Reunião do Mundo Condenado
2 O Abrigo Dos Afugentados
Notas iniciais
– Você realmente está bem? — escuto o garoto perguntar pelo que parece ser a sétima vez. Dou uma olhada de canto de olho para ele e solto um suspiro pesado.
Está sendo desse jeito desde quando ele me encontrou no cruzamento da 1° de Maio com a Tiradentes sendo quase devorada pela horda de zumbis que vinha me seguindo desde o momento em que deixei minha casa com minha mala gigante, minhas inúmeras facas depositadas em meus coldres improvisados (que ele, eu notei, olha curiosamente de cinco em cinco minutos) e meu inseparável tripé de microfone.
Lembro, como se tivesse sido há apenas alguns minutos atrás, o que, de fato, realmente foi, do momento em que ele me puxou pelo braço (no exato instante em que dois dos zumbis que estavam atrás de mim alcançavam minha perna e tentavam puxá-la para o mais perto possível de suas decadentes arcarias dentárias), fazendo com que eu fosse para perto dele e forçando-me a sair do torpor ao qual eu havia me afogado.
– Ei, você está bem? Foi mordida? — ele perguntou enquanto puxava rapidamente uma faca do meu coldre de braço e a arremessava no meio da testa do zumbi mais próximo. Quando ele viu que o morto-vivo atingido havia caido em cima do seu "companheiro de lanche", se virou novamente pra mim e me olhou nos olhos. — Você foi mordida ou não? — sua voz era acolhedora, suave e dura, tudo ao mesmo tempo. Soava tão firme e genuinamente preocupada que me vi negando com a cabeça repetidas vezes.
– Não, não fui mordida — consegui falar. Com um suspiro de alívio, ele abaixou para pegar a minha mala e, com ela em mãos, puxou-me com firmeza na direção de uma BMW X3 azul turquesa. Abriu a porta traseira do carro, de forma tão rápida que quase não consegui acompanhar seus movimentos, e jogou minha mala lá dentro. Virou-se para mim com a mesma rapidez de outrora, puxou meu tripé e também jogou no mesmo lugar em que havia posto a mala, para depois me pegar pelo braço, pegar a última faca que eu guardava no coldre do lado esquerdo, e jogar de forma certeira na têmpora de um zumbi que estava quase nos alcançando.
Lembro de tentar respirar quando ele me arrastou pelo pulso, abriu a porta do carona e empurrou-me, de uma forma estranhamente gentil, lá dentro, somente para fechar a porta, dar a volta no carro, sentar no banco do motorista e arrancar em direção à rua que estava livre de zumbis.
Desde então, estamos no automóvel dele, correndo numa velocidade constante de, aproximadamente, 90 km/h.
Não é de surpreender que eu ainda esteja sem fala.
Escuto um ruído que parece ser uma leve risada e viro a cabeça na direção do estranho.
Se fosse em algum universo alternativo, um em que o mundo não estivesse virado uma grande bola de bosta, eu até diria " uau, que homem atraente".
Com seu cabelo loiro dourado, olhos verdes vítreos e rosto surpreendentemente simétrico e, evidentemente, de origem germânica, ele é o que minha amiga Tessa descreveria como O cara certo. Aquele tipo que seria obrigatório sair vezes o suficiente para que pelo menos um dos dois pudesse postar fotos nas redes sociais. Mas agora, nesse mundo virado de cabeça pra baixo de forma tão repentina, tudo o que consigo assimilar de sua aparência é o quanto ele parece calmo.
Seus ombros estão relaxados, seus dedos não apertam com força o volante e a única expressão que consigo ver em seu rosto, além de um bom humor inacreditável, que agora é evidente pelo seu sorriso, é um "quê" de preocupação comigo, o que não deixa de me surpreender.
Ele desvia o olhar da rua, somente por um instante, e o pousa de forma preguiçosa em meu rosto.
– Se eu não tivesse escutado você falar comigo naquela hora, ia realmente achar que você é muda — diz ele num tom divertido. E noto, pela primeira vez, que ele tem uma forma de prolongar o "r" que não é típica dos paraenses, muito menos de um brasileiro legítimo.
– Você não é brasileiro, é? — falo finalmente. Reparo que ele arqueia as sobrancelhas devido a surpresa pela pergunta que ele, evidentemente, não esperava, mas logo desfaz a expressão em um leve sorriso.
Pergunto-me onde ele encontra a motivação pra permanecer de tão bom humor.
– Na verdade, eu sou. Nasci em Curitiba, mas tive que ir morar nos Estados Unidos por sete anos pra concluir meu curso. — ele desacelera o carro somente o bastante para fazer uma curva fechada, mas logo volta à velocidade constante a qual ele parece andar sempre.
Olho pela janela e tento enxergar dentro das casas pelas quais vamos passando.
Tudo parece tão desértico, tão sem vida.
Será que todas as pessoas da cidade já viraram zumbis?
Essa pergunta me deixa seriamente atordoada.
– Você é formado em quê? — tento distrair minha mente por meio dessa conversa casual. Respiro fundo e abaixo o olhar para as minhas mãos que estão entrelaçadas em meu colo.
– Medicina — diz simplesmente. Sinto um leve movimento no ar ao meu lado e concluo que ele deve estar olhando para mim. — E você, é formada em quê? — a genuína curiosidade contida em sua pergunta me deixa estranhamente desconfortável.
– Farmácia — digo depois de uma curta pausa. — Na verdade, recebi meu diploma semana passada — completo com a voz baixa. Escuto ele soltar um longo assovio.
– Sinto muito. A gente pensa que a nossa situação é ruim, mas isso só até escutar a situação de alguma outra pessoa. Deve ser um saco estar de férias e, buum, o mundo desandar do nada. — ele não está mais sorrindo quando termina, — Faz qualquer um questionar a própria sorte. — noto que os nós de seus dedos ficam brancos a medida que ele aperta o volante com mais força.
Decido, então, terminar a conversa e tentar descobrir o lugar aonde estamos indo, mas a velocidade com que nos locomovemos não me ajuda em nada com minhas tentativas de tentar ler alguma placa de rua.
– Qual o seu nome? — sua voz chega aos meus ouvidos alguns minutos depois. Concluo que ele não deve gostar do silêncio. Continuo olhando para a estrada quando respondo.
– Erin — falo com a voz baixa e calma. Decido não revelar muitas coisas a ele, já que, por mais que tenha salvado a minha vida, ele ainda é um estranho.
– O meu é Mark — diz, apesar de eu não ter perguntado. Bem no momento em que tomo coragem para perguntar o que ele quer comigo, sinto o carro desacelerar e olho para a janela na tentativa de adivinhar onde estamos, e não posso evitar um arqueio de sobrancelha quando percebo que estamos parando em frente ao hotel mais caro e bem protegido da cidade.
Escuto um barulho de chaves batendo ao meu lado e imediatamente me viro para Mark. Ele encontra um pequeno quadrado de plástico preto com um botão vermelho, em meio as inúmeras chaves que existem no molho, e o aperta logo em seguida.
Imediatamente o grande portão se abre e ele manobra o carro para o lado de dentro.
Onde estão todas as pessoas? Parece ser tudo em que a minha mente consegue pensar.
Por isso não consigo acreditar em minhas palavras quando elas escapam.
– Você matou todas as pessoas que estavam aqui? — minha voz tem um tom tão acusatório que me arrependo delas no mesmo segundo em que saem da minha boca. Ele me olha de forma curiosa e solta um bufo resignado.
– Não acredito que realmente perguntou isso.
– Nem eu — falo de pronto. Ele olha para os retrovisores enquanto dá a ré para estacionar e responde com uma careta desgostosa.
– Eu não precisei matar ninguém. O hotel estava quase vazio quando o surto aconteceu. Somente eu, a camareira do meu andar e os quatro porteiros estavam aqui, e todos, como os grandes curiosos que eram, decidiram sair para olhar o que estava acontecendo. — uma pequena pausa — Nem preciso dizer que nenhum deles voltou.
– Ah... — é tudo o que meus lábios conseguem verbalizar. Desvio o olhar para o lado de fora e respiro fundo. Devo ter feito qualquer tipo de simpatia que Mark poderia ter por mim evaporar em poucos minutos.
Como você é esperta, Bellacosa.
– Somos os únicos sobreviventes da cidade toda — ele murmura. Respiro fundo e encosto a cabeça no banco acolchoado.
– Eu já estava suspeitando.
– Esvaziei o meu tanque enquanto andava pela cidade, e nada, Erin. Nenhuma pessoa viva. Zumbis? Mais do que eu posso contar. Mas pessoas? — ele nega com a cabeça enquanto olha para o nada — Eu não posso sequer expressar o quanto fiquei surpreso por ter encontrado você. Achava que estava alucinando... — sua voz some a medida que ele se perde na própria mente. E não posso deixar de achar engraçado o modo com que ambos parecemos ter achado que qualquer esperança em que se agarrar poderia ser fruto de uma mente fértil e desesperada demais por companhia.
– Se serve de consolo, eu tambén achei que você fosse alucinação — falo baixo, mas ele parece não me ouvir. Ainda está com o cenho franzido e com os olhos vidrados em algo a sua frente.
– Eu realmente achei que estivesse sozinho nessa. Passei duas vezes por aquela rua, e da primeira eu não vi nada exceto uns seis zumbis. Não deixo de pensar no quanto o destino é astuto. Eu havia me perdido, veja só, por não conhecer direito a cidade. Então eu usei a mesma rota para voltar ao hotel, logo, tive que passar novamente por aquela rua — ele solta uma risada sem humor — Já pensou se eu conhecesse a cidade e decidisse tomar uma rota diferente? — seus olhos se voltam pra mim e eu posso ver a pergunta neles, exigindo uma resposta.
– Eu estaria morta.
Ele nega.
– Você não estaria. Sei que você lutaria — ele aponta para os coldres nos meus braços — Desde o segundo em que te vi, soube que estava preparada.
É a minha vez de negar com a cabeça.
– Eu já tinha me entregado a morte, Mark. Estava tão conformada com o fato de que ia ser transformada que comecei a rir da situação toda — digo de forma ríspida — Eu nem sequer consegui assimilar o significado da buzina do seu carro quando a escutei. Achava que minha mente estava tentando me proporcionar um último fiapo de esperança a que me agarrar. Por isso estava agradacendo quando você me achou — termino com a voz mais baixa, porém intensa. Sei que deveria estar um pouco transtornada por ter compartilhado com ele alguns dos pensamentos mais confusos de meu consciente, mas ele parece ter um magnetismo tão intenso que torna difícil não querer desabafar com ele.
O desespero por ter alguém em quem confiar também não ajuda muito.
– Bem que eu suspeitei que você não estava agradecendo a mim — ele fala em um tom mais próximo ao que estava usando antes de chegarmos a esse assunto. Uma mistura de humor com um quê de provocação. — Por falar nisso — ele faz uma pequena pausa enquanto sai do carro e dá a volta pela frente para abrir a porta pra mim — Qual é a do tripé? — pergunta quando chego ao seu lado. Sigo seu olhar para o banco de trás e vejo o objeto jogado de forma desleixada por cima da mala. Solto um suspiro e balanço a cabeça com força para evitar as memórias que querem vir a tona.
– Foi a única coisa levemente próxima de uma arma para atacar zumbis que eu encontrei no meu quarto — digo na defensiva — e ele se mostrou uma ótima escolha, no final das contas.
Ele assente uma vez e abre a porta traseira, tirando de lá todas as minhas coisas. E enquanto ele faz isso, viro meu corpo em direção à rua e observo.
Se eu não tivesse visto por mim mesma toda a desolação que estava acontecendo no meu bairro, eu nunca suspeitaria que algo de errado está acontecendo na cidade se tomasse como base somente a avenida Dom Pedro II.
Com sua altiva largura e pavimentação impecável, a rua principal da cidade está como sempre esteve todos os dias em torno das quatro e meia da manhã: deserta.
As luzes dos postes, mescladas com o suntuoso brilho da lua cheia, conferem ao local um ar estranhamente romântico.
Se fosse em alguma outra situação, me consideraria uma garota de extrema sorte por estar em um lugar como esse, ainda mais acompanhada de alguém tão belo quanto Mark. Mas nas atuais circunstâncias, a única coisa pela qual eu devo me considerar sortuda é por ter um local seguro para ficar e alguém que saiba dirigir um carro.
Minha situação poderia estar bem pior.
Sinto uma mão em meu ombro e viro rapidamente, somente para me deparar com o meu misterioso salvador. Ele indica a direção da entrada principal com a cabeça e começa a andar até a ela, levando todos os meus pertences consigo.
Dando uma última olhada para a rua, sigo atrás dele e entro dentro do enorme e luxuoso hotel. Suas paredes altas e impecavelmente lisas são pintadas de uma tonalidade extremamente bela de bege, e seu chão de madeira amarela é tão bem polido que praticamente posso ver meu reflexo se olhar para baixo. Olho para o lado e vejo o que parece ter sido o balcão da recepção, e não posso deixar de sentir um pesar enorme ao constatar que o enorme móvel pintado em mógno e dourado jamais terá alguém atrás de si novamente.
Olho pela sala a procura de Mark e vejo que ele está parado em frente ao elevador, olhando de forma curiosa para mim. Desvio o olhar do seu e ando até uma mesinha repleta de revistas e jornais. Procuro o mais recente, dobro e ponho debaixo do braço.
Levanto o olhar para Mark novamente, notando que ele ainda me encara, e caminho até parar ao seu lado.
Ele parece entender que não precisamos de palavras formais ou qualquer tipo de verbalização para indicar o que nossas ações simplesmente já consumaram como algo certo e irrevogável: que nós somos uma equipe agora.
Assim que o elevador chega e a porta se abre, revelando o grande espelho que ocupa toda a parede distal do cômodo, não deixo de notar o quanto somos diferentes um do outro: eu, uma garota mediana de cabelos escuros e curtos, pele clara (agora totalmente manchada de respingos de sangue) e olhos que parecem não decidir de qual cor são; e ele, um germânico gigante de olhos verdes surpreendentemente cálidos e cabelos tão dourados quanto o sol poente.
Uma dupla inusitada em um mundo repentinamente bagunçado.
Duas pessoas desamparadas e desesperadas por companhia de qualquer outro ser vivo.
Não consigo não pensar no quanto isso tudo soa tão certo.
Entro no elevador primeiro e logo me viro para aguardar Mark fazer o mesmo. Mas ele permanece parado, olhando-me de forma intensa demais, parecendo me avaliar durante o tempo todo de existência da Terra para somente depois, então, abrir um sorriso demasiadamente grande e seguir-me pra dentro.
Pelos visto agora, concluo, ambos fizemos nossas escolhas, e, desse momento em diante, teremos que arcar com elas até o fim.
A porta do elevador se fecha e nos leva para o andar 17.
E eu fico somente calada enquanto subimos, observando os números mudarem a medida que vamos chegando ao nosso abrigo.
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