Revolting Child

17 Semente de Já Era


Violet perguntou a Charlie o que ele queria que ela desenhasse e ele disse que podia ser o que a menina quisesse.

— Não, tem que ser alguma coisa que você goste — ela insistiu.

— Tá, eu vou pensar...

— Ah, já sei: você gosta de chocolate, né?

Charlie concordou e disse que ela podia desenhar uma barra Wonka então.

Eles estavam novamente na mesa da cozinha, enquanto a mãe de Violet trabalhava e os pais de Charlie dormiam (adultos ficam muito cansados em viagens!). Agora, além da pasta e dos desenhos de Violet, havia um estojo de lápis de cor, papéis em branco e uma prancheta sobre a mesa. A menina pegou a prancheta e prendeu o papel nela, pra Charlie não ver o desenho até ficar pronto. Eles estavam sentados um de frente para o outro. Violet havia trocado de roupa mas ainda estava usando a boina com que ia sempre pra escola, então, enquanto se concentrava no desenho, Charlie achou que ela estava parecendo uma artista de verdade com aquela boina francesa.

— Posso te perguntar uma coisa? — Disse Violet, ainda concentrada no desenho.

Charlie concordou, então ela fez a pergunta:

— Como você conseguiu convencer o Sr. Wonka a pedir desculpa pra todo mundo e dar uma segunda chance pra gente? Quer dizer, a ideia disso tudo foi sua, né?

Charlie foi pego de surpresa com aquela pergunta. Quando estava na Alemanha com Augustus e os amigos dele, esse assunto não surgiu em nenhum momento; o outro garoto só ficou feliz em ganhar um segundo convite dourado e, por mais que seus pais não o tenham deixado ir pra fábrica, ficou feliz por eles o terem deixado comer pelo menos aquele chocolate, pois fazia muito tempo que não comia um.

— Não foi exatamente assim... — Charlie tentou responder a pergunta de Violet, um pouco desconcertado. — Eu não convenci ele a pedir desculpa... só falei o que eu pensava e... ele teve a ideia das cartas.

— Uhn... e os convites?

— É, isso foi ideia minha...

— Por que você fez isso? — Violet perguntou, deixando de prestar atenção no desenho e olhando para o garoto.

Essa pergunta ele achou mais fácil de responder:

— Porque eu acho que todo mundo merece uma segunda chance. E porque eu me senti mal por tudo que aconteceu com vocês.

— Mas por quê? A culpa não foi sua...

Se preocupar com outras pessoas não era nem um pouco natural para Violet, porém, como Charlie achava isso a coisa mais normal do mundo, estranhou o que a menina disse.

— A gente não precisa ter culpa pra se sentir mal pelo sofrimento dos outros — disse o garoto.

Violet não entendeu nada, então voltou a desenhar. Charlie era um garoto muito esquisito, mas ela tinha que admitir que ele era muito incrível! Devia ter muitos poderes de persuasão, porque Willy Wonka não parecia ser uma pessoa muito flexível...

Mas a verdade é que não foi nada fácil para Charlie "convencer" o dono da fábrica. E, na verdade, ele não o tinha "convencido" totalmente. Willy Wonka só concordou com os segundos convites com uma condição: Charlie teria que avaliar as outras crianças para ver se elas haviam melhorado de comportamento e mereciam ir para a fábrica. O menino não se sentia bem em ficar analisando as pessoas assim, mas tinha que obedecer o dono, afinal, o único motivo para ter sido escolhido como herdeiro era justamente ter seguido todas as regras.

Sobre Violet, o garoto não tinha tanta certeza se ela realmente havia mudado e às vezes ficava pensando se não havia entregado o convite cedo demais, mas agora já era. Enfim, era por todas essas coisas que ele havia ficado tão desconcertado quando ela fez aquelas perguntas e esperava que ela não tocasse no assunto nunca mais!

Bom, no momento, Violet não estava falando mais nada, tinha voltado a se concentrar no desenho. Ela estava realmente muito concentrada! Charlie ficou curioso para ver como estava ficando e tentou olhar, mas ela percebeu e puxou a prancheta para mais perto de si, dizendo:

— Nada disso! Só pode ver quando ficar pronto!

O garoto voltou para o lugar onde estava antes e Violet continuou o desenho. Mas agora, além de concentrada, ela estava com um ar meio divertido, como se estivesse preparando uma surpresa. O que era estranho, já que, mesmo sem ver, Charlie sabia o que ela estava desenhando...

Quando terminou, Violet deu um sorriso enorme e entregou o desenho a ele. E foi mesmo uma surpresa para Charlie! Ela desenhou mesmo uma barra de chocolate, ou melhor, três: uma na frente e outras duas saindo de trás dela, uma pra cada lado. Só que no lugar de ter escrito "Wonka" nelas, estava escrito: "Rei Charlie".

— Como assim? — Foi a única coisa que ele conseguiu dizer.

— Esse vai ser o seu chocolate, não o do Willy Wonka. No futuro, sabe?

— Mas... Wonka é a marca, eu não posso mudar...

— Tá, eu entendo que tem que continuar o legado dele e tal, mas... sei lá, que eu acho que você é tão criativo quanto ele... Se não quiser mudar o nome, pode pelo menos inventar algum sabor de chocolate com o seu.

Por mais que Violet estivesse "fingindo" ser amiga de Charlie, estava sendo sincera quando disse essas coisas pra ele. Achava mesmo que ele podia ser um chocolateiro tão bom quanto o Willy Wonka, mas parecia que o próprio Charlie não tinha noção disso. Na verdade, ela tinha percebido, durante esses dias, que ele quase nunca falava de si mesmo, só queria saber coisas sobre Violet ou falava de outras pessoas, e, nas poucas vezes em que falava de si, não era de um jeito egocêntrico. Isso porque Charlie era muito humilde, uma qualidade que a menina estava começando a admirar pois não fazia ideia de como era ser assim.

Então, quando fez aquele desenho, em parte, Violet estava exagerando um pouco por causa do plano de ir pra fábrica, mas outra parte dela estava realmente querendo que Charlie percebesse o quanto era incrível. Tipo, tudo bem ele pensar nos outros, mas não tem nenhum problema pensar alguma coisa boa de si mesmo de vez em quando, né?

Charlie estava muito admirado e não sabia mais o que dizer. Então a menina, sem entender a falta de reação dele, perguntou se gostou do desenho. Ele sorriu, um pouco tímido, e respondeu:

— Gostei! Obrigado!

E ela sorriu também. É claro que Charlie nunca faria um chocolate com aquele nome, sabia que ainda tinha muito a aprender com o seu mestre, mas realmente gostou do que Violet fez. Na verdade, estava impressionado por parecer que ela não se importava com fato de ter perdido o prêmio pra ele e parou de achar que tinha se precipitado ao entregar o convite. Na visão dele, ela realmente tinha mudado e merecia uma segunda chance!

Enfim, naquele dia não deu mesmo pra eles saírem pra passear; como Scarlett havia dito, dias de semana eram mais corridos. Então Charlie e Violet continuaram fazendo outros desenhos até os adultos aparecerem. À noite, a Sra. Bucket (com a ajuda de Charlie) fez um jantar delicioso pra todo mundo. Estava uma atmosfera tão leve que nem parecia a casa das Beauregarde. Violet estava tão contente, que poderia até esquecer as coisas ruins da escola.

Mas não esqueceu. Por isso, na manhã seguinte, enquanto comia panquecas com melado, ao invés de apenas pensar em como aquele era o melhor café da manhã que já tinha comido em sua vida, ela também conseguiu finalmente ter uma ideia brilhante para se vingar da Dona Trunchbull. Então, antes de ir para a escola, a menina esperou que todos saíssem da cozinha, pegou a lata que continha o melado e guardou na mochila.

***

Na escola, Violet finalmente conseguiu invadir a sala da diretora. Saiu da sala da 5ª série um pouco antes da hora do recreio pois ficou sabendo que a Dona Trunchbull estava aplicando uma prova em outra turma, o que significava que a sala dela estava vazia. Era a última vez que Violet pretendia aprontar desse jeito, pois, se seu plano de ir pra fábrica desse certo, aquela seria a última semana que pisaria naquela escola. Mas não podia ir embora sem antes se vingar por seu braço quebrado no primeiro dia de aula daquele semestre, né? Era bom poder se vingar! A menina pegou a lata que estava na mochila e derramou todo o melado na cadeira da Trunchbull. Fez tudo muito rápido, antes que a diretora voltasse. Ao sair da sala, desviou das câmeras como sempre fazia, jogou a lata vazia na primeira lixeira que encontrou e, tendo certeza de não ter sido vista por ninguém, foi pro pátio brincar no trepa-trepa.

As turmas tinham intervalos em horários diferentes, então, dependendo do intervalo, certos alunos de turmas diferentes se encontravam ou não. Naquele horário, a turma de Violet e a das pirralhas novatas que chegaram ontem estavam juntas, e a menina pôde ouvir os pequenos falando sobre o assunto mais recorrente daquela escola: o terror da Trunchbull. Porém, uma delas, a novata de cabelo assanhado, não estava acreditando muito nas histórias e disse que as crianças mais velhas deviam ter inventado aquelas coisas só para assustá-los.

Que estranho! Violet podia jurar que as duas novatas haviam ficado super assustadas com o que ouviram dela e dos outros alunos ontem... Mas essa menininha esquisita pelo jeito não tinha entendido direito como era a diretora daquela escola. Violet não ia aguentar escutar aquilo sem dizer nada, então se meteu na conversa dos pirralhos:

— Assustar, é? Você não sabe o que é susto até passar pelo Sufoco!

Imediatamente, todas as crianças que estavam no trepa-trepa (e sabiam o que era o Sufoco) começaram a se tremer.

— O que é o Sufoco? — Perguntou a novata cética.

Então Violet, acompanhada pelos outros alunos, começou a descrever o lugar horrível para onde a Trunchbull mandava os alunos que não se comportavam. Falou não só dos espinhos, mas de como a pessoa se sente quando está no escuro com a porta fechada sem distinguir nem o próprio grito. A menina falava de um jeito quase ameaçador, e, quando terminou, passou o dedo indicador pelo pescoço, indicando uma cabeça sendo cortada.

Então ouviu-se a voz de um menino gritando:

— ME ESCONDAM!

Era Nigel, um pirralho da mesma sala das novatas. Ele era negro, tinha cabelo cheio e era baixinho como os outros alunos da Dona Honey.

— Alguém jogou uma lata de melado na cadeira da Trunchbull!

"Eita!", pensou Violet.

— Ela acha que eu joguei — continuou o menino —, mas eu juro que não! A calça dela grudou no assento.

Todos no trepa-trepa começaram a rir, com exceção de Violet, que gritou:

— SILÊNCIO!

E foi andando em direção a Nigel. Se vocês acham que ela ia admitir o que fez, estão muito enganados. Se a Trunchbull soubesse, Violet iria pro Sufoco; mas, como ela não sabia de nada, quem iria era Nigel. "Antes ele do que eu!", pensava a menina. Sendo assim, ela só precisava dar o aviso de alerta ao garoto:

— Você vai pro Sufoco, pivete!

— Mas isso não é justo! — Exclamou a pirralhinha assanhada, indo pra perto perto de Violet. — Ele não fez nada!

— Vai por mim — disse a mais velha. — Esse menino já era!

Sim. Nigel era a personificação de já era.

— Matilda! — Ele começou a correr em direção à novata. — Por favor, me ajuda!

Matilda começou a ficar pensativa e perguntou quando tinha acontecido o que o menino havia contado.

— Faz uns 20 minutos. — Respondeu ele. — Ma... mas por quê?

Ouviu-se o apito da Trunchbull e o garoto ficou alarmado.

— Melhor se esconder! — Disse Matilda para Nigel, então ordenou aos outros: — Rápido, os blazers!

Violet estava muito confusa. Nunca tinha visto algo como aquilo, uma criança mobilizando todas as outras para encobrir alguém... Ela não podia ajudar porque não estava usando o seu blazer, mas acompanhou toda a movimentação. Nigel se deitou no chão e os outros alunos puseram seus casacos sobre ele, fazendo-o desaparecer. Então ficaram em posição de sentido em volta do pátio para receber a diretora, mas a formação ficou meio torta, já que alguns alunos estavam perto do bolo de blazers que cobria o menino Nigel. E Matilda não conseguiu entrar em forma a tempo, estava correndo no meio do pátio quando a diretora chegou e acabou ficando lá no meio quando ela mandou que os infantes parassem.

— Que desfile mais repugnante de demônios e parasitas que vivem com a matraca aberta! — Reclamou A. Trunchbull. — CADÊ O VERMEZINHO CONHECIDO POR NIGEL?

Violet não queria mais que Nigel fosse pro Sufoco no lugar dela. Só tinha dito aquelas coisas porque achava que não tinha como isso não acontecer, mas já que Matilda encontrou uma solução, ela não ia atrapalhar, não ia denunciar o garoto. Até porque o coitado não fez nada, né?... Porém, para a surpresa de todos, alguém disse a Trunchbull onde ele estava. E esse alguém foi, ninguém mais ninguém menos, que Matilda.

Violet ficou chocada. O que estava acontecendo??? Pensou que a novata fosse boazinha por estar querendo ajudar, mas pelo jeito essa menina era ainda pior do que ela! Fez aquilo tudo pra depois entregar o menino na cara dura???

Porém, quando a diretora foi para onde o garoto estava, Matilda novamente surpreendeu a todos, dizendo:

— Ele já tá aí há 1 hora!

— O quê? — Perguntou Trunchbull, confusa.

— É. Sabe, o Nigel é uma criança que sofre de uma doença crônica do sono: narcolepsia. É uma doença na qual a pessoa tem alguns episódios de fadiga e cai no sono sem aviso prévio. Ele adormeceu e nós o cobrimos com os blazers por segurança. Não foi isso? — Perguntou aos outros, mas estavam todos tão transtornados com a fala dela, que não conseguiram responder. Então a garotinha perguntou novamente, com mais firmeza: — Não foi isso?

E todos confirmaram a história dela. Então Nigel "acordou", se fazendo de doido, e ainda disse, coçando os olhos:

— Eu tive um sonho muito estranho, mãe! Eu achei que eu tivesse... — Então olhou pra diretora e falou: — Ah... Oi, Dona Trunchbull!

A mulher não disse nada. Apenas ficou com sua cara ameaçadora de sempre, mas, não podendo fazer nada contra Nigel, procurou outra criança para punir.

— AMANDA THRIPP! — Chamou em seu auto-falante portátil, assustando vários pássaros, que saíram voando.

Amanda era mais uma dos pirralhos da Dona Honey, uma dos que estavam conversando com Matilda e os outros colegas no início do recreio. Era uma menina muito fofinha, tinha o cabelo sempre preso em duas longas tranças douradas com lacinhos cor-de-rosa. Todos os olhares se voltaram alarmados para a garotinha, que deu um passo a frente e gaguejou pra conseguir dizer:

— Sim, Srta. Trunchbull?

— O que foi que eu disse sobre marias chiquinhas? — Todos saíam de perto de Amanda à medida que Trunchbull se aproximava dela. — Eu odeio marias chiquinhas!

— Mas a minha mãe gosta, ela diz que me deixa mais bonita.

— A sua mãe é uma palerma!

Após dizer isso, a diretora pegou Amanda pelas trancinhas e começou a girá-la como se fosse seu martelo das Olimpíadas. Então arremessou a garota lááá longe. Exatamente como fazia com o martelo.

— É, EU AINDA TENHO A MÃO! — Exclamou.

Com essa a Matilda deixaria de vez de pensar que as histórias que os mais velhos contavam eram exageros pra assustar os mais novos!

— ALGUÉM VÁ VERIFICAR SE AQUELA CRIANÇA ESTÁ VIVA! — Pediu a diretora.

Um menino mais velho foi atrás de Amanda. Enquanto isso, a Dona Trunchbull se voltou para Matilda e começou a conversar com ela. Quer dizer, provavelmente era mais uma ameaça e não uma conversa. Violet observou as duas de longe. A diretora tinha quase o triplo do tamanho da menina, mas esta não parecia com medo. Parecia com raiva. Como se estivesse determinada a não deixar a diretora atacá-la. Nem a ela nem a nenhum outro aluno, apesar de não ter conseguido impedir o aconteceu com Amanda.

Violet estava muito impressionada com essa Matilda. Ela era tão inteligente e tão corajosa, mesmo sendo tão pequena! Ela era incrível! Quase ninguém tinha coragem de enfrentar a Trunchbull naquela escola, pelo menos não batendo de frente assim... A única pessoa que já tinha enfrentado a diretora era Violet, mas tinha sido muito diferente... Era como se Matilda fosse uma versão altruísta e mais corajosa dela. Era tão estranho! Violet nunca tinha admirado uma pessoa mais nova que ela... E também nunca tinha achado que alguma outra criança daquela escola era melhor que ela em alguma coisa. Quer dizer, talvez só a Cornelia Prinzmetal, que tirava notas muito altas...

Falando nela, Violet não fazia ideia disso, mas na época em que chegou na escola, Cornelia também tinha pensado que ela parecia uma versão mais corajosa de si mesma. Mas não admitiria isso nem morta! Cornelia e Violet eram meninas muito fortes e determinadas, só que uma fazia tudo o que a diretora mandava e a outra não. A mais velha tinha tanto medo da Trunchbull, que o que mais queria era que todos os alunos ficassem quietos em seus cantos sem causar confusão. Inclusive, já tinha sido alertada pela própria direitora sobre a novata Matilda Wormwood ser uma encrenqueira. A delegada só esperava que ela não fosse tão rebelde quanto Violet...

— ELA TÁ VIVA! — Exclamou o garoto que tinha ido atrás de Amanda, voltando com ela da floresta.

Todos comemoraram e a Amandinha fez dois joinhas com as mãos. Violet ficou aliviada.

***

Depois daquele recreio, Violet começou a sentir uma dor estranha na barriga. Achou que fosse por causa dos doces que andava comendo ultimamente, mas depois entendeu que não era por isso. Ela não parava de pensar no recreio, no que aconteceu com Amanda e, principalmente, no que quase aconteceu com Nigel. Se Matilda não estivesse lá, ele teria ido pro Sufoco pelo que Violet fez e, como a mais nova disse, isso não era justo! A dor de barriga era de culpa.

O pior de tudo nessa situação era que, na hora que o menino foi acusado no lugar dela, nem passou pela cabeça de Violet protegê-lo ou ajudá-lo, ela praticamente o condenou e não estava nem aí! Ela se sentia tão mal! Passava tanto tempo pensando no quanto sofria naquela escola, mas nem sempre parava pra pensar nos outros alunos que sofriam tanto quanto ela... ou até mais, como os mais novos, que tinham mais dificuldade em fugir ou se defender.

Quando a Srta. Beauregarde chegou para buscar a filha, a menina pensou em Charlie e se sentiu ainda pior. Ela não ia conseguir fingir ser amiga dele depois do que tinha feito! Ele estava sendo super legal, viajando o mundo pra dar uma segunda chance pra crianças que sofreram por coisas das quais ele nem tinha culpa, enquanto ela ficava deixando os outros levarem culpa pelas coisas erradas que fazia na escola... Violet queria, precisava, muito mesmo, ir pra fábrica, mas não ia dar pra manter a farsa, pelo menos não naquele dia. Precisava ficar sozinha, pelo menos até se recuperar pelos acontecimentos da escola. Então teve uma ideia.

Enquanto a mãe e a filha estavam em silêncio no carro, Scarlett percebeu que Violet estava muito séria em comparação aos dias anteriores, mas achou melhor não perguntar nada. Um tempo depois, a menina falou:

— Mãe, eu acho que não vou poder... dar atenção pro Charlie hoje, tenho muita lição de casa pra fazer e é tudo pra amanhã.

Ah, então era isso! A mãe não se importou, sabia como a escola era puxada e sabia que o garoto ia entender. Na verdade, achou que aquilo era um ótimo sinal, se Violet estava se dedicando à escola, talvez estivesse começando a aceitar que devia estudar lá.

Só que a menina não tinha tanta lição assim pra fazer, só precisava de uma boa desculpa pra ficar o tempo todo trancada no quarto e não ver ninguém. Era um ótimo plano! Ou teria sido... Mas quando foi repetir pra Charlie o que tinha dito pra sua mãe, o menino, como sempre, se ofereceu pra ajudar.

Violet queria dizer que não ia dar, que a escola era muito puxada e ele provavelmente não ia saber nenhum dos conteúdos, mas não conseguiu ser esnobe como sempre... Desde que abriu aquela barra de chocolate, seu plano era fingir ser legal com Charlie até ele gostar tanto dela a ponto de concordar com tudo o que ela pedisse; porém, naquele momento, era ela quem não conseguia dizer "não" pra ele. Até tentou dar algumas desculpas, disse que eram tarefas demais, que ele ia ficar entediado... mas não teve jeito.

Como Violet na verdade só tinha uma lição para o dia seguinte, resolveu separar todas as que a professora havia mandado para aquela semana e para a próxima, aí não ia parecer que tinha mentido. Ela torceu para que, quando Charlie visse aquele monte de coisa chata e difícil, desistisse de ajudá-la e saísse do quarto, mas isso não aconteceu. Mais uma vez, ela tinha subestimado o garoto: ele não era a criança mais inteligente do mundo, mas entendia aquelas matérias. Pelo jeito, os Umpa-Lumpas eram bons professores...

Assim, as lições foram terminadas bem antes do que Violet previa. Ela não tinha falado quase nada enquanto faziam, a não ser uma coisa ou outra sobre os exercícios. E também nem olhava pra Charlie, apesar de eles estarem um do lado do outro. E agora que terminaram, ela continuava calada e sem olhar pra ele.

— Aconteceu alguma coisa na sua escola hoje? — Perguntou o garoto.

Lembrando que foi exatamente a mesma pergunta que ele fez quando ela voltou da escola no dia anterior, Violet disse:

— Por que você sempre pergunta isso?

— Bom, ontem eu perguntei porque você tava muito feliz e hoje... pelo motivo contrário.

Violet não queria falar, mas, sim, aconteceu uma coisa em sua escola. Aconteceu muita coisa lá nos últimos 3 anos, mas ela nunca podia falar a respeito com ninguém de fora da escola... Porém, Violet percebeu que Charlie era uma pessoa que despertava muita confiança, além de que sabia que ele ia acreditar. Então resolveu contar:

— A diretora arremessou uma menina pelo cabelo por cima do muro. — Ao ver a cara de espanto dele, disse: — Você não achou que o meu braço quebrado fosse um evento isolado, né?

— Ela tá bem? — Ele perguntou, se referindo à menina de quem Violet havia falado.

— Tá... Bom, ela tá viva.

— Que bom! E você tinha ficado preocupada com ela? Por isso voltou assim?

— Não... quer dizer, eu até fiquei um pouco preocupada, mas... é que não foi só isso que aconteceu... — Então ela suspirou e disse: — Eu tô assim por causa de uma coisa que eu fiz. Por minha causa, um menino quase foi mandado pro Sufoco.

— O que é o Sufoco?