Reviravoltas
2 Califórnia?
Notas iniciais
— Logo que eu e Gustavo nos casamos, queríamos ter um filho ou uma filha, esse sempre foi nosso maior sonho, desde quando namorávamos na faculdade. Depois de muitas tentativas, sem sucesso, resolvemos ir ao médico para ver se tinha algo errado e estávamos certos, eu não podia engravidar. – “Oi? Eu tô ouvindo isso mesmo?” e mais lágrimas caíam de seus olhos. — Eu até supus uma gravidez artificial, mas o médico aboliu minha ideia dizendo que o prolema era com meu útero e não teria como. Gustavo pensou, então, em adotar uma criança.
Nesse momento eu congelei. Fiquei sem reação. A ficha tinha caído. Eu era (sou) adotada.
— Fomos então a um orfanato, – Ela prosseguiu de cabeça baixa e eu podia não ver, mas ela ainda chorava, tanto quanto a vontade que eu tinha de chorar, minha vida sempre foi uma mentira?— você tinha acabado de chegar e era a mais nova, tinha feito um ano. Estava quietinha em um cantinho com os olhinhos azuis tão clarinhos marejados, como se você entendesse a razão de estar ali, de ter sido abandonada.
Em nenhum momento deixei que caíssem lágrimas de meus olhos, não deixaria que isso acontecesse, não na frente deles, como puderam esconder isso de mim por tanto tempo?
— Eu cheguei e fiquei ao seu lado enquanto você estava deitada no tapete. Você me viu e sorriu, — Ela deu um meio sorriso de lado — como se eu não devesse saber suas preocupações. Olhou dentro dos meus olhos tristes de tanto chorar por meu sonho ser descartado e me abraçou. Naquele momento eu soube que você era a escolhida. As papeladas foram rápidas pois você acabara de chegar ali, e, em um mês, eu te visitava todos os dias até você vir pra casa. Tinha abandonado meu emprego, tudo pra te dar atenção. Os anos foram passando e eu percebi que você não era minha. Seus olhos, seu jeito, seus gostos e comportamentos não eram meus, nem de Gustavo. Então vimos que você jamais seria nossa filha e comecei a me distanciar. Quando você fez sete anos eu voltei a trabalhar e contratei a Maria, que foi muito mais sua mãe do que eu pude ser.
Eu ouvia tudo olhando pra ela, e ela, de cabeça baixa. Eu realmente lembrava de que, quando eu era pequena, eu e minha mãe éramos melhores amigas e depois de um tempo, acabou. Eu sempre fui muito independente, então não reclamei, só comecei a me fechar. Agora eu entendia o porquê do afastamento, como não pude perceber que tinha algo errado? Sobre meus olhos ela tinha razão, eles podiam até ter mudado de azuis “clarinhos” pra essa bostinha meio azul escuro e meio cinza, mas nenhum dos dois tinha essa cor, meu pai e minha mãe tinha olhos castanhos-claros lindos, que eu sempre invejei, só não mais que olhos âmbar. Meu jeito independente era totalmente contrário ao de minha mãe, que para tudo tinha que perguntar a Gustavo. Minha desorganização também em nada tinha em comum com os empresários mais certinhos do Rio de Janeiro. Enquanto eu pensava nisso tudo meus olhos encheram de lágrimas e uma escapou, a limpei rapidamente, mas passou despercebida pois nenhum dos dois tinha coragem de me encarar. Ela continuou:
— Desde então começamos a procurar seus verdadeiros pais, não queríamos deixar você conviver conosco sabendo que não seria completamente feliz. Depois de oito anos de procura encontramos sua mãe e ela queria muito te encontrar, disse que nunca se perdoou por ter te abandonado e, mesmo te amando muito, não queria te tirar de nós à força. Ficamos pensando na hipótese de você encontrá-la durante este último ano, mas, como ela mora em Guestten, uma cidade na Califórnia, e tem dois filhos, desistimos da ideia.
Então ela estava me dizendo que minha mãe biológica não me quis mas teve outros dois filhos? Eu devo ser a pior pessoa do mundo mesmo! E o que ela estava querendo dizer com “sua mãe biológica ainda te ama muito”? Se me amava “e ama”, por que me deixou? Essas e mais dezenas de perguntas rodeavam minha cabeça enquanto Manuela falava:
— E agora que eu estou grávida… — Ela fez uma pausa para eu processar tudo, mas eu já tinha entendido. – Vamos deixá-la te conhecer, ou melhor, achamos melhor você ir morar com ela. — Ela disse a última frase mais rápida, como se tirasse um peso das costas.
— Mas… — Eu ia dizer que não me importava de morar com eles, mesmo eles não me amando. Cara, seria impossível suporta morar com alguém que me abandonou, ainda mais em outro PAÍS! Nem teria amigos pra me ajudar, a escola ia mudar, a língua…
— Mas nada, Bruna! Você já está bem crescidinha pra entender. Vá arrumar suas malas. – Disse meu sempre delicado “paizinho”.
Levantei-me e fui andando devagar até meu quarto, as lágrimas ameaçavam cair, mas eu as impedi. Manuela levantou-se rapidamente e tentou abraçar-me, mas eu recuei.
— Não teria como ser mais grosso Gustavo? — Repreendeu-o Manuela.
Arrumei minhas coisas o mais rápido que pude, não dava mais pra segurar as lágrimas que desciam descontroladamente, pelo menos com a porta trancada eles não veriam. Todas as coisas deram três malas, uma mochila e uma bolsa pra levar na mão.
Tomei um banho e lavei bem o rosto, fiz uma maquiagem pra disfarçar a cara de choro e me arrumei rápido colocando uma roupa qualquer, fiz uma trança de lado em meus cabelos loiros (artificiais), peguei meus fones e coloquei óculos para disfarçar ainda mais. Olhei uma última vez pro meu quarto como se dissesse “adeus” e pra ver se não esquecia nada… As únicas coisas que deixei foram as roupas de cama, até o travesseiro e meus ursinhos de pelúcia levei. Quando me virei dei de cara com Manuela chorando, ela me abraçou e eu, relutante, rejeitei-a. Virei-me de costas e saí do quarto.
— Não precisa desse casaco, lá também está calor. – Ela me disse em meio as lágrimas.
— Vou poder me despedir do Lucas e dos meus amigos? – Perguntei ignorando-a.
— Sim, marquei com eles no shopping, mas eles ainda não sabem de nada, achei melhor você contar. – Ela respondeu. – Mandei um motorista te levar até lá e depois do shopping para o aeroporto, o voo sai em duas horas, você pode ficar meia hora com eles.
— Ok – Disse seca sem olhá-la. – Tchau.
— Qualquer coisa me avise, Bruna! Saiba que eu sempre vou te amar! – Ela disse ainda chorosa enquanto eu saía pela porta. Pra nunca mais voltar.
Deixei as malas no carro, a ficha caía devagar, ainda não dava pra acreditar… Minha vida estava de cabeça pra baixo, agora iria me despedir de meus melhores amigos, ia terminar com meu namorado, os sentimentos já estavam à flor da pele quando entrei no lugar combinado apenas com a bolsa na mão.
Antes mesmo de chegar em frente ao cinema, “o lugar combinado”, eu vi cinco sereszinhos conversando preocupados. Lucas, Larissa, Bernardo, Juliana e Pedro. Quem são estes? Meus melhores amigos, e meu namorado. Lucas é o melhor namorado do MUNDO, eu amo ele! Ele é todo carinhoso e sempre me entende, tem 1,83, o que significa que pareço ainda mais baixa perto dele, já que eu tenho 1,60… Larissa é loira como eu, porém natural, tem os olhinhos mais redondos do mundo e parece uma boneca, ela pode até ser meio doida às vezes, mas é a melhor amiga que podia querer, e, quando precisa, é bem “pé no chão”, principalmente depois que ela começou a namorar, quietou o facho. E Bernardo foi o motivo para ela quietar o facho, nós três (Eu, Lari e Bernardo) nos conhecemos desde o jardim-de-infância e eu sempre soube que eles acabariam juntos, mesmo em meio a muita discussão. Ele tem cabelos curtos, lisos e castanho claro, olhos castanhos e é alto, mas nem tanto quanto Lucas. Os “entrosas” são Juliana e Pedro. O Pedro é o mais inteligente e responsável, ele é sempre o que dá conselhos, certos, tem o cabelo loirinho queimado e olhos acinzentados, não faz muito o meu tipo, mas as meninas do ensino fundamental morrem por ele, e as do ensino médio também. O que falar da Juliana? Ela é doida, simplesmente. Conseguiu barrar a Larissa e até hoje eu não sei como ela entrou pro nosso “grupinho”, porque nós somos “os nerds” mas minha sala sempre foi muito unida e nunca ligou pra isso, mas ela não é lá muito inteligente… Por isso eu namoro o Lucas mesmo ele sendo da “turma da bagunça”, se bem que depois que começamos a namorar ele melhorou de 10 a 0! Voltando à Juliana, ela tem cabelos pretos, olhos azuis-claros marcados, acho que o olho dela é o único azul que eu gosto.
Enfim… O Lucas não se enturma muitos com os meus amigos mas eles se dão bem, então lá estavam eles todos e o Lucas meio afastado com o cabelo meio molhado e as mãos no bolso olhando para o outro lado, me procurando, quando a Larissa veio correndo e me abraçou. Sem mais nem menos, as lágrimas voltaram a descer.
— O que aconteceu, Bú? Sua mãe marcou aqui com a gente e eu não entendi nada…
— Você não vai acreditar, Lari, eu sou adotada! – Falei bem assim, na lata! Todos ficaram de boca aberta enquanto eu abraçava a Larissa.
— O quê??? Como assim? E porque sua... Quer dizer, Manuela marcou com a gente aqui? — Se entrometeu Juliana.
— Para eu vir me despedir, porque vou morar com a minha mãe biológica!
— Quando? Onde? — Perguntou Bernardo desesperado.
— Eu vou agora, pra… Califórnia!
— O quê???? — Gritaram todos juntos, até mesmo Pedro que geralmente é o mais calmo, gritou, mas acho que ninguém percebeu que estávamos no meio do shopping em frente ao cinema…
Eu comecei a chorar descontroladamente e todos me deram um abraço juntos. Enquanto isso, eu vi que Lucas estava afastado. Ele arregalou os olhos e pedia socorro sem entender direito o que estava acontecendo. Sem conseguir me segurar soltei-me de meus amigos e o abracei com todas as minhas forças enquanto chorava em seu peito.
— Foi isso mesmo que eu entendi? Você vai embora?
— É, eu vou… — Respondi sem sair de seus braços.
— E o que vai acontecer com a gente? – Ele perguntou baixinho em meu ouvido.
— Eu... Eu não sei — disse em meio às lagrimas.
Ele olhou dentro dos meus olhos e me deu um beijo. Não um beijo qualquer, um beijo de despedida, um beijo desesperado, um beijo que dizia “Adeus, mas nunca esqueça que eu ainda estou aqui”, em cada um de seus beijos eu me sentia segura, apaixonada e livre.
— Ei, — Ele disse calmo, quem o visse agora, naquele momento, nunca imaginaria o capetinha que ele já foi na sala. – eu ainda estou aqui não estou? Você sabe que eu te amo, não sabe? – Eu só concordei com a cabeça. – O que você acha melhor?
— Eu não sei. Não tem como a gente continuar junto, você era o maior pegador do colégio antes de começar a me namorar.
— É, antes de começar a te namorar, se você quiser continuar, eu vou ficar aqui te esperando.
— Você, e eu também, sabemos que não vai dar certo, Lucas!
— Então isso é um adeus? – Ele olhou-me preocupado.
— Acho que sim – Dei de ombros.
— Eu te amo. – Sorri enquanto ele me beijava levemente.
— Eu também te amo.
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