Revenge'S Queen
2 Capítulo II
Notas iniciais
Sua tia ficara furiosa na última vez em que ela voltara a casa, mas Erza não temia tia Mavis. Era o tio que a fazia tremer. Detestava ouvir-lhe a voz, ou melhor dizendo, os berros, quando a forçava a lhe explicar o motivo de seus constantes abandonos de emprego.
Odiava o tom de voz que ele adquiria ao reduzir a nada as explicações que lhe dava, repetindo sempre que ela precisava ganhar a própria vida, que quanto mais sedo parasse de criar problema no trabalho, tanto melhor.
Como Erza se ressentia dessas repreensões! Como se encolhia toda, embora fingisse não se importar com a cólera do tio e as gargalhadas dele ao saber dos esforços que a sobrinha fazia para preservar a castidade!
Lembrava-se da vez em que fora forçada a dizer-lhe por que razão abandonara o cargo de governanta dos filhos de um viúvo de meia-idade. O tio insistira em saber cada detalhe das investidas amorosas de seu empregador. E quando, envergonhada e humilhada pelo que relatava, Erza calou-se, ele riu, caçoando e dizendo que ela sempre fazia tempestade em copo d'água. As coisas não passavam, de acordo com ele, de produtos da imaginação doentia de uma mulher sexualmente anormal.
Naquele dia, Erza sentia-se pior, muito pior. E embora resolvesse falar o menos possível sobre seus problemas, não ignorava que, chegado o momento, o tio a forçaria a se abrir mais do que ela pretendera. Ele experimentava um prazer imenso em humilhá-la, e isso desde que Erza era criança. Mas começara a odiá-la de fato quando, ao ficar um pouco mais velha, ela decidira por um fim aos beijos "paternais" que o tio insistia em lhe dar à noite na cama. Ele a odiara ainda mais no dia em que fugira soluçando da biblioteca, num sábado chuvoso, para evitar as carícias devassas do tio. Sendo Erza bastante crescida, ele não podia mais espancá-la como antes.
Contudo, o conde de Vermillion era seu tio, seu tutor, e único parente. Às vezes ela pensava ser melhor agüentar as humilhações em seus empregos como governanta, pois sob o teto do tio era muito pior.
A última vez que partira de Fairy Tail prometera a si mesma nunca mais retornar; não obstante, lá estava ela, só três meses mais tarde. Fora impossível, humanamente impossível, continuar na residência do marquês de Erigor. Podia ainda visualizar o olhar cruel e dissoluto daquele homem, fixo em seu rosto, as mãos que a tocavam, a língua umedecendo os próprios lábios... O marquês ara um homem mau, de uma maldade que Erza jamais julgara possível existir no mundo; e ela ficara na casa dele por três longos meses, até chegar a conclusão de que não conseguia suportar mais.
Durante semanas dormira mal, cheia de pavor, e de dia, na sala de estudos com as crianças, ficava de ouvido atento ao ruído de passos no corredor. Não, não podia continuar mais. Melhor seria enfrentar a ira do tio Zeref...
Seus pensamentos foram interrompidos quando outra carruagem ultrapassou a sua, dessa vez um carro aberto. Erza divisou um rosto lindo e um chapéu enfeitado por rosas. A mulher abrigava-se do sol com uma delicada sombrinha de renda e estava acompanhada por um cavalheiro de chapéu alto e enorme cravo na lapela.
Havia um toque de elegância e romantismo no casal. Instintivamente Erza examinou o próprio vestido. Estava amarrotado e sujo, pois viajara horas por estrada de ferro. Sabia que seu rosto e cabelos deviam estar sujos também, e que tinha aspecto desleixado. Alisou um pouco a saia, mas concluiu que não havia muito a fazer para melhorar a aparência.
Seu vestido descorado era azul pálido, cor que alias não lhe caía bem. Isso porque invariavelmente Erza herdava as roupas da prima Kagura, mola morena de olhos claros, e que ficava muito bem de azul-celeste ou róseo-pálido, Para Kagura eram tons perfeitos; para Erza, um desastre.
As primas tinham mais ou menos a mesma altura, e nisso consistia à única semelhança entre ambas. Erza possuía cabelos ruivos como rubis e misteriosos olhos acinzentados iguais aos da mãe, mulher de rara beleza. Fora, na verdade, essa combinação de cores, completada por uma pele de magnólia, que fizera o irmão mais moço de conde de Vermillion fugir com a cantora de ópera, mãe de Erza.
O jovem casal vivia absolutamente feliz, mas nem por isso a ira e indignação da família Vermillion se abrandara. E quando os dois morreram afogados no naufrágio do iate em que viajavam na costa de Tenjourima, havia onze anos, todos consideraram o castigo merecido.
Erza, a única filha, fora levada a Fairy Tail para ser educada junto da prima Kagura, da mesma idade dela.
Como Erza veio a saber mais tarde, lorde Vermillion odiava o irmão mais moço irritava-se com qualquer coisa que o fizesse lembrar-se dele.
Talvez esse ódio se devesse a algum incidente de infância ou, como Erza suspeitava, o tio tivesse sido rejeitado pela mãe dela, e salvava o orgulho, punindo-a pela humilhação que sofrera.
Porém, qualquer que fosse a razão, desde o primeiro minuto em que pisara em Fairy Hills, Erza sentia-se culpada por ter nascido. Tudo o que fazia merecia crítica, e era quase impossível de acertar. À medida que crescia, ficava mais consciente do interesse sexual do tio por ela e fugia dele o quanto podia. E lorde Zeref castigava-a incansavelmente por essa rejeição.
Ela recordava-se de como sofria com os constantes espancamentos. A humilhação moral era mais intolerável que a dor física.
Sua carruagem estacionou na porta dos fundos da mansão. Não havia ninguém por lá. Erza sabia que os criados deviam estar ocupados servindo os convidados no jardim, da frente da casa. Essas festas eram faustosas, e lorde Vermillion, mesquinho como ninguém, exigia que cada empregado fizesse o trabalho de dois.
– Por favor, ponha meu baú no pátio — pediu ela ao cocheiro. — Eu o apanharei mais tarde.
Com sua respiração asmática e um tanto arcado, o cocheiro colocou o baú no chão de pedra. Não era pesado, mas o velho teve de enxugar o suor da testa ao terminar.
Erza acrescentou suas últimas moedas, como gorjeta, ao dinheiro já combinado para o transporte. O homem olhou para a quantia e, vendo que fora gratificado com generosidade, agradeceu calorosamente.
– Muito obrigado, miss, muito obrigado mesmo.
Ele subiu na boléia, chicoteou o cavalo cansado e mal alimentado, e iniciou a viagem de volta. Erza observou-o até perde-lo de vista. Relutava em entrar. Enfim, criando coragem, atravessou rapidamente o corredor de pedra que ligava a área de serviço ao resto da casa, e abriu a cortina verde que separaca as duas partes.
Não havia ninguém no interior, mas ela podia ouvir o vozeiro vindo do jardim e a música executada por um conjunto de cordas. Levou alguns minutos para ir ao andar de cima, usando as escadas de serviço. Entrou depressa no grande quarto de teto baixo que partilhava com a prima Kagura.
O aposento achava-se vazio, mas pertences de Kagura espalhavam-se pela cama e sobre a penteadeira. O vestido de musseline que ela devia ter usado pela manhã, as meias, a anágua rendada, a fita do cabelo, um lenço, minetes de renda, e uma camisa tinham sido jogados de qualquer jeito, como se Kagura tivesse esperado pela última hora para se trocar e a empregada não encontrasse tempo de pôr as coisas em ordem por ter sido chamada para ajudar em outro setor da casa.
Kagura não era em geral desordeira, nem falhava na pontualidade, pensou Erza franzindo a testa. Que haveria de diferente na prima?
Pegou uma fita do chão, alisou-a e pôs sobre a cama. Ao virar-se, deu com sua imagem no espelho e fez uma careta de desânimo. Não tinha idéia de que estava tão suja.
Viajara horas num vagão descoberto de trem. A fumaça negra expelida pela locomotiva fora terrível, e o vento desarrumara seus cabelos, deixando-a com um aspecto deplorável, nada semelhante ao de uma governanta respeitável.
Ela tirou o chapéu. Algumas mechas lisas caíram-lhe aos lados da face. Sua cabeleira era tal qual uma jóia rara que se assemelhava ao escarlate. Os olhos cinzentos eram magníficos. Mas Erza, fitando-se no espelho, não via beleza alguma neles, nem na aristocrática perfeição do pequeno nariz ligeiramente arrebitado. Enxergava apenas a poeira que cobria a sua pele clara, e lábios trêmulos que se comprimiam com nervosismo.
– Não vou ter medo, não vou — repetia ela em voz alta, apertando as mãos. Sacudiu a cabeça e disse mais uma vez:
– Não vou ter medo, não vou. Odeio homens, odeio todos eles! São animais, demônios e, se pudesse, os faria sofrer por tudo o que me causaram!
Parou por um momento, tensa, as unhas ferindo as palmas das mãos, e os olhos fechados, devido à intensidade das emoções. Em seguida, apressou-se em lavar o rosto na água fresca da bacia que lá se achava.
Trocou-se. Depois de pronta com um vestido limpo da prima, sentiu-se mais calma e com mais coragem.
Decidiu descer e enfrentar o público. Talvez se o primeiro choque do tio fosse na presença de convidados, a situação se torna-se mais fácil. Quando todos saíssem, explicaria a ele a razão de sua volta à casa.
Bem devagar, desceu a escadaria suntuosa de corrimão de ferro batido. Essa escadaria havia sido adicionada à mansão bem mais tarde, e vários cômodos tiveram de ser destruídos para acomodá-la.
Chegando ao andar térreo, ouviu o barulho de outra carruagem que parava na porta da frente. Um segundo mais tarde, um cavalheiro entrou no hall.
Erza parou, observando-o. Era alto, azulado, e quando tirou o chapéu ela constatou que tratava-se do homem que a ultrapassara na estrada, no veículo de rodas amarelas e pretas.
Ele atravessou o hall seguindo o lacaio e tomou a direção do jardim onde, Erza sabia, os tios recepcionavam os convidados.
Ao passar por perto dela lançou-lhe um olhar gelado. Erza surpreendeu-se com a expressão do rosto dele; de raiva, talvez desdém ou arrogância.
"Outro homem de mal humor" pensou ela, e começou a odiá-lo como a qualquer representante do mesmo sexo.
Eram todos iguais, na opinião de Erza; santarrões hipócritas quando apareciam em público, junto de amigos; e revelando o que na verdade eram com mulheres desprotegidas como as governantas, as quais precisavam ganhar o pão de cada dia trabalhando, sem que tivessem feito nada de mal para merecerem aquela sina.
Erza sentia um incontrolável desejo de ferir alguém, como fora ferida. Como gostaria de magoar ou até mutilar um homem! Sabê-lo a seus pés, humilhá-lo, seria um prazer, uma satisfação acima de qualquer outra que já experimentara na vida! Acabou rindo se si mesma. Homens seriam sempre os senhores poderosos, os conquistadores. Que oportunidade poderia ter uma mulher contra a superioridade inata, a soberania natural dos homens?
Percebeu de repente que não conseguiria enfrentar os tios no jardim, enquanto recebiam a nobreza do condado. Eles lhe estenderiam automaticamente a mão antes até de reconhecê-la. E depois?
Aí, ela abriu uma porta que se comunicava com a sala de almoço. De lá passou para o terraço e em seguida para o jardim dos fundos da casa. Ninguém a viu. Esgueirou-se por entra canteiros de flores e cercas vivas, ficando assim fora do alcance dos olhares da multidão.
Atravessou alguns gramados e chegou enfim ao outro lado da propriedade, de onde podia ver tudo sem ser vista.
A enorme construção de tijolos vermelhos, a Fairy Hills, construída na época da rainha Milliana, consistia em perfeita moldura para os convidados de lorde e lady Vermillion. Com suas enormes saias rodadas as mulheres assemelhavam-se a flores de cabeça para baixo, enquanto se movimentavam pelos canteiros floridos ou ouviam a banda que executava árias de óperas. Os músicos usavam fardas de hussardos enfeitadas com passamanaria dourada.
De um lado do jardim havia uma enorme marquise e, no outro, algumas pessoas jogavam croquete. Erza observou-as por entre os arbustos mas, temendo ser descoberta, resolveu ir para um pequeno pavilhão próximo. Era um jardim de inverno, uma estufa talvez, construída pelo pai de lorde Zeref que, sem possuir qualidades de arquiteto, investira-se como tal. A execução daquela obra ocupara os últimos dia do velho conde e acabara dando origem a um edifício rebuscado, um pouco como pagode japonês, um pouco imitando a arte grega, mas com todo o desconforto de uma gruta.
Essa mistura de estilos não surpreendera ninguém, pois o velho havia mudado de idéia várias vezes durante a realização de seus planos. E tanto o construtor local como o carpinteiro esmeraram-se para satisfazer Sua Senhoria. Como resultado, surgira essa construção horrível, melhorada no decorrer do tempo pelas trepadeiras que a cobriam, escondendo as linhas deselegantes e dando ao edifício um quê de rusticidade, bem longe da intenção dos construtores e do idealizador.
Porém qualquer que fosse a aparência, o jardim de inverno consistia numa fonte inesgotável de prazeres para Kagura e Erza. Elas descobriram que, com o rebaixamento do teto para satisfazer outro dos estranhos desejos do velho conde, um minúsculo sótão surgira sem ter sido planejado. Muito baixo, da altura de uma criança, tornara-se o esconderijo das meninas. Para entrar nele, precisavam subir por uma das paredes laterais, apoiando os pés nos vãos do painel de treliça que no final fora feito para disfarçar a aparência horrível da estufa.
Era lá que elas confabulavam, que confiavam segredos uma à outra. Era lá que guardavam seus mais preciosos tesouros e escondiam as guloseimas que roubavam da dispensa.
Erza levou alguns segundos apenas para subir até o pequeno sótão. Para entrar, precisou se pôr de gatinhas.
Com surpresa verificou que o local estava limpíssimo. À série de bonecas, louça quebrada, livros velhos e uma porção de frascos de geléia vazios, fora acrescentada uma almofada de cetim que Erza nunca vira antes. Espantou-se mas, sem se dar ao trabalho de se preocupar sobre quem a pusera lá, acomodou-se sobre ela e ficou olhando para fora por um buraco que havia feito com Kagura, e que chamavam de janela.
Uma trepadeira atrapalhava a visão. Afastando alguns galhos da planta, Erza pôde enxergar todo o jardim onde tinha lugar a festa.
O tio e a tia continuavam recebendo os convidados que, depois de cumprimentá-los, ocupavam as mesinhas nos gramados. Kagura, com um vestido novo de organdi cor-de-rosa, conversava com dois rapazes. Mesmo a distância Erza percebeu que a prima estava nervosa, pois, com as mãos enveludadas, abria e fechava a sombrinha.
Erza conhecia quase todos. Lá se encontrava o governador do condado, cheio de pose e muito falante, o rosto afogueado, os olhos vasculhando tudo, com medo de perder a oportunidade de dirigir a palavra a alguém mais importante do que a pessoa com quem se entretinha no momento.
Ela viu o pároco de Rowan, um corvo negro abrindo caminho para o bispo da diocese, magnífico em seu traje púrpura, com a cruz de ouro no peito, refletindo os raios do sol.
Sentada confortavelmente na almofada, e apoiando o queixo nas mãos, Erza não perdia nada. Era fantástico ver sem ser vista, e regozijava-se por faltarem algumas horas ainda antes de enfrentar o tio.
A um dado momento, um casal separou-se do grupo que acompanhava o jogo de croquete e tomou a direção do jardim de inverno. Erza reconheceu logo a mulher. Kagura admirara lady Minerva por anos, mas ela, Erza, sempre nutrira um pouco de antipatia contra a moça, mesmo levando-se em consideração que Minerva referia-se habitualmente às duas primas como "minhas queridas meninas".
Lady Minerva estava lindíssima aquela tarde, com um vestido de organdi amarelo pálido, de saia muito rodada. Plumas amarelas enfeitavam-lhe o chapéu, e dos ombros caía uma echarpe diáfana de gaze.
Cabelos negros emolduravam um rosto fino com olhos ligeiramente puxados. Havia uma aura sensual e irresistível em Minerva, e sua feminilidade era, de fato, provocante.
Mesmo Erza concordava que a beleza de Minerva chamava a atenção. Seria impossível ignorar a linha suave dos seios dela sob o corpete muito justo do vestido. O decote exagerado não tinha nada de modesto e muito menos de protetor.
Havia qualquer coisa de primitivo e felino no modo como Minerva caminhava e em cada palavra que dizia, sendo ela obviamente carnal sob o verniz que a sociedade lhe dera. Apesar de ser filha de um duque, e a esposa respeitável de um nobre, pessoa de destaque no condado, o olhar que dirigia ao homem ao lado dela era de uma voracidade, de uma sensualidade sem disfarces.
Erza, de súbito, resolveu prestar atenção no cavalheiro. Quando já quase chegavam à porta da estufa, ela constatou ser o mesmo homem com quem cruzara no hall, o rapaz azulado de olhar raivoso, expressando insolência e desdém.
Estava bem perto dela quando Minerva disse:
– Mas, Jellal, que surpresa. Não tinha idéia de que o veria aqui hoje.
– Saí de Magnolia ontem à noite — explicou Jellal — Precisava vê-la imediatamente, Minerva. Aconteceu um imprevisto.
– Que foi, Jellal? — Minerva alarmou-se — Você me parece estranho, diferente...
– Tenho razões fortíssimas! Minerva, preciso encontrar uma esposa com urgência.
Fale com o autor