Sou Mabelle Couderc, filha de Joseane Prévost Couderc e Jean Couderc. Tenho um irmão três anos mais velho chamado Raul e um gêmeo chamado Louis. Ao contrário da maioria dos senhores feudais, papai sempre foi um homem bom, honesto e com pouca ambição. Sim, pois todos nós seres humanos temos nossas ambições. Moro em Saint-Denis, cidade situada na França.

Não tem vindo tempos muito bons... Há muito desespero no olhar do povo, todos têm medo de tudo: não se pode mais cantar, dançar, rir... Ser feliz tornou-se um pecado! É um tempo triste e sórdido, onde não há motivos para se viver se este não for ir para um lugar desconhecido, ir para um suposto lugar melhor, onde tudo é um paraíso. O lema é "sofra agora, não sofra depois."

Mesmo assim, posso dizer que somos uma família feliz. Me dou bem com meus irmãos. Raul é muito inteligente e honesto, protetor e conselheiro, creio eu que será um bom pai, assim como o nosso. Louis já é mais agitado e cheio de vida. É muito forte e tem ótimo equilíbrio, tenho para mim que será um bom cavaleiro, se quiser. Meus pais se amam muito. Tiveram um casamento arranjado mas, mesmo assim, dizem que foi amor a primeira vista. Não era para menos: papai é um homem muito elegante e bem ditado, e mamãe é linda e graciosa, parece uma princesa! Eles formam um casal perfeito... Sonho com isso também! Como dizem as histórias que mamãe me contava quando pequena, em que um belo cavaleiro salva sua donzela e ambos vivem felizes para sempre... O difícil é encontrar um final feliz...

No dia 11 de maio de 1270 completei 15 anos, atingindo uma idade considerada boa para casar-se uma garota. Porém, papai não quer que eu me case ainda. Meu irmão ainda não tem uma noiva, e seria estranho casar primeiro a filha do meio. Ele foi junto com papai para um reunião de negócios para decidir sei lá o que com outro senhor feudal. Enquanto isso, fiquei tendo aulas de violino com mamãe. Louis poderia aprender se quisesse, mas preferia lutar com papai...

Eu amo música e simplesmente amo o violino! Tem som mais belo e adorável do que o dele? Quantos sentimentos posso expressar através dele... Pela tarde, antes da Missa, fui passear um pouco com a companhia de Louis. Andávamos pelas ruas quando ouvimos o que deveria ser uma briga... Louis correu e fui atrás dele. Vimos então dois rapazes se desafiando. Não parecia algo sério, mas pareciam bem empenhados! O moreno com botas marrons olhou rapidamente para mim antes do duelo começar. Sem saber o que fazer, apenas sorri durante o curto espaço de tempo entre o sorriso e a luta.

Este foi realmente um extraordinário duelo! Os dois se olhavam como se quisessem vencer a qualquer custo! Vez ou outra, o moreno de botas dava rápidas olhadas para mim. Sentia-me deslumbrante a cada olhar, era como se as forças dele (e minha) se renovassem a cada intervalo. No final o vencedor foi ele! Após cumprimentar as pessoas e irem quase todos embora, ele veio até mim (e meu irmão, que estava do meu lado). Meu irmão perguntou seu nome.

– Velentin — disse ele — Valentin Mouret. E o seu?

– Sou Louis Couderc. Bela luta, hein? Sua técnica no manuseio da espada é impressionante!

– Obrigada! Foi mais uma batalha de rotina, para não perder a forma sabe? — olhou para mim — Permita-me perguntar, qual o nome desta bela dama? — disse inclinando-se e beijando minha mão.

– Esta é minha irmã Mabelle Couderc. — ele respondeu por mim.

– É um prazer conhecê-la, senhorita Couderc.

– O prazer é meu... — disse-lhe devolvendo o olhar que lançara sobre mim.

– Precisamos ir algora, mais uma vez, parabéns pelo duelo!

– Ah! Obrigada! — olhou para mim — agora que sei de sua existência, não desistirei até vê-la novamente — disse ele, baixo o bastante para que meu irmão, já indo, não ouvisse.

Incrivelmente, meu irmão nada notou, ou se notou não ligou, pois só soube falar sobre a luta do momento em que saímos até o momento em que chegamos na Igreja. Os dias passaram, não pude parar de sonhar com Valentin... No dia 20 (lembro-me da data até hoje...) foi dia de confissão na cidade. Tinha esperanças de encontrar Valentin lá. Após a confissão, disse para mamãe e Louis que ia caminhar ali por perto, e eles apenas disseram para eu tomar cuidado e não ir muito longe. Eis que surge-me uma surpresa na barraca de flores.

– Uma rosa para uma rosa.

– Olá Valentin. Obrigada, é muito gentil de sua parte.

– Para a senhorita, toda a gentileza do mundo!

Sorri e perguntei:

– O que fazes?

– Apenas andando um pouco por essas bandas...

– Poderia eu acompanhar-lhe?

– Seria um prazer!

– O prazer é todo meu!

Enquanto andávamos, falávamos sobre quem éramos, sobre nossas famílias e de onde viemos. Ele disse-me ser de uma cidade ali perto. Seu pai é um pequeno comerciante. Ele e os pais viviam mudando de cidade por causa da profissão do pai. Fiquei constrangida... Ele era apenas o filho de um comerciante e eu era a filha de um senhor feudal. Acabei, então, por contar uma pequena mentira...

– Sou filha de um comerciante também... Mas diferente do seu, ele é um tanto importante e experiente!

– Nossa, que legal! E que sorte...

– Por quê?

– Bem...

A conversa foi interrompida, pois avistei no horizonte minha mãe e meu irmão vindo. Mamãe perguntou quem era ele, e nós o apresentemos. Ela gostou de conhecê-lo, e o convidou para tomar chá qualquer dia. Tivemos que nos despedir logo, pois papai e Raul chegariam naquela noite.

Eles chegaram a tempo para o jantar. Na mesa, compartilhamos novidades! Papai e Raul nos contava sobre sua reunião com o tal amigo. Nunca entendi muito do assunto, mas creio que corria tudo bem! Na hora de dormir, uma surpresa: eles trouxeram lembrancinhas! Para mamãe, lindos brincos de pérolas. Para Louis, belas botas novas! E para mim, o mais belo presente que já recebera: um bracelete foleado a ouro.

– Obrigada papai!

– Você merece, minha filha! Já era hora da filha do senhor feudal ter alguma jóia, não é?

No dia seguinte, estava no jardim quando a criada veio avisar-me que tinha visitas. Quem será?

– Olá Mabelle!

– Valentin? O que faz aqui?

– Sua mãe chamou-me, lembra-se?

Oras, é claro que me lembrava... Mas não achei que ele fosse levar isso realmente a sério. Meu pai estava em casa, e talvez não gostasse de saber que sua filha estava recebendo visitas de um rapaz...

– Bell? — Bell é como minha família costuma chamar-me — Quem é este?

– Ah... Papai... Bem... Hã... Este é...

Neste momento, chegou Louis, mostrando-se alegre por ver o mais novo amigo.

– Valentin!

– E aí, Louis? Tudo bem?

– Tudo beleza e aí? O que o traz aqui?

– Vim fazer-lhes um visita!

Louis fez questão de apresentá-lo para papai, e contou-lhes a história da luta, claro, enfatizando bastante. A tarde foi bem divertida! Passamos horas contando histórias, e quando ele disse precisar ir, eu o acompanhei até a porta.

– Foi um prazer conversar com você! — disse-lhe.

– O prazer foi todo meu... A sua casa é muito bonita!

– Obrigada!

– Por nada! Ser filha de um senhor feudal deve ser muito bom...

– Eu... Espera.

– Não, tudo bem, eu entendo. Deve ser ruim para a reputação de uma família tão importante um membro deste falando com o filho de um servo...

– Então você...

Tentei falar, mas ele foi embora... Aquele dia, que fora tão legal, terminou um tanto trágico para mim. Simplesmente não sabia o que fazer.