Revolting Child
18 Medrosa

Violet olhou pra lata de lixo pra onde tinha jogado o desenho do Sufoco no dia anterior e percebeu que ele não estava dentro dela. Então pegou o papel, desamassou e mostrou a Charlie:
— Esse é o Sufoco.
E, mais uma vez no mesmo dia, explicou o que era aquele lugar. Mas sem aquele tom de terror e ameaça que usou com as crianças mais novas na escola. Na verdade, estava nervosa, seu coração batia rápido. Então, enquanto falava, fazia o possível para esconder esse nervosismo. Ela nem olhava pra Charlie, só para o desenho.
— Você já foi pra lá? — Perguntou ele, parecendo preocupado e compreensivo.
Ela demorou um pouco mas respondeu:
— Duas vezes.
— Sua mãe sabe disso?
— Eu já contei pra ela, mas ela não acreditou...
Os dois ficaram em silêncio por um tempo. Depois, Charlie perguntou sobre o menino que ela tinha falado antes, então Violet contou toda a história, desde a lata de melado até o plano de Matilda. Agora não estava mais nervosa, só indignada. Com a diretora e consigo mesma.
— O que eu fiz foi muito ruim! Quer dizer, eu não me arrependo de ter colado melado na cadeira da Trunchbull, ela mereceu por ter quebrado o meu braço sem motivo, mas o Nigel... ele é só um pirralho, deve ser até mais novo do que eu era quando fui pro Sufoco pela primeira vez, ele não merecia ir pra lá, eu não consigo parar de pensar nisso!
Depois de ouvir o desabafo da menina, Charlie, muito calmamente, disse:
— Mas ele não foi pra lá, não aconteceu nada! E você já entendeu que não devia ter deixado ele levar a culpa, então não precisa mais pensar nisso...
— É, né? — De repente, Violet se sentiu mais tranquila e viu que realmente não tinha motivo pra ficar remoendo aquilo. — Nem sei por que eu te contei essas coisas...
— Acho que é porque você precisava falar com alguém... e porque nós somos amigos. — Percebendo o olhar de surpresa de Violet, ele achou melhor confirmar: — Não somos?
Era exatamente isso que ela queria que ele pensasse, esse era o plano! Mas, ao ouvir Charlie dizer que eram amigos, Violet não pensou no plano, só pensou que era a primeira vez que ouvia alguém dizer isso com sinceridade. E então percebeu uma coisa: ela não queria só fingir ser amiga dele pra ir pra fábrica, queria, sim, ter um amigo de verdade! Por isso, abriu um sorriso e concordou:
— Sim, somos amigos.
Charlie sorriu também e depois ela disse:
— Já que somos amigos e eu te contei uma coisa... um monte de coisas, na verdade... eu acho que você devia me contar uma também.
— O que você quer saber?
— Por que você sofria bullying na sua escola antiga?
— Ah, isso... É porque a minha família era a mais pobre do bairro, então as minhas roupas eram velhas, eu não tinha mochila... e eu também era muito magro...
— Porque... você não comia direito? — Perguntou Violet, se lembrando do que ouviu do Dr. River quando soube que Charlie tinha ganhado a fábrica.
— É que às vezes era difícil comprar comida pra família toda... Mas não era tão ruim quanto você deve estar pensando. Pelo menos, estávamos todos juntos.
Violet sorriu. Parecia que ele sempre tentava ver o lado bom das coisas! Pena que ela não era assim... E também era uma pena que pensasse tanto em si mesma, porque agora estava olhando para os seus troféus e pensando que, ao invés deles, preferia ter uma mãe que a entendesse e um pai que não a trocasse por outra família...
— O que foi? — Perguntou Charlie, percebendo a mudança na expressão dela.
— Nada, não... — Bom, pelo menos ela tinha um amigo agora. — Posso te dar um abraço?
Charlie achou estranho ela perguntar, já que ficava abraçando ele o tempo todo desde o karaokê, mas concordou. Violet se sentiu muito bem. Era bom ter um amigo!
Depois, eles viram que estava perto da hora do lanche, então foram para a cozinha ver o que tinha pra comer.
— Ei, Charlie, você já aprendeu a fazer algum daqueles doces legais do Willy Wonka? — Violet perguntou enquanto eles olhavam os ingredientes.
— Eu tô aprendendo.
— E você acha que, com os ingredientes que tem aqui em casa, dá pra fazer algum?
Charlie gostou da ideia e verificou se daria pra fazer alguma das receitas que ele já tinha aprendido. Era difícil, porque os ingredientes da fábrica eram muito malucos, então ele resolveu fazer um bolo de red velvet normal, mesmo, e Violet foi sua assistente. Ela até queria fazer mais coisas, mas infelizmente não podia, por causa do braço engessado. Enfim, eles resolveram fazer o bolo para eles e para os adultos também, e todos adoraram!
***
No dia seguinte, na escola, Violet passou a aula inteira pensando numa estratégia para conseguir viajar com os Bucket no outro dia sem que sua mãe soubesse. Por conta disso, ficou alheia a tudo que acontecia lá. Com certeza a Trunchbull estava causando terror e fazendo alguma criança sofrer, mas, como não era da sala de Violet, ela não tomou conhecimento. Mas houve um momento em que a garota pensou nos outros alunos. Ela tinha sorte de poder fugir de lá, mas era uma pena que os outros não pudessem... Se bem que aquela tal de Matilda era bem inteligente, talvez ela conseguisse escapar algum dia...
Enfim, depois de muito pensar e fazer várias anotações, Violet tinha o plano perfeito, só precisava falar com Charlie. Agora que sabia que ele era seu amigo, tinha certeza de que concordaria em ser seu cúmplice.
Quando acabou a última aula, ela saiu da escola e viu o carro de sua mãe como de costume. Era a última vez que viveria aquela cena... A partir do dia seguinte, sabe-se lá se veria sua mãe de novo algum dia... Era melhor não pensar nisso. Violet não devia sentir saudade, não dá pra viver com uma pessoa que não confia em você!
Ao se aproximar do carro, a menina se deparou com uma surpresa: Charlie estava lá.
— O que você tá fazendo aqui? — Ela perguntou, um pouco alarmada.
Ele sorriu quando a viu, mas Violet estava séria. A Srta. Beauregarde explicou que ele tinha dito que queria conhecer a escola da menina e os pais dele deixaram que ele fosse. Então a mulher falou que a filha podia deixar a mochila no carro e apresentar a escola a ele, que ela os esperaria.
Violet não estava gostando nem um pouco daquilo! O que era estranho, já que, nos últimos dias, tinha se sentido muito bem sempre que estava com ele. Mas por que ele quis ir pra escola dela??? Era esquisito demais, e não tinha como a menina se sentir bem com isso...
Só de ver o portão da frente, Charlie pôde constatar como aquela escola era assustadora.
— Nossa! Ela é enorme...
— Por que você quis vir pra cá? — Perguntou Violet, ainda séria.
— É que eu queria ver... aquele lugar que você falou... o Sufoco.
Violet não estava entendendo nada! Mas então lhe ocorreu uma coisa: ele provavelmente não tinha acreditado no que ela contou, então foi até a escola dela pra ver se estava falando a verdade. Ela devia saber! E daí que ele tinha dito que eles eram amigos? Não dá pra confiar em ninguém, mesmo... Mas tudo bem, ela ia levá-lo até lá e ele ia ver como ela não estava mentindo!
— Ele fica na floresta. Vem!
Enquanto caminhavam, Violet estava ao mesmo tempo decepcionada com ele, preocupada de não poder ir pra fábrica e... claro, com medo de chegar perto do Sufoco. Mas, como sempre, a menina não deixava que seu medo transparecesse.
Ela não queria conversar, só acabar logo com aquilo. Mas, de vez em quando, Charlie falava algumas coisas e ela acabava tendo que responder:
— Nessa cidade tem muita floresta, né?
— É, mas essa aqui é a única que eu não gosto.
Um pouco depois, eles passaram perto de alguns arbustos de hortênsias e ele disse:
— Ei, aquelas são as flores que você desenhou?
— O quê? — A menina não tinha processado a pergunta dele por estar concentrada em sua missão, mas, ao ver para onde o menino apontava, disse: — Ah... são.
Ficou um pouco surpresa por ele se lembrar de um desenho específico (além daquele do Sufoco). Quanto tempo será que tinha passado olhando os desenhos dela? Ele devia ficar muito entediado mesmo enquanto ela estava na escola... Ou será que só gostava dos desenhos dela? Ou será que gostava dos desenhos e ficava entediado por não estar com ela? Sem perceber, a menina começou a sorrir enquanto fazia essas suposições.
— É incrível elas estarem tão vivas mesmo no outono! — Ele disse, ainda olhando pros arbustos.
— É que as hortênsias são muito resistentes. Quando eu fiz aquele desenho, tava no inverno e mesmo assim algumas ainda tinham cor!
Charlie sorriu, surpreso com a curiosidade, e disse, agora olhando pra Violet:
— Eu não sabia que você gostava de flor...
— Eu não gostava antes... mas agora eu gosto.
Por um momento, Violet conseguiu se sentir mais tranquila. Porém a sensação de tranquilidade passou depois que andaram mais um pouco e se aproximaram do Sufoco. A garota nem precisou dizer nada, Charlie já reconheceu o lugar na hora por causa do desenho. Mas, pessoalmente, ele parecia muito pior e muito mais assustador! Até o caminho para a construção de madeira era horrível, cheia de arames e lanças em volta. Que tipo de diretora de escola teria uma coisa como aquela para colocar os alunos de castigo???
Violet não estava mais pensando em como queria provar pra Charlie que estava falando a verdade, só pensava em tudo o que o Sufoco significava pra ela.
— Eu odeio tanto esse lugar! — Disse, numa tentativa de esconder seu medo com a raiva.
— Violet, você ouviu isso??? Eu acho que tem alguém lá dentro!
A menina prestou atenção e, realmente, dava pra ouvir uma voz. Muito abafada, pois o lugar era bem fechado. Não dava pra saber direito se estava gritando ou chorando, nem se a voz era de um menino ou de uma menina.
— A diretora deve ter trancado uma criança, como você falou que acontecia... — disse Charlie, assustado.
Os dois estavam muito nervosos. Mas Violet conseguiu tomar coragem e chegar bem perto da construção.
— OLÁ? TEM ALGUÉM AÍ??? — Gritou.
A princípio, ninguém respondeu. Charlie assistia apreensivo de longe.
— OLÁ??? — Gritou de volta a vozinha assustada lá de dentro. — TEM ALGUÉM AÍ???
Violet entendeu que a criança devia ter pensado que estava alucinando quando a ouviu perguntar. Sabia bem como era confuso quando se está dentro do Sufoco, não dá pra saber o que é real e o que não é. Então achou melhor continuar a falar, para a criança ter certeza de que tinha uma pessoa de verdade falando com ela de fora do Sufoco:
— SIM, É A VIOLET, DA 5ª SÉRIE. QUEM É VOCÊ?
— VIOLET?! EU SOU... O BRUCE. BRUCE BOGTROTTER. — O pobre do garotinho demorou pra responder porque não tinha mais certeza nem do próprio nome, de tão assustado e desorientado que estava.
Violet sabia quem ele era; achava Bruce muito parecido com Augustus Gloop, só que loiro e mais pirralho. Ele era outro dos alunos da Dona Honey. A Dona Trunchbull estava de marcação com essa turma ultimamente, hein?...
— O QUE ACONTECEU PRA VOCÊ SER PRESO? — Violet perguntou.
— EU COMI UM BOLO.
Ahn? Charlie se aproximou também para ouvir a história. Com muita dificuldade, Bruce contou que roubou um pedaço do bolo de chocolate especial da Trunchbull escondido, mas ela descobriu. Depois, como punição, ela o fez comer o bolo inteiro, que era enooorme, mesmo que o garoto já estivesse cheio! Por algum milagre, ele realmente conseguiu comer tudo, mas a diretora não achou que a punição fosse suficiente e o levou para o Sufoco.
Violet e principalmente Charlie estavam chocados, aquilo era tortura demais!
— A gente precisa tirar ele daí! — Disse Charlie, que falava baixo, então Bruce não ouviu.
Violet ficou um pouco impressionada, porque, até então, nunca tinha acontecido de ninguém libertar uma criança do Sufoco naquela escola, pelo menos não que ela soubesse. Mas parecia uma boa ideia, então os dois começaram a olhar ao redor para ver se encontravam uma pedra grande ou qualquer coisa que pudessem usar para quebrar os cadeados.
— A GENTE VAI TE TIRAR DAÍ! — Violet avisou a Bruce.
— A GENTE??? TEM MAIS ALGUÉM COM VOCÊ?!
— O MEU AMIGO CHARLIE, ELE NÃO ESTUDA NA NOSSA ESCOLA.
— OLÁ! — Charlie se manifestou.
— VOCÊ É DOIDA??? A TRUNCHBULL MORA AQUI PERTO, E SE ELA PEGAR VOCÊS FAZENDO ISSO??? É MELHOR IREM EMBORA, SENÃO ELA VAI PEGAR VOCÊ E O SEU AMIGO, MESMO QUE ELE NÃO SEJA DA NOSSA ESCOLA!
— MAS A GENTE NÃO PODE TE DEIXAR AÍ! — Violet estava muito desesperada. — EU JÁ PASSEI UM DIA INTEIRO NO SUFOCO E SEI COMO É HORRÍVEL!
— EU NÃO VOU PASSAR O DIA INTEIRO! EU JÁ TÔ CUMPRINDO A MINHA PENA, MAS SE VOCÊS TENTAREM ME TIRAR E NÃO CONSEGUIREM, ELA PODE ACHAR QUE EU TENTEI FUGIR E ME DEIXAR PRESO ATÉ DE NOITE QUE NEM FEZ COM VOCÊ!
Violet ficou estática. Começou a sentir lágrimas se formarem enquanto olhava para aquela construção, mas não ia deixar de jeito nenhum que elas escapassem!
— NÃO FAÇAM NADA, POR FAVOR! — Implorou Bruce, com uma voz chorosa. — EU TÔ COM MUITO MEDO, MAS ACHO QUE SE EU TENTAR SAIR VAI SER AINDA PIOR!
Charlie estava muito chocado com tudo que presenciava. Não queria deixar o menino lá dentro, mas parecia que, no momento, não tinha muito o que fazer. E parecia que Violet pensava o mesmo, porque disse a Bruce, por fim:
— FICA MAIS ESPERTO PRA NÃO ENTRAR AÍ DE NOVO ENTÃO!
— PODE DEIXAR, EU VOU TOMAR CUIDADO! OBRIGADO POR TENTAREM AJUDAR!
— ESPERO QUE VOCÊ FIQUE BEM! — Disse Charlie.
Violet foi andando para longe do Sufoco e ele a seguiu. Ela estava muito séria.
— Como você tá? — Charlie perguntou, preocupado.
Ela não respondeu, só continuou andando sem olhar pra ele. O menino ficou em silêncio por um tempo e depois disse:
— Eu acho que você devia trazer a sua mãe aqui.
— O quê? — Disse Violet, como se tivesse acabado de ouvir a coisa mais ridícula do mundo.
— Você disse que ela não acreditou quando você contou do Sufoco pra ela, né? Mas se ela vir de perto, ela vai acreditar.
Violet parou de andar e, consequentemente, o menino também.
— Charlie, você não conhece a minha mãe! Se ela visse o que você viu, ia achar que aquilo podia ser qualquer coisa, menos uma máquina de tortura criada por uma diretora de escola!
— Mas você tem provas! E testemunha, porque eu sou de fora da escola e também vi. A gente pode denunciar isso, se não for pra sua sua mãe, pode ser pros outros pais dos alunos ou pra polícia... alguém vai ver que é verdade! E é melhor que seja logo, pro Bruce poder sair lá de dentro...
— Espera... foi por isso que você quis vir aqui? Pra... ser testemunha e denunciar a diretora da minha escola?
— Foi.
Violet não acreditava que tinha achado que ele só tinha ido pra lá pra ver se ela estava mentindo... Estava com muita vontade de abraçar ele agora! Mas não era hora para sentimentalismos, precisava ser realista:
— Não vai adiantar! Todas essas pessoas que você falou são adultos, e adultos não acreditam em nada que as crianças falam, vai por mim!
— Mas a gente podia tentar...
— Se a gente contar pra qualquer pessoa, a Trunchbull vai desmentir, aí vai ser a palavra dela contra a nossa. Em quem você acha que vão acreditar?
— Mas... e os professores da escola? Eles não sabem de nada disso?
— É claro que sabem, mas morrem de medo da diretora. Ela trata eles quase igual a como trata os alunos...
— Que horror!
— É...
Eles continuaram andando em direção ao carro da mãe de Violet.
— Eu ainda acho que a gente devia contar pra sua mãe. Se você não quiser falar de novo sobre isso com ela, eu posso falar, aí conto o que vi hoje.
— Charlie, a minha mãe só gosta que você ande comigo porque ela te acha uma boa influência. Mas se você contar qualquer coisa do que viu aqui, ela vai achar que você tá mentindo e que eu é que tô te levando pro mau caminho!
Quando eles chegaram perto do carro, Violet falou:
— Promete que não vai contar?
Charlie suspirou e disse:
— Tudo bem...
Quando entraram no carro, Scarlett perguntou o que eles estavam fazendo para terem demorado tanto. Mas não falou como se estivesse dando bronca, tinha um jeito animado, como se estivesse feliz por ver que eles estavam se dando tão bem.
— É que a Violet me levou pra conhecer a floresta.
A menina lançou um olhar ameaçador pra ele, mas ela podia ficar tranquila, porque ele não ia mesmo contar nada, apesar de ainda achar que isso era o certo a se fazer...
— Ah, deve ter sido divertido então! — Exclamou a Srta. Beauregarde.
***
O último passeio antes dos Bucket partirem foi um jantar numa churrascaria. Violet até tentou passar o resto do dia agindo como no fim de semana, mas chegar perto do Sufoco tinha mexido muito com ela e Charlie percebeu que ela estava distante e nem um pouco animada como nos outros dias. Eles quase não conversaram durante o jantar, a não ser sobre os pratos, que, por sinal, estavam muito gostosos. Mas nem a comida conseguia melhorar o clima. Charlie achou que Violet estivesse com raiva por ele quase ter contado pra mãe dela sobre o Sufoco.
Quando voltaram pra casa das Beauregarde, todos saíram do carro e foram entrando na casa, mas Violet precisava falar com Charlie sobre o plano de fuga e tinha que ser longe dos adultos, então parou na varanda após eles entrarem. Ela não precisou chamar o garoto, pois ele parou também, já que também precisava falar com ela. E quem falou primeiro foi ele:
— Me desculpa.
— Pelo quê? — Perguntou a menina, confusa.
— Por ter ido na sua escola, eu sei que você não gostou...
É, ela não tinha gostado mesmo... Mas sabia que a intenção dele era boa.
— Tudo bem... — Respondeu.
Charlie queria falar mais sobre o assunto, mas agora foi a vez da menina falar sobre o que ela queria. Então, de repente, ela sorriu e disse:
— Eu tenho uma boa notícia: vou pra fábrica com você!
Charlie ficou surpreso e confuso, mas também sorriu:
— Então a sua mãe deixou?!
— Não, ela não deixou, ela nunca deixaria! Mas eu vou assim mesmo. Só que você vai ter que me ajudar.
Violet começou a explicar que tinha um plano de fuga, que ia matar aula amanhã e ir pro aeroporto e, à medida que ela explicava, o sorriso dele ia sumindo. Não era só por causa do Sufoco que ela tinha passado o dia estranha, era porque estava o tempo todo pensando nesse plano. Mas infelizmente para ela, Charlie não concordava com ele:
— Eu não posso fazer isso.
— Por que não? Você não quer que eu vá?
— Não é isso! É claro que eu quero, fui eu que te convidei...
— Então qual é o problema?
— É que eu não acho certo você fazer isso escondida da sua mãe.
— Mas é o único jeito! Eu já te disse como ela é, e você viu como ela reagiu quando eu perguntei a ela se podia ir.
— Então tenta falar com ela de novo!
— Não dá! Ou eu vou sem ela saber ou eu fico aqui.
— E você ia conseguir ficar sem a sua mãe?
— Eu me viro... Mas e aí? Você topa?
Charlie demorou um pouco pra responder, mas acabou dizendo:
— Eu não posso.
— Mas você disse que era meu amigo!
— E eu sou!
— Então por que não ajuda?! Que eu saiba, amigos ajudam uns aos outros...
— Mas eu acho que... você só quer ir pra fábrica escondida porque tá com medo de enfrentar a sua escola e lidar com a sua mãe.
— Você tá me chamando de medrosa?! — Disse a menina, furiosa.
— Eu não disse isso! Só que você tá com medo, o que é normal, todo mundo sente medo...
— EU NÃO TENHO MEDO DE NADA! Se tem alguém aqui com medo é você! Você tem tanto medo de quebrar as regras, de fazer alguma coisa que os adultos não vão gostar, que nem se importa se for um por uma boa causa! Você fica sendo legal com as pessoas e fazendo elas gostarem de você, mas quando é pra ajudar, você não consegue. Você é um péssimo amigo!
Depois do desabafo, Violet foi correndo pro seu quarto e Charlie continuou lá na varanda, estático, afetado pelo que ouviu da menina.
Os adultos não tinham subido as escadas ainda e já iam procurar as crianças quando Violet passou por eles. Estranharam que Charlie não estivesse junto e foram pra varanda, onde o encontraram. Seus pais perceberam que ele estava mal com alguma coisa e perguntaram o que tinha acontecido.
— Acho que eu não fui um bom amigo...
Assim que ouviu o garoto dizer isso, a Srta. Beauregarde foi atrás da filha. Abriu a porta do quarto dela e disse:
— Violet, eu não sei o que aconteceu, mas você vai descer agora e pedir desculpa pro Charlie!
— Por que você acha que eu é que fiz alguma coisa? E se tiver sido ele?
— Ah, eu sei que não foi, porque ele tava lá todo triste falando que não foi um bom amigo pra você e eu não faço ideia de por que ele tá pensando isso, mas tenho certeza que foi por alguma coisa que você disse, porque eu te conheço e sei melhor do que ninguém como você é capaz de magoar as pessoas!
— Ah, tá bom, se você acha isso, adota ele então!
— Violet, para de falar besteira!
— Não é besteira, eu sei que eu não sou a filha perfeita que você queria ter! Você sempre fica querendo um monte de coisas de mim, mas não tá nem aí pro que eu quero! E quando eu não faço o que você quer você fica magoada? Eu tô cansada disso, eu tô cansada de você!
— Eu não quero que você seja perfeita, só quero que você peça desculpa pro seu amigo!
— Ele não é meu amigo e eu não devo satisfação pra ninguém!
— Ah, você deve, sim! Você tem que aprender a se responsabilizar pelos seus atos e, se magoa alguém, tem que pedir desculpa!
— Eu não vou fazer nada, foi você que inventou de trazer ele pra cá.
— O que aconteceu, hein? Vocês tavam se divertindo tanto e de repente você fica assim...
Violet ficou calada por um tempo. Scarlett achou que ela estava cogitando contar o que aconteceu ou pedir desculpa pro garoto, mas ela olhou pra mãe com uma expressão de raiva e disse:
— Sai do meu quarto!
— Ah, então é assim? Você acha que pode dar ordens pra sua mãe?
— Não, eu não acho, mas eu preciso ficar sozinha e você tá atrapalhando.
— Entendi. É mais fácil pra você ficar sozinha do que tratar bem as pessoas, né?
— SAI DAQUI! — Gritou a menina.
A mãe percebeu que não conseguiria convencer a filha a pedir desculpa pra ninguém no momento e sabia que se continuasse no quarto dela as duas iam brigar feio e deixar as visitas super desconfortáveis (mais do que já deviam estar). Sendo assim, achou melhor atender ao pedido de Violet e sair pra ela se acalmar sozinha.
Assim que a mãe saiu, a menina bateu a porta com força e a trancou. E foi só virar a chave que começou: pela primeira vez depois de anos, lágrimas escorreram de seus olhos. Ela tentou impedi-las, mas, quanto mais tentava, elas saíam com ainda mais força. Violet ficou desesperada, não conseguia se controlar, não conseguia parar de chorar de jeito nenhum!
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