Reviravoltas
1 Olá São Francisco
Notas iniciais
– Tyler acorda! Vai se atrasar para o colégio.
Com minha visão um pouco embaçada, vi a silhueta da minha mãe na minha frente, abrindo as longas cortinas brancas do meu quarto a claridade bateu diretamente em meus olhos fazendo com que eu fechasse-os rapidamente.
– Vamos Tyler, levanta dessa cama agora!
– Calma mãe — Falei enquanto olhava para o meu celular que estava na cabeceira da cama.
– Já são 12:15 — Falei dando um pulo — Por que não me acordou antes?
– Você é muito folgado, já tem 17 anos e ainda precisa que eu te acorde todos os dias?!
Levantei emburrado e peguei a primeira roupa que vi em meu armário, me vesti em poucos segundos, calcei meus tênis, peguei um pacotinho de cereal no armário da cozinha e entrei no elevador que ficava em frente a porta da minha casa.
Quando me olhei no espelho do elevador, eu estava péssimo. Passei a mão entre os fios do meu cabelo a fim de arrumá-los, o que não adiantou muito, mas deu uma melhorada. Em poucos minutos já estava na portaria.
– Bom dia senhor Tyler.
– Bom dia David.
David é o porteiro do nosso prédio. É um senhor que ama o seu trabalho, vive sozinho, acredito que assim consegue se distrair.
Vi Derick em sua Ferrari preta que chamava atenção de todos que passavam na rua, ele estava parado do outro lado da rua, encostando-se em seu carro com um óculos escuro no rosto.
– Vamos cara, estamos atrasados.
– Você me salvou, não ia chegar a tempo — Comentei jogando a mochila no banco de trás.
Rapidamente chegamos no colégio. Aquela tarde estava um calor insuportável, alunos e professores andando de um lado para o outro pelos corredores. Por onde passávamos atraíamos olhares desde garotas até senhoras, já os garotos queriam ser como nós.
Encostei no armário, me abanando com um livro qualquer enquanto John e Derick, meus dois melhores amigos pegavam seus materiais.
Um pouco distante eu observava Kate, uma garota muito estranha que estudou comigo no ensino fundamental, fiquei sabendo que ela tem problemas com seus pais, acho que é esse o motivo dela ser tão quieta e desconfiada de tudo.
– Lá vem a esquisita — Disse Derick girando sua bola de basquete com o dedo indicador.
– Ei menina, vem aqui! — Chamou-a John a medida que ela se aproximava com seus livros nas mãos e sua mochila presa apenas com uma alça em seu ombro.
Aqueles cabelos castanhos, levemente ondulados caídos sobre os ombros, juntamente com seus olhos azuis intensos como uma praia do Caribe davam-lhe uma feição angelical.
– Kate, meu nome é Kate — Disse de maneira grossa, um pouco irritada.
Derick colocou o pé em sua frente, fazendo com que ela caísse, seus livros se espalharam por todo o corredor, ela conseguiu apoiar-se com as mãos ao chão.
Gargalhávamos enquanto outros alunos se aproximavam para ajudá-la, lançando-no olhares de reprovação, mas ainda sim não tinham coragem de nos repreender.
Assim que levantou, olhou para suas mãos que estavam avermelhadas.
Logo que tocou o sinal, subimos para sala, para o nosso azar lá estava ela sentada na primeira fileira nos olhando furiosa, me encaminhei até a última carteira ao lado da janela coloquei meus pés sobre ela, enquanto o professor ainda não havia chegado.
– Tira o pé daí! — Disse John empurrando minhas pernas para o chão, sentando-se sobre a carteira.
– Como foi morar na África por três anos?
– Eu adorei, mas é muita pressão!
– Entendo. Temos uma balada melhor que a outra para te levar! — Disse Derick entusiasmado sentado na carteira a frente.
– Desculpe atrapalhar a conversa de vocês, mas Derick e John sentem em seus lugares — Falou a professora que havia acabado de entrar na sala, com suas papeladas e sua bolsa sobre o braço.
– Foi mal professora! — Desculpou-se John.
Ela passou um texto enorme na lousa sobre a Primeira Guerra Mundial, logo em seguida começou a falar sem parar, eu não estava entendendo nada e também não estava nem um pouco afim, aquela aula estava entediante, comecei a bocejar sem parar, apoiando minha cabeça em meu braço.
Depois do que pareceu ser uma eternidade para mim, o sinal finalmente tocou.
– Vamos embora! Esta dormindo aí?! — Brincou John com um sorriso no rosto.
– Não — Falei colocando a mochila nas costas — Mas, mais alguns minutos nessa sala eu ia hiberna aqui.
Na saída do colégio, Derick acelerava sua Ferrari de modo que fizesse um som muito alto que chamava atenção de todos que estavam ali, com o teto aberto, óculos escuros, braços apoiados na janela, sem dúvidas éramos os mais populares da escola, sem dúvidas muitos garotos fariam qualquer coisa para estarem com a gente.
– 22:00 horas passo aqui! — Disse Derick, parado em frente meu prédio.
– Ok.
– Não se atrase — Completou John.
– Pode deixar! — Falei batendo continência.
Rapidamente seu carro desaparecia pela rua.
Assim que entrei em casa, joguei minha mochila no sofá, era o fim do mundo para minha mãe quando eu fazia isso, ela odiava.
Meu lugar preferido em casa era o meu quarto sem dúvidas, mesmo bagunçado do jeito que ele era, com roupas espalhadas por todo lugar, bola de futebol, violão, enfim tudo. Apenas dou o direto das minhas coisas ficarem aonde elas querem! Minha mãe vive discutindo comigo por conta disso.
Dormi o resto da tarde, fui até a sala à procura da minha mãe, mas ela ainda não havia chegado. Tomei banho, me troquei, comi um pedaço de bolo que minha mãe tinha feito no dia anterior que estava de folga.
Minha mãe é advogada, ama esse trabalho, mas isso tomava muito tempo dela, quando não estava trabalhando a maior parte do seu dia passava no escritório, lendo dezenas de casos. Ela tem um escritório no centro da cidade, quando não está lá, está no escritório em casa mesmo.
Assim que chegou, foi direto para lá, apareci em frente a porta e falei:
– Mãe, vou sair como Derick e John.
– Não, você não vai sair hoje Tyler.
– O que mãe? Acho que não estou ouvindo muito bem! Tchau. — Disse enquanto corria até o elevador, estou consciente que depois vou ouvir duas horas de sermão, mas tudo bem.
Derick e John já estavam me esperando. Sentei no banco de trás e fomos para uma das baladas mais famosas de São Francisco.
Com o som do carro ligado no último volume, Derick acelerava a mais de 100km/h, era disso que gostávamos, do vento batendo em nossos rostos e muita adrenalina, essa sensação era libertadora e incrível.
– É disso que eu estou falando! Uhul — Gritava John com os braços para o alto.
Ficar três anos na África ajudando meu pai com trabalhos voluntários ajudando comunidades carentes que não tem condições para ir a um hospital e os poucos que tinham era de difícil acesso para eles, vimos muitas pessoas passando fome, vimos pessoas morrendo sem podermos fazer nada, tudo isso me fez refletir, agora eu quero aproveitar a vida como nunca. Meu pai continuou lá e pretende ficar até o meio do ano, mas eu não aguentei a pressão, então resolvi voltar antes até mesmo porque eu só estava auxiliando meu pai com a parte administrativa, fazendo fichas, essas coisas.
Cheguei em casa era 02:30 da manhã, tentei entrar sem fazer barulho, virei a maçaneta cautelosamente. Assim que coloquei o pé dentro de casa ouvi:
– Tyler Collins — Soou uma voz firme.
Paralisei imediatamente, meu coração acelerou no mesmo instante.
– O-oi mãe, acordada ainda? — Dei um sorriso de nervoso.
Ela estava sentada no sofá com uma xícara de chocolate quente e um cobertor fino sobre as pernas, assistindo a um programa de maquiagens e pentados de cabelo.
– O que eu falei antes de você sair?
– Que eu podia ir?! — Ironizei desviando o olhar.
– Eu não estou brincando, não se faça de besta! Não ouse me desrespeitar nunca mais, a partir de agora você só vai da casa para escola e da escola para casa! Fui clara?
– Desculpa mãe! — Falei cabisbaixo, logo em seguida me encaminhei para o quarto.
Fiquei o resto da madrugada acordado, observando a lua e as estrelas que invadiam meu quarto pela janela. Eu realmente me arrependi de ter desobedecido minha mãe.
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