Rhaegar e Lyanna: Paixão de Inverno
4 O baile
Notas iniciais
“O amor dos rapazes não residia, de fato, em seus corações, mas em seus olhos”
— Romeu e Julieta, Histórias de Shakespeare [Adaptação]
281 d.C
Rhaegar Targaryen
O velho senhor Whent organizara não apenas um torneio grandioso ou decorações de valor exorbitante, mas grandes banquetes. A hospitalidade e gentileza do anfitrião do responsável por Harrenhal também eram notáveis. Até mesmo os ladrões das redondezas e mendigos foram soltos para apreciar os restos das festividades. Ele parece receber a todos como bem-vindos, mesmo aqueles de pequenas casas. Há muitas belas damas e muitos homens ilustres no baile desta noite. As ladies da Corte estão entre as presentes, conhecidas como as jovens mais primorosas e cortejadas do reino. Todas elas pertencentes a famílias nobres ou as grandes Casas de Westeros.
Ao meu lado na mesa das refeições está minha esposa quieta e de natureza frágil: Elia Martell. A pequena Rhaenys se balança ao seu lado fazendo bagunça com sua comida. Minha garotinha não tem mais que 3 anos e é muito parecida com a mãe. Sua pele é clara como a minha, mas os cabelos e os olhos são do tom castanho-escuro da princesa Martell. Ela é uma menina ativa e de longas risadas. Sua essência diferencia tanto da mãe quanto da minha própria, mas não sou capaz de dizer que não é de meu sangue, apesar de nossas diferenças. Algo em mim mudou ao descobrir que seria pai. O casamento era algo obrigatório e visto como fonte de alianças, portanto, praticamente impossível de ser associado ao amor. Seria tolo para um princípe se casar por amor, embora todos os irmãos de meu avô Jaeherys tenham feito isso.
Meu casamento com Elia é estável. Sem grandes discussões, mas sem grandes afetos. Ela é mais afeiçoada a mim do que sou a ela, mas suponho que é muito raro encontrar alguém que possa amar de volta na mesma intensidade. Ela tem um corpo pequeno e frágil. Sangrou muito após o parto de Rhaenys e sinceramente pensei que perderia minha esposa, mas ela sobreviveu. Agora está grávida de uma segunda criança, embora sua barriga praticamente não dê sinais de uma gravidez.
Usualmente pensava que o carinho e silêncio da minha esposa eram reconfortantes. Nenhum de nós exigia mais do que o outro poderia suprir, mas sir Jon (um grande amigo e cavaleiro da Guarda Real) costuma dizer que ela nunca será digna. Não tenho ideia do que ele quer dizer com isso. É um pouco estressante ouvir sir Jon falar de Elia. Ele é um homem temperamental, embora bom amigo. Devo admitir que prefiro a companhia de Arhutr Dayne. Ele é definitivamente a pessoa a quem sou mais próximo, não importa a quem o compare. É o exemplo de um homem honrado e um grande guerreiro. Minha aspiração desde que sou criança é ser tão honrável e justo quanto ele.
Minha atenção é capturada por sir Barristan Selmy que parece abandonar seu posto para ir atrás de uma lady. Ao ver os cabelos escuros e o vestido de cor roxa, é fácil deduzir que se trata de Ashara Dayne. É definitivamente a bela de todas as ladies e igualmente simpática. Ela parecia atrair a atenção de todos os homens, dos mais jovens aos mais velhos com igual facilidade. Sir Arthur me disse uma vez que não se incomodava com os olhares em direção a sua irmã mais nova, mas uma parte de mim crê que ele apenas não pode dizer nada. Ao se tornar um Guarda Real, o homem abandona seus laços familiares e sir Dayne era fiel a suas palavras.
Distraído pelas danças ao redor do salão e pela música, me lembro de algo que sir Jon uma vez me disse: “Princesa Martell é um corvo perto das beldades que rondam este reino”. Me lembro de repreendê-lo por isso. Foi logo após me casar e eu considerei sua declaração uma ofensa, mesmo sendo meu amigo. Não era certo a um homem casado comparar sua esposa com outras mulheres e pelos últimos três anos tenho conseguido manter minha honra intacta com louvor. Exceto por ontem a noite...
Não sei se foi a situação inusitada ao descobrir que uma mulher poderia lutar. Não sei se foram meus antigos sonhos sobre uma garota valeriana. O único que tenho certo em minha mente é que me peguei encarando os olhos, o cabelo e boca...Pelos deuses. Não é certo sequer lembrar. Ela ainda é jovem, porém algo me atraiu. Ela parecia selvagem. Viva em meio a meu mundo obscurecido. Tragédias me rondam desde que sou criança, mas aquela garota me fez querer sorrir. Eu raramente costumo sorrir, apenas quando olho para Rhaenys e sinto meu coração se esquentar com sua inocência. Ainda assim, eu queria realmente sorrir. Inesperado.
Com minha natureza introvertida, havia lido diversos poemas amorosos e todos os tipos de conto (até mesmo alguns em Valeriano). Não seria difícil derramar sussurros no ouvido da dama ou até mesmo se empenhar em amolecer seu coração, mas... por que sequer cogitava isso? Ele definitivamente não era esse tipo de homem. Não era um adultero ou traidor. Ainda assim, a simples possibilidade parecia tentadora e só a vira uma vez.
“Fui arrebatado por sua beleza. Por sua força e entusiasmo” pensou consigo e como se predestinado pelos deuses, a viu no salão. Um vestido verde-claro em seu corpo ainda desprovido de formas completas ou curvas avantajadas. Ela era pouco mais que uma menina, ainda assim, seus contornos eram de mulher. Seios pequenos e arrebitados. O cabelo negro solto ao redor dos ombros em pequenos cachos. Ela dançava com um homem muito alto e de cabelos castanhos.
Príncipe Rhaegar era informado o suficiente para salvar que estavam noivos. Em sua memória, lembrava de lorde Owen Merryweather (um dos lordes do Pequeno Conselho) apresentando a todos os membros das 7 grandes Casas. Agora, o conhecimento causava um certo desconforto. Em exagero, poderia dizer que o entristecia, pois a beleza e a perfeição da jovem brilhavam acima das outras ladies do salão. Os olhos dele se viravam exclusivamente a ela e por um delírio de sua mente ou um presente dos deuses, ela o encarou de volta.
Quando enfim a dança acabou, viu ela se distanciar e uma parte de si o perturbou a ponto de fazê-lo se levantar. Andando pelo mesmo caminho que a viu partir, dispensou os guardas ao chegar ao corredor e se apressou para encontra-la. Nunca houvera feito algo tão impensado ou impulsivo antes, mas ali estava ele. Correndo para alcançar o objeto de seu interesse.
— Lady Stark! – chamou e viu ela se virar. A saia de seu vestido ainda nas mãos alvas. Os olhos arregalados em sua direção. Iluminada pela luz de velas do local parecia mais tentadora. Ao sentir seu coração saltar dentro de seu peito, cogitou consigo se era possível ter entregado seu coração aquela menina após um primeiro olhar.
Lyanna Stark
O olhar dele sobre mim havia me incomodado durante boa parte da dança que compartilhei com meu noivo. Agora, com o coração batendo e as mãos geladas, me sentia como um animal encurralado sem nenhuma noção do que fazer. O que estava acontecendo comigo? Me sentia vulnerável e estranha. Meu único desejo é que não esteja só com este sentimento, que em alguma parte de si, este príncipe se sinta incomodado sem nenhuma razão ou critério. Apenas esta sensação irracional que concebo por este homem.
Por que fixo meu afeto a um homem que mal conheço? Pelos deuses, tenho um noivo! Ainda assim, isso não me impediu de manter meus olhos voltados ao Targaryen sempre que possível ao redor do salão. Uma parte de mim imaginava-se sendo tocada por ele. Seus dedos acariciando meus braços com a mesma delicadeza com que dedilhava sua harpa. Que profano!
— M-Me desculpe. É melhor eu me afastar – digo incapaz de pensar em algo que justifique. Havia abandonado o salão com esperança de poder fugir daquela sensação. As unhas se fincando nas palmas de mãos geladas e o coração batendo forte ao olhá-lo. Impossível se apaixonar por um desconhecido.
O improvável passou a acontecer no instante em que ela o viu se aproximar. Uma das mãos envolvendo a dela enquanto se encaravam. Ela esperou sua valentia habitual, sua coragem ou suas respostas irônicas, porém... nada saiu. Sequer uma única palavra de negação escapou de seus lábios. Ela sentiu flutuar, imersa em algum feitiço que fazia suas pernas trêmulas. Devia ser um feitiço porque nunca se sentira daquela forma antes.
Já era moça, sua menstruação havia descido por suas pernas no ano anterior e antes que o ano seguinte terminasse, estaria casada com o Baratheon. Ainda assim, sentia-se como um ser pequeno e vulnerável na frente daquele homem. Esqueceu a habilidade da fala ou a capacidade de negação.
Ela sentiu os dedos dele deslizarem por seu rosto. O polegar deslizando por sua bochecha e queixo antes de roçar por seus lábios. Em sua mente, incapaz de pensar claramente, o príncipe se questionava se aquela boca seria tão macia quanto ele imaginava ser. Lyanna, entretanto, sentiu a voz em sua mente ganhar espaço e se afastou.
— Não é certo – disse simplesmente e ambos sabiam do que ela estava falando. Então se virou e caminhou de volta a seu quarto de modo apressado.
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