Reviravoltas
26 A carta
Notas iniciais
Califórnia, 5 de setembro de 2014
Cara Bruna,
Não sei direito como começar esta carta e, para falar a verdade, estou me sentindo uma garotinha (sem ofensas!). Mas pensei que te contar pessoalmente seria ainda mais constrangedor, então a solução que encontrei foi escrever a carta mesmo. É claro que você sabe do que se trata, então, vamos direto ao assunto...
Nervoso. Essa palavra me definia no momento. Não que eu nunca tenha ficado a sós com a Clary, mas era diferente, eu estava apreensivo, pensando seriamente em dar meia volta e tomar outro banho. Desde que descobri que a minha amizade com a Clary estava virando algo mais, é assim. Nervosismo o tempo todo, não que ela note, é claro. Eu não pretendia me declarar abertamente ali, quero conquistá-la aos poucos.
Não aguentava mais esperá-la, mas ela nem estava tão atrasada, uns cinco minutos no máximo. Mas eu cheguei cedo demais. Saí do colégio voando e estava em casa mais cedo que o costume, tomei um banho gelado pra me acalmar e me arrumei depressa, saí tão rápido que esqueci de colocar a comida do Galileu (meu gato, você ainda não o conhece). Então lá estava eu com um saco de pipoca gigante e uma barra de chocolate, ainda bem que ela não gosta de beber nada no cinema (pra não ter que ir ao banheiro e perder alguma parte do filme) porque as bebidas estariam quentes. Foi quando eu vi.
Eu vi seus pezinhos balançando para frente e para trás, ela tem essa mania, sabe? Ficar subindo e descendo na ponta do pé. Voltei meu olhar para cima analisando-a com cuidado. Ela usava um tênis laranja estiloso, uma calça rasgada e uma blusa creme que eu não sei explicar muito bem. Um sorriso preenchia seu rosto. Às vezes quando fecho os olhos consigo ver seu sorriso travesso.
“Ei, cadê todo mundo?”
Ela sorriu desconfiada e eu comecei a suar frio. Não pela presença dela, — que sempre me deixava tranquilo – mas pela situação.
“Aqui. ”, apontei pra mim mesmo e expliquei a situação, disse que você e o William tinham que fazer o trabalho e que a Emma estava na biblioteca, tentando não gaguejar, até porque ela não podia desconfiar de nada.
“Você ainda vai querer assistir o filme?”, perguntei pois vi a dúvida em seu olhar, jurava que ela ia falar que, já que ninguém mais iria, ela ia embora, “É que tô com essa pipoca toda, sabe? E já até comprei nossos ingressos.” Ela me encarou desconfiada, “Eu tenho chocolate!”, dei meu último lance.
É, consegui. Nós fomos ver o filme. Quando entramos na sala o trailer nem tinha começado ainda, ficamos jogando papo fora, ela me disse que ela e a Emma tinham combinado de se arrumar juntas na sua casa, pra festa. Eu fechei a cara na hora. Ela percebeu e perguntou se tinha algo de errado, respondi que era só a demora do filme, até porque tínhamos que ir pra festa depois. Ela acreditou, mas na verdade eu não gostei nada dela se arrumar aí, na casa do Mitchel. Espero que você tenha se precavido e eles não tenham se encontrado...
Enfim, o filme começou, era de terror, mas os personagens eram muito engraçados por isso tirava a maior parte do medo e acabamos rindo bastante, até esqueci do seu irmãozinho (foi mal!). Às vezes eu me pagava olhando pra ela, na moral mesmo, o sorriso dela é o mais lindo que já vi (cara eu sei que eu tô parecendo um gay e por isso mesmo assim que você acabar de ler isso vai queimar sem pensar duas vezes, sério!). Nas partes iniciais, as engraçadas, nós sempre acabávamos comentando sobre alguma coisa e, em qualquer parte que eu ria, eu olhava pra ela, pra ver se ela também tinha achado engraçado. Do meio do filme para o fim, as partes tensas apareceram com mais frequência e até eu estava achando o filme pesado. Olhei-a, senti ela encostar em mim e ia perguntar o que ela estava achando, mas seus olhos estavam fechados com força e o rosto dela estava virado para o meu ombro.
“Ei...” chamei baixinho, ela me olhou devagar, “Tá tudo bem?” sussurrei. Ela respondeu que o filme dava um pouco de medo e que não era pra eu rir dela (eu não conseguia tirar o sorriso do meu rosto) porque todo mundo tem medo de alguma coisa. Eu disse que ela podia segurar minha mão se precisasse e a estendi brincando, mas ela a segurou firme, senti choques percorrem minha mão e olhei rapidamente para nossas mãos entrelaçadas. Os dedos dela tão finos e delicados se encaixavam nos meus de uma maneira engraçada. Ela também olhou, mas logo voltou os olhos pro filme.
Ela tirou a mão.
Quando eu percebia que ela tava mais tensa e apertava a própria mão, eu puxava a mão dela pra mim e a acariciava de leve.
O filme acabou de uma maneira não tem feliz assim e logo que as luzes acenderam ela levantou e a gente saiu com o resto das pessoas da sala. Mas (sim há um ‘mas’) tinha um babaca na nossa frente que quis dar um susto no amigo dele, acabou trombando na Clary e ela quase caiu no chão (aquele brutamonte empurrando ela, toda pequena, não era pra menos). Sorte que, antes que ela realmente caísse e desse de bunda no chão, eu consegui segurá-la pela cintura e a levantei devagar.
Falei que o garoto era um idiota e perguntei se ela queria que eu falasse com ele já a soltando e indo tirar satisfação com ele que nem olhou pra trás pra se desculpar. Mas suas mãozinhas me puxaram pelo ombro e minhas mãos automaticamente voltaram pra cintura dela, “tá tudo bem, sério” ela respondeu me olhando intensamente com aqueles olhos verdes. Eu cheguei mais perto dela porque ainda tinha muita gente ao redor e por um momento ela ficou estática olhando da minha boca pros meus olhos.
Você não tem noção do quanto eu me controlei pra não beijá-la ali mesmo.
Só que eu quero ter certeza de que vai dar certo, sabe? Não quero beijá-la por beijar, quero que ela sabia o quanto eu gosto dela.
Ela acabou me soltando e eu a soltei também, ficamos em silêncio por um tempo enquanto saíamos da sala. Fomos pra praça de alimentação e a conversa leve voltou ao normal. É incrível como eu rio mais com ela do que com qualquer outra pessoa.
Nós lanchamos e passeamos um pouco pelo shopping, conversamos muito e o tempo passou voando. Quando vimos já era hora de ir, como eu tava de carro disse que a deixava em casa, porque ela ainda tinha que arrumar as coisas dela antes de ir pra sua casa.
Enfim, cheguei em casa há pouco tempo e eu estou realmente com esperanças, Bruna, ela parece tão confortável quando está comigo, acho que no final das contas seu plano deu certo. Eu tenho que me arrumar pra festa também, quando eu voltar quem sabe não te conto mais coisas.
Tô animado pra festa.
Que vontade de rasgar essa carta, quantas baboseiras, céus! Deu tudo errado, são duas da manhã e eu aqui sem conseguir dormir por causa daquela ruiva... Esses papéis são não foram parar no lixo porque agora que eu não quero tocar nesse assunto com ninguém mesmo, depois que ler a carta por favor não me venha com perguntas.
A festa foi um desastre como já deve ter dado pra perceber. Seu irmão sabe mesmo como estragar as coisas, né?
Resumidamente, depois daquela ceninha na sua casa eu não tava com cabeça pra falar com ela, nem com ninguém. Não sei por que ela ainda se deixa afetar por ele. No carro Emma não parava de tagarelar, mas eu só ouvia parcialmente o que ela falava.
Depois de falarmos com a Meg eu me separei de vocês, acho que todo mundo se separou né? Falei com os garotos da robótica por um tempo e depois me afastei deles também. Tenho que confessar que às vezes eu procurava uma cabeleira ruiva. Em uma dessas vezes eu a vi e percebi que ela procurava por alguém, mas não tinha como saber se era por mim ou pelo Mitchel, então só me misturei à multidão.
Depois de algum tempo me perguntei o que eu ainda tava fazendo naquela festa, eu nem me concentrava quando fala com alguém e sinceramente não sou o tipo de cara que fica com uma garota pra esquecer outra. Eu já me encaminhava pra porta quando a Clary apareceu na minha frente. “Andrew! Onde você tava? Eu te procurei a festa inteira!”, ela estava absurdamente linda, mas eu realmente não conseguia tirar a imagem dela encarando seu irmão. Respondi vagamente e ela disse que precisávamos conversar, eu disse que não, que sabia que o cinema não tinha significado nada. Nós conversamos brevemente antes de eu sair. Eu não precisava ouvir as palavras dela, eu conheço a Clary desde que me entendo por gente, ela não esqueceu o Mitchel ainda e a última coisa que quero é deixá-la mais confusa do que ela já tá, então só disse que não deixaria de ser amigo dela e etc., porque pior do que vê-la apaixonada pelo seu irmão é não vê-la nunca. Então sim, eu sempre vou estar do lado dela, mesmo que isso doa como o inferno.
A melhor coisa que fiz foi não tentar beijá-la no cinema, ela só ia se confundir mais e eu ia quebrar a cara, ela ainda é apaixonada pelo Mitchel, ela ia hesitar e eu não forçaria ela a nada.
Então foi isso, Bruna, obrigada por tentar, mas eu não tenho mais forças pra isso, eu não vou ficar me iludindo. Posso até parecer covarde por não tentar mais vezes, mas se eu tivesse alguma chance com ela eu não desistiria assim, eu não tenho chances enquanto o coração dela estiver com seu irmão.
Vejo você no colégio, não tente me convencer a nada, o assunto morre aqui.
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