Rhorus
13 Lance
Lance
Quando a pequena comitiva de Brian Stealhorn chegou à Capital, o que encontraram foi o caos. Pessoas entravam e saíam de vielas e casas; guardas corriam com suas lanças e bêbados vomitavam nas sarjetas. Lance montava um cavalo manchado e cavalgava a frente dos guardas e da carruagem. Ele estivera tão isolado no norte, com toda aquela neve e gelo, quanto no Extremossul, em casa, com toda aquela areia, e não sabia o que se passava no resto do continente. Brian estava confortável ao que parecia e sequer abria as cortinas de sua carruagem. O rapaz loiro estivera distante a viagem toda, sir Lance percebera.
Um dos guardas, com cabelo crespo e com papadas, chamado Bic, se aproximou a galope do jovem cavaleiro e entregou-lhe um papel.
– É um torneio. Sir. – o gordo, assim como todo o resto da guarda Stealhorn, vacilava sempre que proferia aquelas três letras. – Acontecerá dentro de dez dias. Aqui diz que o vencedor das justas receberá um grande prêmio de 500.000 peças de ouro.
– Deixe-me ver.
O cartaz fora feito com muito esmero, com desenhos de cavaleiros investindo contra si usando armaduras ornamentadas e montando alazões muito belos. Donzelas nas arquibancadas trajando vestidos provocantes gritavam com todo entusiasmo. No cabeçalho escrito com uma grafia enfeitada se lia:
Grande torneio do rei
Um evento como Rhorus jamais viu.
Ao vencedor das justas, 500.000 peças de ouro.
Aos vencedores do corpo-a-corpo, e arco-e-flecha 250.000 peças de ouro.
A todos os cavaleiros do reino, está feito o convite.
Para confirmar sua participação, tratar com Hermus, o Conselheiro do Rei, na fortaleza Monte d’Ouro.
De seu Soberano, Howard Bullbuster.
Lance Beamboltheon lera tudo atentamente e olhava para os olhos de Bic que cintilavam. O guarda era forte, provavelmente achava que tinha alguma chance no corpo-a-corpo.
– Todos os outros guardas estão assim tão iludidos quanto você? – o jovem de cabelos pretos perguntou, amassando o cartaz e jogando fora.
E o gordo enrubesceu, mas guardou suas palavras.
– Vamos repousar aqui hoje e amanhã partiremos para Forte. Quando o Senhor Brian estiver em seu destino, e se ele os liberar, então vocês decidem se querem mesmo participar desse circo.
– E você? Sir.
– As justas não seriam justas se eu participasse. – e começou a galopar em busca de uma boa estalagem.
Lance nunca estivera na Capital, mesmo quando estava treinando com Sir Gir em Barreiras, pouco mais ao norte. O garoto tentava se orientar pelas construções, imaginando como seria a parte nobre, provavelmente é diferente desse ninho de ratos, ele pensava olhando as casas de madeira que por vezes pareciam até meio tortas. A comitiva estava passando agora pelo porto, que ficava nas bordas do rio Sinuoso, e diversas embarcações estavam aportadas por lá. As poucas construções ao redor proporcionaram a Lance uma visão do castelo real, e uma vaga ideia da direção que devia tomar para encontrar uma boa estalagem, mas para não arriscar, engoliu seu orgulho e decidiu perguntar para alguém.
A bela garota de cabelos brancos saía agora de um balcão carregando uma cesta, provavelmente ia fazer compras, o jovem cavaleiro não conseguia desviar os olhos da moça que parecia ter a sua idade, decidiu galopar até ela.
– Com licença. – Lance tentou não assustá-la com sua aproximação assim tão súbita. – Pode me informar onde fica a parte nobre da cidade?
E a garota olhou para cima, para quem falava com ela em cima do cavalo, e Lance pôde ver seus belos olhos azuis. Ela sorriu divertida observando suas vestes e armas, e lhe apontou uma direção.
– Vá em direção ao castelo. O centro da Capital é uma praça com uma estátua enorme. Eu sou nova aqui, mas já aprendi a me localizar. Sir?
Ele fez que sim. Pessoas comuns aprendem que se uma pessoa se veste bem e carrega uma espada consigo, ou é um Lorde ou é um cavaleiro.
– Sir Lance Beamboltheon. Estou acompanhando o filho do Senhor de Constance que viaja para o sul. – aquilo era informação inútil para a garota e o jovem cavaleiro se calou, corando.
– Bom, espero ter ajudado. Na área nobre tem uma estalagem que dizem ser a melhor da Capital.
A garota de cabelos brancos então se virou e partiu, carregando sua cesta em direção a algumas bancas de venda de peixes, Lance gritou agradecendo quando ela já estava longe.
Me esqueci de perguntar seu nome.
A Estalagem da Morgana ficava no centro da Capital, rodeada por construções importantes e grandes comércios que circulavam uma estátua de 10 metros de altura do primeiro rei Bullbuster, William I, a mansão de incontáveis quartos e janelas parecia um pequeno palácio à sombra de um outro maior.
Dentro do estabelecimento o que se via era igualmente belo; inúmeras pessoas bem trajadas da alta classe da Capital vagando pelos corredores e escadas. Um bar com os mais sofisticados vinhos do reino, e comidas exóticas dos vários cantos do mundo eram servidas no restaurante. O andar superior, todo forrado em carpete vermelho era repleto de quartos luxuosos, e nas paredes retratos pintados dos hóspedes mais inusitados: o rei Howard e sua esposa, a Rainha Janna; Lorde Syn Rowen ranzinza, apertando a mão do Senhor da Mata, Lorde Kimberly Templey – com seu rosto largo, coroa de flores e sorriso embriagado -, o rei estava logo atrás, agarrando os dois pelos ombros.
Lance caminhou até o balcão e foi encontrar a dama de vestido verde que ele acreditava ser Morgana.
– Precisamos de dez quartos. – o garoto falou, e a mulher estudou-o de cima a baixo.
– Creio que esteja ciente da importância desse estabelecimento, poderia me dizer quem pagará por tanto?
No momento que ela perguntara Brian entrara escoltado por dez guardas com mantos estampados com o símbolo dos Stealhorn; o alce negro em fundo branco. Lance respondeu:
– O herdeiro de Constance.
O quarto do jovem cavaleiro era todo pintado em bege, e pinturas que retratavam paisagens estavam posicionadas nas paredes; em um quadro se via uma réplica quase perfeita do Castelo dos Bullbuster, pintado com várias cores cintilantes, em outro, um quadro chamado “Além da Fronteira”, se via o oposto à riqueza e ao brilho: estavam pintados guardas, encolhidos e com frio em suas tendas, enquanto a sombra de alguma criatura caminhava pelo lado de fora. Lance parou de observar a decoração e vasculhou o ambiente. Sua cama era grande, e grande também era a banheira no banheiro ao lado, com seus vários espelhos e óleos, mas ele não tinha tempo para isso, atravessou o corredor e chamou no quarto da frente.
– Senhor Brian.
A porta se abriu.
O jovem senhor loiro parecia cansado. Em suas mãos segurava um envelope.
– Temos de ir até o rei. – Lance falara e Brian empalidecera. – Prestar nossas honras. É seu dever como filho de um Lorde.
– Claro. Espere um momento. – e dito isso ele entrou, guardando o envelope e pegando uma capa com o símbolo de sua Casa. – Vamos.
Enquanto eles cavalgavam até o palácio Monte d’Ouro, os cidadãos na rua se esquivavam para não serem atropelados. Lance Beamboltheon tomara a frente e esperara, mas Brian não colocara seu cavalo para trotar mais depressa como ele comumente fazia. Estranho. Mas ele ainda não iria perguntar o que havia de errado.
Chegaram aos portões dourados da fortaleza, e quando disseram quem eram, foi deixado que entrassem. As paredes do castelo eram prateadas e cegava os rapazes à medida que refletia a luz do sol. Eles entregaram os cavalos para alguns criados e caminharam para o interior da construção. Lá dentro um velho homem encarquilhado e vestindo uma túnica os esperava, este se mostrou ser Hermus, o Conselheiro do rei.
– Senhor Brian Stealhorn, Sir Lance Beamboltheon. – o velho falou seus nomes maneando a cabeça como se para fixa-los lá. – Venham. Eu os levarei até a sala do rei.
Conforme eles andavam pelos corredores do castelo, mais deslumbrado Lance ficava. Parecia que todo ouro do mundo fora derretido para ser usado nos corrimãos das escadas e nos portais e janelas. O piso emitia um som oco, deslizava e brilhava; era rocha banhada em prata como nas paredes do lado de fora da construção. O esplendor se fez completo quando chegaram à sala do trono.
Tudo brilhava dourado. As luzes no teto, o ouro nos tronos e na grandiosa coroa com cornos do rei. A rainha Janna se sentava ao lado, e como era graciosa; suas mãos magras e o vestido branco justo mostravam que mesmo aos quase quarenta anos, Janna Bullbuster era uma das mais belas mulheres de Rhorus, com seus grandes olhos cor de mel e cachos cor de areia. Ela parecia ter metade da idade que tinha.
O rei em contrapartida não tinha nada de gracioso. Era forte, isso sim. Um homem alto de barba negra e cabelos louros que estavam aparados na altura das orelhas. Seus músculos faziam Lance crer que nascer com uma coroa sobre a cabeça não o tornara folgado, e que ele tinha o hábito de praticar nos pátios do castelo com seus leais cavaleiros. Sua capa era dourada assim como a bandeira de sua casa que se esticava na parede às suas costas, sobre sua cabeça; o touro prateado investindo em um campo de ouro.
–Ha! Que bela surpresa. – Howard se levantou e começou a caminhar. Lance se colocou sobre um joelho e puxou a capa de Brian para que ele fizesse o mesmo.
– Vossa Majestade, este é...
– Brian Stealhorn, quem diria! – o rei abraçou o jovem garoto esmagado suas costelas. – Quando o vi era apenas uma criança e viajava com sua irmã para Forte. Imagino que esteja a caminho de lá.
– Sim, Vossa Majestade. Meu pai me enviou... Para treinar no sul já que o inverno no norte será duro esse ano. – Brian proferiu aquelas palavras de forma vazia.
Lance o encarou.
– Ora, será uma honra recebe-lo em meu castelo. Temos vários quart-
– Perdão, mas já estamos hospedados em outro lugar.
Era o rei quem estava falando, mas Brian o interrompeu, e foi Lance quem corou.
– Sendo assim. – a voz de Howard Bullbuster não estava mais tão amistosa. – Quando vir o senhor seu pai diga-lhe que ele me deve uma visita já há uns 19 anos.
Brian se levantou, maneou a cabeça em uma meia reverência e saiu. Lance permaneceu ajoelhado por alguns instantes e por fim olhou seu senhor e pupilo saindo às costas.
– Vossa Majestade, seria uma honra ficar, mas sabe como são os nortenhos. Brian já pagou por um quarto na Estalagem da Morgana e não creio que ele mudará de ideia sobre permanecer lá esta noite.
– Compreendo. – o rei já estava sentado em seu trono novamente. A rainha parecia descontente. – Você é Lance Beamboltheon, certo? O garoto treinado por Gir.
– Sim, senhor.
– Creio que gostará do que tem no pátio do castelo.
Lance que perguntava o que o rei queria dizer com aquilo. Ficou ansioso em descobrir.
– Darei uma olhada, Vossa Majestade, e seria igualmente uma honra se pudéssemos usar o seu pátio de treino durante esta tarde. Temo que o senhor Brian precise dar uma aliviada, e nada melhor do que uns golpes de espada para isso.
Howard gargalhou.
– Fique a vontade. Se quiser usar espadas com fio no lugar de uma daquelas cegas para treino é só me avisar.
O jovem sir foi alcançar Brian quando este selava seu cavalo. Lance se aproximou e jogou a cela no chão, chamando o cavalariço para recolher a montaria. Ele estava confuso e precisava tirar tudo a limpo. Tratar o rei daquela forma?, na primeira vez que o via em anos?, se Brian não estivesse louco estava a caminho de ficar.
– Vamos para o pátio. Agora.
– Não tenho tempo pra isso. Sir.
– Seu pai não ficará contente em saber que se recusara a treinar e que desrespeitara o próprio rei.
– O que você sabe? Não passa de outro criado. Pare de me tratar como se eu fosse uma criança e você o adulto.
– Então vamos para o pátio e me mostre que é um adulto na base da espada.
O pátio de treinamento da fortaleza estava quase vazio por completo, se não fosse o homem escolhendo braçadeiras em um grande barril. Ele tinha braços fortes, e um bigode preto com as pontas torcidas para cima, além do cabelo escorrido pelas costas nuas. Ele olhou para Lance e Brian e acenou, e o coração no peito do jovem cavaleiro bateu mais forte, sem acreditar.
– Mestre?
Brian olhava atordoado.
– Lance Beamboltheon, o que faz aqui na Capital? Achei que estivesse treinando o filho preguiçoso de Lorde Sliver. – e dizendo isso Sir Gir Linstern acenou para Brian novamente.
– Lorde Sliver nos mandou para Forte. Brian passará o inverno com a irmã.
– Ele os avisou do estado de saúde do meu irmão?
– Lorde Robben está doente? – Lance estranhou não ter sido informado, e Sir Gir assentiu. – Brian, você sabia disso?
Ele que até então se mantivera calado, fez que sim com a cabeça. Um calor subiu ao rosto de Lance. Como ele ousou esconder isto de mim?
– Espero que seu irmão melhore, mestre.
Gir era o cavaleiro defensor de Barreiras, a segunda fortaleza dos Linstern que ficava ao norte da Capital. Irmão do meio de Robben Linstern, o Senhor de Forte e esposo de Seline. Sir Gir era conhecido em todo o reino por ser destemido e imprudente, e por frequentemente abandonar sua fortaleza para combater saltimbancos nas estradas afora. Quando os pais de Lance o enviaram para treinar com este homem tido por todos como meio louco, o Açougueiro – como os inimigos lhe chamavam por causa dos machados que carregava nas costas – o recebeu de bom grado, mas toda a cidade de Terracrua temeu pelo garoto. Hoje Lance se lembrava das cicatrizes do treinamento e tudo o que sentia por Gir Linstern era respeito.
Açougueiro enrolava a ponta de seu bigode e repuxava para cima. Lance sempre que o olhava custava a acreditar que o nome realmente lhe fazia jus; Gir era sempre tão descontraído.
– Estou atrapalhando algo? – o homem finalmente perguntou.
– Eu só estava prestes a dar uma surra no senhor Brian.
– Então finjam que eu não estou aqui.
Quando Lance e Brian foram para a pequena arena circular no meio do pátio segurando suas espadas sem fio, Gir Linstern sentara em um banco qualquer para assistir. Os dois se encaravam, rodando um ao outro, estudando um ao outro, mas Brian tinha uma desvantagem, e Lance percebera aquilo; Ele está estressado demais. Vai atacar primeiro, e dito e feito, o rapaz loiro avançou rápido e estocou contra a cabeça de seu professor, que se abaixou e atingiu-lhe no estômago, deixando-o sem ar.
– Vai me dizer o que tem em mente, senhor? Ou terei que arrancar de você na espada?
– Você pode tentar. – Brian respondeu já recuperado.
Os dois cruzavam espadas com a mesma intensidade, como se cada um deles conhecesse os movimentos do outro. Brian podia ser um péssimo arqueiro, e aluno pouco aplicado, mas ele com certeza tinha olhos rápidos e aprendia depressa. Lance analisava seus movimentos e percebia que era como se lutasse com seu reflexo em um espelho, que repelia todos os seus ataques. Mas isso dava a Brian outra fraqueza; que Lance estaria sempre um passo à frente.
Quando o loiro levantou a espada para bloquear um golpe vindo de cima, Lance se precipitou para frente, lançando todo seu peso contra o peito do seu oponente, derrubando-o de costas no chão.
Quando Brian se preparava para se levantar, atacando, Lance pisou em sua espada, e estendeu uma mão, para ajuda-lo.
– O que tem te mantido distante, senhor Brian? – ele perguntou.
– Não é nada. – o jovem senhor não queria ajuda. Tirava a poeira de suas roupas e encarava o muro, olhando para mais ao sul, na direção para onde viajavam. – Só estou preocupado com minha irmã, com toda essa situação de saúde do marido dela.
– Você está mentindo, Brian.
O rapaz loiro estava corando e parecia cansado demais, como se algo lhe roubasse o sono. Ele virou as costas e saiu, e Lance decidiu não o seguir, arrancaria dele o que quer que fosse com o tempo. Agora tinha algumas coisas a conversar com seu antigo mestre.
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BRIAN STEALHORN
Brian acabara de deixar seu cavalo nos estábulos atrás da Estalagem que se hospedara e entrou pisando forte, sequer percebendo o bom dia que dona Morgana lhe dava. Ele subiu as escadas dois degraus por vez e deu de cara com um de seus guardas que comia alguns petiscos e se preparava para fazer uma reverencia; Brian não tinha tempo para aquilo, empurrou-o e correu para o seu quarto.
Lá dentro foi encontrar a carta onde a deixara; dentro do seu baú, sob algumas roupas. Nem ele mesmo sabia o conteúdo dela, mas olhando para o emblema da flor pressionado contra a cera vermelha que selava a carta Brian podia crer que qualquer que fosse o conteúdo não pertencia aos seus olhos. A flor era uma lótus, o rapaz pesquisara depois.
Acreditava ainda que fosse algo tão sério quanto o que seu pai lhe dissera no dia que falou para que ele viesse para sul, passar o inverno com a irmã.
Diga à sua irmã que tem um gigante às bordas do reino, e ele nos ajudará. Diga a ela que é hora de terminar o que ela começou em Forte.
O garoto não entendera nada daquilo, mas associou o gigante às bordas do reino com o x que vira sobre a Fronteira no mapa que seu pai tentara lhe esconder naquele dia. Seja lá o que sua irmã havia começado no Forte parecia fazer parte de algo grande, e era seu dever como membro da família proteger aquelas informações de qualquer um, mesmo de Lance, ou até do rei. Brian não queria desapontar seu pai.
Dormiu naquela tarde sentindo as dores das pancadas dadas pelo jovem cavaleiro de cabelos negros durante o curto embate nos pátios, quando poucas horas depois foi acordado com batidas à sua porta novamente. Daquela vez ele não atenderia. Era mais fácil guardar um segredo quando não se falava com ninguém.
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