Revenge
5 Psicopata
–Olha ela! Atrasada de novo! – Hideko me recebeu com um sorriso assim que cheguei na faculdade.
–Kao-chan, oi – uma garota pálida de cabelos ruivos me agraciou também com um sorriso. Mas um pouco mais ofuscado do que o de Hideko.
–Misu-chan! Que bom ver você!
–Igualmente – Misumi disse ainda sorrindo... aquele mesmo sorriso triste.
–Bom, vamos entrar? Afinal já estamos bastante atrasadas, não é?
–Tem razão, Hide-chan. Vamos logo – queria encurtar aquela conversa. Não gostava dos sorrisos tristes de Misumi. Principalmente porque eu tinha quase certeza de que era a culpada por eles.
–Bom... – iniciei quando caminhávamos pelo corredor – dormiu bem ontem à noite, Misu-chan?
–B-bem... sim... bem melhor do que no dia anterior.
–Isso é bom... tenho certeza de que nem a própria Emiko gostaria de te ver triste desse jeito – pela primeira vez, Hideko disse algo significativo. Talvez magoasse Misumi também, mas era melhor do que suas "frases habituais"
–É... você tem razão... – Misu-chan disse, olhando para o chão. Continuamos andando por um bom momento, até que passa do meu lado uma criatura de cabelos castanhos.
–Oi, Light! – Hideko o cumprimenta sorridente, mas ele apenas desvia o olhar pro nada.
–Ohayou, Ychizuno – me disse ele, me surpreendendo completamente.
–O-ohayou... – disse enquanto era fuzilada pelos olhos verdes de Hideko. Então o garoto, como se me cumprimentar fosse a coisa mais normal do mundo, simplesmente continuou seu caminho.
–Er... tá bom, o que foi isso agora? – Hideko perguntou, como se quisesse me dar um tiro no meio da testa. Eu acho que era isso mesmo o que ela queria naquele momento.
–Eu sei lá. Eu mal conheço esse garoto.
–Ah é? Então como ele sabe o seu nome?
–Eu quem vou saber? Talvez seja um stalker, só isso – disse indiferente, brincando com a raiva de Hideko, que ficava cada vez maior.
–E por que ele ia estar stalkeando VOCÊ?!
–Por que não pergunta isso pra ele? – mantinha minha pose completamente indiferente. Porque é isso o que eu estava agora: indiferente. Absolutamente.
Até chegar na sala fizemos uma caminho silencioso. Hideko sequer me olhava e eu também não fazia questão de observá-la. Isso deixava Misu-chan sem jeito.
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Intervalo
Ufa! Finalmente vou poder sair da sala! E me livrar dos olhares de Hideko. Ou da falta deles.
Pelo menos era o que eu pensava, até perceber que Hide-chan já tinha saído da sala. Até que a criatura ruiva se aproximou da minha mesa.
–Eu não gosto disso... – iniciou. Os olhos cinzentos estavam tristes.
–Não gosta do quê? – perguntei, como se já não fosse óbvio.
–De vocês duas brigando. Vocês sempre foram tão amigas.
–Não esquenta, Misu-chan. Isso passa. A Hideko é impulsiva assim mesmo, você sabe disso. É apenas um dos chiliques diários dela. Só isso.
–Ela não estava assim pela manhã.
–É claro que não. Ela ficou assim depois do Yagami me cumprimentar e me chamar pelo sobrenome.
Eu é quem devia ter ficado nervosa. Eu odeio me lembrar de que sou da família Ychizuno. Uma família sem honra. Isso deveria ter soado como uma provocação. Oh droga, Kaori, ele não sabe disso.
Mas não era a primeira vez que a Hideko ficava estressadinha comigo por algum garoto. Eu não sei porque, já que eu diria que não tenho artigo nenhum pelo qual um garoto normal de dezessete anos se interessaria. Eu não sou bonita, não sou comportada, não sou delicada e muito menos fofa. Sou calada e pensativa. Como diria o Beyond: uma psicopata em fase de treinamento. O oposto de Hideko. Mas eu não me importo. Hideko já é naturalmente insegura.
Eu e Misu passamos o intervalo inteiro sentadas em uma mesa no pátio. Caladas. Eu ainda não conseguia tirar o caderno da cabeça. Só pensava em quem ia ser minha "próxima vítima". Será que aquilo não foi realmente coincidência? Só vou saber se testá-lo de novo.
–Kao-chan... – Misumi cortou meus pensamentos.
–Hai?
–E-eu... queria saber se... – vi seu rostinho pálido se enrubescer um pouco – ...se você se importaria se eu fosse ver a Hide-chan...
–É claro que não, Misumi. Fique à vontade.
–Jaa ne – a ruiva se levantou e foi em busca da garota dos olhos verdes.
Não notei em qual direção ela ia. Não me importei. Eu tinha coisas mais importantes pra pensar agora. Como no meu "próximo" assassinato. Como posso matar as pessoas e continuar indiferente? Eu tirei a vida da irmã da minha melhor amiga. Eu deveria estar morrendo de culpa agora. Mas não. Simplesmente agi com indiferença. Assim como no dia em que encontrei o corpo da minha mãe no chão do quarto, ao chegar da faculdade. Agi com indiferença. A maioria das pessoas pensa que isso é impossível. Traumático. Devia ser mesmo, afinal era a minha mãe. Mas embora eu ache imperdoável a atitude dela de se matar, eu acho a morte dela bonita. É um ato impuro da família Ychizuno, mas fazer o quê? Se ela achou que a morte do meu pai era motivo suficiente para trazer a sua, então eu não devo culpá-la por isso. Embora eu ache o amor uma idiotice. Embora eu acredite que nunca vou sentir. Ou pelo menos torça pra isso, afinal foi isso quem matou a minha mãe.
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Saída do colégio, 15:00
Não vi Hide-chan na saída. Não fiz questão de procurar por ela. Quando a "crise" passar ela mesma me procura. É assim. Sempre foi assim.
Mas acredito que ela não vá querer me ver tão cedo, não é? Então é melhor que eu não a encontre. É melhor eu ir pra casa sozinha.
Saindo da faculdade, me deparo com a criatura de cabelos negros levemente penteados pra baixo.
–Kaori. Indo embora sozinha?
–Hide-chan deu uma crise. Não quer me ver.
Ele suspirou.
–Outra vez...
–Já estou acostumada, Beyond, não se preocupe.
–Por que dessa vez?
–O "amor da vida dela" me cumprimentou.
–Só por isso?
–Até parece que não conhece a Hideko, Bey-kun. Qualquer coisa é motivo pra ela se irritar comigo. Principalmente quando o assunto são os inúmeros amores da vida dela – revirei os olhos.
Ele riu, fechando os olhos quando o fez.
–Bom, eu não gosto que ande sozinha, Kao-chan. Posso te levar pra casa, se quiser.
–Eu não vou recusar. Obrigada, Bey-kun.
Ele não disse nada, apenas sorriu. Beyond tinha um lado fofo as vezes. Eu gostava desse lado, embora fosse raro. Geralmente ele era tão calado e psicopata quanto eu.
Andamos um bom momento calados, até que eu resolvo fazer uma pergunta.
–Bey-kun...
–Hai?
–Se você tivesse o poder de matar qualquer pessoa na condição de conhecer o nome e o rosto dela, quem você mataria?
–Tá falando do Caso Kira. Acertei?
Caso Kira? Ah é! Agora me lembrei. Kira era um psicopata – pior que eu e o Beyond – que estava dando uma de matar todo mundo. Um idiota que acha que pode mudar o mundo. Mais um. Às vezes penso que pode ter sido ele quem matou meu pai. Surgiram boatos de que ele poderia matar as pessoas apenas com o rosto e o nome delas, mas não tem nada comprovado.
–B-bom... mais ou menos... mas e então, quem você mataria?
–Eu não preciso do poder do Kira pra matar as pessoas, Kaori. Não teria graça alguma – ele sorriu. Um sorriso macabro e sombrio. E então, pela primeira vez em meus dezessete anos, eu tive medo do Beyond.
–E-er... Beyond... você tá me assustando...
–Heheh! Me desculpe, Kao-chan, não era meu objetivo – ele sorriu novamente, mas dessa vez seu sorriso normal, divertido. Puxa! Como Beyond era bipolar! – Acho que se pudesse matar qualquer um apenas na condição de conhecer o rosto e nome da vítima... bem...
Bem? Bem o quê? Quem você mataria? Tá me deixando nervosa!
–B-bem eu... – anda logo! Diz! – Eu não faço ideia de quem eu mataria – concluiu simplesmente. Como assim não faz ideia? Você é o Beyond, você sempre faz ideia das coisas. Você é tão inteligente que tenho até medo de que algum dia vire um serial killer tipo o de Jogos Mortais e me tranque em algum jogo maluco. Ok, menos Kaori.
Suspirei. Chegamos na porta da minha casa.
–Obrigada por me trazer até aqui, Beyond. Espero que não tenha sido muito incômodo.
–Não se preocupe com isso – disse sorrindo – Jaa ne, Kao-chan!
–Jaa ne, Bey-kun!
Entrei em casa. Tomei um banho longo e quente. Era tudo o que eu precisava naquelas tardes frias das terças-feiras de setembro.
Assim que saí do banho me vesti com um pijama de blusa com a manga que cobria as minhas mãos, mas tinha um short curto que deixava minhas pernas de fora. Oh droga, está tão frio! Mas que se dane, o frio eu cubro com o cobertor. E foi o que eu fiz. Peguei um mangá na estante e me deitei, cobrindo meu corpo.
Não consegui me concentrar na história. É claro que não! Eu não tirava aquele maldito caderno da cabeça... e agora que o Beyond me falou do tal "Caso Kira" é que eu cogitei a possibilidade de o Kira ter um caderno como esse. O que tornaria o caderno completamente real. Mas também pensei no caderno ser apenas uma idiotice criada por algum jovem que conhece o Caso Kira. Assim como todo mundo no Japão. Droga! Quanto mais eu penso, mais eu me confundo e me embaralho em meus pensamentos. Estou criando um labirinto interno dentro da minha cabeça. Qual só pode ser resolvido se eu matar novamente. Se é que fui eu quem matei a Emiko.
Rapidamente deixei meu mangá de lado e caminhei novamente até a estante. Mas dessa vez pegando um caderno de capa preta. O Death Note.
Será mesmo que a solução é matar alguém? Uma pessoa só, não deve ter problema... existem sete bilhões no mundo... Boa, Kaori! Com esse tipo de pensamento você vai longe! Talvez eu devesse me afastar do Beyond um pouco. Os pensamentos dele já estão me contaminando. Não, isso não tem nada a ver com o Beyond. Apenas temos pensamentos iguais. Bom, pelo menos eu acho. A menos que eu já tenha ficado pior do que ele. O que era uma possibilidade a considerar, veja bem: Ele não fazia ideia de quem matar, e eu, assim que li a primeira regra do caderno, já escrevi o nome Emiko Chikada nele. Oh droga, eu já estava ficando pior que ele!
Eu sei que devo testar o caderno o mais rápido possível. Mas pra isso eu vou ter que matar alguém conhecido... ou não! Isso! A TV!
Desci as escadas correndo e fui direto pra sala de estar. Me joguei no sofá e apertei o botão no controle, ligando a televisão. Noticiário! Não tinha hora melhor pra eu ligar a TV! E pra minha sorte, uma notícia ao vivo! Droga! Deixei o caderno no quarto!
Subi as escadas correndo apressadamente e peguei o caderno esquecido em cima da cama. Peguei também uma caneta em cima da estante e desci novamente as escadas, me sentando no sofá.
"Agora, ao vivo, o julgamento do Caso Hitomiro Yusumura, o homem de 42 anos que esfaqueou a esposa e queimou o corpo"
Nossa! Esse Hitomiro parece bem cruel! Mas preciso do rosto dele. Anda... só uma imagem! Só uma pequena imagem do rosto dele!
De repente a câmera dá um pequeno close no rosto dele. Isso! Era tudo o que eu precisava!
Ainda memorizando o rosto do homem, escrevo no caderno o nome dele. Hitomiro Yusumura.
Quarenta segundos! Só mais quarenta segundos!
"Antes de o julgamento ser concluído, uma pequena pausa para intervalos comerciais."
Não! Agora não, repórter maldita! Agora não! Por favor não!
Quarenta segundos se passaram, até que os comercias foram interrompidos.
"Que os patrocinadores nos perdoem, mas tenho uma notícia ao vivo de última hora! Hitomiro Yusumura acaba de ter um enfarte aqui, agora!"
Notas finais
Sorriso fofo que o Bey-kun deu fechando os olhos:
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