Reviravoltas

5 Discussão, trabalho, apuro


Me sentei no sofá ao lado e fiz uma cara de tédio, do tipo: "Já pode falar, estou escutando".

– Tyler...Tyler...você está passando dos limites não estou mais aguentando suas grosserias — Falou me analisando.

– Ta bom mãe, desculpa — Disse desviando o olhar para o chão.

– Ou você melhora o seu comportamento, ou você vai voltar com seu pai, eu não estou brincando! — Falou com firmeza em sua voz, ela realmente não estava blefando.

– Ah mãe, eu não aguento mais essa merda de vida, tenho que ficar preso nessa casa todos os dias, não posso me divertir? — Falei alterando o tom de voz — Acho que você está me confundindo com um de seus clientes! — Levantei bruscamente do sofá.

– Tyler Collins eu não admito que fale assim comigo — Disse levantando-se em seguida.

Fui para o meu quarto e bati a porta com muita força. Ela insistiu para que eu abrisse.

– Abra essa porta agora, eu não terminei de falar.

Me joguei na cama com o travesseiro na cabeça, pois não queria ouvir mais nada.

Eu sentia muita falta do meu pai, ele é extremamente calmo e resolve tudo na conversa, ele é carinhoso, diferente da minha mãe que muitas vezes me parecia muito distante de mim mesmo estando ao meu lado.

Depois de um tempo, levantei cautelosamente e desci até o jardim, era 18:30 o céu já estava começando a escurecer.

Sentei-me na grama encostando na fonte de cabeça baixa. Escutei um choro que começava a se intensificar, olhei ao meu redor e não vi ninguém, levantei e vi Kate do outro lado da fonte, assim que me viu percebi que ela secou sua lágrimas. Depois de alguns minutos levantou-se e sentou-se ao meu lado.

Ficamos em silêncio pelo que me pareceu horas, mas foram apenas alguns minutos.

– Eu não estou bem! — Falou chorando novamente.

– O que aconteceu? — Perguntei desinteressado.

– Briguei com meus pais, ou melhor eles brigaram comigo, só isso que sabem fazer.

– Também briguei com minha mãe, se isso te serve de consolo — Falei mexendo em meu celular, sem menos olhar para sua cara.

– Por que? — Perguntou me encarando.

– Por uns motivos aí... — Não queria falar sobre isso.

– Eu briguei porque meus pais querem que eu seja a melhor em tudo sabe?! Para eles não basta que eu tire uma nota 9, tem que ser sempre 10, eles dispensaram a empregada pois disseram que tinha eu! Isso é só uma demonstração do que eles exigem de mim — Ela falou visivelmente decepcionada.

– Nem sei o que te dizer. Mas tenho que ir...

– Ta bom, vou ficar aqui mais um pouco.

Entrei em casa minha mãe estava no escritório, peguei alguns biscoitos e um copo de leite na cozinha e fui para o meu quarto.

No dia seguinte na escola quando eu estava pegando alguns livros no meu armário, percebi que Kate me olhava discretamente.

Subi rapidamente para sala, faltava um minuto para bater o sinal.

A professora falava sem parar, meus pensamentos estavam distantes, na briga com minha mãe, voltar para África com meu pai...

– Senhor Collins, pode me explicar por que isso ocorre atualmente?

– Porque... porque tem que acontecer!

Todos começaram a rir de mim.

– Quero falar com você depois da aula.

Derick sussurrou baixinho, rindo em seguida:

– Se ferrou!

– Cala a boca Derick.

No fim da aula quando todos saíram, fui até a mesa dela.

– Fala! — Disse sem o menor interesse.

– Eu não sou seus amigos, não permito que fale assim comigo! Suas notas estão péssimas, você não está se esforçando nem um pouco, e essas suas piadinhas já estão passando dos limites. — Ela falou irritada me encarando nos olhos.

– Ta bom, e daí...?

– "E daí?". E daí que você vai ter que fazer um trabalho para mim, com no mínimo dez páginas, para recuperar sua nota e exijo que melhore esse seu comportamento.

– Qual é prô? — Falei irritado.

– Sem reclamações!

Virei as costas e saí da sala furioso, cheguei em casa minha mãe ainda não havia chegado, joguei minha mochila no sofá e peguei uma maça na fruteira. Abri a porta de casa e vi a porta da casa da Kate aberta, me aproximei lentamente e entrei. Tudo era extremamente organizado, os livros na prateleira era ordenados de A — Z, algumas flores enfeitavam a sala dando um toque suave para o ambiente, havia um cheiro agradável acredito que era de lavanda.

Olhei ao redor procurando por alguém.

– BO! — Gritou Kate colocando suas mão em minhas costas para me assustar.

– Está louca garota? — Falei furioso andando em direção a porta.

Ela não parava de rir do susto que eu levei.

– Espera! — Ela falou, quando finalmente cessou a risada.

Olhei para traz e falei:

– Que?

– Eu que pergunto, o que você quer aqui?

– Ah, deixa pra lá.

– Não, você não vai me deixar curiosa. Fala!

– Eu queria que você me ajudasse com um trabalho... mas deixa quieto — Falei olhando para baixo.

Ela estreitou os olhos, me analisando.

– Ta bom, eu te ajudo! — Ela disse sorrindo.

– Tá, valeu! Podemos começar amanhã?

– Amanhã está ótimo — Assentiu com a cabeça.

Ouvi a maçaneta da porta girar.

– É meu pai, ele não pode te ver aqui, se te ver vai pensar em outras coisas... se esconde rápido.

Fiquei desesperado, procurando algum lugar. Entrei atrás do sofá que ficava quase encostado na parede.

– Acho que você esqueceu de limpar aqui atrás — Falei tossindo por conta da poeira que tinha lá.

– Cala a boca — Sussurrou, sentando-se rapidamente no sofá.

– Oi filha.

– Oi pai.

– Já lavou o banheiro?

– Já!

– A cozinha?

– Também.

– E o meu quarto e da sua mãe?

– Já pai.

Percebi que ele se sentou no sofá que eu estava atrás, o que fez com que eu ficasse ainda mais apertado.

– Paizinho, por que o senhor não vai tomar um banho...? Deve estar muito cansado — Kate disse puxando-o pelo braço.

Ele estranhou sua atitude.

– Por que está me dizendo isso?

– Ah é porque...porque o síndico do prédio disse que vai desligar a água daqui a meia hora e só vai ligá-la amanhã. A conta está absurdamente cara, sabe como é né?! — Gaguejou.