Reviravoltas
27 Resgate
Notas iniciais
Apatia
Sf: estado caracterizado por indiferença, ausência de sentimentos, falta de atividade e de interesse.
Depois de reler mais de uma vez a definição da palavra eu tinha certeza, eu estava nada mais nada menos que apática.
A semana passou sem grandes emoções e eu me sentia mais no corpo de alguém do que eu mesma. Depois da carta do Andrew eu não estava envolvida em mais nada, eu comecei a perceber que na verdade eu nem mesmo conhecia direito aquelas pessoas... Não sabia se a Emma tinha irmãos, ou que o Andrew tinha um gato (o que eu acabei descobrindo na carta), não sabia a relação da Clary com o Willian, ou o dia do aniversário de qualquer um deles.
O pior foi que eu percebi que eu não me importava.
Eu estava todos os dias com eles, mas me envolvia menos, ouvia menos, minha cabeça estava longe... Mas nem por isso eu voltei a me aproximar do pessoal do Rio, eles não faziam questão de me incluir nas conversas e nem se interessavam tanto pelo que eu dizia.
No meio da semana eu vi o quão sozinha eu estava. Sozinha numa cidade estranha, com pessoas desconhecidas.
Terça o Andrew não passou o intervalo com a gente de novo; na quarta tive um teste de literatura; quinta ligaram da academia confirmando o início das aulas só na semana que vem, mesmo eu achando que iam começar essa semana, não rebati; sexta teve uma festa na casa do Jullian (nem me pergunte quem é), todo mundo foi, mas eu preferi ficar em casa.
A semana, no geral, passou como um borrão pra mim. Eu sabia que a Emma tava super feliz trabalhando na biblioteca, mas não sabia por que a Clary tinha ido ao médico na terça; Eu sabia que o Andrew tinha cortado a mão, mas não sabia por que, nem como; Eu sabia que o Milke ganhou uma medalha de ouro, mas não sabia que olimpíada ele tinha feito.
Foi no fim de semana que eu comecei a me estranhar.
As pessoas falavam e eu nem me dava ao trabalho de ouvir, estava deixando algumas matérias acumularem mesmo sabendo que os testes estavam começando, dormia muito mais do que antes, não conseguia ler meus livros, nem me interessar por nenhuma série. No meio do sábado eu estava com o maior tédio do mundo, mas ao mesmo tempo não conseguia me concentrar pra fazer nada.
— Bruna! Visita pra você, vem aqui pra baixo! – ouvi o Mitchel literalmente berrar lá de baixo.
Sem saber que era só troquei meu short de pano por uma calça de moletom decente, continuei com minha camiseta preta e nem coloquei as lentes, continuei com os óculos vermelhos de coração. Desci as escadas pensando em quem chegaria assim do nada, sem nem mandar mensagem, no meio de um sábado ensolarado.
— Fala sério, pirralho, ficou muito legal assim, né? Aquele cabelo todo castanho era tedioso demais...
Descendo as escadas eu já via a Emma conversando com o Mike, todo fofinho, dava pra ver ele mexendo as mãos e torcendo os dedos, meio nervoso; mas nem sinal do Mitch, imagino como ele recepcionou a Emma.
— Não fale mal do seu cabelo, senhorita, ele era lindo... – Mike disse num tom apaixonado. – Não que agora não seja, é claro!
— Olha quem resolveu aparecer... – ela disse olhando pra mim que sorri fraco – Que cara de derrota é essa dona Bruna?
Já passavam das duas e meia da tarde e eu estava deitada na cama antes, minha cara toda amassada, meu cabelo um ninho de rato, não queria nem imaginar minha cara de derrota.
— Cara de cansaço...
— Tá cansada do quê? Nem foi ontem pra festa. – ela tirou jogou o cabelo pro lado e me olhou melhor enquanto eu descia os últimos degraus da escada — Nossa, adorei os óculos!
— Obrigada, tô aprendendo com você. – agradeci e a analisei sua roupa chegando no hall de entrada. Uma blusa grande larga com um shortinho de malha soltinho preto com girassóis, um chinelo simples e uma bolsa preta, um óculos de sol lindo e uma bandana traçada presa no cabelo como um arco. — Adorei o seu look também!
— Eu já vou subindo, senhoritas, comportem-se – o pirralho disse brincalhão.
— Aiai, hein, garoto! – dei um beijinho em sua cabeça antes dele subir.
Cumprimentei a Emma ainda me sentindo meio entediada e apática, mas sem querer demonstrar isso.
— Vem, vamos pra sala e aí você me conta o que você veio fazer aqui. – rimos juntas.
— Se você visualizasse o WhatsApp você saberia que eu estava chegando, né. — ela disse sentando e deixando a mochila de lado. — A propósito, você tá bem? Esse foi o motivo de eu ter vindo, na verdade…
— Como assim? Eu tô bem, ué, normal — abri um sorriso pra minha fala fazer mais sentido.
— Sei lá, você parece diferente, te achei fechada a semana toda…
Abaixei o rosto colocando uma mecha do cabelo pra trás, era difícil de explicar.
— Eu não sei, na verdade… Eu me sinto diferente mesmo… — fiz uma pausa esperando que ela falasse alguma coisa, mas ela só ajeitou a bandana e me olhou querendo mais explicações. — Olha, é que desde que eu cheguei aqui eu tenho me jogado muito de cabeça em tudo, sabe? — ela continuou esperando eu terminar, mas eu nem sabia direito como explicar o que eu estava sentindo se eu nem ao menos me entendia. — Eu meio que precisava de um tempo pra pensar, ou preciso ainda, não sei. Eu tinha amigos lá, entende? Eu tinha um namorado, eu tinha uma vida e ela simplesmente foi tirada de mim. Meus amigos estão cada vez mais distantes, meu ex-namorado nem sequer me responde desde que eu cheguei aqui… — a esse ponto as palavras saiam da minha boca antes de eu processá-las, e eu estava descobrindo coisas que eu nem sabia que sentia. — Eu sinto falta disso tudo, eu sinto falta da minha rotina, da minha normalidade… E eu sei que fui eu quem terminei com ele, porque isso era melhor do que aguentar ele me trair, mas ele era meu porto seguro, eu sinto falta da minha vida lá, mesmo ela não sendo perfeita, eu sempre brigava com meus pais, mas ele sempre estava lá por mim, além dos meus amigos, claro… — Emma me ouvia atentamente e eu sentia as lágrimas brotarem nos meus olhos, mas me sentia até mais leve depois de conseguir colocar essas coisas pra fora.
— Mas, ei, você sabe que eu tô aqui né? — ela se sentou mais perto e afagou minhas costas com sua mão. — Não só eu como todos nós, eu duvido que o Andrew, a Clary, ou o Will iam reclamar de passar mais tempo com você ou te ouvir desabar, você já faz parte do nosso grupo, Bu! Não vai sair assim tão fácil. — ela riu e me animou um pouquinho.
— É só que às vezes eu não me sinto parte do grupo… — ela me encarou fingindo estar brava. — Eu não conheço vocês de verdade, sabe? E às vezes... Eu sei que pode parecer besteira, mas quando eu tô com vocês eu sinto que cada vez mais eu tô perdendo o que eu tinha lá e cada vez vai ficando mais difícil me ver voltando, eu penso nisso sempre, em voltar, e cada vez que eu me aproximo de alguém aqui, mais difícil vai ser voltar. E, eu devo ser uma idiota mesmo, mas quando as coisas vão bem aqui, e eu penso que talvez eu não precise voltar, eu me sinto traindo "a Bruna do passado", sei lá, eu sinto que eu tô me traindo…
— Calma, calma! — ela me interrompeu sorrindo. — Você não trai seu passado seguindo em frente, na verdade é assim que você faz o passado, deixando ele pra trás, você não pode viver pra sempre pensando "e se eu ainda estivesse lá?", "e se…", você tem que manter a cabeça erguida e continuar, eu não tô dizendo que é fácil ou que vai ser fácil. O que eu quero dizer é: você pode, e na verdade deve, parar pra respirar e processar tudo isso, mas você tem que continuar, e não regredir. — ela segurou minhas mãos depois que eu limpei as poucas lágrimas e continuou — Eu sei que você conhece pouco da gente, e a gente também não te conhece por completo, mas essas coisas levam tempo, amizade leva tempo, e você está há tão pouco tempo aqui e mesmo assim eu já te considero uma irmã, — ela me abraçou de ladinho e eu acabei deitando no colo dela — de verdade, pseudoloira…
Seu cafuné era muito bom e ela estava decidida a me contar tudo sobre a vida dela. Ela contou que a mãe dela nasceu na verdade em Portugal, por isso os olhos dela são castanhos e o cabelo também, mas o pai dela na Inglaterra. Eles se conheceram quando a mãe dela foi fazer um curso de costura em Londres, ela acabou morando lá por dois anos e foi quando eles começaram a namorar e pouco tempo depois se casaram; a Emma mesmo nasceu em Londres e quatro anos depois a mãe dela engravidou de novo.
— Eu perdi totalmente o meu trono quando minha mãe engravidou, — ela continuou – mas quando chegou o dia do parto e descobriram que eram gêmeos, aí que meu reinado acabou de vez!
— Mentira! Você tem irmãos gêmeos? – perguntei me sentando.
— Tenho, dois pirralhos, eles estão com treze anos agora e a missão da vida deles é me enlouquecer, porque eu não consigo diferenciá-los, sério! – eu ri não acreditando que ela mora há treze anos com eles e não consegue dizer quem é quem. — Em teoria o Nick tem olhos azuis e o Jay verdes, mas só na teoria mesmo porque eu não consigo ver diferença nenhuma, nem meu pai... – ela riu – Pra falar a verdade só minha mãe sabe dizer quem é quem. E ela pode até parecer uma mulher bondosa e caridosa, sendo baixinha e gordinha com os olhos redondos e o cabelo cacheado, mas quando os gêmeos trocam de sala no colégio e chega o bilhete dizendo que eles são impossíveis, nem chega perto que a mulher vira um bicho. – nós rimos muito e eu já me sentia muito melhor.
— Você não quer beber alguma coisa? Vamos lá na cozinha, você não parou de falar desde que chegou, deve estar com sede, já!
Ela realmente estava morrendo de sede, coloquei um copo d’agua pra mim e um pra ela.
— Ei, — reparei em quanto ela bebia o copo inteiro em praticamente dois goles — isso que você tá usando por baixo da blusa é um biquíni?
— Eita! Caraca, eu já tava até esquecendo, que horas são? – ela disse pegando o celular no bolso – Esse foi um dos motivos de eu ter vindo aqui também, — ela disse ainda olhando pro celular – já são cinco e meia! Bora, Bruna, se arruma que a gente vai pra casa da mãe do Andrew, aquela chata da irmã dele viajou, graças a Deus...
— Emma, calma, eu tô muito melhor, juro, muito obrigada mesmo, você me resgatou. Mas hoje eu realmente quero ficar em casa, tenho que colocar em dia algumas coisas do colégio e tals...
— Ah, Bruna, vamos, por favor, vai ser legal! – ela tentou me animar finalmente.
— Eu prometo que eu tô bem, eu só quero ficar um pouco sozinha, processar tudo que você disse e o que eu disse também. – dei um abraço apertado nela e a encaminhei pra porta. – Olha, eu não quero te expulsar não, mas daqui a pouco o sol vai embora e você vai perder a piscina.
— Ó, garota, não quero você pensando nessas bobagens, se mudar de ideia é só ligar e se só quiser conversar é só ligar também, — ela deu um de seus sorrisos contagiantes e pegou a bolsa na mesa da sala. – fui! Manda um beijo pro pirralho.
—@-
— Não acredito que ela foi embora sem se despedir de mim...
Já passavam das sete quando lembrei do beijo que a Emma mandou pro Mike, achava que ele ficaria todo felizinho.
— Mas ela lembrou de você, Mike, ela só tava apressada.
— Faz sentido... Mas você sabe que eu corro super rápido — ele disse mexendo as mão fingindo que estava correndo — e eu desceria as escadas em meio segundo!
— Aham tá, — ri da imitação – menos, pirralho.
Notei vários papéis em cima da mesa dele e perguntei o que ele tava fazendo num sábado de tarde.
— Vai ter uma olimpíada na escola, então todos nós estamos estudando.
— Mas é sábado, Mike! Você tem que brincar! Olha esse por do sol lindo! – disse apontando pra janela onde o sol realmente se punha maravilhoso, em setembro o dia demorava a acabar mesmo.
— O Mitch disse que a gente vai brincar amanhã, eu não me importo, Bruna, eu gosto de estudar, é legal, olha só.
Ele me mostrou as contas e tudo mais, não era absurdamente difícil. Eu sabia a matéria, mas a lógica pra interpretar as questões não era fácil, e pra um garotinho de sete anos então...
— Mike, vamos descer, vem – tirei ele da cadeira – vamos apreciar o sol.
— Mas eu ainda não terminei essa questão!
— Vamos! Depois você termina isso, você precisa de ar puro.
O ar do lado de fora começava a esfriar, mas não suficiente pra usar casaco, a casa ficava virada pra leste, por isso tivemos que dar a volta nela e quando nos deparamos com o sol ele ainda esquentava a pele.
— Uau...
O céu estava pintado com tons de rosa e laranja fogo, o sol descia devagar e ainda demorou uns bons minutos até que ele sumisse de vez.
— Eu disse que era lindo.
— Acho que a gente deveria bater palmas.
— Tá falando sério pirralho? – ri baixinho do olhar maravilhado dele.
— Sério, você já assistiu um espetáculo mais bonito que esse? – ele me calou – Viu? Por isso é difícil de acreditar que átomos e moléculas e não sei mais o que formam isso, acho que tem um artista por trás...
— Quem sabe? – indaguei quando ele começou a aplaudir.
Acompanhei suas palmas quando o sol finalmente sumiu, o céu ainda estava meio claro daquele lado, mas a lua já aparecia nitidamente e algumas estrelas brilhavam ao redor, não havia nuvens no céu.
— O que você prefere? – Perguntei me apoiando com o braço esquerdo no chão e enfim deitando na grama gelada.
— Como assim? – Mike perguntou se deitando ao meu lado.
— O amanhecer ou anoitecer?
— Difícil... Não consigo escolher entre o dia e a noite também... Olha essas estrelas...
Alguns minutos se passaram em silêncio até que o Mitchel apareceu do nada.
— O que vocês estão fazendo?
— Vendo as estrelas, ué.
— Já são quase oito horas, a mamãe ligou avisando que não vai chegar a tempo pra comer com a gente e disse que o Mike não pode jantar muito tarde, então bora, seus malucos. – ele se virou e foi na frente balançando a cabeça e rindo de nós.
Eu e o pirralho nos levantamos, demos de ombro e fomos comer.
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