Revenge'S Queen
3 Capítulo III
Notas iniciais
Lady Minerva deu um grito.
– Jellal! Que quer dizer com isso?
– Exatamente o que disse — repetiu ele — Tenho de me casar, e depressa.
– Mas, por quê? Não entendo! Jellal pelo amor de Kami, explique-se melhor.
– São ordens da rainha. Sua Majestade foi provavelmente informada de que temos nos comportado de modo... Inconveniente.
– Sua Majestade foi informada! — Repetiu Minerva — Bem, bem, só há uma pessoa que poderia fazer isso: Minha sogra. Ela tem nos espionado, é minha impressão. Concluí por algumas frases que me disse. E eu que pensei não haver possibilidade de sermos descobertos!
– Talvez seu marido... — Sir Jellal sugeriu.
– Oh, não! Rogue não! Ele não sabe de nada. Depois, está sempre bêbado demais para ver as coisas, mesmo quando acontecem debaixo de seu nariz. Com minha sogra, é diferente. Ela me detesta e jura que Rogue não bebia antes de se casar comigo.
– E é verdade?
– Como posso saber? Mal o conhecia! — Respondeu Minerva com petulância.
Sir Jellal riu. Não de muito bom humor, mas não deixou de ser uma risada.
– De que ri? Não vejo nada de tão divertido em nossa situação, nem no que disse — censurou-o Minerva.
Ele riu novamente.
– Não, Minerva, minha cara, não há nada de divertido; mas sei não sei porque seu comentário despertou meu senso de humor. Não, não se aborreça por eu a provocar. Você é linda demais, não precisa de outras qualidades, muito menos a de ser divertida.
– Gostaria que não se perdesse com outros assuntos. Vamos falar claro!
– Estou falando claro. Você é linda e sedutora!
– É bom ouvir isso, Jellal. Mas, que significa a tal ordem da rainha?
– Que eu preciso me casar, e depressa. A qualquer instante o Primeiro-ministro insistirá na demissão de lorde Jura. Há muita gente que desaprova minha nomeação para o cargo e, se houver um motivo forte que me desabone, duvido que lorde Makarov consiga se opor-se à opinião popular.
– Então, precisa mesmo se casar. Oh, Jellal, mas não posso nem pensar nisso!
– Nem eu! Além do mais, que vou fazer com essas insignificantes senhoritas que nos rodeiam? Para ser franco, não vejo nenhuma que escolheria, dentre as que conheço.
– Posso acreditar! E, caro Jellal, como você irá odiar o santo sacramento do matrimônio...
– Bem, mas vai ser inevitável, mais cedo ou mais tarde. Contudo, gostaria de esperar um pouco para assumir a estabilidade doméstica.
Lady Minerva emitiu um som entre sorriso e soluço.
– A rainha quer que você se estabilize... É uma idéia estarrecedora Jellal. Será que podemos continuar nos encontrando?
– Mas é claro! Isso eu prometo! Se acha que minha vida toda vai ser alterada ao sabor de uma ordem real, está muito enganada. Não sou o primeiro homem do mundo à providenciar uma fachada de responsabilidade. Atrás dela, continuarei sendo eu mesmo, fazendo o que quiser e aproveitando a vida a meu modo.
– Foi minha sogra quem fez tudo isso, garanto — queixou-se lady Minerva amargamente — Tenho ganas de matar aquela bruxa espiã. Sei que ela possui boas amigas entre as damas da corte. Que prazer deve ter tido em criar problemas para nós!
– A pior parte ficou para mim. Eu é que terei de aguentar uma esposa idiota!
– É mesmo — concordou Minerva pesarosa — É você quem irá se casar. Terá uma mulher tonta, que se escandalizará com tudo, tornando-se um verdadeiro estorvo na cama. Pobre Jellal! Você viverá num constante mal humor. A pobre moça também, a que tiver que morar com você.
– Não pense que ela irá morar comigo em Magnolia. Isso não. Eu a apresentarei a Sua Majestade para obter uma aprovação; depois, a mandarei a minha casa de campo. Ficarei em Magnolia sozinho. Comece desde já a convencer sir Rogue a reabrir a residência de vocês em Magnolia.
– Posso conseguir facilmente. Aliás, ele prefere morar em Magnolia, onde pode beber e jogar a vontade no clube. Lembre-se de foi idéia sua, Jellal, a de que nós morássemos no campo para podermos nos encontrar com mais liberdade do que em Magnolia.
– E a idéia não surtiu o efeito desejado. Não faz mal, agora vamos inverter a situação. Nesse meio tempo...
Ele faz uma pausa.
– Nesse meio tempo? — A voz de Minerva soou cheia de desejo.
Ela fitou Jellal com o canto dos olhos, entreabriu os lábios vermelhos e inclinou-se para ele. Mas Jellal não viu nada, tinha os olhos fixos nos verdes gramados que se estendiam a perder de vista.
– Procure uma esposa para mim — disse ele finalmente.
– Jellal, como pode me fazer um pedido tão monstruoso! — Exclamou Minerva — Vou odiar a mulher que for sua esposa! E, mais ainda, se ela o amar, o que com certeza vai suceder, arrancarei os olhos dela.
– Muito bem então. Eu mesmo escolherei uma noiva — decidiu Jellal, dando de ombros.
– Não, não posso permitir que faça isso. Eu ficaria com mais ciúmes — gritou Minerva — Que horror! Que situação crítica para você... E para mim! — Ela fez uma pausa, e em seguida, exclamou: — Jellal, já sei! Olhe para aquela moça lá de vestido cor-de-rosa, com uma echarpe branca.
– Onde? De quem está falando?
– Aquela moça; vê agora? — Repetiu Minerva apontando com a mão — Será sua noiva!
– Por quê? Quem é ela?
– A filha de seus anfitriões: Lady Kagura Mikazuchi Vermillion — explicou Minerva — Eu a conheço desde menina. É bonita, ainda que insípida, e dará uma esposa bastante dócil. Que outra coisa poderia ser a filha de lorde Vermillion, além de dócil?
– Mas... mas... — Jellal hesitava.
– Não há "mas" nem meio "mas". Os Vermillion ficarão encantados. Sei que estão em situação financeira bem difícil; até precisaram vender uma fazenda no ano passado. Garanto que lorde Vermillion procura um genro rico. E você satisfaz com certeza as exigências dele, Jellal.
– Sim, sou rico. Mas, diga-me, por que escolheu essa moça?
– Por que, meu caro, ela tem tudo o que eu queria. É boba e plácida, bem-educada e de respeitabilidade impecável. A menos que esteja muito enganada, aceitará com prazer o pedido, e será uma esposa tolerante e ingênua.
Após um intervalo, Jellal comentou:
– É... poderia ser pior...
– Muito pior — concordou Minerva — Enquanto falava com você vi Kagura ali adiante e concluí que seria a mulher da qual eu não sentiria ciúmes.
– E acha que tem necessidade de ter ciúmes de minha esposa, quem quer que ela seja?
– Mas claro — replicou Minerva sem pestanejar — Terei ciúmes de qualquer mulher que você toque, de qualquer mulher que use seu nome. Na verdade, de qualquer mulher em que você ponha os olhos, só por ser mulher! E sua reputação, Jellal, revela bem que tipo de homem você é.
– Não me culpe por atos do passado, de antes de conhecer você, Minerva.
– Meu caro, não me preocupo com seu passado, isso eu lhe afirmo — lady Minerva riu — É seu futuro que me perturba, e com razão, Jellal. Você é um homem fascinante.
– É bom que tenha essa opinião a meu respeito.
– Vou lhe fazer uma pergunta, e quero que me responda com sinceridade. Promete? — Sussurrou Minerva.
– Mas claro.
– Você realmente me ama, Jella? Você me ama de verdade?
– Bom Kami, que pergunta! Não passamos esses últimos meses juntos e felizes? Não tivemos momentos de enorme prazer?
– Você não respondeu, Jellal. Talvez eu esteja sendo insistente demais. Contudo, tenho a ligeira impressão de que você não me ama como eu o amo.
– A mesma questão de todas as mulheres! — Jellal sorriu — Já ouvi isso várias vezes antes.
– Não me surpreende! Ouviu isso de muitas mulheres porque você, Jellal, na verdade nunca amou ninguém. Oh, sim, sente atração por mim, sei disso. Mostra-se apaixonado, possesivo, às vezes até com ciúmes. Mas, não sei porque, quando estamos juntos sinto que o que nutre por mim não é amor. Tento fazer com que me ame, tento mesmo, Jellal, pois eu o amo e quero... Conserva-lo para sempre.
Minerva teve dificuldade em continuar falando, tão emocionada estava.
– Minerva, minha querida, está se preocupando à toa. Como pode falar tanta bobagem? Sabe que a amo.
Minerva deu um suspiro e foi mais para perto dele, tomando-lhe a mão. No primeiro instante o toque foi suave; depois, ela quase enterrou as unhas na pele de Jellal.
– Você é meu! — Exclamou — E lutarei com qualquer mulher que queira roubá-lo de mim.
Jellal levou os dedos de Minerva aos lábios.
– Não tinha idéia de que estava tão apaixonada por mim, querida. Julguei que eu fosse mais um tolo a por o coração a seus pezinhos indiferentes.
– Não pensou nada disso, Jellal. Sei que estou fazendo uma cena, e sei que você não gosta de cenas. Mas, esta tarde, não consegui me controlar. Tive de lhe confeçar meu amor.
– E eu insisto que está falando bobagem. E vou lhe provar. Que tal encontrar-se comigo à noite, no lugar de sempre?
– No caramanchão? — Indagou Minerva, nervosa — Não acha arriscado? Talvez minha sogra esteja nos espionando, talvez tenha contratado um dos jardineiros para fazer esse serviço.
– Tolice! Ninguém nunca nos viu, eu lhe asseguro. A suspeita acerca de sua sogra não tem fundamento. Vá para cama cedo esta noite, e depois saia pela dos fundos. Cubra-se com uma capa escura. Pessoa alguma verá se for cuidadosa, e eu estarei esperando por você.
– Jellal, quero ir, sabe disso. O caso é que tenho medo por sua causa... Por nossa causa. Se Rogue descobrir algo, o escândalo será sua ruína.
– Acredito, mas não haverá escândalo. Vai ao caramanchão?
– Vou. Quem sabe pela última vez, mas vou! Se de fato se casar, Jellal, é possível que não o veja nunca mais a sós.
– Minerva, como pode dizer tanta bobagem? Meu casamento não fará nenhuma diferença para nós. Você mesma disse que a tal moça é tolerante e ingênua!
– Penso que Kagura seja assim. Pretende pedi-la em casamento?
– Claro! Não estou por acaso sempre obedecendo suas ordens?
– Tão prontamente como as de Sua Majestade — replicou Minerva em tom zombeteiro.
– Vou já trocar algumas palavras com minha futura esposa. Conversamos nós dois aqui sozinhos por muito tempo, Minerva, e podem ter notado nossa ausência.
– Vou apreciar o jogo de croquete. Mas, oh, Jellal, não falte esta noite!
– E acha que não estarei contando os minutos até lá? — Replicou Jellal
– É mesmo? Eu estarei contando os minutos também mas, de vez em quando, desconfio de que com você as coisas sejam diferentes.
– Não subestime seus encantos, Minerva! E agora, como já disse, vamos nos separar.
– Vamos — concordou Minerva — Au revoir! Até a noite, adorado amante.
Jellal fitou-a e viu uma chama de desejo nos olhos de Minerva. A face dela transformara-se, tomada por uma expressão faminta, apaixonada, de posse, e quase imoral em sua incontrolável avidez.
Sir Jellal excitou-se e Minerva percebeu, com triunfo, que atingira seu alvo.
– Não me deixe esperar por muito tempo no caramanchão — pediu ele.
Erza os viu caminhando pelos gramados. Um pouco adiante separaram-se. Minerva juntou-se ao grupo dos que acompanhavam o campeonato de croquete, e sir Jellal foi na direção oposta, para perto da marquise.
Quando Erza não pôde mais escutar o que diziam, mudou de posição. Inclinara-se exageradamente para não perder nenhuma palavra, e sentia as pernas adormecidas. Mas isso não a perturbava tanto quanto a revolta pelo que acabara de ouvir. Seus olhos expeliam faíscas de ódio, suas faces pegavam fogo.
Fora a conversa mais impressionante a que testemunhara. Então, aquele era o famoso Jellal Fernandez! Seus tios falavam muito sobre ele, sobre o milionário dono do castelo Crime Sorciére. Não admirava que, quando o nome de Jellal Fernandez era mencionado, todos os presentes sussurrassem e sacudissem a cabeça num ar de desaprovação!
– Animal! Canalha! — Disse Erza em voz alta — Pensa contrair casamento com Kagura, com a meiga Kagura que, como bem disse lady Minerva, será uma esposa compreensiva e ingênua. Mas ele não casará com minha prima se eu puder impedir.
Erza não tinha mais condições de continuar no pequeno sótão. Estava furiosa. Saiu de lá em gatinhas, desceu pela treliça e chegou ao solo.
Tão revoltada estava que se esqueceu de seus problemas e andou abertamente pelo jardim, à procura de Kagura. A prima desaparecera e, antes que tivesse tempo de verificar melhor, ouviu, para seu desaponto, uma voz de espanto, desaprovação e raiva soar a seu lado:
– Erza! Que está fazendo aqui?
Erza virou-se e deu com a tia.
– Acabei de chegar, tia Mavis.
– Chegar de onde?
– Indagou lady Vermillion. E, não dando chance a Erza de responder, acrescentou: — Não, não precisa falar nada. Não sei o que seu tio dirá, mas antes que eu comunique a ele sobre sua volta, vá para o quarto. Entendeu?
– Tia Mavis — Erza tentou se explicar.
– Você me ouviu, não? Fique em seu quarto até segunda ordem. Obedeça-me!
Erza deu-se por vencida. Fez uma ligeira reverência à tia e, sem outra palavra, tomou a direção da casa. Alguns convidados olharam com curiosidade para a moça pálida, de cabeça erguida, que passava por eles. Chegando ao hall, Erza subiu as escadas e entrou no santuário de seu quarto, batendo a porta com força.
Ficou em pé no meio do aposento, tremendo de ódio e indignação. Mas o sentido de injustiça a revigorava em vez de deprimi-la. Era sempre a mesma coisa, pensava; o que quer que acontecesse, estaria sempre errada, não tendo nem mesmo oportunidade de se explicar. Não lhe davam permissão de ter um ponto de vista, nunca lhe permitiam emitir uma opinião.
– Não é justo! — Exclamou em voz alta, começando a caminhar pelo quarto. A emoção forte obrigava-a a se movimentar — Não é justo! — Falou mais uma vez, mesmo sabendo que seus protestos de nada adiantavam.
Pensando bem, alguém fora justo com ela, algum dia? Alguém fora justo desde o dia em que chegara a Fairy Tail?
A parenta indesejada! A órfã que vivia de caridade! A única pessoa na casa que não tinha direito a nada!
Recordava-se da vida que tivera com os pais. Eram pobres, mas a casinha onde moravam transbordava de alegria, de grande felicidade. Felicidade! Erza nunca dera o devido valor à felicidade até o dia em que fora morar com os tios. De vez em quando, receava se esquecer do que era esse estado sublime, esquecer-se do que consistia viver sem rixas, sem medo e sem a triste mágoa de se saber rejeitada!
Nunca, nunca chamaria Fairy Hills de "lar". Lar era um lugar de paz e alegria, um refúgio do mundo exterior. Lar e felicidade constituíam dois conceitos inseparáveis na mente de Erza. Contudo, também na casa dos pais houvera momentos de tristeza e lágrimas. Isso quando a mãe esperava, tensa e ansiosa, pela volta do marido no fim do dia.
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