Reunião do Mundo Condenado
5 O Plano dos Desconsolados
Notas iniciais
Primeiro escuto a cacofonia de sons guturais ficando cada vez mais perto de onde estou. Depois, só consigo enxergar o mar de mortos-vivos se aproximando...
E se aproximando...
Aproximando...
Engulo em seco.
Eles sabem que eu já desisti de lutar.
Não entendo muita coisa sobre essa mutação, afinal, a epidemia chegou na minha cidade há pouco mais de 24 horas; porém eu não ficaria nem um pouco surpresa se ela permitisse aos infectados um olfato apurado (algo típico de caçadores), e que esse olfato fosse capaz de sentir as oscilações sudoríparas do nosso corpo; a liberação de adrenalina na nossa corrente sanguínea; o odor das secreções soltas pelo nosso suor.
Não me surpreenderia nem um pouco se eles pudessem farejar nosso medo.
Seria, na verdade, bastante irônico. Não em um sentido cômico, longe disso. Irônico no sentido "foda-se, mundo. Ninguém está rindo".
E bem, isso também explicaria o porquê de, inesperadamente, os zumbis começarem a vir mais rápido em minha direção, organizados em uma formação que parece quase ensaiada.
É desesperador.
Olho novamente para os errantes que se aproximam e tenho que me esforçar para não fazer algo do qual sei que irei me arrepender.
É quando eu o sinto chegar, antes mesmo de poder enxergá-lo.
Sua mão grande e surpreendentemente macia me captura pelo braço antes que eu consiga assimilar qualquer outra coisa. O movimento brusco e inesperado faz com que eu me desequilibre severamente e acabe por cair em cima dele. Escuto-o soltar um palavrão antes de sentir seu braço me empurrar para trás de si; e não deixo de me perguntar o que fez com que ele aceitasse ajudar-nos; o que fez ele mudar de ideia em tão pouco tempo.
O medo da morte realmente nos faz tomar medidas desesperadas.
O garoto estranho leva um dedo indicador aos lábios, fazendo sinal para que eu fique calada. Aceno positivamente com a cabeça e logo trato de acompanhar a direção do seu olhar. Só tenho tempo de soltar um arfar de incredulidade antes de ver algo passar em alta velocidade ao nosso lado.
Pisco algumas vezes, na inútil tentativa de mudar o que estou vendo; mas até meu coração parece saber que a imagem que está sendo refletida na minha retina é indubitavelmente real.
Pode muito bem ser a adrenalina, ou talvez a grande série de sustos, que faz eu soltar meu braço do aperto férreo do Cara da Faca e sair correndo atrás de Mark. Porque, sim, quem passa numa incrível velocidade ao nosso lado é Mark, que está, nada mais nada menos, que empurrando uma das prateleiras do supermercado, equilibrando-se em cima dela como se fosse alguma espécie de skatista experiente.
É uma visão tão perturbadora e surreal que sequer consigo verbalizar murmúrios, quanto mais palavras.
Porém não é isso que faz eu sair da proteção de Olhos Azuis e correr atrás de Mark. Não. O que me leva a fazer isso é o fato de ele estar indo desarmado para o meio dos errantes.
É o medo do que pode acontecer com ele por conta desse ato, medo do que eu sei que vai acontecer.
Não é surpresa nenhuma que meu sangue, de repente, gele e que eu comece a correr de forma irracional e imprudente para a direção em que Mark está indo.
Na direção dos incontáveis zumbis.
Na direção da morte certa.
Meu coração parece falhar uma batida no momento em que constato esse fato.
Estou na metade do caminho para alcançar Mark, andando com uma rapidez aflita — e ao mesmo tempo excitada — em sua direção, quando sinto uma mão apertar meu braço novamente e escuto, ao mesmo tempo que vejo, a "explosão" de dejetos e miolos de pouco mais de uma dúzia de zumbis, todos sendo esmagados na parede pela prateleira na qual Mark está.
Não sei se é o martelar incessante da pulsação em meus ouvidos ou se é o estrondo do choque que faz a minha audição ficar abafada. Só sei que, milésimos de segundos depois do estrondo, Olhos Azuis está falando comigo, sacudindo meus ombros com força, puxando meu rosto da direção de seus olhos, e falando um pouco mais antes de sair correndo de volta para os fundos do supermercado e levar consigo minha única arma, deixando apenas sua faca de arremesso em minha mão suada. Não sei bem se é o absurdo da coisa toda ou se eu realmente enlouqueci, mas, apenas alguns segundos depois de eu ter notado a faca em minha mão, eu começo a rir.
De verdade.
Fortes rajadas de altas gargalhadas saem descontroladamente de minha boca, e só consigo pensar no quanto eu sou burra, no quanto eu sou idiota, no quanto eu sou estúpida e estúpida por permitir a mim mesma ter esse fim. Como sou tão indigna de algo honroso que até para lutar contra a morte eu terei apenas uma faca de arremesso, arma a qual eu sequer sei usar.
Rio até os espasmos de histeria se tornarem lágrimas de horror. Horror pela realidade que cai sobre mim de forma repentina; horror de mim mesma por estar agindo dessa forma quando deveria estar lutando.
Mas é que... Eu estou tão
Tão
Tão cansada disso tudo.
E olha que estou passando por isso há apenas 24 horas.
Se com tão pouco tempo eu já estou praticamente enlouquecendo, o que será de mim depois de semanas? Meses?
O que será da minha sanidade, da minha humanidade, ao decorrer do tempo que eu sobreviver a esta pandemia?
A dúvida me deixa tão atormentada que começo a chorar de verdade dessa vez, soltando espasmos e soluços de medo e terror.
Mas olho para a faca em minha mão, para a lâmina afiada e fria — tão brutal, tão perigosa -, que poderia acabar com esse meu sofrimento em um segundo se eu quisesse – se eu quisesse — e decido que não é hora para dramas. Decido que não há tempo a perder com crises existenciais e tomo coragem para olhar na direção em que a prateleira se chocou contra os zumbis. E posso dizer, com convicção, que a surpresa que sinto ao ver Mark em pé e lutando contra cinco zumbis sobressalentes faz-me recobrar pelo menos uma fagulha da esperança perdida. Vê-lo em pé, lutando pela vida dele (e não só pela dele, mas também pela minha, como percebo com um misto de surpresa e indignação), faz-me sair do meu torpor e reunir forças para lutar.
Seguro a faca de arremesso que Olhos Azuis me deu e começo a andar até o lugar onde Mark está lutando.
Reteso meus músculos e permito minha mente ficar em estado de alerta, atenta a qualquer tipo de ameaça de perigo. Arrisco um olhar para o local onde a prateleira se chocou e percebo que o buraco no vidro que os zumbis fizeram foi inteiramente tapado por ela, e que agora só nos resta lutar contra os errantes que ainda estão dentro do recinto.
Ou melhor, os que estavam.
Noto com um misto de surpresa e descrença que Mark já lidou com todos eles, e que ele está agora, enquanto ofega e limpa o suor da testa com uma das mãos, olhando pra mim e se aproximando.
Nunca me senti tão feliz em ser brutalmente pega pelo braço e sacudida por alguém como me sinto no momento em que Mark faz isso comigo. Seus olhos verdes estão faiscando quando ele fita meus próprios olhos avelãs e suas cordas vocais produzem um som que parece muito com um rugido de um felino selvagem. Suas mãos estão apertando meus ombros como se ele quisesse se firmar em algo sólido para evitar explodir, estilhaçar, gritar, ou o que seja que ele queira fazer nesse momento. É um aperto tão forte que sinto um ligeiro amortecimento à medida que os segundos passam.
— O que você ainda está fazendo aqui? – Mark exige – Fred disse que te daria as instruções sobre o que fazer depois do truque da prateleira – sua voz sai dura, mas consigo notar um leve quê de preocupação ali. Solto um arfar, não conseguindo, por mais que queira, desviar os olhos do seu rosto. – Temos que correr AGORA para a porta dos fundos. Fred aproveitou a distração e o barulho que eu fiz pra ir até o carro e levá-lo até lá, então temos que correr o mais rápido possível antes que os outros zumbis consigam desbloquear o buraco – ele solta um suspiro e olha rapidamente para trás, somente para voltar a olhar pra mim alguns milésimos de segundos depois – Onde estão os suprimentos? – ele pergunta apressado. Olho para o meu lado e aponto para o carrinho repleto de produtos que parece tão pesado quanto realmente é.
— Me desculpe, eu... – travo ao perceber que não é hora de lamentos. Não temos tempo a perder. Olho para ele durante alguns segundos antes de sorrir fracamente. Libero meu braço do seu aperto e corro até o carrinho. Começo a andar e empurrar com dificuldade, até que Mark chega por trás de mim e começa a ajudar.
Seus olhos estão fixos no caminho que precisamos seguir, e seus passos largos estão apressados, ligeiros em chegar ao nosso destino; mas é o vinco entre suas sobrancelhas – um leve franzir de cenho – que denuncia sua preocupação, sua tensão. Perceber que Mark está tão tenso quanto eu mesma é, de certa forma, reconfortante. Saber que não sou a única a ter seus dilemas e conflitos internos é algo ao qual eu posso me consolar.
É, na verdade, o motivo que me faz não desabar e decidir continuar andando em direção ao fundo do supermercado que, irritantemente, parece não chegar nunca.
Decido apressar meus passos e estou prestes a sugerir a Mark que faça o mesmo quando um barulho de algo pesado – e metálico – caindo no espaço atrás de nós faz com que ambos tenhamos um sobressalto. Recebo um olhar arregalado de Mark antes de assentir para a sua pergunta silenciosa e logo começo a jogar no chão todos os produtos que ainda restam sobre as prateleiras.
Com dificuldade, consigo derrubar uma boa quantidade de vidros e enlatados no chão enquanto tento a todo custo acompanhar os passos largos e rápidos de Mark. Sinto um ponto do meu antebraço arder levemente quando o uso para derrubar mais algumas caixas, e decido que essa é a deixa para parar. Olho para trás apenas durante alguns momentos, avaliando meu trabalho.
Depois de ver que o caminho está bloqueado com a maior quantidade de latas e vidros que pude jogar no chão, junto-me a Mark em sua correria até a porta dos fundos. Com o coração na garganta e os batimentos martelando em meus ouvidos, olho de cinco em cinco segundos para trás, na tentativa de assegurar que não estamos sendo seguidos.
Pela graça do bom Deus, não estamos.
Quando avistamos a porta azul de madeira e paramos em frente a ela, ofegantes e suados, ficamos alguns segundos recobrando o ar perdido quando algo além dos ruídos de nossos pulmões exigindo oxigênio faz Mark ficar alerta.
Ele levanta uma das mãos em sinal de "espere" e segura uma das suas armas com a outra. Aproxima-se da porta e encosta o ouvido na madeira, aguardando alguns segundos antes de se afastar e pôr a mão livre na maçaneta. Mark olha para mim novamente, e sei que pede silenciosamente para que eu fique em guarda. Aflita, reteso o meu corpo e empunho a faca que Fred me deu. Ela parece pequena demais em minhas mãos miúdas, mas seu peso e seu formato tornaram-se, de certa forma, reconfortantes em minha palma. Sua lâmina reta e afiada tornou-se uma amiga a qual não quero abrir mão. Apertando seu cabo em volta dos meus punhos, levanto-a o bastante para que Mark possa ver que estou armada e assinto de forma quase imperceptível para ele.
Depois de assegurar que estou atenta, Mark, com muita cautela, abre a porta e olha para o que tem no lado de fora. É no mesmo momento que um zumbi desgarrado coloca seus braços apodrecidos na fresta da porta e Mark, com um movimento rápido, afasta a cabeça do alcance da mão do errante e esmaga seu membro com uma batida feroz na porta. Respirando pesadamente, ele pega a faca da minha mão, abre a porta novamente e afunda a lâmina na cabeça do morto-vivo.
Sinto meu estômago revirar e vomito ali mesmo. Meus olhos ardem com os espasmos e minha boca fica amarga por conta da acidez do quimo, mas logo tento me recompor e ando até o local onde deixei nossos mantimentos. Aproximo-me da porta com o carrinho, aguardando Mark voltar do lado de fora para me dar sinal verde. Assim que ele dá sinal de positivo e ambos saímos, procuramos o carro com o olhar. Viro-me para Mark com o rosto repleto de preocupação.
— E se ele foi pego no caminho? E se ele não conseguiu sequer chegar ao carro? – pergunto preocupada. Não gosto de ser pessimista, mas as circunstâncias realmente não estão jogando ao nosso favor atualmente. Esperar o pior parece ser sempre a melhor coisa a se fazer nesse mundo novo.
Mas se Mark compartilha de meus receios, não deixa transparecer. Ele apenas segura a minha mão e dá um aperto reconfortante. Seus dedos calejados – tão diferentes dos de Fred – massageiam a costa da minha mão e acabo me agarrando a esse gesto com mais força do que deveria. A voz de Mark chega a mim antes que eu me dê conta de qualquer outra coisa.
— Se ele conseguiu chegar a esse supermercado sem carro, podemos ter certeza que ele vai conseguir chegar até aqui e tirar-nos dessa – ele diz com convicção. Estou prestes a dizer a ele que não devemos ser tão confiantes assim (ainda mais se levarmos em conta que acabamos de conhecer o garoto e que ele pode muito bem ter fugido com o nosso carro) quando escuto um barulho de passos arrastados. Sinto meu coração apertar e fecho os olhos com força, acreditando piamente que dessa vez eu não vou conseguir escapar. Estamos cansados, com um carrinho cheio de mantimentos para arrastar e, para qualquer lugar que corrermos, teremos zumbis em nosso encalço.
Não quero ser pessimista,
Não devo ser pessimista,
Não posso ser pessimista, mas...
Dessa vez eu vou acabar morrendo.
Amasso a mão de Mark entre meus dedos com mais força do que já fazia e olho devagar para trás.
Tudo acontece muito rápido.
No momento em que vejo quatro zumbis passando pela mesma porta que cruzamos há pouco, escuto o ronco da BMW de Mark chegar perto em uma velocidade enlouquecedora. Meus batimentos se tornam tão audíveis em meus ouvidos que sequer consigo escutar o que Mark ordena aos berros. Só sei que ele enfia o cabo da minha pequena faca entre meus dedos dormentes e me vira para que eu fique de costas pra ele.
Entendo o que ele quer fazer com isso, claro. Devemos proteger as costas um do outro, lutar como uma equipe, fazer jus a nossa aliança, mas...
Não consigo tirar meus olhos da fumaça cinzenta que sobe dos pneus do carro azul de Mark quando Fred freia com tudo e faz o veículo derrapar. Não consigo fazer meus olhos desviarem da figura esguia e atarantada que abre a porta do carro e que atira de forma certeira em um dos zumbis que está atrás de nós.
Não consigo não ser idiota e acabo quase sendo pega por um errante por causa da minha patetice, mas Mark é mais rápido que ele e atira bem no meio de sua testa com a arma que tem em mãos.
Quando finalmente meus ouvidos voltam a fazer seu trabalho, somente escuto os passos arrastados dos errantes e a voz de Mark esbravejando para que eu entre logo na droga do carro. Estou quase fazendo isso quando a mão macia de Fred me impede.
— Não esqueça do carrinho... – é tudo o que ele diz antes de tomar o meu lugar ao lado de Mark e começar a atirar nos zumbis que ousam aproximar-se demais. Olho para os mantimentos que nos custaram tanto tempo e trabalho e decido que devo fazer minha parte logo. Quanto antes sairmos daqui, melhor. Por isso, pego o carrinho e o arrasto até o carro, tudo isso enquanto Fred e Mark atiram nos zumbis que vão chegando cada vez mais rápido, cada vez em maior quantidade.
Estou chegando à mala do carro e começando a colocar as coisas dentro quando arrisco uma olhada para os garotos e sinto minha respiração falhar. Observo com o corpo paralisado quando Mark tenta atirar e não consegue acertar seu alvo, não porque não mirou corretamente, mas sim porque sua munição acabou. Olho com meus dedos trêmulos, minha boca seca e minhas pernas bambas o exato momento em que dois zumbis vêm na direção de Fred e não permitem com que ele dê a atenção devida a Mark, que está procurando loucamente entre seus coldres mais um carregamento de munição. E escuto, antes mesmo de enxergar, o errante desgarrado que está vindo por trás de mim.
Sei que entrar em desespero e gritar não adianta nada em momentos como esse, mas a vontade de fazer isso não deixa de ser enorme. Agarro a faca entre meus dedos suados e viro rapidamente, esperando encontrar o zumbi bem próximo, quase me agarrando com seus dedos apodrecidos.
Bem, o que vejo é pior.
Três errantes aproximam-se de forma veloz e barulhenta, e me pergunto, com o estômago embrulhado, como não percebi o som dos passos arrastados que, claramente, pertenciam a mais de um zumbi, e não só a um. Eu poderia ter tido pelo menos mais alguns segundos para me preparar.
Olho para a minha faca pequena e sinto meu coração apertar.
Não vou conseguir matar esses três com apenas isso.
Mas e se...
Franzindo o rosto e respirando fundo, tomo minha decisão.
Estou bem ciente da velocidade dos meus batimentos cardíacos quando pego uma lata de feijão e começo a correr para longe dos zumbis, do carro e na direção oposta a qual os meninos estão. O plano é simples, arriscado e completamente idiota, mas é tudo o que consigo pensar sob o peso da pressão do pensamento constante de que vou morrer.
Quando estou a uns seis metros de distância dos garotos, atiro a lata com tudo no chão, chamando a atenção de todos os zumbis com o barulho metálico e alto. Estrategicamente, corri para um lugar longe tanto do carro quanto dos meninos, dando tempo para que eles guardem as coisas antes de eu voltar...
Se eu voltar.
Percebo com um misto de pesar e desespero que há mais zumbis do que eu havia previsto vindo em minha direção, e que eu não tenho nada além da minha faca de arremesso para lutar contra eles. Olho na direção do carro e percebo que Fred foi rápido e já está guardando com velocidade todos os itens que consegui pegar no mercado. Já Mark...
Bem, ele não parece nada feliz comigo. Seu olhar está vidrado em mim, seu rosto impassível, desprovido de cor e sem nem um resquício sequer do bom humor que sempre carrega. Na verdade, até seu irritante otimismo parece ter desaparecido, e perceber isso em sua expressão apenas faz meu estômago retorcer.
Se até Mark está sem esperanças, é porque a situação realmente está feia para mim.
Respirando pesadamente, começo a olhar em todas as direções. Sei que estou encurralada, e esse era o objetivo desde o princípio (usar a mim mesma como isca para que Mark e Fred conseguissem tempo para guardar as coisas e viessem me defender), mas estou começando a pensar que fui realmente estúpida ao fazer isso.
Não esperava tantos zumbis. Não esperava que eles chegassem tão rápido. E não esperava que Mark fosse ficar parado sem fazer nada enquanto eu estava tão perto de encontrar a morte.
Constatar isso faz meu peito apertar de forma estranha, mas ignoro quando a frustração de não ter como me defender chega com mais força. Respiro fundo e decido tentar pelo menos lutar com o que tenho. Arrisco um olhar pela última vez na direção de Mark, e vejo que ele não está vindo me ajudar não porque não quer, e sim porque não pode. Mordo o lábio inferior com força quando finalmente percebo que ele não está usando a arma que está em suas mãos porque não tem mais munição.
Que não está vindo me ajudar porque não tem nada mais que suas mãos vazias para lutar contra os errantes.
Com isso, qualquer faísca ínfima de esperança que poderia ter restado em mim se esvai. Fecho os olhos e sinto as lágrimas quererem escapar, mas não me dou ao prazer de ter esse alívio no momento.
Não quero me entregar como fiz há uma noite.
Não quero me conformar.
Quero lutar até não poder mais.
Quero ser lembrada como uma heroína, não como uma covarde.
Quero tantas coisas...
Quero ser forte, quero ser madura...
Quero me adaptar rapidamente a esse mundo;
Quero me desfazer dos fantasmas do passado que me assombram a cada momento;
Quero me ver livre desses errantes;
Quero destruir os cérebros apodrecidos dessas escórias,
E quero isso agora.
Mal tenho noção dos meus movimentos até ver seus efeitos.
Minhas mãos agem sozinhas, minhas pernas se movem sob a ação de alguma força estranha que não compreendo. Meus olhos se entrecerram, meus músculos ficam rijos...
Minha faca acerta o nariz do primeiro errante e afunda até o cabo quase desaparecer sob sua pele pútrida. Seu líquido cefalorraquidiano escorre pelos meus dedos, respinga para todos os lados, suja meus pés...
Mas sequer me importo.
Ver seus olhos opacos e semicegos perderem o pouco brilho que já lhe restavam é o que me motiva a puxar a faca novamente e enfiar na têmpora do segundo, e na testa do terceiro, no topo da cabeça do quarto...
Sinto-me viva, poderosa, brutal, perigosa e presa...
Meu sangue gela quando dedos frios e gosmentos agarram meu braço e tentam me puxar em sua direção.
Meus pés se movem sozinhos.
Com um movimento impensado, tento afastar o zumbi com um chute, mas apenas consigo ser agarrada pela canela por outro errante. Tento me contorcer, tento me sair dessa, mas até minha parte mais selvagem e corajosa parece desistir.
Estou encurralada, presa, sem fôlego e sem vida. O pico de energia e força que ganhei há pouco já se esvaiu. O ápice de coragem já se foi. Deixou apenas a carcaça, o corpo que em breve vai estar tão apodrecido quanto esses que me seguram.
Desistir nunca me pareceu tão vergonhoso.
Os zumbis continuam a me puxar, mas parecem estar travando uma batalha entre eles mesmos. Um tenta aproximar minha perna de sua boca, mas o outro puxa meu braço e acaba me afastando do primeiro, fazendo uma espécie de cabo de guerra humano.
Seria engraçado se eu não fosse o dito cabo de guerra.
Continuo a me contorcer, mas eles são fortes. Seus dedos apertam minha carne com força, bloqueando minha circulação, fazendo com que as áreas não oxigenadas comecem a ficar dormentes. E meus olhos, bem, eles decidem não ver. Decidem encarar a escuridão em vez do definhamento. Preferem fitar o abismo a fitar o meu árduo fim. Preferem se fechar.
Queria que minha pele pudesse fazer o mesmo.
Sinto o rompante de dor no mesmo instante que escuto o barulho estrondoso.
Meus ouvidos começam a zumbir no mesmo momento que o aperto no meu braço afrouxa. O ardor começa num ponto e se espalha por todo o membro. O líquido quente que suponho ser meu sangue começa a aquecer minha pele e respingar no chão.
Outro estrondo, e o aperto na minha perna também se vai. Esforço-me para obter equilíbrio, fitando o chão para evitar pisar nas carcaças que agora estão depositadas ali.
Levanto os olhos e fito o meu salvador.
Seus olhos azuis estão frios, impassíveis, e a arma em seu punho está apontada para algo atrás de mim.
Um ricochete e outra bala atinge seu alvo.
O zumbido em meu ouvido aumenta.
Fred se aproxima em dois passos e agarra o meu braço não ferido.
— Sinto muito pelo tiro, mas não havia como mirar de forma certeira com você se mexendo tanto – ele diz rapidamente, olhando para um ponto a nossa esquerda e atirando logo em seguida. Um projétil, um corpo no chão. Dois projéteis, menos dois inimigos no mundo.
— Onde está Mark? – consigo sair do topor e fazer minha voz ser audível. Fred está prestes a abrir a boca quando o próprio ser ao qual nos referimos responde.
— Estou aqui. – ele diz de dentro do veículo turquesa no qual está dirigindo — Entrem logo na droga desse carro e, pelo amor de Deus, não sumam mais da minha vista.
Ele não precisa pedir duas vezes. Acatamos sua ordem, entramos no carro e, sob uma velocidade inacreditável, deixamos pra trás o mercado e o mar de zumbis.
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