Revolta de uma alma...
2 Capítulo 2
Os dias se passavam, e a expressão de papai começou a assustar-me. O que será que acontecera? Até o dia anterior ele estava tão contente e, de repente, sua expressão ficou séria. Ele reuniu toda a família na sala... Provavelmente algo ruim acontecera.
– Então — disse — tenho algo de extrema importância para dizer-vos.
– Diga logo homem! — minha mãe expressou-se, nervosa.
– Então — continuou — nosso feudo não está muito bem...
– O que está acontecendo? — Louis perguntou.
– Baixa produtividade — disse Raul — Nossas terras estão com baixa produtividade. Estamos tendo prejuízo.
– E agora? Perguntei.
– Então querida, é aí que você entra.
Realmente não entendi o que ele quis dizer com isso. Não fazia ideia do que eu poderia fazer...
– Você sabe que eu fui visitar um velho amigo em outro feudo recentemente, não?
– Sim.
– Pois bem. Eu contei-lhe sobre este problema e buscamos o melhor meio de resolvê-lo. Desculpe querida, mas não encontrei outra solução...
– O que foi papai? O que está acontecendo?
– Se as coisas não normalizarem, você...
– Eu?
– Você terá de casar-se com Pierre, filho mais velho e herdeiro desse meu amigo.
– Mas papai, eu... Eu não...
– Eu sei meu bem, e peço-lhe mil desculpas por isso. Se tudo piorar, as pessoas que trabalham para nós também serão prejudicadas: elas ficarão sem emprego e... Enfim, você me entende? Não posso deixar que isso aconteça. Me desculpe querida, eu não devia...
– Calma papai — eu disse — eu sei que o senhor pensou no que fosse melhor para todos.
– Não devia te envolver nisso.
– Se é o único jeito...
– Você tem certeza de que quer fazer isso?
Essa pergunta bateu em mim com uma intensidade... Eu realmente não sabia o que queria. Apesar do desentendimento, sentia algo por Valentin que não sabia explicar... Mas não sabia se estava pronta para casar. Não queria me precipitar, mas não queria que tantas pessoas ficassem desempregadas...
– Tenho.
Foi mandada imediatamente uma carta para o tal amigo e, quatro dias depois, recebemos outra de volta (não sei como conseguiram tão rápido). Os preparativos começaram, ia me casar com alguém que nunca vira antes.
Naquela noite, algo estranho aconteceu. Algo que mudaria a minha forma de pensar, me traria para a realidade, e me faria amadurecer. Eis que Valentin começou a jogar pedrinhas na janela do meu quarto. Fui até a sacada.
– O que fazes? — perguntei — Com esse barulho, logo irão todos acordar!
– Então venha comigo!
– Aonde?
– Isso é surpresa.
Não tinha como eu sair sem que ninguém me visse, então, desci pela sacada com a amarra de alguns lençóis. Andamos um pouco, subimos um morro, e então... A vista mais linda que eu já vi na minha vida. Estávamos em um morro onde não só dava para ver a cidade, mas também a nossa grande e iluminada lua. Lua que me lembrou da santa discussão sobre a Terra ser plana ou redonda... Em qual acredito? Tanto faz!
– E então, o que achou?
– É maravilhoso!
– Desculpe-me por não ter ido ver você ultimamente... É que tenho estado muito ocupado ajudando o meu pai.
– Eu entendo.
– Então... Ouvi um boato de que você vai se casar... É verdade?
– Sim. É que...
– Mabelle! Não! Por favor! Não suportaria ver você com outro! Eu... Eu.. Amo você!
Aquilo me pegou de surpresa! Realmente não contava com aquilo.
– Eu… Acho que… Eu também...
Fui interrompida por vozes e gritos: "bruxa!" "morra, demônio" "pecadora!"
– O que é isso?
– A inquisição, nunca viu?
– Não...
Ele olhou para mim assustado, mas logo sua expressão serenizou.
– É uma espécie de tribunal criado para ordenar todos os que são contra os dogmas pregados pela Igreja Católica.
– Como nunca ouvi falar nisso?
– Sempre protegida no feudo de seu pai...
Fomos descendo, e percebi que íamos a um lugar específico. Peguntei aonde.
– Ver a inquisição.
– Mas... Nós temos permissão?
– Está ocorrendo em praça pública.
As coisas que ali vi eu desejava nunca ter visto! Duas mulheres, acusadas de serem bruxas, queimando em uma fogueira. Sua pele perdendo a elasticidade, seu rosto deformando, seus gritos desesperadores pedindo por socorro. Não eram bruxas. Se fossem, já teriam saído dali há muito. Mas parece que as pessoas não pensavam como eu.
– Valentin, por favor, vamos sair daqui.
Estávamos indo para a minha casa, e eu mencionei o que havia ocorrido momentos antes, e disse-lhe o porquê que eu ia me casar.
– Compreendo perfeitamente. Mas você quer mesmo arriscar a sua felicidade pelos outros? Lembre-se que um casamento nunca será anulado! Não prefere pensar na sua felicidade?
– Eu... Eu não sei...
– Sei que é difícil, mas desculpe-me, não tens muito tempo.
Nesse momento, chegamos na sacada do meu quarto. Ouvimos um barulho. Olhamos em volta e não vimos ninguém, então julgamos ter sido um esquilo. Nos despedimos e eu subi da mesma forma que desci: pelos lençóis.
No dia 02 de julho de 1270, mais uma cruzada saiu rumo a Jerusalém. Cheguei na sala e me deparei com todos se despedindo de Raul. "Como assim?" perguntei-me.
– Raul? Por que você está com essas roupas? E por que todos estão se despedindo de você?
– Oi pequena. Deixe-me explicar: sabe a viagem que fui com o papai? — fiz que sim com a cabeça — então, na verdade, eu não fui para a reunião... Fui para fazer o exame final para ir nesta cruzada que está saindo hoje.
– Mas... Mas... Por que não me contou?
– Desculpe-me... Mas você já tinha tantas coisas com o que se preocupar...
Eu chorava. Não queria que meu irmão fosse embora. O abracei com todas as minhas forças. Enquanto isso, ele sussurrou no meu ouvido: "Vai ficar tudo bem! Logo todos estaremos unidos novamente.” Caso meu irmão morresse lutando, receberia uma grande indulgência.
De repente, um oficial do rei entra na minha casa, quase arrancando as portas, e diz que tinha um mandato, e que iria levar-me presa por crime de adultério. Adultério? Ora pois, se eu nem estava casada. Tentamos resistir, mas eles eram muito fortes. Levaram-me para algum lugar horrível, onde tentaram fazer-me confessar que havia traído meu "suposto marido". Tentei dizer-lhes de todas as forma que eu não estava casada, mas eles nem ouviram. Levaram-me dali para uma prisão.
De repente, chegou um guarda com um rapaz que nunca vira antes.
– É ela?
– Sim, a própria.
Já enfurecida, disse:
– Quem és tu? O que queres de mim?
– Sua tola, não reconhece o próprio marido?
– Nunca te vi antes! Não sei quem você é, não sei o seu nome, e não sou casada!
– Oras, não conhece o nome Pierre?
Aí então caiu minha ficha.
– Era você quem estava lá ontem de noite...
– Exato, estava tentando colher algumas informações... E olhe só! Que pérola eu encontrei!
– Canalha!
– Quando o Sr. Jean Couderc e seus herdeiros sumirem, tudo o que terão é a carta enviada a meu pai dizendo que íamos nos casar. — Passou a mão em meu rosto, fazendo-me sentir uma terrível sensação de nojo — É uma pena não termos nos casado... És uma garota tão bonita...
A raiva estava tomando conta de mim naquele momento, e eu não podia fazer nada... Até que, do nada, uma flecha atravessou o peito do meu suposto marido. Levei o maior susto da minha vida, mas ao ver quem a atirou, sorri.
– No fim, acho que você não está mais casada... — Disse Valentin.
Corri para abraçá-lo. Porém, aquilo custaria caro para ele... Sua cabeça corria sérios riscos.
– Não me importo, desde que você fique bem.
Corremos para a minha casa. Chegando lá, a cena mais assustadora que eu já vi! Jamais
irei tirar aquela imagem da minha cabeça: meus pais mortos no chão. Em suas mãos, uma carta: era de Raul. Na verdade, era sobre Raul. Na carta dizia que Raul havia pego uma doença desconhecida vinda do oriente. Minha família foi destruída. Dela, só restavam agora eu e meu irmão, que não havia encontrado ainda.
– Melhor sairmos daqui, Mabelle. Este lugar já não é mais seguro!
– Mas... É minha casa! É o feudo de meu pai! Não posso deixar tudo para trás assim!
– Pegue suas coisas. — disse ele com uma voz triste. — Achas que o pai de Pierre não está envolvido nisso? Se ele descobre que estás viva é bem capaz de te matar! Além de sermos procurados pela Igreja agora.
Não o desobedeci. Arrumei minha mala, e fomos para a casa dele na carruagem que era do meu pai. Por sorte, não esbarramos com ninguém no caminho. Ele pegou suas coisas e chamou seu pai.
– E a sua mãe?
– Espere.
Não entendi, mas respeitei. Pegamos tudo e entramos na carruagem. Já longe da cidade, rumo a Inglaterra, começamos a seguir viagem.
– Minha mãe foi morta em uma fogueira por ser acusada de bruxa...
Pronto, não sabia mais o que dizer. Tudo o que pude fazer foi confortá-lo um pouco. Mas a história está longe de acabar.
– Ainda encontrarei meu irmão e vingarei minha família. Mas, por enquanto, tudo o que posso fazer é fugir...
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