Reviravoltas
23 Balão de Gás Hélio - 02
Notas iniciais
— Ding Dom!
— Mitch, não saia do quarto se quiser continuar vivo e não se esqueça de buscar a Thami na hora marcada! — gritei correndo pelo corredor apressada.
— OK! — gritou em resposta trancando a porta do quarto.
Corri escada a baixo, já não estava tão animada com a expectativa da festa, mas queria muito saber a reação da Clary em relação ao "encontro", será que ela vai comentar alguma coisa com a gente?
— Estão atrasadas. — disse abrindo a porta para as duas garotas de cabelos coloridos.
— Culpa da Emma! — a ruiva anunciou sorrindo e me cumprimentando com um beijinho e um abraço, ainda precisava me acostumar em dar só um, não dois beijos no rosto como no Rio.
— Ei, nem vem que não tem! Fiquei um tempão no carro esperando a dondoca sair de casa! — Emma rebateu também sorrindo e repetiu o cumprimento da outra.
— Então vamos lá que não temos tempo! — falei conduzindo-as à escada.
Não precisei nem indicar o quarto, as duas já sabiam. Estranhei de início, mas depois lembrei que as duas deviam ter ido àquela casa várias vezes, por causa do Mitchel e do seu melhor amigo.
— Podemos começar? Primeiro, todas mostrem os modelitos de arrasar! — Emma pediu animada.
Uma por uma mostramos tudo, as roupas, saltos, máscaras, acessórios e maquiagem. Sem dúvida a roupa da Emma era a mais bonita, ela iria pra causar!
Deixamos minha playlist tocando várias músicas agitadas, para animar ainda mais. Primeiro hidratamos o cabelo (e eu aproveitei para retocar minhas madeixas), depois fizemos as unhas combinando com cada roupa, de um jeito que não fosse brega é claro, e partimos para a maquiagem.
— Essa festa vai dar o que falar, escrevam o que eu digo, queridinhas.
Eu e Clary nos olhamos e rimos da Emma. Ela e suas besteiras…
— Riam a vontade, essa festa vai bombar, o Greg e a Meg não jogam pra perder.
— Isso é verdade, não tenho dúvidas de que a festa vai estar linda e vai durar a madrugada inteira, as festas deles são as melhores! — Clary disse sorrindo, ela estava muito risonha, mas não contou nada sobre o "encontro".
— Não é só disso que eu tô falando, ruivinha, tô falando que vai ter babado.
— E como você sabe? — perguntei curiosa passando o blush.
— Boatos, queridinhas, boatos... – ela respondeu misteriosa.
— Para de palhaçada, Emma! Eu não ouvi boato nenhum!
— Nem eu! – apoiei.
— E como ouviriam? Parecem duas pedras ambulantes, não vêem nada, não ouvem nada!
— Já que a gente não ouve e não vê nada, — Clary fingiu-se de ofendida. – conta pra gente.
— Os calouros da UC vão! – Emma disse sorrindo. – E, mas disso eu não tenho tanta certeza, — falou pondo uma mecha do cabelo azul para trás da orelha passando o rímel em seus cílios volumosos. – tão dizendo que alguns veteranos vão! Vocês têm ideia disso? VETERANOS! – ela vibrou animada.
— Você tá brincando? – Clary parou de passar o delineador e encarou-a perplexa. – Veteranos da UC?
Deixei a sombra escura de lado tentando entender o que diabos é UC. Olhando de uma para a outra sem me notarem estagnada no meu lugar.
— UC? – perguntei simplesmente, ao passo que Emma me ignorou.
I Don’t Care começou a tocar e Emma fez questão de por o volume no máximo, irritando os meus ouvidos.
— EU AMO ESSA MÚSICA! – quase não distingui o que ela gritou.
— DEIXA DE SER EXAGERADA, EMMA! ABAIXA ISSO! – a ruiva também gritou para ser ouvida.
Furiosa pela repentina mudança de assunto e por ser ignorada, simplesmente fui até meu celular, que estava conectado a uma caixinha de som para o som ficar ainda mais alto, e pausei a música. Um silêncio se fez presente e todas nós paramos, uma olhando para outra, assustadas pelo sumiço do som.
Raivosa, encarei as duas.
Então, sem mais nem menos, como se alguma força exterior nos forçasse a isso, nós três começamos a rir incontrolavelmente.
Gargalhamos sem um aparente motivo para isso.
— UC é uma universidade, Bú! – Clary explicou, deixando tudo mais claro.
Depois de nos acalmarmos um pouco (e rirmos mais um tiquinho assim…), coloquei a playlist pra tocar novamente abaixando um pouco o volume e voltamos a conversar descontraidamente.
— Eu tô muito ansiosa para essa festa, mas nem por isso tô tão risonha quanto você, — Emma disse acusadora olhando fixamente para Clary. – ruivinha.— falou dando ênfase ao apelido.
— Eu? – Clary indagou corando. – Ri-risonha?
— Iiih! Gaguejou?Tem culpa no cartório, pode falando! – mandei, mesmo já suspeitando da razão do sorriso que não saía do rosto da ruiva.
— Bora, Clary, desembucha! Não te vejo tão animadinha assim há um bom tempo!
— Nada a ver, gente! Pode parando de brincadeira. – ela disse nos ignorando e voltando a passar o blush.
Eu e Emma nos entreolhamos e sorrimos ao percebermos que nós duas estávamos pensando exatamente igual.
— É garoto, né?— Perguntamos em uníssono.
A ruivinha arregalou os olhos e suas bochechas coraram em uma velocidade surpreendente.
— Acertamos! – falei para Emma.
— Agora nem adianta esconder, — Emma disse fazendo pouco caso. – quero detalhes. – ela olhou inquisidora e levantou uma das sobrancelhas para a ruiva envergonhada, depois voltou a colorir a boca com um batom vinho escuro.
— Tá, tá, vocês venceram! – Clary disse rendida, e, fingindo estar despreocupada,prendeu os cachos feitos em um penteado lindo e delicado. – Bem, nem me perguntem que eu não vou falar quem é o garoto! – querida, isso é o que menos importa! Já sei mesmo! Mas obviamente não falei isso em voz alta. – Mas hoje nós fomos ao cinema e foi tão legal! Não foi bem um encontro ou algo do tipo… — Não, não, imagina… — Foi tudo sem querer, nada forçado, como se o destino quisesse nos juntar! – ela disse sorridente.
— Menos, Clary, bem menos… — Emma interrompeu.
Conheço muito bem esse destino…
— Posso continuar? – Clary disse “zangada”. — Que ele é super legal eu já sabia, mas não tinha ideia do quão fofo ele é! Eu já o conheço faz um tempo, mas… Bem, não conhecia esse lado dele. Ele foi um perfeito cavalheiro e me respeitou muito, mesmo eu vendo nos olhos dele que ele queria alguma coisa a mais… — ela finalizou suspirando.
Então algo piscou em minha mente. Mas que droga! Eu tenho que lembrar! O que estou esquecendo?
Deixando de lado meu súbito Alzheimer: 1º Não sei como ela não tinha reparado antes o quanto o Andrew é louco por ela, fala sério, está praticamente estampado na cara dele em letras garrafais piscando: ‘ESTOU APAIXONADO PELA CLARY’! 2º Que ele é um fofo está bem claro, pelo menos pra mim. 3º Vamos combinar, não deve ser difícil se apaixonar pela Clary, toda meiga e adorável, tenho certeza que o Andrew vai pirar ao vê-la hoje, ela está ainda mais bonita, com um batom nude, uma maquiagem simples puxada para o bronze e o cabelo em cachos espetaculares caindo de uma trancinha delicada que dá a volta pela cabeça.
— Ai, Clary, você é tão bobinha! – Emma disse revirando os olhos se levantando do banquinho da penteadeira. – Ele deve ser super grudento e romântico… Bléh! – colocou a língua pra fora fazendo uma careta estranha.
— E essa não é a melhor parte? – Clary perguntou sorrindo.
— Claro que não! Ele pelo menos é bonito?
— É! – a ruiva afirmou mordendo o lábio inferior.
— Ruiva, você é patética quando está apaixonada!
— Eu não tô apaixonada, Emma! Eu só acho ele legal…
— Apaixonada, apaixonada, apaixonada… — cantarolei sorridente.
— Vocês inacreditáveis! – Clary disse rindo.
— Se eu fosse você já teria pego o bofe de jeito e lhe tascado um beijo de tirar ofôlego!
— Emma!
— Sinceramente, — falei sorrindo. – eu também, Clary!
— Meu Deus, vocês são duas pervertidas!
Juntas rimos enquanto colocávamos nossas roupas, com os devidos penteados prontos.
— Agora só faltam os acessórios e as máscaras! – falei sorrindo. – Eita! – exclamei lembrando que não fazia ideia de onde a minha estava. — Vou ter que ir lá ir baixo pra pegar a minha, já volto, girls!
Desci as escadas correndo à procura da minha máscara e por fim a encontrei em cima da mesa da sala.
— UAU! B-bruna, você está incrivelmente… Eu não tenho palavras! Caramba! Eu tenho a irmã mais linda do universo! – Mike chegou me surpreendendo com seu sorriso que chegava aos olhos.
— Obrigada, pequeno! – falei lhe dando um beijo estalado na bochecha corada. – Vem cá, deixa eu te mostrar minhas amigas, você conhece a Clary e a Emma?
— A ex- namorada do Mitchel e a ex-namorada do Matt?
— Exatamente. – falei sem graça. – Mas eu acho melhor a gente não tocar nesse assunto perto delas.
— Ok, — ele disse dando de ombros. – eu estava mesmo com saudade delas, nunca mais vieram me ver…
Ri de sua carinha emburrada e fomos para o meu quarto.
— Todas vestidas? – perguntei antes de entrar.
— Estamos, sim, por quê?- Emma indagou abrindo a porta.
Não pude deixar de rir da cara perplexa do pirralhinho, mesmo concordando com ele.
Emma estava maravilhosamente linda! Seus cabelos azulados estavam presos em um coque baixo e despojado e uma tiara preta ajudava a segurar o penteado e deixá-lo ainda mais bonito. A sombra escura marcava os olhos, dando a ela um olhar avassalador, a boca manchada em vinho escuro completava a maquiagem perfeita, mas isso não é tudo, não! A máscara preta deixava seu olhar ainda mais misterioso, o croped preto de zíper e a saia magnífica finalizavam o look estrondoso, sem contar a pulseira de pérolas e os longos brincos negros.
— E-Emma? É você mesma?
— Mike! – Emma gritou sorrindo. – Que saudade, pirralho! – Ela disse o abraçando fortemente.
— Emma, seu cabelo! A senhorita só pode ser louca!
— Eu?- ela indagou brincalhona. – Você que é louco, pirralho! – ela disse bagunçando seus cabelos negros.
— É, talvez eu seja mesmo louco… — Mike suspirou baixo. – Tem como alguém ficar louco de amor, Bruna? – Ele cochichou em meu ouvido para que Emma não ouvisse.
— É o quê?—indaguei perplexa analisando-o com a testa franzida.
— Emma Evans, — ele disse sério, em alto e bom-tom, me ignorando. –eu estou achando que estou apaixonado por você. Estou louco?
— Awwwwwn, Mike! Que saudade! – Clary apareceu quebrando o “clima” entre eles.
Eu e Emma seguramos o riso na frente do pequeno.
— Olá, Clary. A senhorita também está magnífica, desculpe minha falta de… — ele parou por um momento, parecendo cogitar algo, e então continuou sério. – de cavalheirismo, mas tenho que me retirar.
— Mike! Não seja mal-educado com a Clary, ela é minha amiga!
— Você pediu para não tocar no assunto, Bruna. Eu realmente não posso ficar neste recinto, em nome das lágrimas de certo alguém, — ele murmurou audivelmente. -minhas sinceras desculpas. – o pirralho disse saindo triste.
— Desculpa, Clary, eu não sei o que deu nele… — tentei melhorar a situação.
Bem, acho que todas nós sabíamos. Provavelmente os meninos devem ter algum “código” para não falarem com as ‘exs’ dos irmãos.
— Eu sei… — ela disse cabisbaixa. – Eu vou ao banheiro… retocar a… vocês sabem, a maquiagem.
Mesmo que sua maquiagem estivesse perfeitamente intacta e esplêndida, nem eu nem Emma falamos nada.
[…]
— O Will e o And já estão lá embaixo! – Emma anunciou sorridente. – Eles vão pi-rar!
— Para de exagero, Emma. – falei com uma voz entediada.
— Eu não tô exagerando, Bú! E vê se se anima!
Animada realmente não era a palavra certa pra me descrever. Sentada na cama investiguei cada pedacinho da minha cabeça tentando descobrir o que diabos eu esqueci.
— Eu desisto. – acabei falando em voz alta.
— O quê? Você não vai mais? – Clary finalmente saiu do banheiro. – Nós perdemos um tempão nos arrumando, você não pode desistir assim! – ela disse fazendo tempestade em copo d’água.
— Não pira, ruiva, é claro que eu vou. Deixem isso pra lá, eu só pensei alto. – murmurei em resposta. – Vão descendo na frente, eu já vou, só tenho que dar tchau para o Mike e… — hesitei por um momento. – Checar uma coisa.
— Oka-ay! – Emma cantarolou. – Vem, Clary, você vai ver que eles vão pirar, mas vê se não perde a cabeça porque eles também estão lindos!
Meu coração deu um pulo só de imaginar o Müller.
Assim que as meninas desceram me despedi do Mike e entrei no quarto do Mitchel esperando do fundo do meu coração que ele já tivesse ido, mas, ao mesmo tempo, já sabendo que ele ainda não tinha saído.
— Mitchel Collins! – falei autoritária ao entrar no quarto sem ao menos bater na porta. – O que você ainda está fazendo aqui?
Sentado na cama, ele calçava o sapato apressado, não pude deixar de notar o quão arrumado (e bonito) ele estava, com uma máscara cobrindo metade do rosto os cabelos já secos levemente despenteados e a roupa à caráter, ele estava lindo! Uma blusa branca de botões por baixo de um colete preto justo, no estilo baile de máscaras mesmo, espetacular, Thami que se cuide,hein?
— Eu dormi, isso que aconteceu, me atrasei pra caramba e ainda tô aqui. – ele murmurou zangado ainda amarrando o cadarço.
— Depois diz que não é lerdão! – falei rindo. – Eu já vou indo, a gente se encontra na festa!
Ele se levantou rápido e assim que me encarou parou no lugar, um sorriso singelo brotou em seus lábios finos.
— Caraca! Bruna? É você mesmo? – ele arregalou os olhos quando foi se despedir de mim. – Além da Thami, ainda vou ter que ficar de olho em você! Os caras vão matar por você!
— Para de drama, Lerdão. Vai logo buscar sua dama, antes que ela canse de te esperar! Beijo!
— Tchau, maninha! Vai descendo na frente, mas já tô indo também.
Saí do quarto rapidamente e, ao chegar no topo da escada, Emma me gritou:
— Ainda vai demorar muito, Bú?
— Estou descendo! – acenei do andar de cima.
E então eu o vi.
Com o cabelo negro ainda um pouco molhado caindo nos olhos, meu coração perdeu uma batida só para, então, acelerar mais que tudo. Como ele pode ser tão bonito? Minhas pernas ficaram levemente bambas, e tive que me apoiar no corrimão para não me desequilibrar, quando nossos olhares se encontraram, seu olhar era um reflexo do meu, profundo e inlegível. Era como se só estivéssemos nós dois ali.
— Tá esperando o que, Bruna? – Emma gritou.
Só então me recuperei do choque e desci as escadas evitando seu olhar que pensava em mim.
— Vamos, galera?
Bem, era para termos ido naquela hora, mas a Emma tinha esquecido o celular no andar de cima e tudo daria certo se no momento em que a ela subiu as escadas o Mitch não tivesse aparecido.
Mas ele apareceu.
E se não tivesse acontecido com ele e com a Clary a mesma coisa que comigo e com o Will.
A tensão no ar era quase palpável. A ruiva e o moreno se olhavam tão intensamente quanto é possível, os olhares não se desgrudavam e ao redor nós (eu e o Willian, no caso, já que a Emma ainda procurava o celular no meu quarto) estávamos muito sem graça, diferente do Andrew que tinha o olhar, antes tão apaixonado, soltando faíscas.
— Eu acho melhor a gente esperar no carro, Bruna. – Willian sussurrou olhando da situação para mim.
E eu quase me perdi naqueles olhos nebulosos novamente, mas me contive.
— Também acho. – falei desviando o olhar para o chão, absolutamente envergonhada.
Eu também acho que isso teria dado certo SE (e lá vamos nós com mais um ‘se’) a Emma não tivesse aparecido na escada e gritado com sua voz tão baixinha e dócil, sintam a ironia:
— ACHEI! PARTIU, MEU POVO!
A Clary e o Mitchel por fim saíra da “hipinose” e desviram o olhar, mas o Andrew continuou a encarar o Mitchel na maior cara de pau.
— Foi mal, gente… — Emma se desculpou encabulada. – Eu não tinha percebido nada…
— Tudo bem, Emma, não foi nada de mais… — Clary tentou amenizar a situação, mas ela e o Mitchel continuavam a se olhar, desviavam o olhar procurando o nada e então se encaravam de novo.
O silêncio predominou novamente, exceto pelo “toc, toc” constante do salto da Emma descendo as escadas.
— Vem, And, vamos indo na frente. – ela disse baixinho, mas pelo que parece ela ainda não tinha “percebido” essa parte.
— Não, eu vou ficar aqui. – ele elevou a voz, sério.
O Müller, que também encarava o meu irmão, franziu o cenho e desviou o olhar para o And.
— And, vem... – Emma sussurrou (mesmo que todos ali ouvissem) e tentou puxá-lo pelo braço.
Mas ele não se moveu sequer um milímetro.
— Não, eu já disse que eu vou ficar.
Nesse momento todos os olhares já caíam sob ele, mas seu próprio olhar não deixava de encarar o “adversário”.
— Ninguém vai ficar, Andrew. – falei num impulso. – A gente vai pra festa, todos nós. – dei um olhar inquisitivo ao Mitch. – Vamos pro carro e você –enfatizei subindo as escadas. – vai pro seu carro.
O empurrei levemente escada à baixo e murmúrios baixos, quebrando o gelo, foram emitidos por todos.
— Vem no meu carro, Emma. – Andrew chamou-a com o olhar desolado.
— Mas… — a ruiva tentou retrucar mas foi impedida pelo Müller.
— Você vem comigo, Clary. – falou curto e grosso.
E quando todos já estavam do lado de fora, só sobramos eu e o Lerdão.
— Você é um homem morto, espere só até eu voltar.
[…]
O Müller dirigia no banco da frente, concentrado na rua a frente, os braços rígidos mostravam o delinear dos músculos por baixo da roupa, os nós dos dedos brancos de tanta força que fazia ao segurar o volante, ao lado a ruiva estava mergulhada em seus pensamentos, a cabeça pendia para o lado, encostando na porta do carona e o olhar vago na paisagem, sem conseguir conter-me passei a mão levemente pelo braço do Will e ele relaxou um –pouco.
Voltei a encostar no banco de trás e espantando todos os pensamentos sobre Willian Müller meu suposto esquecimento veio à tona, passei todo o percurso tentando lembrar o que eu esqueci.
Assim que chegamos a festa, pela simples troca de olhares, decidimos não tocar no assunto, pelo menos por enquanto.
A festa está estupenda, logo na entrada fomos super bem recebidos pela Megan, que é um amor de pessoa, e pela pista encontramos o Greg, já completamente bêbado. A decoração era de tirar o fôlego, toda detalhada na prata e no ouro, bem no estilo baile de máscaras antigo, contrastando com nossas roupas modernas. Um tapete vermelho cobria o chão, lustres pendiam do teto, castiçais espalhados por cada parte, tudo feito minuciosa e perfeitamente.
E eu? Bem, eu estou totalmente deslocada. Não que as pessoas não me dessem atenção ou algo do tipo, eu simplesmente estava com a cabeça longe, eu sabia que estava perto de descobrir o que era, a resposta na ponta da língua, mas ao mesmo tempo ainda não tinha sequer uma dica do que podia ser.
Fui ao bar saindo da “muvuca” e apoiando o bar na bancada.
— Uma água com gás, por favor.
— Nada de álcool? – o barman tentou puxar conversa.
— Acho que fui bem clara, ou você é surdo? – olhei entediada e peguei minha água saindo dali.
Não sem antes ouvir um: “Não tá mais aqui quem falou, estressadinha!”.
Em dúvida entre ir para a pista e voltar ao bar ouvi a irritante e melodiosa voz que eu reconheci antes mesmo de ver quem era.
— Ah, quer dizer que tentou arrumar essa vassoura que chama de cabelo? – Lacey deu o ar de sua graça maravilhosamente arrumada.
Uma blusa estilo corpete azul marinho, uma saia longa em degrade com um corte lateral e uma máscara combinando com o visual absolutamente irritante.
Sinceramente, paciência não pode me definir no momento. Então a ignorei e olhei para o lado, observando a pista cheia de gente.
Ir ou não ir? Eis a questão.
— Só pra você saber, — ela continuou. – não adiantou nada.
— Pelo amor de Deus, Lacey, poupe-me! — respondi na lata, estressada.
Ir, com certeza ir.
Adentrei a pista cortando o monte de gente até encontrar alguém que eu conheço.
— Vem dançar, Bruna! – Megan me gritou animada.
Engatamos uma conversa animada em meio a danças e músicas agitadas, mas eu só estava parcialmente lá. Por dentro não estava tão feliz como aparentava, só tentava espairecer um pouco, tentando deixar de lado os pensamentos. O lugar escuro, as luzes coloridas cegando, as músicas altas, as conversas exageradas... Tudo me ajudava a não pensar, não que estivesse adiantando muito.
Pra mim, a festa passou como um borrão, estava alheia a tudo e todos e parece que só agora voltei a realidade ao ouvir a voz doce e animada da aniversariante, que nem sequer tinha percebido sair de perto de mim.
— Pessoal, eu gostaria de agradecer a presença de todos e anunciar que hoje, cinco de setembro, às onze e cinquenta e nove, entram por aquela porta os mais esperados... – ela fez uma pausa intencional e abriu os braços indicando os garotos que chegavam quando completou: — Alunos da UC!
Os garotos mais lindos do mundo entram pela porta. As roupas absurdamente linda, e provavelmente caras, as máscaras cobrindo, algumas somente metade do rosto, outras, o rosto inteiro, deixando somente os olhos aparecendo.
Suspiros foram arrancados de várias garotas e as mais assanhadas já foram pra cima dos recém chegados.
O tumulto aumentou e, no meio daquela música agitada e tanta gente, meus pensamentos se misturaram, fechei os olhos para me livrar da tontura repentina. Com isso meus pensamentos se organizaram e, então, por fim… Lembrei. Lembrei do que tinha esquecido, da data tão especial perdida no fundo da minha mente. Cinco de setembro.
“Era uma quarta-feira, ou melhor, quinta, porque já passara da meia-noite, exatamente há um ano. Lucas estava lá em casa desde que a aula havia acabado e ficaria por todo o fim de semana extendido, quinta e sexta não haveria aula. Assistimos alguns filmes e comemos pipoca de microondas e brigadeiro, quando vimos a hora, já amanhecia. E, então, às seis e meia fomos dormir. Simplesmente dormimos, aconchegados, ele me abraçando, me protegendo. O Lucas sabia que a Vovó havia morrido há pouco tempo e eu ainda estava sentida, eu amava aquela velhinha. Manuela e Otávio tinham viajado na terça de noite e só voltariam na segunda pela manhã, estavam resolvendo coisas do enterro que seria na cidade natal da vovó, eu insisti muito para acompanhá-los, mas não deixaram.
E lá estava eu dormindo tranquila. Nem senti quando Lucas se levantou da cama.
Acordei sem lembrar que dia era. Abri os olhos devagar quando não o senti ao meu lado e estranhei, mas, assim que os abri, eu vi. Vi um rosa vermelho sangue ao meu lado, entrando em contraste com o branco do lençol. Sorri ao lembrar da data, nosso aniversário de namoro. Um ano.
Sentei-me na cama com um sorriso singelo nos lábios e ele se alastrou por todo o rosto, chegando aos olhos quando vi um caminho de pétalas vermelhas para fora do quarto. Segui o caminho até fora de casa e cheguei ao jardim sorrindo.
O jardim estava repleto de flores, formando um caminho até o centro. Meus olhos encheram-se de lágrimas e não pude contê-las por sequer um segundo.
— Amor? — chamei sorrindo.
Lucas estava sentado em uma das duas cadeiras que rodeavam uma mesinha branca, com os braços apoiados na mesa e a cabeça deitada sobre os braços. Ele estava absolutamente lindo, mesmo que eu não conseguisse ver seu rosto, sabia que estava sereno, como sempre, usava uma calça jeans escura e uma blusa azul claro de mangá longa que eu havia lhe dado há algum tempo, seu cabelo estava bagunçado e eu sabia que se eu sequer triscasse em um fio de sua cabeleira dourada escura, ele acordaria reclamando do quão sujo seu cabelo ficaria depois disso.
Mordi o lábio sorrindo e, sem conseguir me segurar, passei a mão dentre seus fios volumosos. Bem, a única coisa que posso dizer é que aquele foi o melhor dia da minha vida.”
As emoções me pegaram de surpresa, um misto de saudade, alegria e tristeza, tudo junto e misturado, meus olhos se encheram de lágrimas sem que eu pudesse controlar, tudo em volta pareceu sumir, a música tocava bem no fundo da minha mente e nada mais importava senão o dono daqueles fios dourados tão amados que deixei pra trás. Aquele garoto que já estava tão longe, mas ao mesmo tempo tão perto no meu coração.
Comecei a hiperventilar com tanta coisa passando em minha cabeça, isso tudo é ainda muito novo pra mim. Todas aquelas mudanças me chocaram mais do que eu posso suportar e ao fechar os olhos inspirando fundo, não consegui abrí-los novamente.
Vozes baixas eram ouvidas, braços fortes me seguraram firme quando senti minhas pernas fraquejarem.
Tentei abrir os olhos, um rosto era coberto por inteiro por uma mascara, só os olhos eram vistos. Lindos olhos, penso. Olhos de um chocolate intenso que me focavam intrigados e preocupados, tenho a leve impressão de reconhecê-los de algum lugar.
Desisto de pensar, mas não consigo, a única coisa que me vem a cabeça é um balão.
Um balão de gás hélio.
Assim que eu me sinto, com os olhos já fechados e totalmente alheia a tudo, me sinto como um balão de gás hélio.
Um balão que foi murchando ao longo do dia. Antes, inflado.
Inflado de alegria, animação.
Agora, murcho.
Murcho, vazio, sem nada por dentro.
Pisco repetidas vezes e a última coisa que ouço é o dono dos olhos preocupados dizendo:
—Ei, não fecha os olhos não, viu? E nem pense em ir direção à luz! – ele continuou baixinho, mais perto de mim, com um sorriso sendo formado no canto dos lábios. – Uma dica: vá sempre contra a luz.
Com os pensamentos me deixando ainda mais confusa, enfim, desmaiei.
Fale com o autor