Rhaegar e Lyanna: Paixão de Inverno
5 A outra noite
"Eu nem me lembro como ela era. Só sei que ela era a única coisa que eu sempre quis e alguém a levou para longe de mim. Os sete reinos não conseguiram suprir o vazio que ela deixou para trás"
— Robert Baratheon
281 d.C
Rhaegar Targaryen
Quarto dia do torneio, em plena tarde de verão. Estou sentado em cima de um tronco qualquer que estava derrubado na floresta ao invés de treinar. Minha única razão: Lyanna Stark. Eu havia visto ela cavalgando por estes lados ontem e resolvi estar aqui caso resolvesse aparecer de novo. Estou me comportando como um garoto apaixonado, mas apesar de maduro não posso negar a última parte da sentença. Suponho que todos são crianças frente ao amor.
Pensei muito sobre o que aconteceu a ponto de perturbar meu sono. Não era exatamente racional, mas eu havia desmentido a frase dela de que isos “não é certo” em minha mente. Aegon Targaryen, o Conquistador, se casou com duas de suas irmãs e só amou a mais nova delas. Sou consciente de que propor a existência de poligamia após séculos seguindo a Fé dos Sete abalaria as relações do reino, que já está bastante instável após os anos de decadência no reinado de meu pai. Porém, anular meu casamento com a princesa Martell parece uma solução para isso. Tudo que preciso é de uma resposta da garota Stark. Preciso saber se ela se sente tão abalada por mim quanto eu me sinto por ela.
Parece precipitado, mas me vejo animado com a perspectiva de um casamento. É estranho, mas nunca houve algo que eu quis com tanta intensidade na minha vida. Uma vez, meu pai (quando ainda estava são) me disse que se arrependia mais das coisas que não havia feito do que aquelas que tinha feito. Dentre as muitas lembranças que costumava me contar, seu amor por Joanna Lannister era o que lembrava com mais intensidade. Ele a chamou em mais de uma lembrança de “a única garota por quem me apaixonei”.
Apesar dos poucos exemplos de pessoas que se casavam por amor, era notável que Tywin Lannister fosse uma dessas exceções. A rígida Mão do Rei e o homem mais rico do reino havia se casado com uma prima que não poderia acrescentar a ele terras ou qualquer título. Ademais, na primeira vez em que esteve no Oeste (enterro de Tytos, pai de Tywin), Rhaegar tinha pouco menos que 10 anos e era crescido o suficiente para ter memórias a respeito. Além da beleza de Joanna, ele se lembrava do carinho com que o homem feroz e carrancudo tratava a própria esposa. Meister Pycelle que já estava na Corte antes da chegada do Lannister disse uma vez que a melhor parte do Lannister havia morrido no leito da esposa e até mesmo Genna comentou num dos jantares em Porto Real como o irmão havia sorrido e ficado feliz ao se casar com a prima.
Ao notar que a garota Stark provavelmente não apareceria em seu caminho novamente, Rhaegar voltou seus pensamentos em direção a outro plano, pois sua mente se recusava a desistir sem uma tentativa em que realmente se empenhasse. Era um príncipe versado na arte da guerra e da música. De fato, havia conquistado suas habilidades com disciplina e treinos constantes. Ele poderia conseguir a Stark também, afinal as ladies do reino suspiravam por ele. Tudo que precisava era de tempo e dedicação. Assim, tão logo soou meia-noite e o Salão estava bastante lotado de pessoas, viu o objeto de seu afeto sair por entre as pessoas no cômodo em direção aos próprios aposentos. Ele se adiantou também, mas não a segui-la, pois seria óbvio. Ao invés disso, caminhou na direção contrária e dispensou seus guardas ao chegar aos jardins.
Rhaegar Targaryen sabia de antemão que sua adorada havia recebido um convite da rainha para passar a noite em seus aposentos junto com as outras ladies. O dormitório ficava nos fundos da casa e pouco abaixo dos jardins do castelo. O príncipe fez uso de seu porte atlético para escalar o muro em direção a onde a Stark estaria. Na verdade, ele havia pedido ajuda a sua mãe para aquilo e a rainha havia concordado, embora com muita relutância. Agora, a moça de cabelos escuros estaria sozinha no local, ao menos por tempo suficiente para que o dragão revelasse suas intenções.
Quando finalmente estava com seus pés firmes no chão, Rhaegar parou a si mesmo assombrando. Ela estava não mais que alguns metros longe de si, em frente a uma janela. Sob a luz do luar. Sua deslumbrante beleza parecia irromper como a própria luz do sol. A face alva e os cabelos escuros, os olhos brilhantes como estrelas. A lua que brilhava ao longe parecia doente e pálida diante da beleza de Lyanna Stark. Novamente estava o príncipe herdeiro se cogitando como seria tocá-la. Como seria tê-la perto de si.
“Pelos deuses!” pensou consigo e por um momento hesitou. Pensou em se virar e ir embora. A proximidade dela era quase assustadora. Naquele momento, o homem que sempre fora de si sentia-se incapaz de fazer. Nervoso, hesitante e ainda assim...
— Perdoe-me, milady – disse de repente, assustando-a
— O que faz aqui?
— Hm... eu queria falar com a senhorita
— Não acho que tenhamos algo a falar – disse ela logo desviando o olhar para longe do dele e cruzando os braços – A proximidade que ficamos ontem foi inapropriada o suficiente. Não se atreva a tentar me tocar de novo! – disse de modo feroz e isso o surpreendeu
— Acaso a incomodei? Achou meu toque repugnante?
— Não repugnante, mas... – começou ela com sua expressão soando mais suave por um momento antes de voltar a assumir certo ar de seriedade – É casado, vossa Alteza, e eu estou noiva de Robert Baratheon. Qualquer aproximação entre nós em privado seria vista como inadequada e eu não quero problemas – afirmou de modo prudente
— Naturalmente, sei que está correta. Ainda assim... – começou a dizer e perdeu as palavras de novo antes de desviar o olhar
— Com sua licença – afirmou ela e partiu antes que ele tivesse a chance de se redimir. Rhaegar se sentiu um tolo, envergonhado a respeito da própria conduta.
“O que ele esperava?” questionou consigo mesmo “Imaginou acaso que se declararia e ela pularia em seus braços, o beijando?” pensou com ironia e passou as mãos pelos fios longos de seu cabelo enquanto encarava o local completamente vazio. A rejeição da moça deveria deixa-lo dolorido, mas na verdade o fez mais desejoso em tê-la. Sabia que se algum dia conquistasse seu afeto era porque o merecia, não porque ela seria dada a grandes paixões e ilusões.
Fale com o autor