Reunião do Mundo Condenado
6 O Cômodo da Perdição
Notas iniciais
— Você devia amarrar alguma coisa nisso aí – Fred comenta do banco de trás. Levo alguns segundos para notar que ele está se referindo a ferida no meu braço que ainda libera sangue. Olho para o banco de couro branco do carro de Mark e fico observando as manchas de vermelho que agora o tingem. Levanto o olhar para seu rosto.
– Desculpa pelo banco – é o que digo. Mas ele nem se digna a responder. Estamos há mais ou menos sete minutos nesse carro e ele ainda não soltou uma única palavra desde o momento em que entramos. Seus olhos verdes estão fixos na estrada, seus dedos firmes no volante, sua boca uma linha fina.
Ele parece realmente chateado, e tenho quase certeza que é comigo.
Já Fred parece em êxtase. Seus olhos azuis estão brilhantes, vívidos. Suas bochechas estão vermelhas e seu cabelo desgrenhado. Ele está mais parecido que nunca com uma estrela do rock, sua beleza mais destacada do já era antes.
Ele com certeza nasceu para se dar bem em uma situação como essa.
Já o mesmo não pode ser dito sobre mim.
Na rápida olhada que dei no espelho retrovisor do carro de Mark, notei o quanto eu pareço acabada, selvagem, suja. Meus cabelos curtos estão desgrenhados, meu rosto está pálido, sujo de sangue e dejetos de zumbis. Meus lábios parecem ressecados, meus olhos escuros demais e minhas olheiras mais pronunciadas do que jamais foram.
Se eu não estivesse pensando de forma racional e se estivesse me sentindo impelida a morder pessoas, já poderia considerar a mim mesma um zumbi.
Pena que não posso ser como eles e me preocupar apenas em abocanhar minha próxima refeição.
Pena que ainda tenho que lidar com pessoas.
– Mark é médico – digo para Fred – Ele pode dar um jeito nisso quando chegarmos ao abrigo – acrescento. Digo isso no intuito de fazer Mark falar, mas parece ser em vão. Ele continua olhando de forma obstinada para frente como se nem tivesse escutado o que falei.
Com um suspiro, decido fazer o mesmo.
A dor em meu braço começou a realmente incomodar pouco tempo depois de eu ter entrado no carro. Como antes eu estava na euforia da luta e da fuga, não sentia mais que um formigamento na região do meu antebraço. Mas depois que entrei no carro e o vento frio do ar condicionado fez meu corpo começar a esfriar, a dor chegou em rajadas intensas e ressonantes. Fred escutou o meu gemido e pediu desculpas mais uma vez. Mark apenas olhou pra frente. E eu apenas me calei.
Não faço ideia do que vai acontecer daqui pra frente, de como a chegada de Fred vai interferir em nossos planos, em nosso trato. Mas parece ser injusto demais que o larguemos agora, ainda mais depois de ele ter salvado nossas vidas lá no mercado.
Depois de ter salvado a minha vida duas vezes.
Ainda consigo sentir o aperto férreo dos zumbis em meus membros se eu fechar os olhos e me concentrar.
Ainda consigo escutar seus dentes rangendo.
Ainda consigo sentir o sabor de estar tão perto da morte...
Ainda...
Fred se inclina em minha direção e interrompe meus pensamentos. Ele está com uma tira de pano na mão, que logo percebo ser um pedaço da manga de sua camisa branca que agora está suja de sangue e líquido putrefato. Ele puxa meu braço da forma mais delicada que consegue, mas, ainda assim, solto um gemido pela dor que irradia por meu membro.
– Mark até pode ser médico, mas ele não vai ter o que tratar se você estiver morta por conta de uma hemorragia antes que cheguemos ao hotel – ele diz com a voz ríspida. Sinto-me impelida a afastar meu braço de seu aperto e ignorá-lo, mas o toque dele, tão suave, mostra o quanto ele se sente culpado por ter causado esse ferimento em mim. A ferida em carne viva no local onde a bala passou de raspão foi necessária para que eu saísse com vida de lá, mas ele parece se esquecer disso e se culpar mesmo assim.
– Nem está sangrando tanto... – tento argumentar. Mas até um cego saberia dizer pela quantidade de sangue que está espalhado pelo carro que eu estou mentindo. A frequência dos pingos é alta. A quantidade de sangue é grande. Sinto uma dor de cabeça que até o momento ainda não havia notado.
– Ambos sabemos que isso é uma grande inverdade – ele diz antes de começar a apertar o tecido em volta do meu braço, amarrando com força para que o sangue pare de jorrar. Tenho que cerrar os dentes para evitar gritar, mas mesmo assim um gemido de dor rasga minha garganta. Fred não parece nem um pouco apologético quando lanço um olhar ferido para ele. – Desculpe, mas não há como ser delicado em momentos como esse – ele diz antes de checar o nó mais uma vez e voltar a se sentar no seu assento.
Ignoro a dor por ser necessário e volto a olhar para a rua.
Já estamos na Avenida Dom Pedro II e sei que a qualquer momento estaremos chegando ao nosso abrigo.
Sinto-me impelida a chamar Mark, conversar com ele, perguntar o que vamos fazer daqui pra frente, mas o seu silêncio me deixa calada. Sua quietude me incomoda, me fere, mas, mais que isso, ela me assusta.
Para onde foi o garoto que não conseguia ficar um minuto em silêncio sem que se sentisse obrigado a falar algo?
Para onde foi o bom humor que parecia estar impregnado em suas feições?
Para onde foi o meu amigo?
Sinto minha garganta fechar ao mesmo tempo em que o carro começa a desacelerar.
Olho na direção em que estamos indo e solto um suspiro que não sabia que estava segurando quando constato que não há nenhum zumbi rodeando os portões. Escuto o barulho do molho de chaves que Mark tira do porta luvas e observo quando ele aperta o botão que faz o portão automático se abrir. O zumbido da eletricidade me é reconfortante agora, não apenas porque o silêncio estava começando a incomodar meus ouvidos, mas também porque significa que ainda temos energia.
Que ainda posso usufruir de algumas horas com meus aparelhos eletrônicos.
Que ainda posso me dar ao luxo de tomar um longo banho quente para tentar lavar essas manchas que agora não mancham apenas minha pele, mas também minha alma.
Que ainda posso tentar saber se o restante dos meus familiares está bem.
Assim que o portão se abre completamente, Mark manobra o carro para dentro e o conduz até a garagem. No momento em que ele para, nenhum de nós parece querer se mexer primeiro.
Estava bem ciente da tensão que havia se estabelecido desde o momento em que saímos do mercado, mas agora ela parece se intensificar. Sinto meus ouvidos doerem com o silêncio e estou prestes a quebra-lo quando escuto Mark pronunciar as primeiras palavras desde o momento em que entramos no carro.
– Fred, me ajuda a tirar os galões de gasolina da mala e levar lá pra dentro? – é o que ele pergunta. Nada de “como vocês estão?”, ou “Erin, como está seu braço?”, ou “Parece que chegamos bem, não?”. Nada. Parece que esse Mark que está aqui é totalmente o oposto do Mark que eu conheço.
Ou pior, penso eu: esse pode ser o Mark que ele sempre foi.
Pensar nisso faz meu coração doer, assim como meu braço já o faz.
No momento em que Mark sai do carro para abrir a mala, Fred me olha pelo espelho do carro e nega com a cabeça levemente. Parece querer se comunicar comigo de alguma forma, mas ainda não temos intimidade o suficiente para nos compreendermos com simples olhares e gestos. Não sei dizer se esse “não” foi para o que ele acha que posso fazer; para o que ele acha que eu estou pensando ou para dizer que ele não pretende ficar.
Que sua ajuda foi apenas por conveniência.
Isso, estranhamente, faz meu corpo se encher de desespero. Não que eu tenha me apegado a Fred com tanta rapidez. Não. É que a ideia de ser deixada novamente sozinha com esse Mark novo que mal conheço parece ser desgostosa em minha mente. E também há o fato de eu não aguentar ficar sozinha novamente. Se algo acontecer a Mark, não conseguiria seguir em frente sozinha. Já perdi muitas pessoas para ser capaz de perder outras. Já quebrei meu coração muitas vezes pra ser capaz de fragmentá-lo ainda mais.
Observo pelo retrovisor todos os gestos e movimentos dos dois homens que me acompanham. Mark conseguiu encher três galões de combustível, e esse, por enquanto, é nosso maior trunfo. Fico olhando enquanto Fred carrega um deles até a entrada, depositando-o no chão antes de voltar e pegar mais um. Observo a forma com que seus músculos bem definidos e talhados se tencionam ao fazer esforço, o modo com que suas veias pulam quando ele faz força. O mesmo pode ser dito de Mark. Seu conjunto de músculos é ainda mais impressionante que o de Fred, sendo ligeiramente mais pronunciados pela manga curta da camisa que usa e pelo tom levemente dourado de sua pele.
Sinto meu rosto esquentar levemente e desvio o olhar por alguns momentos.
Como fui parar em um hotel tão chique com dois homens tão belos?
Sou poupada de responder a mim mesma quando escuto alguém bater na minha janela.
Meu pescoço se move com tanta velocidade que sinto um leve estalo. Solto um gemido de dor que se perde no ar no exato momento em que vejo os olhos verdes de Mark me olhando.
– Você vai entrar conosco ou quer ficar morando aí dentro agora? – pergunta com a voz rude, mas consigo ver, mesmo que quase completamente escondida, a pequena faísca de preocupação que parece nunca deixa-lo na mão. Sou roubada de fôlego quando constato isso, preferindo opinar por acenar afirmativamente com a cabeça em vez de responder verbalmente.
– Vou entrar com vocês – digo – Eu apenas estava tentando me acalmar – acrescento com hesitação. Não gosto de demonstrar fraqueza, mas preciso jogar essa isca pra ver se está tudo bem entre Mark e mim. Porém, notando ou não, ele parece ignorar isso.
– Você pode se acalmar lá dentro com a mesma eficiência que o faz aqui, não? – ele rebate. – Melhor entrar logo. Não quero arriscar atrair zumbis para cá pra frente – ele diz. Com um suspiro, eu decido obedecer. Abro a porta rapidamente e me levanto para sair.
Ou melhor: tento.
Minhas pernas fraquejam tanto que sequer consigo dar um passo antes de tombar, quase caindo no chão se não fossem os reflexos rápidos de Mark que, com destreza, passa o braço sob minhas axilas e me segura firme. Sinto minha visão escurecer e uma súbita ânsia de vômito me pegar de jeito, mas fecho os olhos com força para afastar ambas. Mark solta um palavrão baixo antes de gritar para Fred.
Não consigo escutar direito suas palavras. A escuridão embaça demais minha visão e meus sentidos. Mas consigo assimilar um “muito sangue” e um “suturar o ferimento”, seguido de um “uma infecção? Ela...” antes de os batimentos ficarem tão fortes e lentos em meus ouvidos que acabo adormecendo sob o som constante e agradável que eles ecoam.
∆∆∆∆∆
O martelar incessante da enxaqueca é a primeira coisa que sinto antes de finalmente abrir os olhos. O calor leve e agradável que entra pela janela em forma de raio de sol é a segunda. Vejo o forro de madeira e o lustre logo em seguida. Exalo de forma audível antes de tentar me levantar, mas logo constato que a terceira coisa que sinto nessa manhã (ou será tarde? Não faço ideia de quanto tempo dormi) é a dor no meu braço. Ela chega intensa e repentina, fazendo-me contorcer um pouco debaixo dos lençóis, ofegante e agoniada. Decido aguardar quieta durante alguns segundos na espera de um alívio antes de abaixar meus olhos até o local onde sei que estou ferida.
Alguém parece ter limpado a ferida, suturado e feito um curativo, assim como parece ter me dado algum analgésico para aliviar a dor. Tenho certeza que ela deveria estar bem mais intensa do que essa que estou sentindo. Respiro fundo e tento levantar, mas logo sou impedida por uma pontada aguda no meu pulso. Olho para a origem da dor e solto um arfar indignado quando vejo que estou recebendo sangue através de uma transfusão improvisada. Meu olhar sobe para a bolsa e constato que ela está quase vazia, dando a entender que já estou desacordada a um bom tempo.
Volto a deitar a cabeça no travesseiro e fecho os olhos com força.
Fiquei tão mal assim a ponto de precisar de uma transfusão de sangue?
Desde quando fiquei tão fraca fisicamente?
– Que diabos está acontecendo comigo? – questiono em um sussurro agoniado. Apesar de não esperar uma resposta, eu a recebo.
– Creio que tenha sido o choque – é o que Mark diz com a voz cansada. Com um sobressalto, olho para a direção de onde o som vem e me deparo com ele sentado em uma poltrona. Sua coluna está curvada, seus ombros caídos, seus olhos rodeados por olheiras pronunciadas que, até o momento, eu ainda não havia percebido.
Ele parece tão ruim quanto eu mesma devo estar.
Sou obrigada a limpar a garganta antes de dizer algo.
– Agora decidiu falar comigo? – pergunto com a voz calculadamente baixa e fria. Ele parece tomar minha atitude como sinal de que estou melhor, se o longo suspiro aliviado que ele libera é indicativo de algo.
– Eu estava preocupado – é o que ele responde, esquivando-se da minha pergunta. Seus olhos estão ligeiramente mais brilhantes quando volta a falar – Fiquei com muito medo de seu sangue não ser compatível com o da bolsa que eu tinha nos meus materiais e... – ele desvia o olhar para o chão – Fiquei com medo de fazer a transfusão tarde demais, ou de o ferimento acabar infeccionando ou-... – ele decide parar e sacode a cabeça com força antes de olhar para mim novamente – Fiquei com medo de você acabar morrendo – é o que ele diz, por fim. Noto que suas mãos tremem levemente, sacudindo-se quase imperceptivelmente no local onde estão depositadas.
Dessa vez sou eu que preciso desviar o olhar para que ele não veja minha expressão.
Achava, com toda a sinceridade do mundo, que nunca mais teria alguém se preocupando comigo novamente após a morte da minha família, afinal, que outras pessoas poderiam me amar da mesma forma que eles o faziam?
Que outras pessoas poderiam criar um vínculo tão forte e intenso quanto os que eu fui obrigada a cortar?
“Ninguém”, é o que eu pensava.
Mas... Mas esse homem?
Esse homem que mal conheço e que decidiu fazer uma aliança comigo apesar da minha fraqueza, apesar dos meus problemas e dos meus fantasmas... Bem, este homem se importa.
E não apenas se importa, como também parece ter feito tudo o que julgou possível para me salvar da morte.
É inevitável que meus olhos se encham de lágrimas com essa constatação.
Estou prestes a agradecer por tudo quando ele volta a falar.
– Mas você foi tão idiota, Erin, tão idiota. Como você pôde achar que aquele plano estúpido poderia dar certo? – sua voz não tem malícia algumas, mas as palavras me ferem. Rapidamente (tão rapidamente que até chego a me surpreender), as lágrimas, que eram de gratidão, tornam-se de indignação.
– Fiz isso pra salvar a vida de vocês. – sussurro com a voz embargada pelo choro. Recuso-me a olhar para ele, pois sei que tudo o que encontrarei em suas feições será pena e resignação para comigo.
– Mas e quanto a sua vida? – fecho os olhos com força quando escuto sua pergunta, fazendo algumas lágrimas traidoras escorrerem sobre minhas bochechas. Preciso respirar algumas vezes antes de responder.
– Pensei que vocês iriam me proteger da mesma forma que eu tentei protege-los, não que iriam apenas ficar olhando enquanto eu estava prestes a ser devorada viva! – termino gritando, não conseguindo controlar meu gênio.
Como a conversa amigável acabou chegando a isso?
– Você não pensou no fato de que, com plano ou sem plano, nós teríamos que proteger você de qualquer forma? Sua relutância em agir rapidamente já quase custou sua vida duas vezes, Erin. Já está na hora de aprender a controlar seus pensamentos melodramáticos e agir em vez de pensar. Palavras não funcionam com aquelas coisas e você sabe disso! Instinto é o que nos guia a partir de agora.
Fico presa em algo que ele diz; algo que faz a raiva ir me dominando cada vez mais.
– O que você está querendo dizer com isso, Mark? – ele fica em silêncio durante muito tempo. Tempo demais – O que você está querendo insinuar? – pergunto novamente, dessa vez com um tom mais ameaçador. Ele hesita mais alguns segundos antes de limpar a garganta e falar.
– Estou querendo dizer que você tem que deixar de ser um peso morto e começar a lutar de verdade. Você não é a única aqui que perdeu tudo, não é a única assombrada pelos fantasmas dos seus mortos e não é a única a sofrer constantemente com isso – seus ombros estão tremendo enquanto ele prossegue. – Eu sofro da mesma forma, Fred sofre da mesma forma, e você vê algum de nós dois desistindo sem lutar? Você viu algum de nós dois assistir quietamente nossas próprias mortes? Você me viu fechando os olhos para o meu inimigo e me entregando de bom grado, sem nem sequer parecer pensar na quantidade de sofrimento que isso iria infligir aos meus companheiros? Você acha que eu não sofreria com sua morte, Erin? – ele faz uma pausa para me olhar nos olhos – Parece que não. Você parece não pensar nem um pouco nisso. E mesmo agora, enquanto estou dizendo todas essas coisas, você ainda reluta em se dar por vencida. Ainda acha que não fez nada de errado, e é aí onde reside o seu problema. – ele faz uma pausa pra respirar e desvia o olhar do meu rosto. – Não acho que você deva sair novamente até estar devidamente pronta pra isso. Enquanto isso, apenas Fred e eu faremos as rondas e as buscas por suprimento – ele suspira – Espero que você compreenda e não tente fazer caso. Não é uma negociação – ele para e hesita durante alguns segundos, como se ponderasse entre acrescentar algo ou não. Opta por não o fazer e se levanta da poltrona logo em seguida. – Depois passo aqui para tirar isso de você e tomar os cuidados necessários. Enquanto isso, é bom que descanse. Os próximos dias serão bem puxados pra você – e com isso ele vai embora, deixando-me confusa, magoada, consternada e incrivelmente sozinha.
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