisa no ouvido, disso ela se lembrava, mas não se lembrava de exatamente o quê. Sabia que a sensação de calor preencheu o seu corpo logo depois, e a voz macia e os braços dele a envolvendo tornaram-se tudo ao seu redor.
Mesmo agora sobre a cama, olhando para baixo e vendo os cabelos prateados do bastardo brilhando sob a luz das tochas e se misturando aos seus pelos ruivos enquanto a beijava ali, entre as pernas, Dolores não conseguia compreender quando caíra na armadilha do Diabo. Talvez fora o beijo ensanguentado, ela pensava, e então o pensamento se dissipava como fumaça quando uma onda de prazer lhe subia a espinha e a fazia arquear as costas, mas voltava em seguida tomando forma em sua cabeça.
O beijo acontecera minutos antes, quando Brynden a encurralara na porta e sussurrara em seu ouvido enquanto ela gritava, e quando ele se calou e encarou-a com aqueles olhos tão profundos os gritos deram lugar a gargalhadas, como se a garota tivesse ouvido uma piada, e logo em seguida o beijo. Tinha gosto de ferro, o beijo, mas era doce e fê-la se esquecer por um momento que aquele homem havia queimado a vila e saqueado o castelo de sua família; fê-la esquecer das agressões de logo mais cedo, e por um ínfimo instante, que ele matara pessoas que ela amava.
Porém agora sobre a cama ela se lembrava, mas ignorava enquanto ele tateava seus seios e massageava suas partes, levando à boca dela novamente aquele gosto de sangue com um beijo. O mesmo que ela sentira minutos antes.
– Minha donzela. – ele sussurrou.
E ela perguntou entre gemidos:
– O quê? – sua voz saiu falha e entrecortada, mas ela não se importou.
– Nada. – ele sorriu. O sorriso debochado que ela vira em seu rosto todas as vezes que olhara pra ele durante aquele interminável dia. – Só queria chama-la de donzela uma última vez.
Acabando de dizer isso o bastardo a penetrou, enquanto o sangue de sua virgindade rompida se esvaía. Ela sabia que ele estava zombando dela, sabia!, mas não tinha forças para odiá-lo, estava ocupada demais fazendo amor com ele. E ela era incapaz de perceber o por quê.
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