Reunião do Mundo Condenado
1 Prólogo
Notas iniciais
Estou correndo.
Meus pés afoitos avançam pelo calçamento gasto de forma trôpega e desengonçada, mas, ainda assim, correm rápido se comparado aos meus perseguidores. A mala pesada e robusta que carrego com ambas as mãos também não é um fator favorável à minha velocidade.
Mas o que mais posso fazer senão tentar? Tentar o máximo que puder. Tentar salvar a vida que ainda me resta. Tentar viver?
Toda a minha rua morreu.
Todas as pessoas que eu era acostumada a ver passeando de bicicleta, ou fazendo caminhadas relaxantes de fim de tarde... Todas elas estão mortas.
Como sei disso?
Bem, o que restou delas é o que está me perseguindo de forma tão assídua nesse momento.
Arrisco mais uma olhada por cima do ombro antes de voltar a fitar meu destino com obstinação.
São tantos mortos; tantas pessoas que não conseguiram escapar da desgraça que o desespero crescente e silencioso começa a tomar conta do meu corpo de forma progressiva.
Todas as pessoas que eu conhecia, todas as pessoas que eu amava, todos se foram.
Um aperto forte e intenso em meu coração é o bastante para fazer eu forçar a minha mente a esquecer dessas lembranças e focar no lugar onde eu quero chegar.
Continuo correndo, até que, enfim, avisto o cruzamento que queria, mas sinto meu coração falhar uma batida quando percebo que não sou a única a encontrá-lo.
Pelo menos uma dúzia de zumbis estão agora bloqueando minha única rota de fuga.
Estanco e solto um palavrão.
Respiro fundo.
Uma
Duas
Três vezes.
Viro levemente para a direita e tento averiguar qual é a pior opção.
O cruzamento está com uma quantidade considerável de mortos vivos, mas o lugar de onde eu vinha está bem mais cheio. Nem preciso pensar muito antes de virar meu corpo para a direção em que corria anteriormente e voltar a avançar.
Minha respiração se torna ofegante e, tanto as minhas pernas quanto os meus braços passam a protestar pelo esforço. Passo, então, o peso da mala para somente uma mão e retiro uma das facas que repousam no coldre improvisado em meu braço. Seguro o cabo de forma firme e avanço em direção ao bando de zumbis que me aguarda.
Meu coração bate de forma descompassada e rápida demais para o meu gosto, mas nem isso é capaz de diminuir minha obstinação. Respiro fundo e supro os poucos passos que restam para chegar aos primeiros zumbis.
"Você teria coragem de matar alguém?" A voz de Tessa chega de forma nítida aos meus ouvidos. Lembro de sorrir de forma incrédula antes de revirar os olhos.
"Claro que não!" Respondo de pronto. "Realmente acha que iria perder tanto da minha humanidade para chegar a esse ponto? O dia em que me ver matando alguém ou mesmo desejando alguma morte, pode ter certeza que me tornei um monstro".
Meu rosto está incrivelmente livre de qualquer emoção quando levanto a mão que ostenta a faca grande e afiada e enterro com força na parte frontal do crânio do primeiro zumbi. Ignoro o cheiro de carne podre e os respingos de líquido putrefato quando puxo de volta a lâmina da faca e ataco o segundo zumbi, bem na parte medial de sua face.
Olho para ambos os lados e descanso a mala aos meus pés. Pego o tripé que venho carregando debaixo do braço desde a saída da minha casa e posiciono-o na mão vazia. Com um giro leve do corpo para a lateral, uso a cabeça do tripé como bastão e derrubo dois zumbis de uma só vez. Assim que eles caem, uso a faca para perfurar o crânio de ambos.
Arrisco novamente um olhar para trás e sinto minhas entranhas revirarem.
Pelo menos vinte zumbis vêm avançando de forma trôpega, e estão tão perto de onde estou que praticamente posso sentir seu cheiro de carne podre.
Sinto o esforço que meus neurônios fazem para tentar encontrar uma solução, pelo menos uma alternativa para se agarrar e tentar me livrar com vida dessa situação, mas parece que até eles acabam se conformando com o destino inevitável a que submeti a mim mesma.
Grunhindo baixinho, pego novamente a mala e uso o tripé para derrubar qualquer zumbi que apareça a minha frente.
Tento correr, mas minhas pernas protestam tanto que o máximo que conseguem fazer é me permitir um caminhar apressado. Aperto os olhos fechados por alguns segundos e tento impedir as lágrimas que querem sair.
Como pude achar que teria alguma chance?
Como pude alimentar qualquer tipo de esperança que conseguiria fugir sem ser pega?
- Não sei sequer dirigir a droga de um carro!
Somente percebo que falei isso em voz alta quando um zumbi desgarrado que estava abaixado de costas para mim levanta com o som da minha voz e solta um grunido horrendo antes de se juntar a horda que já me segue.
Permito a mim mesma soltar um gemido de frustração.
"Vou morrer", fico repetindo a mim mesma.
Vou morrer
Vou morrer
Vou morrer
Vou
Um som de motor de carro faz com que qualquer onda de pensamento racional fuja de minha mente.
Com o cérebro subitamente alerta, olho de forma aflita para todos as direções, tentando desesperadamente saber a origem do som. Continuo a avançar, mas com passos mais curtos, enquanto tento adivinhar de onde veio o ruído. Adianto apenas algumas passadas quando percebo que o som desapareceu, e acabo soltando mais um grunhido de frustração enquanto volto a andar.
Será que até minha mente já se entregou a morte?
Será que até meus neurônios já desistiram e estão me fazendo ter alucinações?
Se eles desistiram, pra que eu ainda insisto em lutar?
Se vou morrer de qualquer jeito, pra quê continuar vivendo?
Sinto as lágrimas finalmente escorrerem pelas minhas bochechas quando tomo a minha decisão.
Solto a mala com um baque e despejo o tripé, que ainda levava em uma das mãos, bem em cima dela. Paro bem quando chego ao cruzamento, mas, em vez de finalmente correr para a minha liberdade, eu viro meu corpo em direção aos zumbis que me seguem e aguardo o momento em que eles finalmente vão me pegar.
Fecho os olhos e tento lembrar das coisas boas que aconteceram na minha vida até o momento, mas incrivelmente tudo em que consigo pensar é no quanto eu fui patética durante todos os meus 21 anos de existência; no quanto eu fui idiota em viver enfornada em casa quando eu deveria sair mais com meus amigos; no quanto eu fui estúpida por deixar de ficar com caras extremamente inteligentes e legais por conta do medo besta de acabar me magoando; no quanto eu fui ingênua por acreditar que a vida ia ser um mar de rosas se eu somente estudasse e conseguisse entrar numa boa faculdade; pois, "de que adianta meu diploma agora?" É o que eu quero gritar. De que adianta eu conhecer tanto de remédios e antídotos se sequer posso criar algo pra salvar a minha própria espécie da extinção? Pois esse é o caminho para o qual a humanidade está seguindo sem ter qualquer tipo de opção de escolha: o da extinção.
E eu logo serei uma pessoa a menos para lutar contra isso.
Serei uma criatura a mais contra quem os que restarem vão lutar.
Fico tão abismada com essa constatação quanto amedrontada.
E o medo, não deixo de pensar, é tão cruel que chega a te dar dor, a te cegar e a te deixar a mercê da escuridão, com nada mais do que seus fracos quatro sentidos sobressalentes para te guiar.
Então você pensa "se alguém que é cego consegue, por que não eu?".
Mas você esquece que os cegos são adaptados para isso, que são tão acostumados a sua condição que elevam o nível de percepção de seus outros sentidos a patamares incomparáveis.
E quanto tempo o medo cede a você para que se acostume com a sua própria escuridão?
Nenhum.
Então você começa a andar sem rumo e, sem sombra de dúvidas, vai cair em algum abismo, sem garantia de que, quando chegar no fim, vai finalmente se livrar da dor.
Porque se tudo fosse assim tão simples quanto se jogar num buraco aparentemente sem fim e morrer, por um término em toda a dor que essa existência medíocre e infeliz te deu, o mundo não estaria do jeito que está agora. Somente viveriam as pessoas que realmente soubessem dar valor a vida, que realmente soubessem viver. E todas aquelas que não mais vissem o sabor doce que alguns prazeres têm? Iriam simplesmente se afogar no próprio desespero e poriam elas mesmas um fim nas suas existências, levando consigo todas as péssimas coisas que os sentimentos ruins conduzem à criação, e evitariam, consequentemente, que esse mundo velho e gasto ruísse.
Porque é isso o que está acontecendo, não deixo de pensar,
O mundo
Está
Ruindo.
E eu estou caindo junto com ele.
Os ruídos animalescos que parecem ser as únicas coisas que as cordas vocais apodrecidas dos zumbis conseguem emitir acabam me tirando do meu devaneio, levando-me a abrir meus olhos marejados e a olhar para os meus futuros assassinos.
Não consigo deixar de constar o quanto a situação seria cômica caso outra pessoa me contasse. Mas somente pelo fato de eu estar vivenciando isso e não sendo uma mera observadora faz qualquer vestígio de graça se estilhaçar em milhões de invisíveis pedaços.
Meu fim está tão próximo que só consigo pensar em morrer logo.
E pensar nisso faz meu coração doer.
Faz doer tanto que entorpece todos os sentidos, todos os nervos, todos os neurônios. E entorpece tanto que não consigo sequer assimilar o significado do barulho da buzina do carro quando ele soa pela primeira vez.
"É tão engraçado", penso, "É tão engraçado o que a nossa mente é capaz de fazer quando sabe que vai morrer logo".
É tão engraçado como ela tenta nos acalmar e fazer agarrar-nos a algum tipo doentio de esperança, uma esperança que sequer existe.
É tão engraçado que eu, de fato, começo a rir. E não consigo não agradecer ao meu subconsciente por me proporcionar isso antes de ir embora, antes de perder a minha humanidade.
Por me fazer rir quando tudo o que eu quero fazer é chorar e morrer logo.
É tão bonito que chego mesmo a agradecer.
Obrigada, subconsciente.
Obrigada
Obrigada
- Obrigada — murmuro. E, ó, eis que alguém me responde:
- Não me agradeça até conseguirmos sair daqui — e eu me pergunto se, enfim, já não estou morta.
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